sexta-feira, 10 de novembro de 2017

73 ANOS DE TORQUATO NETO - 09 de novembro de 1944 nascia Torquato - EDU LOBO PRA DIZER ADEUS



*música Pra dizer adeus - de Torquato Neto e Edu Lobo



https://www.youtube.com/watch?v=jHTAHkEj34U

Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, 9 de novembro de 1944 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972) foi um poeta brasileiro, jornalista, letrista de música popular, experimentador ligado à contracultura.

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Torquato Neto era o único filho do defensor público Heli da Rocha Nunes (1918 - 2010) e da professora primária Maria Salomé da Cunha Araújo (1918 - 1993).[1] De Teresina, mudou-se para Salvador aos 16 anos para os estudos secundários, onde foi contemporâneo de Gilberto Gil no Colégio Nossa Senhora da Vitória (Marista) e trabalhou como assistente no filme Barravento, de Glauber Rocha.[2]

Torquato envolveu-se ativamente na cena soteropolitana, onde conheceu, além de Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo na universidade, mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora.
Torquato atuava como um agente cultural e polemista defensor das manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o cinema marginal e a poesia concreta, circulando no meio cultural efervescente da época, ao lado de amigos como os poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, o cineasta Ivan Cardoso e o artista plástico Hélio Oiticica.
"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar." [3]
Nesta época, Torquato passou a ser visto como um dos participantes do Tropicalismo, tendo escrito o breviário Tropicalismo para principiantes, no qual defendeu a necessidade de criar um "pop" genuinamente brasileiro:
"Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido".[3]
Torquato também foi um importante letrista de canções icônicas do movimento tropicalista.
No final da década de 1960, com o AI-5 e o exílio dos amigos e parceiros Gil e Caetano, viajou pela Europa e Estados Unidos com a mulher, Ana Maria Silva de Araújo Duarte, e morou em Londres por um breve período. De volta ao Brasil, no início dos anos 1970, Torquato começou a se isolar, sentindo-se alienado pelo Regime militar. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo e rompeu diversas amizades. Em julho de 1971, escreveu a Hélio Oiticica:
"O chato, Hélio, aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. Todo o mundo virou uma espécie de Capinam (esse é o único de quem eu não gosto mesmo: é muito burro e mesquinho), e o que eu chamo de conformismo geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo, vanguardismo de Capinam que é o geral, enfim, poesia sem poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo parado, odeio." [3]
Torquato se matou um dia depois de seu 28º aniversário, em 1972. Depois de voltar de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás e isso levou muita gente pensar que Torquato foi morto pelo regime militar. Sua mulher dormia em outro aposento da casa. O escritor foi encontrado na manhã seguinte pela empregada da família (Maria das Graças, que mais tarde adotou o nome de Gal, sugerido pela própria Gal Costa, sua homônima [frequentadora assídua da casa de Torquato]).
A nota de suicídio de Torquato dizia:
"FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver, e, enquanto me contorcia de dores, o cacho de banana caía. De modo Q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias, e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar". [4]
Thiago era o filho de dois anos de idade.
Foi pensando na morte do amigo que Caetano Veloso escreveu a canção "Cajuína", incluída no disco Cinema Transcendental. Os versos da canção relatam o encontro de Caetano com o pai de Torquato, em Teresina, algum tempo depois da morte do poeta.[5]
Na década de 1980, a partir de 1984, as gerações mais recentes puderam apreciar o talento poético de Torquato através do seu poema, "Go Back" (1971), que, naquele ano, recebeu a primeira gravação musical do grupo Titãs, com música feita pelo tecladista e um dos cantores do grupo, Sérgio Britto. A popularidade da canção seria consagrada em 1988, quando os Titãs deram um arranjo ainda mais vigoroso à música. "Go back" é a faixa-título de um disco gravado em Montreux, na Suíça.
Na madrugada do dia 27 de setembro de 2010, seu pai, o defensor público Dr. Heli Rocha Nunes, morreu aos 92 anos de idade, em Teresina, após uma parada cardíaca. A família aguardou a chegada do único filho do poeta piauiense, Thiago de Araújo Nunes (piloto de aeronave em uma companhia aérea brasileira), para realizar o sepultamento do avô.

Composições[editar | editar código-fonte]

  • A coisa mais linda que existe (com Gilberto Gil)
  • A rua (com Gilberto Gil)
  • Ai de mim, Copacabana (com Caetano Veloso)
  • Andarandei (com Renato Piau)
  • Cantiga (com Gilberto Gil)
  • Capitão Lampião (com Caetano Veloso)
  • Começar pelo recomeço (com Luiz Melodia)
  • Daqui pra lá, de lá pra cá
  • Dente por dente (com Jards Macalé)
  • Destino (com Jards Macalé)
  • Deus vos salve a casa santa (com Caetano Veloso)
  • Domingou (com Gilberto Gil)
  • Fique sabendo (com João Bosco e Chico Enói)
  • Geleia geral (com Gilberto Gil)
  • Go back (com Sérgio Britto)
  • Juliana (com Caetano Veloso)
  • Let's play that (com Jards Macalé)
  • Lost in the paradise (com Caetano Veloso)
  • Louvação (com Gilberto Gil)
  • Lua nova (com Edu Lobo)
  • Mamãe coragem (com Caetano Veloso)
  • Marginália II (com Gilberto Gil)
  • Meu choro pra você (com Gilberto Gil)
  • Minha Senhora (com Gilberto Gil)
  • Nenhuma dor (com Caetano Veloso)
  • O bem, o mal (com Sérgio Britto)
  • O homem que deve morrer (com Nonato Buzar)
  • O nome do mistério (com Geraldo Azevedo)
  • Pra dizer adeus (com Edu Lobo)
  • Quase adeus (com Nonato Buzar e Carlos Monteiro de Sousa)
  • Que película (com Nonato Buzar)
  • Que tal (com Luiz Melodia)
  • Rancho da boa-vinda (com Gilberto Gil)
  • Rancho da rosa encarnada (com Gilberto Gil e Geraldo Vandré)
  • Todo dia é dia D (com Carlos Pinto)
  • Três da madrugada (com Carlos Pinto)
  • Tudo muito azul (com Roberto Menescal)
  • Um dia desses eu me caso com você (com Paulo Diniz)
  • Veleiro (com Edu Lobo)
  • Vem menina (com Gilberto Gil)
  • Venho de longe (com Gilberto Gil)
  • Vento de maio (com Gilberto Gil)
  • Zabelê (com Gilberto Gil)

Discografia[editar | editar código-fonte]

  • Tropicalia ou Panis et Circencis (1968) - Philips LP
  • Os últimos dias de Paupéria (1973) - Eldorado Editora Compacto simples
  • Torquato Neto - Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia (1985) - RioArte/Prefeitura do Rio de Janeiro e Governo do Estado do Piauí LP
  • Todo dia é dia D (2002) - Dubas Música CD

Filmografia[editar | editar código-fonte]

Como ator
  • Nosferatu, de Ivan Cardoso. Como protagonista, "Vampiro" (1970).
  • Terror da Vermelha, de Torquato Neto (1971/1972).
  • Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, Teresina, 1972), de Edmar Oliveira e Carlos Galvão.[6]
Como diretor
  • Terror da Vermelha, (1972).
Sobre Torquato Neto

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Toninho Vaz. Pra mim chega - A biografia de Torquato Neto. São Paulo: Casa Amarela, 2003
  • Kenard Kruel. Torquato Neto ou a Carne Seca é servida. Teresina: Editora Zodíaco, 2a. edição, 2008 [7]
  • Paulo Henriques Brito. Torquato Neto. Centro de Cultura Alternativa/ Rio Arte / Projeto Torquato Neto/ Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, 1985.
  • Torquato Neto. Os Últimos Dias de Paupéria (org.: Ana Maria Silva Duarte e Waly Salomão). Rio de Janeiro: Max Limonad, 1984.
  • Torquato Neto. Torquatália - do Lado de Dentro: Obra Reunida de Torquato Neto (vol. 1) (org. : Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005.
Torquato Neto. Torquatália - Geléia Geral: Obra Reunida de Torquato Neto (vol. 2) (org. : Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2005.

Referências

  1. Ir para cima↑ Torquato Pereira de Araújo Neto
  2. Ir para cima↑ Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. "Torquato Neto."
  3. ↑ Ir para:a b c Talismã do tropicalismo. Um dos idealizadores do movimento, o poeta, letrista e crítico Torquato Neto tem sua obra completa editada nos dois volumes de Torquatália. Por João Marcos Coelho. Época, 20 de fevereiro de 2009.
  4. Ir para cima↑ Paulo Andrade. Torquato Neto: uma poética de estilhaços. São Paulo: Annablume/ Fapesp, 2002 , p. 189.
  5. Ir para cima↑ Vídeo. Caetano Veloso conta a história da música ‘Cajuína’
  6. Ir para cima↑ Casa da Cultura recebe exposição sobre Torquato Neto. Fotografias mostram a história do filme Adão e Eva do Paraíso ao Consumo. 4 de setembro de 2014.
  7. Ir para cima↑ Há exatas quatro décadas, morria poeta Torquato Neto. Artífice da tropicália se suicidou inalando gás em seu apartamento, no Rio. Pesquisador piauiense Kenard Kruel lança edição ampliada e revisada de sua obra sobre escritor e agitador. Por Cláudio Portella. Folha de S. Paulo , 10 de novembro de 2012.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]



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