*"(...)O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte
no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com
uma subordinação inconsciente e feliz.(...)" Fernando Pessoa
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ser bairrista, suburbano, proletário, subdesenvolvido, provinciano...colonizado, fazer blogs "inspirados" em modelos norte americanos ou europeus, desses blogs comerciais, probloggers, que falam de moda, de decoração...lifestyle!! rsrsrs...ou por exemplo, um programa talk show pasteurizado numa grande rede de tv...nossa, como nós colonizados provincianos somos estranhos!...
o meu provincianismo é...!?... se eu não fosse provinciana nem estaria aqui escrevendo e postando isto, afinal, pra que estou aqui?... que dureza...quem sabe um dia ele termine... e o blog, idem.
Nadia Gal Stabile - 23 10 2015
O Provincianismo Português (I)
Fernando Pessoa
Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a
realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o
mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo.
O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam
muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte
no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com
uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano
compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e
admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e
admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental
superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a
admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de
Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a
si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de
que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é
europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da
educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V.
tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande
cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam
todas dentro de si".
O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo
característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a
moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de
maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que
admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações
do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a
de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique,
com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não
viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização
transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a
existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e
uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia,
mais certo que o ser a "Divina Comédia" superior à "Eneida". O
provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez;
e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria
provinciano.
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do
provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como
se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o
contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o
segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém
esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer
aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu,
durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um
breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os
irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o
problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de
menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas
assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia
concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta
seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma
proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da
expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses
chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de
dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de
consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a
essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras
palavras, o não se ser provinciano.
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É
o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se
preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas
tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também
pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a
falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre
Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais,
quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por
inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco.
Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com
Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora
brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O
provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados
quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas
qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência
da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe
que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse
Novalis, quando sonhamos que sonhamos.
Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'
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http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/ser-provinciano-e/
Ser provinciano é…
Ou: qual a semelhança entre Danuza Leão e a vereadora Lucinha?
Francisco Bosco
Um dos motivos que fizeram o então candidato Fernando Gabeira perder
as últimas eleições para prefeito do Rio de Janeiro foi sua declaração
infeliz sobre a vereadora Lucinha, que, segundo Gabeira, teria uma
“visão suburbana” a respeito da instalação de um lixão na Zona Oeste da
cidade. A infelicidade da declaração consiste em ter ela propiciado um
aproveitamento político por parte do adversário, que por seu intermédio
transformou Gabeira em “candidato da elite”, preconceituoso, “contra o
subúrbio” etc. Mas, bem compreendida – e sem entrar no mérito de sua
adequação à realidade, que não tenho como julgar, por desconhecer as
posições políticas da vereadora em questão -, a declaração de Gabeira
não carrega qualquer preconceito. Ele empregou a expressão “visão
suburbana” no sentido de “visão provinciana”, isto é, uma visão
limitada, demasiadamente local e contingencial de um problema. Nesse
sentido, não se tratava de um preconceito contra determinada origem
sócio-geográfica, mas sim de um juízo político contra uma vista com
antolhos. Teria sido melhor, portanto, empregar a palavra “provinciana”,
que já traz imediatamente em seu sentido corriqueiro esse deslocamento
do geográfico para o existencial: ser provinciano não é um problema de
origem, é uma forma de ver o mundo. Que forma?
No final do ano passado, Danuza Leão concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo, por ocasião do lançamento de seu livro Fazendo as malas,
uma espécie de relato de viagens contendo reflexões sobre temas como
moda, elegância, consumo, dinheiro etc. A certa altura da entrevista,
ela comenta, em tom de superioridade, que em qualquer lugar do mundo
pede-se um copo de vinho ou champanha – “un verre de vin”, “a glass of wine”.
“Só no Brasil existe o hábito de pedir uma taça de vinho, ou uma
tacinha, pior ainda”. É curioso que um livro que se pretenda tão
cosmopolita contenha uma visão tão provinciana. Devemos começar nos
perguntando: por que pedir uma taça de vinho seria pior que pedir um
copo de vinho? Afinal, costuma-se beber vinhos em taças, não em copos.
Na língua portuguesa, a diferença é clara: taças têm haste e base,
possuem uma forma mais delicada; copos são geralmente cilíndricos,
desprovidos de haste ou asas, têm uma forma mais simples. Na língua
inglesa, entretanto, não existe um correspondente perfeito para taça. “Glass”
significa também, e principalmente, copo. Se se procura pelo verbete
“taça” num dicionário português-inglês, a primeira palavra que aparece é
“cup”. Mas “cup” significa antes xícara, como atestam as expressões “cup of tea” e “cup of coffee”. Em seguida registra-se “goblet”,
que designa, com efeito, um recipiente para beber com haste e base, sem
asas, mas se trata de uma palavra inusual, e que parece remeter a
formas arcaicas da taça (em outros materiais que não o vidro ou o
cristal). No francês existe, é verdade, a palavra “coupe”, mas
que, salvo engano, costuma designar antes a taça, de boca mais aberta, e
não abaulada, em que se bebe, por exemplo, o drinque marguerita. Assim,
a falta de uma palavra coloquial para designar especificamente o objeto
taça, em sua forma específica de taça para vinho, que não é a mesma que
de taça para champanhe [flûte, em francês], por exemplo, seria a provável razão para os falantes de língua inglesa e francesa empregarem as palavras “verre” e “glass”, que são menos precisas.
Ponto de vista do colonizado
Não se trata de convocar aqui um grande conhecimento das línguas
inglesa e francesa, portanto o que digo acima pode conter alguma
imprecisão, mas esse não é o ponto principal. Seja como for, o fato é
que, ao pedir uma “taça de vinho”, e não um “copo de vinho”, nós,
brasileiros, estamos sendo apenas literais, chamando as coisas pelo nome
que lhes foi dado em nossa língua. Menosprezar esse comportamento é
assumir o ponto de vista do colonizado, que é um outro nome para
provinciano. Pois, uma vez que chamamos um objeto pelo seu nome correto
em nossa língua, por que isso seria pior do que o modo como falantes de
língua inglesa e francesa o fazem, a não ser pelo simples fato de eles
serem americanos, ingleses, franceses etc, e nós, brasileiros? Esse é o
princípio do pensamento colonizado: o que fazemos aqui é pior do que o
que os “colonizadores” fazem lá pelo simples fato de que o fazemos aqui.
E isso é um modo provinciano de pensar porque incorre num localismo às
avessas (mas ainda um localismo): a perspectiva adotada é a do suposto
centro, de onde emana todo o comportamento correto. Ao passo que o
cosmopolitismo seria antes da ordem de uma relativização e de um
descentramento. E, pior ainda (agora sou eu quem diz), ao falar em tom
superior e blasé da forma diminutiva “tacinha”, o que se está a
menosprezar é toda uma inflexão linguística de dimensão sócio-cultural,
ou seja, nossa conhecida propensão às formas afetivas da língua. Aqui
não é apenas um caso concreto que é ridicularizado, mas um traço
cultural importante e definidor. “Tacinha” é desprezível, no limite,
porque o Brasil é desprezível. Quem precisa dessas dicas de elegância?
De modo simetricamente inverso, um poeta e ensaísta, em livro recente
(não vou dizer o nome de um e de outro apenas porque não quero lhes dar
excessiva importância), faz o elogio da província pela província. Esse
tipo curioso de petição de princípio, sócio-geográfico-cultural,
obviamente incorre numa segunda petição de princípio que é como que sua
consequência (i)lógica: o menosprezo do “centro” pelo “centro”. Assim, o
ensaísta em questão, defendendo uma experiência poética do espaço
urbano, afirma que “só é possível ter uma compreensão real da vida das
casas se fugirmos às zonas centrais, onde tudo já foi por demais pensado
e sentido. (…) Tudo que se possa viver nesses lugares, por exemplo,
Ipanema, no Rio de Janeiro, será sempre a partir de imagens repetidas e
caducas”. Portanto, “é preciso pensar o céu dos
lugares deslocados de qualquer privilégio de centralidade, dos lugares
‘caóticos’ e mal-iluminados”. Esses lugares, o ensaísta os chama de
“bairros autênticos”, que seriam, é claro, “os da Zona Norte, Centro, e
alguns, raríssimos da Zona Sul [do Rio de Janeiro]”. Assim, a Zona Sul
(“centro”, para o ensaísta) é um lugar de “bairros-estereótipos”, e isso
impediria uma experiência autêntica em seus domínios. Mas isso não é o
mesmo que dizer que não se pode ter uma experiência autêntica no Museu
do Vaticano, no Louvre ou na Tate Gallery, ou mesmo em Roma, Paris ou
Londres? E, inversamente, que basta estar em qualquer subúrbio de
qualquer cidade do mundo para se ter tal experiência? Ora, o que determina um estereótipo é antes o olhar do que o objeto.
Uma pessoa pobre de espírito pode ler Stendhal e não ter nenhuma
experiência; uma pessoa com grandeza de espírito pode olhar de modo novo
para um objeto pisado e repisado. Mas isso que, diante desse argumento,
aparece como um mero equívoco de perspectiva, no caso efetivo que
estamos analisando se revela, no meu entender, um problema
sócio-existencial: o privilégio do subúrbio pela sua condição de
suburbaneidade, o menosprezo ao “centro” pela sua condição de
centralidade. É uma espécie de provincianismo esclarecido. Creio que
isso não chega a formar critérios éticos – políticos, estéticos,
poéticos – que possamos afirmar como dignos de orientar nossas ações no
mundo.