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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

LULA SE COMPARA À IGREJA UNIVERSAL: DIZ QUE AMBOS SÃO VÍTIMAS DE PRECONCEITOS


Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quem continua esquerdista ao se tornar sexagenário tem um parafuso solto na cabeça.

Foi só uma frase infeliz? Não. Tratou-se, à sua maneira rústica, de uma declaração de princípios.

Pois, semana após semana, dia após dia, ele vai renegando todos os valores que dizia professar, e em nome dos quais os abnegados voluntários do Partido dos Trabalhadores fizeram campanha por ele, nas eleições perdidas para presidente da República (1989, 1994 e 1998) e governador (1982), bem como na que ganhou para a Câmara Federal (1996).

Em 2002 entendeu-se com o grande capital, para que lhe fosse permitido conquistar o ambicionado troféu que três vezes lhe escapara.

Este compromisso, ao contrário dos que firmou com os idealistas, ele cumpriu integralmente: os bancos registraram, ao longo de seus quase sete anos de governo, lucros estratosféricos. Estão entre os mais rentáveis do planeta.

Antes da última crise global do capitalismo, festejavam a cada mês novas quebras dos seus recordes de faturamento.

Durante a crise, receberam verdadeiras doações do Governo Federal, para que não estrangulassem o crédito aos que trabalham e produzem.

Em vão: usaram os recursos para precaverem-se contra as inadimplências, tratando apenas da salvação de si próprios.

Não por causa deles, o País se salvou. E os bancos continuam rapinantes, recebendo brandas admoestações de Lula pelos juros escorchantes dos cheques especiais e outros produtos.

Ao lado do puxão de orelhas de pai para filho, vem o conselho ao cidadão comum: administre melhor seus gastos!

Já tratou os retrógrados usineiros como "heróis" do nosso sofrido país.

Já colocou os interesses do agronegócio acima da própria vida do bispo Luiz Flávio Cappio.

Já renegou o uso do termo "burguesia" para qualificar os que antes ele designava como vis "exploradores".

Já fez as alianças políticas mais esdrúxulas, com desmoralizadíssimos partidos fisiológicos.

Já proibiu seus ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi de encaminharem, no âmbito do Executivo, a revogação da anistia autoconcedida pela ditadura a seus esbirros, obrigando-os a deslocar essa luta para a esfera do Judiciário.

Já salvou a cabeça de um dos símbolos do coronelismo brasileiro, José Sarney, além de haver aceitado e agradecido o apoio de outro, Antonio Carlos Magalhães.

Já apareceu aos abraços com figuras execradas da política brasileira, inclusive Fernando Collor, que tornou público seu adultério, sua filha ilegítima e sua tentativa de convencer a amante a abortar.

Já deu contribuição destacada para que o Brasil continuasse o país da impunidade, no qual políticos e seus corruptores nunca têm punição à altura dos seus delitos.

E, last but not least, já colocou o Exército a serviço da campanha eleitoral de um figurão da Igreja Universal do Reino de Deus, daí resultando quatro mortes estúpidas, além do péssimo precedente de trazer de novo as Forças Armadas para cuidar de questões sociais (da última vez, levamos 21 anos para reconduzi-las aos quartéis!).

Agora, necessitando dos votos da Igreja Universal para eleger Dilma Rousseff, não se vexou de equiparar a IURD a si próprio, como "vítima de preconceito"!

Prestigiando a inauguração de dois estúdios da TV Record em Vargem Grande (RJ), lembrou que a atriz Cristina Pereira, pertencente ao cast da emissora, fez campanha por ele: "Cristina saía para bater bumbo com um metalúrgico, vítima de preconceito, como a Record é vítima de preconceito".

Adiante, voltou a bater nessa tecla: "Acompanho os meios de comunicação no Brasil e sei o quanto a Record e o povo da Record foram vítimas de preconceito".

Só esqueceu um síngelo detalhe: ele próprio era vítima de preconceito por sua origem humilde, enquanto os outros são tidos e havidos como responsáveis por práticas financeiras ilícitas, lavagem de dinheiro (por meio da própria TV Record!), estelionato, curandeirismo e lavagem cerebral.

Constituíram bancadas, adquiriram influência política e têm conseguido sobreviver às muitas tentativas dos promotores de colocá-los atrás das grades.

Pior: arrancam até o último centavo de seres humanos fragilizados, que em seu desespero abrem mão dos bens materiais na esperança de obter retribuição divina.

E, como os nazistas faziam com os judeus, imantam seu rebanho unindo-o contra um inimigo comum, os cultos afrobrasileiros, alvos de uma perseguição religiosa que amiúde descamba para o vandalismo (outra reminiscência do nazismo e seus ferrabrazes).

Além dos dóceis eleitores da Igreja Universal, Lula também aprecia o tipo de jornalismo que a TV Record desenvolve, bem de acordo com sua noção de que o papel da imprensa é informar e não fiscalizar.

Assim, elogiou o investimento que a emissora está fazendo para a produção de novelas como uma "demonstração extraordinária de que acreditam no Brasil".

Acrescentou que a concorrência entre as emissoras de TV elevaria o nível do jornalismo e da cultura nacional, permitindo "que o povo brasileiro não seja vítima de alguns formadores de opinião que querem conduzi-la para formar um pensamento único".

Também aí esqueceu um singelo detalhe: a indústria cultural é mesmo altamente manipulatória, mas ainda se direciona a leitores e espectadores capazes de formar juízo próprio, enquanto a TV Record tem como objetivo último ampliar a legião de pobres coitados que atribuem qualquer evento adverso às maquinações do Capeta.

No auge das denúncias na imprensa, e mesmo quando apareceu na TV o registro chocante da divisão do butim, o rebanho fechou olhos e ouvidos à realidade escancarada, preferindo acreditar que era outra provação para testar sua fé.

E é isso que os poderosos sempre quiseram: transformar eleitores em zumbis. O que a IURD está aos poucos forjando é uma versão modernizada (e ainda mais nociva) dos currais eleitorais nordestinos, que Lula conhece tão bem.

O último dos singelos detalhes esquecidos é o de que essa máquina político-religiosa trabalha sempre ao lado dos que estão no poder... e ele, Lula, não durará para sempre.

Então, o seu legado poderá ser o de ter montado a engrenagem perfeita para evitar que, no futuro, algum sindicalista atrevido abra caminho na política, driblando todos os preconceitos, até chegar à Presidência da República.

sábado, 24 de outubro de 2009

OS HOMENS UNIDIMENSIONAIS DITOS DE ESQUERDA

(reflexões inspiradas pela reação de leitores do site Vi o Mundo a meu artigo De Lula-lá a Pilatos)

Quando, na década de 1960, Marcuse comunicou o advento do homem unidimensional, deu-nos a impressão de estar apenas exagerando certas tendências dos países desenvolvidos.

Seu retrato impiedoso de um indivíduo em que foi anulada a capacidade crítica e cujas aparentemente livre escolhas são moldadas por forças exteriores parecia-nos apenas outra distopia, na linha do 1984 de George Orwell.

Aí, a partir de 1970, passamos a conviver com aqueles pré-yuppies ensandecidos, a vociferarem “Brasil, ame-o ou deixe-o!”, impermeáveis a qualquer crítica que se fizesse à ditadura militar. Só viam o que queriam ver: a conta bancária no azul, os ganhos na Bovespa, o carango na garagem. Direitos humanos? Ora, isso não enche a barriga de ninguém...

Nós nos consolávamos com o pensamento de que a censura férrea vedava aos cidadãos o conhecimento das mazelas do regime dos generais. Não queríamos acreditar que os eufóricos com o milagre brasileiro eram nossos primeiros homens unidimensionais, avestruzes que enterram a cabeça na areia quando confrontadas com realidades que desmentem suas ilusões.

Pior ainda aconteceria quando os vigaristas neopentecostais começaram a ser desmascarados pela imprensa. As provas de estelionato, curandeirismo, lavagem cerebral e outros crimes se multiplicavam, saltavam aos olhos, até formarem um quadro devastador.

Qualquer ser realmente pensante só poderia concluir que a Igreja Universal do Reino de Deus nada mais era (e é) do que uma arapuca para depenar otários. No entanto, o rebanho de fanáticos fechou os ouvidos, cobriu os olhos e tampou a boca, mantendo-se numa redoma mental até o assunto sair do noticiário. Para eles, tudo não passava de maquinações do Capeta.

O inimaginável seria o fenômeno se reproduzir na esquerda. Mesmo nos piores momentos do século passado, como quando do pacto de Stalin com Hitler, os comunistas se mantiveram disciplinados, mas tinham um mundo de dúvidas na cabeça. Calavam sua insatisfação por acreditarem que a salvação da pátria-mãe do socialismo justificava quaisquer sacrifícios.

Hoje, entretanto, o pesadelo se materializou. Passaram a existir pessoas que acreditam sinceramente ser de esquerda, e com igual sinceridade crêem que se pode possa ser de esquerda caluniando, difamando e injuriando quem quer que contrarie sua posição, mesmo que a partir de outros valores pertencentes ao campo da esquerda.

Na década de 1960, sepáravamos bem uns e outros: aos defensores do capitalismo e do totalitarismo, combatíamos como inimigos, implacavelmente; aos companheiros de outras tendências de esquerda, combatíamos como adversários, respeitando-os e buscando convencê-los, ao invés de tentar esmagá-los sob os rolos compressores do sectarismo.

Tínhamos claro que jamais deveríamos reincidir nas infamias do stalinismo (aquela caricatura grotesca do socialismo!), quando revolucionários exemplares, após uma vida inteira dedicada à causa do proletariado, eram levados a tribunais inquisitoriais sob acusações tão estapafúrdias quanto as de espionagem pró-EUA (ou pró-Alemanha, ou pró-Inglaterra, conforme o vilão do momento) ou complô para envenenar os reservatórios de água...

Parece que a internet adubou as patrulhas ideológicas, o monolitismo do quem-não-é-por-mim-é-contra-mim, o primarismo, a demagogia, a falsificação, a grosseria...

Mas, enquanto tiver vida e forças, continuarei fiel aos valores que norteiam minha atuação: os ideais revolucionários, a defesa dos direitos humanos e o exercício do pensamento crítico.

Como disse Dolores Ibárruri, no desafio que lançou a outra horda, "no pasarán!".

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NOVO BLOGUE ALERTA CONTRA O RISCO DE UMA "DITASSANTA"

É com grande satisfação que registro o lançamento do blogue Hedonista Politizado, criado por All, um dos mais consistentes debatedores do Orkut, dono da comunidade Ditadura Militar.

Como ele tem motivos para manter certo sigilo, direi apenas que está com 30 anos e exerce atividades legais no RJ (é o que consta do seu perfil público).

Num de seus primeiros artigos, All toca fundo na ferida chamada Igreja Universal do Reino de Deus.

Foi este, aliás, o tema do TCC da minha esposa... estarrecedor! Acompanhando suas pesquisas, fiquei conhecendo uma verdadeira engrenagem para anular a vontade de cidadãos fragilizados, obrigando-os a fazer doações insensatas a exploradores da fé.

É inacreditável que essa máfia continue prosperando ao arrepio da lei, pois comete flagrantemente os crime de estelionato, curandeirismo e lavagem cerebral.

Também fiquei revoltado com episódios de depredação de terreiros de umbanda, até porque me lembraram vivamente as práticas dos nazistas alemães e de seus herdeiros brasileiros, os psicopatas do CCC.

E estupefato ao tomar conhecimento de que o Governo Federal colocara o Exército para policiar o Morro da Providência (RJ), utilizando os militares brasileiros como capitães-do-mato a serviço das ambições eleitorais do senador Marcelo Crivella, sobrinho do papa Edir Macedo. O que começou mal terminou pior, com o estúpido assassinato de quatro jovens.

Então, aplaudo e recomendo com entusiasmo o artigo-denúncia Depois da "ditabranda", a "ditassanta", do All, cujos principais trechos reproduzo em seguida:
"...o país novamente corre sério perigo de ser vilipendiado por mentes tão liberticidas quanto os líderes do golpe de 64, só que ainda mais cruéis: as grandes organizações evangélicas (...) posto que, pela quantidade de dinheiro e de poder político que as mesmas ostentam, não podemos ter a visão de que essas verdadeiras 'sociedades empresariais' tenham a essência de meros templos de oração.

"Se tomarmos a Igreja Universal do Reino de Deus como exemplo, veremos (...) que (...) a trupe de Bispo Macedo et caterva 'arrebanhou', nos últimos 8 anos, segundo investigações criminais perpetradas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, cerca de 8 bilhões de reais. Sem contar as empresas de lavagem de dinheiro abertas no Brasil e no exterior e a verdadeira 'lavanderia-mor' em que se transformou a Rede Record de Televisão.

"Mas nenhum desses golpes é mais sério do que aquele em que a IURD e suas 'coirmãs' estão engendrando contra o Estado Democrático de Direito. Como se não bastasse 'passar a sacolinha' para recolher o dinheiro de pobres diabos que têm medo de raciocinar por si só, os 'eleitos de Deus' resolveram criar até partido político, além de se alastrarem (...) por diversos partidos de aluguel. Só na chamada Frente Parlamentar Evangélica, criada em 2003 para, segundo os seus criadores, 'legislar em prol da palavra de Deus', há cerca de 47 deputados e 3 senadores.

"Os efeitos dessa 'evangelização política' já são visíveis: a lei 'anti-homofobia', que criminaliza atos de discriminação contra gays, bissexuais e transexuais, está se arrastando pelo Congresso há quase 10 anos. Além disso, há leis estaduais que recriam a (...) obrigação de se oferecer ensino religioso nas escolas (numa clara ofensa ao princípio da liberdade de crença, que consagra, inclusive, o direito de não professar fé alguma). Isso sem contar com projetos que querem criminalizar práticas religiosas afro-brasileiras.

"...Será que, depois de termos vivido os horrores de uma 'ditaburra', teremos que aguentar uma 'ditassanta'? Por Deus, não pode ser! Temos que encontrar um meio de denunciar toda essa canalhice (...), antes que o apocalipse político se instaure, lançando por terra liberdades e garantias constitucionais assinadas na Constituição com o sangue de muitos que lutaram contra o regime de exceção. (...) Que os ceús nos defendam da 'ditassanta'."
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