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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

GRANDE DOUTOR: LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA!


No palanque das diretas, anunciado por Osmar Santos
Ótima notícia é a alta de Socrates Brasileiro.

Parafraseando a inesquecível frase com que George Foreman esquivou-se de comparar os geniais Muhammad Ali e Joe Louis ("Não sei dizer se Ali foi o maior peso-pesado de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão que já lutou boxe"), eu diria que o doutor foi o melhor cidadão que já se tornou grande futebolista.

Antes dele, os craques eram quase todos vaquinhas de presépio dos cartolas -- vis parasitas que vicejam à sombra das chuteiras imortais, para, da arte dos boleiros, extraírem grana, prestígio e poder.

Mesmo os que tinham espírito mais crítico e independente, evitavam dizer o que realmente pensavam da engrenagem mafiosa do futebol. Afonsinho, rara exceção, não teve a carreira que seu talento prefigurava, exatamente por haver ousado trombetear a nudez do rei.

O que Sócrates conseguiu foi impressionante: não só venceu como jogador (apesar do submundo do futebol e a venal imprensa caudatária terem insistentemente tentado desmoralizá-lo), como conseguiu unir o elenco do Corinthians em torno de suas idéias e impô-las aos dirigentes do clube.

Parabéns pelo novo gol, doutor!
Lembrem-se: ainda estávamos sob ditadura. A  democracia corinthiana  (o direito de os atletas participarem da tomada de decisões que os afetavam, como a necessidade ou não de concentração antes dos jogos) servia como modelo e cartão de visitas da democracia  em si. Havia um conteúdo político maior, subjacente à afirmação da dignidade profissional dos jogadores.

E, exatamente como Muhammad Ali, teve Sócrates a grandeza de dispor-se a um grande sacrifício pessoal em nome de suas convicções.

Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a servir como relações públicas para a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

Da mesma forma, Sócrates abriria mão de muita grana italiana se tivesse a oportunidade de contribuir para a reconstrução democrática do Brasil. Foi o que jurou num ato público da campanha das diretas-já, no Vale do Anhangabaú (SP): comprometeu-se solenemente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a estratostérica proposta da Fiorentina.

Tenha vida longa, doutor. Ainda precisamos de você... e muito!
 

sábado, 10 de abril de 2010

SÓCRATES: BOM DE BOLA, DE BISTURI E DE TECLADO

Certa vez perguntaram a George Foreman se Muhammad Ali tinha sido mesmo o maior boxeador de todos os tempos.

Big George
deu uma resposta antológica: "Ele foi, certamente, o melhor cidadão que já lutou boxe".

Pois é muito difícil, dada a diferença de estilos e épocas, fazer uma comparação rigorosa entre gigantes como Muhammad Ali e Joe Louis, p. ex.

Mas, não houve pugilista nenhum capaz de abrir mão de um título cobiçadíssimo e de muitos milhões de dólares em razão de suas convicções. E foi isto que Muhammad Ali fez, ao recusar-se a servir como relações-públicas de uma guerra injusta.

Ao convocarem-no para servir no Vietnã, os militares jamais cogitaram a hipótese de expô-lo ao fogo inimigo. A morte de um ídolo do esporte teria efeito moral catastrófico.

Fizeram chegar ao seu conhecimento que precisavam dele apenas para ações de propaganda -- como as do comediante Bob Hope, que deu espetáculos para animar as tropas estadunidenses na II Guerra Mundial e também nas da Coréia, Vietnã e Golfo.

Ali não aceitou o papel infame de incentivar homens a morrerem por vagos objetivos geopolíticos dos dirigentes de seu país. Disse que os guerrilheiros vietnamitas jamais o haviam tratado com desprezo por ser negro ("No vietcong ever called me nigger").

O doutor Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é da mesmíssima estirpe.

Sabe-se lá se foi melhor futebolista do que Cruyff, Platini, Zico, Falcão e outros gênios de sua geração. E, claro, não chegou ao patamar de um Puskas, de um Pelé, de um Garrincha, de um Maradona.

Mas, não há dúvida de que foi o melhor cidadão que já jogou futebol.

Era a alma da democracia corinthiana, uma iniciativa sem precedentes num esporte dominado, de forma canhestra e autoritária, pelos vis cartolas.

No Corinthians, o grupo de jogadores tinha opinião e peso preponderantes.

Decidiu, p. ex., que as concentrações antes dos jogos eram desnecessárias; ao mesmo tempo, os atletas zelavam para que nenhum deles desmerecesse o voto de confiança recebido, excedendo-se em suas noitadas.

E Sócrates também admitiu dispensar uma fortuna em nome de seus ideais, ao comprometer-se solenemente, com um milhão de manifestantes pelas diretas-já no Anhangabaú (SP), a recusar a oferta estratosférica da Fiorentina se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada.

Preferia dar sua contribuição pessoal à redemocratização do Brasil do que jogar a peso de ouro na Itália.

[Mas, os parlamentares brasileiros, em sua maioria, não mostraram idêntico desprendimento. Preferiram negar a democracia ao povo e, depois, receberem as recompensas de praxe, quando elegeram Tancredo Neves pela via indireta.]

Para completar, Sócrates é também o cidadão mais intelectualizado e articulado que já jogou futebol.

É o que se constata, p. ex., nesta sua belíssima coluna para a CartaCapital: O craque e Barcelona.

Nem mesmo os jornalistas do metiê (com exceção do recem-falecido e já saudoso Armando Nogueira) seriam capazes de relacionar com tamanha perfeição os fatores sociais, políticos, culturais, urbanísticos e esportivos que fazem de Barcelona a cidade ideal para propiciar a afirmação de futebolistas estrangeiros, catapultando vários deles a melhores do mundo na temporada.

Como articulista e cronista, tiro o chapéu para Sócrates: a ele confiro, com prazer, o tratamento de colega.

Eis os trechos mais marcantes de O craque e Barcelona:
"...melhor jogador do planeta. O ainda garoto Lionel Messi está fazendo uma temporada de 'sonho'... Algo que já ocorreu mais de uma vez desde que esse título foi instituído. Não à toa. O catalão é um povo sofrido que até hoje busca a plena independência. Barcelona, sua capital, é motivo de orgulho. Estando na costa do Mediterrâneo, soube crescer de forma ordenada a partir de um plano piloto concebido em meados do século XIX, cujo objetivo era aproximar as aldeias ao redor a partir da derrubada das barreiras medievais que ali existiam. Imaginação, criatividade, talento e loucura são alguns dos adjetivos que poderiam muito bem definir aquele que é um símbolo da cidade, o arquiteto Antonio Gaudí...

"Por falar em imaginação e criatividade, aqui estão a alma e a essência do que deve ser o bom futebol. E estes são atributos que não faltam ao jovem Messi, que vem sendo nesta temporada a própria expressão do que chamamos 'beleza e alegria' desse esporte. São qualidades extremamente valorizadas pelo povo catalão, que não mede esforços para demonstrar o quanto se sente feliz em ter entre sua gente talentos como o do argentino. E sempre foi assim. Muitos dos últimos agraciados como melhores do mundo vestiam a malha do Barcelona quando da escolha. Inclusive Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. (...) E é essa energia contagiante do catalão que permite que gênios como esses citados possam exprimir totalmente a sua arte em uma região onde também nasceu ou cresceu a genialidade de Picasso, Joan Miró e muitos mais.

"...o dia nacional [da Catalunha] celebrado em 11 de setembro é para lembrar mais uma derrota e onde a festa e a dança (La Sardanha) são intimistas ao extremo, contrastando com a euforia e a felicidade de outros povos e culturas. Uma história de dor, perdas e frustrações que, em vez de transformar o catalão em derrotista e cabisbaixo, o tornou mais forte e altaneiro.

"No estádio, per supuesto, o que mais vemos é a exaltação à arte dos mais qualificados. É o assombro coletivo empurrando o talento ladeira abaixo na velocidade necessária para que ele desabroche em toda a sua plenitude, para delírio da massa sedenta por essa beleza que o futebol nos oferece quando livre das amarras impostas por mentes menos arrojadas e reacionárias. É o êxtase da liberdade e da criatividade. É o sorriso da ingenuidade de quem só quer acompanhar o desfilar da arte em sua mais profunda interpretação. São manifestações incontroláveis que denotam a total expressividade da emoção que toma conta de todos que entrelaçam as mãos em torno do clube do coração – que, mais que um time ou equipe, representa um povo e sua saga histórica.

"...[e, sobre o Barcelona não vender espaços na sua camisa, mas nela estampar o símbolo da Unicef] Um gigantesco exemplo de como é possível viver em um mundo essencialmente comercial, mantendo preservada a sensibilidade humana. Sensibilidade essa que transparece na fronte e nos pés habilidosos de jogadores como Messi..."

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ONTEM EU VI UM SUPER-HOMEM DE VERDADE

Esqueçam Nietzsche e seus delírios de superação dos homens por "alguma coisa superior a si mesmos". São fantasias nefastas, que desembocam diretamente no elitismo, além de ramificarem com aberrações totalitárias como o nazismo.

Esqueçam as igualmente nefastas fantasias dos quadrinhos, que colocaram os humanos sob a tutela de um protetor extraterrestre, como se fossem eternas crianças, incapazes de zelar por si próprios. Sabemos que tipo de tutela ofereciam os propagadores destas fantasias.

Os super-homens verdadeiramente existentes são apenas homens que, além de dotados de enorme talento, fazem-se maiores em função dos desafios que enfrentam.

O esporte é pródigo em colocar os indivíduos diante de tais desafios. E é aí que tenho encontrado super-homens.

Como Muhammad Ali, não só um dos maiores pugilistas de todos os tempos, mas também um homem com uma visão tão grandiosa de si mesmo que era capaz de submeter-se a sofrimentos e pressões terríveis para se colocar à altura do modelo que erigira.

Assim, teve a mandíbula quebrada no 2º assalto de uma luta nem sequer decisiva e, ao invés de ir logo para o hospital receber tratamento e sedativos, preferiu suportar a dor insana até o final, com sério risco de agravar a contusão.

Qualquer ser humano normal consideraria injustificável tamanho sacrifício apenas para perder por pontos ao invés de abandono. Mas não Ali.

MUHAMMAD ALI, CAMPEÃO TAMBÉM FORA DO RINGUE - Depois, houve a luta do século contra George Foreman, que ele não poderia vencer mas venceu, aliando estoicismo, coragem e estratégia impressionantes.

Após nocautear o adversário, Ali teve até um ligeiro desmaio, tal o castigo que suportara. Nunca a história de Davi e Golias foi tão fielmente reproduzida em nossos tempos.

E era capaz igualmente de agüentar pressões morais como a que a sociedade estadunidense, a mídia e o submundo do boxe lhe moveram, para que se resignasse a posar de soldadinho de chumbo na Guerra do Vietnã.

Em nenhum momento se pretendeu colocá-lo em combate. Queriam-no como propagandista do pseudo-patriotismo, a protagonizar ações de relações-públicas que levariam outros a morrerem por uma causa injusta, enquanto ele permaneceria bem longe do abatedouro.

Sua recusa implicou a perda do cinturão mundial; a interrupção da carreira no auge, quando era imbatível; e prejuízo financeiro de milhões de dólares. Não cedeu, ficando anos fora dos ringues.

Para termos um parâmetro de comparação, lembremos de quando o grande goleiro Rogério Ceni foi afastado da equipe por causa de um bate-boca público com o presidente do São Paulo. Tinha carradas de razão, contra o arrogante cartola.

Já era um ídolo, mas foi abandonado pela imprensa esportiva, sempre mancomunada com os poderosos; pela infiel torcida organizada, sempre teleguiada pelos poderosos; e pelos torcedores comuns, sempre ressentidos contra os que quebram a hierarquia à qual eles próprios se submetem como cordeirinhos em seu cotidiano.

Ceni resistiu no limite do possível, foi mais digno do que a grande maioria dos esportistas brasileiros nessas situações. Mas, depois de algumas semanas de ostracismo, sucumbiu, admitindo um erro que não cometera.

Já Ali, perdendo muito mais, manteve-se firme até que o deixassem voltar incondicionalmente.

O MENINO KASPAROV SE FEZ HOMEM NO TABULEIRO - Outro super-homem da vida real é Garry Kasparov que, quando jovem gênio do xadrez, venceu um duelo épico contra o campeão Anatoly Karpov, em 1984.

Tão ousado nos tabuleiros quanto na vida, Kasparov simpatizava com o sindicato Solidariedade na Polônia e lançava críticas veladas à nomenklatura da URSS (a nova classe engendrada pelo desvirtuamento stalinista da revolução de 1917), enquanto Karpov fazia o gênero de fiel vassalo do regime. Isto tornou o match entre ambos, também, uma exacerbada guerra política.

Perdendo por 5x1, à beira do abismo (a disputa acabaria quando um deles obtivesse a sexta vitória), Kasparov decidiu imitar o cauteloso adversário, trancando seu jogo, não correndo mais riscos e apostando no erro alheio.

Fácil de falar, dificílimo de fazer, ainda mais quando se trata de um jovem desafiante contra um campeão adulto, em meio a pressão extremada.

Mas, conseguiu. Houve uma sucessão interminável de empates (mais de 20 consecutivos, dos 40 que o match registrou), até que foi Karpov quem entrou em parafuso, sucumbindo ao estresse.

Perdeu duas seguidas e perderia quantas mais disputasse, se o presidente da Federação não suspendesse arbitrariamente o match, decretando-o empatado por “desumanidade das regras”.

Um enxadrista brasileiro definiu com muita propriedade a indiscutível vitória moral de Kasparov: “o menino se fez homem no tabuleiro”.

O ESTILISTA FEDERER APRENDEU A SER GUERREIRO - Neste domingo, o suíço Roger Federer ingressou na seleta galeria dos esportistas que transcendem o próprio esporte, personificando virtudes maiores de um ser humano.

Fenômeno do tênis, Federer é “ótimo” ou “muito bom” em cada um de seus fundamentos. Com isto, reinava soberano e sem competidores que verdadeiramente o ameaçassem, até que o espanhol Rafael Nadal alcançou o seu nível competitivo no ano passado.

Acostumado a vencer sem muito esforço, o estilístico Federer foi surpreendido pelo tênis-força de Nadal, que compensava sua inferioridade técnica com uma incrível determinação, disputando cada ponto como se sua vida dependesse disso.

Num primeiro momento Federer ficou desconcertado, perdendo a confiança essencial ao grande tenista.

Mas, de 2008 para 2009 conseguiu se reconstruir, acrescentando a tenacidade às virtudes que já possuía.

O sexto título de Wimbledon seria a coroação de sua volta por cima, colocando-o como o maior recordista dos quatro torneios mais importantes (o chamado Grande Slam) em todos os tempos e devolvendo-lhe a condição de nº 1 do ranking.

Mas, encontrou pela frente um adversário inspiradíssimo, que fez a melhor exibição de sua carreira e nada tinha a perder, já que entrava como azarão.

Federer conseguiu suportar a pressão do favoritismo e a ansiedade de quem disputava a partida mais importante de todas que já travara, a um passo da consagração absoluta.

E, depois de mais de quatro horas de maratona tenística, com o set decisivo terminando num inacreditável 16x14, provou que agora é campeão também de firmeza e autocontrole, as virtudes que lhe faltaram no ano passado.

Foi um momento grandioso como só o esporte nos tem conseguido proporcionar nestes melancólicos tempos presentes.

CELSO LUNGARETTI
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