domingo, 11 de dezembro de 2016
quinta-feira, 25 de março de 2010
O RENASCER DAS CINZAS E O HOMEM NOVO
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(Geraldo Vandré, "Bonita")
Nas barricadas parisienses, gritando slogans como “a imaginação no poder” e “é proibido proibir”, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.
A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).
O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo – reforma ou revolução? – os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.
Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.
Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial – intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders – perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.
O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, quem diria, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo, ajudando a salvar o capitalismo na França.
Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.
Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.
A idéia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.
Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.
A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).
Os artistas, antenas da raça, crêem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História; até nosso saudoso Raul Seixas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.
Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito: “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.
quinta-feira, 11 de março de 2010
CENTRO DE CULTURA SOCIAL - CONVIDA
I) 14/04, quarta-feira as 19h:
II) 05/05, quarta-feira as 19h:
III) 26/05, quarta-feira as 19h:
IV) 16/06, quarta-feira as 19h:
V) 26/06, sábado as 16h:
Noam Chomsky: sobre Anarquismo, Marxismo e a esperança no futuro
Noam Chomsky é bastante conhecido pela sua crítica à política de negócios estrangeiros dos EUA, e pelo seu trabalho como linguista. Menos conhecido é o seu apoio aos objectivos socialistas libertários. Numa entrevista especial dada à "Red And Black Revolution", Chomsky dá os seus pontos de vista sobre anarquismo e marxismo, e as suas expectativas para o socialismo no tempo presente. A entrevista foi dirigida em Maio de 1995 por Kevin Doyle.
RBR: Noam, há já muito tempo que você tem sido um defensor da ideia anarquista. Muitas pessoas estão familiarizadas com a introdução que escreveu em 1970 ao "Anarquismo" de Daniel Guerin, mas, mais recentemente, por exemplo no filme "Manufacturing Consent", você aproveitou a oportunidade para chamar de novo a atenção para o potencial do anarquismo e da ideia anarquista. O que é que o atrai no anarquismo?
Chomsky: Fui atraído pelo anarquismo desde a adolescência, logo que comecei a pensar sobre o mundo para além das coisas pequeninas, e desde então não tive muitas razões para corrigir essas atitudes iniciais. Penso que só faz sentido investigar e identificar estruturas de autoridade, hierarquia e domínio, em todos os aspectos da vida, para depois as desafiar; a menos que nos seja dada uma justificação, elas são ilegítimas e deveriam ser desmanteladas, para aumentar a extensão da liberdade humana. Isto inclui o poder político, a propriedade e a administração, as relações entre homens e mulheres, pais e filhos, o nosso controlo sobre o destino das gerações futuras (o imperativo moral básico por trás do movimento para o meio ambiente, segundo penso), e muito mais. Naturalmente isto significa um desafio às enormes instituições de coerção e controlo: o estado, as inúmeras tiranias privadas que dominam a maior parte da economia nacional e internacional, etc.. E não apenas isto. Foi isso que sempre percebi como sendo a essência do anarquismo: a convicção de que o ónus da prova deve ser colocado à autoridade, e que ela deve ser desmantelada se não conseguir dar essa prova. Por vezes essa prova existe. Se eu for dar um passeio com os meus netos e eles se precipitarem para uma rua movimentada, eu usarei não só autoridade mas também a coerção física para os impedir. É um exemplo típico. E existem outros casos; a vida é uma coisa complexa, entendemos muito pouco sobre o ser humano e a sociedade, e grandes declarações são frequentemente uma maior fonte de sofrimento do que de benefícios. Mas a perspectiva é válida, penso, e pode levar-nos longe.
Para lá destas generalizações, nós começamos a olhar para os casos, e isto leva ao aparecimento das questões humanas do interesse e preocupação.
RBR: É uma verdade quando se diz que as suas ideias e crítica estão hoje mais divulgadas do que nunca. Também se diz que os seus pontos de vista são bastante respeitados. Como pensa que o seu apoio ao anarquismo é recebido neste contexto? Em particular, estou interessado na reacção que você recebe das pessoas que se estão a interessar pela política e que podem, talvez, cruzar-se com os seus pontos de vista. Essas pessoas ficam surpreendidas pelo seu apoio ao anarquismo? Ficam interessadas?
Chomsky: A generalidade da cultura intelectual, como sabe, associa "anarquismo" com caos, violência, bombas, descrédito, etc.. Por isso as pessoas ficam frequentemente surpreendidas quando falo positivamente acerca do anarquismo e identifico-me com as suas tradições mais importantes. Mas a minha impressão é que entre o público em geral, as ideias básicas parecem razoáveis quando as nuvens se afastam. Claro que, quando nos voltamos para matérias específicas -- digamos, a natureza das famílias, ou como uma economia funcionaria numa sociedade mais livre e justa -- as questões e a controvérsia surgem. Mas é natural que seja assim. A Física não consegue explicar determinados fenómenos, e qundo nos voltamos para as questões bem mais complexas de importância humana, a compreensão é muito ténue, há muito espaço para a discordância, experimentação, exploração de possibilidades tanto intelectual como na vida real, que nos ajudam a conhecer mais.
RBR: Talvez, mais do que qualquer outra ideia, o anarquismo sofreu de um problema de deturpação na apresentação. O anarquismo pode significar muitas coisas para muitas pessoas. Acontece-lhe frequentemente dar por si a ter de explicar o que significa anarquismo no seu entendimento? A deturpação na apresentação do anarquismo incomoda-o?
Chomsky: Toda a deturpação é um incómodo. Muita dela é originária das estruturas do poder que têm interesse em impedir a sua compreensão, por razões óbvias. Será bom recordar os "Principles of Government" de David Hume. Ele expressou surpresa pelas pessoas se submeterem sempre aos seus governadores. Ele concluiu então que "a força está sempre do lado dos governados, os governadores nada mais têm a suportá-los além da opinião. É só nisto, em minha opinião, que o governo está estabelecido; e este princípio aplica-se aos governos mais despóticos e militaristas, e igualmente aos mais livres e mais populares." Hume era muito astuto -- mas dificilmente se poderia considerar um libertário pelos padrões actuais. Ele subestimou certamente a eficácia da força, mas a sua observação está correcta na sua essência, e válida particularmente para as sociedades mais livres, onde a arte de controlar a opinião está por isso muito mais refinada. A deturpação e outras formas de confusão são naturalmente existentes.
Se a deturpação me incomoda? Claro, mas o mau tempo também me incomoda. Ela vai existir desde que as concentrações de poder engendrem uma espécie de comissários de classe para as defender. Como eles não são muito inteligentes, ou suficientemente inteligentes para saberem que era preferível evitar a arena do facto e argumento, eles voltam-se para a deturpação, a calúnia, e outros expedientes que estão disponíveis àqueles que sabem que terão a protecção dos vários meios à disposição dos poderosos. Nós devemos compreender porque acontece isto, e desmascará-lo o melhor que pudermos. Isso é parte do projecto de libertação -- nossa e dos outros, ou, mais razoavelmente, das pessoas que trabalham em conjunto para atingir estes objectivos.
Pode parecer simples, e é. Mas ainda estou para encontrar muitos comentários à vida humana e à sociedade que não sejam simples, quando o absurdo e interesse pessoal são afastados.
RBR: E o que se passa em círculos mais estabelecidos de esquerda, onde é de esperar uma maior familiaridade com aquilo que o anarquismo defende? Encontra alguma surpresa aí, pelas suas posições e apoio ao anarquismo?
Chomsky: Se com "círculos mais estabelecidos de esquerda" quer dizer aquilo que eu penso, não existe muita surpresa pelos meus pontos de vista sobre o anarquismo, porque muito pouco é conhecido pelos meus pontos de vista sobre qualquer coisa. Eu não tenho contactos com esses círculos. Raramente encontrará uma referência a algo que eu tenha dito ou escrito. Isto não é completamente verdade, claro. Por conseguinte nos EUA (e menos frequentemente no Reino Unido ou noutros países), encontrará alguma familiaridade com aquilo que faço em alguns dos sectores mais críticos e independentes daquilo que pode ser chamado como os "círculos mais estabelecidos de esquerda," e tenho amigos pessoais e associados espalhados por aqui e ali. Mas, dê uma vista de olhos pelos livros e pelos jornais e verá o que eu quero dizer. Não espero que aquilo que escrevo e digo seja melhor acolhido nesses círculos que no clube da faculdade, ou na redacção do jornal -- uma vez mais, com excepções.
A questão levanta-se apenas marginalmente, há tanto para dizer que é difícil de responder.
RBR: Algumas pessoas repararam que você usa o termo "socialista libertário" no mesmo contexto que usa a palavra "anarquismo". Vê esses termos como essencialmente similares? O anarquismo é para si um tipo de socialismo? A descrição já foi usada anteriormente "anarquismo é equivalente ao socialismo com liberdade". Concorda com esta equação básica?
Chomsky: A introdução ao livro de Guerin que você mencionou começa com uma citação de um simpatizante anarquista de há um século atrás, e diz que "o anarquismo tem costas largas," e "aguenta tudo." Um dos elementos principais tem sido o que é tradicionalmente designado como "socialismo libertário". Tenho tentado explicar aqui e noutros lugares o que quero dizer com isso, sublinhando que não é propriamente um conceito original. Eu pego em ideias das principais figuras do movimento anarquista, os quais eu cito e que, de forma bastante consistente, se descrevem a si próprios como socialistas, ao mesmo tempo que condenam severamente a "nova classe" de intelectuais radicais que tentam obter poder estatal no decurso da luta popular e se tornam na perversa "Burocracia Vermelha" de que Bakunine advertia; o que é frequentemente designado de "socialismo". Eu concordo mais com Rudolf Rocker na percepção de que estas tendências (bastante centrais) do anarquismo derivam antes do melhor do Iluminismo e do pensamento liberal clássico, bem para lá do que ele descreveu. De facto, à medida que eu tenho tentado mostrar o seu contraste nítido com a doutrina e a prática Marxista-Leninista, as doutrinas "libertárias" que estão particularmente em voga nos EUA e no Reino Unido, e outras ideologias contemporâneas, elas perecem-me reduzir-se a advogar uma ou outra forma de autoridade ilegítima, bastante frequentemente uma verdadeira tirania.
A Revolução Espanhola
RBR: No passado, quando tem falado sobre anarquismo, você tem enfatizado frequentemente o exemplo da Revolução Espanhola. Para si aí teriam existido os dois aspectos deste exemplo. Por um lado, a experiência da Revolução Espanhola é, como diz, um bom exemplo do "anarquismo em acção". Por outro, você também sublinhou que a Revolução Espanhola é um bom exemplo do que os trabalhadores podem alcançar pelo seu próprio esforço usando a democracia participativa. Estes dois aspectos -- anarquismo em acção e democracia participativa -- são uma e a mesma coisa para si? O anarquismo é uma filosofia para o poder do povo?
Chomsky: Sinto-me relutante em usar polissílabos extravagantes como "filosofia" para referir o que parece ser simples senso comum. E também me sinto desconfortável com slogans. As conquistas dos trabalhadores e camponeses espanhóis, antes da revolução ser esmagada, foram impressionantes sob muitos aspectos. O termo "democracia participativa" é mais recente, e desenvolveu-se num contexto diferente, mas há seguramente pontos de semelhança. Peço desculpa se isto parece evasivo. É, mas isso é porque eu não penso que tanto o conceito de anarquismo ou o de democracia participativa sejam suficientemente claros para responder à questão de eles serem ou não o mesmo.
RBR: Uma das principais conquistas da Revolução Espanhola foi a forma como a democracia se estableceu. Em termos de pessoas, estimou-se que mais de 3 milhões estiveram envolvidas. A produção rural e urbana foi gerida pelos próprios trabalhadores. Acha uma coincidência que os anarquistas, conhecidos por advogarem a liberdade individual, tenham tido sucesso nesta área de administração colectiva?
Chomsky: Não foi nenhuma coincidência. As tendências que sempre me atraíram mais no anarquismo procuram uma sociedade altamente organizada, integrando muitos tipos de diferentes estruturas (local de trabalho, comunidade, e outras variadas formas de associação voluntária), mas controladas pelos participantes, não por aqueles que estão numa posição de dar ordens (excepto, uma vez mais, quando a autoridade possa ser justificada, como é por vezes o caso, em contingências específicas).
Democracia
RBR: Os anarquistas despendem muitas vezes um grande esforço na construção das raízes da democracia. De facto são frequentemente acusados de "levar a democracia a extremos". E no entanto, apesar disto, muitos anarquistas não identificariam prontamente a democracia como um componente central da filosofia anarquista. Os anarquistas descrevem amiúde a sua política como sendo sobre "socialismo" ou sobre "o indivíduo" -- dificilmente dirão que anarquismo é sobre democracia. Você concorda que as ideias democráticas são uma característica central do anarquismo?
Chomsky: A crítica à "democracia" entre os anarquistas tem sido frequentemente a crítica à democracia parlamentar, porque ela surgiu em sociedades com características profundamente repressivas. Tomemos os EUA por exemplo, que foram livres desde as suas origens. A democracia americana foi fundada no princípio, sublinhado por James Madison na Convenção Constitucional de 1787, de que a primeira função do governo é "proteger a minoria opulenta da maioria." Deste modo ele argumentava que na Inglaterra, o único modelo quase-democrático da época, se fosse dada palavra à população em geral, nos destinos públicos, ela implementaria uma reforma agrária ou outras atrocidades, e que o sistema americano devia ser cuidadosamente concebido para evitar tais crimes contra "os direitos da propriedade," os quais devem ser defendidos (de facto, devem prevalecer). A democracia parlamentar dentro deste quadro merece uma crítica aguda pelos libertários genuínos, e deixei de fora muitas outras características que dificilmente se consideram subtis -- a escravatura, para mencionar apenas uma, ou as escravatura do salário que foi amargamente condenada por gente trabalhadora que nunca ouviu falar de anarquismo ou comunismo durante o século XIX, e para além deste.
Leninismo
RBR: A importância das raízes da democracia para qualquer mudança significativa na sociedade, pareceriam evidentes. No entanto a esquerda tem sido ambígua sobre isto no passado. Falo em termos gerais, da social-democracia, mas também do bolchevismo -- tradições na esquerda que parecem ter mais em comum com o pensamento elitista do que com a estrita prática democrática. Lenine, para usar um exemplo bem conhecido, era céptico quanto aos trabalhadores poderem desenvolver algo mais do que uma "consciência sindicalista" -- pela qual, penso, ele queria dizer que os trabalhadores não conseguiam ver além da sua situação imediata. Similarmente, a socialista fabiana Beatrice Webb, que era muito influente no Partido Trabalhista britânico, achava que os trabalhadores apenas se interessavam por "apostas de cavalos"! Onde se originou este elitismo e o que é que ele faz à esquerda?
Chomsky: Receio ter dificuldade em responder a isso. Se por esquerda é suposto incluir o "bolchevismo", então eu dissocio-me terminantemente da esquerda. Lenine foi um dos maiores inimigos do socialismo, na minha opinião, pelas razões que temos discutido. A ideia de que os trabalhadores apenas se interessam por corridas de cavalos é um absurdo que não resiste mesmo a um olhar superficial pela história trabalhista ou pela imprensa operária, activa e independente, que floresceu em muitos lugares, incluindo as cidades industriais da Nova Inglaterra, não muito longe de onde estou a escrever -- para nem falar nos registos inspiradores das lutas corajosas de pessoas oprimidas e perseguidas através da História, até este preciso momento. Tome por exemplo o canto mais miserável deste hemisfério, o Haiti, olhado pelos conquistadores europeus como um paraíso e fonte de uma parte considerável da riqueza europeia, agora devastado, talvez para além da recuperabilidade. Nos últimos anos, em condições tão miseráveis que poucas pessoas em países ricos as conseguem imaginar, camponeses e habitantes dos bairros de lata construiram um movimento popular democrático baseado em organizações de raíz que ultrapassam quase tudo o que conheço noutros lugares; só comissários profundamente empenhados poderiam aguentar o riso do ridículo quando ouvem as solenes declarações dos intelectuais e dos líderes políticos americanos, sobre como os EUA têm de ensinar aos haitianos as lições de democracia. As suas realizações foram tão substanciais e assustadoras para os poderosos, que eles tiveram de ser sujeitos a mais uma dose de terror traiçoeiro, com um maior apoio americano do que aquele que é publicamente reconhecido, e mesmo assim ainda não se renderam. Estarão eles apenas interessados em corridas de cavalos?
Eu sugeriria algumas linhas que por vezes cito de Rosseau: "quando vejo multidões de selvagens inteiramente despidos desprezar a voluptuosidade europeia e sofrer a fome, o fogo, a espada e a morte para preservar apenas a sua independência, sinto que não compete aos escravos debater sobre liberdade."
RBR: Falando novamente de um modo geral, o seu próprio trabalho -- Desencorajando a Democracia, Ilusões Necessárias, etc., -- tem lidado consistentemente com o papel e a prevalência de ideias elitistas em sociedades como a nossa. Você tem argumentado que no interior da democracia "ocidental" (ou parlamentar) existe um profundo antagonismo a qualquer desempenho real ou contribuição das massas populares, mal exista uma ameaça à distribuição desigual da riqueza, que favorece os ricos. O seu trabalho é bastante convincente neste ponto, mas, além disso, alguns têm ficado chocados pelas suas asserções. Por exemplo, você compara a política do presidente John F. Kennedy com Lenine, pondo-os mais ou menos lado a lado. Isto, devo acrescentar, chocou apoiantes de ambos os campos! Pode pormenorizar um pouco sobre a validade desta comparação?
Chomsky: Eu de facto não "comparei" as doutrinas dos intelectuais liberais da administração de Kennedy com os leninistas, mas notei surpreendentes pontos de similaridade -- tal como previsto por Bakunine um século antes no seu comentário discernente sobre a "nova classe." Por exemplo, citei passagens de McNamara sobre a necessidade de aperfeiçoar o controlo administrativo se formos verdadeiramente "livres," e sobre como a "subadministração" que é "a verdadeira ameaça à democracia" é um assalto contra a própria razão. Altere algumas poucas palavras nestas passagens, e temos a típica doutrina leninista. Eu argumentei que as raízes são bem mais profundas, em ambos os casos. Sem uma melhor clarificação acerca do que as pessoas consideram "chocante", não posso fazer mais comentários. As comparações são específicas, e penso que ambas são apropriadas e devidamente qualificadas. Caso contrário é um erro, e eu estaria interessado em ser elucidado sobre ele.
Marxismo
RBR: Especificamente, leninismo refere-se a uma forma de marxismo que se desenvolveu com V.I. Lenine. Você está a distinguir implicitamente os trabalhos de Marx da crítica que faz a Lenine quando usa o termo "leninismo"? Vê uma continuidade entre os pontos de vista de Marx e as práticas posteriores de Lenine?
Chomsky: Os avisos de Bakunine sobre a "Burocracia Vermelha" que instituiria "o pior de todos os governos despóticos" foram feitos muito antes de Lenine, e eram dirigidos contra os seguidores do Sr. Marx. Existiam, de facto, seguidores de muitos tipos diferentes: Pannekoek, Luxembourg, Mattick e outros estão muito distantes de Lenine, e as suas posições convergem frequentemente com elementos do anarco-sindicalismo. Korsch e outros escreveram por simpatia da revolução em Espanha, de facto. Existem continuidades de Marx a Lenine, mas também existem continuidades até aos marxistas que eram severos críticos de Lenine e do bolchevismo. O trabalho de Teodor Shanin nos últimos anos sobre as atitudes tardias de Marx em relação à revolução camponesa também é relevante aqui. Eu não sou propriamente um estudioso de Marx, e não arriscaria nenhum julgamento sério sobre qual destas continuidades reflecte o "verdadeiro Marx", mesmo que exista uma resposta a essa questão.
RBR: Recentemente, obtivemos uma cópia das suas "Notas sobre Anarquismo" (reeditado o ano passado pelo Discussion Bulletin nos EUA). Nele você menciona os pontos de vista do "Marx inicial", em particular o seu desenvolvimento da ideia de alienação sob o capitalismo. Você concorda de um modo geral com esta divisão na vida e no trabalho de Marx -- um jovem e mais libertário socialista mas, nos últimos anos, um autoritário firme?
Chomsky: O Marx inicial aproxima-se consideravelmente do meio em que viveu, e encontram-se muitas semelhanças com o pensamento que animou o liberalismo clássico, aspectos do Iluminismo, e do Romantismo francês e germânico. Uma vez mais, não sou um grande estudioso de Marx para pretender dar um julgamento de opinião autorizada. A minha impressão, sem qualquer garantia, é que o Marx inicial era uma figura do Iluminismo tardio, e o Marx posterior era um activista altamente autoritário, e um analista crítico do capitalismo, que tinha pouco a dizer sobre alternativas socialistas. Mas isto são impressões.
RBR: Segundo o meu entendimento, o núcleo do seu pensamento global foi transmitido pelo seu conceito de natureza humana. No passado a ideia de natureza humana era vista, talvez, como algo regressivo, mesmo limitador. Por exemplo o imutável aspecto da natureza humana é muitas vezes usado como um argumento pelo qual as coisas não podem ser fundamentalmente mudadas na direcção do anarquismo. Você tem uma posição diferente? Porquê?
Chomsky: O núcleo do pensamento de quem quer que seja é um conceito de natureza humana, por muito distante que esteja da consciência ou lhe falte articulação. Pelo menos, isto é verdade para pessoas que se consideram agentes morais, e não monstros. Excluindo os monstros, quer uma pessoa advogue reforma ou revolução, ou estabilidade, ou o regresso a patamares anteriores, ou simplesmente a cultivar o seu próprio jardim, parte dos princípios do que é "bom para as pessoas." Mas esse julgamento é baseado em alguma concepção da natureza humana, que uma pessoa razoável tentará fazer com que seja tão claro quanto possível, porque só assim poderá ser avaliado. Por isso neste aspecto não sou diferente dos outros.
Você tem razão, a natureza humana tem sido olhada como algo "regressivo," mas isso deve ser o resultado de profunda confusão. A minha neta não é diferente de uma rocha, uma salamandra, uma galinha, de um macaco? Uma pessoa que rejeita este absurdo como tal, reconhece que existe uma natureza humana identificativa. Apenas somos deixados com a questão sobre o que ela é -- uma questão nada trivial e altamente fascinante, com um enorme interesse científico e significado humano. Conhecemos um bom bocado sobre certos aspectos dela -- não aqueles de maior ênfase humano. Para além disso, ficamos com as nossas esperanças e desejos, intuições e especulações.
Não há nada de "regressivo" no facto de um embrião humano estar tão limitado que não lhe cresçam asas, ou que o seu sistema visual não funcione como o dos insectos, ou que lhe falte o instinto de orientação dos pombos. Os mesmos factores que limitam o desenvolvimento do organismo, também lhe permitem obter uma estrutura rica, complexa e altamente articulada, similar nos modos fundamentais aos outros da sua espécie, com capacidades valiosas e notáveis. Um organismo ao qual faltasse esta estrutura intrínseca e determinante, que obviamente limita as vias de desenvolvimento, seria uma espécie de criatura amiboide, para ser lamentada (se conseguisse sobreviver). O alcance e os limites do desenvolvimento estão logicamente relacionados.
A linguagem, por exemplo, uma das poucas capacidades humanas distintivas sobre a qual se conhece muito. Temos fortes razões para acreditar que todas as linguagens humanas possíveis são muito semelhantes; um cientista marciano observando humanos poderia concluir que existe apenas uma única linguagem, com variantes menores. A razão para isto é que o aspecto particular da natureza humana que está por trás do desenvolvimento da linguagem permite opções muito restritas. Isto é limitativo? Claro que sim. Isto é libertador? Claro que sim, também. São estas mesmas restrições que tornam possível um sistema de expressão de pensamento intrincado e rico, pensado para se desenvolver em modos semelhantes com base em experiências muito variadas, rudimentares e difusas.
E quanto à questão das diferenças humanas biologicamente determinadas? Que elas existem é uma verdade, e são um motivo de alegria, e não de medo ou mágoa. Uma vida entre clones não teria qualquer valor, e uma pessoa sensata apenas se alegrará pelas capacidades que os outros possuem e não partilham. Isto devia ser elementar. O que se pensa normalmente sobre estes assuntos é deveras estranho, em minha opinião.
A natureza humana, qualquer que ela seja, conduzirá ao desenvolvimento de modos de vida anarquistas ou será uma barreira para eles? Não sabemos o suficiente para responder, num ou noutro sentido. Isto são matérias para experimentação e descoberta, não para declarações vazias.
O futuro
RBR: Estamos a chegar ao fim, e gostava de lhe pôr algumas questões breves sobre alguns dos temas que se colocam presentemente à esquerda. Não sei se a situação é parecida nos EUA mas aqui, com a queda da União Soviética, uma certa desmoralização instalou-se na esquerda. Não que as pessoas fossem grandes apoiantes do que existia na União Soviética, mas antes um sentimento geral que com o desmembramento da União Soviética a ideia de socialismo também foi arrastada na queda. Já se cruzou com este tipo de desmoralização? Qual a sua resposta perante ela?
Chomsky: A minha reacção ao fim da tirania soviética foi semelhante à minha reacção à derrota de Hitler e Mussolini. Em qualquer dos casos foi uma vitória do espírito humano. Devia ter sido particularmente festejada pelos socialistas, uma vez que um grande inimigo do socialismo tinha por fim caído. Tal como você, fiquei admirado ao ver como as pessoas -- incluindo gente que se tinha considerado anti-estalinista e anti-leninista -- estavam desmoralizadas pelo colapso da tirania. O que revela que elas estavam mais profundamente comprometidas com o leninismo do que acreditavam.
Existem, contudo, outras razões a considerar acerca da eliminação deste sistema brutal e tirânico que tinha tanto de "socialista" como de "democrático" (lembre-se que ele se reclamava de ambos, e a última pretensão era ridicularizada no Ocidente, enquanto a primeira era ansiosamente aceite, como uma arma contra o socialismo -- um dos muitos exemplos do serviço prestado pelos intelectuais do ocidente ao poder). Uma das razões tem a ver com a natureza da Guerra Fria. Do meu ponto de vista, devia-se de modo considerável ao caso especial do "conflito Norte-Sul," para usar um eufemismo que descreve a conquista europeia da maior parte do mundo. A Europa Oriental tinha sido o "terceiro mundo" original, e a Guerra Fria desde 1917 não tinha a mais ligeira semelhança com a reacção às tentativas de seguir um percurso independente por parte de outras partes do terceiro mundo, embora neste caso as diferenças de escala deram ao conflito uma vida própria. Por esta razão, era apenas razoável esperar que a região voltasse ao seu estatuto anterior: para partes do Ocidente, como a República Checa ou a Polónia Ocidental, existia a expectativa que se voltassem a juntar-lhe, enquanto outras reverteriam ao tradicional papel de serviço, com a ex-Nomenklatura a tornar-se na habitual elite terceiro-mundista (com a aprovação do poder corporativo-estatal do Ocidente, que normalmente os prefere às alternativas). Isto não era uma perspectiva agradável e levou a muito sofrimento.
Outro motivo de preocupação tem a ver com a intimidação e o não-alinhamento. Apesar de grotesco, o império soviético pela sua existência oferecia um certo espaço para o não-alinhamento e, por razões absolutamente cínicas, por vezes oferecia assistência às vítimas dos ataques ocidentais. Essas opções acabaram, e o Sul sofre agora as consequências.
Uma terceira razão tem a ver com aquilo a que a imprensa de economia denomina de "trabalhadores ocidentais mal-habituados" com o seu "estilo de vida luxuoso." Com a maior parte da Europa Oriental a voltar ao rebanho, o patronato e os gestores têm armas novas e poderosas contra as classes trabalhadoras e os pobres do seu próprio país. A GM e a VW podem não só transferir a sua produção para o México ou para o Brasil (ou pelo menos ameaçar fazê-lo, o que geralmente vai dar no mesmo), mas também para a Polónia e Hungria, onde podem encontrar trabalhadores experientes e qualificados por uma fracção do custo. E estão a regozijar-se com isso, compreensivelmente, dados os valores vigentes.
Podemos aprender muito sobre o que significou a Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) ao procurar quem lucrou ou quem ficou prejudicado depois de ela acabar. Por esse critério, nos vencedores da Guerra Fria incluem-se as elites ocidentais e a ex-Nomenklatura, agora mais ricos do que alguma vez sonharam, e nos derrotados inclui-se uma parte substancial da população do Leste lado a lado com os trabalhadores e os pobres do Ocidente, bem como sectores populares do Sul que procuraram seguir um caminho independente.
Estas ideias tendem a levar os intelectuais ocidentais quase à histeria, isto quando eles as entendem, o que é raro. É fácil de demonstrar. É igualmente compreensível. As observações estão correctas, e são subversivas para o poder e para os privilégios; daí a histeria.
De um modo geral, as reacções de uma pessoa honesta ao fim da Guerra Fria serão mais complexas do que o simples prazer pelo colapso de uma tirania brutal, e as reacções que prevalecem estão impregnadas com uma hipocrisia extrema, na minha opinião.
Capitalismo
RBR: Em muitos aspectos a esquerda de hoje encontra-se de regresso ao seu ponto de partida no final do século XIX. Tal como então, enfrenta agora uma forma de capitalismo que está em ascensão. Parece mesmo existir um maior "consenso" hoje, mais do que em qualquer outra altura da História, que o capitalismo é a única forma válida e possível de organização económica, apesar das desigualdades estarem a aumentar. Sobre este cenário, pode-se argumentar que a esquerda não está segura sobre como avançar para o futuro. Como é que vê este período actual? Será uma questão de "regressar aos princípios"? O esforço deverá concentrar-se hoje em fazer vir ao de cima a tradição libertária do socialismo para sublinhar as ideias democráticas?
Chomsky: A maior parte disto é propaganda, na minha opinião. O que é designado de "capitalismo" é basicamente um sistema de mercantilismo corporativo, com enormes tiranias privadas sem rosto, que exercem um vasto controlo sobre a economia, os sistemas políticos, a vida cultural e social, operando em estreita colaboração com os estados poderosos, que interferem maciçamente na economia nacional e na sociedade internacional. Isto é verdade também nos EUA, apesar da ilusão de parecer o contrário. Os ricos e os privilegiados não estão dispostos a enfrentar a disciplina do mercado mais do que estavam no passado, embora a considerem boa para a população em geral. Só para citar alguns exemplos ilustrativos, a administração Reagan, que alardeava a retórica do mercado livre, também se vangloriava na comunidade empresarial de ser a mais proteccionista da História norte-americana do pós-guerra -- de facto, mais ainda do que todas as outras juntas. Newt Gingrich, que lidera a cruzada actual, representa um distrito super-rico que recebe mais subsídios federais do que qualquer outra região suburbana do país, fora do próprio sistema federal. Os "conservadores" que, defendem o fim das cantinas escolares para as crianças carenciadas, pedem também o aumento do orçamento do Pentágono, que foi estabelecido nos finais dos 1940s na sua forma actual porque -- como a imprensa económica nos informa gentilmente -- a indústria de alta tecnologia não consegue sobreviver numa "economia de livre iniciativa pura, competitiva e não subsidiada" e o governo deve ser o seu "salvador." Sem o "salvador," os eleitores de Gingrich seriam pobre gente trabalhadora (se tivessem sorte). Não existiriam computadores, electrónicas, indústria aeronáutica, metalurgia, automatização, etc., etc., pela lista abaixo. Entre todas as pessoas, pelo menos os anarquistas não se deviam deixar levar por estas fraudes tradicionais.
Mais do que nunca, as ideias socialistas libertárias são relevantes, e a população está muito aberta a elas. Apesar de uma enorme quantidade de propaganda corporativa, fora dos círculos mais instruídos, as pessoas ainda mantêm muitas das suas atitudes tradicionais. Nos EUA, por exemplo, mais de 80% da população vê o sistema económico como "inerentemente injusto" e o sistema político como uma fraude, que apenas serve os "interesses especiais," e não "o povo." Maiorias esmagadoras consideram que as pessoas têm muito pouca voz nos assuntos públicos (e o mesmo se passa em Inglaterra), que o governo tem a responsabilidade de assistir às pessoas em dificuldades, que a despesa em educação e saúde deveria ter prioridade sobre os cortes nos orçamentos ou nos impostos, que as actuais propostas Republicanas no Congresso benificiam os ricos e prejudicam a população em geral, e assim sucessivamente. Os intelectuais podem contar uma história diferente, mas não é muito difícil descobrir os factos.
RBR: Até certo ponto as ideias anarquistas foram demonstradas pelo colapso da União Soviética -- as previsões de Bakunine provaram estar correctas. Acha que os anarquistas devem tomar a peito estes desenvolvimentos gerais e a perceptibilidade da análise de Bakunine? Devem os anarquistas olhar para o futuro próximo com maior confiança nas suas ideias e na sua história?
Chomsky: Eu penso -- pelo menos espero -- que a resposta esteja implícita no que foi dito acima. Penso que a era actual tem maus presságios omniosos, e sinais de grande esperança. O que se seguirá depende do que fizermos com as oportunidades.
(Red And Black Revolution é uma publicação irlandesa.)
Spunk Library
http://www.homeless.com/homepages/raycunhm@macollamh.ucd.ie.html
.
FONTE : http://trintadefevereiro.no.sapo.pt/biblioteca/chomskyrbr.html
"QUEM É,É E TÁ ACABADO!"
às vezes o cara é doutor, mas não faz nada que presta!
meu pai sabia mais que engenheiro formado pela USP!
na época (década de 20,30,do séculoXX)tinha estudado
na escola técnica Getúlio Vargas e no Liceu de Artes e Ofícios!
A educação antiga era bem melhor.
Quem tem talento pras coisas, títulos não querem dizer nada!
existe escola pra formar poeta? dizia meu pai!
José Reis é um exemplo e tanto!
o que ele fazia...era dom, era vocação, era missão,
independente de diplomas e títulos!
nós brasileiros precisamos parar de valorizar tanto
certas coisas e valorizar as coisas e pessoas que tem valor mesmo!
tantos empreendedores no Brasil, que quase nem estudaram formalmente!
geralmente fazem as coisas na raça,
buscando por conta deles as ferramentas para produzir coisas essenciais!
mentalidades precisam mudar! professores precisam ser informados,
que o mundo mudou! Paulo Freire e Ivan Illich há muito
alertaram ... a escola está obsoleta, o sapato velho furou,
a sociedade mudou, as pessoas não são mais as mesmas de 30 anos atrás!
todos sabem que num país de contrastes e de privilégios,
diplomas de doutor nas paredes são suspeitíssimos!
hoje o que vale é o profissional que vive seu tempo!
Brasil, o país dos coronéis!...e...
O país dos grandes anarquistas!
o futuro é anarquista!
Nadia Stabile - 11/03/10
domingo, 13 de setembro de 2009
BioUrban, a Idéia - urban intervention (AUMENTE O SOM QUE É DEMAIS!!! PARABÉNS AO PROJETO BIOURBAN!!!)
A arquitetura e urbanismo modernista mata, é ademocratico, é panoptico e rouba o dinheiro público. O manifesto BioUrban é a antítese quanto concepção. É a resistência filosófica e estética da prática do construir e viver Cidade. É a vida. É a Cidade Viva.
Prédios, ruas, casas e cidades inteiras foram rasgadas com premissas básicas da exclusão, do sentido único capital do qual a construção é parte do processo do lucro das grandes e pequenas construtoras. Exploradoras de mão-de-obra barata, com pouco ou sem nenhuma instrução, de fácil manipulação e, em sua grande maioria, miseráveis intelectual. Assim fazem do trabalhador da construção civil uma peça dentro do jogo para garantir seus altos lucros na construção e venda de casas e apartamentos construídos por essas mãos que ao findar o trabalho não garantem a subsistência ao próximo mês.
Esse trabalhadores não ocupam o que constroem, não são detentores da terra onde levantam monstruosos prédios, mas são, talvez, os últimos donos dos meios de produção que pode-se entender como força, sapiência e técnica do construir moradias. É preciso levantar-se contra a hegemonia da divisão do trabalho dentro das empresas que disputam licitações publicas para grandes obras no país. O trabalhador da construção civil precisa refletir sobre a questão e entender que sem suas mãos, técnica e sapiência não existem obras. As mãos, a técnica e a sapiência formam a trindade, assim como o Pai, o Filho e Espírito Santo. Dividir o trabalho dentro de uma construção civil faz com que o os trabalhadores não tenham consciência de todo o processo da construção. E isso é a maneira que as empresas fazem para controlar cada trabalhador e ocupa-lo somente com a função que fora designada no contrato. Dessa forma seu salário é correspondente ao processo que foi contratado para executar. Isso garante controle e baixos salários àqueles que sem suas mãos, técnica e sapiência não existiriam um só prédio.
Cortiço - Cambuci
sábado, 12 de setembro de 2009
Os Dez Princípios do Anarquismo (ACHEI ISTO NA WEB)
APOIO MÚTUO :: É a ajuda entre seres de uma organização social onde as partes interagem, auxiliando-se e fortalecendo-se. Tal prática não permite disputas, que são fundamentadas no princípio irracional de superioridade entre seres, sendo destrutivo para o convívio humano. Nossa proposta é somar forças para alcançar uma melhor qualidade de vida para todos.
AUTOGESTÃO :: A autogestão é por princípio, a comunidade cuidando diretamente de seus próprios deveres e interesses. Para que ela aconteça terá de haver ampla liberdade de organização sem leis cerceantes e hierarquias. Por este simples fato os partidos políticos e legisladores tornam-se desnecessários. Afinal se as pessoas tomam para si as responsabilidades de gerenciamento de suas vidas, os representantes profissionais e demais poderes são completamente inúteis.
INTERNACIONALISMO :: Não deveriam existir fronteiras. Não deveriam existir nacionalidades. Patriotismo é um sentimento mesquinho que só faz acontecer guerras inúteis e acirrar a raiva entre os povos. A luta pela liberdade passa pela derrubada do capital, que explora e oprime em todo o globo. Ao invés do estado nação, defendemos a autodeterminação dos povos. Somos internacionalistas, pois nossa ação é revolucionária e acontece em todos os lugares do planeta.
ANTIMILITARISMO :: Dentro da instituição militar impera o autoritarismo a partir de um complexo esquema de hierarquia de poder. Qualquer tipo de autoritarismo é inválido! Por quê um é melhor que o outro? Porque é mais velho? Porque tem mais medalhas no peito? Todos são iguais! Uns podem deter mais experiência, pois então que passem para os outros! O respeito virá naturalmente! Criar um sistema hierárquico por via de medalhas e impô-lo a todos é artificial! Abaixo o autoritarismo!
AÇÃO DIRETA :: A ação direta é o princípio onde você faz e decide diretamente tudo o que lhe diz respeito, em oposição a idéia de representação. O indivíduo por ser único é impossível de ser representado. Quando os movimentos sociais passam a agir e não somente reagir ao sistema, pacífica ou violentamente se faz chamar de ação direta, a maturidade de uma organização, a essência da atual libertária e a única maneira de trilhar um caminho contínuo para a revolução social.
AUTO DEFESA :: Um princípio libertário que propõe a defesa do indivíduo e/ou coletivo, para garantir sua sobrevivência contra forças opressoras da reação. Temos de nos defender do sistema e derrubá-lo, a liberdade não é negociada, nem barganhada, mas sim conquistada. Não se pode "confiar na polícia" e muito menos fazer-nos de vítimas indefesas do sistema. A característica ácrata é a ética e dignidade, "É melhor morrer de pé do que viver de joelho", a autodefesa acompanha toda a atuação anarquista.
VIVER A VIDA :: Fazer a sua parte não é encarar o mundo sob uma visão pessimista. Mesmo sabendo que o mundo é cruel, temos de saber que não podemos mudá-lo de uma hora para outra. Por isso, antes de desistir, desacreditar-se, dar um tiro na cabeça ou tomar qualquer outra atitude assassina-suicída, é necessário encarar a realidade, sabendo que, com pequenas atitudes e esforços, conseguimos mudar a cena.
INDIVIDUALISMO :: Individualismo não é, como a maioria faz crer, uma forma de egoísmo, e sim uma valorização do indivíduo, do individual. Um individualista é único, incopiável, livre e incensurável. "Até onde começa a liberdade do próximo." Todos somos únicos. Até o mais alienado dos humanos tem uma qualidade, uma peculariedade a mais ou a menos pelo menos. Tais qualidades não significam que há melhores e piores, e sim que somos todos diferentes, únicos. Massificar, exigir de todos o mesmo comportamento e rendimento é um atentado à vida, tão vil quanto julgar-se individualista pelo cruel ato de pensar no seu próprio umbigo apenas, mesmo que, para isso, tenha de atropelar, pisar, esmagar e ignorar aos demais.
APARTIDARISMO :: Eleições criam ilusões e desviam energias da luta direta contra o Estado e o capital, deixando desarmado os trabalhadores. Em 1970 os Chilenos acreditaram que se acabaria com o capitalismo elegendo um presidente socialista, em 1973 os militares rasgaram a constituição e instalaram a sanguinolenta ditadura de Pinochet. Em 1964 por muito menos os militares brasileiros rasgaram a constituição e apearam Jango do poder. Por tanto não será elegendo um operário, um democrata ou um socialista que sairemos desse pesadelo. Aqui e agora, no seu bairro, no seu local de trabalho na sua família, na sua escola lutando junto aos seus companheiros pela liberdade e para romper as estruturas autoritárias da sociedade, devemos lutar para cotidianizar a revolução e revolucionar o cotidiano.
FONTE: http://the.natxos.vilabol.uol.com.br/principios.htm
sexta-feira, 19 de junho de 2009
"MUTUALISMO" - PROUDHON E ETC (DA WIKIPÉDIA)
Esta teoria adotada por seguidores de Proudhon que formavam fileiras na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), pregava uma associação de trabalhadores livres de posse de seus próprios recursos para a produção, desta forma, se opondo a tendências coletivistas e/ou comunistas de organização, contra a socialização dos meios de produção ou ainda sua concentração nas mãos de um Estado, ainda que fosse contrário à propriedade burguesa e defendesse que esta instituição humana fosse comparável à escravidão e, portanto, condenável tal qual um crime. Vê na propriedade a origem do governo e das instituições humanas.
Uma organização comunista, por outro lado, imporia, ao ver de Proudhon, restrições ao livre e pleno exercício das faculdades e potencialidades do indivíduo que estaria submetido à vontade da comunidade e, portanto, à sua opressão.
Esta oposição entre propriedade e comunidade, só poderia ser superada encontrando através da análise os elementos de cada um que constituiríam a verdade e a natureza da sociabilidade humana. A simples união destes dois elementos não pode ser senão impositiva ao ver de Proudhon. Tal síntese, segundo pretende o autor, constituir-se-á na liberdade.
A única centralização concebida neste modelo econômico seria a concepção de um "Banco do Povo" que seria responsável pela administração da circulação da produção e trocas de valores referentes ao trabalho dispendido pela emissão de "cheques-trabalho".
Debates na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores)
Karl Marx se opôs a esta concepção classificando-a como pequeno-burguesa na medida em que defendia pequenas propriedades para os trabalhadores. Já Bakunin, admirador de Proudhon, também foi relutante quanto às suas concepções individualistas, tendo mais tarde rompido com estas defendendo a socialização dos meios de produção, fundando a corrente dos anarquistas coletivistas/bakuninistas.
Ver também
* Anarquismo individualista
FONTE : http://pt.wikipedia.org/wiki/Mutualismo_(pol%C3%ADtica)
terça-feira, 16 de junho de 2009
O meu caminho para o anarquismo (achei no blog do Antonio Ozaí - clique aqui pra conhecer o blog)
Era uma tarde de sábado do ano de 1987. Não recordo o dia, por mais que me esforce. Mas lembro-me vivamente dos detalhes. Encontrei-o na PUC/SP e conversamos alguns minutos. Estava ali, por sugestão do Ricardo Antunes, para solicitar que contribuísse com a divulgação do História das Tendências no Brasil. Ofereci-lhe um exemplar, ele fez questão de comprá-lo. Ele foi muito amável e generoso, deixando-me à vontade. Esta generosidade, aliada à simplicidade no vestir e no falar, quebrou o meu encanto sobre a imagem que até então tinha sobre o intelectual universitário. O desencanto deu lugar a uma admiração sincera e livre das ilusões que cercam as relações no campus.Algum tempo depois, ele publicou a resenha “Confiança no processo”. Suas primeiras palavras foram: “O autor não é um intelectual, o que diz muito a seu favor”. Eu era um simples autodidata que ousou adentrar na “Casa de Salomão” e conhecer Maurício Tragtenberg. Este encontro marcou-me e foi decisivo nos rumos que tomou a minha vida.
Nos poucos contatos que tivemos após o encontro na PUC/SP, Tragtenberg estimulou-me a estudar. Chegou a entrar em contato com certa parlamentar petista para saber da possibilidade de uma bolsa de estudos. Ele foi importante para a minha decisão de retomar os estudos formais. Terminei por cursar Ciências Sociais na Fundação Santo André. Maurício se tornaria o meu orientador no mestrado que fiz na PUC/SP. Mais que orientador, ele foi um amigo e companheiro.
Com Maurício Tragtenberg, passei a conhecer a literatura libertária. Na época em que o conheci, e mesmo durante o mestrado, ainda estava embevecido com a obra de Marx/Engels e dos marxistas, como Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo. Maurício respeitou-me, aceitou o meu tema de pesquisa e deixou-me livre. Ele investia na autonomia do orientando. Às vezes indicava um livro ou outro, e até me presenteava. Jamais tentou me converter. Sua influência se dava muito mais pelo exemplo e seu jeito de ser. Foi por suas atitudes que me conquistou.
Tragtenberg foi a minha inspiração para conhecer o marxismo heterodoxo e os autores clássicos do anarquismo. As minhas leituras anteriores, por exemplo de “A Revolução Russa” (Rosa Luxemburgo), de “Memórias de um Revolucionário” (Victor Serge), a biografia sobre Trotsky, escrita por Isaac Deutscher, além do livro “A oposição operária” (Alexandra Kollontai), já haviam aguçado a minha visão crítica. A minha formação na Teologia da Libertação também contribuiu.
A partir da convivência com Maurício, também fiquei sabendo sobre Kronstadt e Nestor Makhno. A minha percepção crítica sobre os descaminhos da Revolução Russa e do significado do “socialismo realmente existente”, aliado à experiência da militância, me afastou cada vez mais do chamado marxismo-leninismo, em sua vertente stalinista ou trotskista. Estava aberto a conhecer o pensamento libertário.
Fiquei encantado com as descoberta que fiz a partir das obras dos autores anarquistas, mas isto não foi suficiente para decidir pela militância em algum grupo libertário. Por outro lado, o anarquismo acadêmico também não me atraiu. Não me considero um convertido ao anarquismo, embora reconheça sua influência sobre o que sou. Faz parte das minhas universidades. Por outro lado, também não renego a influência da obra de Marx/Engels e dos marxistas em minha vida. Como Maurício, segui só pela estrada da vida.
Dizem pelos corredores, de maneira elogiosa ou pejorativa, que sou anarquista. Quando me indagam publicamente, afirmo apenas que sou palmeirense. A patrulha ideológica, com as cobranças para que nos enquadremos num dos “ismos” disponíveis no mercado simbólico das ideologias é incapaz de aceitar isto. No entanto, não me parece tão importante assumir um rótulo ideológico. Mais importante é a prática e as atitudes: “Pouco importa o que você disser sobre si próprio. Você pode se declarar anarquista, democrata, popular, socialista... Importa é o que você faz. Esta é a diferença!”*
Persisto no ceticismo, duvidando dos dogmas e das certezas definitivas, sejam elas religiosas ou das ideologias seculares. A minha bússola é a dúvida e a liberdade; são elas que orientam o meu agir e o ser no mundo!
* In: Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, nº. 89, setembro de 2007.
POSTADO POR ANTONIO OZAÍ - 13/06/09
FONTE: http://antonio-ozai.blogspot.com/2009/06/o-meu-caminho-para-o-anarquismo.html
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Jaime Cubero e o Movimento Anarquista no Brasil
Estamos hoje a 28 de Maio de 1997 para entrevistar um grande amigo e companheiro - Jaime Cubero - figura sobejamente conhecida no Brasil dispensando quaisquer adjectivos, para a revista UTOPIA. Vamos tentar fazer aqui algo que fique para a história. Vamos tentar dialogar no sentido de articular a figura de Jaime Cubero com as ideias e práticas do anarquismo no Brasil e mesmo no mundo. Assim, a minha primeira pergunta é: Como é que enquanto pessoa, enquanto ser humano, emergiu para a prática e as ideias do anarquismo?
Eu comecei muito jovem. Eu tinha um vizinho espanhol que era anarquista e os filhos dele conviviam connosco. Jogávamos todos juntos na rua. Isto era na altura em que ainda não tinha dez anos, hoje tenho 70. Vejam só quanto tempo já passou! Estávamos mais ou menos em 1936/1937, ou seja antes de 1940. Esse meu amigo chama-se Liberto - hoje por acaso é meu cunhado, porque casou com uma irmã gémea. Esse meu amigo visitava-me quando eu estava doente e conversávamos muito. Como na altura eu era católico por causa das aulas que recebia no grupo escolar nós conversávamos muito sobre religião - nós ficamos órfãos quando morreu meu pai, com 33 anos. Éramos seis irmãos, a menor com dois meses e o maior com 8 anos, e no intervalo nasceram os gémeos: eu e minha irmã Aurora. É a partir daqui que uma série de fatos irão influir no meu pensamento.
Dividiram os irmãos de tal forma que 3 foram para a avó materna (o avô já tinha falecido) e 3 vieram para São Paulo para a avó materna. Minha mãe não casou de novo, daí as dificuldades que tinha para sustentar seis pessoas. Na altura a miséria era muita. Quando venho para São Paulo, minha avó matricula-me na escola, mas no 2º ano porque no primeiro já não havia vaga. Foi assim que eu só fiz três anos de escolaridade: do 2º ao 4º ano. Nesta fase é que eu começo a estabelecer relações com outros vizinhos nossos, de entre os quais o Liberto de que já falei, que marcarão profundamente a minha vida. No grupo escolar era obrigatório o ensino religioso (religião católica) - para me matricular minha avó teve de dizer que eu era católico senão não me aceitavam. Nessas aulas de religião (tinha eu 7 anos) esse meu amigo Liberto que tinha outra formação (anticlerical), começa a fazer a minha cabeça. Comecei a Ter uma curiosidade enorme pela religião. Logo depois começamos a fazer debates com o padre, com católicos etc. Começou tudo aqui. Nesse tempo, já depois de Ter saído da escola e estar a trabalhar numa fábrica (com 11 anos) onde trabalhava 10 horas por dia, no fim do dia nós nos reuníamos. Ia Ter a casa desse meu amigo e do irmão dele (que era sapateiro que trabalhava em casa) onde fazíamos leituras em conjunto e comentávamos tudo o que líamos. Um dos livros que viria a marcar a minha formação foi o livro chamado "Manolim" (livro muito divulgado nos meios anarquistas na 1ª e 2ª década deste século) Foi com este livro que eu aprendi o espanhol porque estava escrito em espanhol. Discutíamos bastante, fazíamos frequentemente leituras comentadas por todos.
A partir daí, desenvolvemos essas actividades de leituras comentadas e resolvemos um dia, já adolescentes com 16/17 anos, criar (sem contactos nenhum com o movimento anarquista) o que pomposamente resolvemos chamar de "Centro Juvenil de Estudos Sociais". Convidávamos para aí conviver todas as moças das nossas relações. As pessoas diziam que o que queríamos era "paquerar" (namorar) as raparigas. E de facto, dali saíram algumas uniões, inclusive a minha com a Maria (companheira da minha vida), a do Liberto com minha irmã e outras. Foi aí que começou tudo.
Depois disso, quando é que entras em relação estreita com o movimento anarquista?
Em 1945 no fim da Segunda Guerra Mundial e com a queda do Getúlio Vargas, reabrem-se as portas do Centro. O nosso grupo é descoberto por alguém que pertencia ao Centro e que nos propõe que o Centro possa participar nos nossos debates. Foi assim que tivemos a presença, numa das nossas reuniões, do Edgar Leuenroth, anarquista destacado, e a partir daí entrámos em contacto frequente com o Centro de Cultura Social . Fomos convidados para participar nas múltiplas actividades do Centro de Cultura Social em 1945.
Quais as principais actividades que desenvolveram nessa altura?
No seio do nosso grupo fazíamos essencialmente estudos, distribuíamos livros e fazíamos com que as pessoas emitissem/escrevessem as suas opiniões sobre os livros que tinham lido, o que faziam muitas vezes nas nossas reuniões. Quando passámos a fazer parte do Centro de Cultura Social as actividades multiplicaram-se. Passámos a participar nas reuniões do Centro, nas conferências, enfim em todas as actividades. Foi assim que um irmão meu que tinha aptidão para o teatro entra para um grupo de teatro do Centro.
No casamento do meu cunhado Liberto com minha irmã Aurora estiveram presentes muitos companheiros que pertenciam ao Centro, incluindo Edgar Leuenroth e o director do Jornal "A Plebe". Na altura fiz um discurso sobre o "amor livre" e foi então que Edgar me convidou para fazer parte da Comissão de Gestão do Centro de Cultura Social e participar em todas as actividades do Centro e do próprio movimento. Nessa ocasião tínhamos já bem a noção das iniciativas do movimento anarquista e tínhamos a consciência de que tinha de ser um movimento específico organizado por companheiros convictos. Para alguém entrar para o movimento tinha de ser conhecido de alguém, isto é, tinha de ser apresentado por dois companheiros por uma questão de confiança.
Logo após a queda da ditadura de Getúlio organizou-se a União Anarquista de São Paulo. Faziam-se conferências ao sábado. Comemorávamos datas, por exemplo a da revolução espanhola. O local do Centro de Cultura Social passou a ser ocupado também pelo Movimento espanhol no exílio, o qual passou a participar bastante nas actividades do Centro. Criámos mesmo dois grupos de teatro, um português e outro espanhol.
Houve uma reanimação do Centro de Cultura Social, do Movimento Libertário Anarquista após a 2ª guerra mundial e a queda da ditadura em 1945.. Sabemos que o Centro teve muita importância para o movimento libertário no Brasil nos anos 10 e 20. Após a ditadura quais as articulações, quais as incidências das actividades do Centro no movimento operário?
Discutíamos bastante a directriz do movimento, a participação do movimento operário etc. Fazíamos congressos para reanimar a actividade do centro e para aumentar a participação operária. Num desses congressos, que foi muito divulgado na revista "Cruzeiro", conseguiu-se uma entrevista de Roberto das Neves, português militante muito importante e muito conhecido no Brasil pelos seus livros e editora (de livros anarquistas) que os publicava "Germinal". Na sua luta salazarista foi vítima de fortes perseguições, chegando inclusive a ser torturado (simularam um acidente mas o que houve foi uma tentativa de assassinato) porque essas pessoas que ele hostilizava com uma linguagem muito dura não o deixavam. Articulámos também as nossas actividades com as do Movimento do Rio de Janeiro. Logo a seguir à ditadura havia uma série de pessoas como Edgar Rodrigues de entre muitos outros que faziam parte do movimento e que passaram a ser contactadas para reuniões. Fazíamos várias reuniões entre vários estados mas de carácter eminentemente anarquista. Editámos mesmo um jornal, no pós ditadura, "Relações Anarquistas" no Rio de Janeiro, vindo depois o "Acção Directa". Depois ainda fiz parte também do jornal "A Plebe". Tínhamos uma actividade tremenda. Não havia descanso. Trabalhávamos de segunda a segunda. Fazíamos a nossa propaganda via teatro, jornais e comícios que convocávamos para recintos mais ou menos fechados porque nessa altura e ainda hoje só se pode falar em local público pedindo autorização/alvará de ordem política e social. Na onda política do pós ditadura os anarquistas procuraram ocupar um espaço de destaque e conseguiram-no consideravelmente.
Do que tenho lido do Jaime Cubero é que nas primeiras décadas do nosso século havia uma actividade essencialmente operária, que se circunscrevia às fábricas: greves, escolas, teatro e toda uma série de práticas operárias. Após a queda de Getúlio e o fim da Segunda Guerra Mundial há um ressurgimento do movimento anarquista embora as práticas estejam agora mais circunscritas a publicações, mais circunscritas aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, não estando tão ligadas ao mundo fabril. Será assim?
Fizemos de facto várias tentativas no sentido de fazer participar o movimento operário. Cada qual procurou ingressar num sindicato.. Eu, que era sapateiro, assistia a reuniões do sindicato onde estava presente um membro do Ministério do trabalho para fiscalizar. As discussões nestas reuniões eram muito difíceis porque os comunistas queriam impor-se, queriam fazer sempre tudo de acordo com a lei. Nós queríamos lutar num espaço público, nas ruas, lugar sempre ocupado pelos anarquistas. O movimento anarquista aqui no Brasil tem tradição de estar sempre muito ligado ao operariado. Chegou a ter proporções gigantescas. O movimento anarquista foi um poderoso instrumento histórico no Brasil. Todas as leis trabalhistas condensadas na legislação no pós ditadura foram conquistas, práticas concretas dos anarquistas sempre em prole do movimento operário. Como exemplo disso vou falar de uma tese de doutoramento que foi defendida aqui há cerca de 4 meses e que era sobre a greve de 1917. A proporção dessa greve foi enorme. Após a morte de um operário espanhol chamado José Martinez, assassinado pela polícia, no seguimento do enterro dele foi aí que eclodiu o movimento. Chegaram a participar nessa greve mais de 200 mil pessoas quando a cidade pouco mais tinha que 400 mil. Logo, mais de metade da população da cidade envolveu-se na greve. Foi a maior greve geral da história do Brasil.
O movimento operário, após a queda da ditadura do Getúlio, procurou implantar-se em todos os lugares. O Herbert Marcuse, considerado um guru do Maio de 68 em Paris, dizia que os elementos de contestação do sistema acabariam por ser coarctados pelo sistema e passariam a fazer parte do sistema.
Ora já no Brasil, Florentino de Carvalho, um dos grandes militantes do Brasil que tem um livro famoso "Da escravidão à liberdade" discutia com Edgar Leuenroth sobre estas questões: preconizava que o sindicalismo acabaria como uma extensão do Estado; que as reivindicações seriam tomadas como elementos de rentabilidade dos sindicatos.
Quando se chega aos anos 50 Edgar preocupa-se muito com o movimento operário. Organizámos então o Movimento de Orientação Sindical (MOS) que promoveu uma série de actividades tendo durado até ao golpe militar que instaura a nova ditadura em 1964. A posição do MOS era combater o sindicalismo fascista.
Não tiveram também uma nova concorrência que foi, em certa medida, também ela a causa da perca de influência do movimento anarquista nas suas múltiplas vertentes, concorrência essa que adveio do advento histórico da revolução russa. Será que este acontecimento teve importância na "derrocada" do anarco-sindicalismo?
A minha visão do problema é a seguinte. Para determinado evento histórico é comum procurar uma causa. E às vezes delimitar essa causa. Muita gente imputa ao Partido Comunista essa perca de influência. O Partido Comunista é fundado em 1922 e a partir daí o movimento anarquista começa a perder influência. Na década 30, já toda uma série de legislação trabalhista tinha cariz fascista. Os sindicatos que surgiram eram fascistas. Então qualquer sindicato de organização operária que não pertencesse ao estado era combatido como clandestino. Estes não podiam organizar-se em liberdade. Mas os anarquistas resistiram bastante. Em 1934, quando houve um grande confronto no centro da cidade de São Paulo entre anarquistas e fascistas - nome dado aos integralistas aqui no Brasil - na Praça da Sé, os trabalhadores que pertenciam à Federação Operária de São Paulo resolveram enfrentar os integralistas (fascistas) que se propunham fazer uma marcha integralista na cidade de S. Paulo à semelhança da marcha que havia tido lugar em Roma no tempo do Moussoulini.
Essa marcha integralista estava marcada para o dia 7 de Outubro de 1934. Os anarquistas organizaram-se para os enfrentar e combinaram também um acto para a Praça da Sé nesse mesmo dia. O Jornal "A Plebe" que divulgava já a ascensão do fascismo divulgou também esse acto anarquista. Para esse confronto, os companheiros anarquistas disseram que estariam lá nem que fossem mortos. Chegado o dia os companheiros colocam-se em lugares estratégicos na Praça da Sé e armados (porque a época não era para brincadeiras, era de luta).
Quando os fascistas chegaram, todos de camisas verdes (em Itália eram os camisas pretas), começaram a concentrar-se esperando 500 mil pessoas que não chegaram a tantas, colocando na frente da marcha mulheres e crianças por pensarem que ninguém dispararia contra mulheres e crianças. Os anarquistas esperaram que mulheres e crianças passassem e depois… tendo um dos companheiros - Simão Rodovich percebido que havia metralhadoras que estavam prontas a disparar sobre os operários, ele toma conta de uma delas e começa então um tiroteio enorme. Morreram 6 pessoas, muitas delas ficaram feridas e algumas morrendo depois devido aos ferimentos, mas o que é de salientar é que houve uma debandada enorme, a passeata dos fascistas abortou. Isto para demonstrar que o movimento anarquista não morreu, a manifestação de 1934 demonstra que ele estava bem vivo.
Havia uma revista do Partido Comunista da época "Divulgação Marxista", que era suspeita quando dava dados. O Partido Comunista não chegava na altura a ter 1000 filiados no partido, contudo chegaram quase a dizer que tinham sido eles a enfrentar os integralistas. Irónico não é? Em contrapartida a Federação Operária de São Paulo tinha mais de 80 sindicatos que não pertenciam ao Estado.
Pôr tudo isto não podemos dizer que houve só um factor que tivesse contribuído para o refluxo do movimento anarquista tendo antes havido uma conjugação de factores. O Movimento não foi capaz de reflectir sobre o que se estava a passar a nível mundial. Deixou-se ultrapassar pelos acontecimentos. Mas durante muito tempo teve superioridade face ao Partido Comunista, partido este que em 1922 já pertencia ao governo. Nessa conjugação de factores inclui-se não só o Partido Comunista como também todos os outros partidos que aderiram ao governo, ou seja, ao sindicalismo oficial (menos os anarquistas que o não fizeram). Mas... na minha opinião o principal factor foi a repressão da época. Foi um fenómeno mundial. Basta pensar nas ditaduras de Salazar em Portugal, Peron na Argentina, Franco em Espanha, Hitler na Alemanha, Mussolini em Itália, etc… Se pensarmos no período histórico em que as ditaduras imperaram podemos Ter aqui o principal factor causal do refluxo da importância do movimento anarquista.
Tendo a noção que se registou um refluxo, há uma tentativa após a 2ª guerra mundial para activar de novo o movimento. Como o fizeram? Circunscreveram-se apenas a publicações? Que actividades desenvolveram?
Muitas actividades como conferências, cursos e outras. Em São Paulo chegámos a ter milhares de alunos. Procurámos ocupar espaços físicos novos. Na Universidade de S. Paulo havia um Conselho de que fazia parte Edgar Leuenroth e muitos outros de grande projecção. Passámos a ter uma actividade considerável tendo em conta o período de repressão que tínhamos vivido e ainda se vivia. Qualquer actividade de teatro juntava sempre centenas de pessoas. Editámos uma série de jornais, mesmo depois do jornal "Acção Directa" e nos anos que antecederam a nova ditadura. O movimento anarquista, como todos os outros, tem momentos, circunstâncias em que consegue grande projecção e outros momentos menos áureos. Existe contudo um meio anarquista que gravita em torno de um grupo que vai crescendo e alargando-se por várias zonas.
Em 1964 instala-se uma nova ditadura, não é?
Em 1954 eu pertencia ao teatro do Centro de Cultura Social e o Edgar tratava das conferências, reuniões do centro etc. É preciso não esquecer que o movimento específico anarquista não é público, é clandestino. O Estado jamais daria autorização para combater o Estado, só deu licença para se ter o espaço físico do Centro. Mas desenvolvemos sempre actividades específicas pertencentes a um meio anarquista. Criámos mesmo a União Anarquista de São Paulo. Nos dias de reunião da União apareciam sempre muitas pessoas. Mas mesmo com os cuidados todos que tínhamos em relação às pessoas que queriam assistir, acabavam sempre por se infiltrar policiais que faziam depois verdadeiras actas das nossas reuniões.
Quer dizer que a actividade clandestina afinal não chega?
Claro que não chega. Tanto não chega que, uma tese recente investigou sobre as pessoas que pertenceram ao Centro de Cultura Social, e muitas foram descobertas através desses registos policiais. Nesses registos aparece o nome de Mário Santos, que era um orador ímpar.
Quais os efeitos negativos para o movimento anarquista da ditadura instalada em 1964?
A ditadura de 1964 foi terrível. Praticamente anulou tudo. Nós resistimos até 1968 quando foi instituído o Acto Constitucional, que foi a lei mais repressiva que a ditadura promulgou. Foi um aperto. Eliminou-se toda e qualquer actividade pública que vinha sendo exercida. Tudo o que se podia fazer era na clandestinidade., correndo todos os riscos inerentes às circunstâncias. Quando soubemos da Revolução, isto é, do golpe militar de 1964 conseguimos resistir até 1968, ou seja, até à dita lei. Tínhamos ainda um jornal e todas as actividades do Centro. Uma forma de poder continuar em actividade e resistindo foi criando o Centro de Cultura Social a que nós chamávamos o "Laboratório de Ensaio", onde com marceneiros, carpinteiros e outros operários construímos um pequeno teatro de arena, que levava cerca de 60 pessoas bem instaladas. Levávamos á cena peças inseridas nas circunstâncias políticas. Um exemplo foi uma peça chamada "Os Generais", cujo tema era como transformar um general num ser humano. Por aqui pode ver-se a nossa actuação.
O nosso teatro foi registado como uma escola de teatro. A polícia aparecia muito mas dizíamos que estávamos numa aula e assim lá íamos correndo os nossos riscos, mas sempre desenvolvendo as nossas actividades culturais --exposições de arte, recitais de poesia, etc. - sob uma repressão tremenda mas sempre, sempre resistindo. Com a instituição desse Acto político, a repressão intensificou-se e encerrámos provisoriamente - que durou 16 anos, só reabrimos em 1985 - algumas das actividades do laboratório mas fomos desenvolvendo acções na mesma como seminários sobre racismo, sindicalismo e outros temas. Fazíamos também comemorações de datas, relativas à revolução espanhola por exemplo e outras.
Entre 1954 e 1964 esteve no Rio de Janeiro. Em 1964 estava em São Paulo mas antes esteve no Rio de Janeiro. Fale-me um pouco da greve em que participou dentro do Jornal o Globo.
Trabalhei no Jornal o Globo durante 10 anos. Eu antes trabalhava como sapateiro, sendo conhecido pela minha capacidade intelectual. Eu não fiz curso nenhum, como disse antes, só tenho 3 anos de curso primário. O resto se deve ao meu autodidatismo, sendo o Centro de Cultura Social a minha grande escola. Eu consegui registar-me como jornalista profissional no Rio de Janeiro para trabalhar no jornal o Globo. Eu fui demitido na sequência do apoio a uma greve de solidariedade que o sindicato dos jornalistas profissionais resolveu apoiar a greve dos jornalistas gráficos. Como a nossa negociação salarial estava quase na hora, decidimos apoiar os gráficos e depois eles apoiar-nos-iam a nós. Foi assim que entrámos na greve directa e que tivemos uma participação muito importante porque montámos piquetes para não deixar os jornais sair. Estávamos praticamente 24 horas acordados para desenvolver toda uma série de actividades. Depois de a greve terminar, só no Rio foram demitidos cerca de 80 jornalistas. O representante do nosso sindicato marcou um encontro com o Roberto Marinho com o objectivo de sermos readmitidos. Alguns colegas, instruídos por advogados, negaram a sua participação na greve, dizendo que tinham ficado em casa e….. Eu fiquei um pouco revoltado e então eu disse: eu não sei o que cada companheiro fez mas eu participei plenamente em tudo, eu participei na greve, eu fiz as actas do sindicato porque o nosso salário é incompatível com a nossa profissão, etc. Disse ainda que não me eximia de participar nesta luta porque era uma luta importante. Roberto Marinho não estava habituado a lidar com tanta franqueza.
Eu voltei ao jornal, não espontaneamente. Eles mandaram-me chamar , por parte do sindicato, e soube então que Roberto Marinho tinha ficado surpreendido comigo e com o meu discurso, propondo-se então a aceitar-me no jornal. Eu disse que sim mas com uma condição: que todos os outros demitidos fossem também admitidos, que todos voltassem ao trabalho. Eles não aceitaram e esta foi a primeira vez.
Mas mandaram-me chamar uma segunda vez. Nesta segunda vez Roberto Marinho disse-nos e impôs: vocês estão aqui mas concordo que voltem com uma condição: assinando uma carta, individual ou colectiva, declarando que estão de acordo com a orientação do Globo, se arrependem de ter feito greve, que nunca mais farão e prometo não utilizar esta carta no Ministério do Trabalho.
Nesta segunda vez, neste encontro entre sindicato e jornal, mandei dizer que eu só voltava a trabalhar no jornal se Roberto Marinho escrevesse uma carta em que declarasse que estava arrependido de me ter demitido, que nunca mais iria incorrer no mesmo risco, e que eu prometia nunca usar esta carta etc… Não aceitou e foi o fim. Não voltei mais.
A greve durou quantos dias?
Durou 4 dias.
Foi então para São Paulo e as actividades, para além daquelas do Centro Cultural, quais eram? Qual a diferença entre os dois tipos de resistência?
Quando foi promulgado o Acto da ditadura nós procurámos o Pedro Catarro e dissemos que tínhamos uma edição do jornal que não conseguíamos editar porque se o fizéssemos éramos presos. Ele a princípio não acreditou, mas depois lá o convencemos e o jornal foi editado e distribuído. Como ficámos reduzidos a um grupo muito pequeno, resolvemos cancelar as actividades do centro, mas muitos eram de opinião que era impossível fechar o Centro. Havia um Centro no Rio de Janeiro que foi fechado e contaram-nos o que lá se tinha passado. A polícia invadiu o Centro, pensando que tinha apanhado peixe graúdo, faziam então inquéritos policiais. Prenderam uma série de companheiros nossos, alguns muito jovens. O nível policial era muito baixo. Mas os que faziam os inquéritos eram de nível mais elevado militarmente. O Roberto das Neves uma vez que era conduzido para o "Galeão", vira-se para um polícia e diz-lhe que apesar da sua cara siamesa tinha um ar de pessoa. O polícia diz-lhe que apesar do elogio não se "safava daquela".
Conte-me um pouco o que pensa sobre o Roberto das Neves.
O caso do Roberto das Neves é paradigmático. O Roberto das Neves, em Portugal escreveu um livro sobre as profecias onde dizia que o Hitler, o Franco, o Salazar morreriam. Escreveu o livro com o nome de Ernesto, espécie de profeta alemão. Ele era uma figura incrível. Hostilizava os racistas portugueses, que estavam, via consulados portugueses, numa série de instituições que ele hostilizava. Utilizava poesias satíricas, utilizando uma linguagem muito forte. Teve consequências numa série deles, deram-lhe mesmo uma surra. Ele publicou muitos livros aqui no Brasil, na editora Germinal. Ele mandava os livros para as pessoas mesmo que não lhos pedissem. Uma vez devolvi uma colecção que ele me enviou. Quando esteve preso no "Galeão" exigiu comida vegetariana, dizia que não era devorador de cadáveres e acabavam por lhe fazer a vontade.
Após 1964, a ditadura desenvolve-se, ganha força. Mas a partir de certa altura começa a decair em 1984/85. Como é que a partir daí o Centro Cultural volta a ganhar força?
O ex-Secretário-Geral do Centro esteve a trabalhar no Chile como tradutor. Quando veio foi preso e levado para o Galeão também. Um polícia sargento vira-se para ele e diz-lhe que pode começar a falar porque já tinham prendido mais de 80 anarquistas. Ele pergunta como é que isso era possível se ele nunca tinha conseguido juntar mais de 10 em dez anos.
Encontrámo-nos depois na Praça da República quando ele estava em fase de processo. Ele disse-me que se ia embora e foi.
Após 1984 começámos a desenvolver novamente uma série de actividades, em vários lugares. Organizámos seminários sobre racismo, sindicalismo, etc. Fazíamos comícios. Mas não tínhamos uma sede. Estávamos numa fase de distensão. Tentámos encontrar um espaço para reabrir o Centro. Reunimos com várias pessoas e neste período coincidiu o facto de a TV Cultura na altura estar a fazer uma série de programas sobre teatro. Nesse contexto queriam fazer um programa sobre o teatro operário que era o teatro libertário. Procuraram-me para dar uma entrevista e perguntaram-me onde era o Centro. Disse onde tinha sido e qual não foi o meu espanto que quando lá chegámos o Centro estava para alugar e nós alugámos logo a sede, aproveitando o papel ainda existente e tudo o que lá havia. Fomos ao cartório para reiniciar a actividade. Com a inauguração do Centro, recebemos muitas cartas de todo o lado. Aparecemos nas revistas de grande saída. Começamos depois a articular o movimento com actividades múltiplas, tendo os media dado uma grande cobertura à reabertura do Centro.
A COB(Confederação Operária Brasileira) surgiu. Durante a clandestinidade continuávamos a reunir. Mesmo durante o período de ditadura chegávamos a encontrarmo-nos cerca de 90 pessoas. Tudo na clandestinidade, mas conseguíamos resistir. Só não editávamos nada. Começámos a interessar-nos pelo sindicalismo e inclusive criámos, no Centro, uma Comissão Sindical, criando mesmo comissões específicas: comissão sindical; comissão do teatro, agora temos a comissão de cinema. A comissão sindical começou então a encetar contactos com os sindicatos. A CNT(Confederação Nacional do Trabalho) tinha sede em Espanha. Quando viram que nos interessávamos pelo sindicalismo vieram cá e preparámos um encontro nacional. Quiseram reconstruir a COB. Quanto a mim, já não será mais o que foi. O sindicato hoje tem que se preocupar mais com a apropriação do conhecimento do que com as reivindicações salariais. Uma representação da Baía propõe também a reconstrução da COB. Como criar uma Federação sem sindicatos? Primeiro há que criar sindicatos de ofícios vários, por ramos de actividade só depois virá a Federação.
Veio uma proposta de novo da Baía no sentido de se criar um núcleo. Criaram-se Núcleos pró-COB com representações em muitos estados do Brasil. Foi mesmo lançado um jornal "A Voz do Trabalhador" que conquistou a confiança de todos. Leonardo Moreli, hoje aliado político da extrema direita no Brasil foi na altura enviado como representante (delegado brasileiro) ao congresso AIT(Associação Internacional dos Trabalhadores). Ali enrolou toda a gente (os espanhóis). Mas ele, Leonardo, só estava interessado no dinheiro. Foi uma pessoa que prejudicou demais o movimento anarquista. Eu fui nomeado secretário dos Grupos pró-COB. Tínhamos a intenção de levar para a frente uma Federação. Por outro lado, na reabertura do Centro (1985) estiveram presentes muitos canais de TV, que deram uma cobertura incrível, fazendo uma série de entrevistas.
O que fizemos de importante foi um curso de anarquismo onde se apresentaram mais de 50o pessoas (apesar dos custos de inscrição). A partir daí passámos a fazer cursos de anarquismo universitários.
Outro curso que lançámos foi "As ideias libertárias na Revolução Francesa" que foi muito divulgado no meio universitário. Temos uma relação importante com a Universidade.
Em 1974, a família de Edgar vende o Arquivo, o Acervo Colectivo para o Unicamp, porque pensavam que tinham ali uma fortuna. Mas, o Edgar antes de morrer deixou anotado uma espécie de testamento dedicado aos seus companheiros no sentido de ser criado um Arquivo da Questão Social. Mas estavam muito interessados neste Arquivo (comunistas com medo de serem comprometidos). Mas aí a família continuava a querer vender. Quando abriram o testamento, a família soube que não podia vender para alguém dos EUA que lhe oferecia muito dinheiro por ele. Resolveram criar um memorial Edgar Leuenroth em plena ditadura, o que nos impossibilitava de fazer algo.
O Arquivo do Edgar na Universidade de Campinas não irá só servir para os intelectuais?
Começou de facto a surgir um interesse universitário pelo Arquivo. Descobriram um filão para fazer pós-graduações em História e outras Ciências Sociais. Muitas editoras passaram a criar colecções sobre o Anarquismo. A Contexto criou uma colecção enorme. A uma dada altura, o Jorge perguntou-me se podia fazer um levantamento exaustivo sobre o Anarquismo. Foram feitas pesquisas de investigação sobre o Anarquismo e mesmo teses de doutoramento. O Arquivo do Edgar foi importantíssimo nesse aspecto. Eu próprio fui convidado para o visitar.
Há uma grande difusão do anarquismo em termos académicos, através de doutoramentos, palestras…
Desculpe interromper, mas a difusão do anarquismo foi mesmo muito grande. Fomos convidados para fazer cursos nas Universidades, palestras, etc… Foram abertos espaços grandes neste campo na Universidade de São Paulo. O trabalho na universidade para nós foi muito importante. Havia quem não o considerasse como tal. Temos tido muita adesão a este campo. Os auditórios têm estado sempre lotados.
A actividade universitária está a desenvolver-se. Mas noutros espaços, como os anarco-punks, o que tem acontecido?
Os punks aqui têm criado muita confusão, de forma algo violentos. Chegaram a promover acções muito violentas e a confrontar-se, hostilizando mesmo os militares em parada. Só que, quando o fizeram, em dada altura chegou a polícia e prendeu mais de 300. Sobre este assunto eu dei uma entrevista para a folha de São Paulo. Hoje, o néo-nazismo, cabeças rapadas geram muita confusão, muita violência entre eles e os anarco-punks. Houve mesmo mortes. Parece-me haver falta de informação. Mas, com mais informação, alguns deles estão desenvolvendo acções mais positivas, em cooperativas operárias. Com o desemprego imenso que crassa o Brasil, todos os que sabem de uma profissão é positivo. Contribuem para melhorar a imagem deles. É parecido com o Movimento dos Sem Terra. Estes estão construindo casas, semeando, conseguem autosustentar-se. Temos acções a vários níveis com os anarco-punks que são cada vez mais positivas.
E aqui terminamos a última entrevista dada pelo nosso companheiro Jaime Cubero, ainda no ano passado, à revista UTOPIA. Um obrigado póstumo, mas não morto de todos nós que temos o privilégio único de ouvir a sua voz uma vez mais. Até sempre companheiro.
José Maria Carvalho Ferreira



