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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Carta de José Pacheco a Nise da Silveira - 2013



*Mensagem recebida pelo Whatsapp
Em tempos de angústias, incertezas e ebulição de sentimentos que transitam entre o amor e o ódio, vem os eflúvios da transformação. O texto abaixo me foi enviado pelo amigo e grande artista Marcio Cunha.

Carta de José Pacheco, nosso maior educador vivo, a Nise da Silveira, escrita em 2013 e publicada no livro "Aprender em Comunidade", do Professor José Pacheco. Uma profecia poderosa. (Rio de Janeiro, Setembro de 2013).

"Querida Nise,
dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão guetizados: os loucos em hospícios, as crianças nas escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola. Mas a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconheceste genialidade, deram origem a um belo museu, são prova de que nem tudo está perdido. Há alguns dias atrás, estive no teu Engenho de Dentro, na boa companhia do Vítor e do Ney Matogrosso. O Hotel da Loucura vai provando ser possível, em imprevistos e improváveis lugares, retomar o rumo perdido da humanização, concretizar a utopia.
No discurso sobre educação, a palavra utopia é, geralmente, sinônima de impossibilidade. Porém, utópico será algo que indica uma direção, que requer intencionalidade e ação. Como diria Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las”. Concretizar utopias – recriar vínculos, rever e re-olhar, reelaborar as práticas – reconfigura a metáfora do Mito de Sísifo, o “inédito viável” freiriano. A nova educação, que emerge do sonho de todos nós, deverá formar o cidadão democrático e participativo, sensível e solidário, fraterno e amoroso, o ser humano dotado de educação integral.
Todas as teorias estão escritas. Todas as experimentações, reformas e modas já foram ensaiadas. Por isso, importa renovar a denúncia da guetização da juventude, a par com o anúncio da possibilidade de uma aprendizagem participativa e transformadora. Nunca será demasiada a afirmação da possibilidade de uma escola na qual os aprendizes aprendam a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”.
O que se aprende dentro de um edifício escolar, que não possa ser aprendido fora dos seus muros? O espaço de aprender é todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, é a vizinhança fraterna.
Pois é, querida Nise, por todo o Brasil surgem o que poderei chamar protótipos de comunidades de aprendizagem, a partir da escola, embora elas possam ter outras origens. Refiro-me a práticas de eco-sustentabilidade, de estímulo ao espírito inventivo e criação de soluções novas, baseadas no princípio ético que nos diz que tudo o que for inovado o deva ser para benefício coletivo.
O modelo escolar não é o único modelo de educação e a educação deverá ser pensada mais a partir das comunidades que serve, do que a partir da instituição, de modo a que os processos de aprendizagem tenham um papel transformador nas sociedades. A escola é o equipamento social mais abundante, uma das maiores conquistas do povo, numa área de escassos quilômetros quadrados, encontraremos meia dúzia de escolas e apenas um hospital. Mas as comunidades de aprendizagem não dependem da existência de um prédio escolar (a “pedagogia predial”, como o Lauro ironizava) e sim da utilização de prédios e espaços da comunidade, nos quais, os estudantes possam, junto à comunidade, aprender e exercer cidadania, desfrutando de seus direitos ou realizando seus deveres, para o bem de toda a comunidade. Que a escola não seja somente interface com a realidade, mas espaço onde ocorrem atos contributivos do desfazer do abismo entre a realidade escolar e outras realidades.
Tampouco a aprendizagem depende apenas do professor, pois é necessária uma tribo inteira para educar uma criança. Ainda há quem pense que basta decorar matéria e vomitá-la numa prova, sem perceber que a maior parte dos conteúdos supostamente aprendidos (segundo pesquisas recentes) se esvai da memória, alguns meses após a prova. Aliás, uma prova quase nada prova. E na sigla IDEB (por seres pessoa sábia, não irias entender, se eu tentasse explicar o que seja...), que tanto preocupa professores, escolas e secretarias, e faz submeter os pobres alunos a simulados e intensos treinamentos, as letras ID não significam (como pretendem alguns) “índice de desenvolvimento”, mas “índice de decoreba”. Creio que esses loucos não diagnosticados não terão lido Paulo Freire na universidade. No seu curso de formação, talvez nenhum dos seus professores lhes tenham dito que ninguém educa ninguém, como tão pouco ninguém educa a si mesmo, e que os homens se educam em comunhão, mediados pelo mundo.
Urge rever os conceitos de espaço e tempo de aprendizagem, para que os “paidagogos” não mais conduzam as crianças da comunidade para a escola, mas as libertem da reclusão num gueto escolar e as devolvam à comunidade, na qual a escola constitui um nodo de uma rede de aprendizagem colaborativa. As escolas poderão constituir-se em espaços de cultura, lugares onde os saberes eruditos se casam com os saberes populares, onde a transformação acontece na partilha de conhecimento produzido. Crianças, jovens e adultos poderão utilizar essas escolas, sempre que desejarem, ou precisarem. Sem necessidade de entrar na escola no horário-padrão de aula, ou ter “falta” por chegar atrasado. Sem necessidade de perua e ônibus (como já nos avisava o Anísio, há décadas atrás), sem departamentos de “transporte escolar”, onde se esgotam recursos (em funcionários administrativos, motoristas, seguranças, manutenção, combustível, quando não se constitui em ninhos de corruptos e máfias...), se força a criança a acordar de madrugada e penar longas viagens, para ouvir algumas horas de aula, onde quase nada aprende e através das quais, começa a colaborar com a desertificação das comunidades, que deveria ajudar a desenvolver.
Isso expliquei, em pormenor, a muitos políticos e a gente que se diz professor. Disse-lhes que um novo modelo de educação não pode alicerçar-se no velho e que àquilo que é novo não devem ser aplicados raciocínios dedutivos. Nada adiantou, querida Nise. A loucura benévola daqueles que estão no Engenho de Dentro em nada se compara à loucura daqueles que, fora do hospício, insistem em manter um sistema falido, gerador de ignorância e infelicidade. Estes são os loucos de que nos falava Einstein. Vão delapidando o erário público em projetos, pactos, programas, capacitações, consultorias, assessorias e outras inutilidades. A última pesquisa dada a conhecer aponta como dado que o desperdício anual é de cerca de 56 bilhões de reais. É, ou não é uma loucura?
Quero crer, amiga Nise, que, depois de tempos sombrios, há de despontar a claridade que ponha fim à loucura. Que terá chegado o tempo de, à semelhança do Jung, o Brasil te encontrar."


INÍCIO 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

VILA - ESCOLA PROJETO DE GENTE - EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA NA BAHIA


http://www.vila-escolaprojetodegente.com.br/










SOBRE A VILA - ESCOLA PROJETO DE GENTE - EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA NA BAHIA


http://www.vila-escolaprojetodegente.com.br/p/prestacao-de-contas.html


Uma breve história da Vila-Escola Projeto de Gente



A Vila-Escola é uma experiência de educação comunitária, libertária, democrática, sem fins lucrativos e gratuita, atenta à voz de cada criança, à liberdade de expressão, ao processo de individuação à construção de uma sociedade justa e sem preconceitos. A Vila-Escola pretende, um dia, se constituir como escola formal, vivendo livre, seu próprio desenvolvimento.





Nasci em 2001, na cidade Rio de Janeiro, através das reflexões de um terapeuta e médico homeopata. Instigado pelo conceito de saúde sob o ponto de vista da homeopatia, meu idealizador se reuniu com alguns amigos para conversar sobre a relação entre autoconhecimento e saúde. O homeopata percebe a saúde começando em cada um, não fora de cada um. Quanto mais alguém se conhece e se expressa livremente mais seu organismo funciona melhor, mais saudável. Sobre isso conversavam e logo perceberam a íntima ligação entre a educação e o bem-estar. Conheceram as escolas Democráticas e criaram a Associação Projeto de Gente.



Durante os seis anos que esse grupo se encontrou na capital carioca, eu cresci e amadureci um pouco – a minha base foi cuidada com muito carinho. Em 2007, vim morar no sul da Bahia – na Vila de Cumuruxatiba -, com meu idealizador. Nesse momento eu já sabia que era libertária. Libertária no sentido de que acredito que toda pessoa possa ser autônoma e construtora de um mundo em que o bem-estar pessoal e coletivo estejam entrelaçados.



A partir desse ano várias crianças apareceram em minha vida e uma nova etapa se iniciou: finalmente estávamos junto das crianças. Por favor, não vos precipite pensando que a partir de então somente as crianças se beneficiaram dessa proposta libertária de educação. Os adultos envolvidos continuaram em seus processos educativos, agora junto com a meninada. E digo adultos, no plural, pois muitas(os) moradoras(es) da Vila de Cumuruxatiba, me adotaram. Desde então, foram muitas as casinhas que ocupei na Vila – até mesmo debaixo de um pé de jamelão vivi por uns tempos –, também foram muitas crianças e adultos que passaram pela minha vida. De todos, lugares e pessoas, eu lembro carinhosamente.


Ensino libertário deixa legado na aprendizagem

http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2011/09/19/paulo-freire-90-anos-ensino-libertario-do-educador-continua-a-contribuir-para-aprendizagem-do-futuro/


Ensino libertário deixa legado na aprendizagem



Na busca do ideal de educação fundamentada na democracia e na tolerância, Paulo Freire fez história. Em pleno século XXI, a proposta do educador brasileiro está presente tanto no legado de suas obras como na atualidade de seu pensamento. No dia 19 de setembro de 2011, Paulo Freire completaria 90 anos. Comemorações do seu nascimento ocorreram ao longo do ano em todo o país.
Leia também:
- PUC disponibilizará vídeos de Paulo Freire para consulta
- Devemos buscar modelo de escola para intervir no mundo, diz diretora do MEC
Internacionalmente respeitado, os livros do educador foram traduzidos em mais de 20 línguas. No Brasil, tornou-se um clássico, obrigatório para qualquer estudante de pedagogia ou pesquisador de educação. Detentor de pelo menos 40 títulos honoris causa (por universidades a pessoas consideradas notáveis), Freire recebeu prêmios como Educação para a Paz (Nações Unidas, 1986) e Educador dos Continentes (Organização dos Estados Americanos, 1992).



"Defendo a educação desocultadora de verdades."
“Defendo a educação desocultadora de verdades. Educando e educadores funcionando como sujeitos para desvendar o mundo”, dizia Freire. A educação como prática da liberdade, defendida por ele, enxerga o educando como sujeito da história, tendo o diálogo e a troca como traço essencial no desenvolvimento da consciência crítica.
Uma pesquisa sobre o educador feita em escolas públicas de São Paulo a partir dos anos 90, pela Cátedra Paulo Freire (PUC-SP), constatou que aquelas baseadas em gestões democráticas são as que mais se aproximam do pensamento freireano. “Suas reflexões servem de base para discutir os desafios do mundo”, afirma a coordenadora da Cátedra, Ana Maria Saul, que trabalhou com o educador entre 1980 e 1997.
Freire se mantém presente também na universidade. Uma consulta na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) revela que entre 1987 e 2010, 1441 pesquisas tiveram como referencial o educador – 75% na área das ciências humanas, 19% na biológicas e 6% na exatas. “Esses números, que têm crescido a cada ano, e a diversidade de áreas mostram como é fértil a reflexão de Paulo”, aponta Ana Maria.
Atualidade do pensamento
“Ele usava o passado para interpretar melhor o presente. Tenho certeza que Paulo já estava no século XXI pelos questionamentos que colocava. Dizia: ‘se vocês concordam comigo, não me repitam, recriem’”, lembra a coordenadora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Lisete Arelaro. Ela trabalhou com Freire durante os anos 90 e ministra a disciplina eletiva “Paulo Freire: Teoria e Práxis”.
A atualidade do autor é comprovada, por exemplo, em uma das questões que mais perturba a educação pública hoje: o uso de apostilas como o único material didático. “Discordo de separar pacotes para o professor dar aulas, com materiais distantes da realidade. Precisamos da curiosidade crítica”, questionou Freire certa vez.



O educador é homenageado, em 1/9, na Assembleia Legislativa de São Paulo, com presença de Lisete e sua viúva Ana Freire.
“Paulo falava que não existe uma teoria científica dizendo que o aprendizado pode acontecer apenas de um determinado jeito, ou parâmetros regulando o que cada criança deve debater no Pará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Bahia, sem os contextos de cada uma”, diz Lisete. “Se vivo estivesse, faria uma campanha na rua, porque isso compromete o ato de aprender”, analisa.
Antes de conhecer, o sujeito se interessa pelo o que é curioso e esperançoso, dizia Freire. “Daí a importância de trabalhar a sedução do professor frente ao aluno, a motivação e o encantamento”, pontua  o diretor do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti, que conviveu 23 anos com o educador.
É preciso mostrar que “aprender é gostoso, mas exige esforço”, segundo o educador no primeiro documento que encaminhou aos professores quando assumiu a Secretaria de Educação do Município de São Paulo (1989-1991). Hoje, um dos maiores problemas do ensino médio é a evasão escolar. Cerca de 40% dos jovens abandonam a última etapa da educação básica por desinteresse, apontam pesquisas.
Em conferências para professores, Gadotti identificou que há uma ânsia por entender melhor porque está tão difícil educar, para saber o que fazer quando todas as receitas já não conseguem responder. “Professores procuram cada vez mais cursos e conferências, para buscar na formação continuada respostas que não encontram na formação inicial”, afirmou em artigo “A atualidade de Paulo Freire”.
O educador  dava muita importância para o ato de ensinar e aprender de forma horizontalizada. “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”, reflete Freire em sua obra “Pedagogia da Autonomia”. Segundo ele, não só a participação dos alunos na sala de aula é bem-vinda, mas no conjunto de assuntos que envolvem toda a escola.
“A gestão democrática fundamenta toda a sua teoria do conhecimento. A ideia é ter diferentes grupos para opinarem e construírem. Para ele, todos os espaços de convivência educam para adquirir nossa autonomia intelectual”, ressalta Lisete. “Estamos em momentos difíceis. Cada dia mais indo contra isso. A divergência da teoria do outro não tem gerado um debate saudável.”
Com suas ideias inovadoras, Paulo Freire também incomodava muito. Mesmo atualmente, é questionado pelo incentivo a uma “pedagogia sem hierarquia”. Uma das razões é sua proposta do uso da crítica como referência principal para a escola avaliar a importância do conteúdo ensinado.
“No momento em que estamos discutindo a homogeinização de currículos pedagógicos, em função de provas nacionais, estaduais e municipais, evidentemente que Paulo representa uma contra corrente”, afirma Lisete. No Plano Nacional de Educação (PNE), em análise no Congresso, está previsto a incorporação do Programa Internacional de Avaliações de Alunos (Pisa) como referência de avaliação.
Freire questionaria, ainda, o processo de bonificação dos professores tendo em vista o rendimento dos alunos em provas nacionais e estaduais, de acordo com Lisete. “Para tudo isso ele não só sorriria, mas diria que é um grande equívoco”, acredita.



Freire entrou tarde no ginásio, aos 16 anos: "Eu estava educando-me no mundo.”
Biografia

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife (PE), teve dois casamentos e cinco filhos. Formou-se em direito, mas começou sua vida profissional como professor de língua portuguesa.

Quando criança, depois de passar fome por causa da crise de 1929, mudou-se de Recife para o interior. Foi em Jaboatão – 18 km da capital pernambucana – que o contato com a pobreza ficou mais forte. “Lá, aprendi, em primeiro lugar, a ampliar o meu mundo. Fiz amigos filhos de camponeses ou trabalhadores urbanos”, conta Freire em depoimento para o Museu da Pessoa em 1992.
“Eu me perguntava e tentava entender porque eu não comia e os outros comiam. Quer dizer, desde tenra idade eu me preparava para me opor às injustiças sociais. Quando adulto, comecei a me lançar no esforço político-pedagógico e então tudo isso veio à tona.”
Sem oportunidades, ele entrou tarde na escola. Enquanto colegas se preparavam para a universidade, Freire, aos 16 anos, começou a estudar o primeiro ano do antigo ginásio – correspondente ao 5º ano do ensino fundamental. “Mas, não acho que perdi tempo. Eu estava educando-me no mundo.”
A partir de suas primeiras experiências como professor, em Angicos (RN), em 1963, quando ensinou 300 adultos a ler e a escrever em dois meses, Paulo Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização. Então, um dos ministros do governo João Goulart, Paulo de Tarso, o chamou para implantar o Plano de Alfabetização Nacional, que acabou sendo abortado pelo golpe militar.
Acusado de subversão, o educador passou 72 dias na prisão e, em seguida, partiu para o exílio. No Chile, trabalhou por cinco anos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária. Nesse período, escreveu o seu principal livro: Pedagogia do Oprimido (1968). Em 1969, lecionou na Universidade de Harvard (EUA), e, na década de 1970, foi consultor do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra (Suíça).
Em 1980, depois de 16 anos de exílio, retornou ao Brasil. Lecionou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em 1989, foi secretário de Educação no município de São Paulo, na prefeitura de Luíza Erundina.
Após a morte de sua primeira mulher, casou-se com uma ex-aluna, Ana Maria Araújo Freire. Com ela viveu até morrer, vítima de infarto, em São Paulo, no dia 2 de maio de 1997, aos 75 anos.
O homem
“Quando Erundina o chamou para ser secretario, vi a coerência de seu pensamento e sua prática”, lembra a coordenadora da Cátedra, Ana Maria Seul. Lisete Arelaro concorda: “Ele faz muita falta, era extremamente bem humorado e tinha uma tranquilidade por sua coerência. Produziu seus conhecimentos para os condenados da terra e esfarrapados do mundo”.
“Se vivo fosse, seria um velhinho bondoso. Foi um homem que sabia escutar. A sabedoria que tinha é consequência do que construiu nele mesmo: as virtudes mais humanas”, diz a viúva do educador, Ana Maria Freire, autora do livro “Paulo Freire – Uma História de Vida”.
Ao se perguntar se Paulo nasceu com os pontos positivos ressaltados por aqueles que conviveram com ele, Ana Maria responde: “Ele dizia que nascemos com algumas tendências. O que nos faz ser isso ou aquilo são as condições sociais na família, escola e sociedade. Ele não teria sido o que foi sem Jabotão”.
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=WpRmdnttwK8[/youtube]
[stextbox id="custom" caption="Veja as sugestões de leitura freireana da professora Lisete Arelaro" float="true" align="right" width="250"]Pedagogia do Oprimido – Uma leitura para qualquer brasileiro e principalmente professores. Pedagogia da Esperança – Freire retoma conteúdos da Pedagogia do Oprimido, mas de modo atualizado. A Educação como Prática da Liberdade –  O primeiro livro de Freire, no qual vai germinando as ideias centrais da teoria freireana. A Importância do Ato de Ler – O premiado livro é uma provocação para professores pensarem como estimular a autonomia intelectual dos alunos. Pedagogia da Autonomia – O livrinho de bolso é um resumo de conteúdos importantes para a prática pedagógica. Extremamente atual.[/stextbox]Paulo Freire do futuro
O educador centrou suas análises na relação entre educação e vida, reagindo às pedagogias tecnicistas de seu tempo. “Gostaria de ser lembrado como alguém que amou a vida”, disse duas semanas antes de falecer, em entrevista à emissora Globo.
“Creio que o reconhecimento da importância de sua obra no campo da educação acontecerá quando a escola deixar de ser confinada no seu espaço para reconhecer a educação ao longo da vida, o que significa reconhecer que ela é essencialmente informal. Freire não pode ser considerado uma contribuição ao passado, mas ao futuro”, conclui o diretor do Instituto Paulo Freire, Gadotti.
As lições que Paulo Freire deixou devem mesmo continuar válidas por muito tempo. “O meu sonho pela liberdade me estimula a lutar pela justiça, pelo respeito ao outro e à diferença. Quer dizer, meu sonho é que inventemos uma sociedade menos feia do que a nossa de hoje”, disse em 1992.
Atualizada em 10/4/2013, às 16h41.

FERRER E A EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA

Francesc Ferrer i Guàrdia (Alella, 10 de janeiro de 1859  — Barcelona, 13 de outubro de 1909[1] ) foi um pensador anarquista catalão, pedagogista, criador da Escola Moderna (1901), um projeto prático de pedagogia libertária.
  
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francesc_Ferrer

http://portal.aprendiz.uol.com.br/2013/10/03/conheca-a-historia-do-educador-morto-por-fundar-escola-libertaria/


 

“Os meninos e meninas terão uma liberdade insólita, farão exercícios, jogos e relaxamentos ao ar livre, insistiremos no equilíbrio com o entorno natural e com meio, na higiene pessoal e social, desaparecerão as provas, os prêmios e os castigos. Teremos especial atenção a questão da higiene e da saúde. Os estudantes visitarão centros de trabalho – as fábricas têxteis de Sabadell, especialmente – e farão excursões de exploração. As redações e os comentários dessas vivências por parte de seus protagonistas se converterá em um dos eixos da aprendizagem. E isso será levado também às famílias dos alunos, mediante a organização de conferências e debates dominicais”.
O trecho acima parece dizer respeito ao que entendemos hoje por educação integral, democrática ou libertária, mas foi proferido há mais de cem anos, pelo educador catalão Francisco Ferrer y Guardia em seu livro “La Escuela Moderna”, disponível aqui em espanhol.
Guardia, que foi executado após um julgamento notoriamente injusto há 104 anos, na Espanha, foi um pioneiros da educação libertária e fundou a Escola Moderna, que funcionou entre 1901 e 1909, ano de sua morte. Apesar de a condenação ter partido de uma falsa acusação sobre a participação do educador em um atentado, ela é atribuída principalmente ao seu trabalho educativo.
Considerada a primeira experiência de educação mista e laica em Barcelona, levantou grande antipatia do clero e de seus devotos por promover a igualdade. A escola buscava uma educação secular, racionalista e não coercitiva, visando o desenvolvimento integral do estudante.
Pensamento livre
Apesar de ter mensalidades, que restringiam a participação de crianças de classes populares, a ideia era que o próprio funcionamento da instituição englobasse filhos de trabalhadores, praticando a solidariedade ativa. Também havia uma busca por professores que entendiam que seu papel era de apoio e não de repressão.
A escola, que fomentava o pensamento livre e a não-competitividade, possuía um laboratório, um museu natural, uma biblioteca e buscava instalações bem iluminadas, além de publicar um boletim produzido por estudantes. Aulas e apresentações de teatro e até uma Universidade Popular para adultos também estavam no programa deste colégio, que formou centenas de alunos.
Crime de fundar escolas
Anatole France, presidente da Liga Internacional para a Educação Racional da Infância, organização cocriada por Ferrer, declarou na ocasião de sua morte que o crime do catalão “era ser republicano, socialista, livre pensador; seu crime foi ter criado o ensino laico em Barcelona, ensinado a milhares de meninos a moral independente; seu crime foi o de ter fundado escolas”.
A experiência de Ferrer não acabou com sua morte. Apenas em São Paulo, duas Escolas Modernas foram fundadas, em 1909 e 1913, por sindicalistas anarquistas. John Dewey, teórico da Nova Escola, também fundou uma em Nova Iorque, nos EUA. Dentre os pensadores influenciados pelo pensamento do catalão, destaca-se o educador brasileiro Paulo Freire.
Cassadas pelos governos da época, que acusavam as escolas modernas de “ninhos do anarquismo” e “escola de bandidos”, elas proliferaram pelo Brasil adotando novos nomes. Até 1920, foram fundadas pelo menos 30 escolas seguindo a mesma metodologia, no Rio de Janeiro, interior de São Paulo, Pará, Ceará, Rio Grande do Sul e Bahia.
Eventos resgatam memória do educador
A Biblioteca Terra Livre realizará duas atividades em outubro para lembrar os ensinamentos do educador catalão. No dia 6/10, domingo, 16h, será exibido o filme A Língua das Mariposas. Após o filme, haverá um debate sobre as influências do ensino racionalista no contexto da Revolução Espanhola. A atividade acontecerá na Casa Mafalda, localizada à Rua Clélia, 1895, Lapa, São Paulo.
No dia 13/10/2013, aniversário da Morte de Ferrer, haverá um evento no Centro de Cultura Social de São Paulo, na rua General Jardim, 253, sala 22, às 17h. A iniciativa visa debater o legado do pensador a partir de jornais anarquistas da época, assim como textos e poesias de Ferrer e contará com a presença da doutoranda em educação Luciana Santos. A entrada é franca.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Francesc_Ferrer

Biografia

Francesc Ferrer i Guàrdia nasceu em Allela (uma pequena localidade perto de Barcelona) em 10 de janeiro de 1859, filho de pais católicos, cedo se tornou anticlerical e juntou-se à loja maçônica Verdad, de Barcelona. Apoiou o pronunciamento militar de 1886, que pretendia proclamar a República, mas diante do fracasso deste, Ferrer teve de exilar-se em Paris. Sobreviveu ensinando espanhol até 1901, e durante este período criou os conceitos educativos que aplicaria em sua Escola Moderna. Isso tudo foi possível com a ajuda da Dama Marcela Carolina.

Escola Moderna

A Escola Moderna transformou-se em um movimento de caráter internacional de apoio dos trabalhadores a educação antiestatal e anticapitalista.
Segundo Maria Aparecida Macedo Pascal, "Ferrer desenvolveu o método racional, enfatizando as ciências naturais com certa influência positivista, privilegiando a educação integral. Propõe uma metodologia baseada na cooperação e respeito mútuo. Sua escola deveria ser freqüentada por crianças de ambos os sexos para desfrutarem de uma relação de igualdade desde cedo. A concepção burguesa de castigos, repressão, submissão e obediência, deveria ser substituída pela teoria libertária, de formação do novo homem e da nova mulher. Ferrer considerava que o cientificismo não era um saber neutro. Aqueles que tem o poder se esforçam por legitimá-lo através de teses científicas".

Perseguição e prisão

Devido a intolerância da igreja, em 1906, Ferrer foi preso sob suspeita de envolvimento no ataque de Mateu Morral, ex-colaborador de curta passagem, como tradutor e bibliotecário da Escola, que perpetrou um atentado frustrado contra o rei Afonso XIII de Espanha, sendo absolvido um ano depois. Entretanto, durante sua estadia na prisão a Escola Moderna foi fechada. No ano seguinte, viajou pela França e Bélgica; neste último país, fundou a Liga Internacional para a Educação Racional da Infância.

Execução

Em 13 de outubro de 1909 foi executado na prisão de Montjuïc durante a lei marcial, acusado de ter sido o instigador da revolta conhecida como a Semana Trágica de Barcelona em 1909.

Legado

Pouco tempo depois de sua execução, numerosos partidários das ideias de Ferrer criaram Escolas Modernas em vários países associadas aos sindicatos, inclusive no Brasil vinculados a Confederação Operária Brasileira - COB. A primeira Escola Moderna do Brasil foi fundada em São Paulo em 1909, e funcionou na Av. Celso Garcia, 262. Em 1913 a Escola Moderna n.º 2 foi fundada, também em São Paulo, pelo anarquista e sindicalista Adelino Tavares de Pinho, e em 15 de junho de 1915, a Universidade Popular de Cultura Racionalista e Científica criada pelo sindicalista e anarquista Florentino de Carvalho. A primeira e mais notável Escola Moderna dos Estados Unidos foi fundada em Nova Iorque, em 1911. Suas ideias libertárias influenciaram a filosofia educacional da Nova Escola de John Dewey e a pedagogia de Paulo Freire, no Brasil, entre outros.

Ver também

Bibliografia

  • SAFÓN, Ramón. O racionalismo combatente de Francisco Ferrer Guardia. Imaginário. São Paulo. 2003. 96p.
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