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domingo, 31 de maio de 2015

EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA - Otávio Martins Amaral

Pietá, de Michelangelo, 1499


EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA

Otávio Martins


Todos olhavam para ele consternados; abraçavam-no sem mesmo dizer qualquer palavra, apenas para confortá-lo e para que se sentisse amparado naquele momento tão grave e delicado da sua existência, já fragilizada pelos anos.

Ele não tinha o olhar triste; perdido, sim, transcendia a figura da mulher que estava sendo velada e que, agora, nos últimos momentos daquele ritual, era chegada a hora de fechar o caixão, o qual, logo a seguir, seria levado para o seu sepultamento.
Apertando-lhe contra si, ao passar o braço direito pelas suas costas, num gesto claro de proteção, o homem, bem mais jovem que ele, tinha o ar abatido e tristonho. Não obstante, esforçava-se para confortá-lo.
Certamente que alguma coisa ia mal com a sua memória, isso ele já havia percebido. Não poderia estar ali, naquela condição, sem mais nem menos. Precisava ir à busca do fio da meada, o qual, possivelmente, o ajudaria a desvendar qual o seu papel naquele triste acontecimento. O féretro, sobre um carrinho, era conduzido, logo à sua frente, por um funcionário do cemitério. O homem que lhe abraçara fortemente lá na capela, antes de fecharem o caixão, permanecia ao seu lado, tendo, agora, os olhos vermelhos, denunciando que havia chorado durante aquele breve intervalo.
Assim, de repente, viu-se, lá num canto das suas lembranças, sentado, vestindo um longo sobretudo azul-marinho, de fino acabamento; um gorro de tecido de lã, cinza, que também servia para cobrir os primeiros sinais da sua calvície. O banco em que estava sentado ficava localizado bem no meio de uma daquelas veredas da praça. Do outro lado, no banco em diagonal ao seu, reconheceu o sujeito que comia um lanche caseiro, rodeado por uma porção de pombos que esperavam as migalhas que por ventura caíssem ou que fossem atiradas. Lembrou, ainda, que o sujeito havia trabalhado, por muito tempo, no estacionamento, ao lado da alfaiataria do seu pai. A alfaiataria tinha uma ótima freguesia, o que exigiu afinada capacitação profissional de seus cinco ou seis funcionários. A mulher que estava ao seu lado, entretanto, não tinha o rosto nítido ao ponto de que ele pudesse identificá-la. Ainda que muito tivesse se esforçado, não teve jeito; não saberia dizer quem era, apesar de estarem ali juntos. O sol amenizava o frio naquele grande cenário de muitas árvores; talvez fosse o fim de um outono qualquer, ou comecinho do inverno.
Ao passar por um enorme jazigo – provavelmente de alguma família muito rica – avistou a estátua, em mármore, fixada sobre o teto, a qual dava à construção um aspecto pomposo, até exagerado, mesmo para a representação à qual se destinava. Mas, a estátua, ainda que fosse uma réplica, não perdia, por isso, a sua importância. Impossível passar por ali sem se dar a devida atenção àquela peça que, agora, o reportava à Renascença Italiana, de Michelangelo, com a sua Pietá. Apesar do grave momento, experimentou uma ponta de satisfação, lembrando, até, que a Pietá fora encomendada por um cardeal francês, para a Capela dos Reis de França, localizada na Basílica de São Pedro, por volta do ano de 1500.
Como poderia ter esquecido?
Os trabalhos em escultura eram a sua vida. Depois que o seu pai morreu, ficou com a imensa casa, uma construção antiga, de um amplo jardim, pelo qual costumava ir espalhando as suas esculturas, lugar onde passava a maior parte do tempo. Logo a seguir, já estava iniciando uma peça de grandes dimensões; lá do alpendre, bem distante, a mesma mulher da praça acenava para ele, em trajes de passeio, parecendo que o avisava estar de saída ou, apenas, se despedindo. Aqueles gestos que pareciam de intimidade ou convivência – sentiu essa sensação – lhe davam mais ânimo e inspiração para cada novo trabalho.
Enquanto se preparava para iniciar o entalhe, o menino corria, junto a um cão labrador, por várias partes do jardim, demonstrando muita segurança, talvez pelo simples fato de sentir a sua proximidade. Ele não poderia “parar” ali, precisava ir em frente às suas redescobertas. Nem tempo para saber o que estaria reservado àquela enorme peça bruta de mármore.
Quando o carro que levava o féretro virou à esquerda, numa daquelas avenidas do interior do cemitério, pressentiu que o local do sepultamento estava próximo. Era preciso ser mais rápido na revisitação às suas lembranças, sob pena de não conseguir identificar-se direito, tampouco a mulher que iria ser sepultada dentro de alguns instantes.
Durante o breve percurso permaneceu calado. O gorro de lã, escuro – do mesmo tipo daquele que estava usando naquela tarde fria lá na praça – servia para protegê-lo do frio e de um vento persistente e um pouco forte naquele triste e cinzento final de tarde, acentuando ainda mais os seus cabelos compridos, totalmente brancos e ralos, os quais denunciavam que teria a idade aí por volta dos oitenta e cinco anos, ou até mais. Em questão de alguns passos, a memória, que se ia restabelecendo, continuava levando-o a reviver outros fatos, passados em diferentes épocas.
A mulher que caminhava de braços dados com o sujeito que tinha o outro braço sobre os seus ombros não tinha um rosto totalmente desconhecido, mas, tampouco, que lhe pudesse parecer familiar. Talvez não fosse de uma estranha, porém, nada que lhe provocasse a sensação ou a impressão de que fosse alguém que gozasse de sua intimidade ou, mesmo, de sua convivência.
Preferia caminhar olhando para frente. Era assim que a sua memória apresentava várias cenas que se iam revelando no decorrer do trajeto pelo qual o corpo da mulher estava sendo levado. Não havia tempo a perder. Era preciso aproveitar ao máximo todas as informações que pudessem ajudá-lo a identificar a morta e, também, o porquê de estar li, naquela condição, dando-lhe a impressão de ser um dos principais atingidos por aquele melancólico acontecimento.
Avistou bem lá na frente, junto à parede da direita, os dois coveiros que, sobre um andaime, faziam os últimos preparativos numa daquelas gavetas, a qual ficava na fileira do meio, não muito alta. Somente naquele local havia algum movimento e a presença daqueles dois trabalhadores; eram sinais de que - quase certeza - ali a mulher seria sepultada. Ficou um pouco aflito ao perceber a distância que, agora, estabelecia, a olhos vistos, o curto prazo que teria para decifrar todo o mistério em que se sentia envolvido.
O funcionário do cemitério que ia conduzindo o carrinho que carregava o esquife procurava ir numa velocidade bem lenta, dando a impressão que assim o fazia, somente para que ele, com seus passos quase arrastados, pudesse acompanhá-lo de perto. Mesmo assim, sabia que travava uma luta desesperada contra o tempo. Por mais que ele tentasse atrasar o ritmo do acompanhamento, o enterro estava em seus últimos momentos; isso era certo. Outro ponto que o dificultava, era a maneira como as suas lembranças se apresentavam. Não surgiam numa ordem cronológica. Por vezes, voltavam a uma época remota para, a seguir, saltarem para um tempo cá na frente. A essas alturas, ainda que algum fato pudesse despertar a sua curiosidade, procurava não se deter nos detalhes; bastava-lhe entender o significado principal de algum acontecimento, e pronto. Talvez num outro momento viesse a ter a oportunidade de relembrá-lo com mais calma, podendo, assim, dedicar-lhe melhor atenção.
Ao chegar a casa com um automóvel que conseguira comprar depois de muito economizar, estavam a lhe esperar, uma mulher e um jovem, debruçados sobre o portão da frente. Época em que o automóvel era uma raridade. Encostou-o em frente a casa, desceu e, logo a seguir, dirigiu-se aos dois; entregou as chaves para o rapaz que, imediatamente, a passos ligeiros, depois de se falarem qualquer coisa, foi em direção ao veículo. A seguir, colocou o braço sobre os ombros da mulher e se dirigiram ao interior da casa. Não deu pra ele saber se haviam entrado para comemorar; a porta foi fechada logo em seguida.
E essa lembrança, agora? Nem mesmo em outros tempos havia recordado daquilo. A mulher aparecia de mãos dadas com ele, naquela mesma praça, trazendo de casa uma sacolinha de tecido, cheia de farelos de pão e sobras de outros alimentos para jogá-los aos pombos, que eram, sempre, em grande quantidade. Percebeu que assim o faziam, seguidamente, como um bom motivo para mais um passeio pela praça.
Outra vez a memória com as suas manobras, brincando com o curso do tempo. A mulher que estava do outro lado do homem que o amparava nos últimos instantes daquele cortejo fúnebre, aparecia bem mais jovem, vestida de noiva, numa festa em sua casa, com muitos convidados, cuja maioria passeava pelo jardim admirando as suas esculturas. Depois, na hora de cortar o bolo, tinha ao seu lado o mesmo homem que ali estava entre os dois. Ele e a mesma mulher daquelas outras aparições - felizes - postados ao lado dos noivos. Aquela mulher – não precisaria mais de outras revelações – era a sua esposa. Aos seus lados estavam o seu filho e a sua nora. Não poderia haver mais dúvida.
Quando, por fim, os coveiros retiraram o caixão de cima do carrinho e o descansaram na extensão do andaime, antes de colocá-lo, cuidadosamente, na gaveta, ele irrompeu num choro baixinho, sem causar qualquer preocupação ou admiração em nenhuma daquelas pessoas, as quais, ele percebera, procuravam ajudá-lo a transpor aquele momento tão difícil e único. Chorou por mais alguns minutos, aliviado por ter conseguido se despedir da sua companheira, de mais de cinquenta anos, com toda a lucidez. 


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terça-feira, 19 de maio de 2015

BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS


BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS





"Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente."



Naquela madrugada ela chegou ao acostamento da rodovia mais cedo do que de costume. Estava escuro ainda; apenas os faróis dos veículos iluminavam, de passagem.

O pai de Joana, depois de acomodar os cachos de bananas, ao abrir a barraca, deu conta de que ela não estava ali por perto. A casa ficava a mais ou menos trinta metros para dentro. Um chalé, sem pintura, abrigava toda a família. Joana era a do meio, pouco mais de 18 anos. Seu Chico resolveu dar um pulo até ele ver o que estaria acontecendo.

Na noite anterior trabalharam até tarde; quando os dois caminhoneiros chegaram para comer alguma coisa já passava das oito horas e ainda beberam mais duas cervejas. Resolveram dormir por ali mesmo, nas cabines de seus caminhões. 

O dia havia sido longo. Seu Chico costumava fechar a barraca bem mais cedo; à noite nem valia à pena ficar aberto, pelo pouco movimento e, também, aquele lugar não era lá muito seguro. O que se poderia encontrar mais perto dali era o posto BR, onde os motoristas costumavam estacionar e alguns até ficavam para pernoitar. Além do bar e restaurante, que funcionava até a uma ou duas horas da madrugada, tinha também um hotelzinho, que ficava num espaço junto ao posto.

Quando, Jorge, o irmão mais velho de Joana, ainda morava com eles, era quem colhia os cachos de bananas de manhãzinha e, depois, dividia-os em pencas, que seriam dependuradas nos arames esticados acima do balcão. Um bom lugar para que ficassem à mostra e fácil de pegá-los se, eventualmente, algum freguês parasse para comprá-los.

Há mais de três anos que Jorge resolvera tentar a vida na cidade grande. Apesar de todo esse tempo, até aquele momento havia mandado poucas notícias. Tocou para Joana ficar, desde cedo, na barraca, no período da manhã. Quando o seu pai voltava com os cachos de bananas, ela ia lá para o chalé, onde preparava os pastéis, café nas garrafas térmicas, sanduíches e outros lanches. Precisava da ajuda do caçula, que já fazia muito. Era, principalmente, nesses momentos que ela sentia mais a falta da sua mãe.

Para que não soasse como uma cobrança, Joana, quando se lamentava, sempre repetia: "Que Deus a tenha!". O máximo de energia que a mãe de Joana usava, era quando tentava adverti-la " mas isso já não metia mais medo - olha que o velho do saco vai levar você, heim! Ela era ainda muito pequena, porém, já havia passado por muita coisa. Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente.

Da adolescência até a idade adulta, fora submetida a certas situações indesejáveis e constrangedoras, tanto para uma adolescente, quanto para uma mulher. Seu Chico não tinha lá um senso formado para certos valores. Desde que se instalara ali naquele pedaço de caminho, a sobrevivência impunha-se de forma tão urgente que, além do ganho do dia-a-dia, quase não tinha tempo em atinar para outras coisas que poderiam ser, até, importantes tanto para ele quanto para Jorge, Joana e Leonardo.

A escolinha, que ficava bem próxima ao posto, sempre funcionou mal e parcamente. Parte das crianças que iam ficando ali pelo lugar conseguiam, no máximo, freqüentá-la por quatro ou cinco anos. Problemas com o transporte, segurança, instalações, falta de professores. No inverno era o caos. Leonardo ainda persistia e já estava na quinta série. Apesar do pouco tempo que tinha pela manhã, conseguia estudar um pouco e fazer as lições de casa. Precisava se virar sozinho, pois era o mais adiantado da casa. Joana fazia o máximo para poupá-lo nos afazeres com o abastecimento da barraca. 

No tempo em que Jorge estava com eles as coisas eram mais fáceis. Joana, pela manhã, ficava a maior parte do tempo, quase que todo, somente com a incumbência do preparo dos lanches. Sem o Jorge, era preciso se desdobrar. Tinha que cuidar da casa, da roupa " principalmente a de Leonardo, para que fosse sempre direitinho para a escola " e outras coisas; ainda, ajudar o seu Chico na abertura da barraca. Era, no sentido da responsabilidade, a dona da casa.

Santiago, que tanta coisa havia prometido à Joana, já há um bom tempo andava desaparecido. Trabalhava numa empresa que transportava carros para o interior, naqueles imensos caminhões-cegonha. Não tinha endereço certo, apenas o celular que, vez por outra, ligava para dar alguma notícia. Joana, apesar da situação, nem cogitava de cobrar nada dele. Santiago poderia ser " ela sabia disso " uma grande mentira ou, até, estar desempregado. Como saber?

Ouvia mil histórias sobre outros lugares. Na tevê, ficava sempre de olho quando o assunto era oportunidades de trabalho. Claro, no ramo da alimentação, ou mesmo em serviços gerais, seria o mais afeito às suas práticas. Era apenas mais um sonho de Joana que a ajudava levar em frente aquela realidade que já não tinha mais a menor graça. 

Quando o pai de Joana voltou do chalé, tinha um ar abatido, apenas desesperança e tristeza no olhar. Nem acordou Leonardo, precisava de um tempo para entender melhor a situação. Não era homem de se desesperar, tampouco maldizer a vida. Sabia que ali não era fácil de suportar. Apenas o que sentia naquele momento, era não saber qual direção teria tomado Joana. E, também, por não ter tido a oportunidade de desejar-lhe boa sorte.


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

NA FLORESTA (I)





Depois de muito caminharem, o professor Silvestre e seu auxiliar, Óscarparaobrasil, chegaram a um lugar onde viram uma casa, com uma bela varanda e cercada por hortas e árvores frutíferas. Estavam cansados e famintos. Já fazia mais de quatro horas que perambulavam na floresta amazônica, de clareira em clareira - provocadas pelo desmatamento e queimadas criminosas - e em cada uma dessas clareiras paravam alguns minutos para chorar. As lágrimas que restavam eram poucas e já estavam temerosos de gastarem todas quando chegaram àquele lugar que parecia encantado.

     Bateram à porta e ninguém atendeu. Bateram novamente e nada. Por fim, desistiram e sentaram-se nos degraus da varanda que era guardada somente por uma jibóia que não ligou para eles e continuou melancolicamente enrodilhada. Parecia triste e sozinha.
     Óscarparaobrasil afagou a jibóia e perguntou ao professor Silvestre se não seria o caso de colherem algumas daquelas frutas, mas o professor Silvestre o impediu com a sua célebre frase: “A sorte não abandona os destemidos” e puseram-se a esperar ao lado da jibóia, embora não soubessem quem estavam esperando.
     O sol já estava se pondo, junto com as esperanças dos dois, quando ouviram ruído de passos e, logo em seguida, alguma coisa parecida com um ser humano, mas indistinguível na forma, apareceu e perguntou: “Quem são vocês?”.
     “Um momento, Shu. Eu é que pergunto: Quem são vocês?”, falou uma moça que vinha logo atrás da estranha forma que parecia humana e transparente. Era loura, alta, olhos azuis translúcidos, vestindo botas e roupas de couro e carregando em uma das mãos uma espingarda de dois canos.
     Depois de recompor-se da surpresa, o professor Silvestre disse: “Perdoe-me, bela senhora, por estar invadindo os seus domínios. Eu sou o professor Silvestre e este é o meu auxiliar Óscarparaobrasil. Fazemos parte da expedição da ONG “Chorar Pela Amazônia” e nos perdemos dos outros quando estávamos cumprindo o nosso dever de chorar pela Amazônia em um dos muitos lugares devastados por queimadas. A fumaça era tanta que nos ajudou a chorar, e quando, finalmente, saímos do lugar com os olhos úmidos e purificados na alma não vimos mais ninguém. Caminhamos durante horas e chegamos a este lugar que parece um paraíso no meio do inferno – se me permite a imagem vulgar – e fomos recebidos apenas por esta jibóia que estava dormindo e agora parece muito interessada no meu auxiliar”.
     “Hermelinda, comporte-se e vá caçar ratos!”, disse a moça, fazendo com que Hermelinda – a única jibóia que ainda conserva acento no “ó”, por ser contra as novas regras ortográficas – deixasse o colo de Óscarparaobrasil. Espreguiçou-se e foi em direção à floresta. Enquanto isso, a porta da casa tinha sido aberta pelo ser que parecia humano e não tinha forma definida, e todos entraram.
     “Nada mais eu estranho nesta floresta, senhora”, disse o professor Silvestre. Nem mesmo...” – e apontou para a estranha figura que se confundia com móveis e paredes. “O nome dele é Shuniazzar”, disse a mulher, “um estranho animal mitológico que fala. E o meu nome, hoje, é Ingrid. Às vezes, é Gerda, ou Maria, ou Gertrude. Depende do dia. O povo da floresta me chama de Alemã na Floresta, o que é óbvio, porque eu sou alemã e moro na floresta. Eu não me importo que me chamem assim. Vim para cá quando era muito pequena. Havia uma grande guerra na Europa e a Alemanha estava sendo invadida pelos inimigos. Foi quando os meus pais decidiram me colocar em uma barquinha que atravessou o Mediterrâneo e o Atlântico e me trouxe para este país. Shuniazzar me encontrou quando eu estava transpondo a pororoca; me protegeu e me ensinou todas as coisas que um estranho animal mitológico que fala pode ensinar. Quando eu cresci, me ajudou a construir esta casa. E o senhor, é professor de que? Mas deixe para contar durante a janta. Shu, estamos com fome”.
     Imediatamente, o professor Silvestre e Óscarparaobrasil, sem que tivessem se mexido, perceberam que estavam em uma sala, iluminada por grandes velas colocadas em castiçais antigos, onde havia uma mesa, cadeiras, belos quadros nas paredes, e um piano ao fundo, ao lado de uma janela. Sobre a mesa, pratos e travessas contendo comida que parecia apetitosa. Ingrid, percebendo a surpresa deles, disse que aquele era mais um dos truques de Shuniazzar, que fossem se servindo e não fizessem cerimônia, porque via que estavam com muita fome. Em seguida, serviu o vinho, que apareceu subitamente sobre a mesa e, depois de alguns minutos, quando já se ouvia o piano tocar músicas que embelezavam a alma e abriam o apetite, repetiu a pergunta que fizera ao professor Silvestre: o que ele ensinava?
     Com o estômago agradecido e a voz embargada – talvez por ter chorado muito durante o dia – o professor começou a dizer “Pois dona Ingrid...”, quando foi interrompido pela dona da casa: “Ingrid não, agora é Gertrude, já passou da meia-noite”. “Pois dona Gertrude” – recomeçou o professor – “saiba que este país que me engana, ai de mim Copacabana, sobre a cabeça os aviões e sob meus pés os caminhões, como diz o poeta, não só engana a mim como a quase todos que nele moramos, porque madame diz que a vida não melhora, que a vida piora por causa do samba – como diz outro poeta -, mas não é por causa do samba, mas do desgoverno que nos aflige como um caminhão derrapando na estrada de Santos, como diria outro poeta, e nós, indignados brasileiros fundamos a ONG “Chorar Pela Amazônia”, que reúne intelectuais de todo o país, e eu – que sou professor de Anatomia da Natureza e Fisiologia Sistêmica dos Bens Renováveis – convidei os membros da nossa ONG para virmos até a Amazônia. Nem todos vieram, alguns preferiram ficar chorando em casa, mas o pequeno grupo que aqui está já faz três dias que chora desesperadamente cada vez que vemos uma parte da floresta desmatada ou incendiada. Hoje, eu e Óscarparaobrasil nos perdemos dos demais e caminhamos até encontrar a sua bela morada.”
     “Que interessante!” - disse Gertrude “E existem outras ONGS que se interessam pela Amazônia?”
     “Inumeráveis!” - respondeu o professor. “Algumas se destacam mais, como a ONG “Deitados Em Berço Esplêndido”, que faz um grande trabalho pela Internet, ou a ONG “Garota da Amazônia”, que recolhe assinaturas em Ipanema para protestar contra a desvirgindade da floresta; a ONG “Poetar É Preciso”, formada por poetas de todo o Brasil, que escrevem poemas contra a devastação da Amazônia e brevemente lançarão o seu primeiro livro, a ONG “O Último Suspiro”, cujos membros fazem reuniões para suspirar sentidamente pela Amazônia e pela Mata Atlântica, a ONG “Me Engana Que Eu Gosto”, que faz vigílias em frente ao Congresso Nacional para vaiar deputados e senadores... E tantas outras...
     “Que bonito!” – disse Gertrude. “E eu achando que só existia a ONG “Macunaímas Traídos”, formada pelo povo da floresta que vê cair as suas árvores e volta e meia grita: “Estamos sendo traídos!”, e depois voltam a dormir em suas redes, ou a ONG “Grandes E Poderosos Índios Valentes”, formada por índios aculturados que, quando sabem de algum novo desastre florestal fazem aquela dança onde sapateiam e gritam “hu-hu-hu-hu” e depois voltam para assistir televisão ou jogar vídeo-game, ou a ONG “Guerrilheiros Da Floresta”, formada por jovens intelectuais que distribuem panfletos para os madeireiros, enquanto eles cortam as árvores, e depois voltam para as suas casas para escrever novos panfletos. E tantas outras... Mas vejo que estava enganada.”
     “O nosso esforço conjunto um dia dará seus frutos, a sorte não abandona os destemidos” – disse o professor. “É verdade, professor”, respondeu Gertrude, mas já é hora de dormir. Amanhã eu vou caçar e vocês dois estão convidados”. “Agradeço, mas eu não mato animais”, disse o professor. “Nem eu”, respondeu Gertrude. É uma caçada diferente, o senhor vai ver”.
     Em seguida, a sala se transformou em um quarto espaçoso, onde se viam duas camas e um guarda-roupa. O professor Silvestre e Óscarparaobrasil já não se surpreendiam de nada. As suas mochilas estavam no chão, uma ao lado de cada cama. Trocaram de roupa e se deitaram. Quando Hermelinda, no meio da noite, entrou, sinuosa e lânguida, pela janela e foi enroscar-se sobre os pés de Óscarparaobrasil, por quem já tinha alguma afeição, ele perguntou: “Comeu o seu ratinho, Hermelinda?”

     A noite passou como costumam passar as noites: dormitando em sua escuridão, até o momento em que foi definitivamente acordada pelo Sol, que pedia para brilhar, e recolheu-se, resmungona, para o outro lado do globo. Óscarparaobrasil acordou com as amorosas lambidas de Hermelinda e disse para ela que estava na hora de caçar ratos. Hermelinda quase respondeu que nem só de ratos vive uma jibóia, mas conteve-se, educadamente, e saiu pela janela, preguiçosamente.
     O professor Silvestre estava acordado desde o momento em que os róseos dedos da aurora tinham entrado pela janela e tocado na sua testa. Óscarparaobrasil voltou-se para ele e disse “Bom dia, professor” – ao que o professor retrucou, impiedosamente: “Se você não usasse esse cabelo moicano e não passasse tantas horas assistindo futebol talvez percebesse que este dia só é bom na aparência. Quantas árvores estão sendo derrubadas neste exato momento!, e só resta a nós, as forças desarmadas – porque as armadas devem estar dormindo nos quartéis ou invadindo favelas -, só nos resta chorar. Choremos, pois”.
     Choraram pela Amazônia e pelas maldades dos humanos que destroem o mundo e, em seguida, sentiram urgente necessidade de ir ao banheiro. Naquele momento surgiram dois banheiros, que os atraíram como os olhos da Iara e onde entraram empurrados por uma força interior irresistível. Depois, banhados e com as roupas trocadas, quando pensavam em sair do quarto viram-se na mesma sala onde tinham jantado na noite anterior. Sobre a mesa, bules fumegantes de café e leite, queijos, geléias, pães os mais diversos, patê, manteiga e tudo o que deve conter um legítimo café colonial. “Desculpem pela ausência de margarina”, disse Gertrude, que já tomava o seu café. “Eu não uso gordura trans. Passaram bem a noite?”
     O professor Silvestre disse que tinha dormido como uma criança e Óscarparaobrasil quase se queixou de Hermelinda, mas preferiu perguntar como era que Shuniazzar adivinhava até pensamentos.
     “Shuniazzar é muito prático”, disse Gertrude, “ele não adivinha, se antecipa; deixa tudo programado com antecedência através de formas de pensamento que são acionadas e se transformam em realidade quando nelas pensamos. Só não pode interferir na vontade das pessoas; caso contrário, a floresta não estaria sendo devastada. Ele é apenas um ser mitológico que fala”.
     “Muito curioso”, disse o professor, “mas de qual mitologia?”
     “Ele nunca me disse nem eu perguntei”, respondeu Gertrude. “Mas penso que de todas ou um pouco de cada uma. Shu não gosta de discriminação. Mas por que Óscarparaobrasil tem esse nome tão expressivo?”
     “É que meus pais”, respondeu Óscarparaobrasil, “sempre assistiram todos os filmes norte-americanos e desejam muito que um dia o Brasil seja premiado com um Oscar, o que seria um enorme salto qualitativo para a nossa cultura, segundo eles, e, quando eu nasci me deram o nome de Óscarparaobrasil, assim mesmo, com acento, mas eu sempre quis trocar de nome. Gostaria tanto de ser João, ou José, ou até Mário, apesar daquela piada... Só não troco para respeitar a vontade deles, e uso o meu cabelo estilo moicano porque rima com norte-americano. Mas o professor me ensinou que todos os moicanos foram mortos pelos brancos daquele país e agora eu uso o cabelo assim em forma de protesto silencioso”.
     “Ah, sei... E você respeita muito os seus pais?”
     “Muito.”
     “E o seu Governo?”
     “Muito.”
     “Então, o que você faz aqui na floresta, Óscarparaobrasil?”
     “Eu também respeito muito o professor.”
     “Você tem alguma perturbação?”
     “Não. Eu sou perfeitamente correto. Vou cursar advocacia, casar com uma moça certinha, que não pense muito, como eu, ter dois filhos, entrar para a Maçonaria e para o Rotary e viver feliz. Eu só me perturbo quando durmo com uma jibóia nos pés ou quando encontro um estranho ser mitológico que fala. Mas logo aceito qualquer situação como normal, seguindo o conselho do meu pai que sempre me disse, como regra de vida, que devo respeitar a todos e aceitar tudo.”
     “Bem, senhores – disse Gertrude – está na hora da caçada.” Levantou-se e pegou a sua arma de dois canos, colocou um cinturão com cartuchos preso na cintura e disse: “Vamos?” Saíram os quatro e, depois de alguns passos, já estavam em plena floresta. Caminharam cerca de uma hora em silêncio até que Gertrude mandou parar. “Estão ouvindo?” – perguntou. O professor esforçou-se por ouvir qualquer coisa diferente dos ruídos esquivos da floresta, sem nenhum resultado, e foi Óscarparaobrasil quem disse: “Parece uma banda de rock!” À medida que caminhavam o ruído se tornava mais claro: “rrrrrrrrróqpóqrrrrróqpóqrrrrrrrrrrr”.
     “O que será isso?”, perguntou o professor Silvestre, “Algum outro animal mitológico, que não fala e só ruge?” “É o ruído do desmatamento, professor”, respondeu Gertrude, e em seguida disse para Shuniazzar, que estava em algum lugar ali por perto: “Shu, precisamos ficar invisíveis”. Imediatamente uma estranha neblina verde os envolveu. Aproximaram-se ainda mais e viram vários homens portando motosserras e cortando gigantescas árvores. Dois ou três caminhões estavam estacionados mais adiante para carregar a madeira. Outros homens cortavam as árvores que já tinham sido derrubadas.
     Gertrude pegou a sua arma e a carregou com dois cartuchos. Imediatamente, o professor Silvestre, horrorizado, disse: “Por favor, senhora, não os mate!” Ao que Gertrude respondeu dizendo ao professor que ele e seu auxiliar poderiam aproveitar para chorar um pouco, enquanto ela fazia algo mais prático. “E não se assuste tanto, professor, eu não vou matar ninguém”. Colocou a arma no ombro, apontou, no momento em que o professor começava a chorar, junto com Óscarparaobrasil, e deu o primeiro tiro. Ouviu-se um grito e um dos homens que estava mais perto começou a correr para todos os lados e a gritar esganiçadamente.
     Gertrude continuou a atirar. A cada tiro, gritos e correria. Até que os homens entraram nos caminhões como puderam e deram a partida. Gertrude dava grandes gargalhadas. O professor aproximou-se e perguntou: “O que a senhora fez?”
     “Chumbinho nas nádegas, professor. Só que hoje eu misturei com sal e pimenta moída. Pode apostar que esses não voltam mais. Devem estar pensando que é algum espírito protetor da floresta. Viu? Não matei ninguém. Eles sequer ouviram o barulho dos tiros, Shu não deixou.”
     Enquanto voltavam, o professor Silvestre fez um longo discurso sobre a não-violência, que os protestos deveriam sempre ser pacíficos, lembrou Gandhi e outros pacifistas, disse que cabia ao Governo tomar qualquer atitude mais enérgica, chegou a lembrar a nova Lei da Palmada...
     Finalmente, Gertrude respondeu: “E o Governo faz o que, professor? Estatísticas, enquanto a floresta está sendo derrubada? É preciso ser muito mulher para viver na floresta. Eu não sou a única. Enquanto os homens bebem, se queixam, fazem abaixo-assinados, choram, gemem, batem o pé e gritam hu-hu-hu-hu, as mulheres agem. Chumbinho nas nádegas, ou nos glúteos, se o senhor preferir, pode resolver muitos problemas, além de proteger a natureza. Isto sim é que é legítima defesa do outro, professor!”.
     Óscarparaobrasil ouvia a conversa e fazia o possível para não pensar.
Fausto Brignol
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