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sábado, 5 de junho de 2010

A TRAGÉDIA DO ORIENTE MÉDIO (para reler e refletir)

Os folhetins, o cinema e a TV nos acostumaram a observar os complexos dramas das pessoas, povos e nações a partir de uma ótica simplista: heróis-vilãos-vítimas.

Ou, simplificando mais ainda, a acreditarmos que quem causa sofrimento às vítimas são os bandidos e quem as defende, os mocinhos.

No fundo, trata-se do velho e obtuso maniqueísmo, a que os pensadores marxistas contrapuseram a dialética: Bem e Mal não existem como instâncias metafísicas que, desde os píncaros do paraíso celestial ou das profundezas do inferno, teleguiam a práxis humana, mas sim como resultado das decisões e ações adotadas pelos homens em cada situação.
No primeiro caso, alguns encarnam o Bem absoluto e o Mal absoluto, sem nuances: os mocinhos são sempre mocinhos e os bandidos, eternamente bandidos.

Na análise marxista, os papéis vão sendo assumidos a cada instante, de forma que o mocinho de ontem poderá ser o bandido de hoje, e vice-versa.

A esquerda mundial até hoje não se recuperou do pesadelo stalinista, que, como Isaac Deutscher bem assinalou, foi um amálgama do pensamento sofisticado dos revolucionários europeus com a religiosidade primitiva da Santa Mãe Rússia.

E a História, infelizmente, favoreceu essa perda de densidade crítica por parte da esquerda. O nazifascismo parecia mesmo encarnar o Mal absoluto, colocando os que o combatiam na condição de cruzados do Bem absoluto.

Veio a guerra fria e a estreiteza de visão se consolidou definitivamente, de ambos os lados. A política mundial se tornou um mero western daqueles tempos em que os mocinhos se vestiam sempre de branco e os bandidos só usavam trajes negros.

Então, desde a década de 1950, quando os EUA se colocaram como protetores de Israel e os soviéticos se compuseram com o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, ficou estabelecido que a única forma progressista de encararmos os conflitos do Oriente Médio é beatificando os árabes e satanizando os judeus.

A questão no Oriente Médio é muito mais complexa.

Em primeiro lugar, temos um povo (o judeu) milenarmente perseguido, não só devido à maldade intrínseca dos poderosos de todos os tempos, mas também a uma certa vocação para o martírio: nunca quis misturar-se aos outros povos e conviver harmoniosamente com eles, fazendo, pelo contrário, questão de preservar sua identidade cultural/religiosa e de ostentá-la aos olhos de todos.

Então, mais do que a outros povos, fazia-lhe imensa falta um território próprio. Constituindo uma colônia minoritária em outros países e segregando-se rigidamente dos naturais desses países, neles despertava previsível hostilidade.

Ademais, os judeus eram invejados pelos gênios da cultura e da ciência que produziam (Marx, Freud, Einstein e tantos outros) e por seu êxito nas finanças, além de despertarem a hostilidade dos governos pela participação marcante que tinham em movimentos libertários/revolucionários.

É sintomático, aliás, que a esquerda hoje esqueça ou omita a importantíssima contribuição do Bund (União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia) para a gestação do movimento revolucionário russo, no início do século passado.

HOLOCAUSTO – Ao buscar um inimigo comum contra o qual unir a nação alemã, Hitler não precisou pensar muito: os judeus eram a opção óbvia.

Finda a II Guerra Mundial, a indignação que o Holocausto provocou na consciência civilizada fez com que a idéia do lar judaico passasse a ser vista com simpatia generalizada.

Foi quando os judeus cometeram seu maior erro de todos os tempos: aceitando a liderança espúria de fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários, implantaram seu estado nacional numa região em que se chocariam necessariamente com outros fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários.

A Inglaterra, império decadente, bem que tentou impedir, em vão. E as pombas desnorteadas, judeus imbuídos dos melhores ideais, acabaram aderindo em massa ao projeto sinistro dos falcões.

Então, uma das experiências socialistas mais avançadas que a humanidade conheceu, a dos kibutzim (comunidades coletivas voluntárias israelenses), acabou sendo tentada num país que logo viraria bunker – e, melancolicamente, foi definhando, até quase nada diferir hoje em dia das cooperativas dos países capitalistas.

As nações árabes só não exterminaram até agora o estado judeu porque jamais o enfrentaram juntas e disciplinadas, sob um verdadeiro comando militar. Mesmo quando vários exércitos combateram Israel, atuaram praticamente como unidades independentes, em função das querelas e disputas de poder entre os reis, sheiks, sultões, califas, emires, etc., de países cuja organização política e social ainda é feudal.

Os israelenses, por enquanto, têm compensado sua inferioridade numérica com a superioridade de seus quadros e equipamentos militares, bem como com a repulsiva prática de promover massacres intimidatórios, reagindo de forma desproporcional e freqüentemente genocida aos ataques que sofre.

Os movimentos fundamentalistas/terroristas árabes agem como provocadores: sabem que jamais conseguirão enfrentar de igual para igual Israel, mas atraem retaliações contra seus povos, na esperança de que isto acabe trazendo as nações para o campo de batalha. Querem ser o estopim de uma guerra santa e não hesitam em sacrificar os seus em nome dos desígnios de Alá.

Os governantes feudais árabes, entretanto, têm mais medo de serem desalojados dos seus tronos do que ódio por Israel. Sabem que o despertar das massas contra o inimigo nacional pode derivar para levantes revolucionários em seus países. Preferem preservar o status quo, ao preço de fecharem os olhos a atrocidades como as cometidas contra os palestinos em Gaza.

Não se trata de nenhum filme de mocinho-e-bandido, pois só há vilãos entre os atores políticos; ninguém que mereça nossa simpatia e apoio.

Quanto às vítimas, estas sim são indiscutíveis: os civis que, nas últimas seis décadas, têm sido abatidos como moscas, devido à cegueira e (sejamos francos) imoralidade monstruosa desses atores políticos.

No fundo, a solução sensata seria o estabelecimento dos judeus noutro território qualquer – quantos países paupérrimos não lhes cederiam terras e autonomia administrativa, em troca de recursos e cooperação para seu desenvolvimento?

Mas não é a sensatez que rege o mundo e sim, como Edgar Allan Poe destacou, o horror e a fatalidade.

Então, os Hamas da vida continuarão ensejando carnificinas e os israelenses seguirão massacrando os vizinhos, trucidando seus velhos, mulheres e crianças, até que surja um novo Lawrence da Arábia e consiga levar à vitória a guerra santa sonhada pelos fundamentalistas/terroristas árabes.

O que temos no Oriente Médio é uma tragédia: os acontecimentos marcham insensivelmente para o pior desfecho e nada podemos fazer, exceto atenuar, tanto quanto possível, os banhos de sangue.
ESCREVI ESTE ARTIGO EM JANEIRO DE 2009, NA ESTEIRA DOS MASSACRES QUE ISRAEL PERPETRARA NA FAIXA DE GAZA.

PERMANECE, INFELIZMENTE, ATUALÍSSIMO.

OS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS NOS REVELAM, P. EX., QUE O BLOQUEIO DE GAZA SÓ FUNCIONOU PORQUE O EGITO COLABOROU COM ISRAEL NESSE INTENTO DESUMANO.

AGORA, FINALMENTE, SE DISPÔS A REVER SUA POSIÇÃO DE CONSIDERAR O HAMAS PIOR INIMIGO AINDA DO QUE O ESTADO JUDEU.

QUANTO A ISRAEL, FICAMOS SABENDO QUE SE TORNA, CADA VEZ MAIS, UM MONSTRO DE FRANKENSTEIN: AS ILUSÕES DE OUTRORA VÃO CEDENDO LUGAR À DURA REALIDADE DE QUE OS JUDEUS SOFISTICADOS NÃO QUEREM NELE RESIDIR, DAÍ O CRESCENTE AFLUXO DE JUDEUS MAIS PRIMITIVOS (E, PORTANTO, IMPIEDOSOS) PARA QUEM COMPENSA TROCAR A POBREZA NA QUAL VIVIAM PELOS RISCOS DE SE ESTABELECEREM NUMA ZONA DE CONFLITO.

ESSES NOVOS CONTINGENTES SÃO PREDOMINANTEMENTE DE FANÁTICOS RELIGIOSOS -- E, COMO TAIS, TENDENTES A APOIAR QUAISQUER SOLUÇÕES DE FORÇA CONTRA OS PALESTINOS.

ELES AUMENTAM MÊS A MÊS SUA ASCENDÊNCIA NA POLÍTICA E NO EXÉRCITO ISRAELENSES. E QUEREM MESMO QUE SURJAM CONFRONTOS COMO O ATUAL, PARA FECHAREM TODAS AS PORTAS AO DIÁLOGO CIVILIZADO, CONSOLIDANDO A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO USURPADO AOS PALESTINOS.

DAÍ A HIPÓTESE, COGITADA POR ALGUNS ANALISTAS, DE QUE O MASSACRE DA FLOTILHA DE AJUDA HUMANITÁRIA EM ÁGUAS INTERNACIONAIS NÃO TENHA SIDO UM FESTIVAL DE ERROS E ABUSOS, MAS SIM UMA PROVOCAÇÃO DELIBERADA, URDIDA PELOS FALCÕES ISRAELENSES PARA AFASTAREM AINDA MAIS QUALQUER POSSIBILIDADE DE SOLUÇÃO NEGOCIADA.

IDEM O RECENTE ANÚNCIO DE NOVAS OCUPAÇÕES NO EXATO INSTANTE EM QUE OS ESTADOS UNIDOS EMPENHAVAM-SE EM BUSCAR UM ACORDO, O QUAL IMPLICARIA, PELO CONTRÁRIO, DEVOLUÇÃO DE TERRA AOS PALESTINOS.

MANTENHO MINHA ANÁLISE: O QUE ESTAMOS VENDO SÃO EVOLUÇÕES NO SENTIDO DE UMA ENORME TRAGÉDIA QUE NINGUÉM ESTÁ CONSEGUINDO EVITAR.

OS JUDEUS SÓ CONSEGUIRÃO PERMANECER EM ISRAEL SE CHEGAREM A ALGUMA FORMA DE ENTENDIMENTO COM OS LEGÍTIMOS PROPRIETÁRIOS DAQUELAS TERRAS.

NO LONGO PRAZO, A ALTERNATIVA PARA ELES É: COEXISTÊNCIA PACÍFICA OU EXPULSÃO (EVENTUALMENTE EXTERMÍNIO).

MAS, APROFUNDANDO SUA INTRANSIGÊNCIA, CONTRIBUEM INSENSIVELMENTE PARA ESSE DESFECHO.

MAIS DIA, MENOS DIA, OS POVOS ÁRABES SE UNIRÃO E VÃO ALCANÇAR A VITÓRIA. SE OS JUDEUS NÃO RECUAREM DE SUA LOUCURA BELICISTA, ACABARÃO COLHENDO O QUE ESTÃO PLANTANDO.

NO ENTANTO, NÃO VEJO MOTIVO NENHUM PARA NOS REGOZIJARMOS COM BANHOS DE SANGUE.

FICO ENOJADO AO VER CIDADÃOS ANTEGOZANDO DESDE JÁ O DIA EM QUE TAL "CANCRO" SERÁ "EXTIRPADO". QUEM GOSTA TANTO ASSIM DE VER PESSOAS MORRENDO, POR QUE NÃO VAI MATÁ-LAS PESSOALMENTE?

CONTINUAREI LAMENTANDO QUE SEJAM O HORROR E A FATALIDADE A REGEREM OS DESTINOS DO MUNDO, ENQUANTO O CAPITALISMO, JÁ PUTREFATO E CADA VEZ MAIS DESTRUTIVO EM SEUS ESTERTORES, NÃO CEDER FINALMENTE LUGAR À COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE ENTRE OS HOMENS.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O MENDIGO HERÓI E OS ZUMBIS DO CAPITALISMO

Hugo Alfredo Tale-Yax era seu nome.

Para os novaiorquinos ele era ninguém. Nada.

Guatemalteco, ou seja, só um cucaracha. Barata que qualquer um pode pisotear.

Como sem-teto, um corpo estranho na metrópole da opulência, da modernidade e do glamour.

Como imigrante ilegal, um indesejável a ser removido pelas autoridades às quais compete manter os empesteados longe do castelo de Próspero (1).

Como desempregado e pedinte, a imagem viva do fracasso numa cidade que só respeita vencedores.

Hugo tinha 31 anos.

Seus sonhos o levaram aonde lhe diziam ser o centro do mundo.

Não sabia que era só o centro da desumanidade capitalista; de um mundo regido pela ganância, pela competição e pela insensibilidade.

Não sabia que o tratariam como pária, talvez pior do que na Índia.

E, finalmente, que nem sequer o veriam mais, pois os olhos deles só miram o que cobiçam.

Então, ninguém viu quando Hugo foi socorrer uma mulher ameaçada por um brutamontes. [E como poderiam vê-lo, se faziam questão de ignorar a briga, para que ninguém pudesse depois arrolá-los como testemunhas?!]

Não viram Hugo arriscar sua vida por uma desconhecida.

Não o viram ser esfaqueado várias vezes.

Não prestaram atenção na mulher que fugia apavorada, nem no assassino se afastando tranquilamente.

Ignoraram que Hugo esvaía-se em sangue, numa lenta agonia.

As câmaras de segurança de um edifício registraram a cena. Mas, trata-se de um dispositivo para resguardar os bens dos ricaços que moram no condomínio de luxo. Não serve para salvar seres humanos que estrebucham na calçada.

As imagens mostram umas 25 pessoas passando ao lado do moribundo e se desviando.

Houve, sim, uma que o tentou ajudar. Mas, ao perceber o sangue encharcando suas roupas puídas, afastou-se, para evitar complicações.

Assim se desperdiçou hora e meia. Assim a vida foi escorrendo de Hugo durante hora e meia.

Se alguém pensou em chamar a polícia, desistiu. A moeda ou o tempo gasto poderia fazer falta. Mendigos não fazem falta.

Finalmente, alguém ligou. Tarde demais.

Nova York não queria Hugo Alfredo Tale-Yax.

E também não o merecia.

Heróis são anacrônicos na cidade onde vegetam os zumbis do capitalismo.

1) Príncipe que deu refúgio aos nobres para aguardarem, em infindáveis orgias, o fim da peste que dizimava os aldeães, escorraçando-os quando lhe imploravam abrigo (em "A Máscara da Morte Rubra", de Edgar Allan Pöe).
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