sábado, 23 de janeiro de 2010
O filme Avatar está se tornando a maior bilheteria do cinema de todos os tempos. Seu diretor, James Cameron, cria novamente, um enredo em que o avanço tecnológico desenfreado causa o desastre. Este tema já havia sido abordado em outros grandes sucessos do diretor, como por exemplo Allien e Titanic; Apesar da diferença dos gêneros de filme, pois Titanic é uma tragédia romântica, enquanto Allien mistura ficção científica com suspense, e por outro lado Avatar mistura fábula e ficção científica, há um tema comum que os perpassa: a Hybris, ou orgulho vão, do ser humano que acha que chega ao total dominío tecnológico X Natureza que num movimento compensatório, vence esta Hybris. O tema da Hybris tem relação com a ascensão do ego humano que acredita, numa atitude heróica, poder vencer a Natureza. Mas o desfecho é sempre o mesmo: a Natureza mostra-se superior às pretensões heróicas do ser humano. Em Allien a Natureza agredida retorna na forma de alieníginas que devoram seres humanos que partem orgulhosamente para dominar, com suas naves tecnológicas novos mundos. Já em Titanic, o navio que seus construtores diziam que nunca poderia ser afundado, Cameron filme uma remontagem romanceada do que seria a primeira e última viagem do transatlântico mais luxuoso do mundo. Já em Avatar o tema ecológico é explícíto: soldados americanos querem invadir a terra de seres guardiões da Natureza, para poder auferir riquezas e são derrotados. Porém, na última hora o soldado americano deserta e passa a defender a Natureza. Cameron apresenta setores da consciência americana que se sentem culpados frente à destruição da natureza, empreendida principalmente por eles, líderes mundiais do consumo desenfreado de energia.
Haroldo Tuyoshi Sato
Postado por haroldosato
FONTE : http://haroldotsato.blogspot.com/2010/01/avatar-ou-culpa-da-consciencia.html
Mostrando postagens com marcador ANÁLISE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ANÁLISE. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 16 de março de 2010
terça-feira, 1 de setembro de 2009
"MACUNAÍMA - O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER" - MÁRIO DE ANDRADE (análise da obra)
O herói sem nenhum caráter
Foi, portanto, na obra do etnólogo alemão que Mário de Andrade, paradoxal e muito antropofagicamente, encontrou a essência do brasileiro. O próprio autor de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro, nos conta como ocorreu a descoberta:
“O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.
Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter. (Gozei)”
As metamorfoses pelas quais passa a personagem, de sabor surrealista, podem muito bem ser associadas à sua “falta de caráter”, assim como o fascínio que revela pela “língua de Camões”, na Carta pras Icamiabas.
* Análise da Obra
Macunaíma e a renovação da linguagem literária
A rapsódia
As fontes
O herói sem nenhum caráter
Foco narrativo
Espaço e tempo
Enumerações e desregionalização
A Carta pras Icamiabas
por Dácio Antônio de Castro e Frederico Barbosa
FONTE : http://www.angelfire.com/mn/macunaima/#O%20her%C3%B3i%20sem%20nenhum%20car%C3%A1ter
Foi, portanto, na obra do etnólogo alemão que Mário de Andrade, paradoxal e muito antropofagicamente, encontrou a essência do brasileiro. O próprio autor de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro, nos conta como ocorreu a descoberta:
“O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.
Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter. (Gozei)”
As metamorfoses pelas quais passa a personagem, de sabor surrealista, podem muito bem ser associadas à sua “falta de caráter”, assim como o fascínio que revela pela “língua de Camões”, na Carta pras Icamiabas.
* Análise da Obra
Macunaíma e a renovação da linguagem literária
A rapsódia
As fontes
O herói sem nenhum caráter
Foco narrativo
Espaço e tempo
Enumerações e desregionalização
A Carta pras Icamiabas
por Dácio Antônio de Castro e Frederico Barbosa
FONTE : http://www.angelfire.com/mn/macunaima/#O%20her%C3%B3i%20sem%20nenhum%20car%C3%A1ter
terça-feira, 25 de agosto de 2009
O PROCESSO SEMIÓTICO NUM POEMA DE DRUMMOND - Salatiel Ferreira Rodrigues
Poema das sete faces
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás e mulheres
A tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás do óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
O PLANO DE EXPRESSÃO
Não nos propomos fazer aqui uma análise do poema de Drummond, muito menos pretendemos atribuir-lhe uma decifração total, visto que um texto poético de tal envergadura se constitui numa galáxia de significados que a análise jamais o esgota. Pretendemos apenas estudar-lhe o plano da expressão, sob os aspectos denotativos, conotativo e mítico, dentro de determinado enfoque, sem negar-lhe a possibilidade de n outros percursos de leitura diferentes.
Partindo do princípio de que a grandeza do poeta consiste no modo como explora as palavras e que entre estas há as que encerram um significado em si (substantivos, adjetivos, verbos) e outras que são palavras de relação, sem significado ou com significação latente (pronomes, preposições, conjunções), é com as primeiras que vamos nos ocupar, embora não esqueçamos do que na obra literária aquelas posições podem ser invertidas na escala de valores. Nossa preferência se explica também pela própria finalidade deste trabalho que é a análise de relação expressão / conteúdo em escala ascendente a partir do nível denotativo.
O contato com a poesia drummondiana revela-nos, logo de saída, marcante originalidade de vocabulário. O poeta esmera-se em alcançar os melhores resultados no trato com a palavra, no teorizar a palavra, como assim é visto por Antônio Houaiss:
Teoria da palavra – divagações, talvez, em torno de uma lúcida intuição de poeta, de cuja prática da palavra se pretende, agora, dar uma idéia, com a sua seleção verbal, prática mais rica ainda do que a teoria, que não a sistematiza, não a limita, não a define inteiramente. Prática, ademais, fecunda, e fecunda desde o início – sem a mínima quebra do valor de sua mensagem, muito antes pelo contrário.[1]
O vocabulário de Drummond – como é o dos poetas contemporâneos – opõe-se ao vocabulário usual dos poetas anteriores, como o disse Houaiss:
...não apenas uma oposição consagrada – como a dos parnasianos, à procura do rigor racional no uso dos vocábulos em oposição ao uso afetivo e padronizado dos românticos, ou dos simbolistas, à procura dos vocábulos musicais ou sugestivos em oposição ao uso lógico dos parnasianos. Nos contemporâneos, a oposição a todos os outros é por universalização; não há proscrição possível por princípio; haverá, se tanto, omissão, por não ocorrer a necessidade de uma dada palavra; e ainda mais, essa universalização não se faz na base da chamada adequação verbal – palavras afins pelo uso social de certa camada, pelo uso técnico, pela sugestão histórica, pela associação histórica – mas as palavras, provindas de quaisquer setores do vocabulário, confluem em inusitadas combinações, associações, que carregam de ineditismo o inusitado, sobretudo porque não se amarram em esquemas convencionais, de dignidade específica, de acordo com o tema, mas com o estado espírito do autor.[2]
Essa dupla oposição – ao anterior e ao presente – é uma constante em sua obra e é o que se verifica no Poema de sete face, anjo torto, ser gauche na vida, casas espiam os homens, bonde cheio de pernas, homem atrás dos óculos e do bigode, Raimundo, conhaque, botam a gente, etc. Valorização por oposição que se faz não apenas ao convencional, mas ao usual. Oposição que nos revela o mais importantes aspecto geral na evolução do vocabulário de Drummond.
Observe-se que nesse poema, na primeira, segunda, terceira e quarta estrofes, que se referem ao mundo objetivo, o mundo das coisas, as palavras são mais livres, mais independentes, passíveis de serem interpretadas isoladamente. J´na quinta, sexta e sétima estrofes, referindo-se ao mundo subjetivo, mundo dos sentimentos, as palavras adquirem mais força de expressão quando sentidas em bloco. Assim é que aquela primeira metade do poema, mais especialmente, se presta de imediato a uma leitura, seja no nível denotativo ou no conotativo, como veremos a seguir. (...)
CONTINUE A LER EM :
FONTE : http://www.filologia.org.br/revista/artigo/6(17)81-90.html
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás e mulheres
A tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás do óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
O PLANO DE EXPRESSÃO
Não nos propomos fazer aqui uma análise do poema de Drummond, muito menos pretendemos atribuir-lhe uma decifração total, visto que um texto poético de tal envergadura se constitui numa galáxia de significados que a análise jamais o esgota. Pretendemos apenas estudar-lhe o plano da expressão, sob os aspectos denotativos, conotativo e mítico, dentro de determinado enfoque, sem negar-lhe a possibilidade de n outros percursos de leitura diferentes.
Partindo do princípio de que a grandeza do poeta consiste no modo como explora as palavras e que entre estas há as que encerram um significado em si (substantivos, adjetivos, verbos) e outras que são palavras de relação, sem significado ou com significação latente (pronomes, preposições, conjunções), é com as primeiras que vamos nos ocupar, embora não esqueçamos do que na obra literária aquelas posições podem ser invertidas na escala de valores. Nossa preferência se explica também pela própria finalidade deste trabalho que é a análise de relação expressão / conteúdo em escala ascendente a partir do nível denotativo.
O contato com a poesia drummondiana revela-nos, logo de saída, marcante originalidade de vocabulário. O poeta esmera-se em alcançar os melhores resultados no trato com a palavra, no teorizar a palavra, como assim é visto por Antônio Houaiss:
Teoria da palavra – divagações, talvez, em torno de uma lúcida intuição de poeta, de cuja prática da palavra se pretende, agora, dar uma idéia, com a sua seleção verbal, prática mais rica ainda do que a teoria, que não a sistematiza, não a limita, não a define inteiramente. Prática, ademais, fecunda, e fecunda desde o início – sem a mínima quebra do valor de sua mensagem, muito antes pelo contrário.[1]
O vocabulário de Drummond – como é o dos poetas contemporâneos – opõe-se ao vocabulário usual dos poetas anteriores, como o disse Houaiss:
...não apenas uma oposição consagrada – como a dos parnasianos, à procura do rigor racional no uso dos vocábulos em oposição ao uso afetivo e padronizado dos românticos, ou dos simbolistas, à procura dos vocábulos musicais ou sugestivos em oposição ao uso lógico dos parnasianos. Nos contemporâneos, a oposição a todos os outros é por universalização; não há proscrição possível por princípio; haverá, se tanto, omissão, por não ocorrer a necessidade de uma dada palavra; e ainda mais, essa universalização não se faz na base da chamada adequação verbal – palavras afins pelo uso social de certa camada, pelo uso técnico, pela sugestão histórica, pela associação histórica – mas as palavras, provindas de quaisquer setores do vocabulário, confluem em inusitadas combinações, associações, que carregam de ineditismo o inusitado, sobretudo porque não se amarram em esquemas convencionais, de dignidade específica, de acordo com o tema, mas com o estado espírito do autor.[2]
Essa dupla oposição – ao anterior e ao presente – é uma constante em sua obra e é o que se verifica no Poema de sete face, anjo torto, ser gauche na vida, casas espiam os homens, bonde cheio de pernas, homem atrás dos óculos e do bigode, Raimundo, conhaque, botam a gente, etc. Valorização por oposição que se faz não apenas ao convencional, mas ao usual. Oposição que nos revela o mais importantes aspecto geral na evolução do vocabulário de Drummond.
Observe-se que nesse poema, na primeira, segunda, terceira e quarta estrofes, que se referem ao mundo objetivo, o mundo das coisas, as palavras são mais livres, mais independentes, passíveis de serem interpretadas isoladamente. J´na quinta, sexta e sétima estrofes, referindo-se ao mundo subjetivo, mundo dos sentimentos, as palavras adquirem mais força de expressão quando sentidas em bloco. Assim é que aquela primeira metade do poema, mais especialmente, se presta de imediato a uma leitura, seja no nível denotativo ou no conotativo, como veremos a seguir. (...)
CONTINUE A LER EM :
FONTE : http://www.filologia.org.br/revista/artigo/6(17)81-90.html
domingo, 19 de julho de 2009
DOMENICO DE MASI FALA SOBRE IMPERFEIÇÕES NA ARTE, NA CULTURA, NA POLÍTICA... (CONEXÃO ROBERTO DÁVILA) PARTE 3
Marcadores:
ANÁLISE,
ARTE,
BELEZA,
CAPITALISMO,
CIÊNCIA,
CIVILIZAÇÃO,
COMUNISMO,
DOMENICO DE MASI. ENTREVISTAS,
ESTÉTICA,
POLÍTICA,
TECNOLOGIA,
TELEVISÃO,
TRANSFORMAÇÃO,
VÍDEO
sexta-feira, 22 de maio de 2009
O QUE A SOCIEDADE PENSA DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES?
Principais resultados da Pesquisa Ibope - Instituto Patrícia Galvão (2004)
A partir de uma lista de problemas, homens e mulheres reconhecem que a
violência contra a mulher, tanto dentro como fora de casa, é o problema que mais
preocupa a brasileira na atualidade.
30% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa em
primeiro lugar, na frente de uma série de outros problemas, como câncer de
mama e de útero (17%) e a Aids (10%). Os indicadores de preocupação com a
questão da violência não mostram diferenças entre os sexos, tampouco na
maioria das variáveis estudadas. Isto é, trata-se de um problema amplamente
difundido no conjunto da sociedade.
•
91% dos brasileiros consideram muito grave o fato de mulheres serem
agredidas por companheiros e maridos. As mulheres são mais enfáticas
(94%), mas, ainda assim, a grande maioria dos homens (88%) concorda com a
alta gravidade do problema.
•
A percepção da gravidade da violência contra a mulher se confirma quando
90% dos brasileiros acham que o agressor deveria sofrer um processo e
ser encaminhado para uma reeducação. O contraste entre a quase
unanimidade destas opiniões e a realidade concreta na vida das mulheres é
gritante. São poucos os casos que chegam a processo e escassas as
instituições que lidam com reeducação do agressor.
•
A idéia de que a mulher deve agüentar agressões em nome da
estabilidade familiar é claramente rejeitada pelos entrevistados (86%), assim
como o chavão em relação ao agressor, “ele bate, mas ruim com ele, pior sem
ele”, que é rejeitado por 80% dos entrevistados.
•
Com relação ao chavão conformista “ele bate, mas ruim com ele, pior sem
ele”, há diferenças significativas e culturalmente relevantes: as mulheres (83%)
tendem a rejeitar mais do que os homens (76%); os mais jovens (83%), mais do
que os mais velhos (68%).
•
Em uma pergunta que pede um posicionamento mais próximo daquilo que o
entrevistado pensa, 82% respondem que “não existe nenhuma situação que
justifique a agressão do homem a sua mulher”. Em contrapartida, 16% (a
maioria homens) conseguem imaginar situações em que há essa possibilidade.
Observa-se que 19% dos homens admitem a agressão, assim como 13% das
mulheres.
•
Homens e mulheres fazem o mesmo diagnóstico: 81% dos entrevistados
apontam o uso de bebidas alcoólicas como o fator que mais provoca violência
contra a mulher; em segundo lugar, mencionadas por 63% dos entrevistados,
vêm as situações de ciúmes em relação à companheira ou mulher.
•
Menos importantes, mas citadas por três em cada dez entrevistados, vêm as
questões econômicas: desemprego (37%) e problemas com dinheiro (31%).
13% citam a eventualidade de falta de comida em casa e 14%, dificuldade no
trabalho.
•
É opinião geral, em todos os segmentos da amostra, que os que mais perdem
nas situações de violência doméstica são os filhos do casal: assim pensam 63%
dos entrevistados. 14% das mulheres dizem que elas perdem mais e 16% dos
homens se reconhecem como os maiores perdedores. O que estes números
sugerem é que todos perdem quando há violência na casa.Trata-se de um
flagelo e uma epidemia que atinge a todos.
Veja a seguir mais detalhes sobre a Pesquisa Ibope – Instituto Patrícia Galvão
sobre violência contra as mulheres.
coordenação editorial
Marisa Sanematsu
análise da pesquisa
Fátima Pacheco Jordão
elaboração da pesquisa
Fátima Pacheco Jordão
Jacira Vieira de Melo
Sobre o Instituto Patrícia Galvão
O Instituto Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia é uma organização da
sociedade civil, sem fins lucrativos, criada em 2002.
Suas áreas de trabalho são a comunicação e a mídia, consideradas estratégicas
nos projetos de transformação cultural, social e política.
Seu ideal é uma comunicação de massa cada vez mais democrática, plural,
não-sexista e não-racista.
Seu objetivo é colaborar para a construção, na mídia, de uma imagem de
mulher mais adequada à realidade e ao protagonismo das mulheres na sociedade
brasileira.
O Instituto Patrícia Galvão entende que as tarefas desafiadoras colocadas no
campo da comunicação política não podem ser enfrentadas isoladamente. O
Patrícia Galvão orienta seus projetos e ações para fomentar, incentivar, impulsionar e
influir na formação de alianças estratégicas para a realização de ações de impacto.
O Instituto Patrícia Galvão responde pela coordenação geral da Campanha
Onde tem violência, todo mundo perde. Para mais informações sobre a Campanha,
acesse www.patriciagalvao.org.br ou www.violenciamulher.org.br.
Quem foi Patrícia Galvão?
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), conhecida como Pagu, foi jornalista,
escritora e ativista política.
Atuou nos movimentos modernista e antropofágico.
Em 1931 lançou, juntamente com o escritor Oswald de Andrade, um tablóide
político no qual assinava a coluna feminista “A Mulher do Povo”. No mesmo ano,
Patrícia Galvão foi presa por participar de uma manifestação, tornando-se uma das
primeiras brasileiras a serem presas por motivo político no século 20.
Estudou na França (Sorbonne), onde foi presa por suas atividades políticas.
Repatriada, é presa novamente. Sofre torturas e fica detida até 1940.
Patrícia Galvão sempre acreditou e lutou para que as mulheres tivessem um
papel mais ativo na sociedade e na política.(...)
ler mais em :
http://www.violenciamulher.org.br/pesquisa.pdf.
A partir de uma lista de problemas, homens e mulheres reconhecem que a
violência contra a mulher, tanto dentro como fora de casa, é o problema que mais
preocupa a brasileira na atualidade.
30% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa em
primeiro lugar, na frente de uma série de outros problemas, como câncer de
mama e de útero (17%) e a Aids (10%). Os indicadores de preocupação com a
questão da violência não mostram diferenças entre os sexos, tampouco na
maioria das variáveis estudadas. Isto é, trata-se de um problema amplamente
difundido no conjunto da sociedade.
•
91% dos brasileiros consideram muito grave o fato de mulheres serem
agredidas por companheiros e maridos. As mulheres são mais enfáticas
(94%), mas, ainda assim, a grande maioria dos homens (88%) concorda com a
alta gravidade do problema.
•
A percepção da gravidade da violência contra a mulher se confirma quando
90% dos brasileiros acham que o agressor deveria sofrer um processo e
ser encaminhado para uma reeducação. O contraste entre a quase
unanimidade destas opiniões e a realidade concreta na vida das mulheres é
gritante. São poucos os casos que chegam a processo e escassas as
instituições que lidam com reeducação do agressor.
•
A idéia de que a mulher deve agüentar agressões em nome da
estabilidade familiar é claramente rejeitada pelos entrevistados (86%), assim
como o chavão em relação ao agressor, “ele bate, mas ruim com ele, pior sem
ele”, que é rejeitado por 80% dos entrevistados.
•
Com relação ao chavão conformista “ele bate, mas ruim com ele, pior sem
ele”, há diferenças significativas e culturalmente relevantes: as mulheres (83%)
tendem a rejeitar mais do que os homens (76%); os mais jovens (83%), mais do
que os mais velhos (68%).
•
Em uma pergunta que pede um posicionamento mais próximo daquilo que o
entrevistado pensa, 82% respondem que “não existe nenhuma situação que
justifique a agressão do homem a sua mulher”. Em contrapartida, 16% (a
maioria homens) conseguem imaginar situações em que há essa possibilidade.
Observa-se que 19% dos homens admitem a agressão, assim como 13% das
mulheres.
•
Homens e mulheres fazem o mesmo diagnóstico: 81% dos entrevistados
apontam o uso de bebidas alcoólicas como o fator que mais provoca violência
contra a mulher; em segundo lugar, mencionadas por 63% dos entrevistados,
vêm as situações de ciúmes em relação à companheira ou mulher.
•
Menos importantes, mas citadas por três em cada dez entrevistados, vêm as
questões econômicas: desemprego (37%) e problemas com dinheiro (31%).
13% citam a eventualidade de falta de comida em casa e 14%, dificuldade no
trabalho.
•
É opinião geral, em todos os segmentos da amostra, que os que mais perdem
nas situações de violência doméstica são os filhos do casal: assim pensam 63%
dos entrevistados. 14% das mulheres dizem que elas perdem mais e 16% dos
homens se reconhecem como os maiores perdedores. O que estes números
sugerem é que todos perdem quando há violência na casa.Trata-se de um
flagelo e uma epidemia que atinge a todos.
Veja a seguir mais detalhes sobre a Pesquisa Ibope – Instituto Patrícia Galvão
sobre violência contra as mulheres.
coordenação editorial
Marisa Sanematsu
análise da pesquisa
Fátima Pacheco Jordão
elaboração da pesquisa
Fátima Pacheco Jordão
Jacira Vieira de Melo
Sobre o Instituto Patrícia Galvão
O Instituto Patrícia Galvão – Comunicação e Mídia é uma organização da
sociedade civil, sem fins lucrativos, criada em 2002.
Suas áreas de trabalho são a comunicação e a mídia, consideradas estratégicas
nos projetos de transformação cultural, social e política.
Seu ideal é uma comunicação de massa cada vez mais democrática, plural,
não-sexista e não-racista.
Seu objetivo é colaborar para a construção, na mídia, de uma imagem de
mulher mais adequada à realidade e ao protagonismo das mulheres na sociedade
brasileira.
O Instituto Patrícia Galvão entende que as tarefas desafiadoras colocadas no
campo da comunicação política não podem ser enfrentadas isoladamente. O
Patrícia Galvão orienta seus projetos e ações para fomentar, incentivar, impulsionar e
influir na formação de alianças estratégicas para a realização de ações de impacto.
O Instituto Patrícia Galvão responde pela coordenação geral da Campanha
Onde tem violência, todo mundo perde. Para mais informações sobre a Campanha,
acesse www.patriciagalvao.org.br ou www.violenciamulher.org.br.
Quem foi Patrícia Galvão?
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), conhecida como Pagu, foi jornalista,
escritora e ativista política.
Atuou nos movimentos modernista e antropofágico.
Em 1931 lançou, juntamente com o escritor Oswald de Andrade, um tablóide
político no qual assinava a coluna feminista “A Mulher do Povo”. No mesmo ano,
Patrícia Galvão foi presa por participar de uma manifestação, tornando-se uma das
primeiras brasileiras a serem presas por motivo político no século 20.
Estudou na França (Sorbonne), onde foi presa por suas atividades políticas.
Repatriada, é presa novamente. Sofre torturas e fica detida até 1940.
Patrícia Galvão sempre acreditou e lutou para que as mulheres tivessem um
papel mais ativo na sociedade e na política.(...)
ler mais em :
http://www.violenciamulher.org.br/pesquisa.pdf.
Marcadores:
ANÁLISE,
ANTROPOLOGIA,
ARTISTA,
BRASIL,
CLASSE MÉDIA,
DIREITOS HUMANOS,
HISTÓRIA,
HOMENAGEM,
LITERATURA,
MULHER,
MULTIMANIFESTO,
OPRESSÃO,
PESQUISA,
POETA,
RAIZES CULTURAIS,
TORTURA,
VIOLÊNCIA
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Pensamentos aforismáticos acerca da Excelência da Poesia - RICARDO SANT'ANNA REIS (clique aqui)
Ricardo Sant’Anna Reis, sociólogo e poeta.
Ao se propor ao debate o tema “A Excelência da Poesia”, a primeira ponderação que se pode fazer é a de que o conceito de excelência não permite mediações. Ao contrario, este se prende à idéia de raiz, de radicalidade, de conteúdo essencial, abordagem pura, etc.
A poesia, por excelente, é como o fenômeno da religião no que diz respeito ao dever da revelação transcendente (e não ao conteúdo moral).
A Poesia se apresenta aos homens como uma descrição profética, por serem os poetas tidos como entes de ligação entre a vida humana, com suas impressões e dores, seus erros, e a idealização da perfeição do Cosmo. Por serem capazes da expressão criativa, os poetas exercem fascínio sobre as pessoas que se consideram, no geral, incapazes de criar.
A identidade que se cria entre os poetas e pessoas que apreciam poesia, estrutura um formato de celebração, uma ritualística de amor quase religiosa. Este Religare se faz pela narrativa poética, que não é um relato naturalista e prosaico de uma sensorialidade objetivada, mas preserva o mistério.
Toda arte é uma abstração; e toda abstração, uma idealização, dimensão ficcional. Portanto a arte não traduz “verdades totalizantes” (como na religião e na moral), mas as “verdades transitórias” do artista. Recorramos a Niestzche para lembrar que: “A maior antítese à verdade, não é a mentira, e sim, a convicção”. Portanto, a poesia teima em ser impertinente e em abrigar a dúvida. O substrato humano destas verdades transitórias, é que se torna possível compreender a relatividade das coisas e que os valores humanos devem ser construídos para servir ao homem, enquanto coletividade, de maneira mais efetiva e satisfatória: À poesia cumpre aqui a função de transformar pessoas, de educar para o processo civilizatório, de forma não alienada, crítica e verdadeiramente humana.
Ao (re) inventar o mundo pela síntese funcional entre a emoção/paixão/desejos e a razão/logos/virtude, a poesia mostra-se com uma possibilidade crítica ilimitada. Mesmo quando a serviço de valores hegemônicos, da “verdade totalizante dos dogmas”, como na poesia épica de Milton, a liberdade do poeta é extrema. É belíssimo ver como em “Paraíso Perdido” este descreve a personalidade e qualidades de Satã, pintando-o como um anjo nobre, vaidoso, magnífico general, que sentindo-se relegado e vitima da ingratidão divina à sua lealdade (já que este nomeou a seu filho para comandar os anjos), levantou-se contra Deus usando de sua liderança entre os anjos para formar uma forte legião de seguidores. Afinal, derrotados, foram condenados a reinar nas profundezas. Também descreve a queda de Eva, tentada pela serpente, por curiosidade feminina e vaidade no exercício do livre arbítrio, e, Adão, que comerá posteriormente a maçã, mas o fazendo por solidariedade a sua amada, para que não fosse ela expulsa sozinha do Éden (ou seja, por amor o paraíso lhe foi perdido). É evidentemente uma descrição poética diferente do ensinamento religioso monoteísta, no que se refere a natureza diversa dos homens e entes sobrenaturais.
É a liberdade que se dá o poeta, ao servir-se da natureza e das emoções e transformá-los por sua narrativa, em busca melhor servir ao projeto humano. Através do amor (da busca pela beleza), colocando a racionalidade no exercício da arte, busca mitigar a dor da solidão, própria à condição humana. O homem, por ser o único animal que tem consciência de sua própria finitude, traz no peito uma angustia que lhe move em busca da transcendência. É neste processo que a poesia se constitui e forja a sua essência.
Os produtos da arte são como recortes, impressões, opções, ângulos, e devem ter o compromisso com a revelação de algo não percebido.
Os poemas, quadros, esculturas, etc, que não buscarem surpreender e revelar, não serão frutos da verdadeira arte.
A musica e as outras artes se dirigem mais ao gosto popular do que a poesia, pois lidam com sentimentos vagos e não se necessita (como condição sine qua non) de preparo intelectual por parte do receptor ou do produtor. Por exemplo, as artes pictóricas, descritivas ou não, deixam o individuo que as consome com bem cultural em liberdade para atribuir qualquer entendimento ou sensação a um quadro ou escultura. As expressões da manifestação artística são peculiares. A escultura deixa de lado o movimento e a cor; a pintura deixa de lado a terceira dimensão e o movimento; a musica abandona tudo que não seja o som.
Toda forma artística, evidentemente, leva a constituição de um gosto estético, leva a uma educação da sensibilidade, etc.
Porem, a poesia baseia-se na palavra e é portanto a abstração suprema, a mais complexa e completa das artes, onde se ausentam todos os aspectos auxiliares, possíveis em outras artes, e não se conserva nada do mundo exterior. A poesia reconstrói o mundo exterior de forma inteiramente inventiva, sendo a arte que mais dificilmente imita a vida, mais efetivamente idealizadora, e que incorpora o maior trabalho intelectual. Um trecho musical de sinfonia pode sugerir a alguém a impressão do frescor de primavera; para outro alguém, pode sugerir uma boa lembrança de amor, etc. Um poema, não. Deve ter a capacidade de transmitir conceitualmente o que quis dizer o criador, mesmo que promova sentimentos variados no leitor.
Não é no conteúdo das sensibilidades do artista que está a excelência da arte poética. É muito comum, popularmente, se confundir quadrinhas que espraiam bons augúrios e bons sentimentos, desejos de felicidade, com poesia. Isto não é poesia. O poeta não se distingue porque sente algo. Distingue-se pelo uso que faz do conceito de sensibilidade. A sensibilidade poética é fruto de um exercício intelectual qualificado, onde o criador deve usar a bagagem de conhecimentos que adquiriu, referencias universais, etc, deve distanciar-se no processo de criação a ponto de poder buscar o apuro conceitual e técnico, e sentir-se como um leitor que não teve a vivencia específica da inspiração sentiria o poema, para que este se exteriorize. Para tal, o poeta usará os recursos técnicos que lhe são acessíveis, que aprenderá por estudo, imitação repetição de leituras, etc. O importante é que haja na poesia elementos que garantam a poeticidade, tornando a linguagem efetivamente conotativa.
A poesia é a obra de arte onde se soma a sensibilidade e o instinto do artista, ao pensamento e a inteligência, trabalhando-se o material que a vida apresenta (uma idéia, uma palavra, uma cena, etc). O resultado deve ser algo altamente objetivado e exteriorizado no sentido de passar a ser um patrimônio cultural da humanidade.
Pedem-se altas doses de racionalidade no processo de criação poética, visando retirar toda a denotação, todo o naturalismo e dimensão prosaica (daí porque que uma poesia confessional será sempre menor), que só se refere e interessa ao individuo em si, projetando a poesia e o seu entendimento como valor universal. Um poema não é um diário intimo. Como Rilke aconselha a Franz Kappus: “Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo se morreria se lhe fosse vedado escrever. Se for o caso, construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Não faça poemas de amor ainda. Observe a natureza, descreva o que vê como se fosse o primeiro homem do mundo; vasculhe suas lembranças, sonhos, busque inspiração na sua infância, este rico manancial poético”.
Não se pode ler um poema interpretando-o no sentido imediato.
Ele tem que ter dimensão figurativa, ressaltar sons, formas, idéias, desejos, transcender o significado próprio das palavras e se abrir a novos sentidos. O uso da metáfora, a marcação de um ritmo que dá a unidade, é o meio retórico próprio à linguagem poética, que possibilita a dimensão conotativa, sugestiva, e se dirige à emoção do leitor.
Um poema, como toda arte, é também uma obra aberta, de certa maneira.
Constrói-se a linguagem garantindo a conotação do sentido, através de recursos de estilo, figuras de linguagem, sonoridade, ritmo, rima, repetição, experimentação de novas associações entre palavras, etc.
As figuras de linguagem são recursos usados pelos poetas para provocar a poeticidade em seus poemas. Mesmo em poemas brancos, onde não se teria que seguir nenhuma norma de orientação, pode-se e deve-se usar tais recursos que enriquecem o poema. Elas podem ser a Anáfora (repetição de verso), Anástrofe (inversão da ordem sintática), Diácope (repetição de frases), Aliteração (seqüência de fonemas), Epizeuxe (repetição de palavras em seqüência), Assonância (seqüência de sons), etc. São inúmeros os recursos que possibilitam a distinção da linguagem poética conotativa, para a linguagem denotativa da prosa.
Os recursos técnicos da arte poética permitem que esta torne-se um poderoso instrumento de formação de consciência critica, pois estimula e burila o espírito. Nem tudo no poema é revelação, por vezes insinuação, por vezes ausência simbólica, silêncio. Porem, um poema sempre se deve expressar sua forma o significado e o significante, ou seja, deve ter uma dimensão conceitual. O poema não deve ser um mero esforço pelo entretenimento ou um jogo de palavras como se vê em alguns produtores contemporâneos. É muito mais do que isto.
O amor surge na poesia como a metáfora de um mundo melhor, e a tarefa do poeta é a da busca pela beleza. Por amor considere-se a manifestação dos afetos vários (entendidos psicanaliticamente), onde a gradiente dos sentimentos pode se expressar. Evidentemente, a poesia tem uma forte dimensão de auto-analise, de trato terapêutico em si.
É um olhar para o interior da alma humana, contraditória, diversa, sublime, vil, etc.
Esta busca de sentido, a busca pela expressão mais adequada para a afirmação poética (a poesia como musica em Mallarmé, a desconstrução da palavra nos irmãos Campos, a poesia sem sangue, seca, sem metáforas de João Cabral, etc), chega-se a novas formas de expressão.
Há os que rejeitam a metáfora na poesia; os que buscam retirar da poesia os sentimentos humanos, etc. Todos acabam por criar novos signos de expressão poética. Neste sentido, a polêmica sobre a arte moderna, a explosão dadaísta do conceito, permanece até hoje.
Havia validade à época, egressos que estávamos do “beletrismo”, das formas harmônicas renascentistas, etc. Hoje, recupera-se o debate sobre a necessidade de reincorporar o logos ao processo da arte. Ao romperem com a tradição, as vanguardas estéticas serviram para a renovação do discurso, para a busca de sentido novo na poesia, etc.
Se este processo se esgotou, enquanto experimentação, porque não revisitar as antigas experiências e tradições? A métrica, a escansão, prosódia, a rima, podem ser recuperadas por uma abordagem contemporânea. Ou não podem? Fala-se que o nosso tempo pede uma linguagem ágil, moderna, pressionados que estamos pela linguagem midiática. Mas, creio que o papel da poesia é, neste caso, pela valorização da educação pública, de resistência cultural contra a reificação da tecnologia, pela desconstrução da cultura de massas que se tornou hegemônica e nefasta, onde nossos filhos mais o são da Globo e da Internet, do que nossos, de fato. Sem o reacionarismo de rejeitar as mudanças contemporâneas, creio que cabe à poesia um papel civilizatório de resistência frente ao mundo prosaico e sem espírito em que estamos vivendo, sempre correndo atrás de algo que não sabemos o que é. Por isso, que vivam Machado de Assis e Olavo Bilac, que vivam Cruz e Souza e Sousândrade, Castro Alves e Cecília Meireles, etc, nossos grandes e eternos luminares...
A poesia contemporânea sofre de algumas contaminações: a da dimensão geracional pós-moderna, do esvaziamento frente aos valores que balizavam historicamente a busca de sentido para a arte e para a convivência humana, o elitismo que marca determinada incapacidade de comunicação da poesia, etc. Vivemos sob o signo da mutação e expressando a perplexidade pela falta de utopias validas. Muito do que se chama de poesia, hodiernamente, não é mais do que necessidade de expressão comportamental de segmentos médios, socialmente esvaziados, humilhados e intelectualmente excluídos. Este fenômeno fala mais sobre a necessidade de convívio, de minimizar a violência urbana, da necessidade de uma revolução no processo educacional brasileiro, do que do verdadeiro processo de produção de arte poética. Vê-se por aí “poesia” que se mistura com certo tipo de boemia, onde a poesia se confunde com álcool e outras drogas, aditivos da percepção, não por uma investigação onírica, atitude rebelde, como a feita por Baudelaire, mas expressando decadência e busca desenfreada ao entretenimento. É um equivoco, penso. A poesia, ela própria deve ser capaz de inebriar poetas e leitores, de tirá-los da alienação sensorial e lançá-los ao desafio de mudar o mundo. A poesia pode e deve prescindir de Deus, de religião, de dinheiro, de drogas, como no poemeto-sintese de Claudia Alencar: "não faço poesia para ganhar dinheiro; faço-a para ganhar alma”. A poesia merece respeito, por ser uma condição irrecorrível para o poeta, quase como o respirar.
É parte constitutiva e inerente ao ser humano a capacidade criativa. Como um monstro que devora os próprios filhos, a sociedade anula a possibilidade de intervenção individual, restringindo-a a níveis lógicos para que não perturbem a reprodução do sistema. Uma pessoa que não desenvolveu o dom de criar por força da desconstituição do individuo em sociedade, como previu Jean Jacques Rousseau, pode ter a capacidade de apreciar poemas. O que lhe falta, pela castração da libido onírica, se lhe sugere como interesse.
Nada se pode impedir que a poesia surja como necessidade atávica, como um pescador desembarcado sente sempre falta da maresia em seu rosto. A procura da Excelência da Poesia nos obriga ao raciocínio conceitual litero-científico. Em sua teoria estética, Fernando Pessoa apresenta as três leis da forma abstrata (arte):
· A primeira lei é a necessidade de que a obra de arte apresente
UNIDADE, onde quaisquer de suas partes, ou versos, deve contribuir para o deslinde do sentido final, para uma impressão total definida. Há uma integração dialética entre o Todo e a Parte, onde o Todo se apresenta como síntese da determinação destas partes.
A arte imita a vida, não em sua plasticidade imediata, visível, na verdade, imita o processo da vida, onde a virtualidade animal é a de que todas as coisas tem uma contribuição circunscrita e focada para o funcionamento do corpo natural.
A angustia do artista, descrita no o “Parla!!” de Pigmalião para sua estátua, explica-se pela incorporação da dor, pela percepção do limite que a proximidade da morte trás. Por ser impossível alcançar a perfeição encontrada na natureza, imita-se o processo natural e recria-se uma segunda natureza, que é a cultura humana, onde a arte é a essência que movimenta a evolução da humanidade.
· A segunda lei é a da UNIVERSALIDADE, como capacidade
de falar para todos os que tenham um preparo intelectual determinado, seja em Lisboa ou no Rio de Janeiro, seja em Tóquio ou em Adis-Abeba, por ater-se, a poesia, a valores essencialmente humanos e universais, e que perpassam todos os tempos.
O que Shakespeare destaca em Rei Lear não é a demência senil do rei (que seria tema de um tratado de gerontologia), mas a duvida de um homem sobre o amor que lhe devotam as filhas e a nulidade da riqueza para garantir-lhe este amor. Este é o valor humano permanente que pode ser entendido em qualquer lugar do mundo.
A poesia “humaniza o homem”. Um artista não exprime emoções que apenas serão entendidas por ele. Ele exprime o que em suas emoções “é comum aos outros homens”. Isto é a Universalidade na poesia. Sobre a dimensão da temporalidade, sobre o sentir-se imanado com os anseios do poetas do passado, se dirá como Goethe: “Um homem de gênio só é de sua geração por seus defeitos”.
Esta Universalidade fala a favor da capacidade comunicativa da poesia. Quem aprecia um poema, não deve angustiar-se para decifrar signos iniciáticos, referencias pseudo-eruditas obscuras, etc, ou seja, um falso hermetismo acessível só a um circulo fechado de egocêntricos, como é comum se ver hoje em dia. É deprimente e constrangedor perceber as loas publicas e a institucionalização de uma poesia carregada de opacidade, pelas “academias da vida”. Isto só diz de nossa eterna cabeça culturalmente colonizada. A poesia não pode almejar permanecer como posse de poucos, pois é libertadora, é pensamento qualificado. Portanto, também não é um exercício de obviedades simplórias e pueris; não pode ser reduzida a pensamentos gentis e benfazejos, a manifestações de apreço ao senhor diretor, como no poema de Bandeira, porque reflete sentimentos humanos e incorpora arte e liberdade, enquanto elaboração criativa e conceitual.
Novamente recorremos ao Bandeira. Quem não entende a genial, sofisticada e simples (e se enternece) poesia:
Irene no Céu
Irene pretaIrene boaIrene sempre de bom humor.Imagino Irene entrando no céu:- Licença, meu branco!E São Pedro bonachão:- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
A poesia deve ser instrumento civilizatório, de educação da sensibilidade das massas, tanto quanto o possível. Por ser a mais antiga das ocupações intelectuais, através da qual o homem contou, primeiramente, os seus delírios e alumbramentos, relatou aventuras, organizou sentimentos e desenvolveu a arte de amar, a poesia possibilitou ao homem adquirir humanidade. São posteriores à existência da arte poética, a filosofia, a política e a sistematização do conhecimento científico, que, em última instancia, visam o domínio da natureza.
A poesia não visa domínio, e sim, liberação.
Essencialmente dialético-crítica, a poesia não cabe no discurso acadêmico, apropriado como linguagem de classe, que enquadra, classifica e mata a vida pulsante na arte. O aprendizado da poesia nada tem a ver com cátedras. A linguagem poética deve instigar e aproximar as pessoas torná-las exigentes. Por isto os poetas foram expulsos da República de Platão. Está na hora de que voltem para as Ágoras, para as escolas, para alfabetizar as novas gerações, promover o exercício de sua função civilizatória.
· A terceira lei relacionada por Fernando Pessoa, é a da LIMITAÇÂO, onde o uso dos recursos técnicos, estéticos, vão evitar o transbordo, buscar a mesura e o alcance do máximo de concisão e efetividade, como um joalheiro lapida um brilhante, para revelar todo seu fulgor.
A idéia de perfeição não pode ser (e aí se evidencia o caráter revolucionário da linguagem poética) como a expressão da idéia perfeita emanada de Deus (como no ideal platônico), mas algo que se aproxima do artista pela contemplação errática (porque que humana) da natureza, onde vários fatores vão incidir para o resultado final, principalmente o acaso. A poesia é a porta de entrada para um mundo de percepções ultra-humanas, ficcionais ou não, que deixa a arte e a invenção como substrato e não paga tributo a nenhuma moral hegemônica.
Se há sonhos? Acredite neles. Devemos cultuar Deuses, em especial, os Deuses da Poesia, que nada nos cobram a não ser a coragem de que nos lancemos ao abismo do lírico, e sem rede. Esta é a diferença entre poetas e não-poetas: O prazer de se atirar ao vento; a poesia supõe dor, coragem e incomodo, parteiros da verdadeira arte, como uma vez nos ensinou a “bruja” Clarice Lispector.
FONTE: http://ricardosreispoesia.blogspot.com/2009/04/pensamentos-aforismaticos-acerca-da_20.html
Ao se propor ao debate o tema “A Excelência da Poesia”, a primeira ponderação que se pode fazer é a de que o conceito de excelência não permite mediações. Ao contrario, este se prende à idéia de raiz, de radicalidade, de conteúdo essencial, abordagem pura, etc.
A poesia, por excelente, é como o fenômeno da religião no que diz respeito ao dever da revelação transcendente (e não ao conteúdo moral).
A Poesia se apresenta aos homens como uma descrição profética, por serem os poetas tidos como entes de ligação entre a vida humana, com suas impressões e dores, seus erros, e a idealização da perfeição do Cosmo. Por serem capazes da expressão criativa, os poetas exercem fascínio sobre as pessoas que se consideram, no geral, incapazes de criar.
A identidade que se cria entre os poetas e pessoas que apreciam poesia, estrutura um formato de celebração, uma ritualística de amor quase religiosa. Este Religare se faz pela narrativa poética, que não é um relato naturalista e prosaico de uma sensorialidade objetivada, mas preserva o mistério.
Toda arte é uma abstração; e toda abstração, uma idealização, dimensão ficcional. Portanto a arte não traduz “verdades totalizantes” (como na religião e na moral), mas as “verdades transitórias” do artista. Recorramos a Niestzche para lembrar que: “A maior antítese à verdade, não é a mentira, e sim, a convicção”. Portanto, a poesia teima em ser impertinente e em abrigar a dúvida. O substrato humano destas verdades transitórias, é que se torna possível compreender a relatividade das coisas e que os valores humanos devem ser construídos para servir ao homem, enquanto coletividade, de maneira mais efetiva e satisfatória: À poesia cumpre aqui a função de transformar pessoas, de educar para o processo civilizatório, de forma não alienada, crítica e verdadeiramente humana.
Ao (re) inventar o mundo pela síntese funcional entre a emoção/paixão/desejos e a razão/logos/virtude, a poesia mostra-se com uma possibilidade crítica ilimitada. Mesmo quando a serviço de valores hegemônicos, da “verdade totalizante dos dogmas”, como na poesia épica de Milton, a liberdade do poeta é extrema. É belíssimo ver como em “Paraíso Perdido” este descreve a personalidade e qualidades de Satã, pintando-o como um anjo nobre, vaidoso, magnífico general, que sentindo-se relegado e vitima da ingratidão divina à sua lealdade (já que este nomeou a seu filho para comandar os anjos), levantou-se contra Deus usando de sua liderança entre os anjos para formar uma forte legião de seguidores. Afinal, derrotados, foram condenados a reinar nas profundezas. Também descreve a queda de Eva, tentada pela serpente, por curiosidade feminina e vaidade no exercício do livre arbítrio, e, Adão, que comerá posteriormente a maçã, mas o fazendo por solidariedade a sua amada, para que não fosse ela expulsa sozinha do Éden (ou seja, por amor o paraíso lhe foi perdido). É evidentemente uma descrição poética diferente do ensinamento religioso monoteísta, no que se refere a natureza diversa dos homens e entes sobrenaturais.
É a liberdade que se dá o poeta, ao servir-se da natureza e das emoções e transformá-los por sua narrativa, em busca melhor servir ao projeto humano. Através do amor (da busca pela beleza), colocando a racionalidade no exercício da arte, busca mitigar a dor da solidão, própria à condição humana. O homem, por ser o único animal que tem consciência de sua própria finitude, traz no peito uma angustia que lhe move em busca da transcendência. É neste processo que a poesia se constitui e forja a sua essência.
Os produtos da arte são como recortes, impressões, opções, ângulos, e devem ter o compromisso com a revelação de algo não percebido.
Os poemas, quadros, esculturas, etc, que não buscarem surpreender e revelar, não serão frutos da verdadeira arte.
A musica e as outras artes se dirigem mais ao gosto popular do que a poesia, pois lidam com sentimentos vagos e não se necessita (como condição sine qua non) de preparo intelectual por parte do receptor ou do produtor. Por exemplo, as artes pictóricas, descritivas ou não, deixam o individuo que as consome com bem cultural em liberdade para atribuir qualquer entendimento ou sensação a um quadro ou escultura. As expressões da manifestação artística são peculiares. A escultura deixa de lado o movimento e a cor; a pintura deixa de lado a terceira dimensão e o movimento; a musica abandona tudo que não seja o som.
Toda forma artística, evidentemente, leva a constituição de um gosto estético, leva a uma educação da sensibilidade, etc.
Porem, a poesia baseia-se na palavra e é portanto a abstração suprema, a mais complexa e completa das artes, onde se ausentam todos os aspectos auxiliares, possíveis em outras artes, e não se conserva nada do mundo exterior. A poesia reconstrói o mundo exterior de forma inteiramente inventiva, sendo a arte que mais dificilmente imita a vida, mais efetivamente idealizadora, e que incorpora o maior trabalho intelectual. Um trecho musical de sinfonia pode sugerir a alguém a impressão do frescor de primavera; para outro alguém, pode sugerir uma boa lembrança de amor, etc. Um poema, não. Deve ter a capacidade de transmitir conceitualmente o que quis dizer o criador, mesmo que promova sentimentos variados no leitor.
Não é no conteúdo das sensibilidades do artista que está a excelência da arte poética. É muito comum, popularmente, se confundir quadrinhas que espraiam bons augúrios e bons sentimentos, desejos de felicidade, com poesia. Isto não é poesia. O poeta não se distingue porque sente algo. Distingue-se pelo uso que faz do conceito de sensibilidade. A sensibilidade poética é fruto de um exercício intelectual qualificado, onde o criador deve usar a bagagem de conhecimentos que adquiriu, referencias universais, etc, deve distanciar-se no processo de criação a ponto de poder buscar o apuro conceitual e técnico, e sentir-se como um leitor que não teve a vivencia específica da inspiração sentiria o poema, para que este se exteriorize. Para tal, o poeta usará os recursos técnicos que lhe são acessíveis, que aprenderá por estudo, imitação repetição de leituras, etc. O importante é que haja na poesia elementos que garantam a poeticidade, tornando a linguagem efetivamente conotativa.
A poesia é a obra de arte onde se soma a sensibilidade e o instinto do artista, ao pensamento e a inteligência, trabalhando-se o material que a vida apresenta (uma idéia, uma palavra, uma cena, etc). O resultado deve ser algo altamente objetivado e exteriorizado no sentido de passar a ser um patrimônio cultural da humanidade.
Pedem-se altas doses de racionalidade no processo de criação poética, visando retirar toda a denotação, todo o naturalismo e dimensão prosaica (daí porque que uma poesia confessional será sempre menor), que só se refere e interessa ao individuo em si, projetando a poesia e o seu entendimento como valor universal. Um poema não é um diário intimo. Como Rilke aconselha a Franz Kappus: “Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo se morreria se lhe fosse vedado escrever. Se for o caso, construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Não faça poemas de amor ainda. Observe a natureza, descreva o que vê como se fosse o primeiro homem do mundo; vasculhe suas lembranças, sonhos, busque inspiração na sua infância, este rico manancial poético”.
Não se pode ler um poema interpretando-o no sentido imediato.
Ele tem que ter dimensão figurativa, ressaltar sons, formas, idéias, desejos, transcender o significado próprio das palavras e se abrir a novos sentidos. O uso da metáfora, a marcação de um ritmo que dá a unidade, é o meio retórico próprio à linguagem poética, que possibilita a dimensão conotativa, sugestiva, e se dirige à emoção do leitor.
Um poema, como toda arte, é também uma obra aberta, de certa maneira.
Constrói-se a linguagem garantindo a conotação do sentido, através de recursos de estilo, figuras de linguagem, sonoridade, ritmo, rima, repetição, experimentação de novas associações entre palavras, etc.
As figuras de linguagem são recursos usados pelos poetas para provocar a poeticidade em seus poemas. Mesmo em poemas brancos, onde não se teria que seguir nenhuma norma de orientação, pode-se e deve-se usar tais recursos que enriquecem o poema. Elas podem ser a Anáfora (repetição de verso), Anástrofe (inversão da ordem sintática), Diácope (repetição de frases), Aliteração (seqüência de fonemas), Epizeuxe (repetição de palavras em seqüência), Assonância (seqüência de sons), etc. São inúmeros os recursos que possibilitam a distinção da linguagem poética conotativa, para a linguagem denotativa da prosa.
Os recursos técnicos da arte poética permitem que esta torne-se um poderoso instrumento de formação de consciência critica, pois estimula e burila o espírito. Nem tudo no poema é revelação, por vezes insinuação, por vezes ausência simbólica, silêncio. Porem, um poema sempre se deve expressar sua forma o significado e o significante, ou seja, deve ter uma dimensão conceitual. O poema não deve ser um mero esforço pelo entretenimento ou um jogo de palavras como se vê em alguns produtores contemporâneos. É muito mais do que isto.
O amor surge na poesia como a metáfora de um mundo melhor, e a tarefa do poeta é a da busca pela beleza. Por amor considere-se a manifestação dos afetos vários (entendidos psicanaliticamente), onde a gradiente dos sentimentos pode se expressar. Evidentemente, a poesia tem uma forte dimensão de auto-analise, de trato terapêutico em si.
É um olhar para o interior da alma humana, contraditória, diversa, sublime, vil, etc.
Esta busca de sentido, a busca pela expressão mais adequada para a afirmação poética (a poesia como musica em Mallarmé, a desconstrução da palavra nos irmãos Campos, a poesia sem sangue, seca, sem metáforas de João Cabral, etc), chega-se a novas formas de expressão.
Há os que rejeitam a metáfora na poesia; os que buscam retirar da poesia os sentimentos humanos, etc. Todos acabam por criar novos signos de expressão poética. Neste sentido, a polêmica sobre a arte moderna, a explosão dadaísta do conceito, permanece até hoje.
Havia validade à época, egressos que estávamos do “beletrismo”, das formas harmônicas renascentistas, etc. Hoje, recupera-se o debate sobre a necessidade de reincorporar o logos ao processo da arte. Ao romperem com a tradição, as vanguardas estéticas serviram para a renovação do discurso, para a busca de sentido novo na poesia, etc.
Se este processo se esgotou, enquanto experimentação, porque não revisitar as antigas experiências e tradições? A métrica, a escansão, prosódia, a rima, podem ser recuperadas por uma abordagem contemporânea. Ou não podem? Fala-se que o nosso tempo pede uma linguagem ágil, moderna, pressionados que estamos pela linguagem midiática. Mas, creio que o papel da poesia é, neste caso, pela valorização da educação pública, de resistência cultural contra a reificação da tecnologia, pela desconstrução da cultura de massas que se tornou hegemônica e nefasta, onde nossos filhos mais o são da Globo e da Internet, do que nossos, de fato. Sem o reacionarismo de rejeitar as mudanças contemporâneas, creio que cabe à poesia um papel civilizatório de resistência frente ao mundo prosaico e sem espírito em que estamos vivendo, sempre correndo atrás de algo que não sabemos o que é. Por isso, que vivam Machado de Assis e Olavo Bilac, que vivam Cruz e Souza e Sousândrade, Castro Alves e Cecília Meireles, etc, nossos grandes e eternos luminares...
A poesia contemporânea sofre de algumas contaminações: a da dimensão geracional pós-moderna, do esvaziamento frente aos valores que balizavam historicamente a busca de sentido para a arte e para a convivência humana, o elitismo que marca determinada incapacidade de comunicação da poesia, etc. Vivemos sob o signo da mutação e expressando a perplexidade pela falta de utopias validas. Muito do que se chama de poesia, hodiernamente, não é mais do que necessidade de expressão comportamental de segmentos médios, socialmente esvaziados, humilhados e intelectualmente excluídos. Este fenômeno fala mais sobre a necessidade de convívio, de minimizar a violência urbana, da necessidade de uma revolução no processo educacional brasileiro, do que do verdadeiro processo de produção de arte poética. Vê-se por aí “poesia” que se mistura com certo tipo de boemia, onde a poesia se confunde com álcool e outras drogas, aditivos da percepção, não por uma investigação onírica, atitude rebelde, como a feita por Baudelaire, mas expressando decadência e busca desenfreada ao entretenimento. É um equivoco, penso. A poesia, ela própria deve ser capaz de inebriar poetas e leitores, de tirá-los da alienação sensorial e lançá-los ao desafio de mudar o mundo. A poesia pode e deve prescindir de Deus, de religião, de dinheiro, de drogas, como no poemeto-sintese de Claudia Alencar: "não faço poesia para ganhar dinheiro; faço-a para ganhar alma”. A poesia merece respeito, por ser uma condição irrecorrível para o poeta, quase como o respirar.
É parte constitutiva e inerente ao ser humano a capacidade criativa. Como um monstro que devora os próprios filhos, a sociedade anula a possibilidade de intervenção individual, restringindo-a a níveis lógicos para que não perturbem a reprodução do sistema. Uma pessoa que não desenvolveu o dom de criar por força da desconstituição do individuo em sociedade, como previu Jean Jacques Rousseau, pode ter a capacidade de apreciar poemas. O que lhe falta, pela castração da libido onírica, se lhe sugere como interesse.
Nada se pode impedir que a poesia surja como necessidade atávica, como um pescador desembarcado sente sempre falta da maresia em seu rosto. A procura da Excelência da Poesia nos obriga ao raciocínio conceitual litero-científico. Em sua teoria estética, Fernando Pessoa apresenta as três leis da forma abstrata (arte):
· A primeira lei é a necessidade de que a obra de arte apresente
UNIDADE, onde quaisquer de suas partes, ou versos, deve contribuir para o deslinde do sentido final, para uma impressão total definida. Há uma integração dialética entre o Todo e a Parte, onde o Todo se apresenta como síntese da determinação destas partes.
A arte imita a vida, não em sua plasticidade imediata, visível, na verdade, imita o processo da vida, onde a virtualidade animal é a de que todas as coisas tem uma contribuição circunscrita e focada para o funcionamento do corpo natural.
A angustia do artista, descrita no o “Parla!!” de Pigmalião para sua estátua, explica-se pela incorporação da dor, pela percepção do limite que a proximidade da morte trás. Por ser impossível alcançar a perfeição encontrada na natureza, imita-se o processo natural e recria-se uma segunda natureza, que é a cultura humana, onde a arte é a essência que movimenta a evolução da humanidade.
· A segunda lei é a da UNIVERSALIDADE, como capacidade
de falar para todos os que tenham um preparo intelectual determinado, seja em Lisboa ou no Rio de Janeiro, seja em Tóquio ou em Adis-Abeba, por ater-se, a poesia, a valores essencialmente humanos e universais, e que perpassam todos os tempos.
O que Shakespeare destaca em Rei Lear não é a demência senil do rei (que seria tema de um tratado de gerontologia), mas a duvida de um homem sobre o amor que lhe devotam as filhas e a nulidade da riqueza para garantir-lhe este amor. Este é o valor humano permanente que pode ser entendido em qualquer lugar do mundo.
A poesia “humaniza o homem”. Um artista não exprime emoções que apenas serão entendidas por ele. Ele exprime o que em suas emoções “é comum aos outros homens”. Isto é a Universalidade na poesia. Sobre a dimensão da temporalidade, sobre o sentir-se imanado com os anseios do poetas do passado, se dirá como Goethe: “Um homem de gênio só é de sua geração por seus defeitos”.
Esta Universalidade fala a favor da capacidade comunicativa da poesia. Quem aprecia um poema, não deve angustiar-se para decifrar signos iniciáticos, referencias pseudo-eruditas obscuras, etc, ou seja, um falso hermetismo acessível só a um circulo fechado de egocêntricos, como é comum se ver hoje em dia. É deprimente e constrangedor perceber as loas publicas e a institucionalização de uma poesia carregada de opacidade, pelas “academias da vida”. Isto só diz de nossa eterna cabeça culturalmente colonizada. A poesia não pode almejar permanecer como posse de poucos, pois é libertadora, é pensamento qualificado. Portanto, também não é um exercício de obviedades simplórias e pueris; não pode ser reduzida a pensamentos gentis e benfazejos, a manifestações de apreço ao senhor diretor, como no poema de Bandeira, porque reflete sentimentos humanos e incorpora arte e liberdade, enquanto elaboração criativa e conceitual.
Novamente recorremos ao Bandeira. Quem não entende a genial, sofisticada e simples (e se enternece) poesia:
Irene no Céu
Irene pretaIrene boaIrene sempre de bom humor.Imagino Irene entrando no céu:- Licença, meu branco!E São Pedro bonachão:- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
A poesia deve ser instrumento civilizatório, de educação da sensibilidade das massas, tanto quanto o possível. Por ser a mais antiga das ocupações intelectuais, através da qual o homem contou, primeiramente, os seus delírios e alumbramentos, relatou aventuras, organizou sentimentos e desenvolveu a arte de amar, a poesia possibilitou ao homem adquirir humanidade. São posteriores à existência da arte poética, a filosofia, a política e a sistematização do conhecimento científico, que, em última instancia, visam o domínio da natureza.
A poesia não visa domínio, e sim, liberação.
Essencialmente dialético-crítica, a poesia não cabe no discurso acadêmico, apropriado como linguagem de classe, que enquadra, classifica e mata a vida pulsante na arte. O aprendizado da poesia nada tem a ver com cátedras. A linguagem poética deve instigar e aproximar as pessoas torná-las exigentes. Por isto os poetas foram expulsos da República de Platão. Está na hora de que voltem para as Ágoras, para as escolas, para alfabetizar as novas gerações, promover o exercício de sua função civilizatória.
· A terceira lei relacionada por Fernando Pessoa, é a da LIMITAÇÂO, onde o uso dos recursos técnicos, estéticos, vão evitar o transbordo, buscar a mesura e o alcance do máximo de concisão e efetividade, como um joalheiro lapida um brilhante, para revelar todo seu fulgor.
A idéia de perfeição não pode ser (e aí se evidencia o caráter revolucionário da linguagem poética) como a expressão da idéia perfeita emanada de Deus (como no ideal platônico), mas algo que se aproxima do artista pela contemplação errática (porque que humana) da natureza, onde vários fatores vão incidir para o resultado final, principalmente o acaso. A poesia é a porta de entrada para um mundo de percepções ultra-humanas, ficcionais ou não, que deixa a arte e a invenção como substrato e não paga tributo a nenhuma moral hegemônica.
Se há sonhos? Acredite neles. Devemos cultuar Deuses, em especial, os Deuses da Poesia, que nada nos cobram a não ser a coragem de que nos lancemos ao abismo do lírico, e sem rede. Esta é a diferença entre poetas e não-poetas: O prazer de se atirar ao vento; a poesia supõe dor, coragem e incomodo, parteiros da verdadeira arte, como uma vez nos ensinou a “bruja” Clarice Lispector.
FONTE: http://ricardosreispoesia.blogspot.com/2009/04/pensamentos-aforismaticos-acerca-da_20.html
Assinar:
Postagens (Atom)