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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

DONA ROSÁLIA - MARCELO ROQUE; Glória K divulga

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=13358263


Retratos da vida, parceira ... enquanto muitos que se acham senhores da razão,
se prendem à Idade Média, outras pessoas simples dão exemplo de como o mundo
pode ser melhor ... rsrs

Beijos e beijos ...





Dona Rosália

Dona Rosália não faltava à missa. Rigorosamente, todos os domingos,
lá estava aquela simples senhora sentada diante do altar, olhos fechados,
mãos postas, concentrada em suas orações

Habito também era assistir ao telejornal das oito, e ao ouvir o discurso
do Papa, onde este afirmava que a homossexualidade poderia condenar
a humanidade a extinção, ela, movida por um profundo respeito pela
figura daquele santo homem, balançou a cabeça em concordância

Cinco eram seus filhos - Egídio, o mais velho, Josias, Marieta, Eucádia
e Antônia
Com a morte do pai, Egídio passou a ser, ainda na adolescência, o
responsável por parte do sustento da família, pois a pensão de sua mãe
apenas, não era suficiente

Trabalhava em um pequeno mercadinho da cidade, era bem quisto por
todos, e não dispensava as horas extras para ter um dinheiro a mais
no fim do mês

Egídio, era o orgulho de dona Rosália, filho educado, trabalhador, e que
a ajudava na tarefa de cuidar dos irmãos mais novos

Ao terminar os estudos, como muitos outros jovens, queria ampliar
seus horizontes
Foi então que resolveu partir para a cidade grande.
Prestou vestibular e entrou, com mérito, no curso de Pedagogia -
tinha o sonho de ser professor

Entristecida ficou dona Rosália, mas sabia que seu filho partia em
busca de uma vida melhor - e qual mãe não deseja o melhor para
seu filho ?

Tão logo se estabeleceu na nova cidade e conseguiu emprego, Egídio
começou a enviar dinheiro para a mãe. Era pouco, mas absolutamente
necessário
Com o passar do tempo, a saudade aumentava, e só não era maior,
por conta dos telefonemas dos fins de semana, e as visitas de final
de ano

Alguns anos mais tarde, Egídio, já formado, liga para dona Rosália pra
lhe falar sobre a boa nova - finalmente conseguira o sonhado emprego
de professor
Porém, apesar da alegria, percebeu na voz da mãe, um tom diferente.
Pergunta então se aconteceu algo - já imaginando que pudesse ser
com um de seus irmãos
Dona Rosália disse que precisavam conversar, pois ficou sabendo
de algumas coisas que andavam acontecendo com ele

Egídio, imediatamente, se lembrou da visita surpresa que lhe havia
feito um primo, e na hora matou a charada - tal primo contou para
sua tia que, por sua vez, contou para dona Rosália que, ele, Egídio,
estava namorando com um rapaz

E agora, como encarar a mãe, esta senhora tão alicerçada em rígidos
valores morais, tão religiosa - e tão orgulhosa do filho ?
Seria esta uma revelação que poderia causar enorme sofrimento à
ambos

Certo do teor do assunto, disse a mãe que seria melhor conversarem
pessoalmente, já que no próximo mês, lhe faria mais uma de suas visitas

Mas Egídio não apareceu, alegando falta de tempo, evitou ficar frente
a frente com dona Rosália. Precisava de mais tempo, mais coragem ...
E quem sabe com o passar do tempo, a mãe não ia se acostumando mais com a idéia

E assim, foram os dias, as semanas, os meses ...

Os telefonemas não eram mais como antes, evitavam tocar no assunto,
porém, algo sempre ficava no ar - um certo nó na garganta

Egídio sentia falta das conversas que tinha com a mãe, da cumplicidade que
existia entre dois, e isto lhe causara enorme angústia

Então, eis que decidiu ir ao seu encontro ... queria de uma vez por
todas resolver aquela situação, mesmo que ouvisse de dona Rosália
o quão decepcionada estaria com ele

De malas prontas, lá foi ele ... e durante as horas de viagem, ficava
imaginando as reações de sua mãe quando o visse
Ficava buscando palavras que fossem as mais amenas e conciliadoras
possíveis
E quanto mais próxima a chegada, maior era a ansiedade
Conseguiria, afinal, olhar nos olhos de sua mãe ?

Pois, bem, diante da porta, depois de um vacilo inicial, tocou a campainha,
e ali ficou, parado, durante uma eternidade de segundos ...

Finalmente, a maçaneta começa a girar, e quando a porta se abre,
aparece a figura daquela mulher - frágil, um metro e quarenta e cinco
de altura, lenço amarrado na cabeça - tão magra, tão pequena - tão mãe

Olharam-se por alguns instantes, como se procurassem palavras ...

Foi quando dona Rosália, com aqueles olhos imensos e castanhos,
cheios d'água, deu-lhe um apertado e demorado abraço, dizendo-lhe
baixinho ao pé do ouvido;

- Seja feliz, meu filho ...
E que Deus o abençoe





"Bom seria se o Papa e sua Santa Igreja, aprendessem mais sobre
tolerância, respeito e, principalmente, amor, com a dona Rosália

Marcelo Roque

Dona Rosália




Dona Rosália não faltava à missa. Rigorosamente, todos os domingos,
lá estava aquela simples senhora sentada diante do altar, olhos fechados, 
mãos postas, concentrada em suas orações

Habito também era assistir ao telejornal das oito, e ao ouvir o discurso
do Papa, onde este afirmava que a homossexualidade poderia condenar
a humanidade a extinção, ela, movida por um profundo respeito pela
figura daquele santo homem, balançou a cabeça em concordância

Cinco eram seus filhos - Egídio, o mais velho, Josias, Marieta, Eucádia
e Antônia
Com a morte do pai, Egídio passou a ser, ainda na adolescência, o 
responsável por parte do sustento da família, pois a pensão de sua mãe
apenas, não era suficiente

Trabalhava em um pequeno mercadinho da cidade, era bem quisto por
todos, e não dispensava as horas extras para ter um dinheiro a mais
no fim do mês

Egídio, era o orgulho de dona Rosália, filho educado, trabalhador, e que
a ajudava na tarefa de cuidar dos irmãos mais novos

Ao terminar os estudos, como muitos outros jovens, queria ampliar 
seus horizontes
Foi então que resolveu partir para a cidade grande.
Prestou vestibular e entrou, com mérito, no curso de Pedagogia -
tinha o sonho de ser professor

Entristecida ficou dona Rosália, mas sabia que seu filho partia em 
busca de uma vida melhor - e qual mãe não deseja o melhor para 
seu filho ?

Tão logo se estabeleceu na nova cidade e conseguiu emprego, Egídio
começou a enviar dinheiro para a mãe. Era pouco, mas absolutamente 
necessário
Com o passar do tempo, a saudade aumentava, e só não era maior,
por conta dos telefonemas dos fins de semana, e as visitas de final
de ano

Alguns anos mais tarde, Egídio, já formado, liga para dona Rosália pra
lhe falar sobre a boa nova - finalmente conseguira o sonhado emprego
de professor
Porém, apesar da alegria, percebeu na voz da mãe, um tom diferente.
Pergunta então se aconteceu algo - já imaginando que pudesse ser
com um de seus irmãos
Dona Rosália disse que precisavam conversar, pois ficou sabendo 
de algumas coisas que andavam acontecendo com ele

Egídio, imediatamente, se lembrou da visita surpresa que lhe havia
feito um primo, e na hora matou a charada - tal primo contou para
sua tia que, por sua vez, contou para dona Rosália que, ele, Egídio,
estava namorando com um rapaz

E agora, como encarar a mãe, esta senhora tão alicerçada em rígidos
valores morais, tão religiosa - e tão orgulhosa do filho ?
Seria esta uma revelação que poderia causar enorme sofrimento à 
ambos

Certo do teor do assunto, disse a mãe que seria melhor conversarem 
pessoalmente, já que no próximo mês, lhe faria mais uma de suas visitas

Mas Egídio não apareceu, alegando falta de tempo, evitou ficar frente 
a frente com dona Rosália. Precisava de mais tempo, mais coragem ...
E quem sabe com o passar do tempo, a mãe não ia se acostumando mais com a idéia

E assim, foram os dias, as semanas, os meses ...

Os telefonemas não eram mais como antes, evitavam tocar no assunto,
porém, algo sempre ficava no ar - um certo nó na garganta

Egídio sentia falta das conversas que tinha com a mãe, da cumplicidade que 
existia entre dois, e isto lhe causara enorme angústia

Então, eis que decidiu ir ao seu encontro ... queria de uma vez por 
todas resolver aquela situação, mesmo que ouvisse de dona Rosália
o quão decepcionada estaria com ele

De malas prontas, lá foi ele ... e durante as horas de viagem, ficava
imaginando as reações de sua mãe quando o visse
Ficava buscando palavras que fossem as mais amenas e conciliadoras
possíveis
E quanto mais próxima a chegada, maior era a ansiedade
Conseguiria, afinal, olhar nos olhos de sua mãe ?

Pois, bem, diante da porta, depois de um vacilo inicial, tocou a campainha, 
e ali ficou, parado, durante uma eternidade de segundos ...

Finalmente, a maçaneta começa a girar, e quando a porta se abre,
aparece a figura daquela mulher - frágil, um metro e quarenta e cinco 
de altura, lenço amarrado na cabeça - tão magra, tão pequena - tão mãe

Olharam-se por alguns instantes, como se procurassem palavras ...

Foi quando dona Rosália, com aqueles olhos imensos e castanhos, 
cheios d'água, deu-lhe um apertado e demorado abraço, dizendo-lhe
baixinho ao pé do ouvido;

- Seja feliz, meu filho ...
E que Deus o abençoe 





"Bom seria se o Papa e sua Santa Igreja, aprendessem mais sobre
tolerância, respeito e, principalmente, amor, com a dona Rosália


Marcelo Roque

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O homossexualismo camuflado das letras brasileiras

O escritor João Silvério Trevisan, um dos principais nomes do movimento gay, denuncia o preconceito e investiga a sexualidade de grandes autores brasileiros


Na sala de um apartamento na Alameda Casa Branca, nos Jardins, três pequenos troféus do Prêmio Jabuti, o prêmio literário da Câmara Brasileira do Livro, um dos mais importantes do País, e outro da Associação dos Críticos de Arte (APCA) fornecem pistas do lugar respeitável que João Silvério Trevisan, 56 anos, ocupa na literatura brasileira.

Escolhido este mês como o novo nome da série O Escritor por Ele Mesmo, do Instituto Moreira Salles - projeto que reúne em CD trechos de obras lidos por seus próprios autores -, Trevisan não nega que ao título de escritor pode ser acrescido outro, o de militante.

Depois de trabalhar com grande entusiasmo na juventude na católica-maoísta Ação Popular, transformou-se em um dos principais nomes do movimento gay.

Hoje, Trevisan, paulista de Ribeirão Bonito, faz da sua literatura o meio para viver seu ideal de transgressão. Afinal, diria o autor, o que seria mais transgressor do que um mergulho em nossas verdades pessoais?

Capaz de harmonizar um lirismo delicado com ácida crítica dos tabus sociais, o autor de Ana em Veneza (APCA-94 e Jabuti-95) e do relançado Devassos no Paraíso atualmente estuda criar novos projetos ou retomar outros, engavetados. Em um deles, um polêmico ensaio já iniciado, Trevisan promete deixar a crítica literária brasileira rubra, de raiva ou vergonha, com sua investigação sobre a sexualidade de escritores famosos. Leia a seguir trechos da entrevista.

Você separa o militante gay e o escritor?

João Silvério Trevisan - Não. Me recuso a fazer essa separação. Hoje boa parte da mídia me olha com desconfiança me achando um mero militante. Na minha cabeça, ser João Silvério Trevisan significa ser militante. Se eu tenho uma perspectiva do amor e se esse amor é massacrado e reprimido, para chegar a esse amor eu tenho que lutar para conseguir esse amor.

Seus planos eram fazer um estudo do homoerostismo na literatura?

Eu tenho isso como projeto, mas não sei quando vai ser realizado. Aliás eu queria que essa sugestão fosse açambarcada por estudantes de teoria literária.

Quem seriam os objetos desse ensaio?

Eu abordei vários autores, me norteando por alguns sintomas sérios de gente como Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, João do Rio, Pedro Nava.

Por que rever a vida desses autores?

O que me interessa é perguntar o porquê do silêncio que cerca o assunto homossexualidade. Qual é a doença social dos nossos intelectuais, que sistematicamente vem trabalhando para ocultar um dado importantíssimo para entender a obra desses autores. Eu sempre dou exemplo do Thomas Mann. Se você olhar a obra dele do ponto de vista da homossexualdade, a obra se enriquece profundamente.

Guimarães Rosa seria um autor homossexual?

Não se sabe dizer. O que eu faço nesse trabalho é analisar as suspeitas que existem e por que as suspeitas são lançadas e nunca bancadas. E, claro, os sintomas dessas suspeitas na obra.

Em Vinicius quais seriam os tais sintomas?

Em Vinicius particularmente eu não examinei. Fiquei com fatos mencionados por biógrafos. No caso dele, eu o incluí para mostrar como essa conspiração do silêncio é poderosa, até o ponto de transformá-lo no grande machão da literatura brasileira e mostrar o medo das pessoas de destruírem esse mito.

Em entrevista à "Caros Amigos" você menciona crises de ciúmes entre Vinicius e Toquinho. Eles tiveram um caso?

Não sei te dizer. Não aventei hipóteses tão concretas, mas havia ataques de ciúmes do Vinicius. O que isso significa? Eu posso dar as minhas interpretações.

Já encontrou dificuldades para levar o estudo adiante?

Tive pessoas que me contaram histórias impressionantes de Guimarães, mas quando pedi uma entrevista mais formal, uma professora, por exemplo, me mandou uma carta dizendo que nunca havia dito nada a respeito da homossexualidade dele.

E as pessoas falam do quê? Paixões, amores?

De amores, de circunstâncias, de trejeitos, inclusive. Existe até uma interpretação de que na verdade o medo do Rosa em entrar para Academia Brasileira de Letras viria do temor de ser zombado pelos colegas por causa de sua voz. Uma dessas pessoas que fui entrevistar disse que Guimarães precisava desmunhecar para poder ficar na diplomacia brasileira onde todo mundo desmunhecava. Caí na risada.

Não tem medo de ser visto como uma espécie de delator?

Quando eu fui a uma entrevista na Marília Gabriela, ela me fez uma pergunta parecida. "Você não acha que muitas vezes os homossexuais não procuram pêlo em ovo?" Eu disse: e de bom grado. A história da homossexualdiade foi sistematicamente camuflada. Se há motivos para ocultar a realidade, eu terei muito mais para revelá-la. Esta é uma das minhas funções, descobrir qual o papel que ocupo na hipócrita sociedade brasileira, revelando tudo aquilo que ela vive nos subterrâneos de sua sexualidade.

Por que aponta em `Devassos no Paraíso´ Diadorim, de Guimarães Rosa, como revelador da ambigüidade sexual brasileira?

Se existe uma maneira brasileira de ser, é uma maneira paradoxal, que é justamente essa ambigüidade. Em todos os aspectos, a começar pelo "jeitinho", que não é outra coisa senão dar a entender o que você não é. No caso do Guimarães Rosa, e do Mário de Andrade, você tem dois autores que criaram personagens ambíguos.

Aquele personagem da Diadorim - ou do Diadorim. Ele aponta para uma saída brasileira muito original. Que é a saída do Carnaval, da Carmen Miranda. Carmen é um travesti de si mesma. Na literatura de Guimarães nós encontramos esse tipo de cruzamento. Em uma carta, Rosa analisava sua ambigüidade e dizia: "Não se esqueça que eu trabalho com a diplomacia e a essência dela é a ambigüidade".

Leitura polêmica de Guimarães. Já vieram as reações?

As resistências a essas análises são totais. Quando anos atrás saiu a segunda edição francesa de Grande Sertões, um escritor francês fez uma crítica no Nouvelle Observateur classificando o livro como um dos grandes romances homossexuais do mundo. Jamais um intelectual brasileiro ousou dizer isso.

A que você atribui essa resistência a ver Diadorim como ambíguo?

Incapacidade de ver e mediocridade. A incapacidade foi criada pela mediocridade do olhar. Há uma conspiração do silêncio em torno da homossexualidade que mais revela do que na verdade esconde.

FONTE: http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2000/not20001122p2805.htm

*Leia também:

HOMOEROTISMO NA LITERATURA BRASILEIRA

http://74.125.95.132/search?q=cache:pDOrabhoQRsJ:www.uvanavulva.com.br/blog/homoerotismo-na-literatura-brasileira/+pedro+nava+%22m%C3%A1rio+de+andrade%22+guimar%C3%A3es+rosa%22+homossexualidade&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a


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