sábado, 20 de fevereiro de 2010
Seremos todos aprendentes - AUGUSTO DE FRANCO
Buscadores & Polinizadores
Carta Rede Social 191 (05/06/09)
Desaprender a ensinar será tão importante quanto aprender a aprender, individual e coletivamente. Porque, no fim, não haverá ensinantes. Como buscadores e polinizadores, todos seremos aprendentes.
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‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. A presente 'Carta Rede Social 191' está sendo encaminhada para 11.172 destinatários.
Prezado(a) Leitor(a)
Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamos condenados a nos tornar buscadores cada vez mais autônomos e polinizadores cada vez mais interdependentes.
É assim que transitaremos do heterodidatismo para o autodidatismo e para o alterdidatismo: quando o lema 1) “eu busco o conhecimento que me interessa do meu próprio jeito” for a senha para o lema => 2) “eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos” e for a senha para o lema => 3) “nos produzimos nosso conhecimento comunitariamente” (em rede).
A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. A escola é a rede.
Nela, todos seremos autodidatas. E todos seremos alterdidatas. Isso quer dizer que todos seremos educandos-educadores na medida em que aprendermos a aprender e aprendermos a conviver com o meio natural e com o meio social em que vivemos.
Aprender a aprender é a condição fundamental para a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente. É ensejar oportunidades aos educandos de se tornarem educadores de si mesmos (aprendendo a andar com as próprias pernas ao se libertarem das muletas do heterodidatismo). Aprender a conviver com o meio natural e com o meio social é ensejar oportunidades aos educadores de se tornaram educandos da interação comunitária na nova sociedade em rede (desaprendendo ensinagem ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).
Nesse caminho, desaprender a ensinar será tão importante quanto aprender a aprender, individual e coletivamente. Porque, no fim, não haverá ensinantes. Como buscadores e polinizadores, todos seremos aprendentes.
O educando-buscador será um educador. O educador-polinizador será um educando. E a educação não será nada disso que andam falando.
Não entendo nada de educação. É por isso que eu pude – juntamente com alguns amigos – entrar na aventura de escrever um livro sobre isso.
A experiência – que começou no final de abril - está ocorrendo em um grupo na Escola-de-Redes. O livro a ser escrito a várias mãos, teria como título e subtítulo:
BUSCADORES & POLINIZADORES
O auto-didatismo e a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente & o alter-didatismo e as comunidades de aprendizagem na emergente sociedade em rede
O título e o subtítulo já explicam, em grande parte, o tema da obra.
É uma experiência inédita. Já usei blogs para escrever livros, mas nunca uma plataforma interativa de netweaving, como o Ning.
Há muito pretendia escrever mesmo sobre isso, na linha de um texto que publiquei na Carta Rede Social 172 , na Escola-de-Redes e na Rede Vivo Educação: Autodidatismo: a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente (as versões são um pouco diferentes). É para onde meu trabalho atual está me levando, sobretudo a experiência com a Rede Vivo Educação (Instituto Vivo) e com os Arranjos Educativos Locais (SESI PR).
Estamos procurando, mas ainda não encontramos uma boa metodologia para fazer esse trabalho colaborativo. A idéia inicial foi a de usar um hipertexto que seria publicado em partes. Uma Introdução e alguns capítulos (mas ainda não sabemos quais ou quantos serão). Cada pessoa que quisesse co-escrever poderia fazer um link (sublinhando alguma palavra ou expressão) e desenvolvê-lo como sub-capítulo (ou episódio: ἐπεισόδιον, he he).
Um co-escritor (ou co-escritora) também poderia propor um novo capítulo. A Introdução e os Capítulos seriam publicados em Fóruns de Discussão separados (um para cada).
Todavia, cada sub-capítulo seria publicado no campo reservado aos comentários. Quando não coubesse, seria carregado como arquivo (no mesmo campo de comentários).
Publicariamos o livro, em edição digital – entregue, portanto, ao Domínio Público – e também em papel, em uma edição da Escola-de-Redes ou, de preferência, em co-edição com alguma editora que tenha esquema de distribuição.
Eis um primeiro draft do texto básico:
Capítulo 1 | O educando-buscador será um educador
O autodidatismo e a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente
Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamos condenados a nos tornar buscadores cada vez mais autônomos.
É assim que transitaremos do heterodidatismo para o autodidatismo: quando pudermos dizer: “eu busco o conhecimento que me interessa do meu próprio jeito”.
A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. A escola é a rede. Nela, todos seremos autodidatas. Um autodidata é alguém que aprendeu a aprender.
Aprender a aprender é a condição fundamental para a livre aprendizagem humana em uma sociedade inteligente. É ensejar oportunidades aos educandos de se tornarem educadores de si mesmos (aprendendo a andar com as próprias pernas ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).
O educando-buscador será um educador não-ensinante. Porque será um aprendente.
Na sociedade que está vindo, todos seremos autodidatas. Uma criança, ou mesmo uma pessoa adulta ou idosa, navegando, lendo e publicando na web, é, fundamentalmente, um autodidata.
Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e reconhecer padrões. Cada vez mais será cada vez menos necessário que alguém ensine isso. Quando as possibilidades de conexão aumentam, também aumentam as possibilidades de reconhecer padrões (porque aumenta a freqüência com que, conhecendo uma diversidade cada vez maior de padrões, nos deparamos com homologias entre eles); quer dizer que, a partir de certo grau de conectividade, o heterodidatismo não será necessário.
Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de lógica e matemática na solução de problemas cotidianos e… banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhos alheios.
Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem deles – os “sábios” precisam que a sociedade continue burra.
Em uma sociedade conectada, quem organiza o conhecimento é a busca. Mas os caras ainda insistem em querer organizar o conhecimento para você (isto é o hetero-didatismo).
Toda organização do conhecimento para os outros corresponde a necessidades de alguma instituição hierárquica e está sintonizada com seus mecanismos de comando-e-controle. Toda organização do conhecimento de cima para baixo procura controlar e direcionar o acesso à informação por algum meio.
Os organizadores do conhecimento para os outros ainda entendem conhecimento como “informação interpretada”. Interpretada, é claro, do ponto de vista de seus possíveis impactos sobre a estrutura e a dinâmica das organizações hierárquicas de que fazem parte. Pretendem, assim, induzir a reprodução de comportamentos adequados à reprodução da estrutura e da dinâmica dessas organizações hierárquicas.
Por meio da urdidura de sistemas de gestão do conhecimento – desde os velhos currículos escolares aos modernos knowledge management systems, por exemplo – querem codificar, disseminar e direcionar a apropriação de conhecimentos para formar agentes de manutenção e reprodução de determinado padrão organizacional.
Mas já vivemos em um momento em que não se pode mais trancar o conhecimento – esse bem intangível que, se for aprisionado (estocado, protegido, separado), decresce e perde valor e, inversamente, se for compartilhado (submetido à polinização ou à fertilização cruzada com outros conhecimentos) cresce, gera novos conhecimentos e aumenta de valor (e é isso, precisamente, o que se chama de inovação). E estamos nos aproximando velozmente de uma época em que será cada vez menos necessária uma infra-estrutura hard instalada para produzir conhecimento (e inclusive outros produtos tangíveis, como estão mostrando as experiências nascentes de peer production ou crowdsourcing).
Novos ambientes interativos surgidos com a Internet já estão mostrando também a improdutividade (ou a inutilidade mesmo) de classificar o conhecimento a partir de esquema classificatório construído de antemão. Por exemplo, nos primeiros tempos do Gmail havia a recomendação: não classifique, busque! Hoje continua lá, literalmente: “O foco do Google é a pesquisa, e o Gmail não é exceção: você não precisa perder tempo classificando seu e-mail, apenas procure uma mensagem quando precisar e a encontraremos para você”.
Em uma sociedade cada vez mais em rede, onde as pessoas conectadas têm múltiplos caminhos para acessar o conhecimento que lhes interessa, quem organiza o conhecimento é a busca. É o perfil da busca – bottom up – que vai dizer qual o conhecimento que é relevante e não a decisão de um centro de comando-e-controle que queira dizer às pessoas – top down – o que elas devem conhecer.
Todos esses esforços por manter padrões verticais de um tipo de sociedade que já está fenecendo vão ser implacavelmente punidos pelas estruturas e pelas dinâmicas horizontais emergentes da nova sociedade que está florescendo. Dentro em breve, toda a gestão de organizações (inclusive a gestão do conhecimento) será regulada por meio de outros processos em rede. Só para dar um exemplo, em 10 minutos de funcionamento, o Twitter Tracker é capaz de fornecer – dependendo do tema – mais notícias inovadoras sobre determinado assunto do que os esforços de organização de uma equipe especializada, dedicada a essa tarefa durante uma semana.
O autodidata é um buscador. Mas quem busca é a pessoa. A pessoa é o indivíduo conectado e que, portanto, não se constitui apenas como um íon social vagando em um meio gelatinoso e exibindo orgulhosamente suas características distintivas e sim também como um entroncamento de fluxos, uma identidade que se forma a partir da interação com outros indivíduos. A pessoa como continuum de experiências intransferíveis e, ao mesmo tempo, como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em um ambiente educativo.
Capítulo 2 | O educador-polinizador será um educando
O alterdidatismo e as comunidades de aprendizagem na emergente sociedade em rede
Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamos condenados a nos tornar polinizadores cada vez mais interdependentes.
É assim que transitaremos do heterodidatismo para o alterdidatismo: quando pudermos dizer: “eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos”.
A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. A escola é a rede. Nela, todos seremos alterdidatas. Um alterdidata é alguém que aprendeu a conviver com o meio natural e com o meio social em que vive.
Aprender a conviver com o meio natural e com o meio social é ensejar oportunidades aos educadores de se tornaram educandos da interação comunitária na nova sociedade em rede (desaprendendo ensinagem ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).
O educador-polinizador será alguém que desaprendeu a ensinar. Porque será um aprendente.
Capítulo 3 | E a educação não será nada disso que andam falando
Seremos todos aprendentes
Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede, a educação não será nada disso que andam falando.
A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. A escola é a rede. Nela, todos seremos autodidatas e alterdidatas: quando pudermos dizer: “nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente” (em rede). Um autodidata-alterdidata é alguém que aprendeu a aprender-convivendo.
Como buscadores e polinizadores, não seremos ensinados nem ensinadores. Porque todos seremos aprendentes.
Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illich.
A sociedade sem escola de Illich poderia ser renomeada como a sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.
Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.
Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem.
Bem, por enquanto e isso. Vários conceitos apenas mencionados acima já estão gerando uma espécie de glossário. Talvez seja assim que o livro poderá ser escrito a várias mãos.
Se você se interessou pelo assunto pode dar uma espiada clicando no link abaixo:
http://escoladeredes.ning.com/group/buscadorespolinizadores
Até a ‘Carta Rede Social 192’ e um abraço do
Augusto de Franco
augusto@augustodefranco.com.br
05 de junho de 2009.
http://escoladeredes.ning.com
FONTE : http://augustodefranco.locaweb.com.br/cartas_comments.php?id=328_0_2_0_C
terça-feira, 18 de agosto de 2009
DOIS LIVROS DE IVAN ILLICH...E OS OUTROS NO SITE OFICIAL DO AUTOR
A educação universal por meio da escolaridade não é possível. Nem seria mais exequível se se tentasse mediante instituições alternativas criadas segundo o estilo das escolas actuais. Nem novas atitudes dos professores para com os seus alunos, nem a proliferação de novas ferramentas e métodos físicos ou mentais (nas salas de aula ou nos dormitórios), nem mesmo a intenção de aumentar a responsabilidade dos pedagogos até ao ponto de incluir a vida completa dos seus alunos, teria como resultado a educação universal. A busca actual de novos canais educativos deverá ser transformada na procura do seu oposto institucional: redes educativas que aumentem a oportunidade de cada um transformar cada momento da sua vida num outro de aprendizagem, de partilha e de interesse. Acreditamos estar a contribuir trazendo os conceitos necessários a quem realiza tais investigações sobre as grandes linhas na educação – e também para quem procura alternativas para outros tipos estabelecidos de serviços.
As últimas frases deixam claro o que o título do livro sugere, que a institucionalização da educação marca uma tendência de institucionalização da sociedade, e as idéias de desinstituicionalização da educação poderiam ser um ponto de partida para a desinstitucionalização da sociedade. Como pensador holístico, de inteligência formidável e erudição católica ampla, Illich sempre propôs as suas análises nos termos mais amplos possíveis.
O livro é mais do que apenas uma crítica, contém propostas para reinventar toda a aprendizagem em várias instâncias da sociedade e também na esfera individual. Possui destaque a sua proposta, feita em 1971, de criar as "redes de aprendizagem" ("telarañas de aprendizaje") apoiadas em tecnologias avançadas. Muitas das características das "redes de aprendizagem" recordam o uso da internet em geral e em particular o trabalho e idéias da própria Wikipedia.
Compañeros de viaje para La Sociedad Desescolarizada http://habitat.aq.upm.es/boletin/n26/nlib2.html é uma resenha crítica (em espanhol) que relaciona o pensamento do livro "Sociedade sem Escolas" com as idéias de outros autores que escreveram sobre o mesmo tema.
FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Illich
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A Expropriação da Saúde
Nêmesis da Medicina
Autor: Ivan Illich
Título original: Némésis Médicale, L'expropiation de la Santé
Este livro examina e aprofunda a atual hipertrofia da medicalização e o impacto psicológico sobre os indivíduos pelos signos e símbolos de um ritual clínico contraproducente e enganador.
http://www.ivanillich.org.mx/Linemes.htm
LEIA OS LIVROS DE IVAN ILLICH EM SEU SITE OFICIAL - (ESPANHOL)
http://www.ivanillich.org.mx/
sexta-feira, 29 de maio de 2009
FRAGMENTO DO LIVRO "SOCIEDADE SEM ESCOLAS" DE IVAN ILLICH (A DESESCOLARIZAÇÃO DA SOCIEDADE)
(...)A existência de escolas produz a demanda pela escolarização. Uma vez que aprendemos a necessitar da escola, todas as nossas atividades vão assumir a forma de relações de cliente com outras instituições especializadas. Uma vez que o autodidata foi desacreditado, toda atividade não profissional será suspeita. Aprendemos na escola que toda aprendizagem profícua é resultado da freqüência, que o valor da aprendizagem aumenta com a quantidade de insumo (input) e, finalmente, que este valor pode ser mensurado e documentado por títulos e certificados. Na realidade, a aprendizagem é a atividade humana menos necessitada de manipulação por outros. Sua maior parte não é resultado da instrução. É, antes, resultado de participação aberta em situações significativas. A maioria das pessoas aprende melhor estando «por dentro»; mas a escola faz com que identifiquemos nosso crescimento pessoal e cognoscitivo com o refinado planejamento e manipulação. Quando um homem ou uma mulher aceitou a necessidade da escola, torna-se fácil presa para outras instituições. Quando os jovens permitiram que sua imaginação fosse formada pela instrução curricular, estão condicionados ao planejamento institucional de qualquer espécie. A «instrução» lhes turva o horizonte da imaginação. Não podem ser traídos, mas apenas ludibriados, porque lhes foi ensinado que substituíssem a esperança pelas expectativas.(...)
http://www.scribd.com/doc/4098810/Ivan-Illich-Sociedade-sem-Escolas.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Caselli - Fragmentos De Um Discurso Underground
Um atormentado realizador divaga sobre a vida, a arte e o cinema.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Pierre Verger - Candomblé - Música de Gilberto Gil e de Jorge Ben Jor
Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902 — Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi.
Era também babalawo (sacerdote Yoruba) que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da diáspora africana - o comércio de escravo, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos resultando de e para a África.
Até a idade de 30 anos, depois de perder a família, Pierre Verger levou a carreira de fotógrafo jornalístico. A fotografia em preto e branco era sua especialidade. Usava uma máquina Rolleiflex que hoje se encontra na Fundação Pierre Verger.
Durante os quinze anos seguintes, ele viajou os quatro continentes e documentou muitas civilizações que seriam apagadas logo através do progresso. Seus destinos incluíram:
Taiti (1933)
Estados Unidos, Japão e China (1934 e 1937)
Itália, Espanha, Sudão, Mali, Níger, Alto Volta, (atual Burkina Faso), Togo e Daomé (atual Benim) 1935)
Índia (1936)
México (1937, 1939, e 1957)
Filipinas e Indochina (atuais Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã, 1938)
Guatemala e Equador (1939)
Senegal (como correspondente, 1940)
Argentina (1941)
Peru e Bolívia (1942 e 1946)
Brasil (1946).
Suas fotografias foram publicadas em revistas como Paris-Soir, Daily Mirror (com o pseudônimo de Mr. Lensman), Life, e Match.
Na cidade de Salvador, apaixonou-se pelo lugar e pelas pessoas, e decidiu por bem ficar. Tendo se interessado pela história e cultura local, ele virou de fotógrafo errante a investigador da diáspora africana nas Américas. Em 1949, em Ouidah, teve acesso a um importante testemunho sobre o tráfico clandestino de escravos para a Bahia: as cartas comerciais de José Francisco do Santos, escritas no século XIX.
As viagens subseqüentes dele são enfocadas nessa meta: a costa ocidental da África e Paramaribo (1948), Haiti (1949), e Cuba (1957). Depois de estudar a cultura Yoruba e suas influências no Brasil, Verger se tornou um iniciado da religião Candomblé, e exerceu seus rituais.
Definição de Verger sobre o Candomblé: "O Candomblé é para mim muito interessante por ser uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja. Para pessoas que têm algo a expressar através do inconsciente, o transe é a possibilidade do inconsciente se mostrar".
Durante uma visita ao Benin, ele estudou Ifá (búzios - concha adivinhação), foi admitido ao grau sacerdotal de babalawo, e foi renomeado Fátúmbí ("ele que é renascido pelo Ifá").
As contribuições de Verger para etnologia constituem em dúzias de documentos de conferências, artigos de diário e livros, e foi reconhecido pela Universidade de Sorbonne que conferiu a ele um grau doutoral (Docteur 3eme Cycle) em 1966 — um real feito para alguém que saiu da escola secundária aos 17.
Verger continuou estudando e documentando sobre o assunto escolhido até a sua morte em Salvador, com a idade de 94 anos. Durante aquele tempo ele se tornou professor na Universidade Federal da Bahia em 1973, onde ele era responsável pelo estabelecimento do Museu Afro-brasileiro em Salvador; e serviu como professor visitante na Universidade de Ifé na Nigéria.
Verger se apaixonou pela Bahia lendo "Jubiabá". Tendo se tornado amigo das maiores personalidades baianas do século XX. Como o próprio Jorge Amado, Mãe Menininha do Gantois, Gilberto Gil, Walter Smetak, Mario Cravo, Cid Teixeira, Josaphat Marinho dentre outros notáveis. Seu trabalho como fotográfo influênciou notadamente nomes consagrados da fotografia contemporânea como Mario Cravo Neto, Sebastião Salgado, Vitória Regia Sampaio, Adenor Gondim e Joahbson Borges. Sendo que este foi seu último assistente, tendo sido apontado pelo próprio Verger como sucessor natural.
Na entidade sem fins lucrativos Fundação Pierre Verger em Salvador, que ele estabeleceu e continuou seu trabalho, guarda mais de 63 mil fotografias e negativos tirados até 1973, como também os documentos dele e correspondência.
No Brasil, foi homenageado como tema de Carnaval (Rio de Janeiro, 1998) do GRES União da Ilha do Governador, cuja letra fala da Trajetória de Pierre Verger a Fatumbi.
Jérôme Souty publicou um ensaio muito documentado sobre a obra e a vida de Verger : Pierre Fatumbi Verger. Du regard détaché à la connaissance initiatique, Paris: Maisonneuve & Larose, 2007 (520p. 144 fotos, em francês).
FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Verger
sábado, 31 de janeiro de 2009
"O Tragtenberg de Ozaí "- POR WILSON CORREIA (FRAGMENTO DE FERNANDO PESSOA)MODOLINKAR COM O BLOG DE TRAGTENBERG (clique aqui)
Fernando Pessoa entendeu o quanto é difícil conhecer o outro. Disse ele: “A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma senão da nossa; as dos outros são olhares, gestos, são palavras...”. A exterioridade humana, pois, é feita de sinais que podem ensinar. Por isso é possível a escrita sobre “um outro” professor: ensinare, em latim, significa marcar com sinais. Aquele que nos tenha marcado de modo singular: essa é a persona sobre quem podemos escrever.
Leitor de Antônio Ozaí da Silva, docente em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá, imagino ter sido essa a condição de possibilidade para que ele, Ozaí, escrevesse a obra Maurício Tragtenberg: militância e pedagogia libertária (Editora da Unijuí: 2008). Um livro necessário sobre um professor imprescindível.
Por que penso assim? Elogio fácil ao autor e ao sujeito de sua escrita? Nem uma coisa nem outra, mas simples e obrigatório reconhecimento a ambos. Ao segundo, porque foi ensinante exemplar. Ao primeiro, porque tomou a iniciativa de sair da comodidade acadêmica e estudar a vida de um professor que nos chacoalhou a todos, o tempo inteiro, do começo ao fim dos próprios dias.
Maurício Tragtenberg (1929-1998) nasceu em Erechim, Rio Grande do Sul. Pertenceu a uma família de ascendência judaica que migrou para o Brasil no final do século 19, fugindo das perseguições então perpetradas contra os judeus da então Rússia czarista. Migrante, judeu e pobre: essas eram as marcas do grupo familiar a que pertenceu Tragtenberg.
Educado parcialmente em meio à comunidade a que pertencia, Maurício fez a maior parte de seus estudos como autodidata, chegando ao Doutorado na USP e a Professor Titular na Unicamp. Nesse percurso, viveu a militância política que o levou a questionar as raízes da burocracia administrativa vigente na sociedade capitalista. Claro, a burocracia universitária aí incluída, e seguidamente problematizada, criticada e desmascarada por ele. A concepção de educação libertária de que se imbuiu Tragtenberg lhe dava o estofo teórico-prático para sonhar outra sociedade, outra educação formal e, por conseguinte, outra universidade.
Uma citação das palavras de Tragtenberg, feita por Ozaí, na página 245 do livro já indicado, o ilustra com propriedade: “A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os ‘fins’ formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cedem lugar ao ‘controle’ burocrático de sua produção como suprema virtude, onde ‘administrar’ aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis do exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em ‘Cemitério dos vivos’.”
Palavra atualíssima, como atual é a defesa da autogestão – de trabalhadores, estudantes, professores... – de que Tragtenberg não abriu mão com o objetivo de ensinar possíveis caminhos rumo à liberdade. Ao Ozaí, os cumprimentos por não nos deixar esquecer essa lição e por nos lembrar, ainda, que a nossa verdadeira tarefa é a de irmos além do sujeito sobre quem ele escreveu e de quem o maior sinal é a própria história de vida.
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* Artigo publicado no jornal goiano Diário da Manhã, dia 25 de janeiro de 2009, página 21.
** Wilson Correia é doutor em Educação pela UNICAMP, professor na Universidade Federal do Tocantins, Campo Universitário de Arraias, e autor do livro Saber Ensinar (São Paulo: EPU, 2006). Endereço eletrônico: wilsoncorreia@uft.edu.br .
FONTE : http://mauricio-tragtenberg.blogspot.com/2009/01/o-tragtenberg-de-ozai.html