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sexta-feira, 2 de julho de 2010

A SOBRINHA DO BISPO - REGINA M.A.MACHADO >> blog da Revista Espaço Acadêmico (CLIQUE AQUI)

Publicado: 09/06/2010 por Revista Espaço Acadêmico em colaborador(a)

por Regina M. A. Machado*

Na porta da catedral, os fiéis saindo, ele sorrindo, circulando o olhar, grande, suave e imponente, dando o anel a beijar, vestido de púrpura, cambraia e renda, o solidéu redondo e a mão adequada ao gesto e ao beijo.
- E você, beijava o anel?
- Nao, eu virava as costas, mas não por convicção. Seria por pudor, por não me enquadrar na cena? Má atriz, desde então, incapaz de participar da encenação geral. Estou na saída da missa na catedral nova que se via de longe, toda branca com ângulos atenuados por uma espécie de moldura amarela que lhe traçava linhas levemente barrocas. Mas quando o povo entrou e descobriu as figuras e as paredes verde sujo, foi um escândalo, que alguns resolveram caçoando, “Por fora bela viola,por dentro pão bolorento”, outros se refugiaram naquelas igrejas que a gente entendia, como a matriz velha, ou a capela do colégio, que nos envolvia os retiros e as bênçãos da tarde do mês de maio em tons desmaiados, e onde um anjo branco e dourado balançava a cabeça quando se punha esmola no cofrinho da entrada.
Foi realmente um susto, aquele verde oleoso nas paredes, a feiura esquisita das figuras, que lembravam a caipirada que vinha das fazendas nos sábados fazer compras nas lojas. A mesma cor de pele, as mesmas caras enfezadas. Não eram nem brancos nem pretos, nem mulatos nem nada, eram cor de terra. Cor de sol com poeira. Bom, o pintor era comunista, e isso apesar de ser irmão do bispo. Enfim, de repente ficou tudo muito desencontrado para os fiéis e até para os infiéis. Comunista. Só a palavra retumbava como um trovão sinistro, naqueles anos 50 da guerra fria, dos filmes no cine Éden ensinando como era o mundo e como julgar cada figura conforme fosse mais ou menos como os cavalos brancos dos mocinhos de nariz arrebitado, com a crina loira voando com o vento toda para um lado, as mocinhas de cabelo pagem e vestidos claros, rodados e esvoaçantes. Naquele tempo, os mexicanos tinham chapéus enormes e dormiam barrigudos e bigodudos em calçadas empoeiradas; os japoneses eram cruéis e perigosos; os franceses indignos de confiança, com bigodinho e boina, carregando uma eterna baguete sem papel debaixo do braço. Não que confundíssemos a realidade com os filmes, mas havia tipos assim, que não se podia admirar nem ter confiança. Então, de repente, a catedral virava o contrário do cinema e em volta do altar apareciam aquelas caras que a gente não gostava. Para qualquer lado que se olhasse enquanto se rezava, era aquela caboclada em vez dos anjos e santos de sempre, branqueados como a cidade. Não que se falasse nisso no footing da praça, mas pensava. E as famílias comentavam. E a gente perdia um pouco o pé no nosso chão aglutinante, garantia e exclusão das coroações de maio, reservadas aos anjos loiros de olhos azuis que eu não tinha, como não tinha certezas, embora achasse que tinha fé, já que era impossível não ter.
Junto com as pinturas, veio também a sobrinha do bispo, que tinha tudo isso, só que não era nenhum anjo de procissão. Ela ficou logo amiga da moça mais exibida de todas, começou a se pintar do mesmo jeito e a se vestir igual. As duas eram altas, magras, se vestiam com cores chamativas, uma loira de olhos azuis, mas não de mocinha de filme, eram olhos fuçadores e desconfiados, a outra, morena, olhos verdes de feiticeira, boca grande. Nós da cidade só clarinha e limpinha olhávamos descontentes aquele andar ondulando naquelas cores todas que elas esbanjavam. Mas a primeira sessão de cinema de domingo à noite nem pensar que começasse sem as duas terem entrado, requebrando, rindo alto, provocando nossos vestidos que ficavam com cara de reformados da primeira-comunhão e indo até lá na frente e depois voltando. Pelo meio da plateia, com o cinema inteiro olhando e ouvindo. No final, acho que até na missa ela vinha com a amiga, e a missa também só começava de verdade depois que acontecia a chegada das duas. Só que ela tirava notas boas, as melhores da classe, no nosso colégio Imaculada Conceição . A professora de história leu alto uma prova dela, que me foi um desafio, quase tão esquisita e difícil quanto as pinturas da catedral. Além disso, tinha vindo do Rio de Janeiro, tinha aquele sotaque chiado, meio chique meio enjoado, que não soava natural, mas que talvez permitisse dizer coisas que a gente nem sonhava. Sempre caçoando, acho que até do tio bispo ela caçoava.
O pintor irmão do bispo tinha coberto as partes baixas das paredes com frisas verde escuro sobre fundo verde mais claro, não sei porque tanto verde, aliás, já que segundo diziam a pintura dele queria retratar a realidade e por ali em volta era tudo marrom. As abóbadas, sim, tinham paisagens iguais às das fazendas dos arredores, com arbustos e caras conhecidas. Algumas a gente até sabia o nome, era muito esquisito aquilo, além da terra ressecada, desertada de árvores, sofrida, uns pés de café que bem se via serem da época da colheita, com os frutos vermelhos, mas o mais eram galhos caídos pelo chão, numa terra desolada. O pior mesmo eram os caboclos, gente de pé no chão, espingarda na mão, lá em cima, em volta do altar das capelas laterais. No altar-mor, devia ser o Juízo Final, uma multidão, que em vez de palmas trazia galhos de café e outras plantas conhecidas, mas era muito grande e muito alto, não dava para ver direito. Só os anjos da coroação do mês de maio, que subiam no altar para coroar Nossa Senhora, é que podiam ver de perto aquela gente e saber quem era.
Pelo menos as estátuas eram lindas, isso ninguém negava. Embora diferente da Nossa Senhora das Graças azul e branca da capela do colégio, a imagem da virgem de madeira ondulada, rosada, cheia, drapeada e quase macia de pele, essa a gente entendia, ou tinha vontade. Havia outros santos, havia um Cristo também de madeira, acho, mas só me lembro bem dessa. Vindo da Itália, a gente esperava que pelo menos o escultor, sendo do país do papa, fosse bom católico. O que é certo, é que as esculturas que ele fazia enchiam os olhos e a alma, se bem que não como os filmes; até ajudavam a rezar, melhor do que na capela do colégio. Acho que me afeiçoei à madeira por causa delas; muito mais tarde, quando pude por minha vez pegar no cinzel, nunca pus cores na madeira que trabalhava. As cores, foi a sobrinha do bispo que resguardou, as que ela trouxe, no rosto e nas roupas, e as das paredes pintadas pelo pai, pois soube que mais tarde ela abriu uma galeria de pintura.
Na década seguinte, com o país e o mundo em plena reviravolta,falou-se muito nesse bispo, líder de uma direita ultra-conservadora, defensor de um direito inalienável de propriedade sobre extensões de terra sacralizadas pelas grilagens históricas que construíram a riqueza colonial e nacional. Nessa época, em que ele catalisou o ódio dos estudantes de uma esquerda em que me situava, eu ficava à parte. Talvez por uma imprecisa gratidão, por causa das pinturas da catedral, da sobrinha adolescente colorida, do alargamento dos horizontes que isso tudo trouxe à cidade de terra branca, obrigada a se perceber rodeada da terra vermelha e exausta de todo o café que nos criara.
Muito mais tarde voltei e andei por ali tudo, reconhecendo quase todas as casas do centro que, vistas da rua, não tinham mudado tanto. O jardim de São Benedito estava um pouco mais esburacado, mas os tijolos tinham uma velhice quebrada e fincada na terra escura que me tranquilizou, mas espantou também. Nunca soube que dentro da cidade houvesse terra vermelha, fiquei imaginando que só no jardim de São Benedito, santo preto e meio pobre é que ela podia ter aflorado. De noite saímos para dar uma volta e entramos pelo portão aberto do colégio velho, meio demolido, onde só conseguimos avançar graças à luz da lua, até chegar ao pátio da capela. A ingênua gruta de Lourdes onde se tirava fotografia de primeira comunhão tinha sido arrasada; as paredes da capela não tinham mais pintura, as cores douradas e azuis tinham desaparecido. Havia um grupo que cantava perto do altar, no meio de andaimes e que nos fez sentir indesejáveis. Na manhã seguinte, visita rápida à catedral, que revelou novas cores à minha memória enganosa, muito cinza nas paredes e, lá em cima, abóbodas que ressoaram como cânticos emocionados a meus olhos surpreendidos. Um tanto maltratada também, ameaçada, disseram, por cristãos fundamentalistas que não queriam mais saber de pinturas nem de imagens. Me fez pensar nas estátuas explodidas dos Budas; fiquei imaginando se falariam da catedral da cidade pequena como se falou das estátuas milenares. E me lembrei do bispo conservador intratável, que fora capaz de fazer uma igreja que nos obrigava a enxergar as rachaduras do nosso mundinho, estranhamente o mesmo que ele teimava em preservar.
Desconcerto do mundo…!

Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição - Catedral de Jacarezinho

* REGINA M. A. MACHADO é uma brasileira expatriada que em geral trata dos escritos dos outros, mas que de tanto engolir crias alheias, acaba pondo para fora alguma criatura nascida do medo e da escuridão, como tantas outras. Fez um doutorado tardio em 2007, na Sorbonne, sobre literatura brasileira. Atualmente anima oficinas de francês para imigrantes em Bonneuil-sur-Marne, onde mora. Quando tem oportunidade, traduz autores brasileiros para o francês e, em se tratando de ficção ou teatro, sempre em colaboração com algum francês de raiz. Publicado Publicado na leva 45 de Divers

http://espacoacademico.wordpress.com/2010/06/09/a-sobrinha-do-bispo/
A sobrinha do bispo « blog da Revista Espaço Acadêmico

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

"10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO " DAS ELITES





Escrito por Administrator   
Seg, 29 de Março de 2010 01:05
 
ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO POLÍTICA

O lingüista estadunidense Noam Chomsky, que se define politicamente como "companheiro de viagem" da tradição anarquista, é considerado um dos maiores intelectuais da atualidade. Seus estudos sobre gramática generativa tiveram enorme impacto na área da linguística, que ele considera um ramo da psicologia cognitiva. Seu trabalho magistral, "Syntatic Structures", publicado em 1957, não somente influenciou sua área de trabalho, mas diversas outras.

Entre outros estudos, ele elaborou excelentes livros e textos sobre o papel dos meios de comunicação no sistema capitalista. É dele a clássica frase de que "a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significa para o Estado totalitário". Como ativista político, manifestou-se contra a guerra do Vietnã e contra o processo de dominação imposto pelo sistema capitalista.
1- A estratégica da distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração
que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes
e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante
a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de
informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao
público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da
ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da
cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos
verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância
real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo
para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do
texto "Armas silenciosas para guerras tranqüilas")" .

2- Criar problemas, depois oferecer soluções.

Este método também é chamado "problema-reaçã o-solução". Cria-se um
problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público,
a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer
aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a
violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o
público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo
da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar
como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o
desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia da degradação.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, é suficiente
aplicar progressivamente, em "degradado", sobre uma duração de 10
anos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas
têm sido impostas durante os anos de 1980 a 1990.. Desemprego em massa,
precariedade, flexibilidade, salários que já não asseguram ingressos
decentes, tantas mudanças que haviam provocado uma revolução se
tivessem sido aplicadas de forma brusca.

4- A estratégica do deferido.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de
apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação
pública no momento para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um
sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, por que o
esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, por que o público,
a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá
melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto
dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de
aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- Dirigir-se ao público como crianças de pouca idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso,
argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas
vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de
baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar
enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante.
Por que?
"Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12
anos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa
probabilidade, uma resposta ou reação também desprovida de um sentido
critico como a de uma pessoa de 12 anos de idade (ver "Armas
silenciosas para guerras tranqüilas")" .

6- Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um
curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos
indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite
abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar
idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir
comportamentos…

7- Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e
os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade
da educação dada as classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e
medíocre o possível, de forma que a distância da ignorância que paira
entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e
permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver
"Armas silenciosas para guerras tranqüilas")" .

8- Promover ao público a ser complacente na mediocridade.

Promover ao público o achar legal o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- Reforçar a revolta pela culpabilidade.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua
própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de
suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se
contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se,
o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a
inibição da sua ação. E sem ação, não há revolução!

10- Conhecer melhor os indivíduos do que eles mesmos se conhecem.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência
têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e
aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à
biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem
desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma
física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor
o individuo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa
que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um
grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.
 
 

"RIZOMA" RESSUSCITADO - DO BLOG VÍRGULA - IMAGEM (MODOLINKAR)

11.01.10

www.rizoma.net

por Marcelo Terça-Nada!

O Rizoma.net foi um importante site que abrigou rico acervo de artigos sobre ativismo, cibercultura e intervenção urbana. O site saiu do ar em 2009, mas o pessoal do CCR está organizando todos os textos do site em e-books disponibilizados para download gratuito.
Faça download dos PDFs, leia e divulgue:

RIZOMA.NET- Afrofuturismo

RIZOMA.NET – Anarquitextura


download (186 páginas
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visualizar on-line:
Camaléo | Issuu

RIZOMA.NET- Recombinação


download (153 páginas
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visualizar on-line:
Camaléo | Issuu

RIZOMA.NET- Gibi


download (76 páginas
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visualizar on-line:
Camaléo | Issuu

RIZOMA.NET- E-spaço

RIZOMA.NET- Câmera Olho

RIZOMA.NET- Desbunde

RIZOMA.NET- Hierografia


download (97 páginas
)
visualizar on-line:
Camaléo | Issuu

RIZOMA.NET- Potlach

>> Mais cinco e-books estão disponíveis para download neste link
Outros lugares e formas para vc acessar os textos do Rizoma:

segunda-feira, 5 de abril de 2010

frase interessante do orkut - CRISTÓVÃO

Diariamente, milhares de pensamentos e emoções são registrados, tecendo a colcha de retalhos da memória consciente e inconsciente, num ciclo contínuo. E, sem perceber, você aprende a entrar em sua memória e em meio a bilhões de opções, resgatar os verbos, os substantivos, os adjetivos e produzir as cadeias de pensamentos. Sua mente é insondável, mas talvez você nem perceba.

Postado por Cristóvão

FONTE : http://viagemvazia.blogspot.com/

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Delinqüência Acadêmica - Maurício Tragtenberg

O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.


A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os finsformativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

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* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual.

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948

FONTE : http://mauricio-tragtenberg.blogspot.com

segunda-feira, 8 de março de 2010

SOBRE MULHERES - AS COISAS QUE O POETA NÃO PODE DIZER

Incrível! mulheres gestam!
e autogestam ,e quase sempre
nem se tocam disto!
a palavra gestão tem tudo a ver
com mulher!
e  autogestão também!
mulheres mantem as casas,
os lares funcionando,
às vezes nem tão bem assim...
mas elas autogestam a casa muito
melhor que a maioria dos homens!

Muitos homens sabem disso,
enxergam as competências femininas,
entretanto,a maioria deles não admite!
nem chegam a tentar conversar,
cooperar com a auto análise das mulheres!
Homens são cruéis!
Como então não juntar feminismo com luta de classes?

Nadia Stabile - 08/03/10

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E A SEGUIR TEXTO DO BLOG
"BEBENDO NA FONTE DO FEMINISMO E DA LUTA DE CLASSES"
14 de abril de 2009

Eu falo de amor à vida, você de medo da morte

Eu falo da força do acaso e você, de azar ou sorte

Eu ando num labirinto e você, numa estrada em linha reta

Te chamo pra festa mas você só quer atingir sua meta


Sua meta é a seta no alvo

Mas o alvo, na certa não te espera


Eu olho pro infinito e você, de óculos escuros

Eu digo: "Te amo" e você só acredita quando eu juro

Eu lanço minha alma no espaço, você pisa os pés na terra.

Eu experimento o futuro e você só lamenta não ser o que era


Eu grito por liberdade, você deixa a porta se fechar

Eu quero saber a verdade, e você se preocupa em não se machucar

Eu corro todos os riscos, você diz que não tem mais vontade

Eu me ofereço inteiro, e você se satisfaz com metade


É a meta de uma seta no alvo

Mas o alvo, na certa não te espera


Então me diz qual é a graça

De já saber o fim da estrada

Quando se parte rumo ao nada ?

Sempre a meta de uma seta no alvo

Mas o alvo, na certa não te espera

Postado por Linda, leve e solta...ah, sim, e modesta às 07:25

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Mulheres: tempos diferentes, discursos iguais – A luta continua por uma vida mais justa e digna para todas/todos


 

“Os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras. Os Deuses a puseram nos serviços caseiros, porque elas suportam menos bem o frio, o calor e a guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que vagueiam pelas ruas são desonestas”. (Xenofonte: 427 –355 a.C.)

 

Neste mês de março comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e com este texto busca-se fazer uma breve reflexão sobre os discursos que circulavam (circulam) na nossa sociedade sobre elas, desde o período de 400 a.C. até os dias atuais.

Platão, um filósofo que viveu entre 427-347 a. C., preocupou-se em explicar as questões da origem do homen. “Entre os homens que receberam a existência, todos os que se mostraram cobardes e passaram a sua vida a praticar o mal foram, conforme toda a verossimilhança, transformados em mulheres na segunda encarnação, (Platão, 1986:154)”. Segundo este filósofo, os homens que se enveredaram para caminhos errantes que, os distanciavam da constituição de uma ética de vida e não conseguiam o acesso ao mundo do conhecimento intelectual, teriam uma segunda chance sendo mulheres. Enfim, este autor considerava as mulheres como a reencarnação destes homens que fracassaram na sua primeira vida. É preciso considerar que seu pensamento é coerente à estrutura social das polis gregas cuja, base era patriarcal e práticas homoeróticas entre o sexo masculino eram comuns e consideradas “normais”.[1] Na chamada democracia de Atenas, demiurgos (estrangeiros), mulheres e escravos, a maioria da população, não votavam nem tinham direito de participar das decisões públicas.

A mulher ocidental, durante longos séculos, foi proibida de trabalhar, estudar, sair à rua sem a anuência do seu dono, pai ou marido. Ela era tratada como propriedade, objeto, em virtude dos discursos opressionistas que buscavam, através das diferenças biológicas entre homens e mulheres, explicar as desigualdades de direitos.

No livro Escola de Mulheres, do século XVII, o diálogo entre Arnolfo e Crisaldo retrata como deveria ser a mulher ideal, (Molière,1996:10).

Arnolfo – Caso com uma tola para não bancar o tolo.(... ) Uma mulher esperta é mau presságio; eu sei o quanto custou a alguns casarem com mulheres cheias de talentos; me caso com uma intelectual, (...) e fico apenas sendo marido de madame.(... ) Mulher que escreve sabe mais do que é preciso. Pretendo que a minha seja bastante opaca para não saber nem o que é uma rima. (...) Em suma, desejo uma mulher de extrema ignorância. Que já seja demais ela saber rezar, me amar, cozer, bordar!

Neste diálogo, constata-se que o homem possuía receio em casar-se com uma mulher que soubesse mais ou tanto quanto ele. É possível constatar ainda, num diálogo entre Arnolfo e a sua futura esposa Inês, como a mulher era representada nos discursos da época, quais eram as suas obrigações e que posição ela ocupava no casamento:

“Arnolfo: vou me casar com você Inês; cem vezes por dia você deverá agradecer esta honra bendita (...). Seu sexo nasceu para dependência. A onipotência é para quem tem barba! (Molière,1996:41).

O filósofo Rousseau, que viveu entre 1712 até 1778, dizia que a mulher só deveria cultivar a razão, se essa faculdade pudesse lhe garantir o cumprimento de seus deveres considerados como “naturais”, ou seja, obedecer e ser fiel ao marido e cuidar dos filhos e da casa. Segundo esse autor, a mulher que ousasse se dedicar à vida intelectual deveria permanecer solteira. Ela iria contra a sua natureza, contra os seus deveres de esposa, como podemos observar, (ROUSSEAU, 1968: 490).

Mas eu ainda prefiro cem vezes mais uma jovem simples e grosseiramente educada, a uma jovem culta e enfatuada, que viesse estabelecer no lar um tribunal de literatura de que seria presidenta. Todas essas mulheres de grandes talentos só aos tolos impressionam. Toda jovem letrada permanecerá solteira a vida inteira, em só havendo homens sensatos na terra.

Um outro exemplo de opressão feminina aparece com evidência por volta de 1920, no livro O status intelectual da mulher, de Virgínia Woolf, em que a escritora inglesa mostra como as mulheres são impedidas de se desenvolverem intelectualmente na sociedade, (WOOLF, 1997: 36).

É preciso que as mulheres tenham liberdade de experimentar, que possam ser diferentes dos homens, sem medo, e que expressem estas diferenças livremente; que toda a atividade intelectual seja bastante estimulada de forma que sempre haja um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem tão livremente quanto aos homens, e com tão pouco medo do ridículo ou de condescendência. Estas condições, a meu ver de grande importância, são impedidas (...), pois um homem ainda tem mais facilidade que as mulheres para tornar seus pontos de vista conhecidos e respeitados.

Discursos sobre a necessidade de manter as mulheres na ignorância circularam durante longos períodos. Esses discursos dificultavam à conquista dos direitos das mulheres à educação e à profissionalização. Acreditava-se que, quanto menos as mulheres soubessem, melhores esposas seriam. Tais discursos sobre as mulheres, sobre como elas deveriam se preparar para serem boas esposas, mães, implicavam na convenção de que não havia, para isso, a necessidade de muitos estudos.

Se o marido possuísse boas condições financeiras, a mulher não necessitava trabalhar, ter uma profissão para contribuir no orçamento familiar. Ainda hoje, o marido é considerado por alguns como o responsável pelo sustento do lar. Enfim, tempos diferentes e discursos iguais sobre a mulher. Segundo (COLLING, 2000: 49):

O discurso da inferioridade feminina estava tão arraigado na estrutura da vida das mulheres e dos homens que poucos o questionaram. A maioria das mulheres acomodavam-se na instituição familiar dominada pelos homens, que lhe garantiam subsistência, lhe ofereciam um companheiro para toda a vida e forneciam um sentimento de proteção frente ao cotidiano da vida. Vivendo para seus maridos, esquecidas, esqueciam de pensar sobre si mesmas.

Os discursos retratavam as mulheres como seres imperfeitos por natureza, seres inferiores aos homens e que, naturalmente, estariam destinadas a serem submissa a eles. A natureza feminina era considerada desde sempre como algo dado, mas segundo (HÉRITIER, 1996:282), “não existe instituição social que se baseie exclusivamente na natureza. Todas são um efeito da arte, da invenção dos grupos, nos limites, certamente, do fato biológico e natural”.

As ideologias positivistas e higienistas também preocupavam-se em manter a mulher no espaço doméstico e impor-lhe regras de conduta que regulavam seu comportamento, constituindo-a, assim, na esposa perfeita, submissa ao marido e, depois, aos filhos homens.

A mulher, até 1840, era considerada como “boneca”, “criança mimada”. Mais tarde, ela conquistou a posição de “pedestal”, passando a ocupar outros espaços além da cozinha. Com a passagem do arquétipo de “boneca”, para “anjo”, “rainha do lar”[2], a mulher começa a ser tratada com mais respeito e com direito à educação, para cumprir adequadamente com as obrigações de sua nova posição. Mesmo assim, a educação feminina ainda visava à formação da esposa agradável e da mãe competente.

Segundo (PERROT, 1988:186), “o século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços ao seu ponto mais alto. Seu racionalismo procurou definir estritamente o lugar de cada um”. À mulher era delegado o espaço da casa, da maternidade e do magistério. O homem assumia cargos de poder, como a política, a medicina etc. Nesse período, os homens ainda eram ensinados a olhar as suas mães e esposas como outras “Marias”, isto é, como “santas”.

Com o processo de urbanização e industrialização e a emergência de uma camada média detentora de uma cultura escolarizada, ampliaram-se as fronteiras para a profissionalização das mulheres, ensejando mudanças acerca do que a sociedade pensava sobre o papel destinado a elas. Essas múltiplas transformações sócio-econômicas ocorridas nos últimos séculos alargaram de forma notável a visibilidade da mulher. O aumento dos padrões industriais do mundo contemporâneo criou as condições propícias para a sua inserção no mundo do trabalho.

Passaram-se milênios, séculos, décadas desde o período da Antigüidade grega. Muitas mudanças, conquistas, rupturas aconteceram na sociedade, na vida das mulheres, durante esse longo período. Mas, ainda há concepções, há discursos que consideram a mulher como um ser inferior. Um fator que possibilita pensar nesta direção, é o alarmante índice de violência[3] contra as mulheres, principalmente no ambiente doméstico. Segundo os dados da ONU, em todo o mundo, pelo menos uma a cada três mulheres já foi espancada, coagida ao sexo ou sofreu alguma forma de discriminação durante a vida. Um outro fator, é que muitas mulheres ainda recebem um salário inferior em comparação aos homens que, desempenham a mesma função.

Neste mês de março, em especial, são realizadas palestras, conferências, protestos, demonstrações de luta por uma vida mais digna para todos os sexos, em vários países. E que estas manifestações, sirvam para fomentar a discussão e a conscientização de que, as políticas públicas são necessárias para a redução da desigualdade, da discriminação, da violência e da violação dos direitos humanos.



Bibliografia:

COLLING, Ana Maria. A construção da cidadania da Mulher Brasileira: a questão da igualdade e da diferença. PUC - RS. Porto Alegre, 2000, p. 49. (Tese de doutorado)

HÉRITIER, Françoise. Masculino/Femenino. El pensamiento de la diferencia. Barcelona: Ariel, 1996, p. 282.

Lei Maria da Penha: 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm .

MOLIÈRE. Escola de mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p.10.

PERROT,  Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.186.

PLATÃO. Diálogos: Timeu, Critias, o Segundo Alcebíades, Hipias Menor. Belém: UPPA/GEU, 1986, p. 154..

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. São Paulo: Difusão Européia do Livro,  1968, p. 490.

WOOLF, Virgínia. Kew gardens; O status intelectual da mulher; Um toque feminino na ficção; Profissões para mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.36.


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[1] Talvez a exceção seria Esparta, menos por causa do reconhecimento da igualdade de direitos entre os gêneros e mais em função de sua característica eminentemente militar. As espartanas podiam participar da vida pública em praticamente todas as esferas, inclusive no exército e na política.


[2] Rousseau, no seu Livro Quinto, em que aborda sobre Sofia ou a Mulher, inaugura o discurso da mulher como “anjo do lar”, “santa” descrevendo como deveria ser a relação entre o homem e a mulher, (ROUSSEAU, 1968:432), e WOOLF, aborda que a mulher precisa matar o “anjo do lar” para conquistar outros espaços, (WOOLF, 1997: 43).

[3] São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial, segundo a Lei Maria da Penha - 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm
Doutoranda em Educação na Universidade de Osnabrueck – Alemanha

http://www.espacoacademico.com.br/070/70esp_graupe.htm

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

UM LIVRO SOBRE A AMAZÔNIA REAL - FOTÓGRAFO PEDRO MARTINELLI

 Gente x Mato
O desmatamento da Amazônia ocupou quase semanalmente as páginas de jornais e revistas neste ano de 2008. Ainda assim, apesar de estar no centro da discussão global sobre o meio ambiente, e de representar cerca de 60% do território nacional, a Amazônia ainda parece estar fora do mapa do Brasil.
A maioria dos brasileiros jamais a visitou. Ou, quando o fez, limitou-se à área restrita de um hotel de selva ou ao bumbódromo de Parintins.
No imaginário brasileiro, a Amazônia ainda é uma mistura complexa e confusa de lendas e clichês exóticos, crimes e polêmicas ambientais.
O livro GENTE X MATO, do fotógrafo Pedro Martinelli, é um convite para conhecer a Amazônia real.
Seu ponto de partida é 1970, ano em que teve início o grande projeto de ocupação da floresta, sob o comando dos militares no poder.
Foi nesse ano também que Martinelli conheceu a região, como integrante de uma expedição para contatar os índios Panará.
Desde então, o fotógrafo não parou de percorrer e documentar a vida da maior floresta do mundo, cujas bordas vamos roendo pouco a pouco.
Com 168 imagens, em cor e preto-e-branco, registradas entre 1970 e 2008, GENTE X MATO quer mostrar que a difícil e frequentemente devastadora ocupação da Amazônia é resultado das políticas equivocadas que tiveram início há quase quarenta anos. E que infelizmente continuam em vigor.
Concebido e editado pelo fotógrafo, pelo jornalista/roteirista Marcelo Macca e pelo designer Ciro Girard, GENTE X MATO coloca uma lente de aumento sobre aspectos da vida amazônica que o resto do Brasil ainda insiste em ignorar.
Em formato tablóide, que faz lembrar as antigas revistas que marcaram época na imprensa nacional, como Realidade e O Cruzeiro, GENTE X MATO lança uma pergunta a todos os brasileiros:
“Na Amazônia, o mito, ainda cabem vários sonhos e projetos de futuro. Mas e na Amazônia real? Ainda cabe o quê?”

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FONTE : http://www.pedromartinelli.com.br/1/?page_id=33

Novas e velhas polêmicas acerca do ponto G feminino (AMIGA REGINA ENVIA)




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Fátima Oliveira

Há muito disse me disse; só 1/3 das mulheres o conhece


Nos meios científicos aportaram novas polêmicas sobre o ponto G feminino, descrito pela primeira vez em 1950 pelo médico alemão Ernst Grafenberg no artigo "A função da uretra no orgasmo feminino": "Há uma zona erógena na parede anterior da vagina no trajeto da uretra, formada por um tecido erétil - semelhante ao corpo esponjoso do pênis, cujas dimensões aumentam durante a excitação sexual -, capaz de proporcionar um grande prazer ao ser estimulada, fazendo com que as mulheres alcancem o orgasmo mais facilmente" ("Jornal Internacional de Sexologia").
O ponto G nunca foi consenso, porém conceitualmente se estabeleceu não como um "órgão", mas como uma área rugosa no interior do canal vaginal, a três centímetros da entrada da vagina, embaixo do púbis; ou seja, na parede anterior da vagina.
É uma zona erógena de alta sensibilidade: uma concentração de terminações nervosas, glândulas e vasos sanguíneos que, quando estimulada, produz excitações indizíveis e orgasmos daqueles de ver estrelas. Há muito disse me disse sobre o ponto G. Para alguns, só 33% das mulheres o possuem. Para o ginecologista francês Sylvain Mimoun, "é possível que todas as mulheres tenham ponto G, mas apenas 1/3 delas o conhece". Entre pessoas leigas, duvidar quem há de? A mulher que não descobriu o seu, cala. A troco de que sair dizendo que é uma sem-ponto G?
O ginecologista e sexólogo italiano Emmanuele Jannini publicou na "New Scientist" (2008) dados de pesquisa pioneira e única com 18 mulheres, em que identificou o ponto G por ultrassonografia. Em nove mulheres que relataram orgasmos vaginais, havia nítido espessamento do tecido uretrovaginal.
Em 4 de janeiro de 2010, os noticiários bradaram: "Ponto G ‘não existe’, dizem cientistas britânicos", com base numa pesquisa do King’s College, de Londres, disponível em "The Journal of Sexual Medicine", com dados de 1.804 mulheres, de 23 a 83 anos, gêmeas univitelinas e fraternas, cuja conclusão é mais cautelosa que as manchetes: "O ponto G pode não existir".
Andrea Burri, coordenadora da pesquisa, disse: "Chega a ser irresponsável afirmar a existência de uma entidade que nunca foi comprovada". Tim Spector, coautor do estudo, disse mais: "Esse é de longe o maior estudo já realizado sobre o assunto e mostra, de forma conclusiva, que a ideia do ponto G é subjetiva". A sexóloga Beverley Whipple destaca falhas metodológicas: o questionário não foi aplicado a lésbicas e nem a bissexuais para analisar os efeitos de diferentes práticas sexuais e que "o maior problema com essas conclusões é que gêmeas, normalmente, não têm o mesmo parceiro sexual".
Numa conferência em Paris, em 29 de janeiro último, a pesquisa britânica foi taxada de abordagem totalitária da sexualidade feminina. Pierre Foldès, cirurgião e coautor de uma técnica para reparar danos de excisões do clitóris, declarou que a pesquisa se baseou na ideia equivocada de que todos os pontos G seriam similares e que "o estudo mostra falta de respeito em relação ao que as mulheres dizem. As conclusões são completamente erradas, pois se baseiam somente em observações de ordem genética. Há variabilidades na sexualidade feminina".
Sylvain Mimoun, organizador da conferência em Paris, é categórico: "Se uma paciente perguntar onde está seu ponto G, eu mostro. Qualquer que seja a maneira como chamamos essa zona sensível, G, M ou B, podemos estar certos de sua existência, fica a uma distância de cerca de três centímetros da entrada da vagina".
Fonte: O Tempo


http://www.geledes.org.br/fatima-oliveira/novas-e-velhas-polemicas-acerca-do-ponto-g-feminino.html

FERREIRA GULLAR - 62 ANOS DE POESIA



Considerado pela crítica como o mais importante poeta brasileiro vivo, José Ribamar Ferreira, o Ferreira Gullar, está concluindo seu 15º livro de poemas:“Em alguma parte alguma”, que será lançado este ano, quando o autor completará 80 anos. Jornalista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, apresentador de TV, Gullar é um multimídia e tem participação decisiva na cultura brasileira nos últimos 55 anos.

Ele foi um dos fundadores dos movimentos Concretista e Neoconcretista de literatura e artes plásticas, participou da reformulação estética e conteudística do Jornal do Brasil no final da década de 50. Atuou, também, como presidente do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), nos anos 60. O CPC teve grande influência em algumas tendências do teatro, do cinema, da literatura nacional e importante militância na resistência ao golpe militar de 1964 e à ditadura que o sucedeu.

No rol de suas criações poéticas, destacam-se “Poema sujo”, considerado uma das obras-primas da literatura latino-americana, “A luta corporal”, “Dentro da noite veloz”, “Barulhos”, “Muitas vozes”, entre outros títulos importantes. Alguns desses livros foram traduzidos para o inglês, o espanhol, o alemão e o holandês. Ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) – filiou-se em 1º de abril de 1964, dia do golpe de Estado -, Gullar, como outros intelectuais opositores àquela ordem política, foi perseguido e obrigado a exilar-se no exterior. Viveu, nesse período, na União Soviética, no Chile, no Peru e na Argentina.

Nascido em São Luis, capital do Maranhão, o poeta vive no Rio de Janeiro há 58 anos. Nesta entrevista, Gullar fala um pouco de suas atividades literárias, políticas, artísticas e de sua visão de mundo.


Você é considerado o mais importante poeta brasileiro contemporâneo e o seu próximo livro é esperado com expectativa. Como se sente sendo tão reverenciado?

Gullar – Essa coisa de melhor poeta é opinião de algumas pessoas, não é unânime. Evidentemente, fico feliz que tenham meu trabalho em tão alta conta. Os adjetivos, comentários sobre minha obra e a expectativa sobre o meu próximo livro, entendo-os como coisa natural, consequência de todo trabalho que realizei. Estou com 79 anos e metido com isso desde os 17 anos. É produto de uma entrega de vida inteira à poesia, à arte.


Além de poeta você é dramaturgo, ensaísta, trabalhou em rádio, televisão.

Como consegue lidar com meios e linguagens tão diferentes?

Gullar – Tenho certa facilidade em me ajustar às coisas. Acredito no trabalho e no aprendizado. Evidentemente, minha produção não tem a mesma qualidade nesses diferentes meios. Grande parte do que fiz foi para ganhar a vida, porque a poesia não dá camisa a ninguém. Se eu fosse viver de poesia, tinha morrido de fome.


Por que decidiu vir para o Rio de Janeiro?

Gullar – Eu tinha 20 anos, estava sufocado, tinha necessidade de participar da vida moderna, me sentia marginalizado, fora do mundo. Tinha curiosidade pela pintura, pela literatura, pela poesia, pelo teatro e em São Luis não acontecia nada. Livro era uma dificuldade. Pintura, então, que era minha paixão, não existia.



Deixou o parnasianismo em São Luis e veio namorar o modernismo no Rio?

Gullar – Não. Aprendi a fazer poesia como parnasiano, mas lá mesmo em São Luis, ao tomar conhecimento da poesia moderna, entendi que não era o caminho e passei a estudar e fazer poesia moderna. E fui a uma escala tal de exigência e de busca, que em pouco tempo estava arrebentando a linguagem, fazendo uma poesia que voltava a ser anacrônica à poesia brasileira que se fazia então.


De que maneira?

Gullar – Nesse momento, a poesia moderna, que era a da Geração de 45, tinha se transformado em poesia clássica, acadêmica, voltada ao soneto, à rima. Carlos Drummond, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes passaram a fazer sonetos. João Cabral de Melo Neto, figura mais importante de 45, é 100% formalista. Ou seja, uma poesia totalmente diferente da do meu livro “A luta corporal”, publicado em 1954, que é um livro totalmente explosivo.



“Em alguma parte alguma” já está concluído?

Gullar – Meus livros nascem à medida em que os poema vão surgindo. A obra vai tomando forma aos poucos, vão aparecendo caminhos que definem os rumos dos poemas. Não sou como alguns poetas que programam à própria obra. Que definem o tema antecipadamente. Comigo é diferente, surgem indagações, perplexidades que encaminham meu projeto poético. É verdade que assumo o controle do processo à medida que os temas vão se manifestando. Maria Amélia (editora da José Olympio) tem me pressionado. Respondo-lhe que o livro é que tem que dizer quando está pronto. Mas, digamos, já estamos na etapa final. (risos)


Como é seu processo de construção poética?

Gullar – Minha poesia nasce do espanto. Pode ser de uma coisa trivial, mas que desvele um lado inesperado da realidade, da vida. A partir deste fato se desencadeia um processo, um estado de espírito que é específico. A sociedade, o ser humano vivem regidos por regras, no entanto elas se rompem quando o espanto se sucede. Entramos em outro estado, que não é divino nem supranormal. É um estado especial de comunhão com o cosmo, onde a imaginação e a linguagem se tornam mais livres, mais amplas. Eu produzo muita prosa, mas pouca poesia. A poesia, para mim, é muito rara porque surge inesperadamente e depende desse estado.


É como uma epifania joyceana?

Gullar – James Joyce era torturado por sua formação jesuítica, eu não. Mas é por aí. É por isso que não posso escrever poesia quando quero, pois não posso provocar esse estado.


Poema Sujo é seu livro mais celebrado, de que maneira o concebeu?

Gullar – Eu estava exilado na Argentina, depois de ter passado por União Soviética, Chile e Peru. Perón (Juan Domingo) havia morrido e assumira a presidência Isabelita, sua mulher. O país vivia uma instabilidade política muito grande e circulavam boatos de que haveria um golpe de Estado. Quando escrevi “Poema sujo”, a embaixada brasileira havia cancelado meu passaporte, eu não podia ir a lugar algum, havia ditaduras por todas as partes: Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia. Falava-se, também, da ação dos militares além das fronteiras nacionais, no que depois ficou conhecido como “Operação Condor”. Eu via a morte como coisa iminente. Então pensei, vou escrever a última coisa da minha vida, tudo que tenho a dizer, vou dizer agora. Por isso o poema é tão extenso, pois é um resgate das experiências afetivas, literárias, políticas, artísticas e de minha infância em São Luis. Quando conclui o livro, em outubro de 1975, Vinícius de Moraes o trouxe para o Brasil, o trabalho circulou clandestinamente por um tempo e depois o Ênio da Silveira o editou. Lançaram em 1976, em uma noite de autógrafos sem a presença do autor. (risos)


Os teóricos apontam como principais características do Pós-modernismo a fragmentação da realidade, a espacialidade da História e a negação da utopia. Qual é sua percepção desse movimento cultural?

Gullar – Entendo pouco desse negócio de pós-modernismo. Não me detenho a pensá-lo. No fundo, é mais uma categoria forçada. Muitas dessas características estavam presentes em obras e manifestações anteriores. É simplesmente desdobramento e ampliação de uma coisa que foi feita sem esse nome, como conseqüência desse processo de vanguarda e assimilação da vanguarda. O pós-modernismo é um movimento que retroage, pois não vai adiante nas conseqüências externas da vanguarda. Ele volta ao texto, por exemplo. Com todas suas características positivas ou negativas, ele não vai adiante do Finnegan’s wake , do James Joyce, vai?


Você tem feito críticas ácidas aos rumos tomados pelas artes plásticas.

Gullar – As manifestações de vanguarda surgiram em todos os campos a partir do final do século XIX e início do século XX. Na literatura, nas artes plásticas, em diferentes campos houve movimentos propondo novos caminhos estéticos . O teatro, a literatura, a música, o cinema absorveram as experiências de vanguarda e voltaram enriquecidos ao campo normal. Cito muito o exemplo do Joyce, pois o Finnegan’s Wake é um livro limite. Ele revela, numa carta, que sua próxima obra seria clara como água, porque, evidentemente, depois daquilo não há como ir adiante. Seria a incomunicabilidade total.

Imagine se o romance, como as artes plásticas, teimasse em levar adiante uma experiência esgotada. Não teria havido William Faulkner, Borges, Cortázar, George Orwell, Camus, Sábato, Drummond, Hemingway, Guimarães Rosas... Teria acabado a literatura. Hoje, o cara corta um cartão, põe dentro de uma caixa de vidro com holofotes, expõe, e a Bienal de Veneza o premia. O pós-modernismo é arte conceitual?

Estou cansado de tanto enquadrar as coisas em categorias. Falo a você, com franqueza, para mim o quadro cubista do Picasso só vale porque ele é um bom quadro, não porque ele é cubista.


Em que circunstâncias ocorreu seu exílio?

Gullar - Em dezembro de 1968, com a radicalização do regime militar e a decretação do AI-5, fui detido junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas e intelectuais. Em 1969, eu respondia a um Inquérito Policial Militar, mas em liberdade. Mas um colega foi detido e torturado, revelando muitas coisas sobre o partido e sobre mim. Então o PCB decidiu que eu deveria entrar para a clandestinidade, pois poderiam me torturar para que eu confessasse coisas que eu não sabia. Podiam até mesmo me assassinar. Eu tinha um cargo de direção no PCB, mas era quase simbólico, honorífico. Ademais, invadiram minha casa, ameaçaram minha família, meus filhos. Saí do país pela fronteira com o Uruguai, atravessei o Rio da Plata até Buenos Aires, de onde embarquei para Paris e de lá para Moscou.


Como o ex-militante do PCB vê esta crise do capitalismo, ainda acredita no comunismo?

Gullar - Imaginar que o ser humano, passivamente, vai se deixar manobrar até chegar à sua anulação total ou ao seu extermínio, não existe. Aquela imagem do “grande irmão”, do George Orwell, não vai acontecer. O ideal de justiça é inerente ao ser humano e jamais morrerá. O ser humano não é afeito à injustiça. Pode até praticá-la, mas não a aceita. Em relação ao capitalismo: ele vive em crises cíclicas, mas isto não significa que vai acabar, como alguns predizem. Ele tem a vitalidade e o catastrofismo da natureza. O comunismo é uma utopia e o socialismo uma etapa para se chegar até ele. O socialismo é uma invenção humana para introduzir ética, solidariedade em um sistema destituído disso. Ele cumpriu o seu papel, o mundo mudou muito da publicação do “Manifesto comunista”, em 1848, até hoje. O capitalismo era uma selvageria muito mais inominável do que agora, tiravam crianças do orfanato para trabalharem 12 ,16 horas por dia e depois elas morriam à míngua, tuberculosas. O socialismo esgotou suas possibilidades efetivas não apenas no que degenerou: na sua própria idealização existem erros.


Nos seus últimos livros, principalmente em “Barulhos”, você está muito reflexivo e o tema da morte é recorrente. Como lida com essa questão?

Gullar – É isso mesmo, acaba. A vida é minha consciência de estar vivo. Na hora que se apagar minha consciência, eu nunca existi para mim. Eu passarei a existir para os outros, os que sobrevivem. Escritores como Cervantes e Shakespeare existem para nós, pois como acabou a consciência deles - que era eles - eles nunca existiram. Acho que o sentido da vida são os outros. O que você faz, imagina, é uma invenção. A própria vida é uma invenção nossa e a transferimos para o outro como contribuição, esforço de cada um para construir o que se chama de sociedade humana, de civilização. Fiz um poema para o meu filho que morreu com 32 anos que diz assim: “ Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos “. A morte é um tema constante na minha poesia e, realmente, estou mais reflexivo nos meus últimos livros.


Embora você seja um homem otimista...

Gullar – Ser pessimista é a coisa mais fácil que tem: você vai ficar velho, brocha, morrer, e isso é natural. Mas o que importa na vida não é ser o natural, temos que lutar contra o natural para afirmar o ser humano, mudar o mundo e fazer as coisas caminharem. Deixar-se ir pelo automatismo da vida não tem sentido. Sou otimista no sentido de acreditar que você tem que construir a vida, que ela não é uma coisa externa a nós. Não falo do otimismo diletante, mas da obrigação com o otimismo, não há outra saída.


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Postado por Carlos Silva Miranda às Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

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