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sábado, 3 de maio de 2014

Escapar da morte

Amanhã, 4 de maio de 2014, fará um ano que Glória Kreinz, uma das colaboradoras deste blog nos deixou meio órfãos. Porém, muitos conseguem escapar da morte de várias formas, deixando livros, deixando obras, deixando bons momentos nas cacholas de alguns, ou tendo uma nova oportunidade pra continuar apanhando nesta vida terráquea, (risos), Mário Bortolotto, um de nossos dramaturgos, grande artista, quase foi-se antes da hora por ter sido alvejado num assalto, mas por sorte nossa ele continua firme e forte produzindo sua arte. Outros, me parece, resolvem eles mesmos se despedirem da luta da vida, nos deixando meio atordoados sobre os limites de nossas escolhas. Falar sobre vida, amor e sobre a morte são coisas para poetas e filósofos, então, coloco aqui frases de alguns.











sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

PAULO SÉRGIO PINHEIRO E A RAIVA DE CALIBÃ

Aos 12 anos, na 2ª série ginasial, eu tinha tanta facilidade em solucionar questões matemáticas quanto dificuldade em lidar com a estranha lógica da química e da música.

Então, como uma alfinetada à professora de Canto, copiei certa vez na contracapa do caderno de música o prefácio de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde - cujo significado, aliás, eu estava longe de entender.

Queria apenas que ela lesse a última frase, "toda arte é completamente inútil", pois eu considerava suas aulas uma completa inutilidade.

Quanto ao livro em si, o que me fascinava mesmo era o tema do pacto com o demônio. Eu tinha fascínio pelo fantástico e o sobrenatural. Nem remotamente imaginava a que Wilde estava querendo aludir com aquela história bizarra.

E, na minha ignorância juvenil, escapava-me também o significado de dois versos que, entretanto, me chamaram a atenção:
"A aversão do século XIX pelo realismo é a raiva de Calibã ao ver seu rosto no espelho."

"A aversão do século XIX ao romantismo é a raiva de Calibã por não ver seu rosto no espelho."
Pouco me interessara por Shakespeare e nada sabia de sua Tempestade, na qual aparece o personagem do monstro disforme, filho da bruxa Sicora, que se horroriza ao ver a própria face no espelho.

De certa forma, eu mesmo agia como Calibã, ao considerar inútil o aprendizado musical apenas porque não conseguia diferenciar um dó de um fá. Quebrava o espelho como reação às minhas limitações.

Foi o que me veio à mente, ao ler que o presidente venezuelano Hugo Chávez considerou "lixo puro" o relatório divulgado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, cujo relator foi Paulo Sérgio Pinheiro.

Por que? Porque nele se constata que não existe equilíbrio de poderes na Venezuela, mas sim a ascendência do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário; e que veículos da imprensa sofrem perseguições.

Ora, isto é tão óbvio quanto a feiúra de Calibã. Quebrar espelhos só coloca em maior evidência esses fatos.

E o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, recentemente eleito pela Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça como representante da sociedade civil no grupo de trabalho encarregado de preparar o anteprojeto de lei da Comissão Nacional da Verdade, é um exemplo inatacável de dignidade e idealismo, sempre colocando seu brilho intelectual a serviço das causas justas. Uma unanimidade.

Então, não posso calar quando Chávez trata de maneira tão insultuosa seu relatório e qualifica de "máfia" a Comissão à qual pertence.

Paulo Sérgio Pinheiro fez por merecer o respeito dos melhores brasileiros e deve ser por eles desagravado neste episódio, independentemente de quaisquer outras considerações.

Não vivemos mais nos sinistros tempos da guerra fria, quando tantos calavam a voz de suas consciências por temerem ajudar indiretamente o inimigo.

Rosa Luxemburgo é quem estava certa: "a verdade é revolucionária". Sempre.

Por último: deixo igualmente registrado meu inconformismo com o tratamento desumano que os presos políticos recebem em Cuba, causa última da morte de Orlando Zapata, e com a frase extremamente infeliz de Marco Aurélio Garcia, ao relativizar o ocorrido alegando que "há problemas de direitos humanos no mundo inteiro".

sábado, 2 de maio de 2009

LULA É TUDO, MENOS HIPÓCRITA

Um livro que me fascinou quando jovem foi O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Desde criança eu curtia os filmes e gibis de terror, mas nunca me deparara com uma história sobre as artimanhas do diabo que tivesse abordagem literária, sofisticada. Adorei.

Para quem não conhece a história, Dorian Gray é um moço belíssimo que, ao ver seu esplendor fielmente reproduzido numa pintura, exclama algo do tipo: "Ficarei velho e feio, enquanto o quadro permanecerá sempre igual. Eu daria a alma para que ocorresse o contrário".

Efetivamente, é a tela que passa a estampar as marcas do envelhecimento e da vida dissoluta de Dorian Gray, enquanto o próprio continua com figura angelical.

Lá pelas tantas, horrorizado com os traços repulsivos daquele espelho de sua alma, Dorian tenta atenuá-los praticando o bem por uns tempos. Aí, vai ver o efeito que isto produziu no quadro e constata que a única mudança foi para pior: a imagem passara a exibir um sorriso hipócrita.

Esta aí algo de que não se pode acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: tem muitos defeitos, mas hipócrita não é.

Comentando a repercussão na imprensa da farra das passagens aéreas, Lula aconselhou: "Faça um levantamento da história da Câmara e veja se algum dia foi diferente. Sempre foi assim, não sei por que as pessoas não têm coragem de assumir as coisas como elas são".

Segundo ele, o assunto é mais velho do que a descoberta do Brasil. E admitiu ter procedido exatamente da mesma maneira quando era deputado: "Não acho um crime um deputado dar uma passagem para um dirigente sindical ir a Brasília. Eu, quando era deputado, muitas vezes convoquei dirigentes da CUT, dirigentes de outras centrais para se reunirem com passagem do meu gabinete".

Parece ainda não ter-se dado conta de que a militância, ao comer o pão que o diabo amassou para conduzir o PT ao poder, sonhava com a moralização da política brasileira, não com a admissão de práticas imorais sob o pretexto de que "sempre foi assim".

Lula também será tudo, menos hipócrita, ao receber (dia 6) no Brasil o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, logo após ele ter negado a existência do Holocausto.

Entendamo-nos: é criticável que o extermínio dos judeus por parte dos nazistas seja tão enfatizado pela indústria cultural, enquanto relega a plano infinitamente inferior os genocídios praticados pelos hitleristas contra outros povos por eles considerados inferiores. Fala-se demais nos 6 milhões de judeus que o III Reich assassinou e de menos, p. ex., nos 20 milhões de soviéticos, idem.

O pior é que muitas vezes isto, implicitamente, acaba sendo utilizado como justificativa para as atrocidades que Israel comete na atualidade, como se os palestinos devessem pagar pelos pecados de Hitler.

Se Ahmadinejad tivesse feito as ressalvas corretas, não mereceria reprovação. Preferiu tapar o sol com a peneira, negando a verdade histórica: os judeus também foram massacrados pelos nazistas.

Mas, por uma questão de coerência, Lula não poderia mesmo considerar a declaração falaciosa de Ahmadinejad um motivo para desconvidá-lo ou para remarcar a visita.

Afinal, sempre que se discutiu a versão brasileira do Holocausto (as atrocidades cometidas pela ditadura militar contra os resistentes e contra cidadãos que, mesmo sem estarem envolvidos em atividades políticas, despertaram suspeitas das otoridades, como os moradores do Araguaia), a atitude de Lula tem sido a de pregar o esquecimento.

Foi ele quem proibiu seus ministros de agirem no sentido da revogação da Lei de Anistia de 1979. E é ele o responsável último pelos sucessivos pareceres da Advocacia Geral da União, no sentido de que tal anistia autoconcedida pelos torturadores é definitiva e impede a punição dos Ustras da vida.

Então, seria hipócrita Lula tomar qualquer atitude contra Ahmadinejad por ele negar atrocidades ao invés de esquecê-las, simplesmente.

E hipócrita Lula não é.
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