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segunda-feira, 2 de abril de 2012
Sarcasmo
Cada vez que assisto a cenas de briga entre torcedores
de futebol, inevitavelmente vêm a minha mente a imagem
de um político corrupto sorrindo sarcasticamente,
por ver jovens gastando todo o seu tempo e energia
com algo tão irrelevante
Marcelo Roque
quinta-feira, 15 de março de 2012
LEI SECA NOS ESTÁDIOS DA COPA: GOVERNO RECUA E O MUNDO RIRÁ DE NÓS
Por Celso Lungaretti
| O Brasil será visto como um país onde ainda subsistem as bizarrias do tempo de Al Capone |
Para nossa vergonha, estávamos recebendo uma lição da Fifa sobre como devem ser tratados os cidadãos: numa democracia, cabe-lhes o direito de decidirem se, quando e quanto querem beber, mais o dever de manterem comportamento civilizado a despeito da quantidade de álcool ingerida.
Quem não segurar a onda, que seja expulso do estádio ou preso.
Mas, que não seja imposta à maioria uma ridícula e extemporânea Lei Seca por conta da imaturidade de alguns. [Assim como é uma aberração fascistóide obrigar motoristas laçados a esmo a se submeterem a testes de bafômetros, como se fossem culpados até provarem a inocência... antes mesmo de qualquer crime ter sido cometido!]
São as ditaduras que tratam adultos como crianças no internato, privando-os das oportunidades de errar. Nas democracias, eles são respeitados como adultos e, quando erram, recebem a punição cabível.
Na singular democracia brasileira, torcedores de futebol são encarados como crianças ou deficientes mentais, a quem se nega até o ínfimo prazer de uma cervejinha.
Na singular democracia brasileira, torcedores de futebol são encarados como crianças ou deficientes mentais, a quem se nega até o ínfimo prazer de uma cervejinha.
| Seria cômico, se não fosse trágico: continuamos até hoje no tempo do Onça?! |
Sob vara da Fifa, o Governo brasileiro propôs a suspensão temporária desta prática vexatória que deveria ter sido abolida há muito tempo.
Mas, firme como geléia, acaba de recuar diante da rabugice da pior espécie de totalitários: os fanáticos religiosos, que só não chamo de herdeiros de Tomás de Torquemada porque o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão era sincero nas suas convicções monstruosas, enquanto os atuais parecem mais ser devotos do bezerro de ouro.
Mas, ainda que por mero oportunismo, representam o atraso e são infames pregadores do ódio (contra os cultos afrobrasileiros e os gays, principalmente), satanizando pessoas como forma de imantarem suas fileiras, à maneira de Hitler com os judeus.
Ou seja, tudo que a esquerda tem como obrigação combater e com o qual não pode fazer acordo nenhum, ter complacência nenhuma.
Estava certíssimo Gilberto Carvalho ao propor o combate ideológico a esses evangélicos.
Está terrivelmente errado agora o Governo, refugando diante dos que tentam nos fazer retroceder à Idade Média.
Torço para que a Fifa tire o Mundial do Brasil --ainda está em tempo de o fazer.
Enquanto não nos assumirmos plenamente como uma nação civilizada do século 21, sediarmos grandes eventos só servirá para escancarar nosso atraso, colocando-o sob holofotes para que o mundo ria de nós.
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BARBÁRIE NO PINHEIRINHO TEVE UM ÚNICO BENEFICIÁRIO
VAMOS DENUNCIAR ALCKMIN AO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL
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domingo, 4 de dezembro de 2011
SÓCRATES ERA MAIOR DO QUE O FUTEBOL
Por Celso Lungaretti
Muhammad Ali esteve no Brasil quando assumia conscientemente o papel de símbolo da luta dos negros contra o racismo e Pelé era um gênio do futebol e um zero à esquerda em preocupações sociais.
Um repórter perguntou ao grande Ali o que achava de Pelé. Com seu brilhantismo habitual, ele respondeu algo assim (não encontrei a frase exata): "Se alguém é um esportista extraordinário, isto já basta. Mas, se além disto, ele também levanta as bandeiras de sua gente e trava o bom combate, aí sim ele é completo".
Sócrates era completo.
Parafraseando o que Foreman disse sobre o próprio Ali, talvez Sócrates não tenha sido o maior jogador brasileiro de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão brasileiro que já atuou no futebol profissional.
A ponto de, quando os melhores cidadãos brasileiros saíram às ruas para recuperar o direito de elegerem o presidente da República, ele se ter comprometido com a multidão que lotava o Vale do Anhangabaú (SP) a recusar a proposta estratosférica da Fiorentina e permanecer no País para ajudar a reconstruí-lo, caso fosse aprovada a emenda das diretas-já.
Perdemos um grande companheiro, um irmão de fé. Foi doído demais.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
GRANDE DOUTOR: LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA!
![]() |
| No palanque das diretas, anunciado por Osmar Santos |
Ótima notícia é a alta de Socrates Brasileiro.
Parafraseando a inesquecível frase com que George Foreman esquivou-se de comparar os geniais Muhammad Ali e Joe Louis ("Não sei dizer se Ali foi o maior peso-pesado de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão que já lutou boxe"), eu diria que o doutor foi o melhor cidadão que já se tornou grande futebolista.
Antes dele, os craques eram quase todos vaquinhas de presépio dos cartolas -- vis parasitas que vicejam à sombra das chuteiras imortais, para, da arte dos boleiros, extraírem grana, prestígio e poder.
Mesmo os que tinham espírito mais crítico e independente, evitavam dizer o que realmente pensavam da engrenagem mafiosa do futebol. Afonsinho, rara exceção, não teve a carreira que seu talento prefigurava, exatamente por haver ousado trombetear a nudez do rei.
O que Sócrates conseguiu foi impressionante: não só venceu como jogador (apesar do submundo do futebol e a venal imprensa caudatária terem insistentemente tentado desmoralizá-lo), como conseguiu unir o elenco do Corinthians em torno de suas idéias e impô-las aos dirigentes do clube.
| Parabéns pelo novo gol, doutor! |
Lembrem-se: ainda estávamos sob ditadura. A democracia corinthiana (o direito de os atletas participarem da tomada de decisões que os afetavam, como a necessidade ou não de concentração antes dos jogos) servia como modelo e cartão de visitas da democracia em si. Havia um conteúdo político maior, subjacente à afirmação da dignidade profissional dos jogadores.
E, exatamente como Muhammad Ali, teve Sócrates a grandeza de dispor-se a um grande sacrifício pessoal em nome de suas convicções.
Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a servir como relações públicas para a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de nigger [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".
Da mesma forma, Sócrates abriria mão de muita grana italiana se tivesse a oportunidade de contribuir para a reconstrução democrática do Brasil. Foi o que jurou num ato público da campanha das diretas-já, no Vale do Anhangabaú (SP): comprometeu-se solenemente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a estratostérica proposta da Fiorentina.
Tenha vida longa, doutor. Ainda precisamos de você... e muito!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O BRASILEIRÃO DOS DESESPERADOS
Completadas 31 das 38 rodadas, o Fluminense e o Cruzeiro lideram a série A do Brasileirão 2010, tendo conquistado 58% dos pontos que disputaram.
Só em 2002 o campeão (Santos) teve aproveitamento tão ruim nesta década. E a forma de disputa era outra, com 26 competidores e um turno só, seguido de mata-matas.
Nos demais anos, ficou entre 64% e 68%, salvo em 2003 (o Cruzeiro obteve expressivos 72%) e 2009 (os 59% do Flamengo).
O certo é que, ultimamente, vemos o principal campeonato nacional do esporte preferido dos brasileiros reduzido a um perde-ganha maluco, com os times disparando na frente e depois sofrendo quedas vertiginosas de rendimento, que deixam pasmos os torcedores.
O Palmeiras estava encomendando as faixas no ano passado quando passou a perder todas e acabou nem mesmo entrando na zona de classificação para a Libertadores.
Agora em 2010, Corinthians e Fluminense já estiveram bem à frente dos rivais, mas as abruptas fases negativas pulverizaram sua vantagem. Depois chegou o Cruzeiro... e, mal atingiu o 1º lugar, também caiu de produção.
Por quê?
Porque os esforços excessivos a que estão sendo submetidos os jogadores acabam estourando os elencos. E, conforme se contundem seus jogadores-chave, os times desabam.
Isto se dá não só em função da quantidade excessiva de jogos disputados, como também por esquemas táticos que exigem mais correria do que os atletas podem suportar no médio e longo prazos.
Emblemático foi o caso recente do Corinthians. Com Mano Menezes como técnico, vinha sendo a equipe mais consistente do futebol paulista... exatamente porque dosava suas forças e conseguia suportar bem a sequência de jogos. Isto incluía poupar os atletas cujo desgaste atingia um ponto perigoso, dando-lhes merecidos descansos.
Mano foi para a Seleção, veio Adilson Batista e armou bem o Corinthians, no papel. Com um esquema de marcação sob pressão inclusive no campo adversário, chegou a conquistar excelentes resultados, como as vitórias fora de casa contra Fluminense e Santos.
Mas, estava esticando demais o elástico e este, de repente, arrebentou, com as contusões se multiplicando e o time entrando em parafuso.
Quatro derrotas e três empates depois, seu substituto Tite é a esperança de reencontro com o equilíbrio possível. Começou bem, vencendo o Palmeiras.
APOGEU DOS SUPERCRAQUES DURA CADA VEZ MENOS
O certo é que o espírito de ganância capitalista aplicado ao esporte dá nisso: exige-se demais dos jogadores, fazendo com que degringolem fisica ou psicologicamente.
Que eu saiba, só quem vem abordando sistematicamente esta nova realidade é o grande Tostão. Ele ressalta que a carga de esforços imposta aos profissionais de futebol vem encurtando a carreira dos supercraques, cujo apogeu acaba bem mais cedo do que antes. Exemplos: Ronaldinho Gaúcho e Kaká.
E não é uma distorção só do futebol. Noutros esportes o desempenho chegou a ser maximizado por dopings e agora há casos como o do tenista Rafael Nadal, que sacrificou-se demais para chegar ao posto de 1º do ranking e acabou pagando alto preço: uma contusão o manteve afastado por um semestre das quadras. Ao voltar, aprendera a dosar melhor suas forças.
Dá pena vermos nosso esporte das massas transformado num concurso de resistência física, como aquelas maratonas de dança da Grande Depressão, magnificamente retratadas no filme A Noite dos Desesperados (d. Sidney Pollack, 1969), em que Jane Fonda teve a melhor interpretação de sua carreira.
Já houve um tempo em que por aqui havia campeões incontestáveis, que dominavam as competições de ponta a ponta, não times que conservam um tiquinho a mais de forças e atropelam na reta final, de forma que o título parece ter-lhes caído do céu.
No último campeonato espanhol, o Barcelona registrou um inacreditável aproveitamento de 87%, sofrendo uma única derrota em 38 partidas.
Mesmo assim, só foi campeão por ter vencido no turno e returno o vice Real Madrid que, com 84%, fez a segunda melhor campanha de todos os tempos na Liga.
É um círculo vicioso: quando a grana comanda tudo, os países ricos podem fazer calendários menos desgastantes e tratar suas estrelas de forma menos desumana, até porque contam com ótimos substitutos. Isto se reflete nos resultados esportivos, que, por sua vez, geram retorno financeiro condizente.
Enquanto os pobres -- nós -- somos obrigados a exportar cada vez mais cedo nossas revelações e a superexplorar os que ficam, o que fazendo despencar cada vez mais a qualidade e o brilho das competições.
Disse e repito: o capitalismo consegue macular tudo que há de bom, nobre, justo, digno e belo em nossas existências.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
FÜHRER DUNGA FLERTA COM A DERROTA
A Seleção carrancuda de Dunga nos envergonha e dá tiro no pé.Nossas melhores características sempre foram a cordialidade, a irreverência, o temperamento lúdico.
Somos conhecidos mundialmente pela arte dos nossos boleiros, pela beleza plástica que conseguimos associar ao futebol, fazendo jogadas de sonho como aqueles dois gols que Pelé não marcou no Mundial de 1970 e, no entanto, são até hoje muito mais lembrados do que uma imensidão de tentos sem brilho.
Aí vem um Dunga, mata a fantasia e faz do escrete um exército.
Passa como um trator sobre a tradição de termos os melhores a nos representar, discriminando os talentos imensamente superiores (ao de quem tomou seu lugar) do Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Roberto Carlos. A não convocação desses três foi um crime lesa-futebol.
Aí, quando tudo marchava para termos só robozinhos em campo, o serelepe Robinho consegue brilhar mesmo em ambiente tão adverso.
Durante alguns dias, acalentamos a esperança de que haveria pelo menos um representante de nossa escola de jogar bola, um herdeiro de Garrincha em meio aos herdeiros do Dunga jogador.
Passa como um trator sobre a tradição de termos os melhores a nos representar, discriminando os talentos imensamente superiores (ao de quem tomou seu lugar) do Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Roberto Carlos. A não convocação desses três foi um crime lesa-futebol.
Aí, quando tudo marchava para termos só robozinhos em campo, o serelepe Robinho consegue brilhar mesmo em ambiente tão adverso.
Durante alguns dias, acalentamos a esperança de que haveria pelo menos um representante de nossa escola de jogar bola, um herdeiro de Garrincha em meio aos herdeiros do Dunga jogador.
O que acontece? Por uma ninharia, ter dado uma entrevista à Globo apesar do pacto de rabugice que o Führer obrigou os jogadores a firmarem, Robinho é coagido a expiar seu pecado humilhando-se diante de todo grupo.
O que é isso?! A Seleção virou Tribunal do Santo Ofício, com Dunga no papel de Grande Inquisidor?
Se o futebol de Robinho minguar como minguou o dos meninos do Santos depois de terem recebido uma punição igualmente caxias e desnecessária, não poderemos reclamar. A culpa é nossa, por termos deixado a coisa ir tão longe.
E se o alegre povo africano direcionar suas simpatias a outras Seleções, já que a de Dunga lembra demais a rigidez do apartheid, também não teremos do que nos queixar. Que joguemos sem aplausos, pois não os merecemos.
Enquanto isso, Maradona cria o melhor clima com que um escrete do seu país já disputou uma Copa. Parece ter roubado nosso encanto e mandado a arrogância argentina para nós.
Temo que este novo duelo entre Maradona e Dunga acabe como o de 1990, quando o fora de série deitou e rolou em cima do carregador de piano no lance decisivo.
Se o futebol de Robinho minguar como minguou o dos meninos do Santos depois de terem recebido uma punição igualmente caxias e desnecessária, não poderemos reclamar. A culpa é nossa, por termos deixado a coisa ir tão longe.
E se o alegre povo africano direcionar suas simpatias a outras Seleções, já que a de Dunga lembra demais a rigidez do apartheid, também não teremos do que nos queixar. Que joguemos sem aplausos, pois não os merecemos.
Enquanto isso, Maradona cria o melhor clima com que um escrete do seu país já disputou uma Copa. Parece ter roubado nosso encanto e mandado a arrogância argentina para nós.
Temo que este novo duelo entre Maradona e Dunga acabe como o de 1990, quando o fora de série deitou e rolou em cima do carregador de piano no lance decisivo.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
AS CHUTEIRAS NA PÁTRIA
Está começando o espetáculo. Durante quatro anos todos se prepararam para ver a seleção brasileira de futebol entrar em campo, jogar e ganhar. O Hexa! Dunga foi o menino escolhido para escolher os outros meninos que darão tanta glória à pátria. Ficaremos tão felizes com esta sexta conquista! Aqueles denodados jogadores, que chegaram de tão longe para tão mais longe irem - tão fortes e tão habilidosos, tão sorridentes e alegres, tão eufóricos e confiantes, tão patriotas – terão a missão honrosa de zelar pelos brios da pátria que conheceram um dia, quando ainda muito mais jovens, e da qual ainda lembram com aquele sorriso de carnaval e samba, e com a qual tanto se preocupam a ponto de darem o seu sangue – se preciso for – nas arenas da mãe África, como modernos gladiadores, apenas pelo amor à pátria, sem nada pedir que não mereçam - como os seus milionários contratos com as multinacionais para calçarem determinadas marcas de chuteiras –, nada que não seja extremamente merecido pelo seu esforço hercúleo de jogar futebol – como os salários pantagruélicos que recebem em seus clubes de origem e que serão aumentados com prêmios homéricos, caso tragam a Santa Taça graálica –, nada que não esteja ao alcance de qualquer brasileiro que jogue futebol em países tão distantes; que culpa eles tem se os outros brasileiros optaram por profissões menos rendosas, ou, em sua maioria, nem profissão tem, vivendo nas vilas-favelas e desertos-caatingas, trabalhando nas fábricas como robôs limitados ao salário tão mínimo, nas florestas-malária, nos pântanos, em palafitas ou nas cidades - subumanos lugares de múltiplas desilusões, assassinatos, injustiça social, degradação moral e opressão? Eles são heróis e sabem disso, acima das mazelas da pátria-mãe que tão grande PIB ostenta para os miseráveis que dormem nas ruas, os pedintes crianças que fazem malabarismos para ganhar as suas diárias moedas de escárnio, os catadores de papel e plástico que vivem do lixo dos menos pobres, os sem terra que só querem plantar, os sem teto que só querem um lugar para morar sob este céu anil – enquanto as Bolsas dos mercadores do sangue brasileiro estufam nos diabólicos pregões onde se vende, diariamente, o país, ao preço do dia. Eles, os futeboleiros da seleção, são os ungidos, graça aspergida pela nação, através daqueles jornalistas somente dedicados à realidade brasileira futebolística, que tanto amor tem à pátria quando gritam o gol anestesiante, orgásmico e eufórico que a todos faz vibrar, esquecer e sonhar com aquelas chuteiras no coração do brasileiro, que as prefere ao cotidiano tiro perdido, à voz dos demagogos e politiqueiros charlatães e a este dia a dia cada vez mais transgênico e fraudado.
FAUSTO BRIGNOL
FAUSTO BRIGNOL
segunda-feira, 10 de maio de 2010
NEM 'ÓPIO DO POVO', NEM 'PÁTRIA EM CHUTEIRAS'
Então, é um bom momento para darmos uma recapitulada nos 18 Mundiais de futebol já disputados, com destaque, claro, para os cinco vencidos pelo Brasil.
É o que fiz nos sete artigos da série Recuerdos dos Mundiais, criada para o Congresso em Foco e que está disponível para publicação e/ou repasse:
* AQUI ERA O PAÍS DO FUTEBOL
* 1958: A CONQUISTA DA HONRA
* 1962: O MUNDO AO PÉ DO MANÉ
* 1970: 'APESAR DE VOCÊ', UMA CAMPANHA EXUBERANTE
* 1994: O TETRA CAUTELOSO
* 2002: FELIPÃO ROUBA A CENA
* 2010: RITO DE PASSAGEM OU MAIS DO MESMO?
Agora, inclusive, conta com os vídeos dos melhores lances das finais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, para matar as saudades.
Trata-se, sobretudo, de um olhar alternativo ao que a mídia geralmente lança sobre o futebol, aparentado com os enfoques de João Saldanha, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Alberto Helena Jr., Sócrates e mais um ou outro que ousou incursionar pelos ângulos sociológicos, políticos, econômicos, psicológicos, épicos e poéticos do esporte das massas.
Mais do que todos, entretanto, quem me mostrou o caminho das pedras foi Norman Mailer, no seu clássico sobre boxe, A Luta (1975). Aprendi com ele que se pode dizer muito sobre nossa sociedade, de forma fascinante, a partir de um grande evento esportivo.
E que, assim, podemos despertar a consciência do homem comum para aspectos que lhe passavam despercebidos, ajudando-o a compreender melhor não só um objeto de paixão, mas também o mundo no qual vive -- primeiro passo para cogitar a possibilidade de o transformar.
Tarefa da qual os elitistas e preconceituosos abdicam, ao reduzirem o futebol a um ópio do povo que não mereceria destaque nos espaços ditos engajados.
E que pode, no outro extremo, servir como antídoto ao rolo compressor da indústria cultural, que tudo faz para insuflar o espírito de pátria em chuteiras, tão vantajoso para os negócios...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
AQUI ERA O PAÍS DO FUTEBOL
olha o sambão, aqui é o país do futebol
No fundo desse país
ao longo das avenidas
nos campos de terra e grama
Brasil só é futebol ”
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
Já vão longe os tempos em que, como dizia o tema do filme Tostão, a Fera de Ouro, as ruas do Brasil ficavam vazias (como a av. Atlântica nesta foto do dia da decisão do Mundial de 1950) e os estádios lotados nas tardes de domingo.
Os motivos vão desde a violência das torcidas até a disponibilização de muitas outras opções de entretenimento, passando pelo agravamento da luta pela sobrevivência.
Mas, para aqueles que realmente amam o futebol, o principal motivo é outro: já não existe espetáculo. A tônica passou a ser muita transpiração e quase nenhuma inspiração.
Na fase de ouro do futebol brasileiro, nossos grandes craques exibiam aqui mesmo seu talento, preferindo ser bem pagos em casa do que magnificamente pagos no exterior.
Um ou outro, como Didi, se deixava seduzir pelo canto das sereias. Mas, tínhamos Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Tostão, Rivelino e outros que tais enchendo nossos olhos nas tardes de domingo.
De 1970 para cá, entretanto, o futebol foi se tornando, cada vez mais, mercadoria. E os interesses econômicos impuseram sua lógica perversa, a mesma que outrora relegava o Brasil à condição de exportador de café e importador de produtos industrializados.
Com a famigerada Lei Pelé (rendição incondicional ao maior poder de fogo dos grandes clubes estrangeiros), o Brasil hoje não consegue segurar suas revelações nem por uma temporada completa. São vendidas mal começam a desabrochar.
Então, os grandes clubes brasileiros hoje montam seus times com maioria de jogadores limitados e alguns craques veteranos que retornam do exterior após terem virado bagaços, mais os meninos saídos das categorias de base e que são colocados na vitrine para atraírem compradores.
Alguns desses bagaços ainda conseguem ter algo próximo a um canto do cisne, como o Ronaldo (que o humorista José Simão apelidou de Ronalducho...).
Mas, isto se dá apenas porque os raros lampejos de seu brilho de outrora são suficientes para os destacarem dos cabeças-de-bagre e carregadores de piano que com eles dividem a cena.
Fornecemos a matéria-prima futebolística que será processada lá fora e depois pagamos às redes estrangeiras para receber as imagens do verdadeiro futebol brasileiro: aquele que Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato jogam na Itália, Kaká e Luís Fabiano na Espanha, etc.
De quebra, fica esse péssimo exemplo dado aos brasileiros: o dinheiro compra tudo.
O penúltimo craque que se dispôs a abrir mão de uma oferta mirabolante em nome de valores mais nobres foi Sócrates, em 1984: durante um comício das diretas-já no Anhangabaú (SP), o doutor comprometeu-se publicamente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a proposta da Fiorentina e permanecer no Brasil para contribuir na redemocratização.
A infâmia dos parlamentares não só nos privou de uma saída da ditadura pela porta da frente, como encerrou a grande fase de um dos nossos supercraques e, sem dúvida, o melhor cidadão que o futebol brasileiro já projetou.
E temos o caso mais recente de Adriano, que preferiu o calor de sua gente à frieza da moeda (mas, como a história só se repete em farsa, ele já parece disposto a refazer sua opção...).
Exceções à parte, a regra é de que o homo ethicus e o homo ludicus não têm mais lugar em nossa terra arrasada. Predomina de forma avassaladora o homo economicus.
Então, teremos nossa noite de Cinderela durante a Copa, mas a carruagem vai virar abóbora logo em seguida, no Brasileirão – pois, persistindo as tendências atuais, o de 2010 será tão ruim quanto o de 2009, provavelmente o mais nivelado por baixo de todos os tempos.
Daqui a alguns meses a pátria estará novamente de chuteiras, o asfalto e calçadas com desenhos dos símbolos nacionais (alguns rebuscados, outros singelamente imperfeitos), as bandeiras tremulando nas janelas das casas e dos carros.
Mas, essas febres de sociedade consumista me assustam. Como disse o grande Raulzito, "mas que sujeito chato sou eu/ que não acha nada engraçado".
Um acontecimento, um único acontecimento, monopolizando todas as atenções durante certo período!
Como os obesos se empanturram de comida, a sociedade se empanturra de um drama qualquer. Consumo compulsivo, pantagruélico. Doentio, em suma.
Depois, sobrevém a saturação de quem absorveu uma dose cavalar de mesmice: ninguém aguenta mais falar sobre aquilo.
Só que logo surge qualquer outro episódio e deflagra o mesmo processo.
E todos são arrastados pela nova onda, como o foram por todas as anteriores e o serão pelas posteriores: zumbis do sistema.
É tudo forçado, inautêntico.
Parece-me que o homem-massa curte até aquilo de que não gosta por medo de ser colocado à parte do rebanho.
Em suma, ainda parafraseando o maluco beleza: eu acho tudo isso um saco.
Ou pior ainda, um tanto quanto perigoso. Vêm-me à lembrança aquelas grandes manifestações de culto a Hitler e Mussolini.
Mas, não é disto que quero falar, mas do antes. Pois, houve um antes:
É delas que falarei a partir da próxima semana, começando pela primeira da qual tenho remota lembrança: a Copa do Mundo de 1958.
Obs.: artigo inicial da série CELSO LUNGARETTI / RECUERDOS DOS MUNDIAIS, que começou a ser publicada neste domingo no Congresso em Foco e será sempre disponibilizada na 2ª feira para todos os que também a quiserem publicar ou repassar.
Os motivos vão desde a violência das torcidas até a disponibilização de muitas outras opções de entretenimento, passando pelo agravamento da luta pela sobrevivência.
Mas, para aqueles que realmente amam o futebol, o principal motivo é outro: já não existe espetáculo. A tônica passou a ser muita transpiração e quase nenhuma inspiração.
Na fase de ouro do futebol brasileiro, nossos grandes craques exibiam aqui mesmo seu talento, preferindo ser bem pagos em casa do que magnificamente pagos no exterior.
Um ou outro, como Didi, se deixava seduzir pelo canto das sereias. Mas, tínhamos Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Tostão, Rivelino e outros que tais enchendo nossos olhos nas tardes de domingo.
De 1970 para cá, entretanto, o futebol foi se tornando, cada vez mais, mercadoria. E os interesses econômicos impuseram sua lógica perversa, a mesma que outrora relegava o Brasil à condição de exportador de café e importador de produtos industrializados.
Com a famigerada Lei Pelé (rendição incondicional ao maior poder de fogo dos grandes clubes estrangeiros), o Brasil hoje não consegue segurar suas revelações nem por uma temporada completa. São vendidas mal começam a desabrochar.
Então, os grandes clubes brasileiros hoje montam seus times com maioria de jogadores limitados e alguns craques veteranos que retornam do exterior após terem virado bagaços, mais os meninos saídos das categorias de base e que são colocados na vitrine para atraírem compradores.
Alguns desses bagaços ainda conseguem ter algo próximo a um canto do cisne, como o Ronaldo (que o humorista José Simão apelidou de Ronalducho...).
Mas, isto se dá apenas porque os raros lampejos de seu brilho de outrora são suficientes para os destacarem dos cabeças-de-bagre e carregadores de piano que com eles dividem a cena.
Fornecemos a matéria-prima futebolística que será processada lá fora e depois pagamos às redes estrangeiras para receber as imagens do verdadeiro futebol brasileiro: aquele que Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato jogam na Itália, Kaká e Luís Fabiano na Espanha, etc.
De quebra, fica esse péssimo exemplo dado aos brasileiros: o dinheiro compra tudo.
O penúltimo craque que se dispôs a abrir mão de uma oferta mirabolante em nome de valores mais nobres foi Sócrates, em 1984: durante um comício das diretas-já no Anhangabaú (SP), o doutor comprometeu-se publicamente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a proposta da Fiorentina e permanecer no Brasil para contribuir na redemocratização.
A infâmia dos parlamentares não só nos privou de uma saída da ditadura pela porta da frente, como encerrou a grande fase de um dos nossos supercraques e, sem dúvida, o melhor cidadão que o futebol brasileiro já projetou.
E temos o caso mais recente de Adriano, que preferiu o calor de sua gente à frieza da moeda (mas, como a história só se repete em farsa, ele já parece disposto a refazer sua opção...).
Exceções à parte, a regra é de que o homo ethicus e o homo ludicus não têm mais lugar em nossa terra arrasada. Predomina de forma avassaladora o homo economicus.
Então, teremos nossa noite de Cinderela durante a Copa, mas a carruagem vai virar abóbora logo em seguida, no Brasileirão – pois, persistindo as tendências atuais, o de 2010 será tão ruim quanto o de 2009, provavelmente o mais nivelado por baixo de todos os tempos.
LEVEZA ARTÍSTICA x CARRANCA BELICOSA
Daqui a alguns meses a pátria estará novamente de chuteiras, o asfalto e calçadas com desenhos dos símbolos nacionais (alguns rebuscados, outros singelamente imperfeitos), as bandeiras tremulando nas janelas das casas e dos carros.
Mas, essas febres de sociedade consumista me assustam. Como disse o grande Raulzito, "mas que sujeito chato sou eu/ que não acha nada engraçado".
Um acontecimento, um único acontecimento, monopolizando todas as atenções durante certo período!
Como os obesos se empanturram de comida, a sociedade se empanturra de um drama qualquer. Consumo compulsivo, pantagruélico. Doentio, em suma.
Depois, sobrevém a saturação de quem absorveu uma dose cavalar de mesmice: ninguém aguenta mais falar sobre aquilo.
Só que logo surge qualquer outro episódio e deflagra o mesmo processo.
E todos são arrastados pela nova onda, como o foram por todas as anteriores e o serão pelas posteriores: zumbis do sistema.
É tudo forçado, inautêntico.
Parece-me que o homem-massa curte até aquilo de que não gosta por medo de ser colocado à parte do rebanho.
Em suma, ainda parafraseando o maluco beleza: eu acho tudo isso um saco.
Ou pior ainda, um tanto quanto perigoso. Vêm-me à lembrança aquelas grandes manifestações de culto a Hitler e Mussolini.
Mas, não é disto que quero falar, mas do antes. Pois, houve um antes:
- antes que sobreviessem a padronização, a domesticação e a banalização;
- antes que o capitalismo transformasse ouro em excremento, como faz com tudo;
- antes que os esquemas rígidos restringissem a fantasia e a criatividade do futebol;
- antes que a competitividade substituísse a leveza artística pela carranca belicosa;
- antes que os torcedores virassem meros coadjuvantes do espetáculo que passou a priorizar telespectadores, marketing e merchandising...
É delas que falarei a partir da próxima semana, começando pela primeira da qual tenho remota lembrança: a Copa do Mundo de 1958.
Obs.: artigo inicial da série CELSO LUNGARETTI / RECUERDOS DOS MUNDIAIS, que começou a ser publicada neste domingo no Congresso em Foco e será sempre disponibilizada na 2ª feira para todos os que também a quiserem publicar ou repassar.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
APLAUSOS INFINITOS
não, não, não,
eu não gosto de Carnaval oficial,
com cordões de isolamento...não!!!
não sou Corinthiana,nem torço pra futebol!
o que sei é que aplausos verdadeiros
não são coisa fácil!!
e fácil também não foi resolver tentar escrever
o que senti com esta foto...
QUE FOTO?
QUE CARNAVAL?
QUE CORINTHIANS?
QUE SAMBÓDROMO?
QUE DESFILE?
AQUI VEJO OUTRAS COISAS!
ou...OUTRA COISA!
fico perplexa,atônita,muda mesmo!
recobrei a fala só hoje,
dois dias depois...
e só quero saber agora
quem clicou a foto,
....e quem é este ser,
que junto com São Jorge e o Brasil
fez-me ver inimagináveis
estrelas de minha terra!
Nadia Stabile - 16/02/10
(aplausos para o autor da foto e mais aplausos
a foto...e mais aplausos aos fotografados e....)
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
AQUI É O PAÍS DO FUTEBOL
olha o sambão, aqui é o país do futebol"
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
Nesta época em que quase nada acontece de realmente importante, a mídia continua necessitando preencher seus espaços. Qualquer coisa serve, até pelada de ex-jogadores de futebol.
Leio que o Time do Zico enfrentou os Amigos do Zico, em pleno Maracanã (!). O jogo terminou em 5x5 e o ex-Galinho de Quintino foi o artilheiro, com três gols, apesar dos seus 56 anos bem vividos.
Não dá pra saber se marcou mesmo esses tentos ou deixaram que os marcasse.
Quando Garrincha, acabado e gordo, atravessava terríveis dificuldades financeiras, armaram uma partida em sua homenagem, para prover-lhe uma graninha. Foi em 1973.
O grande Mané, um dos mais desconcertantes craques que o futebol brasileiro já produziu, dava até pena. Tropeçando nas pernas, foi incapaz de fazer o gol que os zagueiros adversários facilitavam até dar na vista.
Os cariocas, que compareceram em massa para se despedir do ídolo, não viram canto do cisne, só melancólica decadência. Mesmo assim aplaudiram sem parar, como bons brasileiros cordiais.
Mas, voltemos ao Zico.
Embora acompanhasse o futebol desde menino, tive poucas oportunidades de escrever sobre meu esporte favorito no batente diário de jornalista.
Uma vez foi às vésperas do Mundial de 1990. Fiz, para revistas de variedades, uma matéria com veteranos de Copas passadas dando seus testemunhos.
O trabalho foi facilitado pela participação de dois dos entrevistados na Seleção de Masters do Luciano do Valle. Então, numa manhã de domingo, consegui falar com o Zico e o Rivelino, que estavam hospedados com a delegação no hotel Transamérica (SP).
O galinho tomava sol à beira da piscina, com seu filho de uns oito anos. Causou-me ótima impressão.
Depois de tanto entrevistar políticos, artistas, personalidades e celebridades, era uma lufada de ar fresco falar com quem não mostrava empenho em me manipular, respondia com sinceridade, não esticava o papo nem me puxava o saco.
[O mais repulsivo entrevistado com quem me deparei foi o sindicalista Antonio Rogério Magri, ainda antes que se tornasse ministro do Trabalho do Collor. Ele fizera um curso de relações públicas nos EUA e o seguia à risca. Assim que me viu, garantiu ter certeza de já nos havermos cruzado antes. Só que eu também tinha certeza... de que nunca o vira mais gordo!]
Faz muito tempo e eu só me lembro do que o Zico me contou sobre a fatídica derrota na disputa em pênaltis com a França, no Mundial anterior.
Depois de haver desperdiçado uma penalidade máxima durante a partida, ele aceitou a responsabilidade de ser um dos cinco brasileiros que decidiriam a vaga. E não negou fogo. "Tive moral para dar a volta por cima e cumprir o meu papel", comentou.
Mas, indaguei, por que a última cobrança ficou para o zagueiro Júlio César (que chutou na trave) e não para um atacante, especialista no ofício?
O Zico confessou que havia um atacante escalado, mas "pipocou na hora H". Dignamente, não quis dar nome aos bois. [Por exclusão, seria o Careca...]
Quanto ao que eu conversei dessa vez com o Rivelino, esqueci completamente. Mas, a ele eu já havia entrevistado antes, para a revista Playmen (projeto fracassado de revista masculina chique feita por editora pobre). E este, sim, foi um trabalho inesquecível.
Era lá por 1980 e ele estava em férias no Brasil, depois de duas temporadas no El Helai, da Arábia Saudita. Conversamos longamente no seu posto de gasolina do Brooklin (SP).
Falou muita coisa sobre a vida naquela país exótico:
Leio que o Time do Zico enfrentou os Amigos do Zico, em pleno Maracanã (!). O jogo terminou em 5x5 e o ex-Galinho de Quintino foi o artilheiro, com três gols, apesar dos seus 56 anos bem vividos.
Não dá pra saber se marcou mesmo esses tentos ou deixaram que os marcasse.
Quando Garrincha, acabado e gordo, atravessava terríveis dificuldades financeiras, armaram uma partida em sua homenagem, para prover-lhe uma graninha. Foi em 1973.
O grande Mané, um dos mais desconcertantes craques que o futebol brasileiro já produziu, dava até pena. Tropeçando nas pernas, foi incapaz de fazer o gol que os zagueiros adversários facilitavam até dar na vista.
Os cariocas, que compareceram em massa para se despedir do ídolo, não viram canto do cisne, só melancólica decadência. Mesmo assim aplaudiram sem parar, como bons brasileiros cordiais.
Mas, voltemos ao Zico.
Embora acompanhasse o futebol desde menino, tive poucas oportunidades de escrever sobre meu esporte favorito no batente diário de jornalista.
Uma vez foi às vésperas do Mundial de 1990. Fiz, para revistas de variedades, uma matéria com veteranos de Copas passadas dando seus testemunhos.
O trabalho foi facilitado pela participação de dois dos entrevistados na Seleção de Masters do Luciano do Valle. Então, numa manhã de domingo, consegui falar com o Zico e o Rivelino, que estavam hospedados com a delegação no hotel Transamérica (SP).
O galinho tomava sol à beira da piscina, com seu filho de uns oito anos. Causou-me ótima impressão.
Depois de tanto entrevistar políticos, artistas, personalidades e celebridades, era uma lufada de ar fresco falar com quem não mostrava empenho em me manipular, respondia com sinceridade, não esticava o papo nem me puxava o saco.
[O mais repulsivo entrevistado com quem me deparei foi o sindicalista Antonio Rogério Magri, ainda antes que se tornasse ministro do Trabalho do Collor. Ele fizera um curso de relações públicas nos EUA e o seguia à risca. Assim que me viu, garantiu ter certeza de já nos havermos cruzado antes. Só que eu também tinha certeza... de que nunca o vira mais gordo!]
Faz muito tempo e eu só me lembro do que o Zico me contou sobre a fatídica derrota na disputa em pênaltis com a França, no Mundial anterior.
Depois de haver desperdiçado uma penalidade máxima durante a partida, ele aceitou a responsabilidade de ser um dos cinco brasileiros que decidiriam a vaga. E não negou fogo. "Tive moral para dar a volta por cima e cumprir o meu papel", comentou.
Mas, indaguei, por que a última cobrança ficou para o zagueiro Júlio César (que chutou na trave) e não para um atacante, especialista no ofício?
O Zico confessou que havia um atacante escalado, mas "pipocou na hora H". Dignamente, não quis dar nome aos bois. [Por exclusão, seria o Careca...]
O PRÍNCIPE E O PLEBEU
Quanto ao que eu conversei dessa vez com o Rivelino, esqueci completamente. Mas, a ele eu já havia entrevistado antes, para a revista Playmen (projeto fracassado de revista masculina chique feita por editora pobre). E este, sim, foi um trabalho inesquecível.
Era lá por 1980 e ele estava em férias no Brasil, depois de duas temporadas no El Helai, da Arábia Saudita. Conversamos longamente no seu posto de gasolina do Brooklin (SP).
Falou muita coisa sobre a vida naquela país exótico:
- que podia deixar o carrão aberto e com a chave no contato, pois ninguém roubava (se o fizesse, teria as mãos decepadas...);
- que não podia receber fitas VHS dos filmes escandalosos da época, mas os assistia... com o próprio príncipe, a quem a restrição, claro, não atingia;
- que era uma vida das mais tediosas e, vez por outra, os jogadores brasileiros armavam uma feijoada para espairecer, com caipirinha e tudo (mas, ai deles se consumissem álcool em público!).
Saí de lá com a impressão de que ele não aguentava mais o sufocante moralismo medieval. Ainda não se decidira a atravessar o Rubicão, mas parecia um condenado pesando os prós e contras de voltar para a prisão, após o Natal com a família.
Dito e feito. Duas semanas depois, recusou-se a cumprir até o fim seu contrato.
O príncipe, altaneiro e rancoroso, não exigiu compensação financeira nem aceitou propostas de clubes brasileiros por seu passe. Decretou apenas que o Rivelino, então com 35 anos, nunca mais jogaria futebol profissionalmente.
Vai daí que só lhe acabaria restando, como tardio prêmio de consolação, a trupe do Luciano do Valle.
Tão inteligente quanto ele nos gramados, só mesmo o Johan Cruyff holandês. E eu tenho especial admiração pelos maestros que ditam o ritmo e pensam pela equipe inteira.
Além dos três títulos estaduais a que conduziu o Corinthians (em 1983, principalmente, carregou o time nas costas) e da autoria de algumas das jogadas mais belas que vi na vida, deve-se ao Sócrates a incrível iniciativa de unir o grupo para a tomada de decisões que afetavam seus interesses, contrapondo-se à obtusidade dos cartolas. A democracia corinthiana foi uma experiência belíssima.
E, nesse esporte tão distorcido pela ganância extremada que passou a imperar nas últimas décadas, até um Adriano merece ser aclamado por trocar o vil metal pela satisfação de morar no Rio de Janeiro, fevereiro e março, que continua lindo e tem um povo caloroso como nenhum.
Maior ainda foi Sócrates, que se comprometeu publicamente (meninos, eu vi!), diante de um milhão de manifestantes das diretas-já, no Vale do Anhangabaú: "Se a Emenda Dante de Oliveira for aprovada, eu recusarei a proposta da Fiorentina. Ficarei para dar minha contribuição pessoal à redemocratização do Brasil!".
Nem de longe um magnata futebolístico, ele estava disposto a abrir mão de uma grana imensa em nome de suas convicções.
Mas, parlamentares canalhas ficaram insensíveis à vontade do povo. E me deixaram duplamente frustrado, como cidadão e como corinthiano...
Dito e feito. Duas semanas depois, recusou-se a cumprir até o fim seu contrato.
O príncipe, altaneiro e rancoroso, não exigiu compensação financeira nem aceitou propostas de clubes brasileiros por seu passe. Decretou apenas que o Rivelino, então com 35 anos, nunca mais jogaria futebol profissionalmente.
Vai daí que só lhe acabaria restando, como tardio prêmio de consolação, a trupe do Luciano do Valle.
A MAIOR LIÇÃO DO DOUTOR
Quanto ao jogador que eu mais gostaria de haver entrevistado, nunca rolou: o Sócrates.Tão inteligente quanto ele nos gramados, só mesmo o Johan Cruyff holandês. E eu tenho especial admiração pelos maestros que ditam o ritmo e pensam pela equipe inteira.
Além dos três títulos estaduais a que conduziu o Corinthians (em 1983, principalmente, carregou o time nas costas) e da autoria de algumas das jogadas mais belas que vi na vida, deve-se ao Sócrates a incrível iniciativa de unir o grupo para a tomada de decisões que afetavam seus interesses, contrapondo-se à obtusidade dos cartolas. A democracia corinthiana foi uma experiência belíssima.
E, nesse esporte tão distorcido pela ganância extremada que passou a imperar nas últimas décadas, até um Adriano merece ser aclamado por trocar o vil metal pela satisfação de morar no Rio de Janeiro, fevereiro e março, que continua lindo e tem um povo caloroso como nenhum.
Maior ainda foi Sócrates, que se comprometeu publicamente (meninos, eu vi!), diante de um milhão de manifestantes das diretas-já, no Vale do Anhangabaú: "Se a Emenda Dante de Oliveira for aprovada, eu recusarei a proposta da Fiorentina. Ficarei para dar minha contribuição pessoal à redemocratização do Brasil!".
Nem de longe um magnata futebolístico, ele estava disposto a abrir mão de uma grana imensa em nome de suas convicções.
Mas, parlamentares canalhas ficaram insensíveis à vontade do povo. E me deixaram duplamente frustrado, como cidadão e como corinthiano...
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