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sábado, 2 de janeiro de 2010

TAGARELA, ATARANTADO, TARANTINO - VOL. 2

Glauber Rocha tinha "uma idéia na cabeça e uma câmara na mão". Tarantino, só a câmara...

No último mês de abril, em dia tão sem notícias impactantes como hoje, escrevi sobre meus recuerdos da fase em que tentara estabelecer-me como crítico de cinema: O crítico acidental.

Foi entre 1979 e 1984. Há exatos 25 anos, a crise do papel expulsou-me das pequenas editoras em que conseguia garantir meu sustento sem fazer tantas concessões ao sistema.

Ou seja, o preço do papel subiu muito e a editora na qual eu trabalhava fixo precisou extinguir metade das revistas sob meu comando.

Com as restantes eu não conseguiria pagar minhas contas. E os frilas também estavam escasseando, naquela fase de vacas magras.

Então, tive de dar uma guinada de 180º na minha carreira, deixando de fazer o que gostava para fazer o que remunerava (razoavelmente). No caso, jornalismo econômico, que sempre me causou urticária...

Vez por outra, continuava publicando uma ou outra crítica por aí.

E me lembro de que em 1994, quando Quentin Tarantino virou o xodó dos novos bárbaros que posavam de críticos na grande imprensa, escrevi o que deveria ser escrito sobre ele.

Tagarela, atarantado, Tarantino foi o título. O Jornal da Tarde (SP) aproveitou, mas num espaço para crônicas, que eu esporadicamente frequentava.

O motivo foi o filme que ergueu a carreira até então medíocre de Tarantino e reergueu a de John Travolta: Pulp Fiction.

Simplesmente detestei que, pretextando homenagear as velhas e boas novelas policiais do passado, ele as apresentasse como o que não eram. David Goodis ficaria horrorizado.

Seus gangstêres falavam mais palavras numa única sequência do que os gangstêres da verdadeira pulp fiction no livro inteiro. Era um blablablá interminável, que me deixou com a bunda doendo: não encontrava posição na poltrona do cinema que me satisfizesse, tal o desagrado que me causaram os 154 minutos desse filme não havia nem sequer 90' aproveitáveis.

Fã de carteirinha dos policiais franceses das décadas de 1960 e 1970, dirigidos por cineastas de verdade como Robert Enrico e René Clement, detestei a abordagem espalhafatosa e intelectualóide de Tarantino.

A graça do gênero estava em ser lacônico, seco, despojado. E, nas mãos de um Jose Giovanni, p. ex., não dar a mínima para juízos de ordem moral.

FRANCESES DESCARTAVAM
MANIQUEÍSMO HOLLYWOODESCO

Ou seja, o cinema estadunidense sempre apresentara as histórias de gangstêres sob ótica puritana e maniqueísta. As forças da ordem enfrentando os agentes da desordem. No final, o gângster morre e os videotas têm sua ansiada catarse (agora é o terrorista quem morre, na tralha hollywoodesca típica).

Já os melhores policiais franceses (como os muitos derivados das novelas de Giovanni, que ele próprio adaptou para o cinema) interessavam-se apenas em esmiuçar as características dos dois tipos de profissionais que se opunham.

Desde o antológico O Samurai (1968), de Jean-Pierre Melville, esta passou a ser a tônica: o gângster não como uma aberração (os mad dogs do cinema estadunidense), mas como um ser humano com defeitos e também virtudes, só que dedicado a um ofício diferente.

Cinema não é púlpito, para nos impingir sermões. Deve contar histórias e nos deixar as conclusões, ao invés de embutí-las no viés adotado.

O atarantado Tarantino, no fundo, foi aclamado pelos pseudocríticos de uma época que baniu o pensamento crítico. Como o conteúdo dos seus filmes era raso como uma poça d'água, sobressaía mesmo a embalagem extravagante, copiadas dos mestres.

O que são os dois Kill Bill, se não uma mistura indigesta dos westerns de Sergio Leone com as fitas de artes marciais estreladas por Bruce Lee?

Pior: seus duelos coreografados não têm uma centelha sequer do gênio de Bruce Lee, e o visual chupado de Leone nos deixa saudades das reflexões que o mestre italiano embutia em seus filmes de ação.

A grandeza de Leone reside em ter conseguido realizar fitas atraentes para o grande público, mas que falavam muito mais aos que conseguiam fazer uma leitura mais aprofundada.

Assim, Três Homens em Conflito é um verdadeiro líbelo contra as guerras, Era Uma Vez o Oeste disseca magnificamente a relação entre mito e realidade, Quando Explode a Vingança nos ensina muito sobre as revoluções e Era Uma Vez na América se constitui numa das mais grandiosas abordagens cinematográficas da transição da sociedade aventureiresca da primeira metade do século passado para o subsequente primado insípido das grandes organizações.

Tarantino me faz lembrar uma ótima frase do Paulo Francis: você olha para um ator francês como o Philippe Noiret e vê toda uma civilização atrás dele, mas se você olha para um ator estadunidense típico, nada vislumbra além do vazio.

Sérgio Leone desenvolveu uma forma caprichadíssima, com ênfase no aproveitamento impecável das músicas de Ennio Morricone, para atrair os espectadores e tentar motivá-los a refletirem sobre temas importantes.

Tarantino copiou essa forma caprichadíssima, inclusive usando e abusando dos mesmíssimos temas de Morricone, apenas para agregar a si próprio uma aura de sofisticação. Atrás de um Pulp Fiction e de um Kill Bill nada há além do vazio.

UMA ANTI-DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS


Pior, muito pior, é seu recente Bastardos Inglórios. Trata-se de um filme que faz apologia de bestialidades a um nível que Tropa de Elite nem chega perto.

Apresenta como justificáveis os assassinatos mais cruéis e o escalpelamento das vítimas, desde que estas sejam nazistas. Direitos humanos só existem para as pessoas, com as não-pessoas tudo é permitido.

Enganam-se os que relevam a desumanidade intrínseca do filme por considerá-lo apenas uma farsa (afinal, os acontecimentos históricos são deturpados a ponto de Tarantino dar a Hitler uma morte diferente da que ele teve).

Esta lavagem cerebral hollywoodesca vem de longe e intensificou-se ao máximo após o atentado contra o WTC. Quer incutir em cada videota do planeta a noção de que vale tudo para defender a sociedade dos seus descontentes. É a anti-Declaração dos Direitos Humanos.

Ao engajar-se nessa empreitada fascistóide, Tarantino reafirmou uma velha verdade: o vazio acaba sempre sendo preenchido pela força dominante.

Então, ele está agora ecoando a ideologia do capitalismo em sua fase de putrefação, quando não tem mais valores positivos a oferecer e só tenta manter os cidadãos apavorados diante da mera possibilidade de alteração do status quo, de maneira que não se dêem conta do quanto o status quo é irracional e injusto.

Ao constatar que a mediocríssima crítica cinematográfica atual aclamou em uníssono um filme tão nocivo e desumano quanto Bastardos Inglórios, pude dimensionar para onde a indústria cultural nos está levando, como vanguarda do retrocesso que sucedeu as jornadas gloriosas de 1968: para vários séculos atrás na história da civilização, cancelando até o Iluminismo.

O horror, o horror!

domingo, 14 de junho de 2009

DAVID CARRADINE (1936-2009)

Foram tão deprimentes as circunstâncias da morte de David Carradine que só agora eu me sinto em condições de escrever algo sobre ele.

Ao tomar conhecimento de que a causa mortis seria, segundo a polícia tailandesa, uma prática autoerótica malsucedida, dois pensamentos me ocorreram.

Lembrei-me do caso do gerente de uma grande empresa que, já próximo da aposentadoria, caiu em desgraça: tiraram-lhe a autonomia, colocando-o sob as ordens de um chato de galochas. A decepção foi tamanha que, transando com a amante dias depois, foi fulminado por um ataque cardíaco.

Isto aconteceu no horário de expediente. A fulana teve o bom senso de avisar primeiramente os colegas de serviço dele. E estes, o despreendimento de vestirem o defunto e transportá-lo do prédio onde morreu (próximo) até o estacionamento da sua empresa, para que lá fosse encontrado.

Arriscaram-se a ter sérios contratempos com as autoridades, mas salvaram as aparências, poupando a esposa e filhos do pobre coitado de um vexame que tornaria ainda mais amargo o momento.

Pena que nenhum bom samaritano haja evitado o dano póstumo à reputação de David. Por que os malditos policiais tailandeses não tiveram, pelo menos, o profissionalismo de esperar a conclusão do inquérito, antes de darem com a língua nos dentes?!

Também me ocorreu que as mortes de Bruce Lee e do seu filho Brandon foram igualmente esquisitas. Fatalidades bizarras atingirem três atores ligados a filmes de kung-fu é coincidência demais. Eu não descartaria a hipótese de assassinato e armação de cenário. A família de David manifestou a mesma desconfiança.

Mas, falemos do ator, que é o que realmente importa.

David era filho de John Carradine, canastrão de filmes classe B, principalmente os de terror. Entre fitas de cinema e seriados para TV, John tem registrada 340 atuações, ao longo de 57 anos, no site especializado IMDB.

Além disso, John conseguiu encaixar seus filhos na profissão: David e Keith tiveram carreiras mais marcantes, Robert sempre foi um coadjuvante muito requisitado.

Isto, aliás, ajudou o diretor Walter Hill a viabilizar uma idéia pitoresca: utilizar atores que eram irmãos na vida real para personificarem os manos integrantes do bando de Jesse James, em Cavalgada de Proscritos (1980).

Assim, David, Keith e Robert interpretaram os Youngers Brothers, enquanto James Keach foi Jesse James e Stacy Keach, Frank James. Dos cinco, o mais marcante foi mesmo David, como Cole Younger. Tinha carisma.

Ele estreou como ator em 1963, nos seriados de TV, mas sua carreira só decolou mesmo ao interpretar o gafanhoto Kwai Chang Kane nos 46 episódios da série Kung Fu, entre 1972 e 1975 (depois, de 1993 a 1997, reassumiria o personagem, com idade mais avançada, nos 83 episódios de Kung Fu - A Lenda Continua).

A sorte favoreceu David, pois quem deu a idéia inicial para essa série foi Bruce Lee, acreditando que ela o catapultaria para o estrelato, depois de ter despontado bem no seriado O Besouro Verde (como Kato, o empregado do herói).

O estúdio, entretanto, não quis colocar um verdadeiro oriental como protagonista, preferindo repuxar os olhos de Carradine e alisar-lhe o cabelo para fazê-lo passar-se por chinês. Foi uma reprise do caso de O Cantor de Jazz (1927), primeiro filme falado, no qual o branquelo Al Jolson passou graxa na cara para ficar parecendo um cantor negro.

O êxito na telinha alavancou a carreira de David na telona. Pouco antes do lançamento de Kung Fu, passara despercebida sua boa atuação em Sexy e Marginal, dirigido por Martin Scorcese (1972). Foi, aliás, um filme em que teve a oportunidade de atuar ao lado do pai.

Surfando nas águas do sucesso televisivo, destacou-me muito mais como o protagonista do trash Ano 2000 - Corrida da Morte (d. Paul Bartel, 1975), incomparavelmente pior.

SEU GRANDE PERSONAGEM: WOODY GUTHRIE

Seu apogeu viria logo a seguir: compôs um Woody Guthrie inesquecível em Esta Terra É Minha Terra (d. Hal Ashby, 1976).

É um dos três principais papéis de sua carreira, favorecido por ser Guthrie (o inspirador de Bob Dylan) um magnífico personagem: trata-se do cantor/compositor folk que percorria o país como vagabundo na época da Grande Depressão, viajando no teto dos trens (foto acima), apresentando-se nos acampamentos de desempregados e estimulando a sindicalização dos trabalhadores.

David também dirigia. Americana, um filme que começou a fazer em 1973 e só conseguiu finalizar dez anos depois, é surpreendentemente bom, apesar da precariedade da produção e de os demais atores quase nada acrescentarem (o esquema foi caseiro, David recebeu uma força dos parentes e amigos envolvidos com o cinema).

Outra de suas performances superlativas foi num filme menor de Ingmar Bergman, O Ovo da Serpente (1978). Os críticos pernósticos empinaram o nariz, não admitindo que o astro de Kung Fu profanasse o templo da grande arte...

Na verdade, Carradine se mostrou muito mais inspirado como ator do que o celebrado Bergman como diretor: o filme começa muito bem, flagrando a prostração reinante na Alemanha durante a hiperinflação da década de 20, mas depois desanda, ao colocar extemporaneamente um experimento com cobaias humanas como trailer do nazismo (isto só aconteceria bem depois da época em que transcorre a ação) .

Finalmente, ele teve superlativo desempenho no cult O Círculo de Ferro (d. Richard Moore, 1978), um projeto memorável em todos os sentidos: foi uma homenagem póstuma a Bruce Lee.

Dois roteiristas deram forma a uma idéia que o dragão chinês esboçara: uma jornada do conhecimento, cumprida por um praticante de artes marciais, servindo para apresentar ao público ocidental as linhas-mestras do zen-budismo. É um filme belíssimo, com David assumindo quatro personagens distintos.

O estereótipo dos filmes de ação, entretanto, acabou prevalecendo sobre as qualidades que ele mostrara em alguns papéis dramáticos. E nada mais fez de realmente bom, embora nunca parasse de trabalhar (superou a marca de 300 atuações, a maioria, claro, na TV).

Discordo dos que aclamaram sua performance no Kill Bill Vol. 2 (d. Quentin Tarantino, 2004) como um renascer das cinzas. Esteve mais para uma caricatura dos seus personagens anteriores, com uma artificialidade até constrangedora.

Foi impressionante apenas como símbolo, já que sua morte na tela nos tocou como se fosse a saída de cena do último titã e o apagar das luzes de uma época em que éramos bem mais inocentes e esperançosos. Ninguém mais acredita que um monge de Shao-Lin possa sozinho sanar os males da sociedade... infelizmente.

E é por essa grandeza simbólica, além dos lampejos de grande ator, que lhe desejávamos um the end mais apropriado. Os deuses foram cruéis com ele.

POR CELSO LUNGARETTI
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