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domingo, 11 de setembro de 2011

O MEA CULPA DA 'FOLHA'

Por Celso Lungaretti

Alvíssaras! Finalmente a Folha de S. Paulo não só admite haver cometido erros numa matéria em que assumiu postura de direita contra a esquerda, como reconhece que tais erros decorreram de se haver alinhado com a primeira, ao invés de manter isenção e equidistância nos seus espaços informativos.

Acionada pela mensagem que lhe encaminhei, a ombudsman Suzana Singer ouviu os envolvidos na efetivação da entrevista de Cesare Battisti que foi publicada pela Folha no domingo passado (4): o próprio; o sindicalista Magno de Carvalho, que o estava abrigando; e o repórter João Carlos Magalhães.

Ela inocentou o repórter, mas condenou "a mão pesada da edição", ou seja, a foto e a legenda estampados na capa, mais o título dado no caderno interno. Eis sua avaliação:
"A reportagem está correta, mas a mão pesada da edição estragou o resultado. O corte dado à foto original amplia o entrevistado e a sua cerveja, fazendo com que a risada, ao lado do 'la dolce vita clandestina' [sarcasmo expresso na legenda], soe como um deboche.

O texto não suporta esse título: ele mora em uma casa modesta, vive quase sem dinheiro, isolado, com medos persecutórios. Sua vida só é doce para os que acreditam que Battisti deveria estar na prisão.

Na página interna, aparece outra foto dele bebendo, desta vez uma cachaça. Redundante, só faria sentido se houvesse algum indício de alcoolismo, o que não é o caso.
 O título -'Revolução? Isso é uma piada'- omite a palavra 'armada', o que passa a impressão de que ele desistiu de qualquer luta social. Como diz Battisti, ele ficou mal com a 'direita' e com a 'esquerda'.
Em dez editoriais, ao longo de dois anos, a Folha defendeu duramente a extradição...

Nenhum problema nisso. O jornal deve defender suas posições no espaço correto. Só não pode deixar que a opinião contamine o noticiário, como aconteceu no domingo".
Trocado em miúdos, a opinião do jornal da ditabranda  sempre foi contrária ao antigo militante revolucionário (como o é em relação a todos os revolucionários, antigos e atuais...), mas as boas práticas jornalísticas exigiam que tal viés não impregnasse a informação.

Isto, entretanto, não ocorreu. A edição foi tendenciosa, procurando passar a pior imagem possível de Battisti na capa do matutino, vista por um número muito maior de pessoas do que as páginas internas, pois fica exposta nos pontos de venda; e no título da reportagem, que também é lido por mais pessoas do que o texto.

Quem compra um jornal, folheia-o para saber o que cada página contém, mas só lê os assuntos que realmente lhe interessam. Ora, passando os olhos pela reportagem sobre Battisti, sem mergulhar no texto, o leitor ficaria com as seguintes impressões: é um debochado que está sempre enchendo a cara, leva uma  dolce vita  no Brasil e renega a revolução que dizia defender. 

Ou seja, reforça a caricatura que linchadores como Mino Carta dele esboçaram e tudo fizeram para impingir ao distinto público.

Foi uma reveladora lição de como jornais e jornalistas inescrupulosos plantam conceitos na cabeça dos incautos.

ESPIÕES E REPÓRTERES

Quanto às justificativa da ombudsman para outros desvios de conduta do jornal, não convencem. Usar uma relação familiar para obter entrevista, insinuando-se junto ao entrevistado como amigo e não como profissional, é procedimento de espião, não de repórter.

Para Suzana Singer, "tanto faz de quem foi a idéia" da ida de Battisti a um boteco para a tomada de imagens. Mas, tendo sido ele levado a crer que o jornalista, afiançado pelo tio, não pretendia  sacaneá-lo (é a expressão cabível), deu sua colaboração por cortesia. Battisti é afável por natureza.

Ou seja, colocou-se ingenuamente numa posição ridícula e que em outras circunstâncias não assumiria, graças a um ardil do repórter. Tanto faz?

Na troca de e-mails com a ombudsman, pedi-lhe que apurasse um pequeno mas revelador detalhe: quem pagou a conta? Sabendo das dificuldades financeiras de Battisti, a ponto de abreviar conversas telefônicas para não gastar muitos créditos do seu cartão, eu tinha certeza de que se constataria o óbvio: quem convida, paga. Tanto faz?

Quanto à leviandade do jornal, ao espalhar pelo mundo o nome da região em que Battisti residia, foi simplesmente grotesca. Havia o compromisso de não o fazer, imposto a todos os entrevistadores. Duas revistas honraram a palavra empenhada. A Folha, não. Eis a explicação de Suzana Singer:
"O sigilo a respeito da cidade onde ele vive foi, de fato, quebrado, mas, dois dias antes da publicação, o repórter consultou o dirigente sindical Magno de Carvalho, o dono da casa onde Battisti está. A informação havia vazado na internet e Carvalho concordou que não havia mais segredo a preservar".
O vazamento se deu, na verdade, em jornais da região, não na internet. E a informação dificilmente chegaria à Itália, de onde podem ser despachados os assassinos -- afinal, foi o que o serviço secreto daquele país já tentou fazer uma vez, quando andou negociando com mercenários o sequestro ou eliminação de três alvos em território estrangeiro (ele e outros dois, conforme noticiado pela própria imprensa italiana).

Trombeteado pelo dito  maior jornal do Brasil, agora, com certeza, o nome da cidade é do pleno conhecimento dos inimigos de Battisti. Foi mais um abuso de confiança do repórter, aproveitando-se da boa fé do tio para dele arrancar um álibi que, sabia, seria útil adiante.

Notem: João Carlos Magalhães não consultou aquele que seria o maior prejudicado por sua indiscrição, Battisti. Por que será?

Ou, como diria Suzana Singer,  tanto faz...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FOLHA DE S. PAULO = MACARTISMO À BRASILEIRA


Leitores mandaram cartas à redação, articulistas espalharam textos na internet e a Folha de S. Paulo, como sempre, não deu a mínima: foi este o saldo da mais recente aparição do comandante de um dos piores centros de tortura dos anos de chumbo nas páginas do autoproclamado maior jornal brasileiro.

Sem que Carlos Alberto Brilhante Ustra tivesse sido sequer citado no artigo de Pérsio Arida que a Piauí publicou, a Folha, generosamente, disponibilizou seu espaço de Opinião para que ele apresentasse uma refutação que deveria, isto sim, ter encaminhado à própria revista.

A ombudsman Suzana Singer ainda saiu-se com esta:
"Para a decepção de muitos, defendo a iniciativa, condizente com o pluralismo expresso no projeto editorial da Folha, de dar visibilidade à versão do ex-comandante do DOI-Codi, mesmo sabendo-se que funcionava ali uma central de tortura.

E tendo consciência também que, se estivéssemos nos anos 70, ele não defenderia o meu direito de expressão. Na ditadura, vozes dissonantes eram caladas. Censurar é sempre a pior saída".
Quem se der ao trabalho de ler este artigo aqui, constatará que a carapuça serve perfeitamente para a própria ombudsman, que não defendeu meu direito de expressão e permitiu que minha voz dissonante fosse calada pelo jornal da  ditabranda, num episódio em que eu tinha carradas de razão, ao exigir espaço para responder à forma pejorativa como a Folha se referiu, em editoral, aos defensores de Cesare Battisti, deles traçando um perfil  que correspondia ao meu e ao de pouquíssimos ex-resistentes mais (nem meia dúzia).

Ou seja, a Folha tomou as dores de um indivíduo que foi declarado torturador pela Justiça brasileira, mas tem negado sistematica e arbitrariamente direito de resposta a quem a União e o governo paulista reconheceram como torturado e vítima da ditadura.

Talvez faça uma tímida autocrítica daqui a quatro décadas, quando eu  estiver morto. Foi o tempo que levou para admitir sua cumplicidade com a repressão nos  anos de chumbo.

Concordo com a Singer: censurar é sempre a pior saída. Vai daí que minha credibilidade cresce cada vez mais no território livre da internet, tanto quanto a da Folha despenca no terreno estreitamente vigiado da indústria cultural.

Afirmo com todas as letras: venho sendo há anos discriminado como jornalista e como cidadão pela Folha, que adota, em relação a mim, postura semelhante à do macartismo estadunidense dos anos 50, com suas famosas listas negras.

Todos sabem como a caça às bruxas de Joseph McCarthy e Richard Nixon terminou.

Todos sabem como a da Folha terminará: com a credibilidade em cacos, descendo a ladeira ao lado da Veja, que, antes de se tornar um house organ da extrema-direita, chegou -- pasmem! -- a ser uma revista de verdade...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

"FOLHA DE S. PAULO": ARROGÂNCIA SEM LIMITE

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Por Celso Lungaretti

A Folha de S. Paulo colocou num editorial que Cesare Battisti, no Brasil, "despertou uma solidariedade fora de época e de propósito entre ex-militantes de esquerda e antigos adeptos da luta armada".

Solicitei direito de resposta à Folha, provando  ad nauseam  que era eu quem melhor se enquadrava, simultaneamente, nessas três especificações (ser ex-militante de esquerda, antigo participante da resistência armada à ditadura militar e figura destacadada dos movimentos de solidariedade a Cesare Battisti).

Não vem sequer ao caso se a Folha quis mesmo se referir a mim ou a convergência para meu perfil foi casual. O certo é que, sendo uma pessoa conhecida, muitos haveriam de ver em mim -- e viram! -- o alvo de tal citação.

E, até como o idoso que eu não poderia deixar de ser (na condição de veterano de uma luta travada quatro décadas atrás), não me agrada nem um pouco ser confundido com alguém que perdeu a noção do presente e desperdiça seu tempo com iniciativas despropositadas. O linguajar eufemístico não altera nem atenua o conceito, que é óbvio:  velho caduco.

Pedi, portanto, espaço para expor aos leitores da Folha os motivos que me levaram a assumir a defesa pública de Battisti e, assim, dar-lhes possibilidade de avaliar se tais motivos eram plausíveis e pertenciam a esta época.

A resposta da ombudsman foi patética: ofereceu-se para encaminhar uma mensagem resumida que eu escrevesse à seção de cartas de leitores, ou um artigo aos editores de Opinião, enfatizando carecer de poder para determinar sua publicação ou não.

Obrigado por nada: em poucos minutos qualquer pessoa com inteligência mediana consegue levantar os respectivos e-mails e, assim, enviar seu texto a uma ou outra seção.

Quando alguém recorre à ombudsman queixando-se de haver sido atingido por algo publicado, cabe a  ela providenciar a retificação com igual destaque ou provar a improcedência da reclamação. Alegar que não tem poder para desempenhar sua missão é vexatório para ela e para a Folha.

Ante minha insistência, ela se saiu com este arremedo de argumentação: "não se trata de direito de resposta já que o seu nome não foi citado".

Se o nome de um cidadão não é mencionado, mas se trata de figura pública e a descrição da pessoa insultada corresponde exatamente à sua, negar-lhe o direito de resposta seria abrir a porta para todo tipo de ataques dissimulados e covardes.

Caso eu disparasse as piores ofensas contra "um barão da mídia" que cedia viaturas para o trabalho imundo dos torturadores e "seu filho" que esmerou-se em atenuar atrocidades ditatoriais... precisaria citar nomes?

E, não citando nomes, ficaria totalmente isento de responsabilidade por minhas afirmações?

Caracterizou-se, enfim:
  • a inexistência de direito de resposta para quem, como eu, não se verga aos constantes estupros das boas práticas jornalísticas por parte da Folha;
  • a inexistência de ombudsman na Folha, salvo como figura decorativa;
  • e a existência de um  house organ  da direitalha ocupando o espaço que um dia foi de um verdadeiro jornal, sob o comando do inesquecível Cláudio Abramo.

Obs.: o editorial citado e todas as mensagens trocadas podem ser acessados em DIREITO DE RESPOSTA DESFEITO; e violações  anteriores das normas jornalísticas por parte da mesma empresa, em MINHA LUTA SEM FIM CONTRA A FOLHA DE S. PAULO.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"UM TEXTO,DOIS OBJETIVOS" por Suzana Singer (matéria citada no post anterior de Celso Lungaretti)

Data: 01/08/2010
Veículo: FOLHA DE S. PAULO - SP
Editoria: OMBUDSMAN
Jornalista(s): SUZANA SINGER
Assunto principal: ENSINO MÉDIO
SUZANA SINGER
Era para ser uma denúncia, mas, depois de retalhada, reportagem vira propaganda de escola, com aval da Redação
O que era uma reportagem crítica virou, em cinco dias, peça publicitária. Em 20 de julho, a Folha relatava, com chamada na Primeira Página, que a rede Objetivo criou uma escola apenas para bons alunos, que ganham aulas extras à tarde, ministradas por professores considerados "especiais".
Esse grupo teria obtido no último Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, uma nota suficiente para aparecer como segundo colocado no ranking nacional.
Nas entrelinhas, o que se deduzia era que não se tratava de fato de uma escola nova, mas de um artifício: separam-se os mais estudiosos, eles obtêm boas notas no Enem e o nome do colégio aparece no alto do ranking das escolas.
Nos dois primeiros parágrafos, o texto dizia que o Colégio Integrado Objetivo, criado em 2008, não tem um prédio próprio, cobra a mesma mensalidade e tem carga horária obrigatória idêntica às demais unidades da rede.
Era para ser uma denúncia, mas a reportagem deve ter sido comemorada na avenida Paulista, 900, onde fica a sede do Objetivo. O texto virou anúncio de página inteira, publicado quatro vezes na Folha e em outros jornais.
O colégio reproduziu o título da reportagem, destacou várias partes e assinalou em letras grandes: "Parabéns alunos e professores do Colégio Integrado Objetivo pelo êxito no Enem". Deixou, no alto, o logotipo da Folha para dar credibilidade.
O anúncio, porém, omitiu vários trechos importantes. Um deles dizia que "as demais unidades do Objetivo, que não selecionam os alunos, não vão tão bem assim no ranking do Enem".
Outro afirmava que a escola premia com iPhone e notebooks os que se destacam nos simulados.
Dois parágrafos subtraídos tinham declarações de uma educadora criticando a prática de selecionar alunos. Outro trazia declaração de um dos diretores, João Carlos Di Gênio, negando que a escola tenha sido aberta só para alcançar uma média alta no exame nacional.
PROCEDIMENTO-PADRÃO
Para usar a reportagem da Folha, a agência de publicidade do Objetivo pagou pelo texto, em negociação feita pela Folhapress, a agência responsável pela comercialização do conteúdo editorial de todo o Grupo Folha.
A versão final do anúncio foi submetida à aprovação da Redação. É o procedimento-padrão para publicidade que usa texto do jornal: a empresa paga pelo licenciamento e a Folha aprova o layout para evitar distorções. Montadoras de automóveis costumam fazer muita propaganda desse tipo: "Teste da Folha mostra que o carro X é o mais econômico", por exemplo. O repórter não ganha nada a mais com isso.
A Secretaria de Redação, que aprovou o anúncio, não considera que houve erro. "A avaliação foi a de que a essência da reportagem não foi adulterada."
Se fosse isso mesmo, a reportagem original teria algo bem errado, já que seria praticamente um press realese. Mas não era. Foi retalhada e usada como peça de marketing.
Para os leitores, expostos mais vezes ao anúncio do que à reportagem, fica a impressão de que a Redação da Folha prestou um serviço ao Objetivo. O jornal permitiu uma autofagia perigosa.
*Suzana Singer é a ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2010. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.


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