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quarta-feira, 16 de maio de 2012

RECUOS E CAPITULAÇÕES NÃO FARÃO AFLORAR A VERDADE

Por Celso Lungaretti

Eles venceram o 1º round.
Quantos outros recuos haverá?
Como era esperado, a presidente Dilma Rousseff constituiu a Comissão da Verdade com os  notáveis  de sempre --aqueles que o sistema aceita como tais.

Como era esperado, vergou-se à pressão dos congressistas reacionários, que impuseram a condição de que nenhum antigo resistente integrasse o colegiado. O infame art. 2º, cuja inclusão eles exigiram para permitirem a aprovação da lei instituindo a Comissão, foi seguido ao pé da letra (o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim garante ter sido acordada também a investigação de crimes atribuídos aos resistentes, será que a pusilaminidade chegou a tal ponto?!).

Como era esperado, os  compromissos da governabilidade  pesaram mais na decisão de Dilma do que a coerência com a própria história de vida: quem sempre afirmou que os militantes se igualavam aos verdugos ("ambos cometeram excessos") é a pior direita que existe, a das  viúvas da ditadura.

Ao aceitar o veto aos que arriscaram tudo e tudo sofreram para combater o despotismo, como contrapartida à não participação de militares, Dilma endossou a posição dos Passarinhos e Ustras da vida. É lamentável. Fico triste por mim,  pelos companheiros que morreram  e pelos que nunca mais foram os mesmos depois do calvário nos porões; e envergonhado por ela.

Que me desculpe aquela que conheci em outubro de 1969 como Vanda, mas nunca mais a tratarei novamente por companheira presidente. Quem fez jus a tal distinção foi Salvador Allende, que morreu em nome dos seus princípios... revolucionários!

Para mim, doravante, será sempre Vossa Excelência, tal qual o José Sarney e o Fernando Collor, dentre outros ocupantes do Palácio do Planalto.

UMA PALAVRA FINAL

Sinceramente, eu já adivinhava que a Dilma não se comportaria como uma  companheira presidente. Tudo me levava a crer que ela se tornara apenas uma tecnoburocrata do capitalismo, sem a mais remota aspiração atual de dar um fim à exploração do homem pelo homem. 

Agora está confirmado: é mais uma política que joga o jogo segundo as regra do sistema, não uma militante que entra no sistema para alavancar a revolução.

Apesar das minhas intuições, fiz tudo que podia para empurrá-la na direção dos ideais de outrora. É assim que sempre ajo. Não desisto enquanto a batalha não estiver definitivamente perdida.

Da mesma forma, quando a Comissão da Verdade foi aprovada a partir da capitulação diante da bancada direitista no Congresso, lutei até o fim contra tal ACORDO PODRE, INDIGNO E ALTAMENTE INSULTUOSO PARA NÓS, OS ANTIGOS RESISTENTES. 

Foi este o motivo de me haver proposto como anticandidato. Tratou-se apenas de uma tentativa de fazer com que a esquerda se unisse em torno da exigência de um representante das vítimas. 

Os algozes não poderiam mesmo estar representados, mas a igualação no veto só seria cabível em se tratando de grandezas equivalentes (aberração que só as   viúvas da ditadura  defendem, tentando encontrar uma atenuante para as atrocidades perpetradas). Ademais, aplicar a um processo de resgate histórico as regras de um tribunal é rematada tolice.

Sempre achei que o mais adequado para o papel fosse o Ivan Seixas, tanto que constantemente o indicava como uma ótima possibilidade.

Infelizmente, uma parte da esquerda preferiu desqualificar de fora a comissão, enquanto a outra parte, ou queria emplacar suas candidaturas (compatíveis com tal limitação), ou se alinha automaticamente com tudo que o governo faz.

Eu lutei como pude, por menores que fossem as chances de mudar o que já estava pactuado; e, agora que o acinte se consumou, estou batendo pesado, como sempre faço.

É travando todas as lutas até o último cartucho que conseguimos vencer alguma, mesmo se todas as condições são desfavoráveis, como no Caso Battisti.

De resto, o cenário que se desenha é o do parto da montanha produzir um rato: os militantes já cansaram de proclamar a verdade e os militares não terão motivo nenhum para abdicar da mentira. 

A tendência é que  se sistematizem as versões já conhecidas sobre as execuções e demais atrocidades da ditadura, pouco se avançando na descoberta dos armários em que eles guardaram os esqueletos --salvo se a Comissão pudesse ao menos ordenar a prisão dos comprovadamente perjuros.

Mas, é óbvio que isto não ocorrerá.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

COMO ERA ESPERADO

Por Celso Lungaretti

No discurso da vitória, Salvador Allende afirmou que para, a militância,
ele seria sempre o "companheiro presidente". E honrou o compromisso.
Como era esperado, a presidente Dilma Rousseff constituiu a Comissão da Verdade com os  notáveis  de sempre --aqueles que o sistema aceita como tais.

Como era esperado, vergou-se à pressão dos congressistas reacionários, que impuseram a condição de que nenhum antigo resistente integrasse o colegiado.

Como era esperado, os  compromissos da governabilidade  pesaram mais em sua decisão do que a coerência com a própria história de vida: quem sempre afirmou que os militantes se igualavam aos verdugos ("ambos cometeram excessos") é a pior direita que existe, a das  viúvas da ditadura.

Ao aceitar o veto aos que arriscaram tudo e tudo sofreram para combater o despotismo, como contrapartida à não participação de militares, Dilma endossou a posição dos Passarinhos e Ustras da vida. É lamentável. Fico triste por mim,  pelos companheiros que morreram  e pelos que nunca mais foram os mesmos depois do calvário nos porões; e envergonhado por ela.

Que me desculpe aquela que conheci em outubro de 1969 como Vanda, mas nunca mais a tratarei novamente por companheira presidente. Quem fez jus a tal distinção foi Salvador Allende, que morreu em nome dos seus princípios... revolucionários!

Para mim, doravante, será sempre Vossa Excelência, tal qual o José Sarney e o Fernando Collor, dentre outros ocupantes do Palácio do Planalto.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TERRA ARRASADA x RESGATE DA ESPERANÇA

O primeiro debate eleitoral de presidenciáveis no 2º turno foi tão melancólico que levei bom tempo até reunir coragem para me defrontar com ele.

Não passou de uma sucessão exasperante de ninharias superdimensionadas, pegadinhas, má fé e má postura.

Foi anedótico, p. ex., José Serra pretender que poucas e desimportantes privatizações sob governos petistas equivaleriam à avalanche de privatizações sob Fernando Henrique Cardoso (nos seus dois mandatos presidenciais e como ministro da Fazenda de Itamar Franco).

Mais inteligente teria sido ele dizer que quem iniciou as privatizações, afinal, foi Fernando Collor (o qual, aliás, é o estranho mais estranho no ninho dos aliados do Governo Lula!).

Também a Dilma não ocorreram as melhores réplicas em vários momentos, como quando Serra comparou os ex-presidentes da República que o apoiam àqueles que a apoiam.

Bastaria ela lembrar que tem o apoio do presidente Lula, mais bem avaliado e querido pelo povo do que os quatro citados juntos.

Quando Serra se diz um homem coerente com seu passado, está pedindo que lhe atirem na cara o fato de que, como ex-presidente da UNE, jamais poderia ter determinado a invasão da Cidade Universitária pela truculenta tropa de choque da PM, revivendo os piores tempos da ditadura militar.

Aliás, no momento em que Dilma sofre acusações tão falaciosas, fico pasmo com a não colocação no ar das chocantes agressões a estudantes e professores paulistas durante o governo de Serra.

OS CACIQUES DA DITADURA E SEU ÍNDIO

Também é totalmente incongruente com seu passado de exilado político o apoio que recebe do DEM, a quarta denominação do partido criado para dar sustentação à ditadura militar:  já se chamou Arena, PDS e PFL, sem nunca conseguir fazer com que esquecêssemos os tempos em que respaldava o mais grotesco arbítrio e as piores atrocidades.

Por conta dessa aliança Serra teve de engolir um sapo descomunal, a escolha de Índio da Costa para seu vice. A retórica do dito cujo parece saída diretamente dos sites ultradireitistas, lembrando o primarismo iletrado  e destrambelhado dos Ustras e Bolsonaros da vida.

Mesmo assim, na batalha dos currículos maquilados por marqueteiros, das promessas vazias e da satanização do adversário, Serra leva ligeira vantagem, por ter mais chão nessa estrada.

Será suficiente para contrabalançar a enorme popularidade do Lula?

A óbvia tendenciosidade da mídia golpista faz temer que um factóide exagerado ao máximo acabe funcionando, depois de tantos que se mostraram inócuos. A Folha  de S. Paulo e a Veja garimpam sofregamente tal factóide.

Então, já passou da hora da campanha de Dilma sair do terreno que favorece ao adversário e focar as diferenças ideológicas.

Chega de ajudar a burguesia a impingir a ilusão de que presidentes são homens providenciais que tudo  podem, decidem, fazem e acontecem.

Há muito tempo o PT deveria estar tratando esta eleição como uma disputa entre o campo progressista e o reacionário, entre um projeto político que contempla alguns interesses populares e outro totalmente subjugado ao capitalismo, inclusive no que ele tem de mais selvagem.

Estava certíssimo Plínio de Arruda Sampaio quando enfatizava estar representando seu partido na eleição. Para a esquerda, isto é o bê-a-bá: seus candidatos não são  capos  mussolinescos, mas expressão de um coletivo. Não é uma disputa de individualidades, e sim de forças políticas, econômicas e sociais.

Então, ao colocar em dúvida o cumprimento das promessas de Serra, deveria Dilma dizer claramente que seu adversário é refém dos interesses mais predatórios e retrógrados, de forma que, quando tiver de optar entre eles e o povo, ficará contra o povo, como ficou contra os universitários que nada mais faziam do que repetir os passos por ele mesmo dados no comecinho da sua jornada.

Só Dilma e o PT poderão resgatar essa campanha da vala comum em que os demotucanos e sua brigada virtual neofascista a estão atirando.

Eles não têm nada de diferente a oferecer, pois a burguesia nada de substancial quer conceder e resistirá com unhas e dentes às tentativas de limitarmos seus lucros escandalosos e impedirmos que continue produzindo  desigualdade social tão aberrante. Então,  os serviçais da burguesia se limitam a desconstruir tudo, na esperança de se tornarem herdeiros de uma terra arrasada.

Se depender dos demotucanos, a política continuará sendo a da entropia, da marcha para a destruição.

Só o PT e as forças de esquerda poderão trazer esperanças para o povo.

Mas, adotando uma postura bem diferente, muito mais para  Lula-lá  do que para  Lulinha paz & amor.

A atual é um salto no escuro, com riscos enormes de redundar em terrível derrota e gravíssimo retrocesso.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DONA SOLANGE ESTÁ DE VOLTA, PIOR DO QUE NUNCA

Disse e repito: a propaganda eleitoral gratuíta é uma das piores pragas da democracia brasileira. Leva os eleitores a escolherem candidatos como quem opta entre uma marca e outra de sabão em pó.

Se já não bastasse a falsidade intrínseca das imagens que os marqueteiros impingem dos candidatos e da situação nacional, ainda existe uma burocracia tacanha a exercer a mais grotesca censura que este país presencia desde a ditadura militar.

A última das Donas Solanges (*) do Tribunal Superior Eleitoral foi vetar um vídeo em que a coligação demotucana criticava o apoio de Fernando Collor a Dilma Rousseff.

Ora, trata-se mesmo um  calcanhar de Aquiles  da Dilma e os adversários têm todo direito de jogar-lhe na cara que Collor não é companheiro de jornada aceitável para quem, nos  anos de chumbo, confrontou bravamente os cães de guarda do coronelismo político.

O pior de tudo foi o pretexto ridículo para impedirem que haja, enfim, algum debate político na propaganda gratuita: o de que a lei eleitoral, verdadeiro monstro de Frankenstein, veda "a utilização de gravações externas na veiculação de inserções".

Se a coligação governista reagisse exibindo as truculências da tropa de choque da PM no campus da USP durante o governo de Serra, provavelmente os advogados tucanos também descobririam qualquer pêlo em ovo para requisitarem os préstimos dos neocensores.

Assim, graças aos que criam leis com aberrante viés autoritário e aos que as aplicam obtusamente, estamos assistindo a eleições despolitizadas, desmobilizadoras, deseducadoras e tediosas ao extremo.

São as   eleições Tiririca, que rimam com titica.

* Solange Teixeira Hernandes, diretora do Departamento de Censura Federal no período1980/84, tornou-se símbolo dos censores do regime militar.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

BOTARAM FANTASIA DE PRESO NO ARRUDA

“Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores”, avaliou a pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca.

Bem dentro desse espírito, o Superior Tribunal de Justiça colocou o (des)governador do Distrito Federal José Roberto Arruda atrás de grades -- apenas simbólicas, já que passou a noite de 5ª para 6ª feira confortavelmente instalado no gabinete da diretoria do Instituto Nacional de Criminalística.

E ninguém duvida de que o Supremo Tribunal Federal acabará soltando Arruda, cujo azar foi seu pedido de habeas corpus ter caído nas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, um dos que honram a toga.

Ele adiou a decisão por faltarem alguns elementos para análise liminar da ação... e, provavelmente, para que Arruda recebesse ao menos uma punição moral.

Em último caso, entretanto, o presidente Gilmar Mendes dará um jeito de restabelecer a ordem natural das coisas.

Até nosso bom Lula teria lamentado, segundo um assessor próximo, que os acontecimentos houvessem chegado ao ponto de ser pedida a prisão de um governador.

Cá com meus botões, apostaria que a possibilidade de Arruda ser finalmente expelido do governo é muito maior do que a de passar uma temporada preso.

Fico me lembrando de como os militantes revolucionários dos anos 60 encarávamos tais casos de corrupção: nós os víamos como intrínsecos ao capitalismo, e não meramente circunstanciais.

Ou seja, só teriam fim a partir de uma mudança profunda da organização econômica, política e social do País.

Para quem considera que a propriedade é o roubo (anarquistas) ou que o capitalismo se alicerça sobre a usurpação individual de parte do produto do trabalho coletivo (marxistas), é esta a distorção suprema de nossa sociedade, não a corrupção dos políticos -- os quais devem ser tidos como meros ladrões de galinhas, na comparação com os banqueiros e os grandes empresários.

Os tão alardeados prejuízos que os políticos causam aos pagadores de impostos são irrisórios, insignificantes ao extremo, em relação à rapinagem legalizada que o capital pratica contra a totalidade dos brasileiros.

Mas, claro, interessa ao sistema, por meio de sua indústria cultural, manter a plebe ignara sempre mesmerizada pela árvore e incapaz de perceber a floresta por trás dela.

O combate à corrupção fornece catarse para as massas e, em momentos de crise, enseja mobilizações golpistas. Não por acaso, foi um dos principais motes da quartelada de 1964, apelidada de redentora porque se propunha a moralizar os costumes políticos brasileiros.

Daí a amarga crítica feita pelos revolucionários mais consequentes aos agrupamentos de esquerda que, embarcando nos desvarios populistas, ajudaram a minar o governo João Goulart, ao fazerem coro às acusações lançadas pela direita. No fundo, só serviram para colocar azeitona na empada dos golpistas.

O "HOMEM DA VASSOURA" E O "ROUBA-MAS-FAZ"

As desventuras momentâneas do Arruda lembram episódios do populismo pré-1964, como a acusação feita a Adhemar de Barros (o rouba-mas-faz anterior a Paulo Maluf), de que em 1949 abusara de seu poder como governador paulista para obter um empréstimo irregular do Banco do Estado de São Paulo, visando à aquisição de dez automóveis Chevrolet.

A denúncia foi exumada em 1956 por Jânio Quadros, que se definia politicamente como o anti-Adhemar.

Jânio tinha como símbolo a vassoura, que serviria para varrer a roubalheira do rato Adhemar. E, na esperança de liquidar politicamente o rival, arrancou do Tribunal de Justiça de São Paulo sua tardia condenação a dois anos de reclusão, por peculato.

Acabaram sendo apenas dois meses de exílio na Bolívia, para onde fugiu.

Beneficiado por habeas corpus do STF (Gilmar Mendes teve predecessores...), Adhemar de Barros voltou em triunfo, elegeu-se prefeito da capital e, em seguida, governador do Estado, posição a partir da qual apoiou fortemente o esquema golpista de 1964.

Já Jânio Quadros, o caçador de roedores que inspiraria o caçador de marajás, alcançou a Presidência em 1960, com a maior votação até então obtida por um candidato ao posto máximo da República, vencendo de forma esmagadora o marechal Henrique Lott.

Fez um governo anedótico, entre 31/01/1961 e 25/08/1961, ocupando-se de ninharias como a proibição das rinhas de galo, do lança-perfume nos bailes de carnaval e do televisionamento de concursos de miss nos quais as ditas cujas trajassem biquinis.

Ao renunciar na esperança de que o povo o reconduzisse ao poder com poderes ampliados, abriu, isto sim, as portas para as duas tentativas dos conspiradores militares: a que fracassou em 1961 e a que resultou em 1964.

Invertendo a frase célebre de Hegel, as farsas do populismo criaram condições para a tragédia que se abateu por 21 anos sobre o Brasil.

IMPUNIDADE APÓS A REDEMOCRATIZAÇÃO

É claro que a atual impunidade dos poderosos -- de Pimenta Neves até José Sarney, passando por banqueiros como Dantas e mensaleiros como Palocci -- ofende profundamente o espírito de justiça de que todos nós somos dotados, segundo Platão.

O Brasil consegue ser o pior dos mundos possíveis, com a inclemência capitalista elevada ao máximo e nem sombra da igualdade de todos perante a lei que é erigida em valor importante nos países capitalistas avançados (muito deixa de vir à tona, claro, mas quando figurões são flagrados, dificilmente escapam da punição).

Vai daí que que o opróbrio de um Arruda nos lava a alma, depois de tantos episódios que tiveram desfechos pífios.

Mas, é pouco e por aí não chegaremos a lugar nenhum: o verdadeiro desafio continua sendo o de mudarmos as estruturas.

P.S.: no início da tarde, saiu a decisão do ministro Marco Aurélio, negando o habeas corpus a Arruda, que permanecerá preso pelo menos até a 4ª feira de cinzas, quando o STF vai apreciar seu caso. Aí, a tendência é de que poderes mais altos se alevantem, como diria Camões...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

LULA SE COMPARA À IGREJA UNIVERSAL: DIZ QUE AMBOS SÃO VÍTIMAS DE PRECONCEITOS


Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quem continua esquerdista ao se tornar sexagenário tem um parafuso solto na cabeça.

Foi só uma frase infeliz? Não. Tratou-se, à sua maneira rústica, de uma declaração de princípios.

Pois, semana após semana, dia após dia, ele vai renegando todos os valores que dizia professar, e em nome dos quais os abnegados voluntários do Partido dos Trabalhadores fizeram campanha por ele, nas eleições perdidas para presidente da República (1989, 1994 e 1998) e governador (1982), bem como na que ganhou para a Câmara Federal (1996).

Em 2002 entendeu-se com o grande capital, para que lhe fosse permitido conquistar o ambicionado troféu que três vezes lhe escapara.

Este compromisso, ao contrário dos que firmou com os idealistas, ele cumpriu integralmente: os bancos registraram, ao longo de seus quase sete anos de governo, lucros estratosféricos. Estão entre os mais rentáveis do planeta.

Antes da última crise global do capitalismo, festejavam a cada mês novas quebras dos seus recordes de faturamento.

Durante a crise, receberam verdadeiras doações do Governo Federal, para que não estrangulassem o crédito aos que trabalham e produzem.

Em vão: usaram os recursos para precaverem-se contra as inadimplências, tratando apenas da salvação de si próprios.

Não por causa deles, o País se salvou. E os bancos continuam rapinantes, recebendo brandas admoestações de Lula pelos juros escorchantes dos cheques especiais e outros produtos.

Ao lado do puxão de orelhas de pai para filho, vem o conselho ao cidadão comum: administre melhor seus gastos!

Já tratou os retrógrados usineiros como "heróis" do nosso sofrido país.

Já colocou os interesses do agronegócio acima da própria vida do bispo Luiz Flávio Cappio.

Já renegou o uso do termo "burguesia" para qualificar os que antes ele designava como vis "exploradores".

Já fez as alianças políticas mais esdrúxulas, com desmoralizadíssimos partidos fisiológicos.

Já proibiu seus ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi de encaminharem, no âmbito do Executivo, a revogação da anistia autoconcedida pela ditadura a seus esbirros, obrigando-os a deslocar essa luta para a esfera do Judiciário.

Já salvou a cabeça de um dos símbolos do coronelismo brasileiro, José Sarney, além de haver aceitado e agradecido o apoio de outro, Antonio Carlos Magalhães.

Já apareceu aos abraços com figuras execradas da política brasileira, inclusive Fernando Collor, que tornou público seu adultério, sua filha ilegítima e sua tentativa de convencer a amante a abortar.

Já deu contribuição destacada para que o Brasil continuasse o país da impunidade, no qual políticos e seus corruptores nunca têm punição à altura dos seus delitos.

E, last but not least, já colocou o Exército a serviço da campanha eleitoral de um figurão da Igreja Universal do Reino de Deus, daí resultando quatro mortes estúpidas, além do péssimo precedente de trazer de novo as Forças Armadas para cuidar de questões sociais (da última vez, levamos 21 anos para reconduzi-las aos quartéis!).

Agora, necessitando dos votos da Igreja Universal para eleger Dilma Rousseff, não se vexou de equiparar a IURD a si próprio, como "vítima de preconceito"!

Prestigiando a inauguração de dois estúdios da TV Record em Vargem Grande (RJ), lembrou que a atriz Cristina Pereira, pertencente ao cast da emissora, fez campanha por ele: "Cristina saía para bater bumbo com um metalúrgico, vítima de preconceito, como a Record é vítima de preconceito".

Adiante, voltou a bater nessa tecla: "Acompanho os meios de comunicação no Brasil e sei o quanto a Record e o povo da Record foram vítimas de preconceito".

Só esqueceu um síngelo detalhe: ele próprio era vítima de preconceito por sua origem humilde, enquanto os outros são tidos e havidos como responsáveis por práticas financeiras ilícitas, lavagem de dinheiro (por meio da própria TV Record!), estelionato, curandeirismo e lavagem cerebral.

Constituíram bancadas, adquiriram influência política e têm conseguido sobreviver às muitas tentativas dos promotores de colocá-los atrás das grades.

Pior: arrancam até o último centavo de seres humanos fragilizados, que em seu desespero abrem mão dos bens materiais na esperança de obter retribuição divina.

E, como os nazistas faziam com os judeus, imantam seu rebanho unindo-o contra um inimigo comum, os cultos afrobrasileiros, alvos de uma perseguição religiosa que amiúde descamba para o vandalismo (outra reminiscência do nazismo e seus ferrabrazes).

Além dos dóceis eleitores da Igreja Universal, Lula também aprecia o tipo de jornalismo que a TV Record desenvolve, bem de acordo com sua noção de que o papel da imprensa é informar e não fiscalizar.

Assim, elogiou o investimento que a emissora está fazendo para a produção de novelas como uma "demonstração extraordinária de que acreditam no Brasil".

Acrescentou que a concorrência entre as emissoras de TV elevaria o nível do jornalismo e da cultura nacional, permitindo "que o povo brasileiro não seja vítima de alguns formadores de opinião que querem conduzi-la para formar um pensamento único".

Também aí esqueceu um singelo detalhe: a indústria cultural é mesmo altamente manipulatória, mas ainda se direciona a leitores e espectadores capazes de formar juízo próprio, enquanto a TV Record tem como objetivo último ampliar a legião de pobres coitados que atribuem qualquer evento adverso às maquinações do Capeta.

No auge das denúncias na imprensa, e mesmo quando apareceu na TV o registro chocante da divisão do butim, o rebanho fechou olhos e ouvidos à realidade escancarada, preferindo acreditar que era outra provação para testar sua fé.

E é isso que os poderosos sempre quiseram: transformar eleitores em zumbis. O que a IURD está aos poucos forjando é uma versão modernizada (e ainda mais nociva) dos currais eleitorais nordestinos, que Lula conhece tão bem.

O último dos singelos detalhes esquecidos é o de que essa máquina político-religiosa trabalha sempre ao lado dos que estão no poder... e ele, Lula, não durará para sempre.

Então, o seu legado poderá ser o de ter montado a engrenagem perfeita para evitar que, no futuro, algum sindicalista atrevido abra caminho na política, driblando todos os preconceitos, até chegar à Presidência da República.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

SARNEY VOCIFERA CONTRA A IMPRENSA. QUEM A MANDOU MOSTRAR SUA NUDEZ?!

Como Collor, Calheiros, Palocci, Severino e tantos outros do mesmo quilate, o presidente de fato do Senado José Sarney está profundamente irritado com a imprensa por haver denunciado as práticas ilegais de que foi responsável por ação ou omissão.

Digo de fato porque, se prevalecesse o Direito, ele teria sido não só expelido da presidência da Casa, como também perdido o mandato. Aliás, nem sequer o haveriam empossado, já que disputou a eleição com domicílio eleitoral sabidamente fictício.

Ao ler que Sarney discursou na sessão solene relativa ao Dia Internacional da Democracia (!), fiquei lamentando que o grande Sérgio Porto, a.k.a. Stanislaw Ponte Preta, não esteja mais entre nós. Ele acrescentaria outra ocorrência emblemática ao seu Festival de Besteiras que Assola o País.

A queixa de Sarney é, na verdade, a de que o crucificam por práticas nas quais incidem muitos e muitos dos seus pares.

Vou surpreender os meus leitores: nisto ele tem toda razão. É próprio da hipocrisia latina deixar um boi ser sacrificado às piranhas para o resto da boiada não ser incomodado. Mantêm-se as aparências e a verdadeira justiça vai pro ralo.

Pior ainda, entretanto, é termos descido mais um degrau na escada da civilização: agora, não se punem nem mesmo os delinquentes políticos pilhados em flagrante.

Como resultado, o cidadão comum se torna absolutamente cético quanto à possibilidade de que a política sirva para a concretização dos grandes ideais da humanidade.

Quem foi um dia de esquerda e hoje não vê nada de errado em aliar-se a Collor, Calheiros e Sarney, ou em absolver quem jogou todo o peso do Estado em cima de um coitadeza qualquer, na verdade define-se como um utilitarista, adepto da ignomínia de que todos e quaisquer meios sejam válidos para ele atingir seus grandes objetivos .

Mas, revolucionários de formação marxista são dialéticos, acreditando, isto sim, na interação entre fins e meios: quem recorre a meios espúrios, torna espúrios os próprios objetivos que persegue.

Para a direita, pouco importa ser associada a essas figuras execráveis. Ela não aspira à superioridade moral. Quer apenas nos impingir o conceito niilista de que a política é mesmo imunda e não adianta remarmos contra a correnteza.

Já um marxista está tentando construir uma sociedade que só existe, por enquanto, em seus sonhos. Então, a imagem que os cidadãos comuns têm do socialismo é dada pelo comportamento daqueles que o defendem.

Daí a conclusão a que eles chegaram na melancólica década atual: "Se é para os Collor, Sarney, Calheiros e Palocci continuarem impunes e poderosos, não vale a pena desperdiçarmos nosso tempo e nossas energias tentando implantar o socialismo.Temos é de zelar por nossos interesses. Que se dane o mundo!".

Ou seja, em nome das conveniências imediatas da politicalha sórdida, leva-se o cidadão comum a concluir que direitistas e esquerdistas são todos farinha do mesmo saco.

Ainda pagaremos muito caro por esse relativismo moral (ou imediatismo imoral).

De resto, nada do que Sarney diga vale grande coisa, daí eu ter deixado para o final seu desabafo. Enfim, vamos ao besteirol:
"A tecnologia levou os instrumentos de comunicação a tal nível que a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós; e dizemos nós, representantes do povo: somos nós. É por essa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas".
Legislativo e imprensa só representam o povo quando cumprem suas respectivas missões.

A do Legislativo seria expurgar-se dos Sarney e congêneres. Não o fez e dificilmente o fará.

A da imprensa é disponibilizar a verdade ao cidadão comum. Só o faz nos momentos em que seus interesses estão divididos.

Quando se trata de criminalizar os movimentos sociais ou os personagens históricos que lutam/lutaram contra o jugo do capital (caso de Cesare Battisti), a imprensa só tem representado, monoliticamente, os interesses da burguesia. Atua com tendenciosidade absoluta, estarrecedora.

Quando denuncia os podres dos Sarney da vida, mesmo que para beneficiar adversários igualmente pútridos, acaba agindo, sim, como representante do povo... por linhas tortas.

Pois é nesses tiroteios que ficamos sabendo a verdade sobre ambos os lados.

A leitura que o cidadão comum faz é exatamente esta: acredita em tudo de que um acusa o outro e não dá a mínima para as desculpas esfarrapadas de parte a parte...

Daí o que há muito clamo, no deserto desta política em que os ideais cederam lugar aos interesses e às conveniências: se quisermos ser novamente respeitados pelo povo, como o éramos no momento da redemocratização, teremos de organizar a cidadania fora do sistema e contra o sistema.

Pois o inimigo, hoje, não é apenas o capitalismo globalizado, mas também o Estado que o representa e perpetua.

O qual atingiu tal estágio de putrefação que já não pode ser redimido de dentro, condenando os que tentam fazê-lo, mesmo honestos, a ficarem patinhando sem sair do lugar.

Teremos de engendrar a alternativa fora dele.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Para Lula, bom mesmo é o Estado do bem-estar social

Graças ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sabemos agora qual foi o maior benefício que a Revolução Bolchevique trouxe à humanidade: "quem mais ganhou com a revolução de 17 foi a Europa Ocidental porque, com o medo do comunismo, criou o Estado do bem-estar social".

Foi isto que S. Exa. afirmou nesta quinta-feira, discursando no 51º congresso da União Nacional dos Estudantes. Nem sequer o papel fundamental que a URSS desempenhou na derrota do nazismo parece ser relevante, na opinião de Lula.

Ele se coloca não ao lado dos que fizeram a revolução e tentaram materializar um estado dos trabalhadores, mas sim na trincheira dos países capitalistas que, para evitar a propagação dos ideais revolucionários, trataram de melhorar um pouco a vida dos seus cidadãos.

E, para que não deixar dúvidas quanto a seu desprezo pelos valores da esquerda, Lula disse também que "para uma pessoa pobre ter uma caixa de lápis é mais importante do que uma revolução".

Ele se mostrou coerente com posicionamentos anteriores, como o de que não era esquerdista, mas sim torneiro-mecânico; e o de que, quando um sexuagenário continua esquerdista, é porque tem um parafuso solto na cabeça.

Está numa fase de dizer inconveniências (por que ofender os pobres pizzaiolos, comparando-os aos senadores?) e renegar seu passado.

Já descobriu até que é amigo do Collor desde criancinha, tanto que ambos já superaram uma pequena desavença de 1989, quando o Fernandinho andou falando demais sobre as puladas de cerca do Luizinho. Todos os amigos têm uma briguinha de vez em quando...

Então, ficamos entendidos: os bons lulistas agora têm de defender com unhas e dentes o Estado do bem-estar social, seja na versão que o capitalismo selvagem (ôps, eu queria dizer globalizado...) varreu da Europa, seja na adaptação brasileira, com o Bolsa-Família garantindo caixas de lápis às pessoas pobres.

Ah, uma última recomendação: esqueçam Karl Marx. O teórico inspirador do lulismo não é o velho barbudo, nem tampouco o economista e sociólogo sueco Karl Gunnar Myrdal, tido como o pai do Estado do bem-estar social.

As posições que Lula tem rusticamente professado, tanto em economia quanto em política, aproximam-no mais de Edouard Bernstein, aquele que acreditava numa melhora constante da situação dos trabalhadores sob o capitalismo, tornando desnecessária uma ruptura revolucionária.

Quanto a nós, velhos ranzinzas, continuaremos seguindo Rosa Luxemburgo que, no seu clássico Reforma ou Revolução, pulverizou as falácias oportunistas de Bernstein.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Não é pessoal, são só negócios"

Ignoro se esta frase foi proferida por algum gangster da vida real ou só pelos das telas. Mas, uma coisa é certa: cai como uma luva para os gangstêres da política oficial.

Faço questão de acrescentar o adjetivo oficial, na esperança de que volte a existir uma política revolucionária, antípoda de tudo isso que se vê em Brasília. Sou um eterno otimista.

O certo é que, quando Vargas mandava seus esbirros encarcerarem Prestes, despachando-lhe a companheira para a morte nos cárceres nazistas, eram só negócios.

E foi também seguindo a ética dos negócios (a qual, todos sabem, inexiste) que Prestes subiu depois aos palanques junto com Vargas.

Não foi por motivos pessoais que Collor informou ao distinto público que Lula produzira uma filha fora do casamento e tentara convencer a amante a abortar o rebento indesejado.

Nem Lula tem qualquer motivo pessoal para aparecer agora abraçado a Collor, só lhe interessando receber o favor político de que carece neste instante.

Há, é claro, exceções, como o grande Monteiro Lobato, que tentou um sem-número de vezes conquistar uma cadeira, pra lá de merecida, na Associação Brasileira de Letras.

Quando estava prestes a lograr seu intento, com os votos de que necessitava já garantidos, alguém lhe soprou que iria sentar-se ao lado de Getúlio Vargas, responsável último pelas sucessivas prisões que Lobato sofrera.

É isto mesmo, Getúlio Vargas. A exemplo de Sarney, outras figuras do poder já foram atrás de glórias literárias, fingindo não perceber que elas só lhes são concedidas por causa do poder, não em decorrência dos textos medíocres que parem a fórceps.

Avaliando o que significaria para um homem de caráter ficar em tal companhia, Lobato retirou de imediato sua candidatura. Outros tempos.

Há muito deixei de dar importância para a política oficial e seus símbolos. Quando fiz a opção revolucionária, nos idos de 1967, foi para valer. E aprendi bem o bê-a-bá do marxismo, meu ponto de partida.

Então, estou careca de saber que não são os Vargas, Sarneys, Lulas e Collors que movem a História, mas sim a constelação de forças que faz deles instrumentos.

Há uma função a ser preenchida e alguém a preenche. Se apenas tirarmos de cena tal pessoa, outra imediatamente lhe tomará o lugar. Se eliminarmos a função, aí sim produziremos uma verdadeira mudança.

Em 1945, Vargas foi induzido a abrir mão da ditadura e afastar-se por algum tempo da política. Não se passaram duas décadas sem que o Brasil resvalasse para outra ditadura, pior ainda.

Adhemar de Barros, Maluf, Collor, Calheiros, Palloci e tantos outros já foram degradados para aplacar a indignação popular, depois voltaram à tona como se nada houvesse acontecido. E a política oficial não ficou menos podre durante seu ostracismo.

Apontar o capitalismo como raiz de todos os males saiu de moda. Só que, como eu nunca liguei para modas, continuarei insistindo na necessidade de construirmos uma sociedade nova, ao invés de ficarmos catarticamente esbravejando contra a putrefação da velha.

CELSO LUNGARETTI
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