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Tragédia anunciada
Publicado em dom, 08/11/2015 - 00:10
Confira o dossiê completo elaborado pelo MAB sobre o
rompimento das barragens da mineradora Samarco, pertencente à Vale e BHP
Billiton, que causaram uma “tragédia anunciada” em Mariana (MG).
Distrito de Bento Rodrigues em Mariana (MG) soterrado pela lama - Foto: Douglas Magno/O tempo
O
dia 05 de novembro de 2015 vai ser lembrado para sempre como mais um
dia que o lucro desmedido é colocado na frente da vida do povo. Por
volta das 16 horas, a barragem do Fundão, propriedade da Samarco
Mineração, localizada no município de Mariana, Minas Gerais, rompeu-se e
liberou um mar de lama. A enxurrada lama atingiu outra barragem de
rejeitos da mineradora, a barragem de Santarém, que também se rompeu
despejando todo seu conteúdo no distrito de Bento Rodrigues, localizado a
15 Km do centro de Mariana. O distrito onde viviam 620 pessoas foi
atingido pela torrente e teve 90% de suas casas destruídas.
Os
moradores, sem receber nenhum aviso da empresa, correram ao ouvir o som
do rompimento da barragem. Fugiram às pressas para os morros e partes
altas do distrito. Vários moradores relataram terem visto pessoas serem
levadas pela enxurrada. Casas, escolas, rede elétrica, estradas, tudo
foi destruído. Os moradores ficaram ilhados e começaram a ser resgatados
de helicóptero por bombeiros.
A lama continuou descendo
atingindo mais vilarejos no caminho. O município de Barra Longa,
distante aproximadamente 70 Km do local da barragem, também foi
atingido. A lama invadiu o centro da cidade, mais de 100 pessoas ficaram
desabrigadas e muitos moradores ficaram ilhados na zona rural.
As
estimativas das autoridades são de mais de 2000 atingidos. Nesse número
não estão incluídos todos os municípios que terão abastecimento de água
comprometido, rio contaminado e morte de peixes.
Mortos e desaparecidos
Há
números controversos de mortos e desaparecidos. Segundo os bombeiros
mais de 500 pessoas foram resgatadas. As autoridades confirmaram a morte
de três pessoas: um funcionário da mineradora que teve um mal súbito no
momento do rompimento, um homem encontrado no Rio Doce próximo a Barra
Longa e uma criança de 7 anos do Distrito de Bento Rodrigues que foi
levada pela lama. A Samarco apontou 13 trabalhadores desaparecidos. A
prefeitura divulgou a lista oficial de atingidos que constam 12 pessoas
de Bento Rodrigues, totalizando portanto 25 desaparecidos. Militantes do
MAB conversaram com diversos atingidos que relataram ter parentes
desaparecidos, outros presenciaram o momento que a lama arrastou
moradores, portanto o número de vítimas provavelmente será maior dos
dados que estão sendo divulgados.
Abastecimento de água para população
A
lama alcançou o Rio Doce no dia 6 e comprometeu a captação de água de
várias localidades. A Usina de Candonga, localizada no município de Rio
Doce a 100 Km de Mariana, paralisou a geração de energia e abriu as
comportas liberando a água e lama. Segundo o Consórcio operador formado
pela própria Vale e a Aliança Geração de Energia, a geração foi
interrompida para evitar possíveis danos à usina.
Segundo
informações oficiais dos órgãos competentes, a lama chegará em
Governador Valadares na madrugada deste domingo (08). O serviço de
abastecimento do município vai interromper a captação de água até fazer
uma análise da qualidade e atestar se é possível seu tratamento para
normalizar a captação. Esse procedimento está sendo adotado por todos os
municípios que captam água do Rio Doce até o Espírito Santo. Apenas o
município de Governador Valadares possui uma população de mais de 270
mil habitantes, toda ela abastecida com água do Rio Doce.
Resíduo Tóxico
A
lama da barragem era proveniente da mineração de ferro. Já se sabe que
ao menos quatro cursos de água foram atingidos pelo rejeito: córrego
Fundão, rio Gualaxo do Norte, rio Carmo e rio Doce. Segundo relato de
trabalhadores do setor, o resíduo contém ferro e metais pesados como
mercúrio e arsênio, que são elementos altamente tóxicos. Em entrevista
coletiva, o presidente da Samarco afirmou que o resíduo é inerte e não
prejudica os seres humanos.
Essa não é a opinião dos atingidos
que tiveram contato com a lama, muitos relatam mal estar, tonturas, dor
de cabeça, dor na garganta. Os voluntários que faziam o atendimento
inicial das vítimas também relataram que os atingidos apresentavam
sintomas de intoxicação: tonturas, náuseas, dor de cabeça e confusão
mental.
O Ministério Público de Minas Gerais já designou cinco
promotores para investigar as causas e responsabilidade do desastre. O
promotor Carlos Eduardo Pinto informou que serão realizados testes para
constatar se a lama é tóxica.
Locais Atingidos
Município de Barra Longa – Foto: Alex de Jesus/O tempo
A
avalanche de lama atingiu o município de Mariana (sendo seus distritos
afetados: Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, Santa
Rita, Campinas, Ponte do Grama, Pedras), Barra Longa (e seu distrito:
Gesteira), Acaiaca (e seu distrito Goiabeira) e Rio Doce.
De quem é a responsabilidade?
Segundo
a própria empresa, as causas do rompimento das barragens ainda são
desconhecidas. Noticiários divulgaram a ocorrência de tremores
observados pelo Centro de Sismologia da USP (Universidade de São Paulo).
Porém, em entrevista concedida pelo professor Marcelo Assumpção, do
Departamento de Geofísica da USP à Globo News, o próprio afirmou que os
abalos foram de baixa intensidade. Foram tremores fracos que muitas
vezes não são percebidos pelas pessoas. Segundo o professor, esse tipo
de abalo pode ocorrer todos os dias e dificilmente afetariam a estrutura
de uma barragem de rejeitos.
Para o MAB, a divulgação
sistemática dessa informação parece uma estratégia da empresa para se
eximir das responsabilidades. A empresa é responsável pela construção,
manutenção e garantia de que a obra opere corretamente e em segurança.
Portanto, qualquer ocorrido é de responsabilidade da mineradora.
No
momento do acidente, a Samarco estava realizando uma obra de alteamento
na barragem de Fundão e Germano. A empresa ainda não divulgou se houve
relação dessas obras ao acidente.
A Samarco Mineração é
propriedade da Vale (50%) e da anglo-australiana BHP Billiton (50%), as
duas maiores mineradoras do mundo. No ano de 2014 a Samarco obteve um
lucro líquido de 2,8 bilhões de reais. A Vale obteve, de abril a junho
de 2015, lucro líquido de 5,14 bilhões de reais, enquanto a BHP obteve
6,42 bilhões de dólares até junho de 2015. Portanto, estamos falando de
algumas das maiores empresas do mundo. Mesmo com todo esse lucro, essas
mineradoras se negaram a investir o mínimo em segurança necessária para
evitar uma catástrofe de tamanha magnitude.
A empresa já tinha conhecimento dos riscos
No
ano de 2013 o Ministério Público Estadual encomendou um estudo a
especialistas que concluíram que fragilidades na barragem poderiam levar
ao seu colapso. Por isso, o Ministério Público demandou da Samarco a
construção de um plano de emergência e de alerta. Plano esse que nunca
foi feito. Vários atingidos de Bento Rodrigues relataram que há anos a
comunidade vinha fazendo denúncias sobre a insegurança das barragens.
Tratamento aos atingidos
Por
enquanto, o que pode ser observado é uma demora ao atendimento dos
atingidos. Não houve plano de evacuação e alerta. A empresa demorou a
levar os atingidos para hotéis, o que aconteceu apenas após o Ministério
Público ordenar a transferência do povo. Nesses casos de acidentes, as
empresas deixam a “poeira abaixar”, individualizam negociações, pagam
indenizações irrisórias frente aos danos sofridos e depois abandonam o
povo a própria sorte. Essa é a prática que pode ser observada em outros
casos parecidos.
Mobilização da sociedade e estado
Resgate de moradores em Mariana (MG) – Foto: Leo Fontes/O tempo
Logo
que foi divulgado o desastre a sociedade se mobilizou e iniciou uma
campanha de arrecadação de donativos e várias pessoas se apresentaram
para o trabalho voluntário. A prefeitura, Corpo de Bombeiros, Defesa
Civil, Polícia Militar e Civil, Governo de Estado e Governo Federal se
mobilizaram e iniciaram o atendimento aos atingidos.
Os atingidos
desabrigados foram levados à Arena Mariana, que se tornou um alojamento
provisório. Ali as pessoas faziam um cadastro, recebiam atendimento
médico inicial e os casos graves foram enviados ao Hospital João XXIII
em Belo Horizonte através de helicópteros. A presença e atuação da
Samarco foi tardia.
Ainda existem riscos
O
complexo de barragens de rejeito onde estavam localizadas as barragens
de Fundão e Santarém também possui mais uma barragem: Germano.
A
barragem de Germano não apresenta indícios de rompimento, porém o corpo
de Bombeiros não descartou a possibilidade de ruptura, que multiplicaria
a catástrofe. Essa terceira barragem é duas vezes maior que as duas
barragens que se romperam. A população já foi alertada e as atividades
na mina da Samarco estão paralisadas.
Trabalho do MAB
Militantes do MAB conversam com autoridades sobre os direitos dos atingidos. Foto: Rafaela Dotta – Brasil de Fato
Nesse
sábado, o Movimento dos Atingidos por Barragens seguiu fazendo o
trabalho de acompanhamento das autoridades no resgate e atendimento às
vítimas, e o trabalho de organização das famílias atingidas. Esse
trabalho é fundamental para o empoderamento da população. Para que os
direitos do povo não sejam atropelados e os atingidos não sejam
esquecidos, a luta e organização se fazem necessárias.
Militantes
do MAB acompanharam o trabalho das autoridades, conversaram com
atingidos resgatados na Arena Mariana, conversaram com atingidos nos
hotéis onde foram alocados, realizaram reuniões com organizações locais e
seguem apurando os fatos para contribuir na organização da população
atingida.
No dia 12/11 o Movimento dos Atingidos por Barragens,
juntamente com lideranças da Igreja, irá realizar a caminhada pelo
Direito à Vida, com objetivo de solidarizar as famílias atingidas e
reforçar que as empresas responsáveis paguem pelo dano causado a vida do
povo. A caminhada será fechada com um debate sobre os direitos dos
atingidos e a responsabilidades do acidente.
No dia 17/11 está
previsto um debate público em Belo Horizonte reunindo atingidos,
governos, parlamentares, sindicatos, movimentos, Igrejas e pastorais
sociais para discutir as responsabilidades pelo ocorrido e como ficará a
situação das famílias em Mariana e nas outras cidades da região.
O
MAB também cobra respostas da empresa sobre o que será feito em relação
aos impactos nas cidades de Minas Gerais e Espírito Santo que são
banhadas pelo Rio Doce, sobretudo as que tiram água diretamente do rio
para o abastecimento.