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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Lançamento do livro: Mulheres na Luta Armada - de Maria Cláudia Badan Ribeiro - Adriano Diogo fez uma transmissão ao vivo



https://www.facebook.com/100007199266659/videos/2147799065470048/?notif_id=1534540314327862&notif_t=live_video_explicit



http://www.alamedaeditorial.com.br/livros-alameda/pre-venda-mulheres-na-luta-armada



Protagonismo feminino na ALN (Ação Libertadora Nacional)

Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN (Ação Libertadora Nacional), de Maria Cláudia Badan Ribeiro, chega preenchendo algumas lacunas importantes para o estudo e compreensão dos anos e atos de resistência à ditadura de 1964.

Houve um momento em nosso país em que a única oposição aberta ao sistema eram as ações armadas de guerrilha urbana, desencadeadas a partir de 1967 até 1973, seis anos de enfrentamento frequentemente ignorados pela história oficial. Seja escrita pela direita, seja pela esquerda institucional.

Geralmente os relatos e análises do período falam do golpe de estado, das lutas estudantis, chegam à passeata dos cem mil e à promulgação do AI-5, pulando descaradamente para as lutas pela anistia e as greves do ABC no final dos anos 70, e a chamada redemocratização.

Os anos de luta armada ficam escondidos atrás das denúncias de torturas, assassinatos e desaparecimentos, e nada se fala da luta de Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Ana Maria Nacinovic e milhares de outras mulheres e homens que deram suas vidas pela liberdade enquanto muitos se dobravam à tirania.

As mulheres que lutaram contra a ditadura romperam com a sociedade e com suas famílias que as queriam casadas, recatadas e do lar, e foram conquistar seu espaço no mundo. Muitas vezes isso fica oculto pelas lutas feministas europeias e estadunidenses tão importantes nos anos 70.

Maria Cláudia com seu livro resgata a história da ALN, escondida pela vitimização da luta, e ao mesmo tempo expõe as vidas tão pouco contadas das mulheres brasileiras que pegaram em armas contra a ditadura.

Carlos Eugênio Paz

Sobre a autora: Maria Cláudia Badan Ribeiro é Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).


INÍCIO 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

COMANDANTE JONAS? PRESENTE! AGORA E SEMPRE!


Nesta 2ª feira (15), às 19 horas, a Câmara Municipal de São Paulo conferirá postumamente o título de Cidadão Paulistano a Virgílo Gomes da Silva, o  Jonas, dirigente da Ação Libertadora Nacional que foi um dos  mortos sem sepultura  da ditadura militar.

Preso em 1969 pelo braço militar da repressão, acabou sofrendo um dos  acidentes de trabalho  que marcaram o período: sucumbiu à violência exacerbada do primeiro dia de detenção.

Mais tarde, na virada de 1970 para 1971, as Forças Armadas decidiram exterminar os militantes que não admitiam ver eventualmente trocados por diplomatas; passaram a encaminhá-los a centros clandestinos de tortura, sem oficializar a prisão. Lá lhes arrancavam informações e depois os executavam, dando sumiço nos cadáveres.

Em 1969 a intenção ainda não era matar, embora isto frequentemente decorresse da bestialidade dos torturadores.

Eis o relato do também ex-preso político Francisco Gomes da Silva:
“Meu irmão Virgílio Gomes da Silva foi preso e morto no DOI-Codi (Operação Bandeirantes), em 29 de setembro de 1969. Virgílio era militante da ALN e estava sendo procurado pelos órgãos da repressão, aparecendo inclusive em cartazes com fotografia onde se lia  Procura-se.
Eu fui preso no dia 28 do mesmo mês de setembro, tendo passado por várias sessões de tortura, quando no dia 29, Virgílio chegou no mesmo local, ou seja Operação Bandeirantes, algemado, tendo sido preso pela equipe do Capitão Albernaz (eu, pela equipe do  Raul Careca). Eu estava sendo interrogado quando ouvi os gritos de Virgílio, que chegou algemado e estava sendo espancado, quando levou um chute no rosto, que se abriu e comecou a jorrar sangue.

Continuaram os gritos de Virgílio que estava sendo torturado para que entregasse os companheiros. Ele recusava-se a delatar e reagia xingando os torturadores. Acredito que Virgílio chegou ao DOI-Codi por volta de 11h da manhã, tendo sido assassinado por volta das 21h. O corpo foi mostrado ao Celso Horta, também preso político. Virgílio foi morto pendurado no  pau-de-arara.

Mais ou menos meia hora depois que eu soube da morte de Virgílio, através de um outro preso, o Capitão Albernaz dirigiu-se a mim, informando que Virgílio havia fugido. Ouvi comentários na prisão que os torturadores haviam retirado os olhos de Virgílio, bem como seus testículos.

Mais tarde fui transferido para o Dops e lá, um delegado cujo nome não me recordo, falou que Virgílio havia sido enterrado na quadra do Dops no cemitério de Vila. Formosa.
 Mais ou menos um ano depois, minha mãe e meu irmão Vicente foram ao cemitério de Vila Formosa e souberam através de um funcionário o local onde Virgílio estava enterrado, tendo se dirigido ao referido local que, entretanto, estava fortemente vigiado pela polícia militar, sendo que os policiais determinaram que se afastassem e não voltassem mais ao local. Os jornais publicaram que Virgílio estava foragido, quando, na verdade, já estava morto”.
Seus restos mortais, certamente removidos em seguida, nunca foram encontrados.

As provas da morte por tortura, sim, em 2004, no Arquivo do Estado de São Paulo: um laudo do Instituto Médico Legal de São Paulo, feito àquela época, com a foto de Virgílio depois de morto e suas impressões digitais. Sobre tal laudo aparece um aviso escrito à mão, com a frase "Não deve ser informado", o que comprova ter havido uma ordem para o desaparecimento do corpo e o acobertamento do homicídio.

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AS FALHAS DA 'FOLHA': COLABORACIONISMO
PEQUENAS TRAGÉDIAS
TO BE OR NOT TO BE, THAT'S THE QUESTION

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

LEMBRANDO UM GRANDE REVOLUCIONÁRIO: JOAQUIM CÂMARA FERREIRA

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Começam nesta 5ª feira (14) os eventos que marcarão o transcurso do 40º aniversário da morte, aos 57 anos de idade, do jornalista e revolucionário Joaquim Câmara Ferreira, que militou no Partido Comunista Brasileiro entre 1933 e 1967 (tendo sido barbaramente torturado durante o Estado Novo), para terminar seus dias como dirigente máximo da ALN, no ano seguinte ao assassinato de Carlos Marighella, de quem foi o braço direito.

Toledo  receberá,  in memorian,  a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, às 19h, na Câmara Municipal.

Para quem quiser conhecer melhor a trajetória desse companheiro exemplar, recomendo a obra "O revolucionário da Convicção: Joaquim Câmara Ferreira, o Velho Zinho", de Luiz Henrique de Castro Silva (2008), cuja íntegra pode ser baixada gratuitamente neste site 

Eis o trecho referente à prisão e morte de Toledo:

Joaquim Câmara Ferreira permaneceu com o grupo até quarta-feira, dia 21 de outubro de 1970. (...) Carlos Eugênio [da Paz] retirou Joaquim Câmara Ferreira de seu aparelho e ouviu deste que seu encontro com Severino [militante que tinha sido preso e reaparecera dizendo haver escapado] seria sexta-feira ao cair da noite. Então Carlos Eugênio disse: “peço oficialmente permissão para montar um esquema de segurança”.

Entretanto ouviu o seguinte de Câmara Ferreira: “sua insistência me desgosta, confio no companheiro e considero esse assunto encerrado.”

Um dos pontos que Joaquim Câmara Ferreira foi cobrir era com Renato Martinelli. Dias antes, Martinelli havia se encontrado com Câmara Ferreira, que lhe falou de uma operação na qual “nós vamos pôr fogo em São Paulo, operação Marighella não sei o quê.” Mas, como Martinelli exercia a função, naquele momento, de quadro político, Joaquim Câmara Ferreira propôs: “eu vou te dar um dinheiro e você vai pra uma missão como que me retirando de São Paulo, pra eu ir pra numa missão fora de São Paulo”.

Martinelli foi então àquele que seria seu último ponto com Joaquim Câmara Ferreira, para receber a missão e o dinheiro que lhe seria dado. Os contatos com Câmara Ferreira eram sempre diretos.
"[De acordo com Martinelli] “em 22 de outubro, já de volta a São Paulo, após ter regressado de uma viagem a Santa Catarina a mando de Câmara Ferreira, vou ao seu encontro, já pela segunda vez naquela semana. Para minha primeira surpresa, sou recebido por dois outros companheiros que haviam treinado comigo em Cuba.
"No carro que estacionou ao meu lado estavam o  Cesar  e o  Garcia. Era essa a primeira vez que me encontrava com eles no Brasil. Após os rápidos cumprimentos, me passam as instruções: 'você deve seguir em frente e entrar na primeira rua à esquerda. No percurso você encontrará o  Severino. Com ele você deve ir em frente e entrar na primeira à esquerda e continuar caminhando. Não se preocupe, companheiro, que no trajeto o Velho os encontrará. Minha resposta a essa segunda surpresa é imediata: 'Mas como, companheiros, o  Severino  não está preso no Pará?'

"Não, está aqui. Fugiu da prisão e veio para São Paulo.”
Os planos do inimigo já estavam em pleno andamento. Martinelli afirmou que, naquele momento, já havia uma quebra total no esquema de segurança da Organização. Não eram observadas as mínimas regras de segurança, e, para ele, somente a subestimação do inimigo, um pecado mortal na guerra revolucionária, pode explicar como os repressores haviam conseguido, em um período tão curto de tempo, mais uma vez chegar a um dos máximos dirigentes da ALN.
"[Conforme Martinelli] a situação era insólita, a última vez que eu havia visto o  Severino  fora ainda em Belém do Pará, no dia 7 de setembro, véspera do seu embarque para Imperatriz. Eu me lembro que caminhamos pela cidade e depois fomos comer um pato no tucupi, uma comida típica da região, em um restaurante perto do centro. Agora em São Paulo, seguindo todas as instruções dos companheiros, vou ao encontro do transfigurado 'companheiro': 'Você está bem magro  Severino, nem imagino pelo que passou'.

"'Nem fale nisso. Na rodoviária, quando fui preso, me confundiram com você. Quando percebi, sai correndo, briguei muito, mas me pegaram. Na prisão simulei o suicídio. Levaram-me para um hospital, de lá fugi... Cheguei a São Paulo de carona, de caminhão...'

"Caminhávamos, conversando sobre a   fuga, pela rua indicada, quando nos encontramos com o comandante Câmara Ferreira: 'Então companheiro, está contente com a surpresa?'

'Muito contente, uma surpresa e tanto' – respondi.
Para Martinelli, Joaquim Câmara Ferreira comete muitos erros em termos de se resguardar de uma possível prisão, tortura e assassinato. “Parece que ele tá meio desesperado, meio.. a segurança cai completamente. A coisa tá mais ou menos, os cuidados mínimos já não se toma, porque não existe um contato eu, ele e uma pessoa que fugiu da prisão. Não é assim que se trata.”

Martinelli afirma que havia uma lei na Organização chamada  Lei da Compartimentação, que tinha que ser respeitada por todos, ou seja, se fosse feita uma pergunta a um militante que fosse indevida, a resposta poderia ser diversionista. Se alguma pergunta ferisse a segurança de um militante, ele poderia dar respostas evasivas. E foi exatamente esta a tática utilizada por Martinelli neste último encontro com Joaquim Câmara Ferreira e o traidor  Severino.
"[Conforme suas palavras] entramos no carro, o Câmara Ferreira, o traidor Severino, e eu, dentro de um Fusca verde escuro parado na rua.  Severino continua falando sobre como chegou a São Paulo depois da 'fuga'”.

"Câmara Ferreira me pergunta se tenho mais informações sobre os acontecimentos e pede um relatório mais detalhado, por escrito, para aquele mesmo dia. Respondo que não é possível.

"Câmara Ferreira pergunta por quê. 'Não dá tempo para eu ir ao meu apartamento, escrever o relatório e voltar ainda hoje para São Paulo. Uma viagem de ida e volta até o litoral, e não é só isso, tenho outros compromissos e o tempo é curto. Essas praias, assim não há dinheiro que agüente'.

"'Lobato', você está exagerando, devia morar aqui em São Paulo. Vá lá, ao menos hoje, para poder escrever, se hospede em um hotel aqui em São Paulo, não tem problema, o  Severino  está hospedado em um...

"'Tá bem, Toledo, mas escrever um relatório para hoje é impossível, não dá. Mais alguma coisa?'

"A falta de preocupação e a confiabilidade excessiva dos companheiros e do próprio Câmara Ferreira com questões elementares de segurança sempre me incomodaram. Em primeiro lugar, em nenhuma hipótese o  Severino  poderia ter acesso direto ao Câmara Ferreira antes que todos os detalhes da sua  fuga  tivessem sido exaustivamente investigados, e muito bem comprovados por companheiros preparados para esse trabalho. 

"Depois, jamais ele poderia ter sido levado à minha presença, sem meu prévio conhecimento, ainda mais a um ponto a que compareceria o Câmara Ferreira. Finalmente, a minha resposta na presença do  Severino, praticamente me obrigava a falar do meu cotidiano, da região onde morava, e das dificuldades de escrever um relatório e apresentá-lo naquele mesmo dia. 

"A conversa continuou cada vez mais absurda para mim, algo nela me incomodava, não sabia o quê, talvez a bronca do  Toledo  pelo excesso de segurança pessoal. O fato é que, intuitivamente, no decorrer do encontro, havia sentido que devia me proteger... e sutilmente o fizera. 

"Não sei explicar por quê, talvez a surpressiva presença do   Severino  que causou uma situação de quebra total nas regras de segurança que eu havia incorporado ao meu cotidiano, e, quem sabe, ao estranho clima que permeou a insólita reunião. Por mais que eu havia notado a presença de um esquema de segurança no local, aquilo definitivamente não estava certo, estavam todos e tudo muito estranho.

"Finalmente, um novo encontro é marcado para o dia seguinte, 23 de outubro de 1970, creio que para as 19 horas, na rua Lavandisca, em Moema, quando eu entregaria o relatório para o Câmara Ferreira. Diferente do que dissera no interior do carro naquela manhã, extremando as medidas de segurança, não me hospedei em um hotel na capital e muito menos fui para um apartamento localizado no litoral. Posteriormente, soube que naquela noite a repressão havia realizado uma grande batida nos hotéis da cidade".
No dia 23 de outubro, com hora e pontos marcados, Joaquim Câmara Ferreira caminhou, ignorando todas as regras de segurança, para a armadilha que lhe havia sido preparada. Quando Joaquim Câmara Ferreira se encaminhava para o ponto com Tavares, as equipes do Dops circulavam em todas as áreas circunvizinhas, e a avenida já estava cercada pelo aparato policial formado pelo chefe dos investigadores do Serviço Secreto Osvaldo Machado de Oliveira (Osvaldão), o delegado Fleury, o delegado Jocecyr Cuoco e os investigadores Tralli, Campão e Donato.

No depoimento que deu a Percival de Souza, o delegado Jocecyr disse que era preciso que  Toledo  fizesse “avistamento”, isto é, Joaquim Câmara Ferreira deveria ver Tavares e, sentindo-se seguro, aproximar-se para fazer o contato. Jocecyr disse ainda que havia policiais disfarçados, e que “todos conheciam bem o lugar, porque, antes da operação um policial, Alemão, que gostava de tocar viola, havia feito fotografias da avenida e das imediações do ponto”. Foram dadas várias recomendações por Fleury de que se queria evitar o desastre da "Operação Marighella". Entre elas: “o homem é muito valioso e possui segurança reforçada”.

Conforme o mesmo delegado Jocecyr, quando Joaquim Câmara Ferreira apareceu, Campão atracou-se no pescoço dele com a força descomunal de um peso-pesado, perto de Tavares. Tralli foi ajudá-lo. Osvaldão gritando: “grampo no homem”. Neste momento, Renato Martinelli entrava pela avenida para o ponto com Joaquim Câmara Ferreira. Conforme seu relato:
“no dia seguinte, na hora combinada entro na rua, vestia um terno escuro, usava gravata e carregava uma pasta de executivo na mão, dentro dela levava o relatório contando detalhadamente os fatos que conhecia sobre as prisões de Belém do Pará. Minha aparência era a de mais um executivo que voltava para casa no fim da tarde, depois do trabalho. 

"Caminho uns trinta metros pela calçada do lado direito da rua. Como sempre nessas ocasiões, estou bem alerta, reparo num carro preto estacionado à minha esquerda, tem um casal no banco da frente e estão olhando fixamente para a frente, mais precisamente estão olhando para o horizonte. Definitivamente não estavam namorando, nem ao menos conversando estavam. Estranho e desconfio da atitude do casal, fico mais alerta ainda, diminuo os passos e continuo caminhando por mais uns vinte metros.

"De repente ouço uma puta gritaria. A confusão está acontecendo a uns 100 metros lá na frente, do mesmo lado da calçada que eu caminhava, a do lado direito. O carro com o 'casal de namorados' sai cantando os pneus em direção à confusão. A gritaria continua, não lembro de ter escutado tiros. Como precaução atravesso a rua e continuo andando, não sou o único a fazer isso. 

"Já no outro lado da rua, alcanço e passo pela operação policial sem ser notado. Eram muitos policiais, pelo menos uns oito, estavam todos de costas para mim, portavam armas de vários tipos, incluindo metralhadoras. Todos estavam no meio da rua, voltados para uma casa localizada na outra calçada da rua. Deitado na calçada, encostado e com o rosto virado para o muro da casa, vislumbro um vulto. A casa estava com as luzes acesas. Caminho mais um pouco, entro na primeira rua à esquerda, depois na próxima também à esquerda, voltando, dessa forma, por uma rua paralela à Lavandisca.

"Finalmente consigo um táxi e saio definitivamente do local: 'o senhor viu o monte de policiais na rua Lavandisca?' - perguntou o motorista. Na rua Lavandisca'. "...policiais,...não, o que houve?' - respondo. 'Parece que prenderam uns terroristas,... senhor, para onde vamos?'

"'Prenderam terroristas na Lavandisca!? Para a rua da Consolação, por favor, perto da...' Sem que eu soubesse, do outro lado da rua, a repressão assassina, contando com a nefanda ajuda do traidor José da Silva Tavares, havia logrado penetrar na organização e alcançar o nosso comandante, o companheiro Joaquim Câmara Ferreira”.
Nesse momento, segundo o delegado Jocecyr Cuoco, Tavares estava próximo e cobrou de Fleury o cumprimento do acordo firmado entre ambos: 
"Tavares estava encostado a uma parede. Toledo já estava na nossa mão. Ele disse para o Fleury, e eu ouvi muito bem: 'doutor, o nosso combinado está de pé a partir de agora'. Fleury olhou bem nos olhos dele e não disse uma palavra. Tavares falou mais o seguinte: 'cumpri minha obrigação. Não quero te ver na minha frente nunca mais'. Ele disse isso e foi saindo do local, caminhando normalmente pela calçada e desaparecendo entre as pessoas que se aglomeravam. Eu vi e ouvi isso, rigorosamente assim, como estou contando”.
(...) Após isso, Joaquim Câmara Ferreira foi conduzido para o sítio particular que Fleury mantinha arredores de São Paulo como centro particular de tortura. Joaquim Câmara Ferreira sofreu o infarto dentro da viatura policial e chegou ao sítio em condições precárias. Esse fato foi confirmado por Maurício Segall, que, juntamente com Maria de Lourdes (Maria Baixinha) haviam sido presos horas antes, e estavam no mesmo sítio sendo torturados. O motivo das torturas era exatamente saber do paradeiro de Joaquim Câmara Ferreira.
"[Conforme ele] “e aí foram para o ponto e pegaram o Toledo. Ele chegou, e aí eu estava, quando eles voltaram, eles puseram rápido na sala, porque a cama, eles levaram o  Toledo  pra cama porque o Toledo entrou ofegante, já com sinais de ataque do coração. E ele, aí foi um reboliço danado porque (...) eles precisavam entregar ele vivo pro exército, tá certo? Pra tirar dele o que pudesse e dar pro exército.
"Ele morreu. Nesse interregno, foram buscar médico. Levou tempo, eu vi, porque eu estava vendado, mas via por baixo eu vi um cara de calça branca passar e os ruídos de uma pessoa que teve ataque do coração porque eu sabia quais são os ruídos porque meu pai tinha morrido disso, eu tinha visto, eu ouvido. Ele morreu. 

"Aí, deu aquele reboliço todo e nós saímos vivos de lá. Aí eles levantaram acampamento, deixaram eu ir embora. E aí, depois, foram as coisas normais da parada Oban. Passei um tempo lá, a  Maria Baixinha  foi muito torturada, muito mais do que eu, nem tem comparação, porque ela era muito chegada ao  Toledo. Mas sobreviveu. Aí, eu fui parar na solitária do Dops, depois eu fiquei um ano preso em penitenciária e tal, nem foi tanto assim”.
Maurício Segall estava preso na solitária, e, num determinado dia, um agente de segurança o conduziu para o banho. Segundo Segall, ele lhe disse as circunstâncias da morte de Joaquim Câmara Ferreira: 
“Ele disse: 'olha o  Toledo  cumpriu o que disse. O  Toledo  dizia que ele nunca mais seria preso. Ele nunca mais seria torturado porque ele foi muito torturado no Estado Novo, né? E aí ele disse: nunca mais. E cumpriu, porque o cara disse: ele lutou tanto, quando caíram em cima dele no ponto, arrancou naco de carne da perna de tira, na base do dente, que ele teve um ataque cardíaco'".

segunda-feira, 1 de março de 2010

DISSIDENTES CUBANOS: MUITO SOFRE QUEM PADECE


Face a certas tragédias sobre as quais jornalistas e leitores cansavam de repetir o mesmo blablablá que nada resolve, Paulo Francis costumava ironizar: "muito sofre quem padece".

Caso recente do Haiti, cujos males estão diagnosticados há tanto tempo, sem que se vislumbre a mais remota possibilidade de que ocorra a mobilização de vontades e recursos necessária para as correções estruturais que se impõem.


Condenado a ser pária no mundo enquanto o mundo permanecer sob o jugo desumano do capitalismo, sua única esperança é uma transformação em escala maior. Até lá, muito continuará sofrendo porque padece...

Os reacionários agora me cobram que comprove ser mesmo defensor dos direitos humanos, posicionando-me sobre Cuba. Com seu habitual primarismo, ignoram que, longe de omitir-me, já me pronunciei na semana passada.

No fundo, trata-se de outro beco (quase) sem saída. Vamos recapitular.

Nos anos 50, a União Soviética não via com bons olhos revoluções na esfera de influência dos EUA, que pudessem lhe trazer complicações desagradáveis, num momento em que priorizava a consolidação do seu modelo político/econômico nos países que o Exército Vermelho libertara no fim da 2ª Guerra Mundial.

E a via chinesa, de formação de um exército revolucionário no campo e cerco das cidades, mostrava-se inviável na América Latina, na qual quem dominava as cidades tendia a esmagar sem maiores dificuldades as rebeliões rurais.


Aí, um pequeno grupo de abnegados conseguiu iniciar a derrubada da corrupta e sanguinária ditadura de Fulgêncio Batista com uma variação do modelo chinês: criou colunas guerrilheiras que surpreendiam o inimigo e depois embrenhavam-se nas serras, acumulando forças e conquistando aos poucos o apoio da população.

Foi uma mágica que só deu certo da primeira vez, e nas condições peculiares de Cuba, ilha que tinha como principal atividade econômica a monocultura da cana-de-açúcar e cujo tirano era particularmente repulsivo para seu povo.

Nas duas décadas seguintes, reprises seriam tentadas noutros países do subcontinente com monoculturas e ditadores repudiados, mas, havendo possibilidade de êxito, os EUA tratavam de erradicá-las com seu grande porrete, corporificado em ajuda econômica e assessoria militar.

Numa nação de dimensões continentais como o Brasil, o foco guerrilheiro se mostrou mais inadequado ainda, sendo descoberto e atacado antes mesmo de iniciar operações.

Quem conseguiu alguns êxitos foi a guerrilha urbana, principalmente aqui (vários grupos, começando pela ALN e VPR), na Argentina (ERP e montoneros), Uruguai (tupamaros) e Chile (MIR). Trinfos temporários, contudo. Causaram impacto, mas a avassaladora superioridade de forças e os métodos bárbaros do inimigo acabaram prevalecendo.

O certo é que os revolucionários cubanos, face ao embargo implacável dos EUA, sonhavam com a construção do socialismo apoiada por outras revoluções latino-americanas, mas tinham de curvar-se à evidência dos fatos, aceitando a tutela da União Soviética, que lhes dava sustentação econômica mas impunha, como contrapartida, limites de atuação no exterior.

A CRISE DOS MÍSSEIS E O MARTÍRIO DE GUEVARA

A crise dos mísseis, em 1962, foi o sapo mais indigesto que tiveram de engolir.

Depois que os EUA insuflaram a fracassada invasão da Baía dos Porcos, a URSS instalou armamento atômico na ilha, aparentemente apenas para dissuadir os norte-americanos de outras aventuras intervencionistas.

A reação estadunidense colocou o mundo à beira do apocalipse. E o acordo que pôs fim à crise pareceu um recuo humilhante da URSS, que retirou os mísseis -- embora houvesse uma cláusula não divulgada segundo a qual os EUA se comprometeram a nunca mais tentarem derrubar ou favorecer a derrubada do regime cubano.

O certo é que a imagem passada para o mundo foi de que a cavalaria botara de novo os índios pra correr.

Daí a indignação dos líderes cubanos, que foram totalmente ignorados por Kruschev enquanto negociava com Kennedy, recebendo depois a decisão como um prato feito; e a heróica iniciativa de Che Guevara, de tentar pessoalmente levantar novas revoluções, que livrassem Cuba da dependência exclusiva da URSS.

Isto também falhou e só restou a Fidel a opção de construir sua versão tropical do socialismo com todas as limitações de uma nação pequena, pobre e asfixiada pelo embargo econômico -- as quais acentuaram-se ainda mais quando as nações do antigo bloco soviético voltaram ao capitalismo.

Conseguiu alguns êxitos notáveis em educação e saúde, principalmente. Mas, não teve como oferecer prosperidade ao povo. E a experiência soviética ensina que as massas submetem-se a terríveis sacrifícios em nome de um ideal durante algum tempo, mas não por todo o tempo.

Quando os sacrifícios se tornavam rotina, sem nenhuma luz à vista no fim do túnel, a URSS resvalou para o estado policial.

Cuba não reproduziu na mesma escala os horrores do stalinismo, principalmente porque não houve cisão significativa no partido: os revolucionários de primeira hora cubanos concordaram com a mudança de rumos como resposta às circunstâncias adversas, ao contrário de boa parte da velha guarda bolchevique, que resistiu bravamente ao desvirtuamento dos ideais de 1917, até ser imolada.

Então, quem enfrentou o indiscutivelmente popular Fidel Castro não foram figuras exponenciais como Trotsky e Bukharin, mas intelectuais sem muito prestígio junto ao povo, alguns trabalhadores como Orlando Zapata e também cubanos fascinados ou teleguiados pelo capitalismo (eles existem, claro, mas é uma falácia sustentar que todos os oposicionistas o sejam).

E os irmãos Castro, com flagrantes violações dos direitos humanos desses dissidentes, têm conseguido evitar que as brisas se tornem verdadeiros ventos de mudança.

Então, de um lado eu repudio veementemente tais perseguições políticas, pois nenhum outro posicionamento é admíssivel para um homem civilizado e para um verdadeiro revolucionário; do outro, não vislumbro nenhuma possibilidade de que apenas os discursos e abaixo-assinados, mesmo transbordantes de justa indignação, venham alterar o quadro que levou à morte de Orlando Zapata.

Com o colapso físico de Fidel, os dirigentes cubanos dificilmente ousarão desmontar a estrutura do estado policial no instante em que o regime está prestes a encarar o desafio de sobreviver à sua figura mais emblemática. Alguma turbulência sempre haverá, quando a morte for anunciada. Quanta, nem mesmo eles sabem.

É claro que, se tiverem uma perspectiva de prosperidade a oferecer ao povo cubano, poderão até decidir que vale a pena correr o risco.

Daí ser este o momento em que Barack obama poderá se colocar à altura das esperanças que despertou, dando contribuição decisiva para que seja virada uma página lamentável da História.

Como? Pondo um fim ao injusto, contraproducente e odioso embargo econômico de Cuba, um abuso inominável de poder, que fere profundamente o direito de autodeterminação dos povos.

Caso contrário, o mais provável é que os dissidentes cubanos continuem muito sofrendo porque padecem, independentemente do clamor dos justos e da grita demagógica dos injustos.
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