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terça-feira, 5 de setembro de 2017
O escritor e blogueiro Fausto Brignol morreu dia 2 de setembro
http://fausto-diogenes.blogspot.com.br/
O escritor e blogueiro Fausto Brignol morreu dia 2 de setembro
Nosso amigo Fausto vivia em Bagé, Rio Grande do Sul e lutava contra um câncer.
Perdemos um grande escritor e blogueiro.
Fausto Brignol participou por um tempo deste blog, o Sarau Para Todos.
Para mim foi surpreendente poder ler suas postagens, conhecer seu enorme talento e incrível sensibilidade.
É muito triste saber que tanto talento tenha sido prematuramente perdido.
Perdemos demais quando um grande escritor como Fausto, se vai.
Nadia Gal Stabile - 05 09 2017
INÍCIO
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Silêncio... POR FAUSTO BRIGNOL
APARTAMENTO 105 - POR FAUSTO BRIGNOL
Não, não acreditei quando vi pela segunda vez aquele rosto largo me cumprimentando. Palavra que não acreditei. Ou, por outra, tinha que acreditar: ali estava ele, sorridente, olhos azuis enormes, irônicos...
Pensei primeiro: vou virar o rosto, fingir que não vejo. Mas em seguida me dei conta do absurdo de tal atitude. Talvez fosse justamente o sinal que esperava. Era inevitável que o olhasse, cumprimentasse, tomasse meu café e fosse embora. Era inevitável que, enquanto tomava meu café, ele ficasse me olhando e eu a ele - como dois cavaleiros prestes a quebrar lanças. Era inevitável que eu derramasse café no balcão - pois não se pode, ao mesmo tempo, cuidar o inimigo, tentar acender um cigarro e beber o café. E ele ali, impávido, não tão colosso assim, mas, enfim, impávido, esperando a falha, o descuido, e sempre sorridente: “não quer usar meu lenço, amigo?”.
Não quis, é claro que não quis.
Já desde ontem eu sinto que não é apenas ele, o homem do café, que me olha como quem diz “eu sei, te conheço...”. Não foi por acaso que vieram me entregar a roupa da lavanderia. Aliás, um sujeito também sorridente, também de olhos azuis, dizendo com aquele característico tom servil: “a sua roupa, senhor”. E eu espantado com a minha roupa - um smoking e duas camisas sociais de seda - quase a recebendo, quase dando gorjeta ao entregador, quase agradecendo pela entrega. Eu, que nunca tive um smoking, jamais uma camisa de seda, ali, espantado. “Mas este não é o apartamento 105, senhor?”.
Parece que todos estão sabendo onde moro. E de meus hábitos, vícios e costumes.
Hoje de manhã resolvi dar uma volta por um bairro até então desconhecido para mim, e, ao entrar num bar para comprar cigarros, o caixa foi logo me entregando um maço - antes mesmo que eu o pedisse. O ato foi tão espontâneo que não me surpreendi. Somente agora, ao unir os fatos, ao remoer tudo o que tenho feito nestes últimos três dias, é que me dei conta que o caixa do bar também tinha rosto largo, olhos azuis e sorriso irônico.
Quando decidi tirar tudo isso a limpo - pois não sou homem de deixar acontecer - percebi que eles estavam me esperando. Que sabiam que eu ia sair e o momento de minha saída. Desde o primeiro passo fora de minha porta senti estar sendo vigiado.
Primeiro foi aquele garotinho que brincava de skate no corredor do edifício. Um garotinho de cara larga, olhos azuis e óbvio sorriso irônico, que me cumprimentou: “oi, tio!”. De onde teria saído? Foi o suficiente para que eu me resolvesse abordar a vizinha da frente, obrigando-a a contar tudo. Até ela parecia que sabia que eu iria bater na porta da sua casa: por mais que eu batesse, não apareceu ninguém - embora eu não precisasse chegar muito perto para perceber as risadas abafadas do outro lado da porta.
Resolvi, então, que no café ou no bar deveria encontrar a solução, ou, pelo menos, uma explicação satisfatória. Mas não pude nem sair do edifício. No térreo, um porteiro novo - cara larga, olhos azuis, sorriso irônico - me preveniu: “parece que vai chover, senhor”.
Ignorando-o, tentei sair à rua e lá estavam eles. Nunca poderia imaginar que eram tantos.
Uma multidão que aparentava apenas tratar de seus próprios assuntos. Roupas as mais diversas, andares os mais estranhos - mas com a mesma expressão nos olhos azuis e no sorriso irônico estampado em todos aquelas caras largas, que, aos poucos, foram-se transformando em uma única e compacta cara larga, em um único e petrificado sorriso irônico, em dois imensos olhos azuis que me empurraram de volta escada acima, escada acima.
Senti que queriam me atropelar, me esmagar de vez, e foi o quanto deu para entrar no meu apartamento, resfolegando. Fiquei por muito tempo com o rosto colado em minha porta, como se quisesse ouvir meus próprios segredos... Esperando. Quando ouvi os primeiros passos no corredor comecei a recuar instintivamente, mas os primeiros passos passaram.
Tranquei tudo. Estou trancado e retrancado. Jamais sairei daqui. Resolvi tomar meu último café, fumar meu último cigarro. Depois, não sei o que acontecerá. Só tenho uma certeza: eles virão. Mais cedo ou mais tarde. Não sei se poderei encará-los novamente. Eles conseguiram todos os trunfos, mas esta última vitória eu não lhes darei: a de verem minha bela, única e perfeita cara, larga, pois tenho testa larga; olhos azuis únicos e um sorriso que alguns dizem irônico, mas que eu sei que é meu
sexta-feira, 23 de julho de 2010
QUAL É O TAMANHO DO SEU MEDO? POR FAUSTO BRIGNOL
Há quem afirme que a vida nas cidades, a vida sedentária, faz com que tenhamos mais medo. A acomodação leva ao medo. Aqueles medos cotidianos. Medo de perder o emprego, o status, a vida conhecida e rotineira, a estabilidade.
Mas, também os homens mais primitivos, morando no campo e não, necessariamente, em aglomerações, tinham medo. E o medo do desconhecido talvez tenha sido o sentimento mais forte a uni-los, na busca da auto-proteção e conforto. Mas essa união natural, à medida que as sociedades evoluíam e tornavam-se mais complexas em conhecimento e tecnologia - dividindo as pessoas em classes sociais e separando famintos de bem alimentados – deteriorou-se, fazendo com que o ser humano aumentasse os seus medos na mesma proporção em que se tornava mais antagônico em relação à natureza que o havia gerado e protegido.
Os animais não tem medo, a não ser “o medo animal” de ser devorado pelo mais forte, de ter o seu habitat invadido, coisas assim... Agem naturalmente, em harmonia com a natureza. Os homens, predadores antinaturais, devastadores da natureza, poderosos em tecnologia e em saber, vivem com medo.
Há os medos que se avultam na nossa mente: perder o amor, as amizades, o carinho dos mais próximos – porque necessitamos desse aconchego para viver. E os medos drásticos: a guerra, a perda dos entes queridos, as catástrofes, o desconhecido que poderá, a qualquer momento, nos tirar a vida e tudo o que temos. E o medo cruel, que é o medo da solidão; ou o medo pânico provocado pela própria solidão, aliada à incompreensão dos demais. Este é um medo que pode levar a universos mentais demasiado introspectivos, a prisões e fugas internas.
O medo das perdas é a principal razão de todos os medos. Porque perder tem o sentido negativo de “ser menos” e somos levados a acreditar que somos mais à medida que temos mais. Quando perdemos alguém muito próximo, alguém que é “nosso”, as nossas emoções são questionadas, desestabilizadas e o medo nos invade. Estamos sempre agarrados a coisas, situações ou pessoas que “temos”, que “adquirimos”. E qualquer perda nos provoca medo.
Todos vivemos com medo. Aqueles que dizem que não tem medo, com certeza devem sentir medo da possibilidade do medo. Em sociedades consumistas, como a nossa, sociedades selvagens, perder também tem o significado de não conseguir alcançar determinada meta. E isto, sempre em relação ao outro, que poderá alcançá-la antes. Como se a vida consistisse em alcançar metas que levam a outras metas, indefinidamente. Nestas sociedades, onde o capital tornou-se o motor da vida, viver é sinônimo de competir. E competir passou a significar ser mais que o próximo, ultrapassá-lo, vencê-lo – e sempre de maneira cruel, desleal e predadora. E o medo de perder essa corrida iníqua é o que corrompe a alma. Um medo escalonado entre classes sociais e idades.
As pessoas mais pobres tem medo de que a luta pela sobrevivência diária não seja o suficiente para sobreviverem. Na classe média, há o medo de não conseguir subir acima da média. E os burgueses lutam com seus medos de serem derrubados do seu pedestal, de não conseguirem suplantar o rival mais próximo, de não conseguirem, ao final, dominar a tudo e a todos.
E todos tem medo da velhice. Inventaram até a expressão “terceira idade” para tornar a velhice menos feia e angustiante.
Para os burgueses, a velhice parece não ser tão ruim, porque conseguem comprar todos os lazeres e prazeres; todas as bajulações. Aspiram ao supremo poder, mesmo quase às vésperas da morte, com o rosto repuxado por mil operações plásticas, quando já resolveram que o cérebro encarquilhado ficará em alguma urna de cristal. Sonham com a possibilidade de clonar-se – posto que a alma já está perdida - para preservar a sua mediocridade banhada a ouro; constroem gigantescos mausoléus para guardar seus ossos. Pensam-se deuses.
Na classe média, a velhice torna-se mais asfixiante. É quando os remédios amontoam-se nas gavetas, junto com as queixas diárias; quando são remoídas as ilusões perdidas e as possibilidades não alcançadas; quando a última esperança está nos filhos e netos, que poderão um dia, quem sabe, vir a ser burgueses – e ter uma velhice mais ilusória.
Nas classes pobres, a velhice é um desafogo da vida escrava e martirizada. Transforma-se na ante-sala da morte, na possibilidade de – “além” – todos os sonhos se tornarem realidade.
Independente da classe social e além de todos os medos cotidianos, das torturas mentais a que nos submetemos, todos temos medo da morte. É quando pensamos em ser, e no Ser. Um medo enraizado, atávico, que passa de geração para geração, porque o homem é o único animal que, mesmo sabendo que morrerá algum dia, não acredita nisso até o último instante. Os animais irracionais, ao contrário, vivem em harmonia com a natureza e a morte pertence à natureza. Mas nós usamos o raciocínio. Usar o raciocínio nos traz a dúvida e a dúvida leva ao medo.
Por isso, os cultos humanos, em sua grande maioria, reverenciam a morte e todas as religiões devem a sua existência a essa realidade que não conhecemos. E da qual temos medo e esperança ao mesmo tempo.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
NOVO AVISTAMENTO DE ORCS
Segundo fontes fidedignas, imensas hordas de Orcs atravessaram, há alguns dias, o Canal de Suez em direção ao Mar Cáspio, utilizando-se de treze grandes navios de guerra e de um porta-aviões. Ao que tudo indica, o seu objetivo é atacar a Pérsia, atualmente chamada de Irã, país que desejam destruir para evitar que se desenvolva ali uma fonte de poder que poderia impedir os seus objetivos de dominar completamente o Oriente Médio.
Os Orcs, naturalmente, apenas obedecem as ordens do Lado Escuro da Força, através de Morgoth e seus comandados, como Sauron e Saruman, que teriam sido destruídos, na última guerra pela Terra Média, pelos seres humanos defensores da Chama Imperecível, doada por Eru Ilúvatar. No entanto, não é improvável que o Grande Líder do Império do Ocidente, Bar-Homabam - da mesma forma que o seu antecessor, Gébush - seja uma nova entidade do mal, emanada por Morgoth.
OS ESCOLHIDOS
Como todos sabem, essas entidades do mal, apesar do seu imenso poder, são governadas, aqui na Terra, por seres oriundos de uma raça-religião que tem contato direto com Morgoth, a quem chamam de Grande Demiurgo. Essa raça-religião, que se autodenomina Os Escolhidos, é de origem semita, assim como a maioria dos povos que habitam o Oriente Médio. Mas grande parte do seu povo, justamente aqueles que detem o poder dentro e fora do seu pequeno país, tem a crença arraigada que são eles o povo escolhido para dominar toda a Terra. Essa crença é originária da sua mitologia religiosa, na qual aparece uma manifestação de Morgoth – ou Demiurgo, como eles preferem dizer entre si – que lhes promete o domínio sobre toda a Natureza.
Ora, todos nós - que sabemos da existência da Chama Imperecível como originadora de tudo o que existe (de todos os mundos e de todas as dimensões), que contem o poder criativo de Eru Ilúvatar como base mantenedora do Cosmo - percebemos que aquele povo está terrivelmente equivocado, porque a Natureza não pode ser dominada, sendo dever dos seres humanos buscar a harmonia e não o domínio ou a destruição.
Mas isso não impede que aquele povo oprima os demais povos à sua volta, seja através do ouro (e é deles o domínio sobre todos os bancos e entidades de crédito) ou do uso de suas forças armadas. E não só os povos à sua volta, como, também, os demais povos da Terra – através dos representantes dos impérios por eles organizados e manipulados, como o de Bar-Homabam - e, talvez, no futuro, o universo material conhecido. O seu objetivo é o poder pelo poder; a dominação pela dominação. São extremamente materialistas e agem como crianças que desejam um brinquedo a qualquer custo. Com a vantagem de que são adultos com um grande poder de barganha, obtendo sempre tudo o que desejam.
A NOVA GUERRA QUE SE APROXIMA
Todos que viram passar os milhares de Orcs, dentro dos seus grandes navios de guerra, pelo canal de Suez, em direção ao Mar Cáspio, estranharam o silêncio que aqueles seres híbridos mantiveram durante o trajeto. Porque é próprio dos Orcs – seres estúpidos, quase inconscientes, que odeiam a todos, tendo como único objetivo ferir e destruir – gritar e cantar em sua língua gutural e bárbara, quando partem para a guerra. Como o canal pertence ao Egito, acredita-se que os governantes egípcios permitiram a passagem das embarcações dos Orcs do império de Bar-Homabam, do qual são aliados, mas suplicaram o silêncio das hordas de Orcs durante o trajeto. Tanto é assim, que testemunhas afirmaram que logo após os navios transporem aquele trecho de mar, os Orcs começaram a cantar uma estridente canção de guerra – se canção pode ser chamada – intraduzível para ouvidos de humanos normais, mas que repetia, como refrão, uma espécie de grito, que soava mais ou menos assim: “iésuíken”.
Algumas das testemunhas acreditaram que os Orcs, através daquela suposta canção, estariam pedindo uísque – uma bebida estimulante muito apreciada no império de Bar-Homabam – mas logo descartaram essa hipótese ao lembrarem que Orcs, assim como Nazguls e demais seres híbridos, criados por Morgoth e seus seguidores devotados do Lado Escuro da Força, também usam uísque, mas, nas guerras, preferem injetar em suas veias soluções químicas sintetizadas de plantas especiais, o que lhes dá uma sensação de invencibilidade, fazendo com que caminhem para a morte sem temor.
O que se soube depois – e não foi surpreendente, mas assustador – é que além das imensas hordas de Orcs do império de Bar-Homabam, armadas com dispositivos bélicos de alta destruição, a elas se juntariam, já no Mar Cáspio, tropas de elite do temível exército d’Os Escolhidos. É sabido – também por fontes dignas de fé – que aquele povo desenvolveu uma nova tecnologia militar que incluiria a total ausência de emoções humanas de seus efetivos.
Como Os Escolhidos não aceitam Orcs e outros seres híbridos ou mercenários em seu exército, porque acreditam que a perfeição pertence ao seu sangue, estariam preparando soldados especiais, imunes a quaisquer sentimentos ou sensações consideradas humanas. Esses soldados não hesitariam em matar e destruir, desde que recebam ordens para isso, usando todas as armas que julguem necessárias, incluindo as nucleares, porque consideram os demais seres humanos como inferiores que devem ser escravizados ou destruídos.
Segundo as últimas informações, a assim chamada mídia oficial, que são os meios de comunicação do mundo inteiro inteiro dominados por executivos do império de Bar-Homabam, que, por sua vez, são manipulados pela elite d’Os Escolhidos, estaria encobrindo essas manobras militares ao dar especial ênfase àquilo que foi denominado Copa do Mundo de Futebol - uma modalidade esportiva onde 11 jogadores de cada lado chutam uma bola de couro. Ao contrário de outras ocasiões, quando o império atacou, destruiu e ocupou diversos países indefesos, com o objetivo de roubar os seus minérios, ocasiões em que a mídia televisiva esteve presente, mostrando o lado colorido dos ataques bélicos, desta vez a estratégia parece ser outra.
Percebendo que o anúncio antecipado daquelas guerras anteriores, e, depois, o televisionamento dos bárbaros ataques que mataram e mutilaram milhares de seres humanos, provocou uma imensa reação negativa em todo o resto do mundo ainda não totalmente dominado, o império prefere, agora, atacar primeiro para mostrar, depois, apenas cenas maquiadas e escolhidas por seus verdadeiros senhores, Os Escolhidos. Esperam, dessa maneira, atrair menos ódio dos povos que poderão ser os próximos alvos, e uma menor reação da comunidade internacional, uma vez que se trataria de uma reação tardia ante o inevitável.
Ainda resta a esperança de que essa guerra não venha a acontecer de imediato. Mas o fato do exército d’Os Escolhidos estar se unindo aos milhares de Orcs do império torna essa esperança mais remota, porque é notória a insensibilidade e a ganância d’Os Escolhidos.
FAUSTO BRIGNOL
http://fausto-diogenes.blogspot.com/
FAUSTO BRIGNOL
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
A CORRUPÇÃO NOSSA DE CADA DIA
Deixei passar alguns dias, para não ser levado pelo momento, mas, depois que o Sport TV, na terça-feira, 22, elegeu o gol (aquele!) do Luis Fabiano como um dos três mais bonitos da segunda rodada da Copa do Mundo (aliás, o mesmo canal que durante o seu noticiário esportivo coloca uma apresentadora, com a bandeira dos Estados Unidos tremulando atrás, como parte do cenário), não pude deixar de escrever as mal traçadas, que seguem.
Como jornalista, sei que esta profissão é a que mais influencia na formação de opiniões, e formar opiniões em um país como o Brasil, com milhões de pessoas que não sabem ler ou escrever e outros tantos milhões de analfabetos funcionais (pessoas que sabem ler e escrever, mas não entendem claramente aquilo que está escrito, com mínima capacidade de decodificar frases, sentenças e textos), é uma imensa responsabilidade. Maior, ainda, esta responsabilidade, se levarmos em conta as péssimas condições de ensino, principalmente após a celebração do acordo MEC/USAID, durante a ditadura militar, o que fez dos nossos estudantes robôs alienados sob a tutela da cultura estadunidense.
Pior, muito pior ainda, se lembrarmos que esse processo de aculturação, além de tornar os jovens (e, até, muitos adultos) imbecilizados, enfraquece as raízes da nossa cultura e nos torna subservientes, mentalmente, a tudo o que venha dos Estados Unidos... E acrescente-se a tudo isso o fato de que os principais meios de comunicação brasileiros (senão toda a mídia) pertencem a grupos de empresários estreitamente aliados a grupos estadunidenses, cujo único interesse é fazer do Brasil uma filial cultural dos Estados Unidos, teremos uma idéia, mesmo que pequena e superficial, do que acontece com a mente dos brasileiros, todos os dias, no momento em que ligam uma televisão, abrem seus jornais e revistas, ouvem rádio ou entram na Internet.
De alguns anos para cá temos assistido a uma intensa atividade da Polícia Federal, que, cumprindo a sua missão, tem prendido as mais diferentes quadrilhas de corruptos. (É claro que nem todos continuam presos, como no caso Daniel Dantas, que ficou notório). Muitos interpretam mal essa atividade, pensando que os casos de corrupção estão acontecendo agora. A verdade é o contrário: agora é que a PF brasileira tem agido com seriedade, apesar das múltiplas pressões que sofre. E porque tem agido assim, aparece parte da nossa realidade corrupta.
Mas o que a maioria das pessoas não se pergunta é porque o Brasil tornou-se um país sinônimo de corrupção.
Se analisarmos com isenção a história do Brasil, veremos que a corrupção nasce nas classes dominantes, dentro dos grupos de poder, desde a época do Império, passando pela República Velha, com um breve recuo na Era Vargas, que tentou ser nacionalista, mas recrudescendo após JK e intensificando-se durante os anos da ditadura militar e até agora.
A corrupção nasceu dentro dos grupos de poder, ou seja, dentro daqueles grupos que detêm o capital, usufruindo de latifúndios, construindo indústrias, monopolizando os meios de comunicação, manipulando os seus representantes no poder constituído. E a luta entre esses grupos, que depois se dividiram oficialmente em partidos políticos, sempre teve como fator comum a deslealdade. E a deslealdade leva à corrupção. Quem tem mais dinheiro, ganha. E, é claro, sempre devido à semi-escravidão do povo, porque nada pode ser construído sem a força do trabalhador, não existe agricultura sem o camponês ou estâncias sem peões. Junte-se a isso a favelização e marginalização dos desempregados e temos um feio retrato do Brasil.
Mas este nosso Brasil ficou mais feio ainda quando a cultura da corrupção se espraiou para as classes mais baixas. Aquelas classes que deveriam ser as responsáveis pelas mudanças nas estruturas do poder, passaram a se espelhar nas atitudes dos donos desse poder. E isto é clássico no capitalismo, pela falta de opções dos pobres que procuram seguir o exemplo das classes possuidoras. E mais ainda em países, como o nosso, em que o povo absorve diariamente lições de autofagia, através dos meios de comunicação (ao passarem a idéia, de maneira explícita ou subliminarmente, que somos um povo inferior, com cultura mesquinha), que vendem a cultura importada como sendo a única boa e verdadeira.
Dentro da nossa “cultura popular”, surgiu o “jeitinho brasileiro”. Foi quando as pessoas passaram a acreditar que, se não podem conseguir as coisas legalmente, sempre haverá um jeito de alcançar os seus objetivos. E esse jeito passa pela pilantragem, pela esperteza. Aquele que consegue passar a perna no outro é considerado melhor, mais inteligente. Com o “jeitinho brasileiro”, surgiu a cultura da malandragem e até foi criada a figura do malandro: finório, bem falante, arrumadinho, eternamente não-empregado, mas ganhando dinheiro à custa da boa-fé do próximo, figura que foi encampada e promovida imediatamente pelos Estados Unidos, quando Walt Disney criou o “Zé Carioca” como estereótipo do brasileiro.
Aqueles que manipulam as mentes dos brasileiros gostaram muito daquela “criação”. Afinal, a partir de então encontraram uma boa desculpa para a pobreza do povo no Brasil: o brasileiro é que é preguiçoso, não quer trabalhar, não se esforça e gosta de bancar o malandro. Uma desculpa que vem se eternizando e até é aceita por pessoas engajadas, como parte do que entendem por cultura brasileira.
É a lei da repetição aplicada à nossa realidade. Se você repetir uma mentira constantemente, as pessoas passarão a acreditar que é uma verdade. E pegou. De tanto ser repetida pelos midiáticos de plantão, grande parte dos brasileiros passaram a acreditar que quando cometem uma infração que dá certo, não é um erro de comportamento, mas uma esperteza, uma malandragem. Até a palavra “malandro” é malandra – pressupõe uma pessoa esperta, que lesa os outros por culpa dos lesados. Assim, surgiu a palavra “otário”, que seria aquele ingênuo que se deixa levar pela lábia do malandro. Daí, para maiores corrupções é um passo. A inversão de valores leva a pensar que o verdadeiro, o correto, é ser malandro. E ser malandro é ser corrupto.
Temos no Brasil a cultura da malandragem, que nada mais é que a cultura da corrupção. Há casos famosos, como o de Ademar de Barros, que, quando acusado de corrupção, teria dito: “eu roubo, mas faço”. E o povo adorou. Ademar de Barros sempre foi bem votado. E tantos outros, que, se eu fosse nominar agora não terminaria nunca este texto. Mas vou citar apenas mais um exemplo. Conversando com uma pessoa de fora de minha cidade, perguntei como estava indo a política do seu prefeito. Ela respondeu que o prefeito parecia bom, mas que o anterior tinha sido melhor, mais esperto, porque tinha comprado duas estâncias em outro país, enquanto o atual ainda não tinha feito nada parecido. E completou: “que se saiba, é claro, hehe...”. O prefeito anterior tinha virado herói; o atual, quem sabe...
Devido a esta cultura da malandragem, que faz com que o Brasil não seja um país sério – como disse Charles De Gaulle, certa vez – é que eu entendo porque os ícones da mídia futebolística, que tem uma audiência gigantesca, quase estão idolatrando o Luis Fabiano porque fez um gol usando os dois braços. A desculpa é que: “mesmo assim, foi um golaço!”. Uma total inversão de valores, porque o que é errado, irregular, não pode ser belo ou bom.
E assim eles vão deseducando o povo brasileiro, com pequenas frases, expressões jogadas ao acaso, sem pensarem nas conseqüências do que dizem, ou, em outras vezes, de caso pensado.
E o povo brasileiro está à mercê dessa mídia, não só dos especialistas em futebol, mas, também, os de outros setores. Observem como eles dizem “a seleção americana” e não “a seleção estadunidense” - que é o correto. É de caso pensado e não um mau hábito, como fica insinuado. Vejam aquela propaganda em que o locutor diz: “Vai Brasil”, quando está escrito “Go Brasil”. É por acaso? A verdadeira dominação somente acontece quando a língua do dominador passa a ser a língua oficial. E eles, os jornalistas da chamada “grande mídia”, trabalham para que isso venha a acontecer. São pagos para isso, pelos seus patrões. Estão dentro do esquema – ou deverei dizer: “dentro do establisment”?
POR FAUSTO BRIGNOL
POR FAUSTO BRIGNOL
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