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sábado, 10 de setembro de 2011

COMPANHEIRO ALLENDE? PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

Por Celso Lungaretti


Há duas efemérides marcantes neste domingo, 11 de setembro.

A menos relevante para nós  é aquela que a mídia colonizada trombeteia ad nauseam: o décimo aniversário de um atentado nebuloso nos EUA, com grande possibilidade de ter sido urdido ou, ao menos, consentido pelos que depois surfaram na onda da indignação provocada. Algo como uma versão atualizada do incêndio do Reichstag.

O certo é que deu pretexto para o desencadeamento de uma escalada repressiva/intervencionista que fez lembrar a intolerante e paranóica década de 1950 -- aqueles anos terríveis do macartismo e da guerra fria.

Os efeitos da pirotecnia atribuída a Osama Bin Laden, contudo, pouco se fizeram sentir no Brasil -- ao contrário dos de um atentado que golpeou duramente as aspirações dos povos latino-americanos, destruindo um dos mais generosos experimentos socialistas do século passado. 

Deixando de lado a pauta da imprensa espiritualmente satelizada pelo Império (*), eu quero mesmo é reverenciar um dos maiores heróis da nossa sofrida América Latina: Salvador Allende, o  compañero presidente.

Que nunca pretendeu, no poder, ser nada além de outro militante revolucionário, como todos os seus companheiros de jornada na luta por um Chile com liberdade e justiça social.

E que, naquele terrível 11 de setembro de 1973, não aceitou curvar-se aos tiranos, preferindo a morte digna à fuga indigna que lhe ofereceram.

Então, as palavras que endereçou ao povo pelo rádio, na iminência do martírio, inspirarão para sempre os combatentes por um mundo redimido do pesadelo capitalista:
"Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo: tenho certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser extirpada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens se levantarão depois deste momento cinza e amargo em que a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, bem mais cedo do que tarde, vão abrir-se de novo as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor".
* E que ninguém venha me falar em números redondos e quebrados: aposto até meu último centavo que, em 11 de setembro de 2013, a mídia servil dará muito mais destaque aos 12 anos do atentado ao WTC do que aos 40 anos da morte de Allende.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DITADOR SÍRIO É CLONE DE PINOCHET


Bashar al Assad: a mesma carranca...
O ditador sírio Bashar al Assad esmera-se em imitar, detalhe por detalhe, o carniceiro chileno Augusto Pinochet: seu regime genocida não só liquidou o Victor Jara do seu país, como está despejando presos políticos em estádios de futebol.

Compositor e cantor de músicas que combinavam ritmos folclóricos com mensagens de protesto, Jara lembrava muito o nosso Geraldo Vandré, também assassinado por uma ditadura bestial, embora por outros meios: dele só exterminaram a alma, deixando o corpo a perambular como zumbi.

Já do expoente máximo da  Nueva Canción Chilena  os militares ensandecidos tiraram também a vida.

O  pinochetazzo  o surpreendeu na universidade, sendo lá sequestrado pelas tropas golpistas, juntamente com outros alunos e professores.

Levaram-no ao Estádio Chile (não confundir com o Estádio Nacional do Chile), onde eram amontoados os seguidores do presidente legítimo Salvador Allende. Uma boa idéia dos horrores que lá tiveram lugar é dada no filme O Desaparecido - um grande mistério (d. Costa Gravas,  1982), cujas sequências mais chocantes são as que mostram as pilhas de cadáveres dos cidadãos executados pelos fascistas.

A versão mais difundida da morte de Jara é a que aparece em outro filme, Chove Sobre Santiago (1976), do chileno Helvio Soto: ele é desafiado a cantar para seu público, reunido nas arquibancadas do estádio sinistro -- e o faz. Então, os verdugos o espancam até a morte.

Seu corpo foi exumado em 2009, quando ficou comprovado que realmente esmagaram-lhe as mãos a coronhadas.

Teve seus restos mortais atirados num matagal de beira de estrada, mas acabaram sendo encontrados e levados à câmara mortuária. Depois que a esposa o identificou, foi enterrado no Cemitério Geral de Santiago.

...e a mesma bestialidade de Pinochet.
Enfim, tratou-se de um destino bem semelhante ao que acaba de ter o músico sírio responsável pelo  hino  das manifestações contra a tirania do seu país -- cujo título, numa tradução livre, seria 'Pede pra sair, Basher'.

O cadáver do autor da canção, Ibrahim Qashoush, apareceu boiando num rio, no início do mês passado.

Agora, chega a notícia de que as tropas do ditador sírio estão invadindo casas num distrito sunita do porto de Latakia, prendendo pessoas às centenas e as levando para os estádios da Cidade Esportiva de al-Raml, sede dos Jogos Mediterrâneos na década de 1980.

"Os estádios da Cidade Esportiva estão servindo de abrigo para refugiados, para impedir que eles fujam de Latakia e, tal qual vimos em outras cidades atacadas, também como um centro de detenção", disse o diretor do observatório Rami Abdelrahman à agência Reuters.

Os relatos de torturas provêm de todos os lados. Só não foram confirmadas, por enquanto, execuções nos estádios-masmorras.

É só o que falta para Bashar al Assad igualar-se a Pinochet em tudo e por tudo.

Quanto à presidente Dilma Rousseff, o que falta é ela confirmar a alardeada priorização dos direitos humanos, repudiando a ditadura síria com a mesma firmeza adotada em relação à congênere iraniana.

Afinal, para quem é ou foi revolucionário(a), não importa o sexo da vítima ou se a forma de execução é particularmente cruel (caso do apedrejamento). Temos o dever moral de nos posicionar contra as matanças, a barbárie e o despotismo em si mesmos, sob quaisquer circunstâncias e independentemente das conveniências econômicas.
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

É PRECISO REAFIRMARMOS: TORTURA NUNCA MAIS!


Vamos supor que um cidadão decente tome conhecimento da existência de um prisioneiro submetido há nove anos ao confinamento mais impiedoso e destrutivo, na maior parte do tempo sob o famigerado  Regime Disciplinar Diferenciado, assim descrito por Carlos Lungarzo, professor universitário que há mais de três décadas milita na Anistia Internacional:
"O RDD é um simples sistema de tortura, que se diferencia do clássico por não haver utilização de ação direta sobre o corpo da vítima, mas cujos efeitos são comparáveis.

O RDD restabelece oficialmente a tortura, (...) só que sob a hipocrisia de evitar a palavra tortura. Os efeitos dolorosos (que são procurados pelo torturador) estão todos presentes no RDD: isolamento de som, ausência de luz natural ou hiperluminosidade, bloqueio de funções motrizes com a mecanização de todos os movimentos do preso (como portas que são abertas de fora, e que impedem o detento girar uma maçaneta, contribuindo para a atrofia muscular), perda da noção de tempo e obliteração da memória em curto e médio prazos, o que acaba mergulhando a pessoa numa autismo irreversível.
 ...A prisão perpétua normal pode acabar algum dia. Mas ninguém pode repor-se de um suicídio ou de uma psicose profunda irreversível".
Isto indignaria qualquer ser humano digno deste nome e, muito mais, um militante de esquerda.

Mas, e se a vítima de tal tratamento cruel e degradante se chamar Mauricio Hernández Norambuena?

Aí poderá pesar mais o fato de o chileno Norambuena ser um personagem histórico com o qual boa parte da esquerda brasileira não aceita ter a mais remota identificação.

Ele pegou em armas contra a ditadura de Augusto Pinochet e não as depôs quando sua pátria se redemocratizou. Adiante, liderou o sequestro do publicitário Washington Olivetto em São Paulo, cujo resgate seria em dinheiro (uma heresia para os guerrilheiros daqui, pois só admitíamos o recurso à prática hedionda do sequestro em circunstâncias extremas, para salvar companheiros da tortura e da morte - "vida se troca por vida" era nosso lema).

Por mais que seus defensores aleguem motivação idealista, há forte possibilidade de que o objetivo fosse apenas o proveito pessoal.

Foi o que concluiu o Supremo Tribunal Federal, ao autorizar a extradição de Norambuena -- não consumada apenas porque o Chile se recusou a reduzir sua pena (prisão perpétua) ao máximo admitido pelo Brasil (30 anos).

Carlos Lungarzo e eu estamos nos posicionando -- e conclamando os companheiros e as pessoas com espírito de justiça a se posicionarem -- pelo cumprimento da sentença de Norambuena em condições aceitáveis numa democracia, bem como pela imediata extinção do aberrante e fascistóide RDD.

Não se trata de solidariedade revolucionária nem de uma convicção íntima de que o preso seja inocente, como no Caso Battisti. Longe disto. Ambos reconhecemos a culpa de Norambuena e não questionamos o veredicto judicial. Mas, nem um cão merece o tratamento que lhe estão impondo.

Precisamos ter a coragem de defender os princípios e valores corretos, mesmo que isto possa nos acarretar impopularidade.

Em 1914, quando a avassaladora máquina de propaganda burguesa exacerbava os sentimentos belicosos das massas e mesmo alguns líderes socialistas preferiam oportunisticamente apoiar  seus  governos no esforço guerreiro, Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo tiveram a dignidade de, arriscando-se até ao fuzilamento, exortarem os trabalhadores a não atirarem nos seus irmãos de outros países.

Da mesma forma, perderemos toda autoridade moral para exigirmos a punição dos torturadores dos  anos de chumbo  se consentirmos na tortura maquilada que Norambuena está sofrendo e na tortura convencional que continua a grassar em escala desmedida nas delegacias e presídios brasileiros.

A tortura que devemos repudiar é toda e qualquer tortura, não apenas a que atinge aqueles com quem simpatizamos.

SOBRE O MESMO ASSUNTO, LEIAM TAMBÉM O ARTIGO 
DE CARLOS LUNGARZO BRASIL: TORTURAS MEDIEVAIS
 

sábado, 11 de setembro de 2010

COMPANHEIRO ALLENDE? PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

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Hoje é dia de reverenciarmos Salvador Allende, o  compañero presidente.

Que nunca pretendeu, no poder, ser nada além de outro militante revolucionário, como todos os seus companheiros de jornada na luta por um Chile com liberdade e justiça social.

E que, naquele terrível 11 de setembro de 1973, não aceitou curvar-se aos tiranos, preferindo a morte digna à fuga indigna que lhe ofereceram.

Então, as palavras que endereçou ao povo pelo rádio, na iminência do martírio, inspirarão para sempre os combatentes por um mundo redimido do pesadelo capitalista:
"Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo: tenho certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser extirpada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens se levantarão depois deste momento cinza e amargo em que a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, bem mais cedo do que tarde, vão abrir-se de novo as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor".

segunda-feira, 1 de março de 2010

Usuários de redes sociais se mobilizam em prol do Chile

    27/02 - 17:46 - Ligia Helena, iG São Paulo

O terremoto de magnitude 8.8 que abalou o Chile tem grande repercussão nas redes sociais, que se mobilizam no sentido de ajudar as vítimas do sismo.


No serviço de microblog Twitter, “Chile” é a palavra mais escrita e o terremoto o assunto mais comentado do dia. O site está sendo usado por quem procura por amigos e parentes que estão no Chile, para envio de informações sobre a catástrofe e também para o envio de mensagens de apoio e oferta de ajuda.
A Cruz Vermelha chilena utiliza sua conta no Twitter para orientar as vítimas do terremoto e pedir auxílio e doações. Entre as orientações estão: não sair de casa desnecessariamente; não deixar para a última hora a compra de alimentos para estocagem e tomar precauções antes de religar o gás em casa.
A conta Ayuda Chile foi criada especialmente para contatar familiares e amigos que estejam no Chile. Os interessados enviam uma mensagem para o usuário @ayudachile dizendo quem gostariam de contatar e têm seus nomes divulgados. Em seis horas a conta já reunia mais de 2500 seguidores dispostos a ajudar.
Além disso, internautas como Joanna Helm, arquiteta brasileira que está no Chile, dão informações em tempo real sobre o que acontece no país. Joanna avisa a cada réplica do terremoto e relata o acontecido: “Estou em Santiago, no segundo bairro mais atingido. Os vidros do prédio estão quebrados e tudo rachado. Nos dizem para ficar em casa porque os escombros que caem são mais perigosos, as árvores... o prédio onde estou tem boa estrutura”. Joanna também enviou seu relato para o iG pelo site Minha Notícia.
Ainda no Twitter, contas ligadas a institutos de sismologia indicam em tempo real onde estão acontecendo terremotos e a magnitude de cada um. No Twitter Earthquake, do instituto de pesquisa geológica dos EUA, o terremoto do Chile foi registrado aproximadamente às 4h, horário de Brasília. Lá pode-se ver todos os tremores subsequentes.
O Google pôs no ar um site chamado Chile Person Finder, que tem como objetivo listar pessoas que estejam sendo procuradas por suas famílias e amigos. Caso alguém precise localizar uma pessoa que esteja no Chile, basta acessar o site e procurar pelo nome dela. Junto do nome será informado o status: se a pessoa já foi localizada ou não. Caso o nome da pessoa não conste da lista, ele pode ser inserido no banco de dados.

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2010/02/27/usuarios+de+redes+sociais+se+mobilizam+em+prol+do+chile+9411552.html

Google lança ferramenta em prol das vítimas do terremoto do Chile

Publicado: Segunda-feira, 1 de março de 2010

por Renan Pereira


O programa já conta com mais de 36 mil dados de internautas.
O Google disponibilizou no dia 27 de fevereiro uma ferramenta de busca on-line para ajudar a localizar vítimas do forte terremoto ocorrido recentemente no Chile. O programa já conta com mais de 36 mil dados de internautas e o objetivo é fazer com que familiares das vítimas não fiquem dependentes somente das autoridades locais.

O "Person Finder: Chile Earthquake" está disponível no endereço chilepersonfinder.appspot.com e permite acesso em inglês ou espanhol. A ferramenta pergunta pela localização dos usuários e em seguida dá as seguintes opções: “Estou à procura de alguém" ou "Tenho informação sobre alguém". O objetivo é que estas alternativas facilitem o modo de busca.

Além disso, os internautas têm a possibilidade de fazer buscas através do nome do desaparecido ou mesmo por outras informações fornecidas por outros usuários. Os dados podem ser acessados e postados por qualquer um; por este motivo, não há como checar se as informações fornecidas são verdadeiras.

Vale lembrar ainda que uma ferramenta parecida foi lançada para localizar vítimas do recente terremoto no Haiti. Na ocasião, 58.700 pessoas se cadastraram no programa.
A localização de pessoas não é o único foco do Google, a empresa também lançou outro programa inteligente, trata-se do “Crisis Response”. A ferramenta permite que qualquer pessoa faça doação para instituições como a UNICEF, órgão que trabalha em prol da população local.


http://www.itu.com.br/economia-negocios/noticia/google-lanca-ferramenta-em-prol-das-vitimas-do-terremoto-do-chile-20100301

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

TRÊS ANOS SEM PINOCHET: QUE ALÍVIO!

Comemora-se na próxima semana o terceiro aniversário da morte de um dos mais sanguinários ditadores latino-americanos em passado recente: Pinochet.
Numa contribuição para manter viva a lembrança dos atentados contra a liberdade, pois o conhecimento das tragédias históricas é fundamental para evitarmos a repetição desses horrores, republico o artigo que escrevi na ocasião.

Que sirva como alerta -- mesmo porque o péssimo desfecho da crise hondurenha é indício inquietante de que o ciclo do golpismo não está encerrado entre nós. Recaídas são sempre possíveis.

Aliás, foi a advertência que o chileno Luis Advis lançou em 1969, relembrando um massacre do passado em sua extraordinária Cantata Santa Maria de Iquique: "Ustedes que ya escucharon/ la historia que se contó/ no sigan allí sentados/ pensando que ya paso/ (...) quizás mañana o pasado/ o bien en un tiempo mas/ la historia que han escuchado/ de nuevo sucederá...".

Sucedeu. Como em 1907, também em 1973 "murieron tres mil seiscientos/ uno tras otro./Tres mil seiscientos mataron/ uno tras otro".

E poderá suceder de novo, se não estivermos sempre atentos e determinados a esmagar os ovos da serpente.

VIVA A MORTE!

Durante a Guerra Civil espanhola, os fascistas de Franco zurravam “abaixo a inteligência, viva a morte!”. A um ser humano equilibrado dificilmente ocorreria ovacionar a morte... exceto quando a ceifadora nos livra de alguém tão nocivo e vil quanto Augusto Pinochet Ugarte.

Ele conquistou merecidamente o primeiro lugar dentre os ditadores sanguinários latino-americanos: foi quem melhor personificou a monstruosidade dos regimes militares que se abateram sobre a região nas décadas de 1960 e 1970.

Nomeado chefe do Exército por Salvador Allende, tramava o golpe militar na surdina enquanto hipocritamente garantia ao presidente que a ordem seria mantida a qualquer preço e que sua corporação era leal à Constituição.

A tomada de poder foi a mais dramática daquele período: o bravo Allende entrincheirou-se com sua guarda pessoal e os assessores mais leais no Palacio de la Moneda, que os golpistas atingiram com obuses e depois invadiram. Aparentemente, Allende morreu com uma metralhadora na mão, resistindo aos militares desleais. Há quem diga que foi executado.

Ao massacre na sede do poder seguiu-se outro episódio que será sempre lembrado como um dos mais repulsivos do ciclo militar: dezenas de milhares de presos políticos amontoados num estádio de futebol. E a execução pública do extraordinário Victor Jara, cantor e compositor em muito semelhante ao nosso Geraldo Vandré.

Tentando humilhá-lo, os verdugos desafiaram-no a cantar para seus fãs naquele momento. Foi o que o altivo Jara fez, enquanto era espancado até a morte, tendo os companheiros como testemunhas impotentes de sua imolação.

Mais de 3 mil pessoas mortas, 28 mil torturadas, dissidentes assassinados até no exterior: esse banho de sangue jamais será esquecido.

Emblematicamente, o grande poeta Pablo Neruda, Prêmio Nobel de literatura, morreu logo após o golpe, com suas enfermidades agravadas pelo imenso desgosto.

A Unidad Popular estava longe de realizar um governo radical. Tendo como principais forças os socialistas e os comunistas de linha soviética, fazia algo semelhante às reformas de base de João Goulart e nacionalizava uma ou outra empresa estrangeira espoliadora.

Sua desestabilização foi uma clara reedição esquema golpista brasileiro, acrescida de um toque de mestre: o suborno aos caminhoneiros para que promovessem um interminável locaute, de forma que sempre estivessem faltando alguns itens nas prateleiras dos estabelecimentos comerciais. A consumista classe média chilena foi levada à loucura.

Trata-se da quartelada em que ficou mais evidente a instigação e o apoio financeiro dos EUA. Decididos a vencer a guerra fria com a URSS a qualquer preço, os estadunidenses violavam cinicamente a soberania de nações livres.

Um cidadão norte-americano, pai de um hippie assassinado no Chile, acionou seu governo, acusando-o de cumplicidade na morte do filho. Durante esse processo vieram à baila muitos detalhes do envolvimento da CIA e dos assessores militares estadunidenses no golpe. O episódio deu origem a um ótimo filme de Costa-Gravas: Missing, o Desaparecido.

A era Pinochet, iniciada em setembro de 1973, findou quando os chilenos disseram “não!” à sua permanência no poder, em plebiscito realizado no mês de outubro de 1988. Nem o fato de haver conseguido a duras penas estabilizar a economia do país, colocando-a no rumo do crescimento sustentado, foi suficiente para que nuestros hermanos relevassem seus crimes contra a humanidade. Boa lição para nós.

A pá de cal no prestígio de Pinochet foi a revelação, em 2004, de suas contas secretas no exterior. Até então, era tão cultuado pelas viúvas da ditadura quanto seu congênere Brilhante Ustra no Brasil.

Agora, ele deixa a vida para entrar na História... na qual figurará como um carrasco comparável a Átila, Gengis Khan e Hitler.
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