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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Globeleza







O que leva uma Escola de Samba a compôr uma samba enredo,
confeccionar milhares de fantasias, construir carros alegóricos
e então colocar na avenida todas as suas alas homenageando
o ... Iougurte ?!

O patrocínio, é claro

E assim, todos os anos, e cada vez mais, vemos uma temática
empobrecida

Isto porque o carnaval tornou-se um grande negócio, e como tal,
deve se enquadrar dentro dos interesses de seus patrocinadores

E mais, imagine o quão desconfortável ficariam os apresentadores
da rede Globo, tendo que comentar sambas enredos e alegorias
que retratassem o verdadeiro dia-a-dia das pessoas nas comunidades

Ou se alguma Escola resolvesse tematizar o secular problema
latifundiário do país, o que forçou a migração de milhões de pessoas
para os grandes centros, causando uma verdadeira explosão
demográfica nas favelas

Estas mesmas favelas, berço, da maioria das Escolas de Samba

Então, a transformação de uma festa popular em "bussines", além
de proporcionar à poucos, excelente retorno financeiro,deu, também,
às elites políticas e econômicas, a certeza que temas "sensíveis"
não seriam colocados na avenida
As desigualdades sociais e demais mazelas de nossa sociedade,
ficariam bem distantes das câmeras de tv

Eis o verdadeiro carnaval "Globeleza"


Marcelo Roque

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

QUARTA DE CINZAS - MARCELO ROQUE,Glória Kreinz divulga

http://abradicusp.blogspot.com/



Quarta de Cinzas



"Logo será fevereiro"
É o que mais se ouve nos bares,
gabinetes e esquinas
E tão logo apontar o primeiro trio
as ruas se encherão d'uma gente
que em nada lembrará
aquela gente do Pinheirinho,
da Candelária
ou de Eldorado dos Carajás
Pois logo será fevereiro ...
E se enfeitarão as avenidas
de uma destoante alegria;
a miséria se tornará arte
nas coloridas alegorias
e a melancolia ficará disfarçada
em meio ao colorido dos abadás
Pois logo será fevereiro ...
Mas tão logo a folia passar,
quando finalmente quarta-feira chegar,
não mais haverão confetes, lágrimas,
sangue ou serpentinas
que não tenham se reduzido à cinzas

Marcelo Roque

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carnaval - Made in Brazil



Os pés de Aninha estavam praticamente em carne viva

Não era pra menos, afinal, passou o ano inteiro na quadra da escola,
ensaiando para o carnaval
Mas a alegria era tanta que, naturalmente, anestesiava toda e qualquer
dor física que sentisse

Aninha era da comunidade, porém, ainda na adolescência, se mudou
com os pais para o outro lado da cidade
Mas pra ela não havia tempo ruim, fizesse sol ou chuva, lá estava
Aninha, enfrentando trem e ônibus lotados, que a levavam do Hospital,
onde trabalhava como auxiliar de enfermagem, para os braços do samba
em sua escola do coração

Aquilo tudo era um verdadeiro sonho para aquela moça simples -
pois a vida não era nada fácil para quem nascia no morro
Desde muito criança ao se olhar para os prédios e as pessoas que passam
no calçadão, lá embaixo, já existe uma sensação que aquele era outro mundo 
... outra realidade

Mais eis que o carnaval chegava como uma redenção. E então, se
entendia, pelo menos em fevereiro, a razão pela qual o morro
se elevava acima da cidade de concreto

Pois o morro era feito de Aninhas e sonhos, que durante aqueles quatro
dias do ano, explodiam em cores, ritmos e movimentos, nas alegorias
e fantasias daquela gente

Eufórica, Aninha não via a hora de pisar na avenida, já havia deixado
à todos avisados, principalmente, dona Idalina, sua avô - tão
orgulhosa da neta querida. Seus olhos brilhavam só em pensar em
vê-la radiante na Marquês de Sapucaí - uma verdadeira princesa !

A fantasia era tão bonita, com as cores em alusão a miscigenação
de raças no Brasil. E ficava ainda mais bela, no corpo moreno e de
formas tão brasileiras de Aninha

Estava praticamente tudo pronto, era só controlar a ansiedade até
a chegada do grande dia

Porém, as coisas começaram a mudar, quando o diretor da escola
veio lhe dizer que havia sido procurado por um empresário que
representava uma tal modelo, muito conhecida por ter dito um filho
com um famoso jogador de futebol
E que seria melhor para a imagem da escola, ter esta modelo saindo
como destaque - sem falar que a emissora que detinha os direitos
de transmissão da festa, também o pressionava para colocar mais
gente "de nome" na avenida

Não era preciso dizer mais nada, era como se o carnaval estivesse
acabando ali, naquele momento
De repente, não mais se ouvia o som da bateria, a decepção era
tamanha, que silenciara as cuícas, os repiques, os tamborins, que
vibravam em cada músculo de Aninha

No lugar daquela colorida fantasia, lhe ofereçam outra - tão apagada
quanto o seu sorriso - e lhe deram também um lugar em uma daquelas
alas preteridas pelas câmeras de tvs

Se tivesse sorte, quem sabe, poderia mostrar todo seu samba no pé,
na dispersão, solitária, em meio a uma ou outra câmera fotográfica

E assim, deu-se o desfile ...

Mas ainda assim, lá ficou dona Idalina - altas horas da madrugada,
bem próxima do monitor de tv, forçando a já tão cansada vista,
na esperança de ver sua neta

E só após a passagem do último integrante da escola, é que aquela
vozinha foi para a cama - feliz, por acreditar ter visto, mesmo de
relance, os longos cabelos negros que mais pareciam ser os de Aninha
- sua tão amada princesa ... a mais bela da avenida



Marcelo Roque

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

QUARTA DE CINZAS - MARCELO ROQUE

os c



"Logo será fevereiro"
É o que mais se ouve nos bares,
gabinetes e esquinas
E tão logo apontar o primeiro trio
as ruas se encherão d'uma gente
que em nada lembrará
aquela gente do Pinheirinho,
da Candelária
ou de Eldorado dos Carajás
Pois logo será fevereiro ...
E se enfeitarão as avenidas
de uma destoante alegria;
a miséria se tornará arte
nas coloridas alegorias
e a melancolia ficará disfarçada
em meio ao colorido dos abadás
Pois logo será fevereiro ...
Mas tão logo a folia passar,
quando finalmente quarta-feira chegar,
não mais haverão confetes, lágrimas,
sangue ou serpentinas
que não tenham se reduzido à cinzas

Marcelo Roque

domingo, 20 de março de 2011

O País dos Abadás - Marcelo Roque

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É carnaval !

Segue o trio elétrico

pelas principais ruas e avenidas

Seguido por uma gente bonita e feliz

Bonita, por ser, em sua maioria, branca;

feliz, por ter grana para pagar a folia

Ao seu redor, uma gente feia e triste

Feia, por ser mestiça;

triste, pelas migalhas que recebe

para ficar horas à fio

segurando aquela bendita corda

Corda a separar toda aquela gente bonita e feliz

daquela outra gente, assim como os "cordeiros",

tão feia e triste



Marcelo Roque

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CARNAVAL, DESENGANO

No melhor filme brasileiro de todos os tempos, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, uma sequência inesquecível é a do acerto de contas entre o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) e o político direitista Porfirio Diaz (Paulo Autran), após o primeiro haver produzido um programa de TV sobre a trajetória oportunista e entreguista do segundo.
Diaz recrimina Martins por haver traído a antiga amizade em nome da "baixa linguagem dos interesses políticos".

Martins joga-lhe na cara o sangue que a direita derramou, dos estudantes, dos operários, dos camponeses. E lança a frase antológica:
"As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!"
Foi o que me ocorreu ao ler que a escola campeã do carnaval paulista, a Rosas de Ouro, desfilou sem samba-enredo. O que se viu e ouviu no sambódromo foi uma peça promocional dos chocolates Cacau Show.

Se os jurados fossem verdadeiros carnavalescos, dariam zero em todos os quesitos, rebaixando a escola que consumou a traição suprema às tradições populares.

Como não o fizeram, fica estabelecido que os sambas-enredos, doravante, não serão mais tarefa de verdadeiros compositores, mas sim de mercenários a soldo dos departamentos de criação das agências de publicidade.

Vocês venderam tudo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OUTROS CARNAVAIS

Não sou propriamente um carnavalesco, mas houve músicas relacionadas a esse tema que me marcaram bastante, ao longo dos tempos.

De uma não consegui saber nem nome, nem intérprete. É dos meus tempos de criança e a tenho inteira na lembrança:
"Agora chora, Pierrot,
É tua sina.
A sina de Pierrot
é chorar por Colombina

Ah, velhas frases de amor,
Ah, são retalhos de dor.
Esta saudade de Colombina,
Não é saudade, é tua sina.
Pierrot, Colombina e Arlequim,
História de um amor assim, assim"
Eis aquelas cujos links (para vocês baixarem os discos que as contêm, na versão de seu principal intérprete) conseguir localizar. Para não entediar os leitores, cito só o trecho mais significativo de cada uma delas.
"Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança"
(Chico Buarque, "Sonho de um Carnaval")

"Não saia do meu lado
Segure o meu pierrot molhado
E vamos embolar ladeira abaixo
Acho que a chuva ajuda a gente a viver
Venha, veja, deixa, beija, seja
O que Deus quiser
A gente se embala, se embola, se embola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha, se beija, se molha
De chuva, suor e cerveja"
(Caetano Veloso, "Chuva, Suor e Cerveja")

"O Rancho do Novo Dia
O Cordão da Liberdade
E o Bloco da Mocidade
Vão sair no carnaval
É preciso ir à rua
Esperar pela passagem
É preciso ter coragem
E aplaudir o pessoal"
(Gilberto Gil, "Ensaio Geral")

"Todo morro entendeu quando o Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou, e era Carnaval
No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só
Mas assim mesmo o Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre até melhorar
(Sérgio Ricardo, "Zelão")

"João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...

Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia..."
(Erasmo e Roberto Carlos, "Cachaça Mecânica")

"Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou e te beijou meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval"
(Zé Ketti/Pereira mattos, "Máscara Negra")

"Somos cantores
Cantamos as flores
Cantamos amores
Trazemos também
A notícia da grande alegria que vem
Pra durar mais que um dia
E ficar como antigas cantigas
Que não morrem
Que não passam jamais
Como passam sempre os carnavais"
(Gil, Torquato e Vandré, "Rancho da Rosa Encarnada")

"Vesti minha tristeza
Com a fantasia da alegria
e com ela eu caí no carnaval
E fui com toda gente para a avenida
Cantar a vida com a doce ilusão do carnaval
Oi minha namorada, a liberdade,
Linda Colombina de quem era um pobre Pierrot"
(Sérgio Ricardo, "Fantasia da Alegria")

"Atrás do trio elétrico
Só não vai quem já morreu
Quem já botou pra rachar
Aprendeu que é do outro lado
Do lado de lá do lado
Que é lado lado, de lá"
(Caetano Veloso, "Atrás do Trio Elétrico")

"Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar,
deixa o barco correr, deixa o dia raiar
que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou, seja você quem for
Seja o que Deus quiser"
(Chico Buarque, "Noite dos Mascarados")

FESTA DA IGUALDADE, DA LOUCURA E DO PRAZER

"A Estação Primeira de Mangueira
passa em ruas largas

Passa por debaixo da
avenida Presidente Vargas"

(Caetano Veloso, "Enquanto Seu Lobo
Não Vem"
, 1968 - a imagem é de 1967)


A origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.

Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios, e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.

Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como “desenfreada libertinagem, cínica palhaçada”. E diz que, durante esse período “todos pareciam enlouquecer”. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.

A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, deignação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo “mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas”.

A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência dos feudos.

Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado...

A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor.

O medonho entrudo português – Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do “medonho entrudo português, porco e brutal”, a que se refere uma historiadora, assim descrevendo-o: “pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes...”

A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade. E conclui: “Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores”.

Os limites da democracia, entretanto, sempre foram muito exíguos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente discricionárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo “o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites”. Ou seja, multa para os brancos proprietários, xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe...

A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.

O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: “Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância, acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam”.

Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval, mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.

Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.

Zé Pereira! Bum, bum, bum! – O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.

Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.

Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval (“E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval”).

Para a historiadora Eneida, o Zé Pereira “foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!”.

Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares.

Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive nos blocos dos sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.

Samba e umbigada – Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação.

O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.

O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.

Segundo um cronista da época, “os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres”.

Lenço no pescoço – A fase heróica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19.

Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça (“Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá”).

Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas (“Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro”).

O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de um violão ou qualquer outro instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia tinha resposta à altura por parte dos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.

Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (boca-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.

Os versos do sambista da Lapa o descreve admiravelmente: “Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio”.

Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.

O Pinto e os índios – O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.

No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, “sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo”.

Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa.

Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrões provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo “Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar”. Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...

Domesticação e turistização – Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante a ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.

Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.

Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque.

Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo.

O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.

Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas.

Obs: versão condensada de um texto escrito em 1980, para a edição de carnaval da revista Fiesta.

HIV:O SARAU PARA TODOS ALERTA SOBRE AIDS NO CARNAVAL


NO POST ABAIXO UM EXEMPLO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E DA MELHOR POSIÇÃO NO CARNAVAL,POIS MAIS DO QUE NUNCA ESTAMOS TOMADOS PELAS NOSSAS EMOÇÕES, MAS TEMOS QUE SABER, COMO  DIVULGADORES CIENTÍFICOS, QUE OS RISCOS SÃO MUITO GRANDES NESTA ÉPOCA.
TODO CUIDADO É POUCO, E PREVENÇÃO NUNCA É DEMAIS...FEVEREIRO TERMINA E A VIDA CONTINUA, ENTÃO PELOS DIREITOS HUMANOS É NOSSO DEVER ZELAR POR ELA.SEXO SEM CAMISINHA É IMPOSSÍVEL...ALERTA VERMELHO NO SARAU PARA TODOS...EM NOME DA ROSA...

É CARNAVAL...O SARAU PARA TODOS COM CHICO BUARQUE DE HOLANDA ENTRA FIRME NA AVENIDA



FANTASIA DA GAVIÕES 2010
Noite dos Mascarados
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque

- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- ...que eu quero saber o seu jogo
- ...que eu quero morrer no seu bloco...
- ...que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Seja você quem for, seja o que Deus quiser

sábado, 23 de janeiro de 2010

ADONIRAN BARBOSA, SEM RETOQUES (retrospectiva)

Entrevista que fiz com o Adoniran Barbosa para o nº 2 da revista "Playmen" (setembro/1980), quando comemorava seu 70º aniversário e era homenageado com o lançamento do disco ao lado, em que artistas famosos gravaram seus grandes sucessos. Morreria dois anos depois.
Conheci o Adoniran num escritoriozinho que a gravadora Odeon mantinha na rua Bento Freitas. Eram só dois funcionários, que guardavam os malotes, distribuíam o material vindo da matriz e recolhiam outros tantos volumes para despachar de volta.

Eu costumava passar lá e apanhar os lançamentos do mês, para fazer minhas críticas. E sempre encontrava o Adoniran, paradão, ouvindo o papo dos outros, cochilando.

Às vezes o pessoal saía e deixava o Adoniran tomando conta. E ele pacientemente esperava que alguém voltasse.

Esse escritório fechou, quando a Odeon abriu uma representação à altura em São Paulo. Mas Adoniran continuou tendo seu itinerário particular, que cumpre com a pontualidade de um empregado-modelo.

Passar a manhã na rádio Eldorado, até a hora do almoço.

Sair para almoçar com qualquer conhecido de lá, talvez o amigo Nogueira, um divulgador.

Ficar meio triste quando todo mundo está com algum compromisso e ele tem de ir comer sozinho. Mas disfarçar, recusar se aparece o convite de um estranho.

[Meu caso. Ele balançou a cabeça e disse: "Eu vou sair por aí, na direção do Arouche. Não sei nem se vou almoçar ou comer um sanduíche. Fica para outra vez".]

Comparecer todas as tardes no La Barca, um boteco onde espera encontrar outro amigo, o Talismã, líder do conjunto que atualmente o acompanha.

E assim por diante.

[Lembro-me do meu sogro, notívago e bom papo, que sempre sonhava com o que iria fazer quando se aposentasse: pescar, passear, comprar uma granja e plantar sua horta, assistir aos filmes de TV que passam à meia-noite. Afinal chegou o dia. E, na manhã seguinte, lá estava ele de novo na repartição, no horário de sempre, para bater uma caixa com os amigos e irem juntos para o bar. Nada mudou. Até hoje.]

"VOCÊ ACHA QUE EU ESTOU COM UM PÉ NA COVA?"

As homenagens programadas para a comemoração do seu 70º aniversáio desconcertaram Adoniran, que chegou até a dizer que não as merecia, "afinal não sou nenhum João Paulo 2º, nenhum Chaplin ou presidente da república".

E, de qualquer forma, não serviram para compensar anos e anos de esquecimento.

Homem às antigas, Adoniran ainda não se habituou a virar notícia apenas em tempo de efeméride.

Cansou-se de dar entrevistas: "O que mais posso dizer da minha vida? Já disse tudo, para todo mundo".

E não conseguiu conter o desabafo de quem teve de lutar demais para obter um reconhecimento tardio e meio superficial. "Por que não me procuraram há 20 anos atrás?"

Mas, em geral esforça-se para corresponder ao clima festivo.

Pergunto-lhe se ainda espera alguma coisa da vida. "Por que, você acha que eu estou com um pé na cova?"

Explico melhor: falta-lhe realizar algum sonho, uma grande meta?

Aí ele dá um sorriso e mostra que continua atento ao linguajar das ruas. Sabe até a gíria da meninada: "O que vier, eu traço. Tudo bem!"

"UM BOÊMIO POBRE. FILANTE. BICÃO."

Efeméride é a palavra-chave. Era preciso comemorar condignamente os 70 anos de Adoniran, nem que para isso se-lhe romantizasse o passado, transformando-o numa imagem ao gosto do público de agora.

E, já que o folclore paulistano nem de longe se compara ao da Lapa carioca ou de Vila Isabel, que tal promover Adoniran a algo assim como o estereótipo do boêmio do Bexiga?

Com um pouco de boa vontade e puxando por sua veia saudosista, conseguiram extrair de Adoniran declarações na medida para colocá-lo dentro do figurino pretendido:
"Fui na Bela Vista procurar o Bexiga e não achei. Antes o pessoal sentava na calçada, agora as coisas por lá andam muito diferentes, cheias de viaduto.

"O Brás eu também não encontrei, as casas baixas foram embora. A Rangel Pestana também não está mais lá. O Largo da Concórdia ficou cheio de banquinhas de camelô. A Celso Garcia, onde havia o melhor carnaval do Brás, também já não existe.

"No Belém não achei o Largo São José, com seus casarões e suas árvores.

"Nem a Lapa, onde não há nem sinal da calma de bairro de antes.

"O Largo da Sé, acho que venderam." (JT, 09/08/80)
A matéria fala também de um bar boêmio da av. São João e de um bonde boêmio que rodava a noite inteira.

Adoniran, você foi mesmo esse boêmio que estão pintando?
"Fui mas é um boêmio pobre, que ia de bar em bar, de boteco em boteco, sem dinheiro, filando bebida dos amigos. Um boêmio bicão."
"SÓ DE SAMBA NINGUÉM VIVIA"

Adoniran era capaz de registrar impressões acerca da cidade com alma de artista. É o grande cronista de São Paulo. Mas, suas andanças não foram despreocupadas como as dos sambistas cariocas e sua história está longe de ser a de um boêmio.

Mesmo porque seu amor pela cidade não era correspondido: São Paulo rejeitava seu samba, só queria saber de serenatas, valsas, modinhas, boleros e tangos.

Nesta cidade de imigrantes, ciosa de suas raízes culturais européias, não havia espaço para os ritmos, costumes e tradições realmente brasileiras. Adoniran testemunha:
"Só de samba ninguém vivia, em São Paulo. Era pouquíssimo executado. Os sambistas daqui, como a Isaura Garcia e o Vassourinha, eram obrigados a irem lá no Rio gravar composições de autores cariocas".
Daí seu orgulho em ter sido o grande divulgador do samba paulista.
"Não o iniciador, porque já existiam o Raul Torres, o Nestor Amaral, o Cacique. Mas o Rio só veio a saber que se fazia samba em São Paulo quando os meus entraram lá. E aí a coisa se estendeu para todo o Brasil."
Até que chegasse esse reconhecimento (e mesmo depois dele), a vida de Adoniran foi tipicamente paulistana, mas num aspecto pouco romântico, que as matérias louvaminhas esqueceram de registrar: o trabalho.

Carreira sacrificada, árdua, difícil. E não foi por acaso que o pão nosso saía quase sempre de suas atuações como rádio-ator e não da música.

O clássico "Trem das Onze", p. ex., não veio de impressões deixadas por agradáveis noitadas boemias, mas sim de observações feitas quando ia no Circo do Batista, lá no Jaçanã, interpretar ao vivo os tipos que faziam sucesso no programa de rádio História das Malocas.
"Aliás, o trem nunca foi das onze; era das oito, eu me lembro muito bem."
"NÃO PARAVA EM EMPREGO NENHUM"

Adoniran Barbosa, na verdade, é João Ramalho, um dos seis filhos (três homens e três mulheres) de um casal italiano que se estabelecera em Valinhos.

Tinha 14 anos quando o pai, empregado em olarias, descobriu que seria rendoso trabalhar perto da Capital, onde, de quebra, os filhos homens encontrariam colocação. Assim, em 1924 a família se mudou para Santo André.

Adoniran tem boas lembranças da infância, "pobrinha, mas tranquila":
"Uma infância comum. Não miserável. Tinha tudo. Boa comidinha em casa. Com minha mãe, meu pai, tudo".
Fez até o 3º ano primário, entregou marmitas.

Já em São Paulo, passou por uma variedade enorme de empregos, sem se dar bem. Foi operário de fábrica de tecidos, serralheiro, pintor de parede, ferragista, encanador, balconista, metalúrgico, garçom.
"Não parava em emprego nenhum. Fui tanta coisa que nem me lembro".
Nas horas de folga, gostava de assistir aos ensaios das bandas de música. Até que um dia faltou o tocador de caixa e ele se ofereceu para substituir.
"Isso lá por 1926, 28, mais ou menos. Então eu gostei tanto da coisa que comecei a estudar música. Comprei um flautim, passei a tocar o danadinho também".
"NO BARALHO TEM UM ÁS DE OURO.
NA RÁDIO SÃO PAULO TEM TRÊS"


Em 1932 ele veio morar sozinho em São Paulo. Logo começou a frequentar as rádios, cantando sambas em programas de calouros.

No do animador Jorge Amaral, na rádio Cruzeiro do Sul, ganhou um 1º prêmio interpretando "Filosofia", de Noel Rosa, apropriada para sua voz rouquenha. Recebeu 25 mil réis e um contrato, pois teve a sorte de ser notado pelo Paraguaçu, diretor do programa.

Adotou um nome artístico que homenageava dois amigos: o funcionário do correio Adoniran e o sambista carioca Luiz Barbosa.

Cantou músicas alheias, com regional, nas rádios Cosmo (depois América), São Paulo, Difusora.

Em 1935, inscreveu "Dona Boa" (composição sua, em parceria com o pianista carioca J. Aymberê) no concurso para o carnaval oficial da Prefeitura paulista. Ganhou o 1º prêmio: 500 mil réis.

O cheque foi descontado na Praça da Sé e o dinheiro mal deu para a farra que Adoniran e os amigos aprontaram. Ele acabou voltando a pé para casa.

Nesse mesmo concurso, o 2º lugar ficou com outro novato, o Ranchinho. E Adoniran se encontraria com a notável dupla caipira Alvarenga e Ranchinho no cast da rádio São Paulo, ainda em 1935.

Foi quando saiu a primeira matéria sobre ele em jornal, com um título que ainda hoje repete de memória:
"No baralho tem um ás de ouro. Na Rádio São Paulo tem três: Adoniran Barbosa, Ranchinho e Alvarenga".
"EU FALANDO JÁ ERA UMA PIADA"

Um dia, o Blota Jr. e o Vicente Leporace resolveram fazer uma experiência e colocaram o Adoniran num programa humorístico que eles tinham na rádio Cruzeiro do Sul. O auditório entrou em delírio.

E, a partir daí, a carreira de rádio-ator passou a ser sua principal ocupação, deixando a música em segundo plano até 1969, quando ele "se aposentou".

Transferiu-se para a rádio Record em 1942, chamado pelo Otávio Gabus Mendes. Os programas foram se sucedendo:
  • Palmolive no Palco;
  • Escolinha Risonha e Franca (ele era o Barbosinha Maleducado da Silva);
  • Casa da Sogra (interpretava vários tipos: o galã de cinema francês Jean Rubinet, o professor de inglês Richard, o cobrador de prestações Moisés Rabinovichi, o chofer de táxi do Largo do Paissandu Perna Fina);
  • Zé Conversa e Catarina ("o Zé Conversa era um crioulo folgado da Barra Funda que vestia a roupa do patrão para conquistar as empregadinhas");
  • O Crime Não Compensa (este já era sério e o Adoniran fazia sempre o criminoso).
Mas, o grande sucesso foi mesmo o História das Malocas, escrito por Osvaldo Molles (o Adoniran, com seu sotaque italiano, o chama de Molichi...) e inspirado no sucesso da música "Saudosa Maloca".

A galeria de tipos é inesquecível: a Teresoca, o Trabucão, Panela de Pressão, Pafunça. E o principal deles, "um preto da favela, vagabundo, que não faz nada", marcaria época, interpretado por Adoniran: o Charutinho.

[Trata-se de mais um dos personagens curiosos baseados no carismático presidente do Corinthians, Alfredo Ignácio Trindade. Outro deles é o político populista vivido por José Lewgoy no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha.]

O História das Malocas ficou no ar de 1954 a 1968, em dois horários: domingo às 12h e sexta-feira às 21h. Adoniran diz que ele foi o programa humorístico de maior audiência do rádio brasileiro, graças ao talento de Molles ("igual a esse não apareceu mais nenhum e nem vai aparecer").

Pergunto se ele próprio, Adoniran, chegava a criar alguma piada.
"Eu não. E nem precisava, que eu falando já era uma piada."
A CONSAGRAÇÃO, NA CAPITAL DO SAMBA
"Antigamente era difícil entrar e mais difícil ainda fazer sucesso. Ninguém queria nada com a gente. O elevador vazio, para artista sem nome, estava sempre lotado. E a gente tinha ficar dando em cima das gravadoras, dos cantores, dos locutores, dos diretores artísticos."
A confissão de Adoniran explica bem porque compôs de forma tão descontínua: "Joga a Chave", "Malvina" e "Iracema", em 1943; pausa até 1950, ano de "Saudosa Maloca", "Samba do Arnesto" e "Os Mimoso Colibri"; novo lapso até 1956, quando suas composições antigos fazem sucesso na interpretação dos Demônios da Garoa e ele se anima a uma parceria com Vinícius de Moraes, "Bom Dia Tristeza", que Aracy de Almeida gravou.

Finalmente, em 1964, o grande sucesso: "Trem das Onze", que, sem ser música carnavalesca, acabou se tornando um dos cinco sambas mais executados no carnaval do centenário do Rio de Janeiro, valendo a Adoniran 2 mil cruzeiros de prêmio e um troféu que ele exibe até hoje, com a inscrição "Adoniran Barbosa, campeão carioca do carnaval".

Era o coroamento de sua carreira de compositor paulista, consagrar-se na capital do samba!

E depois? O justo reconhecimento, a possibilidade de gravar seu próprio LP, a aceitação de seus sambas originais, falando de tipos esquecidos do cotidiano em seu linguajar simples e cheio de erros de português?

Nada disso. Mais um período obscuro, de vacas magras. E ele , que já atuara no cinema (inclusive em O Cangaceiro), chega ao fim dos anos 60 fazendo pontas em novelas da TV Tupi, como Mulheres de Areia e Ovelha Negra.

ARNESTO E A CENSURA ORTOGRÁFICA

Foi então que o produtor musical João Carlos Botezelli, o Pelão, tornou-se seu amigo e começou a corrigir as injustiças de toda uma vida.

Levou Adoniran para se apresentar no teatro Treze de Maio, foi um tremendo êxito.

Conseguiu que ele gravasse o primeiro LP na Odeon, em 1975. Dá-se o episódio pitoresco da impossibilidade de colocar nesse disco, que reuniu seus grandes sucessos, o "Samba do Arnesto", porque um decreto oficial proibia o mau uso do vernáculo nos veículos de comunicação.

O professor Antônio Cândido sai em defesa de Adoniran, na contracapa:
"Já tenho lido que ele usa uma linguagem misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nóis fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse País".
"NÓIS GANHA POCO, MAIS NÓIS SI DIVERTI"

Mais um LP em 1976. E um novo hiato hiato até agora, quando saiu o disco comemorativo de seus 70 anos, em meio a todas as festividades programadas pela Emi-Odeon. Um sucesso certo, a julgar por sua qualidade, pela repercussão da data e pelo peso dos convidados (Clementina de Jesus, Clara Nunes, Carlinhos Vergueiro, Djavan, Elis Regina, Gonzaguinha, MPB-4, etc.).

E depois? Quanto tempo levará até que o público recorde novamente esse que é um dos mais sensíveis e humanos retratistas do seu cotidiano? Meses? Anos?

Não importa. Adoniran seguirá mantendo seus rituais diários, resistindo obstinadamente à velhice e à acomodação.

Continuará se apresentado pela periferia e pelo Interior, em faculdades, escolas, prefeituras, entusiasmado com o público jovem que conquistou ("Até a criançada já me conhece!" - afirma, orgulhoso).

Não importa que volte dessas excursões exausto, desabe na cama e permaneça o dia e a noite toda recuperando as forças.

E se alguém lhe perguntar se gosta da vida que leva, decerto ele responderá sinceramente que sim, talvez até acrescentando sua frase célebre:
"Nóis ganha poco, mais nóis si diverti!"
Obs.: presumivelmente, depois da onda toda da efeméride, Adoniran voltou a ser esquecido pela mídia, que só se ocupou dele de novo ao publicar-lhe o necrológio, dois anos mais tarde. Relendo hoje esta entrevista, percebi um pequeno senão: ela deixa a impressão que Adoniran compôs bem menos do que a centena de canções das quais foi autor, inclusive outras que mereciam ser citadas, como "Tiro ao Álvaro", "Prova de Carinho" e "Aqui Geralda".
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