Mostrando postagens com marcador Sócrates. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sócrates. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de dezembro de 2011

SÓCRATES ERA MAIOR DO QUE O FUTEBOL

Por Celso Lungaretti

Muhammad Ali esteve no Brasil quando assumia conscientemente o papel de símbolo da luta dos negros contra o racismo e Pelé era um gênio do futebol e um zero à esquerda em preocupações sociais.

Um repórter perguntou ao grande  Ali o que achava de Pelé. Com seu brilhantismo habitual, ele respondeu algo assim (não encontrei a frase exata): "Se alguém é um esportista extraordinário, isto já basta. Mas, se além disto, ele também levanta as bandeiras de sua gente e trava o bom combate, aí sim ele é completo".

Sócrates era completo.

Parafraseando o que Foreman disse sobre o próprio Ali, talvez Sócrates não tenha sido o maior jogador brasileiro de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão brasileiro que já atuou no futebol profissional.

A ponto de, quando os melhores cidadãos brasileiros saíram às ruas para recuperar o direito de elegerem o presidente da República, ele se ter comprometido com a multidão que lotava o Vale do Anhangabaú (SP) a recusar a proposta estratosférica da Fiorentina e permanecer no País para ajudar a reconstruí-lo, caso fosse aprovada a emenda das diretas-já.

Perdemos um grande companheiro, um irmão de fé. Foi doído demais.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

GRANDE DOUTOR: LEVANTA, SACODE A POEIRA E DÁ A VOLTA POR CIMA!


No palanque das diretas, anunciado por Osmar Santos
Ótima notícia é a alta de Socrates Brasileiro.

Parafraseando a inesquecível frase com que George Foreman esquivou-se de comparar os geniais Muhammad Ali e Joe Louis ("Não sei dizer se Ali foi o maior peso-pesado de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão que já lutou boxe"), eu diria que o doutor foi o melhor cidadão que já se tornou grande futebolista.

Antes dele, os craques eram quase todos vaquinhas de presépio dos cartolas -- vis parasitas que vicejam à sombra das chuteiras imortais, para, da arte dos boleiros, extraírem grana, prestígio e poder.

Mesmo os que tinham espírito mais crítico e independente, evitavam dizer o que realmente pensavam da engrenagem mafiosa do futebol. Afonsinho, rara exceção, não teve a carreira que seu talento prefigurava, exatamente por haver ousado trombetear a nudez do rei.

O que Sócrates conseguiu foi impressionante: não só venceu como jogador (apesar do submundo do futebol e a venal imprensa caudatária terem insistentemente tentado desmoralizá-lo), como conseguiu unir o elenco do Corinthians em torno de suas idéias e impô-las aos dirigentes do clube.

Parabéns pelo novo gol, doutor!
Lembrem-se: ainda estávamos sob ditadura. A  democracia corinthiana  (o direito de os atletas participarem da tomada de decisões que os afetavam, como a necessidade ou não de concentração antes dos jogos) servia como modelo e cartão de visitas da democracia  em si. Havia um conteúdo político maior, subjacente à afirmação da dignidade profissional dos jogadores.

E, exatamente como Muhammad Ali, teve Sócrates a grandeza de dispor-se a um grande sacrifício pessoal em nome de suas convicções.

Ali perdeu o cinturão, muita grana e alguns dos melhores anos da carreira de um pugilista por recusar-se a servir como relações públicas para a agressão estadunidense ao povo vietnamita -- atitude que justificou com argumentos religiosos, mas cujo motivo maior ficou evidenciado na frase "Vietcong nenhum me chama de nigger  [pejorativo muito usado pelos racistas dos EUA]".

Da mesma forma, Sócrates abriria mão de muita grana italiana se tivesse a oportunidade de contribuir para a reconstrução democrática do Brasil. Foi o que jurou num ato público da campanha das diretas-já, no Vale do Anhangabaú (SP): comprometeu-se solenemente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a estratostérica proposta da Fiorentina.

Tenha vida longa, doutor. Ainda precisamos de você... e muito!
 

sábado, 10 de abril de 2010

SÓCRATES: BOM DE BOLA, DE BISTURI E DE TECLADO

Certa vez perguntaram a George Foreman se Muhammad Ali tinha sido mesmo o maior boxeador de todos os tempos.

Big George
deu uma resposta antológica: "Ele foi, certamente, o melhor cidadão que já lutou boxe".

Pois é muito difícil, dada a diferença de estilos e épocas, fazer uma comparação rigorosa entre gigantes como Muhammad Ali e Joe Louis, p. ex.

Mas, não houve pugilista nenhum capaz de abrir mão de um título cobiçadíssimo e de muitos milhões de dólares em razão de suas convicções. E foi isto que Muhammad Ali fez, ao recusar-se a servir como relações-públicas de uma guerra injusta.

Ao convocarem-no para servir no Vietnã, os militares jamais cogitaram a hipótese de expô-lo ao fogo inimigo. A morte de um ídolo do esporte teria efeito moral catastrófico.

Fizeram chegar ao seu conhecimento que precisavam dele apenas para ações de propaganda -- como as do comediante Bob Hope, que deu espetáculos para animar as tropas estadunidenses na II Guerra Mundial e também nas da Coréia, Vietnã e Golfo.

Ali não aceitou o papel infame de incentivar homens a morrerem por vagos objetivos geopolíticos dos dirigentes de seu país. Disse que os guerrilheiros vietnamitas jamais o haviam tratado com desprezo por ser negro ("No vietcong ever called me nigger").

O doutor Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é da mesmíssima estirpe.

Sabe-se lá se foi melhor futebolista do que Cruyff, Platini, Zico, Falcão e outros gênios de sua geração. E, claro, não chegou ao patamar de um Puskas, de um Pelé, de um Garrincha, de um Maradona.

Mas, não há dúvida de que foi o melhor cidadão que já jogou futebol.

Era a alma da democracia corinthiana, uma iniciativa sem precedentes num esporte dominado, de forma canhestra e autoritária, pelos vis cartolas.

No Corinthians, o grupo de jogadores tinha opinião e peso preponderantes.

Decidiu, p. ex., que as concentrações antes dos jogos eram desnecessárias; ao mesmo tempo, os atletas zelavam para que nenhum deles desmerecesse o voto de confiança recebido, excedendo-se em suas noitadas.

E Sócrates também admitiu dispensar uma fortuna em nome de seus ideais, ao comprometer-se solenemente, com um milhão de manifestantes pelas diretas-já no Anhangabaú (SP), a recusar a oferta estratosférica da Fiorentina se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada.

Preferia dar sua contribuição pessoal à redemocratização do Brasil do que jogar a peso de ouro na Itália.

[Mas, os parlamentares brasileiros, em sua maioria, não mostraram idêntico desprendimento. Preferiram negar a democracia ao povo e, depois, receberem as recompensas de praxe, quando elegeram Tancredo Neves pela via indireta.]

Para completar, Sócrates é também o cidadão mais intelectualizado e articulado que já jogou futebol.

É o que se constata, p. ex., nesta sua belíssima coluna para a CartaCapital: O craque e Barcelona.

Nem mesmo os jornalistas do metiê (com exceção do recem-falecido e já saudoso Armando Nogueira) seriam capazes de relacionar com tamanha perfeição os fatores sociais, políticos, culturais, urbanísticos e esportivos que fazem de Barcelona a cidade ideal para propiciar a afirmação de futebolistas estrangeiros, catapultando vários deles a melhores do mundo na temporada.

Como articulista e cronista, tiro o chapéu para Sócrates: a ele confiro, com prazer, o tratamento de colega.

Eis os trechos mais marcantes de O craque e Barcelona:
"...melhor jogador do planeta. O ainda garoto Lionel Messi está fazendo uma temporada de 'sonho'... Algo que já ocorreu mais de uma vez desde que esse título foi instituído. Não à toa. O catalão é um povo sofrido que até hoje busca a plena independência. Barcelona, sua capital, é motivo de orgulho. Estando na costa do Mediterrâneo, soube crescer de forma ordenada a partir de um plano piloto concebido em meados do século XIX, cujo objetivo era aproximar as aldeias ao redor a partir da derrubada das barreiras medievais que ali existiam. Imaginação, criatividade, talento e loucura são alguns dos adjetivos que poderiam muito bem definir aquele que é um símbolo da cidade, o arquiteto Antonio Gaudí...

"Por falar em imaginação e criatividade, aqui estão a alma e a essência do que deve ser o bom futebol. E estes são atributos que não faltam ao jovem Messi, que vem sendo nesta temporada a própria expressão do que chamamos 'beleza e alegria' desse esporte. São qualidades extremamente valorizadas pelo povo catalão, que não mede esforços para demonstrar o quanto se sente feliz em ter entre sua gente talentos como o do argentino. E sempre foi assim. Muitos dos últimos agraciados como melhores do mundo vestiam a malha do Barcelona quando da escolha. Inclusive Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. (...) E é essa energia contagiante do catalão que permite que gênios como esses citados possam exprimir totalmente a sua arte em uma região onde também nasceu ou cresceu a genialidade de Picasso, Joan Miró e muitos mais.

"...o dia nacional [da Catalunha] celebrado em 11 de setembro é para lembrar mais uma derrota e onde a festa e a dança (La Sardanha) são intimistas ao extremo, contrastando com a euforia e a felicidade de outros povos e culturas. Uma história de dor, perdas e frustrações que, em vez de transformar o catalão em derrotista e cabisbaixo, o tornou mais forte e altaneiro.

"No estádio, per supuesto, o que mais vemos é a exaltação à arte dos mais qualificados. É o assombro coletivo empurrando o talento ladeira abaixo na velocidade necessária para que ele desabroche em toda a sua plenitude, para delírio da massa sedenta por essa beleza que o futebol nos oferece quando livre das amarras impostas por mentes menos arrojadas e reacionárias. É o êxtase da liberdade e da criatividade. É o sorriso da ingenuidade de quem só quer acompanhar o desfilar da arte em sua mais profunda interpretação. São manifestações incontroláveis que denotam a total expressividade da emoção que toma conta de todos que entrelaçam as mãos em torno do clube do coração – que, mais que um time ou equipe, representa um povo e sua saga histórica.

"...[e, sobre o Barcelona não vender espaços na sua camisa, mas nela estampar o símbolo da Unicef] Um gigantesco exemplo de como é possível viver em um mundo essencialmente comercial, mantendo preservada a sensibilidade humana. Sensibilidade essa que transparece na fronte e nos pés habilidosos de jogadores como Messi..."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

AQUI É O PAÍS DO FUTEBOL

"Brasil está vazio na tarde de domingo, né?
olha o sambão, aqui é o país do futebol"
(Milton Nascimento/Fernando Brant)

Nesta época em que quase nada acontece de realmente importante, a mídia continua necessitando preencher seus espaços. Qualquer coisa serve, até pelada de ex-jogadores de futebol.

Leio que o Time do Zico enfrentou os Amigos do Zico, em pleno Maracanã (!). O jogo terminou em 5x5 e o ex-Galinho de Quintino foi o artilheiro, com três gols, apesar dos seus 56 anos bem vividos.

Não dá pra saber se marcou mesmo esses tentos ou deixaram que os marcasse.

Quando Garrincha, acabado e gordo, atravessava terríveis dificuldades financeiras, armaram uma partida em sua homenagem, para prover-lhe uma graninha. Foi em 1973.

O grande Mané, um dos mais desconcertantes craques que o futebol brasileiro já produziu, dava até pena. Tropeçando nas pernas, foi incapaz de fazer o gol que os zagueiros adversários facilitavam até dar na vista.

Os cariocas, que compareceram em massa para se despedir do ídolo, não viram canto do cisne, só melancólica decadência. Mesmo assim aplaudiram sem parar, como bons brasileiros cordiais.

Mas, voltemos ao Zico.

Embora acompanhasse o futebol desde menino, tive poucas oportunidades de escrever sobre meu esporte favorito no batente diário de jornalista.

Uma vez foi às vésperas do Mundial de 1990. Fiz, para revistas de variedades, uma matéria com veteranos de Copas passadas dando seus testemunhos.

O trabalho foi facilitado pela participação de dois dos entrevistados na Seleção de Masters do Luciano do Valle. Então, numa manhã de domingo, consegui falar com o Zico e o Rivelino, que estavam hospedados com a delegação no hotel Transamérica (SP).

O galinho tomava sol à beira da piscina, com seu filho de uns oito anos. Causou-me ótima impressão.

Depois de tanto entrevistar políticos, artistas, personalidades e celebridades, era uma lufada de ar fresco falar com quem não mostrava empenho em me manipular, respondia com sinceridade, não esticava o papo nem me puxava o saco.

[O mais repulsivo entrevistado com quem me deparei foi o sindicalista Antonio Rogério Magri, ainda antes que se tornasse ministro do Trabalho do Collor. Ele fizera um curso de relações públicas nos EUA e o seguia à risca. Assim que me viu, garantiu ter certeza de já nos havermos cruzado antes. Só que eu também tinha certeza... de que nunca o vira mais gordo!]

Faz muito tempo e eu só me lembro do que o Zico me contou sobre a fatídica derrota na disputa em pênaltis com a França, no Mundial anterior.

Depois de haver desperdiçado uma penalidade máxima durante a partida, ele aceitou a responsabilidade de ser um dos cinco brasileiros que decidiriam a vaga. E não negou fogo. "Tive moral para dar a volta por cima e cumprir o meu papel", comentou.

Mas, indaguei, por que a última cobrança ficou para o zagueiro Júlio César (que chutou na trave) e não para um atacante, especialista no ofício?

O Zico confessou que havia um atacante escalado, mas "pipocou na hora H". Dignamente, não quis dar nome aos bois. [Por exclusão, seria o Careca...]

O PRÍNCIPE E O PLEBEU

Quanto ao que eu conversei dessa vez com o Rivelino, esqueci completamente. Mas, a ele eu já havia entrevistado antes, para a revista Playmen (projeto fracassado de revista masculina chique feita por editora pobre). E este, sim, foi um trabalho inesquecível.

Era lá por 1980 e ele estava em férias no Brasil, depois de duas temporadas no El Helai, da Arábia Saudita. Conversamos longamente no seu posto de gasolina do Brooklin (SP).

Falou muita coisa sobre a vida naquela país exótico:
  • que podia deixar o carrão aberto e com a chave no contato, pois ninguém roubava (se o fizesse, teria as mãos decepadas...);
  • que não podia receber fitas VHS dos filmes escandalosos da época, mas os assistia... com o próprio príncipe, a quem a restrição, claro, não atingia;
  • que era uma vida das mais tediosas e, vez por outra, os jogadores brasileiros armavam uma feijoada para espairecer, com caipirinha e tudo (mas, ai deles se consumissem álcool em público!).
Saí de lá com a impressão de que ele não aguentava mais o sufocante moralismo medieval. Ainda não se decidira a atravessar o Rubicão, mas parecia um condenado pesando os prós e contras de voltar para a prisão, após o Natal com a família.

Dito e feito. Duas semanas depois, recusou-se a cumprir até o fim seu contrato.

O príncipe, altaneiro e rancoroso, não exigiu compensação financeira nem aceitou propostas de clubes brasileiros por seu passe. Decretou apenas que o Rivelino, então com 35 anos, nunca mais jogaria futebol profissionalmente.

Vai daí que só lhe acabaria restando, como tardio prêmio de consolação, a trupe do Luciano do Valle.

A MAIOR LIÇÃO DO DOUTOR

Quanto ao jogador que eu mais gostaria de haver entrevistado, nunca rolou: o Sócrates.

Tão inteligente quanto ele nos gramados, só mesmo o Johan Cruyff holandês. E eu tenho especial admiração pelos maestros que ditam o ritmo e pensam pela equipe inteira.

Além dos três títulos estaduais a que conduziu o Corinthians (em 1983, principalmente, carregou o time nas costas) e da autoria de algumas das jogadas mais belas que vi na vida, deve-se ao Sócrates a incrível iniciativa de unir o grupo para a tomada de decisões que afetavam seus interesses, contrapondo-se à obtusidade dos cartolas. A democracia corinthiana foi uma experiência belíssima.

E, nesse esporte tão distorcido pela ganância extremada que passou a imperar nas últimas décadas, até um Adriano merece ser aclamado por trocar o vil metal pela satisfação de morar no Rio de Janeiro, fevereiro e março, que continua lindo e tem um povo caloroso como nenhum.

Maior ainda foi Sócrates, que se comprometeu publicamente (meninos, eu vi!), diante de um milhão de manifestantes das diretas-já, no Vale do Anhangabaú: "Se a Emenda Dante de Oliveira for aprovada, eu recusarei a proposta da Fiorentina. Ficarei para dar minha contribuição pessoal à redemocratização do Brasil!".

Nem de longe um magnata futebolístico, ele estava disposto a abrir mão de uma grana imensa em nome de suas convicções.

Mas, parlamentares canalhas ficaram insensíveis à vontade do povo. E me deixaram duplamente frustrado, como cidadão e como corinthiano...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...