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quarta-feira, 20 de maio de 2015

PELO SIM, PELO NÃO... - Otávio Martins




PELO SIM, PELO NÃO... 


Otávio Martins



Olhem, têm vezes em que a dúvida é tanta, em que, nalguns momentos parece, terei de dizer sim, noutros, ao mesmo tempo, parece, terei de dizer não. À primeira vista, parecem ser duas coisas distantes, diferentes. Não, não são. Querem ver?



Estou caminhando por uma vereda, tranquila por todo o caminho que percorri. De repente, uma bifurcação. Num primeiro momento, penso que estou numa tremenda sinuca. Nada. Logo, logo, afirmo (a mim mesmo): “Pelo sim, pelo não, vou trilhar a da esquerda.” E, lá vou eu. Na maioria das vezes em que isso me aconteceu, tanto faria eu ter pegado a da direita ou a da esquerda. Elas dariam, e deram, no mesmo lugar. Nem se sabe se o outro caminho (pelo qual não passei) seria melhor ou pior. Então, pelo sim, pelo não... ,



Cheguei desta vez, juro, cedo em casa. Cedo, com relação a outras chegadas. Mas, certamente, era cedo. Minha mulher perguntou: “O que houve?”, pelo sim, pelo não... , respondi que os amigos haviam ido embora mais cedo. “E as amigas?”, continuou o interrogatório. Pelo sim, pelo não... , respondi que todos haviam saído mais cedo para as suas casas. O bar ficara vazio, resolvi, também, vir para casa. “Ah! Primeiro, os amigos, depois, os de sua casa?” Pelo sim, ou pelo não, não tinha saída. Eu estaria perdido. Não haveria resposta que desse fim àquele mal estar. Virei as costas e fui para o banho, dando de ombros. Lá no chuveiro, matutava como iria me comportar para responder outras perguntas que viriam. Só porque, desta vez, vim mais cedo para casa. Lamentei. Não adianta chorar sobre o leite derramado. Consolei-me. Logo a seguir, achei a resposta, tava na cara (de pau).



Vamos, conte, e as amigas?” Respondi, saindo do banho, hoje o bar não parecia o mesmo desses últimos dez anos. Quase um lamento. Nem amigos e nem amigas, todos sumiram. Por mim, pode até fechar. Pelo sim, pelo não, achei a resposta.



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terça-feira, 19 de maio de 2015

BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS


BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS





"Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente."



Naquela madrugada ela chegou ao acostamento da rodovia mais cedo do que de costume. Estava escuro ainda; apenas os faróis dos veículos iluminavam, de passagem.

O pai de Joana, depois de acomodar os cachos de bananas, ao abrir a barraca, deu conta de que ela não estava ali por perto. A casa ficava a mais ou menos trinta metros para dentro. Um chalé, sem pintura, abrigava toda a família. Joana era a do meio, pouco mais de 18 anos. Seu Chico resolveu dar um pulo até ele ver o que estaria acontecendo.

Na noite anterior trabalharam até tarde; quando os dois caminhoneiros chegaram para comer alguma coisa já passava das oito horas e ainda beberam mais duas cervejas. Resolveram dormir por ali mesmo, nas cabines de seus caminhões. 

O dia havia sido longo. Seu Chico costumava fechar a barraca bem mais cedo; à noite nem valia à pena ficar aberto, pelo pouco movimento e, também, aquele lugar não era lá muito seguro. O que se poderia encontrar mais perto dali era o posto BR, onde os motoristas costumavam estacionar e alguns até ficavam para pernoitar. Além do bar e restaurante, que funcionava até a uma ou duas horas da madrugada, tinha também um hotelzinho, que ficava num espaço junto ao posto.

Quando, Jorge, o irmão mais velho de Joana, ainda morava com eles, era quem colhia os cachos de bananas de manhãzinha e, depois, dividia-os em pencas, que seriam dependuradas nos arames esticados acima do balcão. Um bom lugar para que ficassem à mostra e fácil de pegá-los se, eventualmente, algum freguês parasse para comprá-los.

Há mais de três anos que Jorge resolvera tentar a vida na cidade grande. Apesar de todo esse tempo, até aquele momento havia mandado poucas notícias. Tocou para Joana ficar, desde cedo, na barraca, no período da manhã. Quando o seu pai voltava com os cachos de bananas, ela ia lá para o chalé, onde preparava os pastéis, café nas garrafas térmicas, sanduíches e outros lanches. Precisava da ajuda do caçula, que já fazia muito. Era, principalmente, nesses momentos que ela sentia mais a falta da sua mãe.

Para que não soasse como uma cobrança, Joana, quando se lamentava, sempre repetia: "Que Deus a tenha!". O máximo de energia que a mãe de Joana usava, era quando tentava adverti-la " mas isso já não metia mais medo - olha que o velho do saco vai levar você, heim! Ela era ainda muito pequena, porém, já havia passado por muita coisa. Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente.

Da adolescência até a idade adulta, fora submetida a certas situações indesejáveis e constrangedoras, tanto para uma adolescente, quanto para uma mulher. Seu Chico não tinha lá um senso formado para certos valores. Desde que se instalara ali naquele pedaço de caminho, a sobrevivência impunha-se de forma tão urgente que, além do ganho do dia-a-dia, quase não tinha tempo em atinar para outras coisas que poderiam ser, até, importantes tanto para ele quanto para Jorge, Joana e Leonardo.

A escolinha, que ficava bem próxima ao posto, sempre funcionou mal e parcamente. Parte das crianças que iam ficando ali pelo lugar conseguiam, no máximo, freqüentá-la por quatro ou cinco anos. Problemas com o transporte, segurança, instalações, falta de professores. No inverno era o caos. Leonardo ainda persistia e já estava na quinta série. Apesar do pouco tempo que tinha pela manhã, conseguia estudar um pouco e fazer as lições de casa. Precisava se virar sozinho, pois era o mais adiantado da casa. Joana fazia o máximo para poupá-lo nos afazeres com o abastecimento da barraca. 

No tempo em que Jorge estava com eles as coisas eram mais fáceis. Joana, pela manhã, ficava a maior parte do tempo, quase que todo, somente com a incumbência do preparo dos lanches. Sem o Jorge, era preciso se desdobrar. Tinha que cuidar da casa, da roupa " principalmente a de Leonardo, para que fosse sempre direitinho para a escola " e outras coisas; ainda, ajudar o seu Chico na abertura da barraca. Era, no sentido da responsabilidade, a dona da casa.

Santiago, que tanta coisa havia prometido à Joana, já há um bom tempo andava desaparecido. Trabalhava numa empresa que transportava carros para o interior, naqueles imensos caminhões-cegonha. Não tinha endereço certo, apenas o celular que, vez por outra, ligava para dar alguma notícia. Joana, apesar da situação, nem cogitava de cobrar nada dele. Santiago poderia ser " ela sabia disso " uma grande mentira ou, até, estar desempregado. Como saber?

Ouvia mil histórias sobre outros lugares. Na tevê, ficava sempre de olho quando o assunto era oportunidades de trabalho. Claro, no ramo da alimentação, ou mesmo em serviços gerais, seria o mais afeito às suas práticas. Era apenas mais um sonho de Joana que a ajudava levar em frente aquela realidade que já não tinha mais a menor graça. 

Quando o pai de Joana voltou do chalé, tinha um ar abatido, apenas desesperança e tristeza no olhar. Nem acordou Leonardo, precisava de um tempo para entender melhor a situação. Não era homem de se desesperar, tampouco maldizer a vida. Sabia que ali não era fácil de suportar. Apenas o que sentia naquele momento, era não saber qual direção teria tomado Joana. E, também, por não ter tido a oportunidade de desejar-lhe boa sorte.


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terça-feira, 22 de abril de 2014

Jornal Pé no Saco - Edição de Maio 2014

Direto da Fan Page de Otávio Martins Amaral -
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PÉ NO SACO - EDIÇÃO DE MAIO - PARA LER CLIQUE NO LINK >>>
https://drive.google.com/file/d/0B9FR93OLJv-UdzVPMnlqWGMxak9vTXR5RE8xUmpxdDNZMjE4/edit?usp=sharing
(mensagem do editor via email) Caríssimos leitores,
Desta vez, nos perdemos. Aprontamos a Edição de Maio, no meio do mês de Abril. Como a Edição de Maio teria muito mais coisas que dizem respeito ao mês de Abril, o Pé no Saco de Maio vai adiantado (podem tirar as mãos, aos homens, as duas, protetoras do saco). Quase dois meses sem esse pé no saco.
Abraços, Jackson Machado de Assis e do Pandeiro - 

Diretor Jornal Pé no Saco.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PRÉ LANÇAMENTO DA FAN PAGE DO ESCRITOR OTÁVIO MARTINS AMARAL NO FACEBOOK

Nosso colaborador agora tem uma fan page no Facebook.
A vasta produção  de Otávio Martins Amaral precisava de um novo ponto
de divulgação ao público amigo desta mídia social que cada vez cresce mais e se
fortalece culturalmente rapidamente com a presença ativa de tantos de nossos artistas da música, do teatro,das artes visuais e de tantas outras áreas.
Convido todos a conhecer as artes de Otávio !! Sejam bem vindos!

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domingo, 1 de maio de 2011

SIMPLESMENTE - Otávio Martins

Os meus sonhos costumam acontecerem desordenados, confusos. São quase sempre imagens soltas e desconexas. Quando acordo, preciso juntá-las, cuidadosamente, para tentar dar-lhes algum sentido.
Numa noite dessas, tive um sonho diferente; apresentou-se tal como um filme de curta-metragem; organizado, com começo, meio e fim. Pela manhã, coloquei-o – como um roteiro – na tela do computador.
Logo na primeira cena, eu estava do lado de fora do bar, com um copo na mão – não lembro qual era a bebida – sobre uma plataforma de cimento, bem acima do nível da calçada. A plataforma era protegida por um parapeito armado com uma estrutura de grossos canos de ferro, sobre o qual eu debruçara-me. Meu olhar, voltado para o lado esquerdo da rua, meio perdido, não conseguia definir muito bem a paisagem.
Depois, aprofundando um pouco mais a vista, percebi que naquele canto ficava o fim da rua. Tomando um grande espaço, havia uma enorme cama, sobre a qual várias pessoas se tocavam em franca confraternização. Não recordava de ter-me deslocado até lá, mas, de repente, me vi deitado no meio de toda aquela gente. Uma mulher aproximou-se de mim e, soltando a sua longa cabeleira, descansou, suavemente, a cabeça sobre os meus pés descalços. Senti meu coração disparar, embalado pela aceleração de suas próprias batidas.
Na cena seguinte - parece que de outro ângulo - ela, lentamente, foi levantando o corpo; ficou sentada bem junto a mim, levou a mão direita em direção ao meu rosto, como se fosse acariciá-lo.
Acho que eu devo ter entendido mal e, instintivamente, levei minha mão até a sua cabeça e, vagarosamente, deixei que descesse por toda a extensão dos seus longos cabelos, até sentir a pele macia de suas costas, já quase na altura da cintura. Tudo acontecia sem o menor controle da minha vontade, quando fui surpreendido por sua áspera reação:
- Nunca – com o indicador em riste na direção do meu rosto, aos gritos – nenhum outro homem teve uma atitude assim, comigo... E continuava alterando, cada vez mais, a sua voz.
Apesar de ninguém ter dado a menor importância àquela sua atitude, fui ficando com muita vergonha e constrangimento. Tomado por um terrível sentimento de culpa, pelo que, supostamente, tivesse cometido, fui-me afastando, como um fugitivo, em direção ao mesmo bar onde estava, quando tudo começou.
Passei direto pela plataforma de cimento e continuei pela mesma calçada, a qual me levaria até a pensão. Naquele momento, tive a sensação de que estava um pouco mais frio. Talvez fosse o vento. Não tinha idéia de onde ficava exatamente a pensão; e o meu quarto como seria? Há quanto tempo eu morava ou estaria hospedado naquela pensão?
A sensação era de que todas essas imagens, ou referências, enquanto o sonho ia se desenvolvendo, surgiam, assim, aos poucos, instaladas numa espécie de não-lugar que se revelariam como flashes, aos meus olhos. Dava-me a impressão de que todo aquele cenário estava sendo montado por algum mecanismo da minha mente, simultaneamente, só para ir dando um ar de realidade ao meu sonho; como o trabalho de um pintor, ao rabiscar numa grande folha de papel de desenho, o quadro que pretende pintar.
Senti passos fortes e apressados, quase nos meus calcanhares. Determinada, já vestindo outra roupa – um macacão preto, acolchoado nos quadris, a realçá-los ainda mais - cujo comprimento não passava da altura das canelas; o fecho éclair, aberto, revelava parte dos seus lindos seios claros. Estava tão sensual quanto com aquele vestido quase transparente, quando descansou, suavemente, a sua cabeça sobre os meus pés descalços. Talvez isso tivesse durado apenas alguns segundos, mas, para mim, pareceu uma eternidade.
Senti um alívio quando o homem que vinha em sentido contrário – surgido como por encanto – esboçou uma saudação em minha direção. Logo reconheci que se tratava do sapateiro, que tinha a sua oficina ao lado da minha pensão. Uma nova amizade, talvez. Ou, quem sabe, até já tivesse consertado alguns sapatos meus. Quando ia dirigir-lhe a palavra – seria a minha tábua de salvação - já a uma distância de cinco ou seis passos, ela, interpondo-se a nós, irradiando uma alegria contagiante, perguntou a ele se poderia pegar as suas sandálias, no dia seguinte. Nada que lembrasse aquele seu comportamento, momentos antes, lá na cama. Ainda sugeriu, amavelmente, ao sapateiro, que passaria pela oficina, na parte da manhã, bem cedo, quando saísse para a academia. O senhor aquiesceu com um leve gesto de cabeça e, virando as costas para nós, continuou o seu caminho.
Enquanto eles combinavam a entrega das sandálias, não vi alternativa que não fosse afastar-me para um lado, disfarçadamente, não sei nem porque – vontade de sumir – comecei a cantarolar uma linda música – já a pegando na segunda parte – do Paulinho Nogueira:
-... E chegando a noite devagar/Descontrair sua razão/Soltar de leve o coração...
Como se tivesse abstraído totalmente aquele incidente “ocorrido” entre nós, gentil e de uma forma muito simpática, colocou o braço sobre o meu ombro, olhando-me com ternura, ensaiou algumas considerações sobre a música do Paulinho:
Talvez para expiar o meu suposto pecado, fiz o possível para socorrê-la e, num esforço, arrisquei algumas palavras que pudessem ajudá-la.
Essa minha infeliz tentativa nada acrescentava ao que ela já havia dito. Eu apenas tentara um gesto de solidariedade, deixando escapar, talvez, um leve sentimento de culpa.
Logo a seguir, ainda com o braço sobre o meu ombro, foi inclinando a sua cabeça, até encostá-la na minha – era bem mais alta do que eu – e determinando a direção pela qual caminharíamos, lado a lado, por alguns instantes. Revelou-se de uma voz afinadíssima e, ainda, de uma grande força de interpretação; continuamos cantando, em uníssono, até o final da música:
-... Procurar alguém o seu bem verdadeiro/Tão-somente e vai saber simplesmente/O que é bom pra você.
Deixando-me para trás, apertou novamente o passo e foi-se misturando, logo mais à frente, à suave bruma provocada pelo lusque-fusque daquele final de tarde e chegada da noite que, pouco a pouco, foi desfazendo a sua silhueta.

Otávio Martins

*imagem : obra de Magritte

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA - OTÁVIO MARTINS

“Pietá”, de Michelangelo

Todos olhavam para ele consternados; abraçavam-no, sem mesmo dizer qualquer palavra, apenas para confortá-lo e para que se sentisse amparado naquele momento tão grave e delicado da sua existência.
Ele não tinha o olhar triste; perdido, sim, transcendia a figura da mulher que estava sendo velada e que, agora, nos últimos momentos daquele ritual, era chegada a hora de fechar o caixão, o qual, logo a seguir, seria levado ao seu sepultamento.


Apertando-lhe contra si, ao passar o braço direito pelas suas costas, num gesto claro de proteção, o homem, bem mais jovem que ele, tinha o ar abatido e tristonho. Não obstante, esforçava-se para confortá-lo.
Certamente que alguma coisa ia mal com a sua memória, isso ele já percebera. Não poderia estar ali, naquela condição, sem mais nem menos. Precisava ir à busca do fio da meada, o qual, possivelmente, o ajudaria a desvendar qual o seu papel naquele triste acontecimento. O féretro, sobre um carrinho, era conduzido, logo à sua frente, por um funcionário do cemitério. O homem que lhe abraçara fortemente lá na capela, antes de fecharem o caixão, permanecia ao seu lado, tendo, agora, os olhos vermelhos, denunciando que havia chorado durante aquele breve intervalo.
Assim, de repente, viu-se, lá num canto das suas lembranças, sentado, vestindo um longo sobretudo azul-marinho, de fino acabamento e um gorro de tecido de lã, cinza, que também servia para cobrir os primeiros sinais da sua calvície. O banco em que estava sentado ficava localizado bem no meio de uma daquelas veredas da praça. Do outro lado, no banco em diagonal ao seu, reconheceu o sujeito que comia um lanche caseiro, rodeado por uma porção de pombos que esperavam as migalhas que por ventura caíssem ou que fossem atiradas. Lembrou, ainda, que o sujeito havia trabalhado, por muito tempo, no estacionamento, ao lado da alfaiataria do seu pai. A alfaiataria tinha uma ótima freguesia, o que exigiu afinada capacitação profissional de seus cinco ou seis funcionários. A mulher que estava ao seu lado, entretanto, não tinha o rosto nítido ao ponto de que ele pudesse identificá-la. Ainda que muito tivesse se esforçado, não teve jeito; não saberia dizer quem era, apesar de estarem ali juntos. O sol amenizava o frio naquele grande cenário de muitas árvores; talvez fosse o fim de um outono qualquer, ou comecinho do inverno.
Ao passar por um enorme jazigo – provavelmente de alguma família muito rica – avistou a estátua, em mármore, fixada sobre o teto, a qual dava à construção um aspecto pomposo, até exagerado, mesmo para a representação à qual se destinava. Mas a estátua, ainda que fosse uma réplica, não perdia, por isso, a sua imponência. Impossível passar por ali sem se dar a devida atenção àquela peça que, agora, o reportava à Renascença Italiana, de Michelangelo, com a sua Pietá. Apesar do grave momento, experimentou uma ponta de satisfação, lembrando, até, que a Pietá fora encomendada por um cardeal francês, para a Capela dos Reis de França, localizada na Basílica de São Pedro, por volta do ano de 1500.
Como poderia ter esquecido?
Os trabalhos em escultura eram a sua vida. Depois que o seu pai morreu, ficou com a imensa casa, uma construção antiga, de um amplo jardim, pelo qual costumava ir espalhando as suas esculturas, lugar onde passava a maior parte do tempo. Logo a seguir, já estava iniciando uma peça de grandes dimensões; lá do alpendre, bem distante, a mesma mulher da praça acenava para ele, em trajes de passeio, parecendo que o avisava estar de saída ou, apenas, se despedindo. Aqueles gestos que pareciam de intimidade ou convivência – sentiu essa sensação – lhe davam mais ânimo e inspiração para cada novo trabalho.
Enquanto se preparava para iniciar o entalhe, o menino corria, junto a um cão labrador, por vários cantos do jardim, demonstrando muita segurança, talvez pelo simples fato da sua proximidade. Ele não poderia “parar” ali, precisava ir em frente nas suas redescobertas. Nem tempo para saber o que estaria reservado àquela enorme peça bruta de mármore.
Quando o carro que levava o féretro virou à esquerda, numa daquelas avenidas do interior do cemitério, pressentiu que o local do sepultamento estava próximo. Era preciso ser mais rápido na revisitação às suas lembranças, sob pena de não conseguir identificar-se direito, tampouco a mulher que iria ser sepultada dentro de alguns instantes.
Durante o breve percurso permaneceu calado. O gorro de lã, escuro – do mesmo tipo daquele que estava usando naquela tarde fria lá na praça – servia para protegê-lo do frio e de um vento persistente e forte, naquele triste e cinzento final de tarde, acentuando ainda mais os seus cabelos compridos, totalmente brancos e ralos, os quais denunciavam que teria a idade aí por volta dos oitenta e cinco anos, ou até mais. Em questão de alguns passos, a memória, que se ia restabelecendo, continuava levando-o a reviver outros fatos, passados em diferentes épocas.
A mulher que caminhava de braços dados com o sujeito que tinha o outro braço sobre os seus ombros não tinha um rosto totalmente desconhecido, mas, tampouco, que lhe pudesse parecer tão familiar. Talvez não fosse de uma estranha, porém, nada que lhe provocasse a sensação ou a impressão de que fosse alguém que gozasse de sua intimidade ou, mesmo, de sua convivência.
Preferia caminhar olhando para frente. Era assim que a sua memória apresentava várias cenas que se iam revelando no decorrer do trajeto pelo qual o corpo da mulher estava sendo levado. Não havia tempo a perder. Era preciso aproveitar ao máximo todas as informações que pudessem ajudá-lo a identificar a morta e, também, o porquê de estar ali, naquela condição, dando-lhe a impressão de ser um dos principais atingidos por aquele melancólico acontecimento.
Avistou bem lá na frente, junto à parede da direita, os dois coveiros que, sobre um andaime, faziam os últimos preparativos numa daquelas gavetas, a qual ficava na fileira do meio, não muito alta. Somente naquele local havia algum movimento e a presença daqueles dois trabalhadores; eram sinais de que - quase certeza - ali a mulher seria sepultada. Ficou um pouco aflito ao perceber a distância que, agora, estabelecia, a olhos vistos, o curto prazo que teria para decifrar todo o mistério em que se sentia envolvido.
O funcionário do cemitério que ia conduzindo o carrinho que carregava o esquife procurava ir numa velocidade bem lenta, dando a impressão que assim o fazia, somente para que ele, com seus passos quase arrastados, pudesse acompanhá-lo de perto. Mesmo assim, sabia que travava uma luta desesperada contra o tempo. Por mais que ele tentasse atrasar o ritmo do acompanhamento, o enterro estava em seus últimos momentos; isso era certo. Outro ponto que o dificultava, era a maneira como as suas lembranças se apresentavam. Não surgiam numa ordem cronológica. Por vezes, voltavam a uma época remota para, a seguir, saltarem para um tempo cá na frente. A essas alturas, ainda que algum fato pudesse despertar a sua curiosidade, procurava não se deter nos detalhes; bastava-lhe entender o significado principal de algum acontecimento, e pronto. Talvez num outro momento viesse a ter a oportunidade de relembrá-lo com mais calma, podendo, assim, dedicar-lhe melhor atenção.
Ao chegar a casa com um automóvel que conseguira comprar depois de muito economizar, estavam a lhe esperar, uma mulher e um jovem, debruçados sobre o portão da frente. Época em que o automóvel era uma raridade. Encostou-o em frente à casa, desceu e, logo a seguir, dirigiu-se aos dois; entregou as chaves para o rapaz que, imediatamente, a passos ligeiros, foi em direção ao veículo. Depois, colocou o braço sobre os ombros da mulher e se dirigiram ao interior da casa. Não deu pra ver se haviam entrado para comemorar; a porta foi fechada logo em seguida.
E essa lembrança, agora? Nem mesmo em outros tempos havia recordado daquilo. A mulher aparecia de mãos dadas com ele, naquela mesma praça, trazendo de casa uma sacolinha de tecido, que ele bem a reconheceu, cheia de farelos de pão e sobras de outros alimentos para jogá-los aos pombos, que eram, sempre, em grande quantidade. Percebeu que assim o faziam, seguidamente, como um bom motivo para mais um passeio pela praça.
Outra vez a memória com as suas manobras, brincando com o curso do tempo. A mulher que estava do outro lado do homem que o amparava nos últimos instantes daquele cortejo fúnebre, aparecia bem mais jovem, vestida de noiva, numa festa em sua casa, com muitos convidados, cuja maioria passeava pelo jardim admirando as suas esculturas. Depois, na hora de cortar o bolo, tinha ao seu lado o mesmo homem que ali estava entre os dois. Ele e a mesma mulher daquelas outras aparições - felizes - postados ao lado dos noivos. Aquela mulher – não precisaria mais de outras revelações – era a sua esposa. Ao seu lado estavam o seu filho e a sua nora. Não poderia haver mais dúvida.
Quando, por fim, os coveiros retiraram o caixão de cima do carrinho e o descansaram na extensão do andaime, antes de colocá-lo, cuidadosamente, na gaveta, ele irrompeu num choro baixinho, sem causar qualquer preocupação ou admiração em nenhuma daquelas pessoas, as quais, ele percebera, procuravam ajudá-lo a transpor aquele momento tão difícil e único. Chorou por mais alguns minutos, aliviado por ter conseguido se despedir da sua companheira, de mais de cinquenta anos, com toda a lucidez.

OTÁVIO MARTINS

quarta-feira, 30 de março de 2011

Adios Nonino - Astor Piazzolla

Esta música foi composta numa noite. Piazzolla recebeu a notícia da morte do pai dele e não seria possível estar presente no enterro. No quarto do hotel compôs esta maravilha. "Nonino" era como todos chamavam o pai dele, apesar de significar avozinho. (COMENTÁRIO DE OTÁVIO MARTINS AMARAL)

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