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quarta-feira, 4 de novembro de 2015
JOÃO DO VALE, AQUELE DO CARCARÁ.
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JOÃO DO VALE, AQUELE DO CARCARÁ.
Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
Nem sei como conheci o João, só sei que, sempre que vinha trabalhar em São Paulo, ficava lá na nossa casa, da Flora, do Benito e minha, no Bexiga, centro de São Paulo.
A gente morava no Jardim Francisco Marcos, uma travessinha da Rua da Abolição. Sobradinhos e um paredão. No paredão, um portão. Saída dos trabalhadores do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, o qual ficava na Rua Major Diogo (a rua de cima). Inclusive os artistas. Por vezes passavam por nós. Mas, eu nem sabia quem eram. Gente da pesada! Soube depois.
O João costumava aparecer lá em casa com uma amiga, não lembro o nome, que era cleptomaníaca. Avisava que vinha (o João), a Flora deixava algumas “jóias” bem à mostra. Como eram baratas, a amiga do João as levava de vez. Assim, a Flora não tinha quase prejuízo e, todos nós, numa boa, curtindo a visita do João do Vale, autor de Carcará, gravada pela Maria Bethânia. Estou lembrando, o João era amigo da Flora Vidal, que era cantora, já havia morado no Rio de Janeiro, onde, agora, morava o João, nascida em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo. Terra, também, do Roberto Carlos, aquele da Jovem Guarda.
Logo ali, o Teatro Oficina, na Jaceguai, parece, com o Zé Celso na sua direção.
Certa vez, quando o Zé Kéti também estava em São Paulo, lá pro bairro do Limão, com os seus percussionistas, fomos, os três ao bar Clube do Choro (do Elton, Reinaldo, Ronaldo e Roni, todos irmãos, todos judeus,). Sentamos numa mesa do lado de fora, antes da mureta que a separava da calçada. Lá em Pinheiros. Eu estava morando – o Valgênio Rangel, também - no apartamento do Gudin, na Cônego Eugênio Leite, abaixo da travessa do bar. Eu não sabia, mas, estava ali, comigo, mais da metade do elenco do show OPINIãO, dirigido pelo brilhante Augusto Boal, no Rio de Janeiro, no Teatro Opinião, parece que em 1968. Tão importante o show, que o teatro (Teatro de Arena) ficou conhecido como Teatro Opinião. Seu diretor, me disseram, era o Vianinha. Os atores eram o João do Vale, o Zé Kéti e a Nara Leão. Depois, é que veio a Betânia, irmã do Caetano. E eu, ali, com quase todo o elenco do show Opinião. Não é pra qualquer um, não. Também, a gente não é obrigado a saber tudo, né?
O João era uma figura rara. Sujeito bom, sincero e talentoso. E, bom de copo. Lembro que no show (parece que era no Teatro João Caetano, num bairro desses de Sampa) o João contava (de camisa branca e pés descalços) que, quando chegou ao Rio de Janeiro, foi trabalhar de ajudante de pedreiro, numa obra lá. O radinho de pilha, o seu chefe, pedreiro, deixava em cima dos tijolos. No radinho, começou a tocar Pisa na Fulô, recém gravada pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, o Gonzagão. Ele disse pro seu chefe: “Essa música é minha” o que lhe custou a resposta: “Vai puxar massa, neguinho, vai. E vê se para de sonhar”. João largou o carrinho junto à massa e sumiu. Disse ele que foi na Rádio Nacional pra saber da tal gravação. Não sei se isso é verdade. O que o João contou lá no show é o que eu estou, agora, a contar. O João e eu, sempre inventávamos coisas...
No sábado, não fui ao show com o João. Antes de sair ele prometeu que faria no dia seguinte, domingo, uma galinha ao molho pardo. Não levei muito a sério. O show, mais as biritas, o João não iria chegar a tempo, para fazer o almoço. A tal de galinha ao molho pardo. Ás dez horas da manhã, domingo, fui até o portão, só por ir. Vinha o João, com o seu par de sapatos debaixo de um braço, no outro, uma galinha branca, viva. Mais atrás, a cleptomaníaca da sua amiga. Reservara um garrafa, cheia, de 51, a preferida do João. O Benito não bebia, acho que nunca bebeu. Comentou que eu nem havia provado a Galinha ao Molho Pardo do João, tentando acompanhá-lo na 51. Ele é que não viu, entre um martelo e outro da 51 um pedaço de galinha. Estava ótima a Galinha ao Molho Pardo feita pelo João. Um domingo inesquecível, aquele.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ - Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
DOIS
PRA LÁ, DOIS PRA CÁ
Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
A gente vai junto, prum lado ou pro outro. Cair, jamais. É o que se pretende. Mesmo quando sentimos muito frio. Este, até na alma.
Lá no salão onde costumávamos frequentar, tanto no inverno quanto no verão, assim que o uísque começasse a subir, partíamos para os boleros, ninguém desconfiava. Íamos, os dois, para um lado e, em seguida, para o outro. Sempre no ritmo de bolero. De preferência “Dois pra lá e dois pra cá”, do João Bosco e do Aldir Blanc, imortalizado pela maior intérprete deste País, Elis Regina. Se a gente se desgrudava, nossa, seria, na certa, um desastre, um pra lá e outro pra cá. Cairíamos no meio do salão. Não ajudariam, nem se importariam. Apenas iriam rir.
Uma vez, não lembro onde, escrevi: É na estrutura do ziguezague que o bêbado se garante. Tampouco lembro se copiei de alguém.
Voltando àqueles dois, um, até crooner já foi, dizem; mineiro. O outro, carioca, tipo carnavalesco circunspecto, pasmem, além de escrever essas letras para músicas y otras cositas más, ainda ex-baterista e psiquiatra. Durma-se com o som desses dois.
Pra falar a verdade, eu dependia dele e, ele, de mim. Éramos unha e carne na arte de dançar, ou, de equilibrarmo-nos. Se eu estivesse aflita, ou ele aflito, vá que o coração, de qualquer um de nós, disparasse feito aquele instrumentozinho que o rapaz lá da orquestra costuma tocar, uma bolinha em cada mão, nos boleros, a gente nem ligava. Às vezes, talvez pelos uísques, poderia, até, parecer que a gente se entusiasmava mais do que os outros, no imenso salão. Nossos perfumes se misturavam a tal ponto que, nem ele e nem eu, tentávamos explicar ou querer saber de quem seria ao certo.
Costumava enfeitar-me para aquelas ocasiões. Não tinha jóias caras. Mas, as bijuterias, eram lindas!
Para ser sincera, mesmo, acho que essas lojas de calçados deveriam, quando vendem esses sapatos, principalmente esses mais baratos, dar, de brinde, um par de band-aids. É quase certo que aquele calo que bem o conhecemos, o sapato novo fará lembrá-lo, ou fazer-nos lembrar de algum aperto por que passamos.
Foram tantos uísques com guaraná que acabei me acostumando com a parceria. Chego a escutar, em meio aos meus delírios: “São dois pra lá, dois pra cá”.
Bagé, 16 de junho de 2015.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
SÓ PRA CHATEAR - Crônica de Jackson M. de A. e do Pandeiro
SÓ PRA CHATEAR
Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
Eu mandei fazer um terno/Só pra chatear... Não, isso é da música do Hermínio Bello de Carvalho e do João de Aquino (primo do Baden Powell, acho. Por isso Baden Powell de Aquino). O que eu quero falar, mesmo, é dessa coisa que a gente tem de incomodar os outros. Só por incomodar. Será da natureza humana ou é que a gente é que inventa um jeitinho de chatear o próximo? Mas, que incomoda, incomoda.
Ela vinha não sei de onde e nem por que. Mas, veio. Postou-se ao meu lado, como se eu a tivesse convidado. Bela e faceira. Bela, só pra citar a expressão. Uma verdadeira bruxa. Ou feiticeira, como outros preferem. A maquilagem excessiva.
De cara, depois de bem acomodada, perguntou:
- Você é daqui do pedaço?
Nem respondi. Vocês precisavam ver e ouvir do jeito que ela fez essa simples perguntinha. Um misto de sarcasmo e ironia. Aí, podemos considerar uma mistura de inteligência e maldade. Fiquei mais quieto do que estava antes dela chegar. Só não saí cantarolando naquele momento porque eu estava, justamente, sentado à mesa da qual há anos costumo sentar-me no inferninho do seu Maximino, aqui na Lapa. Já é costume, saio da Biblioteca Nacional, no comecinho da noite e dou uma passadinha por ali, por vezes, até conversamos. Eu e ela. Antes, eu achava que era por acaso, nada, é só para vê-la.
Precisava ser daquele jeito? Conhece-me há anos e fazer tal pergunta, como se eu fosse um estranho. Um qualquer. Ela sabe, muito bem, que a profissão dela é assim mesmo, há milênios, dizem. Quem sou eu para discriminá-la?
Como eu não respondi à sua primeira pergunta, foi em frente no seu questionário, próprio para o ambiente. “Do jeito que você é corneado, parece, até, que nem vem lá da Favela”.
Foi o que bastou! “Nunca mais repita isso”, eu falei. Levantei e fui-me embora, deixando-a falando sozinha.
Nem contei que havia comprado uma casinha ali mesmo, na Lapa, bem próxima a casa dela. Sai cantarolando a letra da musiquinha lá de cima, do Hermínio e do João de Aquino:
“... Mas vou morar na Lapa perto dela. Só pra chatear”.
Assis Valente com Arcos da Lapa ao fundo
Fonte: Google Imagens
sexta-feira, 22 de maio de 2015
SINUCA DE BICO - Jackson Machado de Assis e do Pandeio – Otávio Martins
Adoniran Barbosa
SINUCA DE BICO
Jackson Machado de
Assis e do Pandeio – Otávio Martins
Ainda não consegui sair desta
sinuca de bico. Mas, nem por isso me sinto derrotado. Sair de uma
sinuca de bico é como acertar numa centena no jogo
do bicho; uma contra
novecentas e noventa e nove. A chance de ver alguém sair de uma
sinuca de bico, já se pode considerar um privilégio. Talvez, para
se entender melhor, seja necessário evocar um samba de Noel: “...
Batuque é um
privilégio/Ninguém aprende samba no colégio...”.
Do contrário, eu e alguns amigos meus, que varáramos as noites,
jogando por aí, teríamos aprendido a superar essa dificuldade da
sinuca.
Ter assistido a uma partida entre o
Praça e o Carne Frita (duas feras do pano verde),
também, pode-se considerar um privilégio. Tudo aconteceu numa
sinuca que ficava ali na Ipiranga, quase esquina com a São
João, em frente à banca de jornal. Anos sessenta. Para adentrar a
sinuca, propriamente dita, teria que passar por um corredor com suas
oito cadeiras de engraxates; quatro de cada lado; colocadas acima do
nível da passarela. Na altura do chão, os engraxates, no alto, os
clientes.
Numa fria madrugada de agosto,
formávamos uma plateia de uns quinze amantes do jogo, o qual se
desenvolvia sobre o pano verde de uma bem postada mesa, sustentada
por seus possantes seis pés. Foram mais de dez minutos de suspense.
O Carne Frita colocou o Praça numa verdadeira sinuca
de bico, naquela mesa do meio; caçapa do canto, à direita.
O Praça era um dos maiores
nomes da sinuca nessa época. Lembro, também, do Rui Chapéu.
Grande figura e, ainda, um taco de respeito; tinha um estilo próprio,
até mesmo para passar o giz. O Carne Frita, sem comentário.
O Praça, com a ajuda do seu
taco e algumas miradas, de um olho só, quase encostando o rosto na
lateral da mesa, media, ou calculava, as tabelas e efeitos que seriam
necessários para sair daquela situação criada pela quase malícia
do Carne Frita. Parecia que a bola branca havia sido colocada
com a mão. Eu acho que todos os outros, suavam frio durante aqueles
dez minutos que pareciam intermináveis. Conjecturas imagino,
mirabolantes; silenciosas, a que o Praça se obrigava.
Uma verdadeira tacada de mestre. A
bola rodopiou sobre o próprio eixo, imaginário, na largada; pegou
um efeito diabólico. Seis tabelas e bola. Exatamente como ele havia
cantado:
- Seis tabelas e bola – ainda por
cima, matou a bola seis, a rosinha, na caçapa do meio. Com oito
pontos à frente do Carne Frita, era o fim. Talvez a maior
final de todos os tempos da Sinuca Nacional.
O Carne Frita ficou quase
dois meses sem aparecer lá no snooker da Ipiranga. Efeito
moral ou, quem sabe, penitência. A verdade é que a sinuca melhor
freqüentada da cidade viu-se privada, por todo aquele tempo, da
maestria do Carne Frita.
Afora a mesa da sinuca, lembrei de
outro quadrado, este formado pelas esquinas da Ipiranga com a Avenida
São João. Também garrei a imaginar o que aconteceria, hoje, no
coração do Caetano Veloso, se cruzasse por lá?
Escrevendo esta crônica, num breve
momento, a memória trouxe-me a lembrança duma antevéspera de
Natal, 1980. Tínhamos acabado de sair do Gato que Ri, o
Adoniran Barbosa e eu, ali no Largo do Arouche, bem em frente
às floriculturas. Falou que gostaria de dar uma esticadinha até a
São João com Ipiranga, antes de ir pra casa. Morava lá pro lado do
Aeroporto. No restaurante, comemos uma bela macarronada al sugo.
Era sempre ele quem pagava. Antes, uma dose de uísque cada um,
depois, um cigarrinho. Pegamos a Vieira de Carvalho, costeamos aquele
canto da Praça da República e entramos na Ipiranga; ainda olhamos,
rapidamente, uns cartazes do Cine Marabá e logo chegamos ao
cruzamento. Vasculhou, com o seu olhar, os quatro cantos, já com os
olhos marejados; fingi que não vi. Acho que se lembrou de outros
tempos. Pra mim, ainda era a mesma esquina. Virou-se, fez sinal prum
táxi, já passava das dezesseis horas. Avançamos pela Ipiranga,
entramos na São Luís. Depois de passar pelo farol, entre o início
da Consolação e a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, chegamos
ao final do Viaduto Nove de Julho. Boca da Santo Antonio, quase
chegando à Praça Craveiro Lopes. O táxi parou, era o meu ponto de
descida. Antes de eu sair do táxi, vejam o que ele fez: meteu a mão
no bolso de dentro do paletó – aquele xadrezinho – trazendo, na
volta, algum dinheiro. Eu andava numa pindaíba de dar pena. Disse
que era a minha comissão do show da Unicamp, o qual iria se realizar
no dia oito de janeiro, do próximo ano. Numa formatura, parece.
Queria ficar livre do compromisso, completou. Ele foi-se pra casa,
com o taxi, deixando-me, ali, com aquele nó na garganta.
Onde era a sinuca, parece que virou
um fliperama, depois, uma loja. Os engraxates sumiram varridos pelo
efeito Nike, ou Adidas, sabe-se lá. O Bar dos Artistas, lugar
onde os músicos da noite, “desempregados” – formando uma
grande orquestra em silêncio – ficavam aguardando algum chamado
emergencial duma casa noturna qualquer. O Bar dos Artistas,
que não fechava nunca, tinha o melhor sanduíche de pernil da
cidade, feitos pelos sócios, dois portugueses, virou um bingo,
informatizado. Atravesso a São João e não encontro o Jeca, onde,
por muitas madrugadas, costumava tomar um caldo verde. Que tristeza!
Dizem que passou o ponto pro cara do mate gelado, que funcionava logo
descendo a São João, em direção ao Largo Paissandu.
Lembram do esquinão, com aquele
baita vidrão, parecendo uma grande vitrine, onde funcionava o Bar
Brahma? Havia cedido a um consórcio de carros, ou de motos; nem sei
que pôrra é aquilo. O Bar Brahma voltou, depois de um tempo, ao
lado, pela São João. Como diria o cubado Silvio Rodriguez, que
imortalizou a Yolanda do Pablo Milanês, “És lo mismo, pero no
és igual”. Espero que não venha acontecer ali, a cena de
sangue prevista pelo Paulo Vanzolini (cantada pela Márcia), numa de
suas rondas pelas noites paulistanas.
“Em pé”, mesmo, só o
Citibank. Esse eu quero ver tirarem dali, mesmo depois do escândalo
dos Fundos de Pensões, onde esteve envolvido até a medula.
http://www.revistasamizdat.com/2013/02/sinuca-de-bico.html
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quarta-feira, 20 de maio de 2015
O ÚLTIMO BALEIRO - JACKSON MACHADO DE ASSIS E DO PANDEIRO
O baleiro da Fonte
Nova, Bahia. Desde 1959.
Seu Zé, baleiro da antiga -
Livrar-se do fogo eterno do castigo de Deus, carro e comprar, comprar, comprar, como manda o Sistemão que fez água, novamente, em 2008, e nós continuamos a pagar o pato. Eta, ferro, sô! E os banqueiros – todo banqueiro é ladrão, foi o que vi nos cartazes de rua, enormes, espalhados pelo Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Sul, parece que em 2000 ou 2001, por toda a cidade de Porto Alegre. Ninguém foi processado. (Por que será).
- Ando por toda a cidade, maneira de dizer. Pelo menos nesta área central, tenho rodado. Já estou ficando, até, conhecido. Vendo o meu peixe, quer dizer os meus doces. A maioria, sou eu mesmo quem faz. Compro somente alguns, porque o pessoal fica pedindo, Mentex, bala de goma e algum chocolate tipo bis. De mais, eu faço. A minha mãe, também, tem uma mão pra doce, que só vendo.
- Mas os baleiros dos cinemas, também, alguns eles compravam, outros era o pessoal de casa quem fazia. Pela quantidade, valia à pena, acho. Lembro da mãe do Chico, a dona Zica, cada doce maravilhoso. E as balas de coco, então? Nossa, uma delícia! Quais os que você faz em casa?
- Olha, todos os que estão aqui no meu tabuleiro, são feitos em casa. Claro, tirando aqueles que eu lhe falei, não tem como fazer. Enquanto estou bandeando por aí, minha mãe vai adiantando para o dia seguinte. Todos os dias têm doces novos. Já tenho uma freguesia que, pelo menos, para o nosso sustento, meu e de minha mãe, dá. Assim, vou passeando com o meu tabuleiro (e o carrinho) por aí, pra quem quiser provar as delícias, principalmente feitas pela minha velha.
- Sabe onde é que eu vi um baleiro, pela última vez? Num circo. Olha, o garoto era ágil, subia aquelas arquibancadas num pé e descia no outro. Acho que trabalhava sob comissão, mesmo assim, vendendo daquele jeito, acho que tirava um bom troco.
- Acredito. É que lá no circo as pessoas estão concentradas num mesmo espaço, e eu, preciso ir à cata dos fregueses. Ando um bocado. Mas, melhor para o corpo, não acha? Dizem que se movimentar é bom pra saúde. Então... Ah, e eu me sinto muito orgulhoso de ser o único baleiro da cidade. Está vendo este uniforme, e os outros que tenho lá em casa, eu mesmo faço. Tecido barato; tenho uma maquininha, dessas elétricas, mando bala, em dois toques tenho uma roupa de trabalho novinha. O pessoal percebe que eu estou sempre limpinho. Precisa, né? Trabalhando com coisas de comer, tem que ser assim.
- Olha, estou gostando muito de falar com você. Principalmente por estar falando com um baleiro. Além das recordações, de outros tempos, você reencarna uma figura que, só pelo que representa, já é de muito valor. Ainda os doces... Olha, aqui, um pé-de-moleque! Vou comprar um. Sou louco por pé-de-moleque. Dá um pro Dieguinho, também; acho que ele vai gostar. Sei que ele adora fotografar, mas, também, ninguém é de ferro e um pé-de-moleque vai bem, muito bem,
- Uma tarde qualquer, eu estava ali na lotérica e vi você passar. Pensei, ainda vou conversar e escrever algo sobre esse cara.
- A gente, às vezes, pensa que as pessoas não notam...
- Só não nota, quem não quer. Ou não sabe.
- Pode marcar outro dia, garanto, virei com os outros uniformes. Este daqui é por causa dessa Copa. Gosto, mesmo, é daquele azul (tenho, também o vermelho), é o meu xodó. Estou acabando outro, branco. Esse vou parecer um garção; com botões dourados. Chique, não? Bem, trabalhando, principalmente servindo coisas de comer, estarei no clima, não é mesmo?
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fonte das imagens acima:
http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,o-baleiro-mais-antigo-da-fonte-nova,1081287
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Seu Zé, baleiro da antiga -
Na velha
Bahia... -
O ÚLTIMO BALEIRO.
Jackson Machado de
Assis e do Pandeiro
Estranho.
Um baleiro em plena rua, com o seu tabuleiro e, pasmem, “fardado”
como os baleiros de antigamente. Aqueles que víamos no cinema. Eu,
nas matinês, ou na seção Vermute. Talvez até possamos encontrar
alguns, nos circos, quando estes passam pelas nossas cidades. Deste,
de que estou lhes falando, parece ser o último dos baleiros, vestido
formalmente, rodando pelas ruas da cidade, pasmem, novamente,
vendendo balas e guloseimas, daquelas que a gente encontrava nos
tabuleiros deles, dentro do cinema. Até puxa-puxa. Parece mentira,
não? Juro que encontrei, até pedi pro meu amigo Dieguinho
fotografá-lo. Não é que o rapaz tem três fardamentos. Tinha dois
um azul e outro vermelho. Como vamos ter a famigerada Copa do Mundo,
por tudo quanto é canto deste País Tropical, ele se deu ao luxo de
fazer mais um - verde e amarelo - as cores da Seleção Brasileira de
Futebol. Precisa vender os seus doces e, para isso, vai ter que
batalhar, muito. Na FIFA tem até um ex-torturador da “Revolução”,
ou golpe, de 1964, o Marin. Quem sabe dele é o Lungaretti. Quem
quiser saber mais sobre esse tal de Marin, entre no blog Náufrago da
Utopia. Lá, ele, o Celso Lungaretti, explica direitinho de quem se
trata.
Baleiro é coisa
antiga, desde os velhos tempos do cais dourado da velha Bahia (como
já disse Martinho da Vila), até, este rapaz, com o qual dou de
cara. Nada me assusta. Pensei, vou falar com ele e descobrir de onde
saiu essa ideia maluca de, acabado os cinemas, sair, vestido de
baleiro, com tabuleiro, balas e tudo, pelas ruas centrais da nossa
pequena cidade. Convidei o para a gente sentar na praça, pedi para o
Diego Lameira ir fotografando e fui, maneira de dizer, entrevistá-lo.
Também pedi se ele não poderia se apresentar para as referidas
fotos com os outros “fardamentos”, os antigos, em azul e, o
outro, vermelho. Prontamente, prometeu que, depois posaria para a
câmera do Dieguinho, vestindo aqueles outros, os quais estavam na
corda, secando para revezarem com o novo. Segundo ele, o nome do novo
era “Pra frente, Brasil. Salve a Seleção”. Sujeito franzino,
mas com uma fibra! Conversamos.
Seu nome,
por favor, pra gente já ir se conhecendo melhor. O meu nome é
Jackson Machado de Assis e do Pandeiro.
- Sou
o ........., mas, pode me chamar de......
Logo
perguntei: De onde você tirou essa ideia? Você é jovem, acho que
nem chegou a ver um baleiro desses de cinema, os quais vestiam, assim
como você. Acho que já tinham até fechado os cinemas da nossa
cidade, quando você era garoto...
-
Precisava arranjar um trampo... daí parti pra essa...
- Bem,
então foi por necessidade. Nada que o tenha chamado a atenção pela
grande importância dos baleiros e, mais, ainda, pela sua quase
extinção. Os cinemas... um virou estacionamento; outro é uma
igreja qualquer (até escrevi uma crônica, Chico Baleiro e as voltas
que o mundo dá, falando sobre isso); o outro, também central, foi
alugado pra uma loja, dessas cheias de quinquilharias e balaios de
liquidação. Tudo, uma merda só. Mas, sinal dos tempos, acho.
Livrar-se do fogo eterno do castigo de Deus, carro e comprar, comprar, comprar, como manda o Sistemão que fez água, novamente, em 2008, e nós continuamos a pagar o pato. Eta, ferro, sô! E os banqueiros – todo banqueiro é ladrão, foi o que vi nos cartazes de rua, enormes, espalhados pelo Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Sul, parece que em 2000 ou 2001, por toda a cidade de Porto Alegre. Ninguém foi processado. (Por que será).
- Ando por toda a cidade, maneira de dizer. Pelo menos nesta área central, tenho rodado. Já estou ficando, até, conhecido. Vendo o meu peixe, quer dizer os meus doces. A maioria, sou eu mesmo quem faz. Compro somente alguns, porque o pessoal fica pedindo, Mentex, bala de goma e algum chocolate tipo bis. De mais, eu faço. A minha mãe, também, tem uma mão pra doce, que só vendo.
- Mas os baleiros dos cinemas, também, alguns eles compravam, outros era o pessoal de casa quem fazia. Pela quantidade, valia à pena, acho. Lembro da mãe do Chico, a dona Zica, cada doce maravilhoso. E as balas de coco, então? Nossa, uma delícia! Quais os que você faz em casa?
- Olha, todos os que estão aqui no meu tabuleiro, são feitos em casa. Claro, tirando aqueles que eu lhe falei, não tem como fazer. Enquanto estou bandeando por aí, minha mãe vai adiantando para o dia seguinte. Todos os dias têm doces novos. Já tenho uma freguesia que, pelo menos, para o nosso sustento, meu e de minha mãe, dá. Assim, vou passeando com o meu tabuleiro (e o carrinho) por aí, pra quem quiser provar as delícias, principalmente feitas pela minha velha.
- Sabe onde é que eu vi um baleiro, pela última vez? Num circo. Olha, o garoto era ágil, subia aquelas arquibancadas num pé e descia no outro. Acho que trabalhava sob comissão, mesmo assim, vendendo daquele jeito, acho que tirava um bom troco.
- Acredito. É que lá no circo as pessoas estão concentradas num mesmo espaço, e eu, preciso ir à cata dos fregueses. Ando um bocado. Mas, melhor para o corpo, não acha? Dizem que se movimentar é bom pra saúde. Então... Ah, e eu me sinto muito orgulhoso de ser o único baleiro da cidade. Está vendo este uniforme, e os outros que tenho lá em casa, eu mesmo faço. Tecido barato; tenho uma maquininha, dessas elétricas, mando bala, em dois toques tenho uma roupa de trabalho novinha. O pessoal percebe que eu estou sempre limpinho. Precisa, né? Trabalhando com coisas de comer, tem que ser assim.
- Olha, estou gostando muito de falar com você. Principalmente por estar falando com um baleiro. Além das recordações, de outros tempos, você reencarna uma figura que, só pelo que representa, já é de muito valor. Ainda os doces... Olha, aqui, um pé-de-moleque! Vou comprar um. Sou louco por pé-de-moleque. Dá um pro Dieguinho, também; acho que ele vai gostar. Sei que ele adora fotografar, mas, também, ninguém é de ferro e um pé-de-moleque vai bem, muito bem,
- Uma tarde qualquer, eu estava ali na lotérica e vi você passar. Pensei, ainda vou conversar e escrever algo sobre esse cara.
- A gente, às vezes, pensa que as pessoas não notam...
- Só não nota, quem não quer. Ou não sabe.
- Pode marcar outro dia, garanto, virei com os outros uniformes. Este daqui é por causa dessa Copa. Gosto, mesmo, é daquele azul (tenho, também o vermelho), é o meu xodó. Estou acabando outro, branco. Esse vou parecer um garção; com botões dourados. Chique, não? Bem, trabalhando, principalmente servindo coisas de comer, estarei no clima, não é mesmo?
http://balaacobaco.blogspot.com.br
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O PATO E A SOLIDARIEDADE HUMANA - Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
JORNAL PÉ NO SACO
Um jornal pra todo mundo botar defeito – mês de Setembro/2014
Por Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
O PATO E A SOLIDARIEDADE HUMANA
O meu irmão morava, já há muito tempo, no Paraguai. Não sei como, me localizou em São Paulo. Eu trabalhava numa firma de autopeças, “importadora” e revenda, parece. O meu irmão, acho, descobri depois, era do mesmo ramo, fazia alguns pequenos contrabandos, justamente de peças. Convidou-me para ir para o Paraguai. Pedi as contas na firma – era bem perto de onde eu morava nos Campos Elíseos, ao lado do Palácio dos Campos Elíseos, do Ademar, aquele que roubava, mas, fazia, isto é, roubava mais, ainda – e, daí a dois ou três dias, estávamos a caminho de Pedro Juan Caballero, que fazia divisa com Ponta Porã, que fica no Mato Grosso. A viagem foi uma maravilha, baldeação em Campo Grande, muito pastel e refrigerante. Chegamos a Ponta Porã pouco antes de romper o ano, o que fizemos, num boteco do lado de cá. Depois, fomos para a casa dele, em Pedro Juan Caballero, rompemos o ano, de novo, lá. Uma maravilha, para quem trabalhava das oito ao meio dia e, das duas às seis. Enfim, a liberdade. O meu irmão não largava e, nem se descuidava da bolsinha, cheia de dinheiro, acho. Pagamento adiantado de algum cliente de autopeças. Tinha que ter cuidado, mesmo. Ali estava toda a nossa vida, agora éramos dois. E o seu prestígio junto aos clientes brasileiros.
Ainda não havia chegado o chefe da casa. Todos falavam bem o Tupi-Guarani. A Consuelo, mulher do meu irmão e o irmão dela, o Landário, falavam, também, em espanhol. O meu irmão falava tudo que é língua, se comunicava com todos. Alguma coisa ia traduzindo para mim. Chegou o seu Eustáquio, começamos a abrir as bebidas e comer um pouco de carne, era o rompimento do ano, pra valer. Tudo à luz de velas e lampião, o gerador, que também era do cinema, era desligado às 22h30min horas. O ambiente era perfeito, e tudo à meia-luz, como dizia aquele tango argentino. Cansado, logo depois fui dormir. Não lembro se a cama era confortável, dormi feito uma criança.
O meu irmão, por questões profissionais, ficou ali por três dias, e se foi de avião para Assunción Del Paraguai. Provavelmente para finalizar os negócios já engatilhados lá por São Paulo. Deixou-me alguns guaranis e três carteiras de cigarros Philip Marris – caixinha de plástico, voltaria logo. Encontramo-nos depois de trinta anos, em Bagé, na casa dos nossos pais. Ele, já com uma família enorme. Quatro ou cinco filhos. Estava ótimo, disse. Agora, era pastor duma igreja, não lembro o nome; lá na Argentina. Também, não lembro o nome da cidade. Viciados em Coca-Cola. Toda a família.
Enquanto eu achava que ele não chegasse, fiquei por ali. O Landário e eu arranhávamos o espanhol. Combinamos: O Landário me ensinava a língua tupi-guarani e eu ensinava pra ele o português. Durou pouco. Mas, eu já sabia como se falava as partes do corpo. O tempo passando. Numa noite – havia uns noticiários de que o Brasil e o Paraguai andavam às turras ali pela divisa – acordei com o barulho de bombas e outras coisas parecidas. A Consuelo tranqüilizou-me, dizendo que era aniversário do Partido Febrerista. Ainda bem. Espavorido, acordei no meio da noite, pensando, eu aqui, do lado de cá e, ainda por cima, desta vez parece que não tem a tríplice aliança. Deduzi, estou frito!
Achei que era um aviso, comecei a pensar em me mudar para o Brasil, Ponta Porã. Nunca comi tanta mandioca na minha vida. Ainda, por três ou quatro vezes, experimentei o Locro, prato tradicional do Paraguai; pura gordura, feito com frango. Já existia o tal de colesterol, a gente não sabia, mas tava lá.
Atravessei a Linha com todos os meus pertences, numa bolsa. Fui morar na casa do Negrinho, Bend líder de um conjunto de baile. Peguei na produção. Ajeitava tudo, ainda tinha de fazer os fininhos, os quais acomodava numa latinha de pastilhas Valda. O Chico, nunca descobri a cor dos seus olhos, sempre vermelhos. O cara da gaita, irmão do Chico e o baterista, fumavam razoavelmente. O Negrinho, usava uns óculos escuros, a gente nunca sabia se ele estava pra cá, ou pra lá de Bagdá. Deduzíamos pela boca. Quando rangia muito os dentes, droga pesada; quando tinha um sorriso maroto, maconha; menos mal. Depois, apareceu por lá o João, vindo de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo. Arranjamos uma camisa social, uma gravata e um paletó. Passou a ser o croner do conjunto. Cantava bem o João. Bebia bem, também. Cara simples, não levava jeito de ídolo. Ficamos amigos e dormíamos no mesmo aposento, enorme, que ficava na frente da casa do Negrinho. A peça era grande, onde o conjunto ensaiava, mas esse negócio de cama, etc., completamente desprovida. Mas, era o que tínhamos. Ali dormíamos e ali fazíamos as nossas refeições. O João, por vezes, ensaiava algumas músicas, acompanhado pelo seu violão. A gente só trabalhava nos fins de semana. Viajávamos e, naturalmente, comíamos melhor. O Chico, seu irmão e o baterista, trabalhavam durante a semana lá em Pedro Juan Caballero. O Negrinho, o João e eu, vivíamos, exclusivamente, da arte.
Fome, fome, mesmo, não passávamos. Mesmo que naqueles meses, de vez em quando um trabalhinho, comíamos, basicamente, abacates. Eu e o João, nem precisávamos de pratos, a própria casca – tirando o caroço – um tanto de açúcar, o qual mantínhamos numa lata, duas colherinhas (de prata – herança da vó do Negrinho). Era, bem dizer, o retrato da solidariedade humana, explicita. Com um canivete, fazíamos um corte bem no centro, tirávamos o caroço, meio a meio, açúcar a gosto. O caroço e a casca, depois da refeição, colocávamos no lixo. Bem, dividíamos os abacates com o Negrinho e sua família, a mulher e dois filhos. Assim, cagamos verde por meses a fio.
Os abacates eram colhidos todas as semanas, na casa do Adolfo, que morava e mantinha uma rádio na Linha Internacional: quatro falante, la no topo de uma torre, dessas comuns, dois, um pra cada lado, na direção da Linha Internacional e os outros dois, um para o Brasil e o outro para o Paraguai. Enquanto o João dava uma canja, ao vivo na rádio do Adolfo (ele, também, tocava violão) eu subia no abacateiro e enchia duas bolsas daquelas de feira. Ainda não tinha as de plástico dos supermercados. Uma permuta, onde todos ganhavam. A rádio, o João, eu, o Negrinho e sua família.
Nos dias de folga (quase todos) o João e eu costumávamos ir até o Cassino, no Paraguai. Dava pra descolar algumas fichas, mas aplicávamos quase todas em cachaça. Não tínhamos noção do perigo, quando voltávamos para casa. Teríamos que transpor a Linha Internacional – quase sempre tinha uma patrulha – onde, invariavelmente ouvíamos: “Alto”, ao que respondíamos “Listo”. Acho que os guardas já nos conheciam. Numa dessas noites, cruzamos com um pato, de verdade. O João não titubeou, de quatro (nem precisava do pato) foi à caça do bicho. Pegou, ele, o pato, só fez quá, uma vez, o João colocou-o por debaixo do paletó e fomos pra casa. Não sei se o João já tinha prática daquilo ou foi um improviso. O banheiro ficava lá nos fundos da casa do Negrinho. Fomos até lá, ainda dei uma olhada na mesa da cozinha, nada, o João amarrou o pato, pela patinha. Fomos dormir, não sem antes cumprir o ritual sagrado do abacate. Meio a meio, colherinha de prata, açúcar a gosto, o resto ia pro lixo. O João, em meio de conversa, perguntou de que jeito eu iria fazer o pato. Lembrei da minha mãe: para render, vamos recheá-lo com farofa e pediríamos pro Negrinho comprar uns pães dormidos na padaria, era mais barato. Assim, pensamos, o almoço do dia seguinte estaria uma delícia, diferente. Claro, não teríamos o vinho, mas, tínhamos água à beça.
Nem dormi direito. Saí da grande peça, no meio da manhã, fui até a árvore em que o pato estava amarrado, um susto, uma decepção, o pato estava morto. O João perguntou: e agora? E se ele estava pesteado? Melhor jogá-lo fora. Foi o que fizemos, antes do Negrinho assistir àquela tragédia. Pensamos nas crianças, na mulher, e acho que agimos certo. Voltamos para o abacate costumeiro. Nosso olhar não era o mesmo. Acho que o Negrinho desconfiou de alguma coisa. Mas...
Teve, numa noite, a história dos quiabos. Nem vou contar. Muito triste.
Achei que aquilo não era vida, consegui uns trocados e peguei o trem para São Paulo. Minha bagagem, a de sempre, uma bolsa, para me cobrir ou para sentar mais confortável, uma toalha de banho. Segunda classe, o banco, para duas pessoas, de tabuinha corrida. Peguei a janela. Baldeação em Campo Grande, diferente daquela outra, passamos para um trem da acho que Noroeste Paulista, muitas estações pelo caminho e, finalmente, A Júlio Prestes. Voltei lá no apto. em que morava. Tava tudo diferente. Tinha um cara que ocupava o meu lugar. Sujeito bem apessoado. Vendia títulos capitalizados, não sabia muito bem o que era, mas, sei que era um desses papéis do Sistemão que fez água em 2008, pela última vez, e, estamos até hoje, pagando o pato.
Pensei nos abacates. Senti saudades do João... do Paraguai... do Negrinho... do Chico...
Jackson Machado de Assis e do Pandeiro é cronista e colunista do Pé do Saco.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
O MAESTRO E A FILARMÔNICA DE VIENA - Por Jackson Machado de Assis e do Pandeiro.
Sinceramente, havia momentos, a meu ver, que ele juntava entre as mãos,
todo o som que vinha da grande orquestra. Para, depois, sorrir, como que
dizendo que naquele punhado de notas que, agora, espalhava pelo ar,
estava, exatamente, o que havia pensado, ou imaginado. Como se tudo
fosse o que ele esperava daqueles músicos; aparentemente, sem a mesma
projeção de um dirigente de orquestra, mas, cada um, com a sua
contribuição importantíssima, pessoal, seja qual fosse o instrumento.
Interessante, também, era quando alguns, ou pequenos grupos tocavam
alguma parte – como se fossem muitas – davam a impressão, embora se
ouvissem tantos outros, de que estavam sozinhos; tocando aos seus bels
prazeres. Nada, tinha um monte deles, de outros naipes, a sustentar aquela
linda emissão de sons. Acho que era o acompanhamento. Sei lá, não sei
como é que isso funciona. No comecinho, juro, fiquei com medo.
Apreensivo pelo sujeito que, parecia, tocava sozinho uma flauta.
Acompanhamento (ou solo, sei lá) somente uma caixa que, teimosamente,
repetia os compassos iniciais, do jeito que havia começado. Pior, assim foi
por toda a apresentação, entravam e saiam instrumentos; em certos
momentos até a orquestra inteira. E ele lá, impassível, repetindo aqueles
primeiros compassos, do mesmo jeito que havia começado. Pensei: Será
que é assim, mesmo? Outros sopros iam-se revezando. Depois, com o
avançar da música, juntavam-se, em plena solidariedade. Cada vez mais
alto. Eu já estava achando a participação das tais cordas – violinos, violas,
celos, contrabaixos – e outros, muito contida. Será que iriam ganhar a
mesma coisa? Só faziam pim, pim, pam, pam, com as pontinhas dos dedos.
Pra ser honesto, tinha lá o seu efeito. Os sopros não paravam de entrar.
Acho que uns ajudavam aos outros. Até uma harpa, fazendo, o mesmo que
outras cordas, pam, pam, com a pontinha dos dedos. Sabem aquele cara da
caixa que falei antes? Continuava, na mesma tecla. Repetia, de forma
acintosa, cada vez mais alto, aqueles benditos primeiros compassos. Apesar
daquele monte de instrumentos, mais os respectivos acompanhamentos, a
intensidade aumentava, mas, a música, parecia sempre igual. Já beirava os
quinze minutos. Aí, sim, me caiu o queixo, As tais cordas, atacaram, pra
valer. Agora, sim, fariam jus ao cachê. Mas a música, sensação estranha,
patinava e andava e, ainda por cima ficava mais alta. O maestro, a bem da
verdade, pra mim, não estava mais regendo. Fazia lá uns trejeitos; abria os
braços; usava o dedo indicador da mão esquerda como se fora uma segunda
batuta, apontando ora para uns e ora para outros músicos. Sempre com cara
de satisfeito. Certamente os músicos ainda estavam correspondendo aos
seus anseios. Acho que alguns que estavam na plateia pensaram que nem
eu: Afinal, esse tabladinho aí é pra reger ou pra dançar! Deixei pra lá. Cada
um com o seu cada um. Como todo maestro, chegando ao fim, escabelava-
se. Tinha um cara, acho que era um trombone, assim, como se estivesse no
quintal da casa dele. Tocando como bem entendia. E como entendia! E a
música patinando e andando. Que sensação estranha. No final,
sinceramente, não entendi. Achei que tinham desafinado. Mas, todo mundo
aplaudiu. Sinal de que era assim, mesmo. O Boléro de Ravel, com a
Orquestra Filarmônica de Viena, sob a batuta do venezuelano Gustavo
Dudamel, ê turminha danada, sô!
Jackson Machado de Assis e do Pandeiro
(publicado hoje no Jornal Pé no Saco)
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