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segunda-feira, 12 de abril de 2010

"RIZOMA" RESSUSCITADO - DO BLOG VÍRGULA - IMAGEM (MODOLINKAR)

11.01.10

www.rizoma.net

por Marcelo Terça-Nada!

O Rizoma.net foi um importante site que abrigou rico acervo de artigos sobre ativismo, cibercultura e intervenção urbana. O site saiu do ar em 2009, mas o pessoal do CCR está organizando todos os textos do site em e-books disponibilizados para download gratuito.
Faça download dos PDFs, leia e divulgue:

RIZOMA.NET- Afrofuturismo

RIZOMA.NET – Anarquitextura


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RIZOMA.NET- Recombinação


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RIZOMA.NET- Gibi


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RIZOMA.NET- E-spaço

RIZOMA.NET- Câmera Olho

RIZOMA.NET- Desbunde

RIZOMA.NET- Hierografia


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RIZOMA.NET- Potlach

>> Mais cinco e-books estão disponíveis para download neste link
Outros lugares e formas para vc acessar os textos do Rizoma:

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

INCONSCIENTE PARA DELEUZE & GUATTARI

Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia – Deleuze e Guattari

(...)Para Deleuze, o rizoma é inter-relação entre os conceitos. O rizoma é o modelo de realização dos acontecimentos, que tem espaços e tempos livres, onde os acontecimentos são potencialidades desenvolvidas das relações entre os elementos do principio característico das multiplicidades.(...)

(...)Guattari, antes mesmo deste livro, escreveu juntamente com Deleuze o Anti-Édipo, onde ele tenta fazer uma ruptura da psicanálise. A psicanálise tem como objeto o inconsciente, porém cristalizado. O que ele procura nos mostrar é que existe a possibilidade de estudar o inconsciente sem que o mesmo esteja cristalizado ou somente conectado à descrições de fatos, mas a possibilidade de exploração de um inconsciente não-camuflado, puro nele mesmo, sem que seja estudado pela camuflagem que o recobre, como os recantos da memória ou da linguagem. O que a psicanálise fez até então foi um decalque do inconsciente. Mas Deleuze e ele tentam mostrar que é possível fazer um mapa do inconsciente, muito além do simples decalque.

É como observar uma cidade inteira do alto de uma montanha, perceber como é a geologia do lugar, ao invés de adentrar a cidade e medir o território já estabelecido. Se observar do alto, poderá perceber as potencialidades de crescimento daquele território, mas se adentrar a cidade, apenas fará um estudo de pontos daquele determinado lugar, fechando as possibilidades de entrada e saída. Assim funciona com o inconsciente, que, pelo que foi compreendido aqui, deve ser estudado enquanto possibilidades, e não se limitar a fatos ou extratos que o compõem.

O rizoma é o mapa do lugar. Ele tem entradas múltiplas, o que permite também a sua expansão. Ao contrário do decalque, que cava sempre no mesmo lugar.

Deleuze e Guattari chamam isso de esquizoanálise. “Ao contrário da psicanálise, da competência psicanalítica, que achata cada desejo e enunciado sobre um eixo genético ou uma estrutura sobrecodificante e que produz ao infinito decalques dos estágios sobre este eixo(…) a esquizoanálise recusa toda a idéia de fatalidade decalcada, seja qual for o nome que lhe dê, histórica, econômica, estrutural, hereditária, etc.”

O desejo, para a esquizoanálise de Deleuze e Guattari, não é necessariamente ligado a um eixo genético, nem participa de uma estrutura profunda, ele atua como uma intensidade que circula entre entradas e saídas de problemas nos quais vivemos politicamente, e assim o desejo se transforma em pulsão, e pode ser vivenciado através das escolhas políticas decorrentes de agenciamentos.

Estudar o inconsciente seria mostrar como ele tenta constituir um rizoma, mas também com linhas de fuga. Essas linhas de fuga normalmente são obstruídas quando atentamos apenas para o enraizamento do indivíduo na família, sociedade, cultura. Ao invés de fechar o sistema, devemos abri-lo e possibilitar infinitas linhas de fuga.



“Pode até ser que a psicanálise sirva, não obstante nela, como ponto de apoio. Em outros casos, ao contrário, nos apoiaremos diretamente sobre uma linha de fuga que permita explodir os estratos, romper as raízes e operar novas conexões”.

O termo esquizoanálise vem do germânico skhízein (esquizo) que significa fender, dividido. Análise fendida, dividida, multiplicada.

Segundo Wikipedia:

“A cada momento, o ser humano é atravessado por forças externas, que se encontram no campo sócio-cultural, as quais promovem encontros que ora cristalizam o sujeito nos seus valores, tornando-o um ser mecânico e repetitivo, ora os faz produzir e viver de forma criativa e potente na relação com a vida.

Criada por Gilles Deleuze e Felix Guattari, a Esquizoanálise é uma concepção da realidade em todas suas superfícies, processos e entes, e também nas suas individuações inventivas como acontecimentos-devires. Para esta concepção, a produção e o desejo são imanentes entre si e produtores de toda a realidade. Consiste em uma ampla leitura da realidade, tanto natural, quanto social, subjetiva e assim como de uma realidade “outra”, pluripotencial.”(...)


LEIA MAIS EM : http://www.consciencia.org/mil-platos-capitalismo-e-esquizofrenia-deleuze-e-guattari

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A música techno inspira filósofos Glória Kreinz




AjaxFree


"Tonal, modal, atonal não significam mais quase nada. Não existe senão a música para ser arte como cosmos e traçar as linhas virtuais da variação infinita." (DELEUZE e GUATTARI, 1980)


Introdução
Como as novas tecnologias, realização das tecnotopias, afetam o cotidiano da sociedade a ponto de ser objeto da divulgação científica? Uma das personalidades que tentaram pensar o devir do homem no século XXI e o efeito social das novas tecnologias em diversos setores sociais, o filósofo Gilles Deleuze, sempre se interessou por manifestações culturais, destacando a relação arte/ filosofia como uma das formas de pensar fluxos intercambiáveis.
Entre as manifestações artísticas deu especial atenção à música em todas as suas formas de manifestações, e mostrou a presença das novas technologias afetando o universo musical, ao afirmar de forma provocativa que o sintetizador eletrônico substitui o "juízo sintético a priori", o que atesta territorialmente, no fluxo musical, o impacto das novas tecnologias.
No início dos anos 90 os filósofos G. Deleuze e J. P. Manganaro escreveram um artigo com o título de "Nietzsche à la Techno", e colocaram como subtítulo, Manifesto para as Máquinas Pensantes que Vierem, no sentido perverso de instigar indagações, e propor novas reflexões entre música, conquistas tecnológicas e filosofia.
Deleuze começa o manifesto comentando a obra de Nietzsche, e diz: "No seu Zaratustra Nietzsche coloca a relação de um 'Tempo supremo' e um 'Duplo silêncio'". Comenta ainda que "pode existir uma equivalência ontológica entre o eterno retorno e a Vontade de potência. Se todo devir é literalmente criação, e criação artística, nós nos propomos a examinar as relações de Nietzsche com a música dita "techno" atual e mais precisamente como Nietzsche faz uma espécie de apologia da inteligência techno."
Como se observa, para Deleuze e Manganaro, que escreveram o texto, a obra de Nietzsche antecipa o uso da alternância tempo/silêncio/repetição, que são os elementos básicos da organização da música techno, que ao explorar estes elementos consegue levar o público das discotecas da moda a estados onde a noção de tempo mensurável cede espaço para um "tempo supremo" ou transcendente.
Afirmam ainda que "a repetição alternada com o silêncio consegue ser uma transvalorização e um salto para uma dimensão superior e desconhecida, transcendente a toda repetição idêntica."
O silêncio é o elemento responsável pelos cortes sintáticos que trazem uma nova proposta musical, na linha dos acontecimentos de superfície, mas para que estes elementos sejam melhor compreendidos têm que ser retomados a partir de elementos da teoria da comunicação, e o faremos na segunda parte desta exposição. Nesta primeira parte destacamos no Manifesto da Música Techno elementos que enaltecem o pensamento de Nietzsche como um pensador que ofereceu elementos pertinentes para se entender esta proposta artístico/musical.
Deleuze e Manganaro enfatizam que "neste sentido duplo, o silêncio é fratura real: solidificação (pólo negativo), mas igualmente distribuição nova possível das multiplicidades sonoras (pólo positivo). Aqui se reencontra a dupla afirmação de Nietzsche (duplo silêncio) e aquela de Holderlin (o Tempo que separa e que une)."
Concluem o manifesto dizendo: "tempo de conclusão: se o silêncio é auto-afirmação do tempo como Instante (presente vivo) e simultaneidade, imensidade e eternidade, ele é também avaliador e criador. Por sua vez simultaneidade e expressão maior do Eterno retorno, ele se alia ao silêncio duplo na dança mágica da criação dos mundos: os mundos do real e os mundos sonoros".
Para que se compreenda melhor este manifesto dos anos 90 é necessário se retomar o pensamento de Deleuze e Guattari na série Mil Platôs, quando os autores já discutem o peso das forças não sonoras propondo uma nova sonoridade. É o que tentaremos discutir na segunda parte desta apresentação.
Mil Platôs e as Forças Não Sonoras
Sobre a música atual Deleuze já havia proposto o problema na polêmica série Mil Platôs, mencionando "forças não sonoras" atuando como corpos sem órgãos, que determinavam novos fluxos musicais. Dizia: "Assim, não se pode mais falar de uma forma sonora que viria organizar uma matéria; nem mesmo se pode mais falar de um desenvolvimento contínuo da forma. Trata-se, antes, de um material deveras complexo e bastante elaborado, que tornará audíveis forças não-sonoras". (Deleuze, 1980)
Continua nesta linha de pensamento discutindo a mudança das funções dos componentes musicais, propondo: "O par matéria-forma é substituído pelo acoplamento material-forças. O sintetizador tomou o lugar do antigo "juízo sintético a priori", mas com isso todas as funções mudam. Colocando em variação contínua todos os componentes, a música se torna, ela mesma, um sistema sobrelinear, um rizoma em vez de uma árvore, e fica a serviço de um continuum cósmico, virtual, do qual até mesmo os buracos, os silêncios, as rupturas, os cortes fazem parte." (Deleuze, 1980)
O rizoma em oposição à arvore diz respeito à teoria da chamada gramática gerativa transformacional de Noam Chomsky, que se constitui dos seguintes elementos: na gramática gerativa a parte central é o seu componente sintático. Este gera cadeias abstratas, interpretadas por um lado foneticamente, ou pelo componente fonológico, e por outro semanticamente, ou pelo componente semântico. É o componente sintático o único que tem função gerativa. O fonológico e o semântico têm funções interpretativas.
O componente sintático é constituído de duas partes: a) o subcomponente de base que gera as estruturas profundas ou subjacentes, das orações; sobre elas aplica-se a interpretação semântica. E b) o subcomponente transformacional que, partindo das estruturas profundas, gera as estruturas de superfície, as quais recebem interpretação fonética, ou seja, estudos dos sons. "Nesta concepção bipartida do componente sintático está mais uma diferença fundamental entre a lingüística descritiva do começo do século e a teoria transformacional. Para aqueles não havia diferença entre estrutura superficial e estrutura profunda." (M. Lemle)
É importante conhecer este aspecto da teoria gerativa de Chomsky, pois várias vezes Deleuze vai retomá-la, sobretudo no que diz respeito à estrutura superficial em relação com a estrutura de profundidade, ou árvore, ao que o filósofo vai opor a figura do rizoma, como no texto citado anteriormente onde comenta que a música techno, "colocando em variação contínua todos os componentes, se torna, ela mesma, um sistema sobrelinear, um rizoma em vez de uma árvore". Chama atenção neste texto o sistema sobrelinear, ou acontecimento de superfície que se opõe ao elemento enraizado.
Segundo M. Lemle, "as regras transformacionais tem como input os marcadores de estrutura frasal profunda tomados globalmente e nisso reside a diferença formal entre elas e as regras do subcomponente de base, pois estas referem-se a elementos individuais de uma cadeia de símbolos e não leva em conta a sua derivação em regras anteriores".
Usando termos da informática afirma que "o output final é a estrutura frasal de superfície, a que está associado o marcador da estrutura de superfície, que consiste no segundo diagrama em árvore, diferente da estrutura profunda. Os seus símbolos terminais constituem uma cadeia de formativos, ou substitutos dos morfemas tradicionais, a qual, finalmente, é interpretada fonéticamente, resultando nos sons vocais da elocução", ou seja, como queria Deleuze, sons em variação contínua. Para Deleuze e Guattari só interessam os fenômenos de superfície, mesmo na música, descartando-se o elemento sintático, básico da teoria gerativa de Chomsky. O rizoma substitui a árvore.
Resumindo a teoria gerativa teríamos que a interpretação de um sinal consistiria na associação de um som, ou letras no caso da língua escrita, a uma interpretação semântica, associação esta que seria mediada pela operação do componente sintático. Para Deleuze interessam os fenômenos de superfície, por isso insiste várias vezes na figura do rizoma, como um dos elementos marcantes de sua opção lingüística e interpretativa dos códigos comunicacionais.
O rizoma em vez de uma árvore, ou seja, estes elementos de superfície dizem respeito também à relação "Tempo supremo e Duplo Silêncio" que Deleuze e Guattari mencionam em Mil Platôs, retirada de Nietzsche, e que depois serão retomadas no Manifesto da Música Techno, de forma mais intensa.
Em Mil Platôs os autores dizem que "a música fica a serviço de um continuum cósmico, virtual, do qual até mesmo os buracos, os silêncios, as rupturas, os cortes fazem parte." (Deleuze e Guattari, 1980). É o efeito destes elementos agindo no tempo da música que foi revisto de modo mais particularizado, no Manifesto da Música Techno, e discutido na primeira parte desta apresentação.
Concluindo, Deleuze retoma elementos já vistos em Mil Platôs e retrabalha, com Manganaro, no inicio dos anos 90, poucos anos antes de sua morte, as articulações da música techno como puro fenômeno de superfície, rizoma, preocupado em pensar os fenômenos representativos de seu tempo.

Referências bibliográficas:

DELEUZE, G e GUATTARI, F. Mil Platôs. Rio de Janeiro, Editora 34, V. 2, 1995. 
DELEUZE, G. e MANGANARO. "De Nietzsche à la Techno" 
LEMLE, M. "O Novo Estruturalismo Lingüístico de Chomsky". Revista Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, V. 15/16, s.d.
FONTE: http://www.geocities.com/ajaxfree/texto2.html

Rizoma: uma introdução aos Mil Platôs de Deleuze e Guattari

Cléber Cabral e Diogo Borges

Resumo:

Nosso objetivo é fazer uma apresentação à proposta de pensamento expresso na obra Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este texto busca, inicialmente, apresentar uma proposição sintética do conceito "rizoma", tal como proposto pelos autores referidos acima. Após a exposição do conceito, apresentaremos algumas perspectivas de análise da situação contemporânea a partir desse conceito e da rede conceitual deleuze-guattariana.

Palavras-Chave: rizoma, sistemas centrados e a-centrados, cartografia, inconsciente.


Introdução

Em Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia a dupla formada pelo filósofo Gilles Deleuze e pelo psicanalista Félix Guattari busca fazer uma crítica ao mesmo tempo histórica e ontológica da psicanálise, passando pelo pensamento de Marx e Nietzsche. Tal como aludem os autores no prefácio à edição italiana do volume da obra Mil Platôs "O Anti-Édipo tinha uma ambição kantiana: era preciso tentar uma espécie de crítica da razão pura no nível do inconsciente." (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 06). Para melhor compreendermos a proposta-trajeto iniciada em Anti-Édipo, faz-se conveniente relembrarmos seus três temas fundamentais, que seriam:

1- Substituição da idéia do inconsciente enquanto teatro pela idéia de inconsciente como usina (questão de produção de inconsciente e não de representação de conteúdos do inconsciente).
2- O delírio é histórico-mundial, não familiar: deliram-se raças, tribos, culturas, organizações, posições sociais, etc.
3- Existe uma história universal, que não é a da necessidade, e sim da contingência (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 07).

Já na seqüência de Anti-Édipo, os Mil Platôs, a preocupação apresentada pelos autores é de outra ordem: A construção de conceitos capazes de pensar a contemporaneidade importa mais que fazer uma crítica da mesma. "O projeto é construtivista" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 08), dizem os autores.

O Anti-Édipo foi um livro escrito no calor dos eventos do Maio de 68, e escrito para aqueles que estavam fartos da psicanálise: "Sonhávamos em acabar com Édipo" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 07), mas as reações ao Maio de 68 e o desenrolar da história mostraram o quanto Édipo era forte e ainda dominava - e, como um olhar mais cuidadoso pode observar, ainda domina certa parcela considerável do pensamento psicanalítico contemporâneo. Era preciso tentar algo novo, e o que se propõe com os "platôs" é justamente esta tentativa, a de constituir um pensamento que se efetue através do "múltiplo" - e não a partir de uma lógica binária, dualista, do tipo "um-dois", "sujeito-objeto", que se efetue por dicotomia, tal como vemos na psicanálise, na lingüística e na informática -, de modo a construir uma teoria das multiplicidades que fosse imanente, que colocasse propostas concretas de pensamento ao invés de simplesmente se limitar à crítica da psicanálise.

O primeiro conceito criado para propor esta teoria das multiplicidades é o conceito de "rizoma". Veremos ao longo dos platôs como o conceito de rizoma funciona perfeitamente como o ponto de partida para se pensar as multiplicidades por elas mesmas, visto que o fundamento do rizoma é a própria multiplicidade. Vejamos a definição dada pela botânica:

"Em botânica, chama-se rizoma a um tipo de caule que algumas plantas verdes possuem, que cresce horizontalmente, muitas vezes subterrâneo, mas podendo também ter porções aéreas. O caule do lírio e da bananeira são totalmente subterrâneos, mas certos fetos desenvolvem rizomas parcialmente aéreos. Certos rizomas, como em várias de capim (gramíneas), servem como órgãos de reprodução vegetativa ou assexuada, desenvolvendo raízes e caules aéreos nos seus nós. Noutros casos, o rizoma pode servir como órgão de reserva de energia, na forma de , tornando-se tuberoso, mas com uma estrutura diferente de um tubérculo ."

O conceito desenvolvido por D&G amplia muito esta definição, justamente pelo fato de que o conceito na botânica não comporta a multiplicidade, se limitando a definir um tipo específico de caule. Para D&G, este tipo de caule em conjunto com a terra, o ar, animais, a idéia humana de solo, a árvore, e etc formariam o rizoma, não se limitando apenas à pura materialidade, mas também à imaterialidade de uma máquina abstrata que o arrasta, sendo, portanto, um conceito ao mesmo tempo ontológico e pragmático de análise.

Rizoma
"Um platô está sempre no meio, nem início nem fim. Um rizoma é feito de platôs." (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 33)

Um rizoma é uma segunda espécie de conjunto de linhas. Um primeiro conjunto de linhas é aquele no qual uma linha é subordinada ao ponto, à verticalidade e horizontalidade, que estria o espaço, faz um contorno, submete multiplicidades variáveis ao Uno, ao Todo de uma dimensão suplementar ou suplementária. As linhas deste tipo são as linhas molares, e formam sistemas binários, arborescentes, circulares e segmentários .

Um rizoma é totalmente diferente deste primeiro tipo de linhas, o rizoma não é exato, mas um conjunto de elementos vagos, nômades, de maltas e não de classes: "Do ponto de vista do pathos, é a psicose e sobretudo a esquizofrenia que exprimem estas multiplicidades." (DELEUZE e GUATARRI, 1997: 221) É oportuno enumerar agora algumas características aproximativas do rizoma, para, posteriormente pensarmos esse conceito numa perspectiva mais ampla.

1º e 2º - Princípios de conexão e heterogeneidade

Qualquer ponto de rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. Descentramento do sujeito, negação da genealogia, afirmação de uma heterogênese em oposição à ordem filiativa do modelo de árvore e raiz. O rizoma é distinto disso tudo, pois não fixa pontos nem ordens - há apenas linhas e trajetos de diversas semióticas, estados e coisas, e nada remete necessariamente a outra coisa. Para demonstrar estes princípios, D&G recorrem à ontologia da linguagem, e conseqüentemente à lingüística: "A árvore lingüística à maneira de Chomsky começa ainda num ponto S e procede por dicotomia" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 15), sendo assim "um marcador de poder antes de ser marcador sintático". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 15) Tais modelos não dão conta nem da abstração nem da materialidade da língua,

"por não atingir a máquina abstrata que opera a conexão de uma língua com os conteúdos semânticos e pragmáticos de enunciados, com agenciamentos coletivos de enunciação, com todo uma micropolítica do campo social." (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 15)

É preciso levar sempre em conta as formas de organizações de poder, pois

"não há universalidade da linguagem, mas sim um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais. (...) A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Portanto, é impossível pensar em "uma língua-mãe", mas somente em uma "tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 16).

De modo que "a unidade de uma língua é sempre inseparável da construção de uma unidade política". (GUATARRI, 1988: 25) A língua se forma e se estabiliza em torno de uma comunidade, de uma coletividade, espalhando-se como uma mancha de óleo, "evolui ao longo das linhas de uma estrada de ferro". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 16) Uma prática analítica do tipo rizoma procura analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros, pois a análise lingüística que se fecha sobre a própria linguagem só o faz "em uma função de impotência". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 16) Isto equivale a dizer que estaríamos, neste caso, subordinando linguagem à linguagem apenas, definindo-a ao mesmo tempo como ponto central e elemento local. Uma analítica rizomática, ao contrário, procurar "estabelecer conexões transversais entre os estratos e os níveis, sem centrá-los ou cercá-lo, mas atravessando-os, conectando-os". (GUATARRI e ROLNIK, 1986: 322)

3º - Princípio de multiplicidade

Pensar o múltiplo efetivamente como substantivo, pois é aí que ele não tem mais nenhuma relação com o uno como sujeito ou objeto, como realidade natural e espiritual, como imagem e mundo, pois a multiplicidade não constitui sujeito e muito menos objeto, mas apenas determinações, grandezas e dimensões, "que não podem crescer sem que se mude de natureza". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 16) As multiplicidades se definem pelo fora, pelas linhas que compõe um rizoma, linha abstrata e linha de fuga. O plano de consistência (ou plano de imanência) é o fora de todas as multiplicidades, e nele a linha de fuga marca ao mesmo tempo "um número de dimensões finitas que a multiplicidade preenche", assim como "a impossibilidade de toda dimensão suplementar" e também a "possibilidade e a necessidade de achatar todas estas multiplicidades sobre um mesmo plano de consistência ou exterioridade". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 17)

Uma boa maneira de compreender esta idéia de multiplicidade é olhando uma marionete, os fios e o manipulador: os fios de uma marionete constituem a multiplicidade, nem o que controla, nem o boneco controlado com as cordas, mas as próprias cordas, que comunicam uma parte à outra. São as linhas de um ponto ao outro que importam, não os pontos em si. Um outro exemplo de multiplicidade evocado por D&G é a escrita de Kleist, um "encadeamento quebradiço de afetos e velocidades variáveis", onde numa mesma página se expõe toda a exterioridade: "Acontecimentos vividos, determinações históricas, conceitos pensados, indivíduos, grupos e formações sociais". D&G opõem esta escrita rizomática, composta em platôs "(...)que se desenvolve evitando toda orientação sobre um ponto de culminância ou em direção a uma finalidade exterior" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 33) ao livro clássico, romântico, sendo este definido e constituído pela interioridade de um sujeito ou substância. O livro-máquina de guerra contra o livro-aparelho de Estado: Kleist versus Goethe, Nietzsche versus Kant, multiplicidade versus unidade.

4º - Princípio de ruptura a-signficante:

Um rizoma pode ser rompido e quebrado em algum lugar qualquer, mas também retoma segundo uma de suas linhas ou segundo outras linhas.

"Todo rizoma compreende linhas de segmentariedade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc; mas também compreende linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem para". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 18)

Cada vez que há ruptura no rizoma as linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas estas linhas de fuga são parte do rizoma: as linhas não param de remeter umas às outras. Traça-se uma linha de fuga quando se faz uma ruptura, mas nela podem encontrar-se com elementos que reordenam o conjunto e reconstituem o sujeito. "Como é possível que os movimentos de desterritorialização e os processos de reterritorialização não fossem relativos, não estivessem em pérpetua ramificação, presos uns aos outros?" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 18)

A orquídea se desterritorializa, forma uma imagem, um decalque da vespa, e a vespa se reterritorializa sobre esta imagem, o que, no entanto, é uma desterritorialização, pois ao se tornar parte do aparelho de reprodução da orquídea ela também reterritorializa a orquídea ao transpor o pólen. As duas juntas formam um rizoma. No nível dos estratos: paralelismo, entre dois estados determinados, cuja organização de um imitou a do outro. Mas trata-se de algo completamente diferente: Não mais imitação, mas captura, mais valia de código, devir-vespa da orquídea e devir-orquídea da vespa, cada um assegurando ao outro os movimentos de desterritorialização e reterritorialização de uma das partes - "dois devires se encadeando e revezando segundo uma circulação intensidades que empurra a desterritorialização cada vez mais longe". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 19) Se introduzirmos mais uma parte no rizoma vespa-orquídea, levaríamos a outros pontos e processos tal relação: quando um homem entra neste sistema e introduz, por exemplo, um agrotóxico, ou desmata uma região. Toda uma reorganização das relações no rizoma. Não havendo mais orquídeas, as vespas terão de procurar outras flores.

"Os esquemas de evolução não se fariam mais segundo modelos de descendência arborescente (...) mas segundo um rizoma que opera imediatamente no heterogêneo e salta de uma linha já diferenciada à outra." (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 19)

Nossa evolução e morte se deu mais por gripes, vírus e bactérias polimórficas e rizomáticas do que por doenças hereditárias.


5º e 6º - Princípio de cartografia e de decalcomania:

"Um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo". Toda a lógica dos sistemas arborescentes é uma lógica do decalque e da reprodução, tanto na lingüística quanto na psicanálise, faz-se um decalque de algo que já está dado, a partir de "uma estrutura que sobrecodifica ou de um eixo que suporta". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 21)

Faz-se um decalque do inconsciente, ou da linguagem, colocando-o segundo uma ordem de complexos codificados, que cabem ao psicanalista ou lingüista interpretarem seguindo uma certa lógica que também já está dada: a árvore articula e hierarquiza os decalques, fazendo destes as folhas da árvores. O rizoma é mapa, e não decalque. "A orquídea não reproduz o decalque da vespa, ela compõe um mapa com a vespa no seio de um rizoma". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 22) O mapa é aberto e desmontável, pode ser conectado em qualquer uma de suas partes ou dimensões, é reversível e suscetível de receber montagens de qualquer natureza, ser (re)construído por um indivíduo ou por uma formação social, como obra de arte ou ação política, como uma meditação. Ele tem entradas múltiplas, "(...)contrariamente ao decalque, que volta sempre ao mesmo". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 22)

É preciso, no entanto, não opor os dois sistemas, restaurando assim um dualismo binário: "É preciso sempre projetar o decalque sobre o mapa". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 23) O decalque pode estruturar um rizoma, codificá-lo, "neutralizando assim as multiplicidades segundos eixos de significância e de subjetivação" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 23), mas o que o decalque reproduz do rizoma são apenas os impasses, os bloqueios, seus pontos de estruturação. (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 23)

A psicanálise e a lingüística apenas tiraram fotos ou decalques do inconsciente e da linguagem. É importante tentar uma outra operação, religando os decalques ao mapa, relacionando árvores e raízes ao rizoma. Estudar o inconsciente seria mostrar como ele tenta constituir um rizoma, com a casa da família, mas também com a linha de fuga da rua, mostrar como tais linhas são obstruídas, enraizadas na família, decalcado sobre o pai e a cama materna. (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 24) Podemos entrar no rizoma até mesmo pelos decalques e árvores-raízes. Há agenciamentos muito diferentes neste ponto, como mapas-raízes, rizomas-decalques, uma dimensão de raiz pode brotar no rizoma e inversamente, um rizoma pode surgir na árvore. "Um acontecimento microscópico estremece o equilíbrio do poder local" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 25): Onze de setembro. A história está repleta de tais acontecimentos.

O próprio pensamento é descentralizado, mesmo tendo um órgão que age como centralizador. "O pensamento não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada. (...) É mais uma erva que uma árvore". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 25) É um sistema nervoso, probabilístico e incerto que compõe o pensamento, não apenas o cerébro: "uncertain nervous system". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 25)

Neurólogos e psicofisiólogos distinguem uma memória longa e uma curta, da ordem de um minuto, e sua diferença não é somente quantitativa. A memória curta é do tipo rizoma, diagramática, enquanto que a longa é árvore - centralizada. A memória curta pode ir e voltar em questão de momentos ou minutos, é descontínua, faz rupturas e opera por descontinuidade. As memórias não se tipos temporais diferentes de apreensão da mesma coisa, não são as mesmas idéias que apreendem nem a mesma recordação. "A memória curta compreende o esquecimento como processo", e não se confunde com o instante mas sim com o rizoma temporal, coletivo e nervoso. A memória longa é a família, raça, sociedade, civilização, opera por decalque e tradução, mas os dados que ela traduz continuam "a agir nela, à distância, a contratempo, intempestivamente, não instantaneamente". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 26)
A psicanálise do "pequeno Hans" : O que a psicanálise faz é quebrar seu rizoma, manchar seu mapa, colocando-o em um lugar de onde a saída é bloqueada, "até que ele deseje sua própria vergonha e culpa, fobia. (...) Deixarão que vocês vivam e falem, com a condição de impedir qualquer saída". (id. pg. 23) Existem sempre estruturas de árvores e raízes no rizoma, mas das árvores também brotam os rizomas. A psicanálise coloca o 'paciente' dentro do sistema centrado na significância a partir do inconsciente, mas o 'psicanalizado' não se cansa de colocar novamente os rizomas, quebrando a ordem psicanalítica com linhas de fugas. "A melhor posição para se ouvir o inconsciente não consiste necessariamente em ficar sentado atrás de um divã.". (GUATARRI, 1988:189) O psicanalista vira o ditador, fundando seu poder a partir do estabelecimento de uma ordem ditatorial do inconsciente concebido como árvore. Poderíamos mostrar as linhas, como fez Guattari na cartografia (mapa) do caso Hans :

Figura 1:


As linhas que constituem o diagrama do "pequeno Hans" seriam:

A - território familiar;
B - território do leito conjugal dos pais;
C - aparência da mãe;
D - objeto do poder fálico;
E - territorialidade maquínica do fantasma inconsciente.

Observa-se nesse diagrama do inconsciente do "pequeno Hans" como sua libido foi levada a investir na produção de micropolíticas de existência a partir da análise do conjunto de suas produções semióticas - tais como o território familiar, a aparência da mãe. O que a psicanálise de Freud faz é conceber esse inconsciente enquanto estádio genético estrutural, como estádio-árvore, em suma, procede a uma paradigmatização sistemática de todos os conteúdos e estratégias enunciativas a partir de referências abstratas ou estruturais centradas sobre materiais verbais e interpretações semióticas dos afetos e dos comportamentos. "Você está acuado, você está acuado. Confessa!" (DELEUZE, 1996:12) A esquizo-análise, enquanto pragmática do inconsciente maquínico, propõe a construção de uma carta de inconsciente de acordo com cada caso ou situação, de modo a determinar quais são as principais linhas micropolíticas dos agenciamentos de enunciação e das formações de poder em seus níveis mais abstratos.

"É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também gnoseologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 28-29) Enquanto o ocidente é a floresta e o campo, o oriente apresenta outra figura, as relações com a estepe, jardim, deserto e oásis. "Ocidente, agricultura de uma linhagem escolhida com muitos indivíduos variáveis; Oriente, horticultura de um pequeno número de indivíduos remetendo a uma grande gama de clones". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 29) A América inverteu as direções tradicionais do ocidente, colocando seu oriente ao oeste, "como se a terra tivesse se tornado redonda precisamente na América". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 30) Bem sabemos que foi ela que conectou uma parte do mundo à outra, e ela é "(...)ao mesmo tempo árvore e rizoma". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 31) A história da América é aquela em o europeu, branco, macho, dominante, perdeu sua civilidade na barbárie da conquista do Eldorado, mas também foi onde deixou para os "novos corpos" ali formados alguns elementos próprios de sua idéia de civilidade, estado, etc. Desterritorialização, territorialização e reterritorialização. Vejamos um exemplo dado por Guattari de uma cartografia para um processo histórico, neste caso, a formação histórica do stalinismo, como apresentada na Figura 1 :

Figura 2:


Na figura acima percebemos com mais clareza a combinação das diversas linhas que compõem o rizoma, que, nesse caso, (as linhas) assumem um caráter molar, de segmentariedade dura - no caso, um processo de dominação política ditatorial. Elementos moleculares, como a ruptura leninista e a máquina de seu partido, atuaram primeiramente em um movimento de dissolução da antiga molaridade aristocrata da Rússia do início do século passado, para, posteriormente, serem capturados nos bloqueios efetuados por outras linhas - desencadeadas pela morte de Lênin e pela crise econômica e social. Neste ponto, uma molecularidade capturada é anulada por segmentariedades que efetivam o impasse e a levam ao nível molar, instaurando o regime centralizador de Stalin

Bem sabemos que o capitalismo agiu no fim dos anos 80 como um vetor de desterritorialização - linha de fuga que explode o rizoma que configurou o comunismo soviético -, desencadeando toda uma reterritorialização dos agenciamentos, uma reorganização das linhas. Em Anti-Édipo fica clara este caráter desterritorializante-reterritorializante do capital, sempre disposto a ir assimilando elementos novos que podiam fazer parte até mesmo de sua crítica, como por exemplo, nos anos 60, onde:

"O capitalismo "endogeneizou" as reinvindicações por autonomia e por responsabilidade até então consideradas como subversivas, e conseguiu substituir o controle pelo autocontrole, tornando o trabalho mais atraente para uma mão de obra jovem e com mais escolaridade que nas décadas anteriores". (PELBART, 2003: 106)

Como mencionamos ao início, o rizoma é uma segunda espécie de conjunto de linhas de linha. Somos atravessados e constituídos por estas linhas. O rizoma é o contrário da estrutura, pois enquanto esta se apresenta constituída como um "(...)conjunto de pontos e posições que opera por correlações binárias entre os pontos e relações biunívocas entre as posições" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 32), o rizoma procede por variação, conquista, captura, é heterogêneo, um mapa "(...)sempre desmontável, conectável, reversível". (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 33) É uma produção de inconsciente (individual, dual, coletivo, social), e não uma representação de conteúdos desprovidos de significância e de subjetivação. Fazer um rizoma é traçar estas linhas. A esquizo-análise se apresenta como uma tentativa de uma pragmática das linhas, de produção de rizoma, de seus bloqueios nas raízes, suas rupturas em linhas de fuga, a transformação das árvores em rizomas subterrâneos - ou aéreos, a aliança entre o homem e a máquina para constituir outras máquinas que já não são nem um nem outro, mas elementos constitutivos de uma ontologia maquínica no qual tudo é coextensivo a tudo.

Conclusão

O conceito rizoma funciona como a porta de entrada ao pensamento deleuze-guattariano, porta cujo local de aparição é variável, indeterminado, vagamente dado, uma porta pela qual entramos e caminhamos a qualquer lugar destes platôs: qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. O rizoma "(...) é feito de direções móveis, sem início nem fim, mas apenas um meio, por onde ele crescre e transborda, sem remeter a uma unidade ou dela derivar". (PELBART, 2003: 216) O rizoma não é um sistema hierárquico, é "(...)uma rede maquínica de autômatos finitos a-centrados" (DELEUZE e GUATARRI, 2004: 28), não-significante e heterogêneo. Não há uma força coordenadora dos movimentos, o rizoma é uma circulação de estados, uma combinação anômala cujos resultados não podemos prever ou organizar, pois ele está sempre em um meio. Um conjunto de devires e sempre um intermezzo - tais seriam as proposições constitutivas de um rizoma, lembrando que o rizoma trata-se de produção de inconsciente e de novos enunciados e de outros desejos.
No trajeto esboçado ao longo dos cinco volumes de Mil Platôs, podemos compreender como os conceitos possuem uma conectividade - variável e indeterminada - sem que haja uma unidade ou um conceito determinante para o funcionamento de tal rede de conexões conceituais. O rizoma funciona como um princípio cosmológico, caixa de ferramentas, um sistema aberto.
O rizoma talvez seja o mais deleuziano dos conceitos de "Mil Platôs". É possível perceber ressonâncias da idéia de diferença tal como Deleuze a coloca: diferença como pura imanência, não remetendo a nada senão a ela mesma, numa superfície onde tudo se esvai - plano de consistência ou máquina abstrata .
Deleuze desenvolve uma concepção inteiramente diferente das idéias e conceitos, introduzindo a noção de multiplicidade: "As Idéias são multiplicidades; cada idéia é uma multiplicidade, uma variedade" e considera que:

"A multiplicidade não deve designar uma combinação de múltiplo e uno, mas, pelo contrário, uma organização própria do múltiplo como tal, que de modo nenhum tem necessidade da unidade para formar um sistema." (DELEUZE, 1988: 303)

Deleuze opõe a um universo extensivo, constituído por coisas e representações, por identidades e diferenças referidas a uma unidade, um universo intensivo, constituído por singularidades pré-individuais, espaço de diferenças puras onde a noção de repetição se liberta da idéia de mesmo, para sempre constituir a pura diferença. Isto que será ampliado em Mil Platôs, desembocando na idéia do rizoma. É clara a presença do conceito nietzschiano de vontade de potência, força criativa e intempestiva - imanência do desejo e da diferença, irrupção da multiplicidade . Apenas sob esta concepção cosmológica de vontade de potência subordinada à intempestividade que a diferença pode afirmar-se sem as negatividades de uma outra identidade, conseqüentemente, é apenas sobre ela que o rizoma pode ser caracterizado. O rizoma funciona apenas quando desistimos das oposições binárias, e funciona como a grande cosmologia que atravessa todos os Platôs - no rizoma entraímos e saímos em qualquer lugar.
É importante colocar agora as questões: "É possível uma analítica rizomática?". E conseqüentemente: "Como e onde podemos fazê-la?" Esperamos que nosso texto tenha apontado algumas diretrizes gerais para a investigação em vários níveis e áreas do conhecimento, seja ele histórico, sociológico, psicológico, político, etc. O rizoma pode perfeitamente funcionar como um princípio geral para o norteamento de análises em grupos, indivíduos, sociedades e culturas. Podemos pensá-lo como uma metodologia, um questionamento que pode atuar tanto em níveis materiais como os imaterais (pensando-se os enunciados enquanto "materialidades do imaterial"), pois é um conceito ontológico e pragmático: De que linhas isto é feito? Como são elas? Onde formam sistemas arborescentes, centrados, mas, onde estão suas fugas, impasses, bloqueios, explosões e rupturas?
Vários estudos podem expandir essas questões, colocando outras igualmente. Várias cartografias são possíveis, mas não as "montaremos" agora. Nosso objetivo com o presente texto é de apenas apresentar uma proposição-introdução sintética ao pensamento deleuze-guattariano, através do conceito de rizoma. Pode-se ver bons resultados da aplicação dos conceitos deleuze-guattarianos nos trabalhos do italiano Antonio Negri, do brasileiro Peter Pál-Pelbart, do americano Michael Hardt, não esquecendo do impacto (e diálogo) que a filosofia deleuziana teve na obra e no pensamento de Michel Foucault e de vários outros pelo mundo.
Para lembrar Nietzsche, em seu prólogo para "Além do bem de do mal": O arco ficou tenso e as flechas foram lançadas, cabe a nós agarrá-las e atirá-las para novos rumo, para alvos ainda mais distantes. (NIETZSCHE, 1992: 06) O presente trabalho se constitui como um esforço para propiciar novas tentativas de se pensar velhos temas, como a condição humana, a economia, a subjetividade, a política, e a sociedade. Temas velhos, mas sempre atuais - talvez até mesmo inatuais e extemporâneos - e passíveis de constantes reconstruções, revezamentos e modificações - tal como o rizoma.

Estudante de graduação do curso de Letras (bacharelado em Português) da UFMG.
Estudante de graduação do curso de História (bacharelado/licenciatura) da PUC-MG.
1 -Doravante, iremos nos referir aos autores utilizando-nos da abreviatura D&G (Deleuze & Guattari).
2-O "Édipo" ao qual nos referimos e ao qual aludem os autores é apresentado como um construto, um dispositivo histórico que estabelece um certo número de relações de poder entre a sociedade e os indivíduos.
3Enciclopédia On-line Wikipédia Disponível em . Acessado em Março, 2005.
4DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. 5. São Paulo, Ed. 34. 1997. pg. 220.
5DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Pg.15.
6A heterogênese seria algo como a produção do inusitado em nossas vidas, algo como desfazermo-nos de um território existencial e criar outros simultaneamente. A heterogênese é um processo similar à noção de linhas de fuga (outra noção proposta por D&G). Para maiores esclarecimentos ver DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vols. 1 e 5. Ed 34. 2004
7"S" aqui se refere à sentença como axioma central de um diagrama em forma arborescente que procede sua analítica pela hierarquização sucessiva de elementos locais que remontam a tal axioma. Tal descrição é espelhada na proposta apresentada pela gramática gerativa de Noam Chomsky de análise dos elementos sintáticos constituintes de uma competência lingüística supostamente comum a todos os seres humanos.
8A propósito da desterritorialização e suas relações com o território, ver também "Conclusão: Regras concretas e Máquinas Abstratas", In: Mil Platôs - capitalismo e esquizofrenia, vol. 5.
9A "psicanálise do pequeno Hans" trata-se da monografia-príncipe de Freud sobre psicanálise da criança encontrada na obra Cinco psicanálises.
10 GUATTARI, Félix. Notas para uma esquizo-análise. In: O inconsciente maquínico: ensaios de esquizo-análise. Ed. Papirus, 1988. Pg. 169.
11GUATTARI, Félix. Notas para uma esquizo-análise. In: O inconsciente maquínico: ensaios de esquizo-análise. Ed. Papirus, 1988. Pg. 172.
12Em oposição a ontologia naturalista que opõe homemXmáquina, Deleuze e Guatarri propõem uma simbiose, uma aliança, uma sinergia entre o homem e a natureza, a natureza e a indústria. Tal ontologia maquínica é concebida por eles como sendo uma "geo-ontologia" na qual a terra, como a grande máquina, a "máquina de todas as máquinas", hibridiza natureza e artifício em mecanosfera.
13Para maiores esclarecimentos acerca das noções de "máquina abstrata" e de plano de consistência, ver DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. I. Pgs. 87 e 88. Ver também GUATTARI, Félix. ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Pgs. 320 e 321.
14A respeito do conceito de nietzschiano de vontade de potência e sua utilização por Deleuze, ver o texto "Mistério de Ariadne segundo Nietzsche", in DELEUZE, Gilles, Crítica e Clínica. Ed. 34. Para uma concepção cosmológica de vontade de potência, ver o trabalho de Scarlet Marton: Nietzsche: Das forças cósmicas aos valores humanos. Belo Horizonte: Ed. Ufmg, 2000.

Referências bibliográficas:

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
_______________. Conversações. Tradução: Peter Pál Pelbart. - Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. I. São Paulo, Ed. 34. 2004.
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. V. São Paulo, Ed. 34. 1997.
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: Ensaios de esquizo-análise. Campinas, Papirus. 1988
GUATTARI, Félix. ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis, Ed. Vozes. 1986.
PELBART, Peter Pál. Vida capital: Ensaios de biopolítica. São Paulo, Iluminuras. 2003.

Diogo Borges e Cleber Cabral Integram um grupo de pesquisas interdisciplinares sob a orientação da Professora Doutora Ester Eliane Jeunon (PUC - MG), estudando temas diversificados, como a formação histórica dos saberes/poderes contemporâneos; articulações entre capitalismo, ética e subjetividade; entre outros temas.

FONTE: http://www.revista.criterio.nom.br/artigo-rizoma-mil-platos-deleuze-guattari-diogo-borges-cleber-cabral.htm

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

LABIRINTO E RIZOMA: a temporalidade na cibercultura

Ana Elisa Antunes Viviani

Resumo: O intuito deste trabalho é investigar as modalidades do tempo na cibercultura através da idéia do labirinto presente no conto de Jorge Luis Borges, O jardim dos caminhos que se bifurcam, e do conceito de rizoma de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Como se verá, os dois textos mostram que existe uma forte ligação entre o espaço e o tempo, o que nos remete diretamente a Henri Bergson e seu conceito de duração, ligado ao tempo existencial e destituído de mensurabilidade. Esta articulação nos permite compreender como os usuários do ciberespaço deixam-se absorver pelas conectividades do virtual.

Palavras-chave: labirinto, rizoma, temporalidade, espacialidade, Bergson
*****
A cibercultura1 tem se caracterizado por vários fatores, mas principalmente pela
compressão do espaço e do tempo, isto é, pela superação das distâncias espaciais e pela
experiência de imediatez do tempo real, ambos efeitos proporcionados pela confluência das
redes telemáticas com as tecnologias digitais e do virtual. Como escreve André Lemos, ao
recuperar Michel Maffesoli, o homem participante da cibercultura está constantemente atrás
da “conquista do presente” (LEMOS, 2004, p. 64).
Mas é possível perceber que juntamente com o tempo real convivem outras
temporalidades, como a do eterno retorno, identificada com o tempo do ritual e do mito, um
tempo que constantemente volta ao seu início e que portanto é dotado de reversibilidade
(LEMOS, 2004, p. 133-134), diferentemente da flecha do tempo, que aponta sempre para o
futuro, para o progresso, e portanto irreversível. No entanto, existe também um outro tempo
que se articula com esse tempo real e que não é mensurável, pois está ligado à duração da
experiência. É o tempo em que nos deixamos absorver em nossas múltiplas conexões virtuais,
em nossos entrelaçamentos rizomáticos; o tempo da pura duração.
Para nos ajudar a compreender essas diferentes temporalidades que atravessam a
cibercultura lançamos mão de dois conceitos: o labirinto, presente no conto de Jorge Luis
Borges, O jardim de caminhos que se bifurcam (1972), e o rizoma, presente no primeiro
volume de Mil Platôs de Deleuze2 e Guattari (1995). Em ambos os textos, conseguimos
perceber que, subjacente à espacialidade do labirinto e do rizoma, existe o tempo da duração.
E o grande pensador que nos autoriza a pensar sobre esse embaralhamento das categorias de
espaço e tempo é o filósofo francês Henri Bergson3.
Vejamos, então, como estes conceitos, tão intimamente ligados à espacialidade,
apresentam suas conexões com o tempo.
Labirinto - Para um melhor entendimento acerca da cibercultura como objeto de pesquisa, recomendamos, além do livro de André Lemos (2002), várias vezes referenciado neste trabalho, o texto de Erick Felinto, “Sem mapas para esses territórios: a cibercultura como campo de conhecimento” (2007).
2 Embora Gilles Deleuze já tivesse escrito um pequeno livro intitulado Rhizome (1976), adotamos o livro que
consolidou esse conceito e que é amplamente conhecido pelas pesquisas de cibercultura.
3 Henri Bergson (1859-1941) elaborou vários conceitos que se mostram muito pertinentes para as pesquisas em comunicação, mais especialmente seus estudos sobre os mecanimos do pensamento, matéria, memória,
movimento, negatividade e duração. Em suas obras, ele também procurou derrubar os conceitos e componentes metafísicos que permaneciam subjacentes na ciência moderna e que excluía a duração das suas observações.

Yu Tsun é o principal personagem do conto de Borges, que se passa na Inglaterra, em
algum momento da Primeira Guerra Mundial. Agente do império alemão, Yu Tsun foge do
seu algoz, o capitão Madden. Mas antes de ser capturado, precisa garantir que o exército
alemão saiba o nome da cidade onde se encontra o novo parque de artilharia britânico. E para
isso parte para Ashgrove a fim de encontrar Stephen Albert, cuja casa se encontra no centro
de um labirinto em forma de jardim. Coincidentemente, o avô de Yu Tsun, Ts´ui Pen, fora um
criador de labirintos que abandonara sua vida como governador para se empenhar na criação
de um labirinto e na escrita de um romance. Após 13 anos de empenho, é assassinado por um
desconhecido. Sua família, não encontrando o labirinto e seu romance lhe parecendo caótico,
acredita que ele fracassara em sua empreitada. Quem desvenda o mistério da obra de Ts´ui
Pen é Stephen Albert, que conquista a admiração de Yu Tsun, mas que mesmo assim acaba
sendo assassinado por ele, pois seu nome coincidia com o local de abrigo da artilharia
britânica e desta forma sua morte denunciaria o local ao comandante alemão.4
Stephen Albert decifra a charada graças a um fragmento de carta deixado por Ts´ui
Pen antes de morrer: “Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se
bifurcam” (BORGES, 1972, p. 104). Ele descobre, então, que esse jardim é, na verdade, o
romance que em sua forma não linear de contar histórias esconde um “invisível labirinto de
tempo” (BORGES, 1972, p. 103).
Por isso, o labirinto oculta em sua espacialidade múltiplos tempos; não apenas um
único tempo uniforme, homogêneo, abstrato, mas “[...] infinitas séries de tempos, uma rêde
crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de
tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange
tôdas as possibilidades.” (BORGES, 1972, p. 107-108) O conto revela ainda que numa
charada a única palavra proibida no seu enunciado é a que resolve a mesma e, por isso,
inerente ao labirinto está o tempo, que jamais é mencionado.
Outro elemento instigante no conto de Borges é não apenas o modo como o tempo é
problematizado através da história de Yu Tsun, mas como em seu interior coexistem vários
tempos. Enquanto divaga, percorrendo as bifurcações que o levam de encontro a Stephen
Albert, Yu Tsun imagina um labirinto de labirintos, “um sinuoso labirinto crescente que
abarcasse o passado e o futuro e que envolvesse, de algum modo, os astros. Absorto nessas
imagens ilusórias, esqueci meu destino de perseguido. Senti-me, por um tempo
indeterminado, conhecedor abstrato do mundo.” (BORGES, 1972, p. 100, grifo do autor)
Trata-se do tempo interno do personagem, que se encontra completamente absorto nas
veredas do jardim; é o tempo da pura duração. Por sua vez, existe ainda o tempo que lhe é
externo, mensurável, como quando está deitado na sua cama, no quarto do hotel, por volta das
6 da tarde, ou quando toma o trem que parte para Ashgrove, às 8 e 50 da noite, ou ainda
quando se dá conta de que a diferença entre os horários das partidas dos trens é o que lhe
salva a vida.
Mas existe também um outro tempo, que é mencionado na própria história, mas que só
faz sentido no final e que parece ser um metatempo: o tempo circular, que retorna de onde
partiu. Stephen Albert comenta com Yu Tsun como o romance para ser infinito precisava ser
necessariamente circular:
4 O conto, ainda, é sedutor por vários fatores, dentre os quais destacamos: o fato do criador e do decifrador do labirinto serem assassinados e o fato de Yu Tsun ser catedrático de inglês numa escola alemã em Tsingtao,enquanto Stephen Albert ser sinólogo. Fica evidente a mútua admiração de um pelo outro no conto, mas que naquele desfecho, naquela vereda por que a história se encaminha, termina de modo trágico. Interessante pensar também que Ts´ui Pen renuncia ao poder temporal justamente para eternizar-se através de sua obra, assim como Borges...

Antes de exumar esta carta, eu tinha me perguntado de que maneira um livro pode
ser infinito. Não conjeturei outro processo que o de um volume cíclico, circular. Um
volume cuja última página fôsse idêntica à primeira, com possibilidade de continuar
indefinidamente. Recordei também aquela noite que está no centro das Mil e Uma
Noites, quando a Rainha Scheherazade (por uma mágica distração do copista) põe-se
a referir textualmente a história das Mil e Uma Noites, com risco de chegar outra
vez à noite na qual está fazendo o relato, e assim até o infinito” (BORGES, 1972, p.
104)
Assim como Ts´ui Pen, criador do labirinto, é assassinado por um desconhecido, seu
bisneto, Yu Tsun, reassume a condição do assassino ao executar Stephen Albert, decifrador da
charada do labirinto. O círculo reencontra, então, seu início.
Rizoma -  Deleuze e Guattari lançam a idéia do rizoma como sistema a-centrado para indicar um
inconsciente labiríntico, que funciona como as tocas de ratos, ou tubérculos, compostos de
caminhos em bifurcação, como as valas que a água da chuva deixa na terra. Segundo os
autores, o inconsciente rizomático opõe-se ao da psicanálise, que é fundado num sistema
centrado, hierárquico, arborescente, como uma raiz ou radícula. As mesmas observações
valem para a linguística. Sendo assim, seja para os enunciados, seja para os desejos, “a
questão não é nunca reduzir o inconsciente, interpretá-lo ou fazê-lo significar segundo uma
árvore. A questão é produzir inconsciente e, com ele, novos enunciados, outros desejos: o
rizoma é esta produção de inconsciente mesmo.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 28)
Rizomas são tubérculos, bulbos cujas raízes expandem-se extensivamente e em todos
os sentidos; são os animais que vivem em matilhas. O rizoma é caracterizado por sua
conectividade, de um ponto que o compõe com qualquer outro ponto. É multiplicidade, pois
não tem sujeito, nem objeto; não possui unidades de medida, mas grandezas. O rizoma possui
apenas linhas e não pontos, como no sistema arborescente. É relação de heterogêneos, pois
assim são os devires que o compõe; é o exemplo do conjunto vespa-orquídea, uma involução5,
uma ruptura a-significante, em que uma parte pode se separar de outra e, mesmo assim,
manter o rizoma. Os vírus são rizomáticos devido à sua forma de transmitir transversalmente
informação genética.
O rizoma também é mapa, diferentemente de um decalque, por ancorar-se no real. “O
mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível
de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a
montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação
social.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 22)
Mas mais do que tudo, o rizoma é hecceidade, acontecimento fruto do agenciamento
entre heterogêneos, de articulações espaço-temporais. E as singularidades que percorrem o
rizoma são os nômades, que constituem trajetórias sem finalidades pré-determinadas, sem
alvos, sem pontos a serem atingidos, pois estão mais preocupados com o caminho, com o
durante, com a duração. Por isso, não se apropriam do território, não se vinculam a ele. Ao
contrário dos migrantes, a quem está subjacente a idéia de abandono local, os nômades não
têm essa preocupação. Seu trânsito se dá pelo meio, pois é por aí que “coisas adquirem
velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra
e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega
uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade ao
meio.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.37)
5 A involução não pode ser confundida como uma regressão ou uma oposição à evolução. A involução é uma“evolução [...] entre heterogêneos.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997a, p. 19)

Daí a diferenciação que Deleuze e Guattari fazem entre movimento e velocidade,
sendo o primeiro extensivo e o segundo intensivo.6 E a velocidade está ligada ao espaço liso,
que é rizomático; era o mar, antes de ser estriado, dividido em meridianos e cartografado. “No
espaço liso, portanto, a linha é um vetor, uma direção e não uma dimensão ou uma
determinação métrica” (DELEUZE, GUATTARI, 1997b, p.185)
Numa definição um pouco mais precisa, no rizoma [...] a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer 7, onde as hastes ou canais não preexistem, nos quais os indivíduos são todos intercambiáveis, se
definem somente por um estado a tal momento, de tal maneira que as operações
locais se coordenam e o resultado final global se sincroniza independente de uma
instância central. (DELEUZE, 1995, p. 27, grifo nosso)

Duração
No seu primeiro livro, Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (1988), Henri
Bergson critica os métodos científicos que procuram quantificar a intensidade dos estados de
consciência e chega à conclusão de que isso ocorre porque para atribuir uma grandeza ao que
é intenso introduzimos uma certa espacialidade. Para ilustrar como isso ocorre, ele utiliza o
exemplo de uma mola que se contrai e se distende, e que é dotada de uma certa extensão e
portanto quantificável, para explicar como confundimos aquilo que é intenso com o que é
extenso.8 E o que é extenso (espaço) acaba penetrando em outros conceitos, como o de tempo.
Desta forma, o tempo passa a ser visto pela ciência como uma categoria igualmente
quantificável e, portanto, desconsidera a perspectiva de um tempo qualitativo. Bergson
esclarece isso com o exemplo do açúcar que se dissolve no copo de água:
Se eu quiser preparar um copo de água com açúcar não tenho outro remédio senão
esperar que o açúcar se dissolva. Este fato insignificante tem muito para nos ensinar.
Porque o tempo que é necessário esperar já não é o tempo matemático que se
aplicaria na mesma ao longo da história inteira do mundo material, caso ela se
achasse exposta duma vez só no espaço. É um tempo que coincide com a minha
impaciência, isto é, com uma certa porção da minha própria duração, a qual não
pode ser esticada nem encolhida a nosso bel-prazer. Não se trata já do pensado, mas
do vivido. Não é uma relação, é o absoluto. (BERGSON, 1964, p. 48-49).
Esse absoluto é, na verdade, uma experiência temporal heterogênea, pois está ligada à
qualidade, inerente à duração. E a homogeneidade está ligada a uma ausência de qualidade,
tanto no espaço, quanto no tempo. Como para a ciência moderna ambas categorias são
grandezas homogêneas, divisíveis e quantificáveis, ela é incapaz de apreender o qualitativo do
movimento e da duração, porque nem uma, nem outra são formadas por partes; ambas só
podem ser capturadas em sua integridade. “É que a duração e o movimento são sínteses
mentais, e não coisas.” (BERGSON, 1988, p. 84). A pesquisadora Margaret Wertheim reitera
essa incapacidade da ciência, mais especificamente dos físicos, de compreenderem esse
tempo: “Na visão de mundo dos físicos do hiperespaço, o tempo não é mais um atributo da
experiência humana subjetiva, torna-se um mero artefato de manipulação matemática. [...]
Nossa experiência mais fundamental do tempo como algo vivido e pessoal é abolida.” (2001,
p. 159)
6 “[...] o movimento pode ser muito rápido, nem por isso é velocidade; a velocidade pode ser muito lenta, ou mesmo imóvel, ela é, contudo, velocidade.” (DELEUZE; GUATTARI, 1997b, p. 52)
7 Semelhante à conexão peer to peer na internet?
8 Ele, inclusive, cogita a possibilidade de que isso ocorra por uma incapacidade da linguagem de abarcar esses estados de intensidade. “Talvez a dificuldade do problema derive do fato de darmos o mesmo nome e representarmos da mesma maneira intensidades de natureza muito diferente, a intensidade de um sentimento, por exemplo, e a de uma sensação ou de um esforço.” (BERGSON, 1988, p. 15)

Bergson, então, identifica a existência de dois espaços: um que é homogêneo, fruto de
um esforço de abstração e de uma ação da inteligência e que é destituído de qualidade; outro
que é heterogêneo, ligado às qualidades sensíveis, inerente à duração. E mesmo com relação à
duração ele vai mostrar que existem duas concepções possíveis: uma pura e outra mista em
que permanece a idéia de espaço. “A duração totalmente pura é a forma que a sucessão dos
nossos estados de consciência adquire quando o nosso eu se deixa viver, quando não
estabelece uma separação entre o estado presente e os anteriores.” (BERGSON, 1988, p. 72)
No caso da duração mista, ele fornece um exemplo simples: um ponto que percorre a linha A-
B não seria capaz de detectar a espacialidade da linha que percorre; apenas detectaria a
sensação do movimento, ou a duração pura. Somente perceberia esse espaço se se colocasse
acima da linha e se visse a si próprio percorrendo-a. (BERGSON, 1988, p. 74)
A idéia de que todas as coisas acontecem precisamente no presente remete à duração
pura. Para Bergson, passado e presente não estão distantes: agem concomitantemente: “O
passado e o presente não designam dois momentos sucessivos, mas dois elementos que
coexistem: um, que é o presente e que não pára de passar; o outro, que é o passado e que não
pára de ser, mas pelo qual todos os presentes passam.” (DELEUZE, 1999, p. 45) Yu Tsun,
protagonista do conto de Borges, tem essa percepção quando fala: “todas as coisas nos
acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente
ocorrem os fatos [...]” (BORGES, 1972, p. 96).
É na duração pura, então, que se percebe a impossibilidade de repetição, que se nota as
diferenças das coisas. “A duração real é aquela que morde as coisas e nelas deixa a marca dos
dentes. Se tudo está no tempo, tudo muda interiormente, e a mesma realidade concreta nunca
se repete. Portanto, a repetição só é possível no abstrato” (BERGSON, 1964, p. 78). A
duração faz com que as coisas se diferenciem de si mesmas; portanto, o que é diferente é o
novo. Enfim, trata-se de uma heterogeneidade.
O que se produz de novo nada é nos objetos, mas no espírito que os contempla, é
uma ‘fusão’, uma ‘interpenetração’, uma ‘organização’, uma conservação do
precedente que não desaparece quando o outro aparece, enfim, uma contração que se
faz no espírito.” (DELEUZE, 1999, p. 115).
Assim como no labirinto de Borges em que a duração é uma das possíveis
temporalidades, a pesquisadora Lilian Schwarcz em um breve estudo sobre Cronos e Aion,
sobre o tempo histórico e o tempo antropológico, relembra como em A montanha mágica, de
Thomas Mann, o tempo no sanatório onde permanece Hans Castorp é pura intensidade. Para
ele, a sopa que lhe servem todos os dias, sempre na mesma hora, “é servida eternamente”
(SCHWARCZ, 2000, p. 22). E esta é a chave para entender a relação entre espacialidade e
tempo: “Onde há espaço há muito tempo” (MANN, 1980, p. 273 apud SCHWARCZ, 2000, p.
22).
A experiência do tempo vivido por Castorp ou passava rapidamente ou não passava
nunca. Ele sentia que as sete semanas vividas como paciente poderiam tanto parecer 7 dias
como 7 anos. Esse aspecto do tempo que lhe escapava e que nos é igualmente fugidio é o da
duração. É o tempo de Yu Tsun em suas divagações, enquanto percorre o labirinto. É o tempo
do sonho.

Temporalidades
André Lemos, ao recuperar Mircea Eliade, faz uma analogia da cibercultura com a
hierofania, de um sentimento de encantamento9 que é compartilhado pela coletividade que se
constitui no ciberespaço: “A hierofania aparece pela absorção. Passamos horas a fio
conectados sem nos darmos conta. Esta prática liga-se ao antiquíssimo desejo de ubiqüidade,
acessando a consciência planetária” (2004, p. 133).
Nos games on e off-line, nos chats, nos softwares para os mais diversos fins, enfim,
em praticamente tudo que envolve tecnologias digitais e do virtual, percebemos que os
usuários absorvem-se neste tempo heterogêneo:
“circular pela Web, participar dos MUDs, recomeçar um jogo eletrônico ou um CD
Rom, perder-se nos links dos hipertextos como um ciber-flâneur, voltar várias vezes
à home page preferida, etc, tudo isto faz do tempo real do ciberespaço um tempo
especial que impregna toda a cultura contemporânea.” (LEMOS, 2004, p. 134, grifo
nosso)
E esse “tempo especial” é o da intensidade dos estados de consciência, da duração
pura. Por isso, as várias horas despendidas na frente de um computador e o tempo vivido são
de naturezas distintas, mas que são compartilhados nas trajetórias nômades e errantes das
linhas do rizoma.
A pesquisadora Suely Fragoso (2003) chama a atenção para os aspectos nem sempre
agradáveis da imposição de uma imediatez resultante da compressão espacial e que acaba nos
lançando em velocidades vertiginosas: nossa experiência do real acaba perdendo substância,
para não dizer que muitas vezes corremos o risco de esquecer o que é de fato sentir o mundo,
de tal forma mergulhamos no universo mediado do ciberespaço. No entanto, a própria autora
afirma que é preciso considerar todos os lados possíveis para um melhor entendimento dos
fenômenos, já que o próprio ciberespaço apresenta uma configuração múltipla. Por isso, os
estudos relativos à percepção do espaço e do tempo na cibercultura não estão esgotados, e a
literatura, assim como a filosofia, podem oferecer possibilidades inusitadas de compreender
melhor tais aspectos.
No caso deste trabalho, foi possível perceber o quão entrelaçados estão o rizoma e o
labirinto. Funcionando como metáforas para o inconsciente, ambos são compostos de fluxos,
de linhas e de velocidades. Não têm começo e nem fim, dão voltas em si mesmos; são
infinitos universos de possíveis.10
E o sujeito, na intersecção desses múltiplos tempos, não existe.11 E não existe porque o
que percorre tanto o labirinto quanto o rizoma não são nem sujeitos, nem objetos, mas
velocidades, fluxos, devires que se constituem em cada bifurcação. “Pareceu-me que o úmido
jardim que rodeava a casa estava saturado até o infinito de pessoas invisíveis. Essas pessoas
eram Albert e eu, secretos, atarefados e multiformes em outras dimensões do tempo.”
(BORGES, 1972, p. 108)
Rizoma e labirinto, então, têm seus sentidos ampliados graças a Deleuze-Guattari e a
Borges. Não é à toa, portanto, que estes pensadores consagraram-se como visionários da
9 Esse sentimento de encantamento e mágica que envolve o ciberespaço é o objeto de estudo de Margaret
Wertheim e suas configurações quase religiosas não são novas, mas herança de visões seculares cristãs. Como
ela escreve, está “interessada em indagar: o que há nesta sociedade neste ponto particular da história – isto é, nos
Estados Unidos no início do século XXI – que cria um clima tão propício para o sonho quase religioso do
ciberespaço?” (WERTHEIM, 2001, p. 16).
10 “A idéia do futuro, prenhe de uma infinidade de possíveis, é pois mais fecunda do que o próprio futuro, e é por isso que há mais encanto na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade.” (BERGSON, 1988, p.16) 11 “Não existimos na maioria dêsses tempos.” (BORGES, 1972, p. 107-108)
internet e sua conectividade, da multiplicidade da rede e seus devires, dos mundos possíveis eda grande charada que é o tempo.
Bibliografia
BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Lisboa: Edições 70, 1988.
-----. A evolução criadora. Rio de Janeiro: Ed.Delta, 1964.
BORGES, Jorge Luis. O Jardim de caminhos que se bifurcam. In: ___. Ficções. Porto Alegre: Abril Cultural/
Globo, 1972.
DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 1999.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, v. 1.
----- (a). Mil Platôs. São Paulo, Ed. 34, 1997, v. 4.
----- (b). Mil Platôs. São Paulo, Ed. 34, 1997, v. 5.
FELINTO, Erick. “Sem mapas para esses territórios”: a cibercultura como campo de conhecimento. XXX
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Santos, 2007.
FRAGOSO, Suely. Um e muitos ciberespaços. In: LEMOS, André; CUNHA, Paulo. Olhares sobre a
cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
LEMOS, André. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. 2ª ed, Porto Alegre:
Sulina, 2004.
SCHWARCZ, Lilian Moritz. Falando de tempo. Revista Sexta Feira, v. 5, p. 10-24. 2000.
WERTHEIM, Margaret. Uma história do espaço: de Dante à internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

*Ana Elisa Antunes Viviani é Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo.

FONTE : http://www.cencib.org/simposioabciber/PDFs/CC/Ana%20Elisa%20Antunes%20Viviani.pdf.

RIZOMA -(FILOSOFIA) ("FELLINI?",LEITOR DESTE BLOG COMENTA E GLÓRIA KREINZ TAMBÉM,COMO É ALGO QUE ME INTERESSA MUITO...A WIKIPÉDIA ME AUXILIOU!! GRANDE WIKIPÉDIA!!!)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Rizoma é um modelo descritivo ou epistemológico na teoria filosófica de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

Índice

[esconder]

[editar] Epistemologia

As propostas topológicas, descrições das condições discursivas, que Guattari e Deleuze propõem a partir dos conceptos de raiz, radícula e rizoma apresentam possibilidades interessantes ao embasamento epistemológico para análise de sistemas.
A topologia da raiz alude a uma condição de totalitarismo, despotismo, que se exerce a partir da biunivocidade. "Isto quer dizer que este pensamento nunca compreendeu a multiplicidade: ele necessita de uma forte unidade principal, unidade que é suposta para chegar a duas, segundo um método espiritual." (DELEUZE e GUATTARI, 1980, p.13) É uma condição que estabelece a continuidade de um eixo-tronco ao que ramifica-se dicotomicamente a partir dele e, ao partir dele, a ele retorna em sua continuidade. É uma condição de rigidez teórica e circularidade argumentativa, em que tudo no fim das contas "é porque é" através do retorno ao poder do eixo principal que é exercido sobre suas ramificações. A dicotomia é o exercício do poder totalitário que divide o mundo em ramos binários: os loucos e os normais, os dominadores e os dominados, o bem e o mal, o certo e o errado, o zero e o um. O pensamento cristão, por exemplo, estrutura-se topologicamente de maneira binária, como uma raiz.
De maneira próxima à raiz estaria a topologia da radícula, imagem da qual a modernidade se vale de bom grado. Um sistema fasciculado que visa aproximar-se da condição das multiplicidades, mas que não alcança nada além de um simulacro das mesmas. Quando se reduz uma multiplicidade a uma estrutura rígida, compensa-se seu movimento ao reduzir as suas leis de funcionamento.
Vale dizer que o sistema fasciculado não rompe verdadeiramente com o dualismo, com a complementaridade de um sujeito e de um objeto, de uma realidade natural e de uma realidade espiritual: a unidade não pára de ser contrariada e impedida no objeto, enquanto que um novo tipo de unidade triunfa no sujeito. O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo fazer dicotomia, mas acende a uma mais alta unidade, de ambivalência ou de sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto." (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p.14)
A condição de sujeito-objeto seria, de fato, um enclausuramento na lógica dual à medida que estão são duas dimensões suplementares. Reconhece-se aí o caos no mundo, mas o que se produz é uma imagem desse mundo à parte de qualquer movimento, qualquer devir. Produz-se agora o cosmo-radícula ao invés do cosmo-raiz. Trata-se de uma função que repete-se na variável, ela por ela mesma em todas as ocasiões excluindo tudo que esteja à sua margem, a unidade se repete no múltiplo, trata-se de n=1.
Os autores apresentam como seu próprio modelo uma anunciação da pós-modernidade, o concepto de rizoma, que dispõe-se a reconhecer as multiplicidades, os movimentos, os devires. A unidade estaria no múltiplo unicamente como uma subtração deste, como n-1. Ainda que possa arborificar-se em determinados momentos, o rizoma de forma alguma é uma arborificação. O rizoma, distintamente das árvores e suas raízes, conecta-se de um ponto qualquer a um outro ponto qualquer, pondo em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não-signos. Não deriva-se de forma alguma do Uno, nem ao Uno acrescenta-se de forma alguma (n+1). Não constitui-se de unidades, e sim de dimensões. O rizoma é feito de linhas: tanto linhas de continuidade quanto linhas-de-fuga como dimensão máxima, segundo a qual, em seguindo-a, a multiplicidade metamorfoseia-se, mudando de natureza. O rizoma é o que já foi.
"Não se deve confundir tais linhas ou lineamentos com linhagens de tipo arborescente, que são somente ligações localizáveis entre pontos e posições. (...) O rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga. São os decalques que é preciso referir aos mapas e não o inverso." (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p.32-33)
Os autores propõem o que se pode agrupar em dois tipos de sistemas: centrados e a-centrados. Os sistemas raiz e radícula podem ser classificados como centrados, privilegiando as estruturas arborescentes de ramificação hierárquica, em que cada indivíduo reconhece apenas seu vizinho ativo, seu superior hierárquico. A arborescência preexiste ao indivíduo e nela ele possui um papel fixo. A condição de repetição se instaura no sistema centrado quando as ramificações de seus galhos e suas raízes repetem-se também nas folhas, são sistemas necessariamente contínuos. As folhas são o decalque da árvore, que os articula e hierarquiza.
“Os autores assinalam a esse respeito que mesmo quando se acredita atingir uma multiplicidade, pode acontecer que essa multiplicidade seja falsa – o que chamamos tipo radícula – porque sua apresentação ou seu enunciado de aparência não hierárquica não admitem de fato senão uma solução totalmente hierárquica.” (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p.27)
Em contraponto aos sistemas centrados, que privilegiam o centro, são apresentados os a-centrados, em que o privilégio é dos meios, dos intervalos, das ervas-daninhas entre as plantações tão cartesianamente organizadas. O rizoma é classificado como a-centrado, uma rede de autômatos finitos. A condição deste tipo de sistema é a de complexidade, em que não há um decalque, uma cópia de uma ordem central, mas sim múltiplas conexões que são estabelecidas a todo o momento, num fluxo constante de desterritorialização e reterritorialização. O problema proposto pelo rizoma é análogo ao da máquina de guerra, a Firing Squad: é necessário realmente um general para que os n indivíduos disparem simultaneamente?
O rizoma, como um sistema a-centrado, seria, portanto, a expressão máxima da multiplicidade em detrimento às outras duas condições apresentadas de raiz e radícula, que não expressam nada mais do que a proposta de um todo disciplinador, um totalitarismo estrutural.


Rizomas de Holcus mollis

[editar] Botânica

A noção de rizoma foi adotada da estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da botânica, que tanto pode funcionar como raíz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da planta, serve para exemplificar um sistema epistemológico onde não há raízes - ou seja, proposições ou afirmações mais fundamentais do que outras - que ramifiquem-se segundo dicotomias estritas. Deleuze e Guattari sustentam o que, na tradição anglo-saxã da filosofia da ciência, costumou-se chamar de antifundacionalismo (ou antifundamentalismo, ou, ainda, antifundacionismo): a estrutura do conhecimento não deriva, por meios lógicos, de um conjunto de princípios primeiros, mas sim elabora-se simultaneamente a partir de todos os pontos sob a influência de diferentes observações e conceitualizações. Isto não implica que uma estrutura rizomática seja necessariamente flexível ou instável, porém exije que qualquer modelo de ordem possa ser modificado: existem, no rizoma, linhas de solidez e organização fixadas por grupos ou conjuntos de conceitos afins. Tais conjuntos definem territórios relativamente estáveis dentro do rizoma.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rizoma_%28filosofia%29
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