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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"CIÊNCIA EM AÇÃO" - BRUNO LATOUR - RESENHA (MICHEL PATY)

resenha] Ciência Hoje (SBPC, Rio de Janeiro), vol. 28, n° 168, janeiro-fevereiro2001, 68-69.Uma visão antropológica do conhecimento científico (Bruno Latour,Ciência em Ação.


Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora,

tradução do texto original em inglês por Ivone C. Benedetti
,Editora Unesp, São Paulo, 2000, 440 p.)

Este livro do “antropólogo da ciência e da tecnologia” Bruno Latour já publicado em inglês (Science in action. How to follow scientists and engineersthrough society) e em francês (La science en action) há algum tempo é considerado uma espécie de clássico das concepções do “relativismo epistemológico” o mais radical.Não se trata neste livro, à diferença de obras anteriores do autor,  de observar, dentro de um laboratório, os comportamentos e as práticas dos cientistas.O propósito é mais geral e sistemático : trata-se de entender, a partir de umaperspectiva “antropológica” o que é a ciência, não a ciência acabada (isto é,geralmente admitida) e justificada por seus sucessos, mas a ciência no momento da sua elaboração. Com tal intenção, a priori só posso concordar. E muito importantesaber como os homens inventam esta forma específica de conhecimento que é aciência, e entender como esta, apesar de ser invenção da mente humana (comodiziam Poincaré e Einstein) se adequa tão bem com a natureza que é suposta representar. Não se pode ficar satisfeito com uma concepção da ciência segundo aqual esta seria puramente dada, verdadeira por sua própria autoridade e já existindode todos os tempos, presente na nossa frente como uma caixa negra (ou umencaixamento de tais caixas) da qual a maior parte das pessoas ficaria ignorando os como e os porquê.Assim vamos acompanhando a ciência tal como se constroí, segundo o primeiro passo do método anunciado pelo autor (no final, apresenta 7 regras metodológicas e 7 princípios, que são um resumo do seu tipo de aproximação, p.421-424) : “nossa entrada no mundo da ciência e da tecnologia será pela porta detrás, a da ciência em construção, e não pela entrada mais grandiosa da ciência acabada” (p. 17). E : “peneirando a ciência a partir de fora, acompanhandodiscussões e cientistas até o fim, para finalmente irmos saindo aos poucos da ciência em construção" (p. 33).O livro é constituído de seis capítulos correspondendo às diversas dimensões da investigação do autor, visando a determinar o que é “a ciência emação”, como e por quem está feita. Estas dimensões são : a literatura (a conclusão éque significa pouco, não é nela que está o essencial, mas nas estratégias depersuasão), os laboratórios (cuja comunidade decide da verdade pelas negociações),as máquinas e os aparelhos (se supõe que resultam da verdade de umconhecimento, quando de fato são eles que a asseguram), a mobilização daspessoas (profissões e grupos de interesse, aliados e recursos para assegurar as posições nas controvérsias), os tribunais da razão (a fabricação da racionalidade pelos consensos sociais), e por fim, metrologia e abstração (esta última é inseparável da relatividade antropológica dos conhecimentos, quer dizer dos sistemas de crenças). Os capítulos são distribuídos por pares em três partes, cujos títulos se referem à perspectiva adotada pelo autor : trata-se de retórica, de pontos
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2de argumentação, e de redes.O autor nutre a ambição, através de sua aproximação, de chegar a umaideia satisfatória não só do que é a ciência, mas a tecno-ciência, e daí, do que são os estudos sobre “Ciência, tecnologia e sociedade”, por uma caraterização do seu núcleo duro do ponto de vista conceptual, que seria comum a áreas e aproximações variadas. Daí sua justaposição freqüente de exemplos heterogéneos, tomados de um enunciado científico ou de uma escolha de uma tipo de máquinas, de descobertas científicas e da história da ciência bem como da vida social comum ou da etnologia.Claro, as especificidades aqui correm o risco de serem apagadas e as circunstâncias de serem misturadas, a consideração dos contextos gerais de diluir os conteúdos particulares. E quanto aos enunciados, o que interessa é somente de ter sido pronunciados, não o que significam. Significam só por ser pronunciados (tal é aessência do pós-modernismo…).A admissão da “caixa negra” repousa sobre a idéia da separação das duas atividades, a do contexto e a do conteúdo. Pois bem, tudo aí vai depender decomo se carateriza o contexto. Para Latour, é simples : o conteúdo se confunde atése identificar com o contexto, e é este contexto que ele analisa em detalhe e, na verdade, reduz aos elementos que preparam o consenso. A racionalidade aqui não está em jogo, esta só no resultado, é decidida, após o sucesso, no que os filósofos da tradição “peri-analítica” chamam de justificação. O autor entro correndo na brecha aberta pelo desinteresse afirmado pelos filósofos durante decenias a respeito dos processos da invenção científica supostos irracionais. Aqui não se fala de irracionalidade (ver os dois últimos capítulos), mas nem da racionalidade inicial do problema considerado, e dos eventuais passos racionais do trabalho subseqüente. O que se considera geralmente como elementos de racionalidade científica (das experiências ou dos textos apresentando os resultados) é visto como discursos de pura retórica, e a racionalidade é dissolvida na semiótica (veja, em particular, p.147-148).De fato, concluí, é a comunidade social do laboratório, na área considerada da ciência, que decide do que é tomado como pertinente e finalmente como verdadeiro. O saber adquirido é este do qual os especialistas se convincem. ELatour desvela a mistificação, ou a grande ilusão, segundo ele : a ciência constituída transtornou as proposições, pretendendo o contrario do que a ciência emação nos ensina : seria o saber, por ser verdadeiro, que nos convence. Diz-se que éa Natureza que decide, mas, segundo Latour, a Natureza é colocada como a causafinal da resolução das controvérsias somente quando estas são resolvidas e, então,ela é a consequência, não a causa (p. 161-162). Esta colocação não passa de ser um belo sofismo, se a palavra tem um sentido. E se têm muitos de mesmo quilate. Noconjunto, a razão é apenas um andaime edificado em torno de palavras queexprimem nada mais do que os comportamentos sociais usuais de qualqueratividade humana. A ciência é oca, o rei está nu.Redigido com vivacidade e para seduzir o leitor, o livro se lê facilmente,a não ser que este se sature de tantos sofismos no decorrer da demonstração.Precisamente por isto, o livro tem valor de documento, como exercício brilhanteesclarecendo, por quem lê com recuo crítico, a natureza destas idéias na modachamadas de “relativismo do conhecimento”, donde se brinca retoricamente com aideia de verdade, e aproximações semióticas substituem a noção complexa (ou oproblema) de realidade do mundo natural.
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3Parece que toda filosofia aqui está reduzida a fáceis paradoxos aparentese a jogos com palavras. Será isso “antropologia” ? Pode ser uma especial, uma“antropologia do consenso” e da observação de fora, onde o investigador sóobserva as ações do tribo sem querer saber nada de sua língua nem os significadosde suas palavras e de seus mitos, lendas e conhecimentos sobre seu meio ambiente.Pois tudo está ligado, a natureza e a sociedade, confunden-se os fatos e as frasesque estes descrevem, e seria ilusório tentar aplicar o raciocino, exercitar a razão,para distinguir elementos de compreensão. (Neste sentido, as regras metodológicase os princípios afirmados são essencialmente negativos e comportamentais).Logicamente, uma tal posição equivale a negar que existe razão eciência, pois só há comportamentos. O antropólogo Latour parece ter-se transformado num feiticeiro, conseguindo, pelo poder só das palavras da sua semiótica retórica, em transformar toda realidade do mundo e toda verdade doconhecimento em fumaça de mágico e mera ilusão, mandadas pelos ares. Com tudo isso, tem muito sucesso : será um signo dos tempos ?Michel PATYCentre National de la Recherche Scientifique e Université Paris 7 D.Diderot___________________________

FONTE : http://www.scientiaestudia.org.br/associac/paty/pdf/Paty,M_2001o-LatourCieAcao.pdf

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A ciência em ação: seguindo Bruno Latour

Por Márcia de Oliveira Teixeira



(...)A despeito das influências nos trabalhos sistematizados por Latour em Ciência em ação, é possível discernir rupturas, em certo sentido, profundas. Dimensões, muito pouco presentes nos estudos da sociologia dos conhecimentos científicos (e tecnológicos), despontam como fundamentais nos trabalhos empíricos da década de 1980. São elas as práticas cotidianas dos laboratórios e os materiais (não-humanos) nelas envolvidos. Torna-se também saliente a influência de outras abordagens sociais, cujas ênfases recaem na perspectiva microssocial (Pickering, 1992), a exemplo do interacionismo simbólico e da etnometodologia. Ciência em ação introduz-se na discussão de um campo de estudos sociais da ciência. Trata-se de um outro programa de estudos, que compartilha referências, preocupações e a rejeição de uma perspectiva disciplinar. Porém, a exemplo dos demais programas, não pode ser entendido como um desdobramento linear e eminente.
Alguns poucos comentários se fazem necessários. As pesquisas sociológicas, ao buscarem o social nos conhecimentos científicos, o fazem em termos da identificação dos interesses de diferentes grupos sociais. A disputa e a associação de interesses, na definição de problemáticas e na legitimação de enunciados científicos, são privilegiadas. A análise pauta-se no contexto sociocultural, na dinâmica das redes sociais que sustentam a produção científica. Todavia, o movimento das redes de interesses sociais são insuficientes para explicar as práticas cotidianas da pesquisa (Callon, 1989b; Pickering, 1992). Autores como Latour (2000; 1979), Law (1989) e Callon (1989a) defendem que o entendimento dos processos sociais de produção da ciência deve comportar o entendimento das práticas realizadas nos laboratórios. É preciso entender as conexões entre o social e o tecnocientífico. Para tanto, salientam a simetria entre o social e a posição dos artefatos, das teorias e dos experimentos na produção da ciência ocidental. Propõem uma análise sociotécnica.
Assim, Ciência em ação pode ser interpretado como tentativa de enfrentamento de dois problemas: os limites da etnografia, respondendo se estudos locais de diferentes processos de produção de fatos tecnocientíficos podem nos dizer algo acerca do fazer científico; e o estabelecimento de um campo de pesquisa capaz de lidar com a dispersão das disciplinas e objetos das abordagens sociais das tecnociências (2000, p. 35).
O primeiro enfrentamento está diretamente associado à proposição de se analisar as práticas cotidianas da pesquisa científica. Estudar as tecnociências a partir de descrições densas dos laboratórios, a exemplo do realizado por Latour e Woolgar (1989) no Instituto Salk. Era preciso relatar o que ocorria nesses espaços, enfatizar o que produziu a diferença entre a ciência ocidental e outras formas de conhecimento, qual seja a manipulação de objetos, os experimentos, a fabricação de artifícios de deslocamento e de inscrição permitindo uma acumulação reflexiva. E aqui se inserem os trabalhos já citados de Latour, Woolgar, Law e Callon marcados pelo acentuado cunho etnográfico. Trabalhos reunidos nos chamados 'estudos de laboratório' (Knorr-Cetina, 1981).
Parte dessa produção aparece como material básico de pesquisa do livro em questão. Uma produção que se apóia em relatos minuciosos para levar a cabo seu objetivo de tratar a ciência do modo como ela acontece, como uma sucessão não-linear de práticas sociotécnicas.(...)

LEIA NA ÍNTEGRA EM :
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702001000200012

BRUNO LATOUR ,CIÊNCIA EM AÇÃO,ANTROPOLOGIA SIMÉTRICA (PROCESSOS DA PESQUISA CIENTIFICA É QUE INTERESSAM!)

[...] Não tentaremos analisar os produtos finais, um computador, uma usina
nuclear, uma teoria cosmológica, a forma de uma dupla hélice, uma caixa de
pílulas anticoncepcionais, um modelo econômico; em vez disso, seguiremos
os passos de cientistas e engenheiros nos momentos e nos lugares nos quais
planejam uma usina nuclear, desfazem uma teoria cosmológica, modificam a
estrutura de um hormônio para a contracepção ou desagregam os números
usados num novo modelo econômico [...] (LATOUR, 2000, p. 39)


O tipo de palavra que os autores usam não é o único modo de determinar o
leitor ideal a que estão visando. Outro método é prever as objeções dos
leitores. Esse é um truque comum a toda retórica, seja ela científica ou não
[...] Graças a esse procedimento, o texto tem alvo bem definido; esgota todas
as possíveis objeções de antemão e pode perfeitamente deixar o leitor sem
fala, pois nada lhe resta senão aceitar as afirmações como verdades.
(LATOUR, 2000, p. 89)


(..)Mas o empilhamento não deve ser feito de qualquer forma, Latour estabelece três regras: “[...] Primeira regra: nunca empilhar duas camadas exatamente uma sobre a outra; desse modo não há ganho, não há incremento e o texto fica o tempo todo repetindo. Segunda regra: nunca ir diretamente da primeira à última camada (a menos que não haja ninguém mais no campo para desmascará-lo). Terceira regra (e a mais importante): prove o máximo possível com o mínimo possível, considerando as circunstâncias. Se você for tímido demais, seu texto estará perdido; o mesmo ocorrerá se você for audacioso demais [...]”
(LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo:Editora UNESP, 2000. p. 87)


CONSTRUINDO AS CIÊNCIAS: BRUNO LATOUR E AS ESTRATÉGIAS DA
LITERATURA CIENTÍFICA

Roger Domenech Colacios

Resumo: Este texto tem como objetivo apresentar a análise de Bruno Latour sobre a
literatura científica, mais especificamente, as estratégias utilizadas pelos cientistas, em
seus textos para, a “construir os fatos científicos”. São táticas de retórica que
fortaleceriam o argumento dos cientistas frente a uma nova proposição cientifica, e que
teriam o papel de convencer, tanto a outros cientistas quanto a sociedade em geral da
validade de suas afirmações. Para Latour, quando um fato está socialmente aceito, a
lógica acaba por limitar o campo de atuação daqueles que pretendem desmembrar sua
produção, tudo se torna “natural”, “evidente”, “óbvio”, e quem tem a intenção de
contestar o fato, provavelmente se verá sozinho em seu trabalho. Segundo Latour,
somente no momento de construção dos fatos seria possível a sua desconstrução e
análise pela História Social das Ciências.(...)

LEIA NA ÍNTEGRA EM:
A

FONTE : http://cj.uenp.edu.br/ch/anpuh/textos/024.pdf
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