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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

E se eu te contar que você é feminista? POR RUTH MANUS



*veio pelo whatsapp

E se eu te contar que você é feminista?

POR RUTH MANUS


Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei.

“Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.

Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”

Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão.

Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dizer “eu não sou feminista” seria considerado algo mais feio do que dizer “eu não gosto de filhote de golden”.

Não vou perder tempo aqui dizendo que feministas não são mulheres que não se depilam, não usam soutien e não transam. Primeiro porque ser feminista não tem a ver com ser mulher, tem a ver com ser humano. Segundo porque nunca entendi que raio que os pelos têm a ver com posicionamentos ideológicos. Terceiro porque soutien serve para sustentar peitos, não para sustentar ideias. E quarto porque eu já vi gente deixar de transar por causa da igreja, por causa de promessa, por falta de opção, por infecção ginecológica, problemas de ereção… Mas por feminismo nunca vi. Alguém já viu?

Enfim. Acho que ser feminista não é bom ou ruim. Ser feminista é necessário.  Uma vez ouvi uma amiga dizer “a mulher que diz que nunca foi discriminada é apenas uma mulher muito distraída”. É simples assim. Não precisamos ir até o Oriente Médio. Não precisamos ir até tribos africanas. Não precisamos ir ao sertão do nordeste. Não precisamos ir até a periferia de São Paulo. Não precisamos sair dos nossos bairros.  O machismo que limita, que agride, que marginaliza, que ofende, que diminui, mora ao lado, dorme por perto.

E agora, quem poderá nos defender? O feminismo. O mesmo feminismo que nos tornou civilmente capazes e independentes perante a lei. O mesmo feminismo que nos possibilitou votarmos e sermos votadas. O mesmo feminismo que segue lutando diariamente por uma sociedade mais justa para mulheres, homens, mães, pais, filhas, filhos, trabalhadoras e trabalhadores.

No século XIX, as brilhantes irmãs Brontë escreviam através de pseudônimos masculinos por saberem que suas obras não seriam aceitas na sociedade se soubessem que as autoras eram mulheres. Se não fosse o feminismo eu provavelmente também não estaria escrevendo aqui neste momento. Pelo menos não como Ruth.

Nós precisamos falar sobre feminismo. Com nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, grandes ou pequenos. É hora de falar sobre igualdade entre meninos e meninas. É hora de falar que meninas podem jogar bola e ter carrinhos e que meninos podem cuidar de bonecas. Quem não quer ter um filho feminista? Quem não quer que eles vivam num mundo de igualdade, no qual nem meninos nem meninas sejam massacrados pela truculência do machismo?

Nesse domingo, o tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Milhões de jovens tiveram que parar para pensar sobre isso. Que avanço lindo. Pensar é sempre o primeiro passo. Perceber que a questão existe, que o tema não é antiquado e que, infelizmente, as questões de gênero estão muito longe de serem superadas. A violência persiste, a discriminação no ambiente de trabalho persiste, a desigualdade salarial persiste, a discriminação com as tarefas domésticas persiste, as pequenas (e não menos graves) agressões machistas do dia a dia persistem. Então a luta tem que persistir.

O feminismo não é de esquerda nem de direita. Não é só para mulheres nem é só para homens. Não é ameaça. Não é um estranho. Mas perceba que quando você trata os feministas na terceira pessoa do plural, excluindo-se deste rol, você está afirmando não fazer parte do grupo que prega a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Pense bem de que lado você quer estar.

Se você percebeu que é feminista, fique tranquilo. Nós não contaremos para ninguém. Mas, sabe? Se eu fosse você, eu sairia contando para todo mundo. Porque ser feminista é lindo, é importante, é sinal da inteligência e da decência de qualquer ser humano. Como diz o lindo livrinho da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (leiam, ele é pequenino e indispensável): Sejamos todos feministas. E o mundo será melhor a cada dia. Pode apostar.”

Ruth Manus


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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Carta de José Pacheco a Nise da Silveira - 2013



*Mensagem recebida pelo Whatsapp
Em tempos de angústias, incertezas e ebulição de sentimentos que transitam entre o amor e o ódio, vem os eflúvios da transformação. O texto abaixo me foi enviado pelo amigo e grande artista Marcio Cunha.

Carta de José Pacheco, nosso maior educador vivo, a Nise da Silveira, escrita em 2013 e publicada no livro "Aprender em Comunidade", do Professor José Pacheco. Uma profecia poderosa. (Rio de Janeiro, Setembro de 2013).

"Querida Nise,
dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão guetizados: os loucos em hospícios, as crianças nas escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola. Mas a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconheceste genialidade, deram origem a um belo museu, são prova de que nem tudo está perdido. Há alguns dias atrás, estive no teu Engenho de Dentro, na boa companhia do Vítor e do Ney Matogrosso. O Hotel da Loucura vai provando ser possível, em imprevistos e improváveis lugares, retomar o rumo perdido da humanização, concretizar a utopia.
No discurso sobre educação, a palavra utopia é, geralmente, sinônima de impossibilidade. Porém, utópico será algo que indica uma direção, que requer intencionalidade e ação. Como diria Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las”. Concretizar utopias – recriar vínculos, rever e re-olhar, reelaborar as práticas – reconfigura a metáfora do Mito de Sísifo, o “inédito viável” freiriano. A nova educação, que emerge do sonho de todos nós, deverá formar o cidadão democrático e participativo, sensível e solidário, fraterno e amoroso, o ser humano dotado de educação integral.
Todas as teorias estão escritas. Todas as experimentações, reformas e modas já foram ensaiadas. Por isso, importa renovar a denúncia da guetização da juventude, a par com o anúncio da possibilidade de uma aprendizagem participativa e transformadora. Nunca será demasiada a afirmação da possibilidade de uma escola na qual os aprendizes aprendam a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”.
O que se aprende dentro de um edifício escolar, que não possa ser aprendido fora dos seus muros? O espaço de aprender é todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, é a vizinhança fraterna.
Pois é, querida Nise, por todo o Brasil surgem o que poderei chamar protótipos de comunidades de aprendizagem, a partir da escola, embora elas possam ter outras origens. Refiro-me a práticas de eco-sustentabilidade, de estímulo ao espírito inventivo e criação de soluções novas, baseadas no princípio ético que nos diz que tudo o que for inovado o deva ser para benefício coletivo.
O modelo escolar não é o único modelo de educação e a educação deverá ser pensada mais a partir das comunidades que serve, do que a partir da instituição, de modo a que os processos de aprendizagem tenham um papel transformador nas sociedades. A escola é o equipamento social mais abundante, uma das maiores conquistas do povo, numa área de escassos quilômetros quadrados, encontraremos meia dúzia de escolas e apenas um hospital. Mas as comunidades de aprendizagem não dependem da existência de um prédio escolar (a “pedagogia predial”, como o Lauro ironizava) e sim da utilização de prédios e espaços da comunidade, nos quais, os estudantes possam, junto à comunidade, aprender e exercer cidadania, desfrutando de seus direitos ou realizando seus deveres, para o bem de toda a comunidade. Que a escola não seja somente interface com a realidade, mas espaço onde ocorrem atos contributivos do desfazer do abismo entre a realidade escolar e outras realidades.
Tampouco a aprendizagem depende apenas do professor, pois é necessária uma tribo inteira para educar uma criança. Ainda há quem pense que basta decorar matéria e vomitá-la numa prova, sem perceber que a maior parte dos conteúdos supostamente aprendidos (segundo pesquisas recentes) se esvai da memória, alguns meses após a prova. Aliás, uma prova quase nada prova. E na sigla IDEB (por seres pessoa sábia, não irias entender, se eu tentasse explicar o que seja...), que tanto preocupa professores, escolas e secretarias, e faz submeter os pobres alunos a simulados e intensos treinamentos, as letras ID não significam (como pretendem alguns) “índice de desenvolvimento”, mas “índice de decoreba”. Creio que esses loucos não diagnosticados não terão lido Paulo Freire na universidade. No seu curso de formação, talvez nenhum dos seus professores lhes tenham dito que ninguém educa ninguém, como tão pouco ninguém educa a si mesmo, e que os homens se educam em comunhão, mediados pelo mundo.
Urge rever os conceitos de espaço e tempo de aprendizagem, para que os “paidagogos” não mais conduzam as crianças da comunidade para a escola, mas as libertem da reclusão num gueto escolar e as devolvam à comunidade, na qual a escola constitui um nodo de uma rede de aprendizagem colaborativa. As escolas poderão constituir-se em espaços de cultura, lugares onde os saberes eruditos se casam com os saberes populares, onde a transformação acontece na partilha de conhecimento produzido. Crianças, jovens e adultos poderão utilizar essas escolas, sempre que desejarem, ou precisarem. Sem necessidade de entrar na escola no horário-padrão de aula, ou ter “falta” por chegar atrasado. Sem necessidade de perua e ônibus (como já nos avisava o Anísio, há décadas atrás), sem departamentos de “transporte escolar”, onde se esgotam recursos (em funcionários administrativos, motoristas, seguranças, manutenção, combustível, quando não se constitui em ninhos de corruptos e máfias...), se força a criança a acordar de madrugada e penar longas viagens, para ouvir algumas horas de aula, onde quase nada aprende e através das quais, começa a colaborar com a desertificação das comunidades, que deveria ajudar a desenvolver.
Isso expliquei, em pormenor, a muitos políticos e a gente que se diz professor. Disse-lhes que um novo modelo de educação não pode alicerçar-se no velho e que àquilo que é novo não devem ser aplicados raciocínios dedutivos. Nada adiantou, querida Nise. A loucura benévola daqueles que estão no Engenho de Dentro em nada se compara à loucura daqueles que, fora do hospício, insistem em manter um sistema falido, gerador de ignorância e infelicidade. Estes são os loucos de que nos falava Einstein. Vão delapidando o erário público em projetos, pactos, programas, capacitações, consultorias, assessorias e outras inutilidades. A última pesquisa dada a conhecer aponta como dado que o desperdício anual é de cerca de 56 bilhões de reais. É, ou não é uma loucura?
Quero crer, amiga Nise, que, depois de tempos sombrios, há de despontar a claridade que ponha fim à loucura. Que terá chegado o tempo de, à semelhança do Jung, o Brasil te encontrar."


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