Mostrando postagens com marcador Delfim Netto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Delfim Netto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

1968 É HOJE

Por Celso Lungaretti


Qualquer semelhança...
Tentando "entender os movimentos dos  indignados  americanos e da ocupação de Wall Street", Delfim Netto, no artigo Origem da Crise, alinhou fatos que nos fazem, isto sim, perceber como o capitalismo agoniza (embora não possamos prever quanto tempo durarão seus estertores, nem quais malefícios ainda nos acarretará nesta sua agonia final):
  1. A renda per capita não cresce desde 1996;
  2. A distribuição dessa renda tem piorado há duas décadas;
  3. O nível de desemprego em abril de 2008 era de 4,8% da população economicamente ativa, o que, em parte, compensava aqueles efeitos;
  4. Em janeiro de 2010, o desemprego andava em torno de 10,6% e, desde então, permanece quase igual (9,2%);
  5. O colapso da Bolsa cortou pelo menos 40% da riqueza que os agentes  pensavam  que possuíam;
  6. A combinação da queda da Bolsa com a queda do valor dos imóveis residenciais fez boa parte do patrimônio das famílias evaporar-se;
  7. Ao menos 25% das famílias têm hoje menos da metade que  supunham  ter em 2008.
...não é mera coincidência.
Singelamente, o antigo serviçal de ditadores avalia:
"O grande problema é que a maioria dos cidadãos não entende como isso pode ter acontecido. Sentem que foram assaltados à luz do dia, sob os olhos complacentes das instituições em que confiavam: o poder Executivo e o Banco Central. Assistem confusos o comportamento do Legislativo".
Não chega à conclusão óbvia: os cidadãos foram mesmo assaltados à luz do dia, explorados, espoliados,  depenados, saqueados, esbulhados, manipulados, engambelados, logrados, iludidos -- f..., enfim.

Com sua distorcida visão de mundo, Delfim também passa longe de outra conclusão óbvia: a de que as vítimas do capitalismo estão finalmente começando a despertar de sua letargia, sob os golpes de recessões desnecessárias (sofrendo privações para pagar a conta de situações causadas em grande parte pela ganância desmedida dos bancos, os quais são magnanimamente socorridos pelos governos) e das ameaças que sabem estar sendo incumbadas para a própria sobrevivência de seus filhos e netos.

Não, segundo Delfim são apenas "pequenos grupos mais exaltados tentam reviver, com passeatas festivas de fim de semana, o espírito  revolucionário  de 1968, que deu no que deu".

Prefiro me fiar nos pensadores comprometidos com a felicidade do ser humano, como Karl Marx, para quem a nova onda revolucionária começa sempre no ponto mais alto atingido pela anterior.

É exatamente o que está ocorrendo agora, com grande chance de ser aquela que varrerá o mundo, livrando-nos de uma vez por todas da exploração do homem pelo homem e todas as iniquidades decorrentes.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PARA A "FOLHA", OURO DE TOLO É VITÓRIA DA SOCIEDADE

Bookmark and Share
Em 2009 a "Folha" tentou envolver Dilma
num sequestro que não houve, além 
de usar como ilustração uma ficha 
falsa que encontrou na web.

Simancol é o que mais falta para o jornal da  ditabranda: mancheteia triunfalmente a obtenção do que queria usar durante a campanha eleitoral e agora não lhe servirá de quase nada.

Foi garimpar, só encontrou ouro de tolo e ainda tenta apresentá-lo como uma "vitória da sociedade". Me engana que eu gosto.

Finda a eleição presidencial, o Superior Tribunal Militar, como Deus e o mundo sabiam que faria, liberou para a Folha de S. Paulo o processo a que Dilma Rousseff respondeu durante a última ditadura, quando foi presa como dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares e barbaramente torturada.

A decisão foi tomada nesta 3ª feira (16/11), por 10 votos a 1.

Ou seja, nada mais houve do que o cumprimento integral da determinação do presidente do STM, Carlos Alberto Soares: evitar que desse processo falacioso e arbitrário, sem valor jurídico nenhum, fosse extraída munição propagandística contra a candidata em campanha.

Pois só os bem informados sabem serem totalmente inconfiáveis as conclusões dos Inquéritos Policiais Militares da ditadura, contaminados pela prática generalizada da tortura, bem como as sentenças dos julgamentos de cartas marcadas que eram encenados em auditorias militares, com gritante cerceamento do direito de defesa.

Para a maioria da população, poderia passar por verdade o que nada mais era do que a versão forjada pelos déspotas a respeito dos resistentes que, heroicamente, os combatiam. Daí a inconveniência de tal assunto ser escarafunchado em meio ao tiroteio eleitoral.

Após o pleito, com ou sem a ação da Folha, os documentos seriam mesmo liberados.

Não adiantou o jornal espernear no STM e até no STF: não conseguiu acesso em tempo hábil e ficou impossibilitado de produzir algum factóide eleitoeiro.
Da próxima vez, que vá atrás das informações no momento certo e seguindo suas próprias pistas, ao invés de correr atrás das revelações alheias -- no caso, a matéria de capa da revista Época sobre Dilma, que foi de onde a Folha tirou a informação de que o processo da VAR-Palmares estava temporariamente indisponível.

Agora, para justificar a  batalha de Itararé  que fingiu estar travando, será obrigada a soltar alguma reportagem baseada no processo de Dilma.

Pela qualidade atual do jornalismo da Folha, canto a bola desde já: vai ser imensamente inferior à da Época.

Mas ninguém se surpreenderá, pois vexame é prato de todo dia na espelunca da alameda Barão de Limeira...

Para quem quiser conhecer os detalhes desta comédia de erros (mais uma!), eis o passo a passo:
E vale a pena ler de novo outro tiro pela culatra da Folha contra Dilma, em abril/2009, quando o jornal saiu com a credibilidade em frangalhos:

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DISSECANDO A PROPAGANDA ENGANOSA DOS SITES FASCISTAS


Há vários anos o Ternuma e demais sites fascistas mantém no ar um artigo propagandístico e falacioso intitulado O Fracassado Sequestro do Cônsul dos EUA, transcrição provavelmente literal de um daqueles famigerados Inquéritos Policiais Militares da ditadura de 1964/85, que hoje são considerados mero entulho autoritário: por estarem contaminados pela prática generalizada da tortura, não têm valor nem em termos legais, nem como documentação histórica.

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos e o Ministério Público Federal têm sido extremamente omissos ao não tomarem providências para evitar que a memória dos resistentes mortos e a dignidade dos vivos continuem sendo atingidas pelas calúnias, injúrias e difamações assacadas pelas viúvas da ditadura.

A internet tem esse poder de concretizar o sonho de Goebbels: martelar tanto uma mentira que ela acaba passando por verdade.

Assim, p. ex., um dos ícones da extrema-direita, Olavo de Carvalho, atacou-me em 2007 com uma catalinária ridícula, não só na argumentação, como na informação.

Incompetente até para colher dados nas buscas virtuais, ele supôs que eu fosse ex-prefeito de Jacupiranga (!) e proprietário da Geração Editorial (!!). Veiculou amplamente seu samba do olavo doido, que pipocou em toda a mídia fascista.

Minha réplica foi tão contundente que ele, assustado, deu continuidade à polêmica unicamente no Diário do Comércio (SP). Nem no seu próprio site postou mais.

Resultado: houve três artigos de cada lado e, como eu resumi no título do texto final, o OC entrou como leão e saiu como cão, inapelavelmente derrotado. Se alguém duvidar, pode ler todas as peças aqui.

Pois bem, até hoje os fascistinhas aprendizes escrevem que o OC detonou o ex-prefeito de Jacupiranga, ignorando totalmente a existência dos cinco outros artigos desse debate.

Noutro arremedo de ataque, um milico de pijamas me qualificou de "capanga do Lamarca". Quem conhece os fatos da minha militância sabe que nada estaria mais distante da realidade, mas o rótulo continua sendo utilizado pela maioria dos direitistas que tentam depreciar meu trabalho. E por aí vai.

A VERSÃO E O FATO

Voltando ao panfleto sobre o sequestro fracassado, um desses fascistinhas virtuais o colou há duas semanas, na íntegra, numa comunidade de esquerda do Orkut, a Ditadura Militar. Acabei participando da discussão, até para deixar registrada a enorme diferença que há entre o fato e a versão.

Eis a versão:
"Confiantes no sucesso do seqüestro, a UC solicitou ao CN que elaborasse, antecipadamente, um comunicado que seria entregue às autoridades logo após a ação. Juarez Guimarães de Brito (...) incumbiu o responsável pelo Setor de Inteligência, Celso Lungaretti (...), de redigir o 'Comunicado Número Um', documento que veio a se tornar um libelo irretorquível contra as sandices comunistas:

"'O Cônsul norte-americano em Porto Alegre (Curtis Cutter) foi seqüestrado às ... horas do dia ... de Março pelo Comando 'Carlos Marighella' da Vanguarda Popular Revolucionária. Esse indivíduo, ao ser interrogado, confessou suas ligações com a CIA, Agência Central de Inteligência, órgão de espionagem internacional dos Estados Unidos e revelou vários dados sobre a atuação da CIA no território nacional e sobre as relações dessa agência com os órgãos de repressão da ditadura militar. Ficamos sabendo, entre outras coisas, que a CIA trabalha em estreita ligação com o CENIMAR, fornecendo inclusive orientação a esse último órgão, sobre os métodos de tortura mais eficazes a serem aplicados nos prisioneiros. A CIA e o CENIMAR sofrem a concorrência do SNI, sendo que essa rivalidade é tão acentuada que em certa data um agente da CIA foi assassinado na Guanabara por elementos do SNI. Esse informe foi cuidadosamente abafado pela ditadura, mas o depoimento do Agente Cutter, nosso atual prisioneiro, permitiu que o trouxéssemos a público'."
Eis o fato, conforme o relatei no Orkut:
"Minha única participação nesse caso foi ter escrito, a pedido do Juarez Guimarães de Brito, o texto de um comunicado que a VPR deixaria no local do sequestro, explicando que precisava recorrer a esse expediente para libertar militantes que estavam sendo barbaramente torturados e corriam sério risco de ser assassinados nos cárceres da ditadura.

"Nunca soube quem era o alvo, nem o estado em que se daria a ação. Apenas me informaram que abortou, porque um dos comandantes operacionais não conseguira organizar corretamente a apropriação de um veículo que seria necessário.

"O Ladislau Dowbor e a Maria do Carmo Brito se queixaram de que mais valia ter comprado o veículo e realizado a ação..."
FOLHETINS MALUCOS

E completei:
"Este é um dos muitos casos em que os inquéritos militares distorceram totalmente a verdade. Quem é torturado tende a falar aquilo que os torturadores mostram estar querendo ouvir. Então, os IPMs da ditadura parecem ficção barata. Em ações realizadas por cinco companheiros, eles inculpam dez, e assim por diante.

"Outra falácia a meu respeito é que eu teria sido jurado de um tribunal revolucionário. Nunca participei de nenhum, nem soube que a VPR houvesse realizado algum durante meu tempo efetivo de militância (de abril/1969 a abril/1970, quando fui preso).

"Ou seja, em cima desses IPMs fantasiosos, os sites fascistas produzem verdadeiros folhetins malucos.

"Fica claro, ainda, que eles estão de posse de muitos arquivos da repressão que deveriam ter sido entregues ao Estado brasileiro."
Companheiros da comunidade Ditadura Militar chegaram a colocar em dúvida a própria existência do plano de sequestro, por só terem ouvido falar nele a partir de relatos do inimigo.

Discordei, mesmo porque não considero o plano, em si, algo de que devamos nos envergonhar, muito pelo contrário, nas circunstâncias de um regime de exceção como o que havia no Brasil em 1970:
"Tínhamos companheiros para libertar e eu jamais deixarei de defender que, para salvar a vida e preservar a integridade física de revolucionários, era/é aceitável sequestrarem-se diplomatas.

"Mas, o problema são as informações inconfiáveis dos inquéritos militares, (...) que serviam como instrumento de guerra psicológica para o regime.

"Caso do tal comunicado sobre o interrogatório do cônsul. Afirmo enfaticamente que, não só não foi redigido por mim, como tenho a absoluta certeza de que não foi redigido por companheiro nenhum.

"A VPR jamais emitia comunicados falseando a realidade. Não fazia parte da nossa cultura e de nossos valores. Acreditávamos em conquistar o respeito das massas exatamente falando a verdade, enquanto os inimigos mentiam."
E não seria mais simples negar a existência de factóides como esse, já que não passou de um sequestro-que-não-houve, igual ao do Delfim Netto pela VAR-Palmares?
"...a minha posição é de que a verdade, ainda mais depois de tanto tempo (quatro décadas!), deva ser inteiramente revelada. Sou a favor da absoluta transparência. Revolucionário não esconde o que faz, nem faz o que depois não pode assumir.

"Se o que fizemos era justificável (como neste caso), devemos assumir e justificar.

"Se erramos, devemos fazer autocrítica, ainda que tardia.

"Mas não ocultarmos episódios debaixo do tapete. Quem procede assim é a direita. Nós temos obrigação de sermos mais honestos e dignos do que eles".

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"FOLHA". NÃO DÁ PRA NÃO VOMITAR

Assim um jornal do Grupo Folha coonestou a farsa com que a repressão encobriu a execução do "Bacuri", após terrível calvário.

Durante as trevas ditatoriais no Brasil, um oficial de alto escalão certa vez se queixou de que um jornal carioca estaria movendo guerra psicológica adversa contra o regime.

Motivo? É que o matutino montara uma página só com tragédias e catástrofes ocorridas no mundo inteiro, tendo no centro a notícia e foto de uma entrega de espadins aos calouros de uma academia militar.

O gorila avaliou que a imagem de fardados sorridentes, cercada de sofrimento por todos os lados, seria uma maneira subliminar de colocar os leitores contra os milicos, burlando a censura.

Nas minhas (posteriores) décadas de atuação jornalística, perceberia que, si non è vero, è bene trovato: o mero maquiavelismo é muito mais frequente na imprensa do que a mera coincidência.

Um exemplo conspícuo é a capa da Folha de S. Paulo deste domingo (21), tendo como manchete "Dilma faz defesa do estado forte e prega estabilidade" e destacando, na chamada de uma retranca secundária, que "Ministra diz ter feito no exterior treinos militares".

Gato escaldado, o jornal evita sugerir outra vez que um eventual governo de Dilma Rousseff criaria uma infinidade de novas estatais. Sua credibilidade cairá ainda mais se continuar recebendo cala-bocas irrefutáveis.

Mas, não desistiu de insinuar que Dilma é uma estatizante compulsiva, ao colocar em primeiríssimo lugar um tema que, na própria notícia a que a manchete remete, só aparece na metade final:
"Dilma, porém, reafirmou a proposta de fortalecimento do Estado, citada por Lula em sua fala, quando disse à ministra: 'Isso é bom Dilma, não é ruim', ao lembrar que a oposição a acusa de ser estatizante. 'Continuaremos a valorizar o servidor e o serviço público, reconstituindo o Estado, recompondo sua capacidade de planejar, gerir e induzir o desenvolvimento do país', afirmou ela.

"Ao defender o Estado, Dilma disse que o desastre da crise econômica mundial não foi maior no Brasil porque os 'brasileiros resistiram a esse desmonte e conseguiram impedir a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica ou de Furnas', momento em que foi aplaudida".
Percebe-se, claro, que Dilma escolhe cuidadosamente as palavras, para não indispor-se nem com os estatizantes encontrados em suas fileiras, nem com os devotos do deus-mercado existentes fora delas. Políticos são assim mesmo, navegam nas águas da ambiguidade.

Mas, a insistência da Folha em afixar-lhe tal etiqueta já beira o ridículo. Onde cabem pelo menos duas interpretações, trombeteia sempre aquela que maior prejuízo causará à campanha presidencial de Dilma.

Idem, a obsessão em apresentá-la como uma sanguinária ex-guerrilheira, o que verdadeiramente não foi.

Militou na resistência à ditadura de 1964/85, mas como organizadora e dirigente, não como integrante das unidades de ação armada. Por mais que tente, a direita ainda não conseguiu prova nenhuma de que Dilma haja participado pessoalmente de sequestros, expropriações, etc.

Ademais, em nações submetidas a governos despóticos, todo cidadão tem o direito de resistir à tirania, pelos meios possíveis. A partir do AI-5, o único meio possível no Brasil ficou sendo a luta armada.

Assim como nos países europeus submetidos ao jugo nazista. O que poderia fazer a Resistência Francesa, além do que fez? Entregar flores aos carrascos de Hitler?

Canso de afirmar que a ninguém ocorre, na França, apresentar os heróis e mártires da Resistência como autores de crimes comuns, embora suas ações tenham sido indiscutivelmente mais violentas do que as praticadas pelo Colina, VPR e VAR-Palmares (as organizações nas quais Dilma militou).

O jornal, entretanto, faz questão de sintonizar-se com a pregação totalitária das viúvas da ditadura.

Como se fosse um Ternuma qualquer, falseia a História para, panfletariamente, associar a Dilma uma imagem de violência. Chegou ao cúmulo de tentar envolvê-la, forçando a barra ao extremo, com um plano de sequestro que nunca saiu do papel nem era atribuição dela.

E, da mesma forma que os sites fascistas, a Folha apresenta esses episódios sem contextualização. P. ex., para quem conhece o festival de horrores desencadeado pela assinatura do AI-5, que deu sinal verde para a repressão política barbarizar e assassinar à vontade, não causa surpresa nenhuma que os movimentos de resistência pretendessem sequestrar o ministro Delfim Netto.

Como signatário do nefando ato, Delfim escolheu ser alvo das ações dos resistentes. Que, no caso, estavam longe de ser drásticas. Pretendia-se apenas trocá-lo por presos políticos que sofriam torturas terríveis nos porões da ditadura, podendo ser executados a qualquer momento.

Dilma, dignamente, jamais negou sua responsabilidade política pelo que fizeram ou planejaram as organizações em que militava.

Mas, isto é pouco para a propaganda enganosa da extrema-direita. Esta quer porque quer plantar a imagem de que Dilma apertava gatilhos e acendia pavios. Daí inundar a internet com fichas policiais falsas, como a que a Folha entusiasticamente reproduziu, num dos maiores vexames jornalísticos de seus 89 anos de história.

Agora, do enorme perfil que o jornal apresenta de Dilma, repleto de trechos mais interessantes, o que destaca na primeira página é o fato de ela ter feito um treinamento militar básico no Uruguai.

Novamente, cabe a pergunta: o que deveríamos fazer, nós que enfrentávamos os efetivos altamente treinados da repressão política e seu poder de fogo infinitamente superior? Nem aprendermos a nos defender com um mínimo de competência nós podíamos? É como sacos de pancada que o Grupo Folha nos queria?

Na verdade, sim. Tanto que, no momento dos acontecimentos, disponibilizava veículos para o DOI-Codi, enquanto lhe dava sustentação política em seus jornais.

domingo, 26 de abril de 2009

Folha admite mais erros crassos na reportagem sobre sequestro do Delfim

A Folha de S. Paulo admitiu na edição de sábado (25) ter cometido dois erros ao ilustrar a reportagem Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Neto com o que seria uma ficha policial de Dilma Rousseff dos tempos da ditadura:

"O primeiro erro foi afirmar na primeira página que a origem da ficha era o 'arquivo [do] Dops'. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada - bem como não pode ser descartada".

Em carta que enviou nos últimos dias ao ombudsman da Folha, Dilma protesta que o título da matéria não tenha levado em conta sua "veemente negativa". E completou: "[a reportagem] tem características de 'factóide', uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha".

Dilma disse que, suspeitando da autenticidade da ficha, tentou rastrear sua origem:

"Solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 5.abr.2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S. Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação".

Dilma concluiu que seja uma falsificação. E, vindo ao encontro do que eu já dissera, acrescentou: "Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br, atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa".

A Folha afiança a afirmação da ministra da Casa Civil: "Dilma integrou organizações de oposição aos governos militares, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. A ministra não participou, no entanto, das ações descritas na ficha".

O jornal, que reconhece ser a ficha "originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte", foi verificar se algo semelhante constava do acervo do antigo Dops, com resultado negativo:

"Essa ficha não existe no acervo", diz o coordenador do arquivo, Carlos de Almeida Prado Bacellar. "Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece".

A Folha apurou também que os indícios apontam na direção de que as viúvas da ditadura seriam responsáveis pela difusão do documento:

"O Grupo Inconfidência, de Minas Gerais, mantém no ar uma reprodução da ficha. A entidade reúne militares e civis que defendem o regime instaurado em 1964. Seu criador, o tenente-coronel reformado do Exército Carlos Claudio Miguez, afirma que a ficha está circulando na internet há mais de ano."

O jornal também confirmou uma afirmação que faço há anos: a de que os antigos torturadores conservaram consigo parte da documentação das investigações da repressão e o utilizam para montar textos falaciosos denegrindo quem participou da resistência ao regime militar. Diz a Folha: "Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados".

Quem lê o blogue Náufrago da Utopia, não precisou esperar tanto tempo pelo esclarecimento do episódio. Já no sábado passado (18) eu matara praticamente toda a charada ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/04/novela-policial-o-caso-da-ficha.html ):

Na verdade, essa ficha circula na internet desde a segunda quinzena de novembro, amplamente postada, publicada e repassada pelos antipetistas.

No dia 20/11/2008, publiquei aqui neste blogue o artigo Ficha da ditadura é munição para ataque virtual a Dilma Roussef ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/11/ficha-da-ditadura-munio-para-ataque.html ) que foi reproduzido até no site de campanha da própria Dilma. Esclareci que pelo menos quatro das acusações feitas a ela eram falsas, pois tinham sido ações da VPR, à qual Dilma nunca pertenceu; sobre as demais eu não tinha elementos para opinar.

Enfim, não é nos arquivos policiais que tem de ser buscada essa ficha, mas sim nas redes de extrema-direita que atuam na web. Se chegar-se a quem a colocou em circulação, poderá se saber de onde saiu.

Não é necessariamente falsificada. Pode ser uma ficha operacional que não deixaram no arquivo exatamente por estar recheada de erros crassos.

Mas que teria permanecido nas mãos dos antigos torturadores, os quais hoje utilizam esse entulho ditatorial para redigir as peças de propaganda enganosa dos sites ultradireitistas. Depois, os discípulos os pulverizam nas redes de e-mails.

Então, se o Governo ou a Folha quiserem mesmo rastrear a origem dessa infâmia, não precisarão ir muito longe.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O DIA A DIA DE QUEM RESISTIA À DITADURA

Mesmo nos tempos em que o Paulo Francis ainda era o principal jornalista de esquerda brasileiro, ele se referia à seção de cartas dos jornais como “muro das lamentações”.

É que, apesar da censura e das intimidações, os jornalistas de esquerda acabavam quase sempre encontrando brechas para ocupar tribunas importantes.

Vez por outra, seus textos não eram apenas desfigurados, mas inteiramente vetados pelos censores. Vez por outra, passavam dias, até semanas, presos.

Mas continuavam presentes e ativos, ora falando as coisas com mais clareza, ora usando sua imensa criatividade para passar mensagens cifradas aos leitores. [Alberto Dines que o diga: seu Jornal dos Jornais era uma aula semanal de resistência jornalística ao despotismo...]

Então, as seções de cartas só serviam mesmo para o leitor comum chorar suas mágoas. Os jornalistas de verdade as desdenhavam.

Hoje, a imprensa brasileira consegue ser pior ainda do que nos tempos da ditadura: baniu quase por completo os jornalistas de esquerda. Fez o que os militares sonharam e não conseguiram, tornar os jornais e revistas importantes veículos de uma mão só, que noticiam e destacam o que convém aos interesses dominantes, relegando as verdades indigestas a notinhas de pé-de-página ou as ignorando por completo.

Um exemplo prosaico, dentre centenas que eu poderia citar. Alguém tomou conhecimento de que “a Comissão Nacional de Estudos Constitucionais do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil aprovou, por maioria de votos, parecer do constitucionalista José Afonso da Silva, que considerou legal a decisão tomada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder ao italiano Cesare Battisti a condição de refugiado político”?

É notícia recente, do último dia 7. Está no site da OAB e um ou outro serviço de notícias jurídicas. Mais nada. A grande imprensa a escondeu dos seus leitores, assim como lhe daria grande destaque se a Ordem tivesse impugnado a decisão soberana de Tarso Genro. Dois pesos, duas medidas. Sempre.

A PESTILÊNCIA E O RESPIRADOURO - Então, hoje a seção de cartas dos jornais passou a ser freqüentada por jornalistas e cidadãos renomados que, nem por isso, conseguem espaço mais destacado para manifestar sua discordância das falácias praticadas pelos veículos de comunicação.

De muro das lamentações, tornaram-se a último respiradouro da imprensa burguesa, uma lufada de ar puro em meio à pestilência por ela exalada.

É exatamente como as pessoas bem informadas e dignas receberão a vibrante mensagem de Adriana Tanese Nogueira no Painel do Leitor da edição de 09/04, sobre a desmoralizada reportagem com a qual a Folha de S. Paulo tentou envolver Dilma Rousseff com um seqüestro longínquo... e inexistente.

Grande Adriana, que é filha de um militante injustiçado pela VPR (esta história ela contará um dia) e, mesmo morando e trabalhando nos EUA, mantém viva a tradição familiar de engajamento nas causas justas!

Ela acertou na mosca ao dizer que a Folha repete “o mesmo discurso usado pela ditadura para justificar a violência institucionalizada” e que “banalizar a história é uma forma de servir a antigos senhores".

Mas, não é nem da carta de Adriana que eu quero mesmo falar aqui, mas sim da outra, a negativa, publicada logo abaixo.

Mensagem de um Carlos que não é Lamarca nem Marighella, capazes de dar a vida por seus ideais. De um Carlos que está mais para Lacerda, aquele que habita as lembranças das pessoas de bem como um corvo tramando em tempo integral contra a democracia.

É bem o leitor para quem a Folha direcionou seu exercício de manipulação de informações históricas do último domingo.

OS "BENEFÍCIOS" DOS ASSALTOS - Além de agradecer ao jornal por dar aos brasileiros “a noção exata de quem podem colocar para dirigir um país”, ele repetiu a cantinela habitual dos sites fascistas: “Quem se beneficiou do produto dos assaltos, sequestros, guerrilhas e assassinatos cometidos em nome da ideologia? Apenas eles, os ilegais, que hoje estão no poder...”.

Fiquemos por aqui, pois não quero provocar náuseas nos meus leitores.

Eu militei na VPR entre abril/1969 e abril/1970, quando fui preso pelo DOI-Codi/RJ, sofri torturas que me deixaram à beira de um enfarte aos 19 anos de idade e me causaram uma lesão permanente.

Nesse ano em que me beneficiei do produto dos assaltos praticados pelas organizações de resistência à tirania implantada pelos usurpadores do poder, como foi minha vida de nababo?

Na verdade, recebia o estritamente necessário para subsistir e manter a minha fachada de vendedor autônomo.

No início, fui obrigado a me abrigar em locais precaríssimos, como o porão de um cortiço na rua Tupi, próximo da atual estação do metrô Marechal Deodoro, na capital paulistana. Era só o que eu conseguia pagar com o produto dos assaltos.

Cada quarto era um cubículo mal ventilado. Enxames de pernilongos me atacavam durante o sono. Afastava-os com espirais que mantinha acesos durante a noite inteira... e me faziam sufocar.

O que mudou quando minha organização fez o maior assalto da esquerda brasileira em todos os tempos, apossando-se dos dólares da corrupção política guardados no cofre da ex-amante do governador Adhemar de Barros? Quase nada.

Era dinheiro para a revolução, não para gastos pessoais. Apesar de integrar o comando estadual de São Paulo e depois exercer papel semelhante no Rio de Janeiro, continuei levando existência das mais austeras.

Meu último abrigo foi o quarto alugado no amplo apartamento de uma velha senhora do Rio Comprido. Fazia tanto calor que eu era obrigado a dormir despido sobre o chão de ladrilhos, que amanhecia ensopado de suor.

Quando tinha de abandonar às pressas um desses abrigos, todos os meus bens cabiam numa mala de médio porte. Vinham-me à lembrança os versos de Brecht, “íamos pela luta de classes, desesperados/ trocando mais de países que de sapatos”.

Havia, sim, um dinheiro extra, que equivaleria a uns R$ 10 mil atuais. Mas, tratava-se do fundo a que recorreríamos caso ficássemos descontatados e tivéssemos de sobreviver ou deixar o país por nossos próprios meios, sem ajuda dos companheiros que já estariam presos ou mortos.

Nenhum de nós gastava essa grana, era ponto de honra. Os fundos de reserva acabaram chegando, intactos, às garras dos rapinantes que nos prendiam e matavam. Nunca prestaram conta disso, nem dos carros, das armas e até das peças de vestuário que nos tomaram.

E, mesmo que tivéssemos dinheiro para esbanjar, como o gastaríamos? Éramos procurados no país inteiro, com nossos nomes e fotos expostos em cartazes falaciosos.

Eu, que nunca fizera mal a uma mosca, aparecia nesses cartazes como “terrorista assassino, foragido depois de roubar e assassinar vários pais de família”. O Estado usava o dinheiro do contribuinte para me fazer acusações mentirosas e difamatórias!

Para manter as aparências, éramos obrigados a sair cedo e voltar no fim do dia. Os contatos com companheiros eram restritos ao tempo estritamente necessário para discutirmos os encaminhamentos em pauta; dificilmente chegavam a uma hora.

Sobravam longos intervalos, com nada para fazermos e a obrigação de ficarmos longe de situações perigosas. Tínhamos de procurar locais discretos, tentando passar despercebidos... por horas a fio. Sujeitos a, em qualquer momento, sermos surpreendidos por uma batida policial.

Vida amorosa? Dificílima. Cada momento que passássemos com uma companheira era um momento em que a estávamos colocando em perigo. Ninguém corria o risco de ir transar em hotéis, sempre visados (e nossa documentação era das mais precárias, passei uns oito meses tendo apenas um título eleitoral falsificado). E as facilidades atuais, como motéis, quase inexistiam.

Aos 18/19 anos, senti imensa atração por duas aliadas, uma em São Paulo e outra, meses mais tarde, no Rio de Janeiro. Com ambas, o sentimento era recíproco. E nos dois casos mal passamos dos beijos apaixonados com que nos cumprimentávamos e despedíamos. Qualquer coisa além disso seria perigosa demais.

Enfim, esta é a vida que levávamos, acordando a cada manhã sem sabermos se estaríamos vivos à noite, passando por freqüentes sustos e perigos, recebendo amiúde a notícia da perda de companheiros queridos (eu até relutava em abrir os jornais, tantas eram as vezes que só me traziam tristeza).

Sobreviver alguns meses já era digno de admiração. Ao completar um ano nessa vida, eu já me considerava (e era considerado pelos companheiros) um veterano. Caí logo em seguida.

Dos tolos que saem repetindo essas ignomínias marteladas dia e noite pela propaganda enganosa da direita, nem um milésimo seria capaz de encarar a barra que encaramos, não pelas motivações ridículas que nos atribuem, mas por não agüentarmos viver, e ver nosso povo vivendo, debaixo das botas dos tiranos!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

RESCALDO DE UM EPISÓDIO DE GROSSEIRAS MANIPULAÇÕES JORNALÍSTICAS

No Observatório da Imprensa, um leitor, dizendo-se funcionário público de Brasília, questionou o que lhe pareceu contraditório no meu artigo Por que tanto estardalhaço em torno de um sequestro que não ocorreu? ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/04/por-que-tanto-estardalhaco-em-torno-de.html ): minha afirmação de que nada havia de errado na escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro em 1969 e a crítica que fiz à Folha de S. Paulo por trombetear tal episódio.

Meu comentário de resposta me permitiu abordar um outro ângulo da questão: o imenso desconhecimento do que foi a ditadura brasileira e a dificuldade para transmitir tais informações ao grande público, já que a indústria cultural não colabora (muito pelo contrário!).

Então, só um público mais seletivo tem uma idéia aproximada da realidade do período. A maioria dos cidadãos fica à mercê da propaganda enganosa da extrema-direita.

Daí eu ter advertido desde o primeiro momento: ruim mesmo seria a utilização panfletária da reportagem da Folha por parte dos sites e correntes de e-mails fascistas. É o que Antonio Roberto Espinosa, em carta ao ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva, afirma estar ocorrendo.

Quanto aos próprios leitores do matutino, boa parte deles é capaz de perceber as manipulações grosseiras da reportagem e chegar a uma conclusão diametralmente oposta àquela que a Folha tentou plantar em sua cabeça.

Quando se fala que os resistentes assaltavam bancos e sequestravam diplomatas, o cidadão comum forma um juízo a partir das circunstâncias atuais. Ele não sabe que isto se passou sob um regime totalitário, nem a indústria cultural cumpre seu dever de inteirá-lo disto (pelo contrário, deturpa a verdade histórica, vendendo gato por lebre, ou seja, ditadura como ditabranda...).

Também ignora o que seja um movimento de resistência à tirania, como o que protagonizamos no Brasil e os que existiram em países submetidos ao nazifascismo.

ALIENAÇÃO E INFANTILIZAÇÃO - Já não existem tantas pessoas vivas que eram adultas nos anos de chumbo; e, menos ainda, que tivessem conhecimento do que acontecia mas não era noticiado por força da censura e das intimidações de todo tipo que a imprensa sofria (desde a prisão de jornalistas até os atentados que os terroristas do CCC cometiam, com a conivência do regime).

Além disto, há a tendência que os idosos têm de colorir as lembranças do passado, apenas porque eram ativos e vigorosos então; e, com avaliações distorcidas pelo saudosismo, eles informam muito mal as novas gerações.

Finalmente, não devemos esquecer que o cidadão comum brasileiro tem muita tolerância ao totalitarismo - tanto que consentiu em viver sob ditadura por mais de um terço do século passado. Há brasileiros que verdadeiramente apreciavam ser reduzidos à infantilização por um regime de força, assim como é frequente encontrarmos velhos italianos elogiando os tempos em que viviam debaixo das botas de Mussolini e "os trens chegavam sempre no horário"...

Devido a todos esses fatores, a pregação demagógica, simplista e falaciosa da extrema-direita é mais facilmente aceita pelos leigos do que a verdade dos historiadores e das pessoas familiarizadas com a jurisprudência internacional e os valores civilizados.

Então, o desserviço prestado pela Folha, magnificando um episódio sem nenhuma relevância jornalística, foi colar na imagem de Dilma Rousseff vários adjetivos que causam imenso mal se não forem compreendidos dentro do contexto dos anos de chumbo.

Quem sabe o que realmente acontecia, tende a concluir que Delfim Netto merecia mesmo ser sequestrado e trocado pelas vítimas de sua canetada infame ao assinar o AI-5, autorizando e coonestando todas as atrocidades cometidas pela repressão ditatorial.

Mas, para quem não tem o quadro real na cabeça e, pior, fiar-se nas informações da Folha, parecerá que Dilma era uma contraventora. E foi exatamente esta a intenção do jornal, imputando-lhe responsabilidade num projeto que, ao que tudo indica, estava sendo desenvolvido apenas pelo Antonio Roberto Espinosa e só seria submetido ao comando Nacional da VAR-Palmares mais tarde; e que, além disto, não saiu da prancheta.

FOLHA VENDE GATO POR LEBRE - Aliás, um erro crasso que não está sendo destacado nesta polêmica é o de que a reportagem da Folha sutilmente induziu os leitores a acreditarem que a escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro se explicaria por ele ser "símbolo do milagre econômico", o ministro da Fazenda "que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969". Ou seja, sugere-se que os guerrilheiros, malvados como eles só, estariam ressentidos com o boom econômico e seu alegado artífice.

A Folha omitiu, entretanto, que nem se falava em milagre brasileiro no ano de 1969. O PIB avançara 9,8% em 1968, mas o salário-mínimo tivera crescimento negativo de 24,78%! A política econômica da ditadura beneficiou, primeiramente, o grande capital; só depois, em 1970, é que as sobras chegaram até a classe média.

No período 1968/1973, mais da metade dos assalariados brasileiros recebia um salário-mínimo ou menos. E, enquanto o PIB cresceu 146,33% nesses seis anos, o salário-mínimo teve de se contentar com apenas 81,52%, pois o modelo era, acentuadamente, concentrador de renda.

O período foi marcado por um aumento dos acidentes de trabalho, conseqüência das horas extras e da maior intensidade produtiva; e até por um agravamento das condições de saúde da maioria da população brasileira, evidenciado, p. ex., no ressurgimento de epidemias como a meningite e no aumento das taxas de mortalidade infantil.

O certo é que, em 1969, nem sequer a classe média estava eufórica com o regime, pois não havia a percepção de uma melhora econômica significativa, depois de tantos anos de vacas magras. E Delfim não sustentava a (inexistente) popularidade dos generais. Tudo isso viria em 1970.

Já o aspecto que eu destaquei -- o de que Delfim era um alvo para sequestros por conta de sua condição de signatário do AI-5 --, isto ficou totalmente fora da reportagem da Folha, assim como nunca é lembrado nas discussões sobre a punição dos torturadores. Ao contrário do tribunal de Nuremberg, os brasileiros parecem dar mais importância aos executantes das atrocidades do que aos mandantes.

A Folha, inclusive, considera Delfim Netto digno de figurar no seu elenco de colunistas, o que equivale a um juízo de valor do jornal sobre ele -- e também serve como parâmetro para o nosso juízo de valor sobre a Folha.

Enfim, a matéria Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim não passou de uma forçação-de-barra, para reforçar os preconceitos dos desinformados e influir na sucessão presidencial.

INGENUIDADE CELESTIAL - Por último, Antonio Roberto Espinosa acaba de esclarecer, em entrevista concedida ao blog do Zé Dirceu, o que a repórter Fernanda Odilla lhe disse, para convencê-lo a falar três horas ao telefone e a dar informações complementares em telefonemas e e-mails, além de autorizá-la por escrito a acessar os arquivos do Superior Tribunal Militar a ele referentes.

Nos seus desmentidos indignados, Espinosa vinha repetindo o que já ficara evidenciado para qualquer leitor minimamente perspicaz: ajudou a Folha a reconstituir esse insignificante episódio histórico (um não-fato, como fui o primeiro a constatar), sem perceber que poderia ser superdimensionado e deturpado para servir como arma contra Dilma Rousseff.

Talvez até em resposta a meus insistentes pedidos, ele finalmente colocou a questão em pratos limpos:
- A desculpa usada pela repórter era que queria contar melhor a trajetória da VAR-Palmares. Disse que pretendia também esclarecer a participação da ministra Dilma na organização. Dispus-me a colaborar, pois acho que o público tem direito a todas as informações, sobretudo sobre um virtual candidato a presidente. Um dos assuntos tratados, evidentemente, foi a preparação do seqüestro de Delfim Netto, que eu, como comandante militar da VAR, conhecia; mas a atual ministra, não necessariamente, pois sua área de atuação era a política, não a armada.

Cheguei até a pensar que Espinosa fora iludido, concedendo a entrevista sem saber que Dilma teria papel destacado na reportagem decorrente. Mas, agora está explicado: ele acreditou que o jornal da ditabranda estava empenhado em resgatar com isenção e fidelidade a memória da luta armada, depois de ter colaborado com a repressão durante a ditadura e vir, desde então, invariavelmente apresentando de forma negativa e distorcida os resistentes que pegaram em armas...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"SÓ FALTOU A FOLHA DIZER: ELA É COMUNISTA E COME CRIANCINHA!"

Num primeiro momento, era importante posicionar-me energicamente contra a reportagem Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim (Folha de S. Paulo, 05/04/2009, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0504200906.htm ), alertando os companheiros de que se tratava de uma nova investida reacionária do jornal, de contornos bem semelhantes ao do episódio ditabranda.

Foi o que fiz, de bate-pronto, com meu artigo Por que tanto estardalhaço em torno de um sequestro que não ocorreu? ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/04/por-que-tanto-estardalhaco-em-torno-de.html ).

Agora, com mais vagar, cabe aprofundar um pouco a análise.

Quem ler com atenção a imensa reportagem da Folha, perceberá que seu propósito subjacente foi fixar dois conceitos, ambos muito desfavoráveis às pretensões eleitorais da ministra Dilma Rousseff:
  • que ela era uma guerrilheira, envolvida com ações atualmente vistas de forma negativa (sequestros);
  • que ela hoje tem como aliado político alguém que era seu inimigo, exatamente o alvo do sequestro.
Então, a Dilma militante é mostrada como alguém que "sabe montar e desmontar um fuzil de olhos fechados". E tem mais: "Na clandestinidade, seu grupo planeja uma das ações ousadas da luta armada em 1969 contra a ditadura militar: o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico e civil mais poderoso do governo federal".

A afirmação bombástica do 1º parágrafo só é relativizada no 5º, quando ficamos sabendo que Dilma e outros três comandantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares apenas "concordaram" com o plano de sequestrar Delfim Netto. Quem estava à frente desse projeto era o quinto comandante, Antonio Roberto Espinosa, exatamente a fonte principal da bombástica reportagem da Folha.

Ele "assumiu que coordenou o plano", contando à reportagem do jornal "segredos que diz não ter revelado sob tortura". E foram citadas declarações sintomáticas de Espinoza: "O grupo foi informado. Os cinco [ele, Dilma e os outros três dirigentes da VAR] sabiam", "o comando nacional sabia, não houve nenhum veto".

Ou seja, Espinoza acalentou a idéia de sequestrar Delfim Netto e fez alguns levantamentos. Informou o restante do comando da VAR-Palmares de sua intenção. Foi preso antes de qualquer tentativa concreta de concretizar seu propósito. Onde está a revelação estarrecedora que justifique o enorme destaque editorial dado a esse não-acontecimento de quatro décadas atrás?

Mais: por que acreditar tanto nas palavras de Espinoza e tão pouco nas de Dilma Rousseff? Afinal, inquirida sobre o tal sequestro, ela respondeu: "Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. (...) Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim".

Conheço bem os personagens e, mais ainda, o contexto em que travávamos a luta de resistência ao totalitarismo de estado implantado no Brasil. Espinoza foi quem me recrutou (juntamente com sete companheiros secundaristas) para a Vanguarda Popular Revolucionária.

E, de abril a outubro de 1969, ele fazia a ligação entre o Comando Nacional da organização e o comando estadual de São Paulo, ao qual eu pertencia. Só o perdi de vista quando ficamos em lados opostos no racha do Congresso de Teresópolis: eu na VPR reconstituída, ele na VAR.

Então, posso afirmar que ele estava sempre com um plano mirabolante desses na cabeça. Não duvido que tenha cientificado os quatro outros comandantes da VAR, mas algo assim só era discutido para valer no momento de ser colocado em prática. Aí, sim, os prós e contras eram minuciosamente avaliados. Antes, quando se tratava apenas de uma possibilidade dentre tantas outras, ninguém levava muito a sério.

As dificuldades eram imensas. Todas as organizações participantes da luta armada, no final de 1969, estavam debilitadas. Foi a fase em que se começaram a juntar vários partidos e organizações para efetuar ações armadas de maior porte, já que um só não dava mais conta do recado.

Então, era inimaginável, para nós, corrermos o risco de trocar tiros com uma escolta poderosa. Não podíamos nos dar ao luxo de perder mais combatentes. Uma ação dessas, na cabeça tanto dos dirigentes da VPR quanto dos da VAR, só se justificaria havendo uma boa chance de alcançar-se o objetivo sem baixas.

Segundo a reportagem da Folha, Delfim seria um "alvo fácil". É uma contradição com a proeminência que o jornal lhe atribui e uma afirmação dura de engolir: desde quando uma ditadura descura da segurança de seus ministros?

E, noutro trecho, diz-se que "Delfim contou à Folha que recebeu recomendações para redobrar o cuidado diante da onda de atentados promovida pela esquerda contra o regime". Quantas contradições numa reportagem só!

Ora, Espinoza não chegou a esse estágio, de reunir o comando e apresentar-lhe um roteiro de ação aceitável. Foi preso antes. Portanto, o tal sequestro do Delfim Netto não passou de um sonho de uma noite de verão, a exemplo de tantos outros que a guerrilha elocubrava sem ter como concretizar.

Além de Espinoza agora estar declarando, com indignação, que foi vítima de uma armadilha da Folha, salta aos olhos que o material reunido pelo jornal não é suficiente para atribuir a Dilma Rousseff uma real responsabilidade por esse plano que não saiu do papel.

Com a experiência de mais de três décadas de atuação jornalística, posso afirmar que, não havendo uma presidenciável na jogada, as pseudo-revelações de Espinoza teriam um destino certo: o cesto de lixo.

Há histórias muito mais significativas a serem contadas sobre a luta armada, mas à grande imprensa nunca interessou contá-las, porque delas o que sobressai é a bravura e o idealismo de quem travou uma luta tão desigual, contra um inimigo capaz das piores atrocidades.

Para quem quer fazer as novas gerações acreditarem que o regime militar nada mais era do que uma ditabranda, não convém trazer o fundamental do período à tona, mas, apenas, pinçar miudezas que sirvam a seus objetivos.

FOLHA CONFUNDE 1969 COM 1970 - E essa tendenciosidade perpassa toda a reportagem dominical da Folha.

P. ex., a escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro se explicaria por ele ser "símbolo do milagre econômico", o ministro da Fazenda "que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969". Ou seja, sugere-se que os guerrilheiros, malvados como eles só, estariam ressentidos com o boom econômico e seu alegado artífice.

A Folha omitiu, entretanto, que nem se falava em milagre brasileiro no ano de 1969. O PIB avançara 9,8% em 1968, mas o salário-mínimo tivera crescimento negativo de 24,78%! A política econômica da ditadura beneficiou, primeiramente, o grande capital; só depois, em 1970, é que as sobras chegaram até a classe média.

No período 1968/1973, mais da metade dos assalariados brasileiros recebia um salário-mínimo ou menos. E, enquanto o PIB cresceu 146,33% nesses seis anos, o salário-mínimo teve de se contentar com apenas 81,52%, pois o modelo era, acentuadamente, concentrador de renda.

O período foi marcado por um aumento dos acidentes de trabalho, conseqüência das horas extras e da maior intensidade produtiva; e até por um agravamento das condições de saúde da maioria da população brasileira, evidenciado, p. ex., no ressurgimento de epidemias como a meningite e no aumento das taxas de mortalidade infantil.

O certo é que, em 1969, nem sequer a classe média estava eufórica com o regime, pois não havia a percepção de uma melhora econômica significativa, depois de tantos anos de vacas magras. E Delfim não sustentava a (inexistente) popularidade dos generais. Tudo isso viria em 1970.

Já o aspecto que eu destaquei -- o de que Delfim era um alvo para sequestros por conta de sua condição de signatário do AI-5, o cheque em branco que a ditadura deu à linha dura militar para praticar todas as atrocidades --, isto ficou totalmente de fora da reportagem da Folha. Por que será?

Afora isto, Dilma é mostrada como a guerrilheira fútil que ia "cortar o cabelo no salão Jambert, que servia champanhe aos clientes"; como a responsável pela queda de quatro companheiros de organização (o que não tem nenhuma relevância em 2009!); e como a incumbida da distribuição do dinheiro da VAR (o que só interessa para quem quer propiciar insinuações malévolas, sem fazê-las diretamente).

E várias perguntas que lhe foram feitas pela repórter têm viés negativo, tipo "a sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?".

Vale registrar que Dilma respondeu com dignidade a essa indagação descabida: "Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. (...) As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão".

Mas, se a extrema-direita precisava de munição para suas campanhas difamatórias contra Dilma, agora tem de sobra. Suas candentes declarações sobre as torturas que ela e todos os militantes sofríamos serão obviamente omitidas, mas se trombeteará que a "terrorista" antes queria sequestrar o Delfim Netto e agora os dois hipócritas estão irmanados num mesmo projeto político.

Uma mensagem de leitor, publicada no Painel de 06/04/2009, atesta que a reportagem atingiu plenamente seus objetivos: "se meu filho fosse se casar com uma ex-guerrilheira que pretendia sequestrar alguém, mesmo que fosse por motivos ideológicos, eu não aprovaria de jeito nenhum".

Felizmente, ainda há quem não se deixe manipular. "Só faltou a Folha dizer: "Ela é comunista e come criancinha!", escreveu outro leitor, este perspicaz.

domingo, 5 de abril de 2009

POR QUE TANTO ESTARDALHAÇO EM TORNO DE UM SEQUESTRO QUE NÃO OCORREU?

A Folha de S. Paulo publica com grande alarde que a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares tramou, mas acabou não executando, o sequestro do ministro Delfim Netto no final de 1969 ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0504200906.htm ).

O plano teria entrado na ordem do dia após o racha que reconstituiu a Vanguarda Popular Revolucionária, no Congresso de Teresópolis. Era a ação espetacular com que a VAR contava provar que a saída dos principais quadros de origem militar não teria afetado a capacidade operacional de seus grupos táticos -- pois ficara, para o restante da esquerda, a impressão de que a VPR faria a guerrilha e a VAR se restringiria à atuação junto às massas.

José Raimundo da Costa (o Moisés, que passou à História como o último comandante da VPR) e eu fomos os iniciadores do racha e os mais alvejados pelas críticas do pessoal que ficaria na VAR. Então, teoricamente, nada tenho a ver com essa história. Ela se refere à organização com a qual eu havia rompido e que me endereçara pesadas acusações, como costuma ocorrer nas lutas internas.

Mesmo assim, faço questão de deixar registrado que era uma decisão corretíssima da VAR: por seu papel histórico como signatário do Ato Institucional nº 5, Delfim Netto merecia, sim, servir como moeda de troca para livrar companheiros da tortura e da morte nos cárceres da ditadura.

Pois foi o malfadado AI-5 que deu o sinal verde para a linha dura militar praticar todas as atrocidades do período mais totalitário da História brasileira. Tenho reiteradamente afirmado que, mais que dos próprios torturadores, a responsabilidade por aquele festival de horrores foi de quem retirou a coleira dos pitbulls.

De cães de ataque só se espera que ajam de acordo com sua natureza; quem lhes determina o alvo e os açula é sempre o maior culpado.

Delfim Netto sabia muito bem o que adviria da proibição de habeas corpus para os acusados de "subversão" e da possibilidade de mantê-los presos, incomunicáveis, durante 30 dias (prazo que acabaria sendo ultrapassado na prática, eu mesmo fiquei incomunicável por 75 dias).

Ele não era nenhum inocente útil, mas sim um culpado inútil, com a agravante de que tinha mais discernimento do que a maioria dos participantes daquela ignóbil reunião.

Quanto à Folha, o enorme e injustificável espaço que dedicou a essa Batalha de Itararé (um não-fato, já que o sequestro nem sequer foi tentado) se deve, unicamente, ao fato de que Dilma Rousseff era dirigente da VAR e conhecia o plano.

Evidentemente, forneceu munição para as sórdidas campanhas de difamação que os sites de extrema-direita desencadearão e as correntes de e-mails maximizarão.

Já vim a público denunciar que a ralé fascista espalhara na internet uma ficha policial da ditadura a respeito de Rousseff, com várias incorreções (atribuíam-lhe ações armadas praticadas por organização a que ela não pertencia).

Como daquela vez, reitero que, não sendo partidário da candidatura presidencial de Dilma nem tendo afinidade com ela, repudio com veemência o jogo sujo de quem exuma episódios do passado para servirem, preconceituosamente, como arma política no presente.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...