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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

REFLEXÕES SOBRE A 5ª INTERNACIONAL


Num encontro que reuniu, na semana passada em Caracas, representantes de partidos de esquerda de 40 paises da África, América Latina, Ásia, Europa e Oceania, foi aprovada a proposta do presidente venezuelano Hugo Chávez, de constituição da 5ª Internacional Socialista.

Segundo o jornalista Jacob Blinder, "Hugo Chávez sugeriu a Venezuela para ser sede dessa Internacional, que ela deveria vir acoplada com a criação de uma escola de formação de quadros, e que os participantes não deveriam apenas se ater a questões teóricas – mas sim partirem para ações práticas de construir (ou reconstruir) o socialismo no mundo e para que ele tenha vigência no Século XXI".

Para melhor situarmos a iniciativa de Chávez, vale uma recapitulação história.

A 1ª Internacional Socialista foi criada em 1864 por sindicalistas ingleses, proudhonistas franceses, republicanos italianos e marxistas alemães, tendo sido marcada por agudas divergências entre Karl Marx e o anarquista Mikhail Bakunin.

O primeiro defendia um modelo mais centralizador, com um comitê central procurando calibrar o avanço do movimento revolucionário em escala mundial, enquanto Bakunin a via como uma espécie de federação de unidades autônomas, que tomariam suas grandes decisões a partir das circunstâncias locais e não de uma coordenação da luta com a de outros países.

Em 1871, quando a heróica Comuna de Paris foi destruída pela ação conjunta dos reacionários franceses e alemães, o marxismo saiu teoricamente fortalecido no movimento proletário internacional, pois se constatou que fez muita falta um apoio mais efetivo dos revolucionários de outros países.

A burguesia internacional se apresentou unida no campo de batalha e venceu. Com seu brilhantismo habitual, Marx fez desta derrota uma arma contra o autonomismo dos anarquistas: se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito.

Mas, ao anunciar como tarefa da 1ª Internacional estimular a eclosão de novas Comunas como a de Paris, Marx assustou os governos europeus, que passaram a perseguir a associação, forçando-a a realizar secretamente seus congressos seguintes.

Além disto, os ramos mais moderados do trabalhismo (começando pelos ingleses) dela se dissociaram, assustados. Até que, enfraquecida pelas cisões (os blanquistas franceses também debandaram), optou pela autodissolução, em 1876.

REFORMISTAS E "SOCIAISPATRIOTAS" - A semente plantada frutificou, entretanto, na poderosa 2ª Internacional, convocada por Friedrich Engeles, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrados com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. E teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução.

A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário: os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações.

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociaispatriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infraestrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS - Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida no mundo inteiro e, como era previsível, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobrehumana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução saiu dos trilhos marxistas, deixando de conduzir ao "reino da liberdade, para além da necessidade". Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas.

Avaliando que Stalin sacrificava os movimentos revolucionários de países como a Espanha, França e Alemanha aos interesses egoístas da URSS, Trotsky convocou em 1938 a 4ª Internacional, comprometida com os ideais revolucionários puros, inclusive o de que a revolução proletária é mundial e somente assim poderá ser vitoriosa.

Nunca conseguiu ser uma força política verdadeiramente influente, por mais que tivesse razão na maioria das questões. Durante a guerra fria, os revolucionários tendiam a alinhar-se com os polos do socialismo real, mesmo discordando de suas políticas. Quantos não se horrorizavam intimamente com as repressões desencadeadas na Hungria (1956) e Checoslovaquia (1968) mas, mesmo assim, as defendiam em público?!

Então, o papel da 4ª Internacional acabou sendo apenas moral: representava a melhor tradição do pensamento revolucionário, mas pouco conseguia realizar de concreto, além de ser minada por intermináveis disputas internas.

E, com a queda do muro de Berlim, a 4ª Internacional não conseguiu oferecer alternativa ao refluxo revolucionário em escala mundial.

No entanto, continua agrupando trotskistas do mundo inteiro e deverá realizar seu 16ª congresso mundial em 2010.

Olhando as coisas de forma realista, a 4ª Internacional tem existência apenas vegetativa, não cumprindo seu papel de unir as forças revolucionárias do mundo inteiro para uma nova ofensiva global contra o capitalismo.

CRÉDITO PARA A NOVA TENTATIVA - Poderá fazê-lo a 5ª Internacional de Chávez?

Neste momento, os bolivarianos têm a proposta internacionalista mais influente e pujante, daí não ser descabida a proposta de Chávez e nem mesmo o papel que ele pessoalmente assumiu, ao lançar o movimento.

Mas, o grande desafio será fazer dessa associação uma verdadeira Internacional, reunificando o movimento revolucionário. Ou seja, com presença marcante também nos países do 1º mundo, onde a aguda contestação das décadas de 1960 e 1970 cedeu lugar à insossa hegemonia direitista, às vezes reforçada pela coopção de partidos outrora comunistas.

O que Marx dizia em 1848 continua valendo: é nas nações de economia avançada que se decide o destino do mundo.

Atacar a corrente capitalista no elo mais fraco, os países periféricos, serve para a sobrevivência e acumulação de forças dos movimentos revolucionários. Mas, não se deve perder de vista que o objetivo maior continua sendo o de colocar a imensa riqueza e potencial produtivo das nações prósperas a serviço da humanidade.

Devemos, sim, dar um crédito de confiança a esta 5ª Internacional, pois é um passo na direção certa.

Só o futuro dirá se vai ou não cumprir seu papel... mas, aos revolucionários cabe sempre arregaçarem as mangas e tentarem direcionar os acontecimentos para o futuro almejado, não ficarem apenas criticando à distância, como sábios no topo da montanha.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O CASO BATTISTI E A FAINA INSENSATA DOS REACIONÁRIOS

As especulações da imprensa são de que Gilmar Mendes se vingue amanhã (18) da derrota humilhante que sofreu no Caso Oliverio Medina, de 2007 - quando, como relator (mas, ainda não presidente) viu todos os outros ministros do Supremo Tribunal Federal votarem contra sua descabida pretensão de surrupiar do Executivo a prerrogativa de decidir se são políticos ou comuns os crimes atribuídos a um extraditando.

Agora, no bojo de uma escalada reacionária avassaladoramente apoiada pela mídia, para inchar o papel do Supremo em detrimento do Executivo (visando debilitar o Governo Lula, com vistas à eleição presidencial de 2010), finalmente Mendes parece pronto a conseguir a sonhada vitória -- como se míseros 5x4 apagassem o vexame daqueles 9x1.

No entanto, o ministro Carlos Ayres de Britto sinaliza que contrariará a corrente reacionária num ponto importante: o de que cabe a Lula dar a palavra final.

Isto vai ser discutido amanhã, como se requeresse alguma discussão: o direito de um injustiçado pedir clemência presidencial existe e é respeitado há séculos.

Ademais, o próprio texto do tratado de extradição firmado entre Brasil e Itália admite a possibilidade de o presidente negar a entrega da presa, caso tenha fundados motivos para tanto.

E esses motivos não faltam, começando pelas ameaças de retaliações que pesam sobre Battisti, na mira dos rancorosos carcereiros, alvo de um plano malogrado de sequestro que os serviços secretos italianos articularam em 2004 e pivô de um pressões as mais insistentes e arrogantes da Itália, evidenciando o ânimo francamente adverso que existe contra ele.

PROGRESSO OU BARBÁRIE?

De resto, há um bom artigo alheio a destacar: Battisti, do filósofo Marcos Nobre.

Em meio à enxurrada de desinformação e textos de tendenciosidade extrema, a Folha de S. Paulo abriu uma ínfima brecha para a verdade. Principalmente porque um colunista como Nobre não é obrigado a dar satisfações sobre o uso que fará do seu espaço semanal.

Ele toca num ponto importantíssimo, ao lembrar que o aperfeiçoamento da sociedade amiúde exige a ruptura violenta com o ancién regime:
"Ao responsabilizá-lo [a Battisti] pelo crime de não ter buscado ampliar a democracia por meios democráticos, a sociedade democrática deve lembrar ao mesmo tempo das suas próprias origens nas revoluções do século 18 e nas lutas políticas por vezes violentas que a moldam até hoje. Deve lembrar que não pode sobreviver se não se democratizar cada vez mais, se não permanecer fiel ao impulso que a produziu. É essa lembrança que deveria impedir a extradição, por motivos políticos, de Cesare Battisti."
Sem a grande Revolução Francesa, a ordem burguesa nem sequer teria sido instaurada.

Então, quem criminaliza movimentos como o da ultraesquerda italiana nos anos de chumbo, na verdade está tentando deter o relógio da História. As regras que o patético ministro Cezar Peluso quer impor à sociedade equivalem a blindar o status quo de tal maneira que nenhuma (r)evolução seja mais possível.

Em português claro: seu relatório apenas expressou o sonho dourado dos reacionários através dos tempos, de tornar impossíveis as revoluções.

O grande Friedrich Engels (foto acima) comentou certa vez as consequências dessa postura. Quando se fecham todas as portas para que a sociedade prossiga evoluindo, o resultado tende a ser catastrófico: em vez da ascensão a um estágio superior de civilização, sobrevém o mais amargo retrocesso.

Foi o que aconteceu, disse ele, na Roma dos césares. Quem encarnava a proposta de progresso era Spartacus, ao propor a abolição da escravidão. Este era o grande passo a ser dado naquele momento.

No entanto, Roma conseguiu conter militarmente a revolta dos gladiadores... e, desprovida do seu polo dinâmico, tornou-se uma sociedade estagnada. Apodreceu internamente e foi destruída pelos povos primitivos.

Então, em vez da primeira experiência de uma sociedade sem escravidão, o que tivemos foi o atraso, a barbárie, a prevalência do setor agropastorial cancelando todas as conquistas urbanas. Não havia mais uma força de vanguarda que alavancasse o progresso.

E Engels lançou uma advertência sinistra: caso o capitalismo tenha êxito em sua faina insensata para evitar a revolução cada vez mais necessária, acabará também sucumbindo aos bárbaros que se agrupam para além das fronteiras de seu way of life.

É mais ou menos o que estamos presenciando agora, com o capitalismo sob o duplo ataque de sociedades cujo desenvolvimento das forças produtivas é bem mais incipiente e da vingança da natureza contra os que estão, em nome da ganância, minando as próprias bases da sobrevivência da humanidade.

domingo, 1 de novembro de 2009

PARA (REALMENTE) ENTENDER A QUEDA DO MURO DE BERLIM

A queda do muro de Berlim, há 20 anos, marcou o fim do chamado socialismo real - a tentativa de construção do socialismo com o descarte de algumas das premissas básicas fixadas por Karl Marx e Friedrich Engels em meados do século 19.

No princípio, os profetas apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A Internacional Socialista, que havia sido fundada sete anos antes, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrados com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. E teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução.

A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário: os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações.

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais-patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

O socialismo num só país – Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida no mundo inteiro e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

O grande feito da URSS: derrotar Hitler - Este conseguiu, é verdade, fazer com que a economia da URSS avançasse praticamente um século em duas décadas (as de 1920 e 1930), o que foi fundamental para o país conseguir a proeza praticamente impossível de quebrar a espinha do nazismo.

Pois, é preciso que se diga: Hitler foi vencido na União Soviética, quando comprometeu o melhor da sua máquina de guerra numa derrota contundente.

Ao se retirar, já estava irremediavelmente derrotado. As forças aliadas apenas completaram o serviço.

Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.

Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.

O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua nomenklatura arrogante que se reservava todos os privilégios.

Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.

O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.

A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).

Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:
  • cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
  • o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.
Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.

Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.

Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.

A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ISRAEL É O IV REICH

Os judeus criaram os kibutzim.

Para os jovens, explico: tratou-se da experiência temporariamente mais bem sucedida, em todos os tempos, de comunidades coletivas voluntárias, praticantes do igualitarismo -- na linha do que Marx e Engels classificaram como "socialismo utópico".

O verbete da Wikipedia, neste caso, é rigorosamente correto:
"Combinando o socialismo e o sionismo no sionismo trabalhista, os kibutzim são uma experiência única israelita e parte de um um dos maiores movimentos comunais seculares na história. Os kibutzim foram fundados numa altura em que a lavoura individual não era prática. Forçados pela necessidade de uma vida comunal e inspirados pela sua ideologia socialista, os membros do kibutz desenvolveram um modo de vida comunal que atraiu interesse de todo o mundo.

"Enquanto que os kibutzim foram durante várias gerações comunidades utópicas, hoje, eles são pouco diferentes das empresas capitalistas às quais supostamente seriam uma alternativa. Hoje, em alguns kibutzim há uma comunidade comunitária e são adicionalmente contratados trabalhadores que vivem fora da esfera comunitária e que recebem um salário, como em qualquer empresa normal".
O BUND E A REVOLUÇÃO SOVIÉTICA - Os judeus também desempenharam papel relevante no movimento socialista, principalmente por meio do Bund, que existiu entre as décadas de 1890 e 1930 na Europa.

Vale a pena lembrarmos como eles contribuíram para a revolução soviética, aproveitando um excelente artigo de Saul Kirschbaum, responsável pelo Programa de Pós-Graduação em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas da USP :
"A crescente urbanização e proletarização dos judeus, que deixavam para trás suas aldeias empobrecidas em busca de novas perspectivas de vida, fez emergir o movimento socialista judaico na segunda metade da década de 1870. Nos dez anos que se seguiram, desenvolveu-se a luta organizada dos trabalhadores pela melhoria de suas condições. Associações de operários organizaram greves em várias cidades da região de assentamento judaico. Representantes da intelligentsia, em sua maioria estudantes, começaram a formar círculos de trabalhadores para a disseminação de idéias socialistas.

"Aglutinando todos esses esforços, a idéia de que os judeus em geral e os trabalhadores judeus em particular tinham seus próprios interesses, e por isso precisavam de uma organização própria para atingir seus propósitos, disseminou-se rapidamente entre os ativistas. Por fim, representantes dos círculos socialistas reuniram-se em Vilna em outubro de 1897 para fundar a União Geral dos Trabalhadores Judeus na Lituânia, Polônia e Rússia, conhecida em ídiche como Der Bund. O Bund não se via somente como uma organização política, e devotou grande parte de sua atividade à luta sindical. Seu programa, formulado no primeiro encontro, via como objetivo principal a guerra contra a autocracia czarista.

"O Bund também não se considerava um partido separado, mas parte da socialdemocracia russa, que existia na forma de grupos e associações dispersos. Por causa de sua força, o Bund teve papel decisivo na criação, em março de 1898, do Partido Socialdemocrata de toda a Rússia, que viria a tornar-se o Partido Comunista.

"As atividades do Bund cresceram e sua influência sobre o público judeu aumentou depois que começou a organizar unidades de autodefesa no período dos pogroms de 1903 a 1907. Desempenhou papel ativo na revolução de 1905, quando tinha atingido 35 mil membros.

"Mas o Bund não foi o único partido a atuar entre as massas judaicas. A extensa atividade política que se seguiu à fracassada revolução de 1905 permitiu a ação de outros três partidos judaicos: o Partido Sionista Socialista dos Trabalhadores, (...) o Partido Judaico Socialista dos Trabalhadores (...) e finalmente o Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores.

"A revolução que irrompeu na Rússia no início de 1917 pôs fim ao regime czarista e implantou uma república chefiada por um governo provisório. O novo governo aboliu as discriminações e outorgou aos judeus plena igualdade de direitos. Os partidos judeus, que tinham restringido ou mesmo totalmente suspendido suas atividades durante o período reacionário que se seguiu a 1907, despertaram para grande atividade. Após a proibição imposta durante os anos de guerra sobre todas as publicações em caracteres hebraicos, as editoras em hebraico e ídiche retomaram suas atividades, e surgiram dúzias de periódicos e jornais.

"...a Revolução Soviética provou ser possível uma abordagem nova e bem-sucedida para os conflitos nacionais, por meio da criação de um estado multinacional - uma nova forma de diferentes povos conviverem num mesmo território sobre uma base de igualdade nacional. Abordagem que, na época em que vivemos, parece ter sido esquecida e negligenciada em toda parte."
DE MÉDICO A MONSTRO - Durante longo tempo, a propaganda reacionária apresentou o movimento socialista internacional como uma conspiração judaica para dominar o mundo.

Na segunda metade do século passado, entretanto, Israel viveu sua transição de Dr. Jeckill para Mr. Hide. Virou ponta-de-lança do imperialismo no Oriente Médio, responsável por genocídios e atrocidades que lhe valeram centenas de condenações inócuas da ONU.

Até chegar ao que é hoje: um estado militarizado, mero bunker, a desempenhar o melancólico papel de vanguarda do retrocesso e do obscurantismo.

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, acaba de determinar ao seu gabinete que estude a possibilidade de propor alterações à legislação de guerra internacional a fim de adaptá-la à necessidade de "conter a expansão do terrorismo no mundo".

Uma tese que conhecemos muito bem, pois martelada dia e noite nos sites e correntes de e-mails das viúvas da ditadura: a de que o combate ao terrorismo justifica violações dos direitos humanos. Eufemismos à parte, esta é a essência da proposta do premiê israelense.

E, se os totalitários daqui tudo fazem para salvar de punições aqueles que cometeram crimes em seu nome, os de lá não ficam atrás: Netanyahu determinou também a criação de uma comissão para defender as autoridades de Israel das acusações de crimes de guerra que lhes possam ser feitas por tribunais internacionais.

Ou seja, face ao repúdio universal dos massacres que perpetrou em Gaza na última virada de ano, Israel se prepara para radicalizar sua posição: defenderá genocidas, ao invés de os punir, como qualquer nação civilizada faria; e quer mudar as leis da guerra, para que passem a considerar lícitas e justificadas campanhas em que morrem 1.400 de um lado e 13 do outro.

Israel não tem mais nada a ver com os ideais que inspiraram os kibutzim e o Bund.

Está mais para um IV Reich. Nazista, como o anterior.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A CRIMINALIDADE É INTRÍNSECA AO CAPITALISMO

O problema da escalada da criminalidade no Brasil vai muito além da ótica simplista e repressiva da nossa mídia. Tem a ver com o estilhaçamento da família e da sociedade sob o capitalismo globalizado.

Ambas ainda se mantinham razoavelmente estruturadas no chamado capitalismo industrial, apesar de todos os defeitos que tão bem conhecemos: desigualdades econômicas e sociais, elitismo, autoritarismo, etc.

No final da década de 1960, entretanto, esse modelo chegou ao esgotamento. O próprio capitalismo demandava uma desestruturação da antiga sociedade, para erguer uma nova sobre seus escombros. Os jovens, entretanto, tentaram ir mais longe: em vez da substituição de uma forma de dominação por outra, sonharam com o fim de todas as dominações.

Com o fracasso das tentativas revolucionárias do período (da Primavera de Paris à de Praga, passando pela contestação nos EUA e pelos movimentos revolucionários no 3º mundo) implantou-se a sociedade de massas, em que tudo e todos devem estar permanentemente disponíveis para o consumo.

No Brasil, isto se deu em meio à paz dos cemitérios, na terrível década de 1970.

Os órgãos de comunicação, assumindo plenamente as características de uma indústria cultural, deixaram de lado a missão de formar (expoentes da elite) para o exercício do pensamento crítico, restringindo-se a apenas informar (a elite e a classe média) fragmentariamente e a repisar os valores capitalistas. A formação de cidadãos cedeu lugar à capacitação de profissionais.

O trabalho perdeu qualquer atrativo que ainda tivesse como concretização do potencial criativo do ser humano. Tornou-se uma corrida de ratos atrás do dinheiro, sem ética nem o mínimo respeito pelo interesse coletivo.

O ingresso em massa da mulher no mercado de trabalho aviltou remunerações e subjugou toda a família à engrenagem de produção e consumo, transformando o lar em mero dormitório.

A família foi desvalorizada pela influência atordoante da comunicação de massas. Pais e mães cansados não conseguem competir com o brilho da telinha que hipnotiza as crianças, impingindo-lhes os valores consumistas.

Então, nada existe de estranho no fato de que as pessoas sem aptidões para competir dentro do sistema busquem atalhos para conseguir aqueles bens dia e noite propagandeados como objetos de desejo.

Perplexos, muitos cidadãos gostariam de ver aplicadas aqui as punições drásticas dos países muçulmanos: que se cortassem as mãos dos ladrões, o pênis dos estupradores e a vida dos assassinos. Olho por olho, dente por dente.

Outros pedem mais policiais nas ruas, de preferência atirando primeiro e perguntando depois... nos bairros pobres ou quando os suspeitos são negros, pardos ou malvestidos, é claro.

E há os que defendem a maioridade penal a partir dos 14 ou 16 anos, o que somente fará os bandidos diminuírem proporcionalmente a idade do recrutamento de seus serviçais, até que tenhamos crianças empunhando fuzis e metralhadoras. O velho chavão moralista mudará de “hoje mocinho, amanhã bandido” para “hoje bandido, amanhã defunto”.

No fundo, tudo isso são paliativos. Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.

Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente edificada nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.

O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.

Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que o suficiente para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).

Então, os que ainda têm emprego e os empreendedores continuarão irrealizados, esforçando-se demais para nunca obterem as gratificações almejadas, pois a lógica do capitalismo é perpetuar a insatisfação e mitigá-la com o consumo (a cenoura colocada à frente do asno para que ele continue puxando a carroça). Um círculo vicioso perverso que faz a fortuna dos analistas, dos farsantes religiosos e dos picaretas da auto-ajuda.

Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais e vão ajudar a eleger aqueles a quem convém mantê-los em eterna dependência.

Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.

É paradoxal que, em nossa época, formidáveis avanços científicos e tecnológicos coexistam com uma regressão ao ambiente medieval, com os nobres entrincheirados em condomínios de alto padrão, circulando em veículos brindados e só podendo levar vida social em shopping centers, sem ousarem expor-se fora de suas fortalezas. No exterior desses espaços fortificados e vigiados, os bárbaros estão sempre à espreita, prontos para desferir seus golpes.

Uma previsão terrível de Friedrich Engels, um dos pais do marxismo: quando uma sociedade consegue aniquilar as forças progressistas que poderiam levá-la a um estágio superior de civilização, acaba sendo destruída pela barbárie. O paralelo é com Roma, que venceu os gladiadores de Spartacus mas sucumbiu aos povos atrasados, condenando o mundo a séculos de trevas.

E o papel de carrasco da sociedade putrefata não será necessariamente cumprido pelos excluídos do progresso desequilibrado e insano: após a recessão capitalista em curso, com enorme risco de evoluir para depressão, vêm aí as décadas de devastações com que o meio ambiente pagará, na mesma moeda, àqueles poucos que gananciosamente o devastaram e àqueles muitos que bovinamente consentiram na devastação.

O que resta saber é se os homens conseguirão unir-se na adversidade, assumindo uma responsabilidade coletiva pela perpetuação da espécie humana.

Pois, prevalecendo a mentalidade do salve-se quem puder, a humanidade dificilmente sobreviverá ao capitalismo.
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