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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

REFLEXÕES SOBRE A MORTE DE UM TIRANO

Por Celso Lungaretti

Nas pegadas de Stálin: assim se cultuava a
personalidade do ditador que já foi tarde.
Pelos motivos que vou expor adiante, nunca me interessou particularmente o que acontecia na Coréia do Norte. A idade me ensinou a manter distância daquilo que só me deprimirá. 

Mas, para os interessados, recomendo a ótima análise de Elio Gaspari em sua coluna Já foi tarde acesse na íntegra aqui   http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/1024251-ja-foi-tarde.shtml da qual destaco estes parágrafos estarrecedores:
"Em 1945, a península coreana foi dividida entre duas ditaduras. A do Norte, comunista e rica. A do Sul, capitalista e pobre. Nos anos 60, quando se falava em  milagre coreano, o tema era a supremacia socialista. Em 1970, todos os vilarejos do país tinham eletricidade. 

Passou-se uma geração, o Sul tem uma democracia e o Norte tem uma tirania enlouquecida, que mais se parece com a  Spectre  do romance de Ian Fleming do que com um Estado. Em apenas quatro anos, entre 1991 e 1995, a renda per capita da população caiu de US$ 2.460 para US$ 719. O regime vive do socorro cúmplice da China.

Falta eletricidade, mas as 34 mil estátuas do  Pai da  Pátria Socialista  são iluminadas mesmo de dia.

A professora Mi-Ran conta que via alunos de cinco ou seis anos morrerem de fome nas salas de aula. Sua turma de jardim de infância de 50 alunos caiu para 15.
De Hitler a Kim Jong-il, os grandes ditadores
sempre tiveram paradas militares como fetiche
 Nas casas desse paraíso, uma parede da sala deve ser reservada para o retrato do  Líder, que é distribuído com um pano. Fiscais zelam para que nenhuma família deixe de limpá-lo.
A fome dos anos 90 matou entre 600 mil e 2 milhões de coreanos do norte. Em algumas cidades morreram dois em cada dez habitantes. Um médico conta que ensinou mães a ferver demoradamente a sopa de capim. A certa altura, as famílias preferiam que as crianças morressem de fome em casa, porque nos hospitais, onde não havia remédio, faltava também comida".
O PODER MANTIDO A FERRO E FOGO,
SOBRE MONTANHAS DE CADÁVERES

 Um conceito do marxismo clássico que até hoje considero axiomático é do que o destino do mundo se decide nos países com economia avançada, não nos periféricos.

Era nesses que Marx queria iniciar a construção do socialismo, convicto de que arrastariam os demais na sua esteira.

Mas, quando foi o reformismo e não a revolução que neles prevaleceu após a revolução soviética de 1917, os apressadinhos correram a trocar o foco, passando a tentar mudar o mundo a partir das nações menos pujantes --o que só gerou decepções e fez brotarem tiranias como cogumelos.

As potências centrais acabam sempre por anular tais arroubos, seja forçando trocas de regime, seja asfixiando tais nações mediante embargos econômicos como o imposto a Cuba.

Muitos, por estarem sendo forçados a socializar a penúria e não a abundância, acabaram descambando para os piores despotismos, como o Camboja do Pol Pot. A palavra de ordem de tais  nomenklaturas  é a manutenção do poder a ferro e fogo, sobre montanhas de cadáveres.

Barricadas parisienses, 1968: os comunistas
franceses preferiram salvar Charles De Gaulle.
E os esquerdistas que, desde Stalin, traem a proposta libertária do marxismo e se põem a defender brutais tiranos, tornam execrável a imagem da revolução aos olhos dos explorados das nações prósperas, aqueles que precisaríamos reconquistar para voltarmos a oferecer uma perspectiva revolucionária global, como havia um século atrás.

A mesmerizante indústria cultural burguesa martela dia e noite na cabeça dos   videotas  que a alternativa ao capitalismo é miséria e chicote.

Os movimentos de contestação de 1968 e anos seguintes foram os últimos que abriram uma possibilidade real de revolução nos países prósperos. Nunca saberemos o que aconteceria se o Partido Comunista Francês tivesse se colocado no lado certo das barricadas, junto aos estudantes e operários jovens que se rebelaram, e não esfaqueando-os pelas costas.

Resta, para nós, a titânica tarefa de recolocarmos a revolução aos trilhos, reentronizando sua componente libertária, sem a qual ela jamais voltará a ser atrativa para os melhores seres humanos --mormente na era da internet! 

É impensável, para cidadãos tão ciosos da sua liberdade pessoal como os de hoje, a perspectiva de desperdiçarem esforços na construção de regimes que lhes imporão camisas de força. Tanto quanto em 1968, temos, isto sim, de encarnar a esperança do  paraíso agora!

E as terríveis frustrações com o stalinismo (degeneração burocrática da revolução que culminou na volta ao capitalismo e à democracia burguesa) e com o maoísmo (de cuja derrocada resultou o pior dos mundos possíveis, um capitalismo de estado altamente despótico) servem como sonoro alerta de que a nova revolução terá, obrigatoriamente, de ser global, tanto quanto o capitalismo hoje é global.

O chamado  socialismo real  implantado em países isolados, nem serviu como estopim para a revolução mundial, nem se manteve... socialista. Na verdade, tornou-se uma caricatura odiosa do socialismo, que melhor serviu à burguesia como espantalho do que para nós como cartão de visita.

É hora de reassumirmos a revolução mundial --e, eminentemente, libertária-- como meta suprema.

*postagem atualizada em 22 09 2014 por  Nadia Gal Stabile

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

QUEM TEM MEDO DA REVOLUÇÃO?

Por Celso Lungaretti

Um espectro ronda a esquerda: o  espectro da revolução.

Pelo mundo inteiro pipocam manifestações contra a ganância, essência do capitalismo -- com uma força e abrangência que não se viam desde as primaveras de 1968.

E, quando as rodas da História começam de novo a girar, após quatro décadas de marasmo e consumismo, a esquerda  moldada na fase do refluxo revolucionário  não consegue acompanhar os ventos de mudança.

Continua defendendo com unhas e dentes os regimes híbridos que sustentaram nossa fé nos anos difíceis, sem acordar para a realidade de que estamos ingressando numa época na qual podemos novamente sonhar com -- e devemos novamente lutar por -- uma revolução nos moldes clássicos.

Ou seja, internacional e desencadeada de baixo para cima, tendo os explorados como sujeito e não como objeto. 

Chega de abençoarmos aquelas ditaduras instauradas por quarteladas que, qual fazendas modelos,  cuidavam bem do seu gado enquanto não tugisse nem mugisse! Não são e nunca foram o que, marxistas e anarquistas, tínhamos como meta, mas, aos olhos dos cidadãos despolitizados e manipulado pelas indústria cultural, acabam se identificando conosco, como se fôssemos totalitários e carniceiros. 

O panorama que hoje se vislumbra é muito mais grandioso. Como Vandré cantou em 1968, temos de novo a certeza na frente e a História na mão.

BECO  SEM SAÍDA

Já faz quase um século que os movimentos revolucionários desviaram por atalho que acabou conduzindo a um beco sem saída.

O desvio foi decidido às vésperas da revolução soviética, quando o Partido Bolchevique discutiu dramaticamente se valia a pena tomar-se o poder num país atrasado, contrariando duas premissas marxistas: a da revolução internacional e a da construção do socialismo a partir das nações economicamente mais pujantes (e não o contrário!).

Foi uma avaliação arguta ou um dom profético que levou Marx a pregar uma tomada de poder em escala global?  A História comprovaria ser o capitalismo tão poderoso que, se nações isoladas tentam edificar uma sociedade mais justa, ou são por ele esmagadas, ou sobrevivem ao preço da descaracterização de suas propostas originais..

"...embora a Rússia não estivesse pronta para o
socialismo, serviria como estopim da revolução mundial..."
Em 1917, prevaleceu o argumento de que, embora a Rússia não estivesse pronta para o socialismo, serviria como estopim da revolução mundial, começando pela revolução alemã, prevista para questão de meses. Então, o atraso econômico russo seria contrabalançado pela prosperidade alemã; juntas, efetuariam uma transição mais suave para o socialismo.

Deu tudo errado. A reação venceu na Alemanha, a nova república soviética só pôde depender de si mesma e, após rechaçar bravamente as tropas estrangeiras que tentaram restabelecer o regime antigo, viu-se obrigada a erguer uma economia moderna a partir do nada.

Quando o ardor revolucionário das massas arrefeceu -- não dura indefinidamente, em meio à penúria --, a mobilização de esforços para superação do atraso econômico acabou se dando por meio da ditadura e do culto à personalidade.

A Alemanha nazista era o espantalho que impunha urgência: mais dia, menos dia haveria o grande confronto e a URSS precisava estar preparada. O stalinismo foi engendrado em circunstâncias dramáticas.

A república soviética acabou salvando o mundo do nazismo -- foi ela que quebrou as pernas de Hitler, sem dúvida! --, mas perdeu sua alma: já não eram os trabalhadores que estavam no poder, mas sim uma odiosa  nomenklatura.

Concretizara-se a profecia sinistra de Trotsky: primeiro, o partido substitui o proletariado; depois, o Comitê Central substitui o partido; finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

Com uma ou outra nuance, acabou sendo este o destino das revoluções que tentaram edificar o  socialismo num só país: foram  isoladas, tornaram-se autoritárias e não tiveram pujança econômica para competir com o mundo capitalista, acabando por sucumbir ou por se tornarem modelos híbridos (como o chinês, que mescla capitalismo de estado na economia com despotismo stalinista na política).

E AGORA, JOSÉ?

Agora, só nos resta voltarmos ao princípio de tudo: Marx.

Reassumirmos a tarefa de engendrar  a onda revolucionária que varrerá o mundo.

Esquecermos a heresia de solapar o capitalismo a partir dos seus elos mais fracos, pois o velho barbudo estava certíssimo: as nações economicamente mais poderosas é que determinam a direção para a qual as demais seguirão, e não o contrário.

Isto, claro, se tivermos como meta a condução da humanidade a um estágio superior de civilização. Pois o cerco das nações prósperas pelos rústicos e atrasados já vingou uma vez, quando Roma sucumbiu aos bárbaros... e o resultado foi um milênio de trevas.

Se, pelo contrário, quisermos cumprir as promessas originais do marxismo, as condições hoje são bem propícias do que um século atrás:
"...crises tão agudas que só unidos e 
solidários conseguiremos sobreviver..."
  • o capitalismo já cumpriu seu papel histórico no desenvolvimento das forças produtivas e está tendo sobrevida cada vez mais parasitária, perniciosa e destrutiva -- tanto que mantém a parcela pobre da humanidade sob o jugo da necessidade quando já estão criadas todas as premissas para o  reino da liberdade, e o 1º mundo sob o jugo da competitividade obsessiva, estressante e neurótica, quando já estão criadas todas as premissas para uma existência fraternal, harmoniosa e criativa;
  • os meios de comunicação que ele desenvolveu, como a internet, facilitam a disseminação e coordenação dos movimentos revolucionários em escala mundial, de forma que um novo 1968, p. ex., hoje seria muito mais abrangente (está longe de ser utópica, agora, a possibilidade de uma onda revolucionária varrer o mundo);
  • a necessidade de adotarmos como prioridade máxima a colaboração dos homens para promover o bem comum, em lugar da ganância e da busca de diferenciação e privilégio, será dramatizada pelas consequências das alterações climáticas e da má gestão dos recursos imprescindíveis à vida humana, gerando crises tão agudas que só unidos e solidários conseguiremos sobreviver.
Nem preciso dizer que a forte componente libertária original do marxismo tem de ser reassumida, pois os melhores seres humanos, aqueles dos quais precisamos, jamais nos acompanharão de outra forma (esta é uma das conclusões mais óbvias a serem tiradas dos acontecimentos das últimas décadas).

A bandeira da liberdade deve ser empunhada de novo pelos que realmente a podem concretizar, não pelos que só têm a oferecer um cativeiro com as grades introjetadas, pois a indústria cultural as martela dia e noite na cabeça dos  videotas.

É este o edifício sólido que podemos começar a construir com os tijolos do muro de Berlim e tantos outros muros tombados.

E é esta a postura com que poderemos nos afirmar como o que devemos e temos a obrigação de ser: a vanguarda dos  indignados  de todos os quadrantes.

domingo, 12 de setembro de 2010

A FRASE DE FIDEL E O BESTEIROL DO PIG

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A grande imprensa brasileira saudou efusivamente a afirmação de Fidel Castro, de que o modelo econômico cubano não funcionaria (mais tarde relativizada por ele, sob a alegação de não era exatamente isto que queria dizer).

troféu PIG  coube a Suely Caldas que, em O Estado de S. Paulo, deitou falação sobre o que está muito além dos seus conhecimentos:
"A esperança de um mundo igual e justo, lançada por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19, não logrou sucesso em nenhuma das experiências socialistas vividas ao longo do século 20. Entre outras razões de ordem econômica, também porque nunca conseguiram se sustentar sem a imposição de uma ditadura a subjugar uma população que ansiava por liberdade".
Até quando será invocado o santo nome de Marx em vão?

Ele jamais pregou a construção do socialismo em países isolados e atrasados.

Acreditava que, como consequência de suas próprias contradições (principalmente a apropriação individual do produto do trabalho coletivo), o capitalismo passaria a frear o desenvolvimento das forças produtivas, ao invés de o alavancar.

Então, em sua marcha para o progresso, a humanidade seria obrigada a evoluir para uma forma de organização econômica, política e social que libertasse as forças produtivas do jugo do lucro.

Ou seja, em termos simplificados, o contínuo crescimento da produção era limitado pelo fato de que os produtores, ao serem espoliados de uma parcela do resultado do seu labor, não tinham meios para adquirir tantos produtos quanto geravam.

Então, essa produção que excedia o poder aquisitivo dos consumidores era destruída (queimas de café para evitar a queda do preço no mercado, p. ex.) ou, por mecanismos mais sutis,  remanejada: a economia se voltava para atividades parasitárias ou para a indústria de guerra.

Ou seja, o peso descomunal que o setor financeiro adquiriu no capitalismo do século 20 foi uma forma de manter pessoas trabalhando para nada produzirem de útil, necessário ou válido. É a condenação mais gritante de um sistema putrefato, que mantém os homens a labutarem em vão, quando poderiam estar trabalhando muito menos e vivendo muito melhor, livres do tacão da necessidade e do estresse da competição encarniçada.

As duas guerras mundiais e os muitos conflitos localizados, idem. Em vez de se direcionar o esforço dos seres humanos para melhorar a existência dos seres humanos, passou-se a empregá-lo no seu extermínio.

Como alternativa, as grandes recessões periódicas que assolam o capitalismo até hoje.

Antes, a superprodução desembocava automaticamente na crise.

Depois, para permitir que os consumidores adquirissem aquilo que não podiam pagar, criaram-se mecanismos de crédito que resolvem o problema imediato, mas, como bola de neve, acabam gerando dívidas impagáveis à frente.

Até que essa economia artificial, fictícia, estoura como bolha de sabão.

Exatamente como Marx dizia, a contradição insolúvel do capitalismo engendrará crises cíclicas até que ele seja superado pela racionalidade econômica.

Elas podem não ocorrer mais a cada dez anos, mas continuam tão inevitáveis quanto antes.

Face a tal mostrengo, como ousa e jornalista empertigada criticar o socialismo real? Quem tem algo a dizer sobre ele somos nós, não ela.

REVOLUÇÃO MUNDIAL x SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS

No princípio, os  profetas  apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

Outra, de consequências trágicas: a tese de que, como era desigual o ritmo com que as nações amadureciam para a experiência socialista, poderia se recorrer a uma ditadura momentânea do proletariado (já que a Comuna de Paris parecera ter sido derrotada por excesso de brandura) naquelas que se libertassem primeiramente, para resistirem ao capitalismo agonizante até que a revolução vencesse no mundo inteiro.

No entanto, a ditadura do proletariado deveria se tornar cada vez menos ditadura, tendo a função de preparar as condições para seu desaparecimento, por obsolescência.

Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

AVANÇO TECNOLÓGICO x LETARGIA ECONÔMICA

Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.

Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.

O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua  nomenklatura  arrogante que se reservava todos os privilégios.

Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.

O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.

A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).

Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:
  • cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
  • o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.
Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.

Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.

Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.

A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.

segunda-feira, 1 de março de 2010

DISSIDENTES CUBANOS: MUITO SOFRE QUEM PADECE


Face a certas tragédias sobre as quais jornalistas e leitores cansavam de repetir o mesmo blablablá que nada resolve, Paulo Francis costumava ironizar: "muito sofre quem padece".

Caso recente do Haiti, cujos males estão diagnosticados há tanto tempo, sem que se vislumbre a mais remota possibilidade de que ocorra a mobilização de vontades e recursos necessária para as correções estruturais que se impõem.


Condenado a ser pária no mundo enquanto o mundo permanecer sob o jugo desumano do capitalismo, sua única esperança é uma transformação em escala maior. Até lá, muito continuará sofrendo porque padece...

Os reacionários agora me cobram que comprove ser mesmo defensor dos direitos humanos, posicionando-me sobre Cuba. Com seu habitual primarismo, ignoram que, longe de omitir-me, já me pronunciei na semana passada.

No fundo, trata-se de outro beco (quase) sem saída. Vamos recapitular.

Nos anos 50, a União Soviética não via com bons olhos revoluções na esfera de influência dos EUA, que pudessem lhe trazer complicações desagradáveis, num momento em que priorizava a consolidação do seu modelo político/econômico nos países que o Exército Vermelho libertara no fim da 2ª Guerra Mundial.

E a via chinesa, de formação de um exército revolucionário no campo e cerco das cidades, mostrava-se inviável na América Latina, na qual quem dominava as cidades tendia a esmagar sem maiores dificuldades as rebeliões rurais.


Aí, um pequeno grupo de abnegados conseguiu iniciar a derrubada da corrupta e sanguinária ditadura de Fulgêncio Batista com uma variação do modelo chinês: criou colunas guerrilheiras que surpreendiam o inimigo e depois embrenhavam-se nas serras, acumulando forças e conquistando aos poucos o apoio da população.

Foi uma mágica que só deu certo da primeira vez, e nas condições peculiares de Cuba, ilha que tinha como principal atividade econômica a monocultura da cana-de-açúcar e cujo tirano era particularmente repulsivo para seu povo.

Nas duas décadas seguintes, reprises seriam tentadas noutros países do subcontinente com monoculturas e ditadores repudiados, mas, havendo possibilidade de êxito, os EUA tratavam de erradicá-las com seu grande porrete, corporificado em ajuda econômica e assessoria militar.

Numa nação de dimensões continentais como o Brasil, o foco guerrilheiro se mostrou mais inadequado ainda, sendo descoberto e atacado antes mesmo de iniciar operações.

Quem conseguiu alguns êxitos foi a guerrilha urbana, principalmente aqui (vários grupos, começando pela ALN e VPR), na Argentina (ERP e montoneros), Uruguai (tupamaros) e Chile (MIR). Trinfos temporários, contudo. Causaram impacto, mas a avassaladora superioridade de forças e os métodos bárbaros do inimigo acabaram prevalecendo.

O certo é que os revolucionários cubanos, face ao embargo implacável dos EUA, sonhavam com a construção do socialismo apoiada por outras revoluções latino-americanas, mas tinham de curvar-se à evidência dos fatos, aceitando a tutela da União Soviética, que lhes dava sustentação econômica mas impunha, como contrapartida, limites de atuação no exterior.

A CRISE DOS MÍSSEIS E O MARTÍRIO DE GUEVARA

A crise dos mísseis, em 1962, foi o sapo mais indigesto que tiveram de engolir.

Depois que os EUA insuflaram a fracassada invasão da Baía dos Porcos, a URSS instalou armamento atômico na ilha, aparentemente apenas para dissuadir os norte-americanos de outras aventuras intervencionistas.

A reação estadunidense colocou o mundo à beira do apocalipse. E o acordo que pôs fim à crise pareceu um recuo humilhante da URSS, que retirou os mísseis -- embora houvesse uma cláusula não divulgada segundo a qual os EUA se comprometeram a nunca mais tentarem derrubar ou favorecer a derrubada do regime cubano.

O certo é que a imagem passada para o mundo foi de que a cavalaria botara de novo os índios pra correr.

Daí a indignação dos líderes cubanos, que foram totalmente ignorados por Kruschev enquanto negociava com Kennedy, recebendo depois a decisão como um prato feito; e a heróica iniciativa de Che Guevara, de tentar pessoalmente levantar novas revoluções, que livrassem Cuba da dependência exclusiva da URSS.

Isto também falhou e só restou a Fidel a opção de construir sua versão tropical do socialismo com todas as limitações de uma nação pequena, pobre e asfixiada pelo embargo econômico -- as quais acentuaram-se ainda mais quando as nações do antigo bloco soviético voltaram ao capitalismo.

Conseguiu alguns êxitos notáveis em educação e saúde, principalmente. Mas, não teve como oferecer prosperidade ao povo. E a experiência soviética ensina que as massas submetem-se a terríveis sacrifícios em nome de um ideal durante algum tempo, mas não por todo o tempo.

Quando os sacrifícios se tornavam rotina, sem nenhuma luz à vista no fim do túnel, a URSS resvalou para o estado policial.

Cuba não reproduziu na mesma escala os horrores do stalinismo, principalmente porque não houve cisão significativa no partido: os revolucionários de primeira hora cubanos concordaram com a mudança de rumos como resposta às circunstâncias adversas, ao contrário de boa parte da velha guarda bolchevique, que resistiu bravamente ao desvirtuamento dos ideais de 1917, até ser imolada.

Então, quem enfrentou o indiscutivelmente popular Fidel Castro não foram figuras exponenciais como Trotsky e Bukharin, mas intelectuais sem muito prestígio junto ao povo, alguns trabalhadores como Orlando Zapata e também cubanos fascinados ou teleguiados pelo capitalismo (eles existem, claro, mas é uma falácia sustentar que todos os oposicionistas o sejam).

E os irmãos Castro, com flagrantes violações dos direitos humanos desses dissidentes, têm conseguido evitar que as brisas se tornem verdadeiros ventos de mudança.

Então, de um lado eu repudio veementemente tais perseguições políticas, pois nenhum outro posicionamento é admíssivel para um homem civilizado e para um verdadeiro revolucionário; do outro, não vislumbro nenhuma possibilidade de que apenas os discursos e abaixo-assinados, mesmo transbordantes de justa indignação, venham alterar o quadro que levou à morte de Orlando Zapata.

Com o colapso físico de Fidel, os dirigentes cubanos dificilmente ousarão desmontar a estrutura do estado policial no instante em que o regime está prestes a encarar o desafio de sobreviver à sua figura mais emblemática. Alguma turbulência sempre haverá, quando a morte for anunciada. Quanta, nem mesmo eles sabem.

É claro que, se tiverem uma perspectiva de prosperidade a oferecer ao povo cubano, poderão até decidir que vale a pena correr o risco.

Daí ser este o momento em que Barack obama poderá se colocar à altura das esperanças que despertou, dando contribuição decisiva para que seja virada uma página lamentável da História.

Como? Pondo um fim ao injusto, contraproducente e odioso embargo econômico de Cuba, um abuso inominável de poder, que fere profundamente o direito de autodeterminação dos povos.

Caso contrário, o mais provável é que os dissidentes cubanos continuem muito sofrendo porque padecem, independentemente do clamor dos justos e da grita demagógica dos injustos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DISSECANDO A ALGARAVIA DO LAERTE BRAGA (final)

Um problema das polêmicas virtuais é que são intermináveis.

A imprensa, mesmo nos tempos em que não estava tão desvirtuada, sempre permitiu que seguissem até os contendores não terem trunfos novos a apresentar, ou até a derrota de um deles se tornar inequívoca. Afinal, nela o espaço tem preço, que não é desperdiçado com meros exercícios do direito de espernear.

Já na Web, alguém pode ter sua argumentação destruída por completo e continuar nela insistindo, indefinidamente.

É como se um enxadrista, após levar xeque-mate, seguisse movimentando as peças no tabuleiro.

Então, só resta ao vencedor anotar as jogadas na papeleta e levantar-se da mesa, deixando o patético vencido a encenar a farsa de que o jogo continua.

É o que farei agora.

Na linha grosseira e falaciosa que adotou quando acabaram seus argumentos, Laerte escreveu DO A DE ALGARAVIA AO T DE TRAIDOR - OU O "O" DE OPORTUNISTA, assim mesmo, como um foquinha que ignora o bê-a-bá do jornalismo (se colocou o "o" entre aspas, deveria tê-lo feito também com o "a" e o "t").

Para quem atuou um dia na profissão, isto evidencia que está transtornado a ponto de esquecer o que há de mais elementar -- será que ainda se lembra de vestir as calças antes de sair na rua?

E o texto todo é um tijolaço caótico e errático, sem parágrafos nem nexo, pulando de assunto a assunto (Obama, o Mossad, o aquífero guarani, Ortega, a sucessão brasileira, o Jornal Nacional, a Amazônia, o Haiti, o MST, Mirian Leitão, José Serra -- panfletariamente comparado a Fernando Collor, quando poderia sê-lo, p. ex., com Carlos Lacerda, que começou na esquerda e depois endireitou -- etc., etc.), sem nada aprofundar nem nada provar.

Mais um motivo para lamentarmos a perda irreparável do grande Sérgio Porto, o Stasnislaw Ponte Preta: se estivesse vivo, encontraria nesse texto a matéria-prima para criar uma versão várias vezes aprimorada do seu "Samba do Crioulo Doido".

Tão irritado o Laerte Braga ficou quando constatei que seus textos não passam de algaravias que acaba de cometer sua pior algaravia dos últimos anos...

Ataca a Anistia Internacional como se não tivesse sido ela a exigir providências de Porfirio Lobo para a punição dos crimes praticados pela quadrilha de Roberto Micheletti, enquanto o presidente deposto Manuel Zelaya, com a boca dava declaração elogiosa à "reconciliação nacional"; e com a mão, apanhava o salvo-conduto que barganhou com Lobo.

Juntamente com um comitê hondurenho de vítimas, Laerte Braga profetiza que a Comissão da Verdade instituída por Lobo só servirá para salvar as aparências.

Não parece ocorrer ao Nostradamus de Juiz de Fora que isto significa apenas desperdiçar uma tribuna em que as mortes, torturas, estupros e intimidações do pós-golpe poderão ser veementemente denunciados, ganhando destaque na imprensa mundial.

Se, no final, a montanha parir um rato, aí sim caberão as denúncias contundentes de que Lobo, no fundo, é um continuador de Micheletti.

Fazê-las desde já só serve para desqualificar-se aos olhos dos neutros. É falar para os já convertidos (que foram insuficientes para conseguir que esta crise tivesse o desfecho correto) e esquecer a necessidade de ampliar fileiras, para obter a vitória no(s) confronto(s) seguintes(s).

Em suma, trata-se da miopia política habitual dos colecionadores de derrotas, que parecem importar-se mais com a manutenção de sua imagem junto ao próprio público do que com o resultado concreto das lutas que travam.

Quanto a depreciar o papel da Anistia Internacional com a afirmação de que ela só atua após a porta arrombada, é mais uma falácia dentre tantas. Em situações como os bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, sua resposta foi imediata e dramática.

O que ela não faz é posicionar-se a partir de relatos não comprovados, como aquele em que o Laerte Braga acreditou, ao trombetear por aqui que, num único domingo, os capangas de Micheletti teriam assassinado "pelo menos" 50 manifestantes contrários ao golpe.

A AI não tem tropas para impor sua vontade a governos, seu único trunfo é a autoridade moral, INDISCUTÍVEL AOS OLHOS DOS CIVILIZADOS, que ela perderá se encampar versões exageradas de militantes.

Já o Laerte Braga não tem escrúpulo nenhum em repassar essas versões o tempo todo, como se fossem a tábua dos 10 mandamentos.

É um mero propagandista, que se norteia antes por Joseph Goebbels do que por Rosa Luxemburgo: para ele, a verdade não é revolucionária, longe disto, daí preferir martelar ad nauseam as versões convenientes, na esperança de que acabem passando por verdadeiras.

É o que continuará fazendo em relação a mim, com a equação "Celso Lungaretti = traidor". Escreverá isto a torto e a direito, doravante.

Prosseguirá citando o documentário Tempo de Resistência como "prova", indiferente ao fato de que nem mesmo o Darcy Rodrigues, que aparece no filmeco fazendo tal afirmação, ainda a sustenta. Hoje ele reconhece que eu nem sequer conhecia a localização da segunda área de treinamento guerrilheiro, onde estava Carlos Lamarca.

Fingirá ignorar que, mesmo antes de eu desmistificar as versões convenientes sobre a quase destruição da VPR em abril/1970, provando que responsabilidades alheias estavam sendo atiradas nas minhas costas para que outros posassem de heróis impolutos, nunca se cogitou traição da minha parte, mas sim que não houvesse resistido às torturas que me causaram uma lesão permanente.

Tanto isto é verdade que, já em 1974, a esquerda organizada se dispôs a me reabilitar, desde que eu me apresentasse apenas como massacrado pela repressão, omitindo que fora igualmente injustiçado e jogado às feras pela VPR. E não é afirmação sem comprovação, como os blefes ridículos do Laerte Braga; o companheiro Luiz Aparecido está aí, firme e forte, para confirmar.

E seguirá espalhando calúnias, como fez com o Raymundo Araujo, a quem acusou -- igualmente sem provas -- de ser um infiltrado, deixando depois o dito por não dito.

É como sempre reagem os stalinistas contra quem os contesta -- vide as falácias que utilizaram para justificar o massacre de trotskistas, anarquistas, mencheviques, sociais-revolucionários e até mesmo da Velha Guarda bolchevique.

Embora lhe caiba apenas o papel de repetir a História como farsa, já que não tem estatura para protagonizar tragédias, Laerte Braga mostra ser exatamente da mesma estirpe daqueles que obrigavam revolucionários de uma vida inteira a comparecerem balbuciantes aos julgamentos de Moscou, para confessarem que, a serviço dos EUA ou da Inglaterra, haviam tentado envenenar os reservatórios de água do estado socialista.

Para ele o que importa é satanizar o adversário, fazendo dele um espantalho, como se fosse o pior dos inimigos.

Mas, nem desta vez seguirei o conselho de amigos e companheiros, que me exortam a recorrer à Justiça burguesa. Sigo meus princípios, sempre.

Minha força para sobreviver a terríveis injustiças e vencer batalhas desiguais sempre adveio de manter-me coerente com minhas convicções. Sabendo que sustento a posição correta, não me importa ter o mundo circunstancialmente contra mim.

Não será o liliputiano Laerte Braga que vai me fazer mudar a postura. Mesmo porque o julgamento dele já ocorreu, tendo como jurados os internautas.

E as atas permanecerão disponíveis na Web, de forma que, ao colocar "Laerte Braga" na busca, toda e qualquer pessoa ficará sabendo quão baixo ele desceu um dia.

Para mim, é o que basta.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

STALINISTA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Quanto mais se desmoraliza na guerra dos argumentos, mais Laerte Braga parte para as agressões mentirosas, delirantes e destrambelhadas, como remanescente emblemático do stalinismo que ele é.

Não vou acompanhá-lo nessa guerra de lama. Apenas, transcreverei seu comentário de ontem (05/02) no blogue Apesar de Vc... 1964/1985 e o artigo em que relatei o episódio do documentário Tempo de Resistência, ao qual ele se refere.

É o suficiente para os leitores chegarem a uma conclusão sobre quem é quem.

Tudo que eu tinha para dizer sobre os eventos de 1970, já disse no meu livro Náufrago da Utopia. Não vou passar a vida inteira restabelecendo a verdade, cada vez que algum caluniador vier me atacar, aludindo a acordos que jamais foram firmados e dos quais não pode apresentar prova nenhuma, porque inexistem.

Nem recorrerei à Justiça burguesa pois, como afirmei no artigo abaixo, não é assim que resolvo minhas pendências com a esquerda (mesmo com essa excrescência autoritária e putrefata a que se filia o Laerte).

Prefiro sempre o jogo franco, expondo aos cidadãos civilizados a mediocridade intelectual e a pequenez moral de quem encabeça campanhas de satanização de adversários políticos em pleno século XXI.

A FALÁCIA

"Eu não vou perder tempo com Celso Lungaretti. Poderia transcrever aqui um mail que atestaria o seu mau caratismo e sua pusilanimidade.

"Vou só relatar um fato - há uns meses atrás cheguei à minha casa e resolvi ver o que estava passando em alguns canais de tevê.

"Num deles, Canal Brasil, estava sendo exibido um documentário sobre o período da repressão.

"Num dado momento, ao falar sobre o grupo de Lamarca, um dos integrantes do mesmo, gente séria, referiu-se à queda do grupo por conta de um "TRAIDOR". O nome? Celso Lungaretti.

"A diferença entre "ex-jornalista" que ele me rotula, mau caráter, é traidor e que TRAIDOR não existe ex é sempre traidor.

"Além de ter entregue os companheiros, fez um acordo com os militares e ele aceitava, como parte do acordo, aplicar choques em companheiros presos além de ter ido à tevê dizer-se arrependido.

"Só isso."

Laerte Braga

A VERDADE

Há um mês recebi esta mensagem do valoroso companheiro Luiz Aparecido ("ex-preso politico e até hoje militante do glorioso PCdoB", como faz questão de ressaltar):
"Acabei de assistir hoje, domingo, dia 21 de junho de 2009, no Canal Brasil da SKY e repetido por outros canais de assinatura, o documentario, 'Tempo de Resistencia', onde inumeros revolucionarios dão seu depoimento sobre a resistencia dos combatentes brasileiros à Ditadura. Entre os depoimentos sinceros e emocionantes (...) há tambem o de Darci Rodrigues. Este ultimo me chocou ao repetir a cantilena mentirosa e falsa, de que o campo de treinamento da guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira no inicio dos anos 70, no interior de São Paulo, foi entregue pelo quem ele chama de traidor, Celso Lungaretti.

"É mais que a hora, de exigir dos produtores e diretores do documentario que façam, em nome da verdade histórica, o esclarecimento que historiadores como Jacob Gorender e a própria vida ja fizeram: Celso Lungaretti não foi o delator que entregou o local do treinamento para a repressão. Como esta informação se tornou publica e abrange, atraves do documentario exibido no 'Canal Brasil' e outros veiculos, fórum de seriedade histórica, é necessário mais uma vez isentar o Lungaretti desta perfidia e se for o caso, até entrevistarem o Celso e outros companheiros da época, para apontar o verdadeiro delator daquele fato.

"As torturas barbaras e humilhantes que nós revolucionarios fomos submetidos nos porões da ditadura, devem ser denunciadas sempre, assim como a verdade dos fatos que elas originaram. Se alguns e não foram poucos, fraquejaram e abriram companheiros e ações, os fatos devem ser esclarecidos. Mas uma mentira não pode destruir a reputação, a honra, a vida e a coragem de quem teve a audacia e o desprendimento humano de enfrentar, armados ou não, o aparato selvagem da ditadura.

"Dou meu depoimento publico da honestidade e coragem histórica de Celso Lungaretti...".
Passei exato um mês esperando que os responsáveis pela acusação, a partir dos e-mails que lhes enviei, dessem uma solução digna ao episódio. Como nada fizeram, só me resta tornar público o que houve, deixando aos leitores as conclusões.

Preso em instalações militares e impossibilitado de me defender, fui em 1970 acusado pela Vanguarda Popular Revolucionária de haver delatado a área na região de Registro (SP) em que Carlos Lamarca e outros militantes treinavam guerrilha. A repressão deslocou milhares de soldados para lá, mas alguns companheiros escaparam como civis, outros embrenhando-se nas matas. A fuga destes últimos, comandada por Lamarca, foi, indiscutivelmente, uma das maiores proezas militares da História brasileira.

Quando fui libertado, nada havia mais a fazer. A falsidade passava por verdade e eu não tinha como conseguir provas para sustentar minha versão, nem tribunas para apresentá-la, em meio à censura e à intimidação reinantes.

Quando a engrenagem de terrorismo de estado começava a ser desmontada, fui entrevistado por veículos como a revista IstoÉ e o jornal Zero Hora (RS), relatando, então, as torturas sofridas durante os dois meses e meio que passei incomunicável nos cárceres da ditadura e que me causaram uma lesão permanente.

Mas, o foco dessas reportagens não era o episódio de Registro e, como eu ainda não conseguira nenhuma prova de minha inocência, não insisti para que delas constasse minha refutação.

Em 1994, no entanto, Marcelo Paiva fez-me tal acusação nas páginas da Folha de S. Paulo e eu não poderia deixar de exigir direito de resposta. Travamos polêmica e eu expus pormenorizadamente o que eu realmente fizera e os fatos de que tinha conhecimento.

Ainda sem provas, era minha versão bem sincera do que se passara:
  • participei da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilhas à altura do km. 254 da BR-116;
  • a área foi considerada inadequada e abandonada em dezembro/1969;
  • voltei para o trabalho urbano exatamente por desconhecer a localização da área seguinte, na qual o trabalho prosseguiu (caso contrário, por motivos de segurança, não poderia ter saído de lá);
  • ao contrário do que o Lamarca me fez crer, a área 2 não se localizava a centenas de quilômetros de distância, mas apenas a 16;
  • em abril/1970, ao ser preso e muito torturado, revelei a localização da área 1, por avaliar que seria informação inútil para a repressão, mas serviria para eu me recompor e ganhar tempo, enquanto preserva informações realmente importantes;
  • talvez, como Marcelo Paiva sustentou, a partir dessa área 1 tivessem descoberto alguma ligação com a área 2, mas a responsabilidade, aí, seria de erro cometido pela própria VPR na instalação dos campos.
Em 2004, a prova que tanto me fazia falta finalmente caiu nas minhas mãos, quando Ivan Seixas, em seu site Resgate Histórico, publicou um relatório secreto de operações do II Exército, cuja existência eu desconhecia.

Dele constava, explicitamente, a informação de que duas equipes do DOI-Codi foram deslocadas para Registro a fim de apurar minha informação sobre a área 1 e voltaram relatando que não havia mais atividades no local; enquanto isso, novas informações, decorrentes de prisões posteriores, forneceram à repressão a localização exata da área 2.

Estava tudo lá, preto no branco. Meu próprio temor de haver contribuído indiretamente para a descoberta da área 2 era infundado. A coisa se passara de outra maneira, felizmente para mim.

Enviei os textos de minha polêmica com Marcelo Paiva e a cópia desse relatório para alguns historiadores. Jacob Gorender, com sua dignidade exemplar, assumiu a responsabilidade de esclarecer o episódio, a partir desse material e de outros documentos sigilosos que informou possuir.

Duas semanas depois, enviou carta à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo, comunicando:
"Na primeira edição do meu livro 'Combate nas Trevas' (...) escrevi (...) que Celso Lungaretti forneceu ao Exército a primeira informação sobre um campo de treinamento de guerrilheiros da VPR em Jacupiranga, no vale do Ribeira. (...) Não obstante, no mês corrente, Celso Lungaretti contatou-me, por via telefônica, para chamar a minha atenção para o fato de que dera a aludida informação sob tortura e sabendo que o campo de treinamento onde estivera se encontrava desativado havia dois meses. O relatório do comandante do 2º Exército na época, general José Canavarro Pereira, co-assinado pelo general Ernani Ayrosa da Silva, sobre a Operação Registro (localidade do vale do Ribeira), confirma que, efetivamente, aquele campo de treinamento fora desativado. Sucede, no entanto, que, quase simultaneamente, chegaram ao 2º Exército informações procedentes do 1º Exército, com sede no Rio de Janeiro, de que um novo campo de treinamento de guerrilheiros, adjacente ao anterior, se encontrava em atividade. (...) A respeito dessa segunda área, nenhuma responsabilidade cabe a Celso Lungaretti, que ignorava a sua existência. Sua vinculação com o episódio restringiu-se, por conseguinte, à informação sobre a área que sabia desativada, fornecida, segundo afirma, sob tortura irresistível."
A publicação desta carta do Gorender na Folha de S. Paulo (ver aqui) abriu caminho para o lançamento do meu livro Náufrago da Utopia (ver aqui). Eu considerei acertadas minhas contas com a História e passei priorizar as lutas presentes, ao invés de ficar remoendo o passado.

Aí foi lançado o documentário Tempo de Resistência, com a insólita acusação do ex-companheiro Darcy Rodrigues. Em meados da década atual, ninguém sequer cogitava traição da minha parte. Torturado com relatórios médicos e lesão para apresentar não pode ser confundido com os cabos Anselmos da vida.

Mandei mensagem ao autor do livro que serviu de base para o filme, Leopoldo Paulino ( leopoldo@leopoldopaulino.com.br ), esclarecendo não só que a acusação era infundada, como que Darcy Rodrigues tinha um motivo pessoal, não político, para fazê-la, sendo que a desavença entre nós dois era conhecida e constava até de livro de um jornalista sobre o período.

Leopoldo Paulino nada respondeu. E, como o documentário teve pouca repercussão nos cinemas, acabei deixando pra lá.

Sua exibição na TV a cabo, entretanto, está atingindo público mais amplo. Então, voltei a protestar, pedindo-lhe que fizesse algum tipo de retificação ou esclarecimento.

Também contatei o cineasta André Ristum ( andreristum@yahoo.com ), diretor do filme, que respondeu:
"Para a realização deste documentário eu e minha empresa fomos contratados pelo Leopoldo Paulino, para executar a obra baseada em seu livro.

"Assim, conforme contrato assinado entre nós, o responsável pelo conteúdo, seja do ponto de vista das informações passadas seja do ponto de vista legal, é o próprio Leopoldo Paulino.

"Eu, até pela minha pouca idade, não poderia jamais me responsabilizar por informações a respeito de uma época que não vivi e pouco conheço.

"Peço então que se comunique diretamente com o Leopoldo, ou com o Darcy...".
Mas, em entrevista posterior à que concedeu para o filme (ver aqui), o próprio Darcy deixou de sustentar a antiga acusação:
"[Darcy] Discorre também sobre o erro de haver levado para o campo pessoas, que não estavam totalmente convencidas dessa necessidade e de outras, que não tinham conhecimento completo da organização. Cita um caso: 'Celso Lungaretti foi para a primeira área, não se deu bem, voltou para a cidade e nem conheceu a segunda' [grifo meu]."
Em respeito à trajetória de luta do Darcy, optei por considerar suficiente este seu reconhecimento da minha inocência. Melhor passarmos uma borracha em acontecimentos tão distantes quanto deprimentes.

Quanto a Paulino, falhou como revolucionário, pois foi duas vezes alertado de que cometia uma injustiça contra outro revolucionário e em ambas se omitiu: nem corrigiu seu erro, nem sustentou sua posição. Apenas calou.

E falhou como escritor que pretende historiar a resistência, já que não teve a mínima preocupação prévia de ouvir quem sofria grave acusação, nem se dispôs a apresentar o outro lado quando isto lhe foi depois formalmente solicitado.

Segundo um jurista que me-é solidário, caberiam três providências legais neste caso, que poderiam até ser tomadas simultaneamente:
  1. "a formalização de um pedido de direito de resposta ao Canal Brasil, que foi o veículo pelo qual esta afronta à sua imagem foi desferida";
  2. "o pedido judicial para que este documentário seja editado, sob pena de sua execução em território nacional ser proibida, com cominação de multa caso a ordem venha a ser descumprida";
  3. "o pedido de reparação por danos morais, contra os produtores do documentário e o próprio difamador, já que tal veiculação já está lhe causando problemas e constrangimentos".
Mas, depois de haver lutado tanto por uma noção mais elevada de Justiça, estaria faltando com meus princípios se recorresse a uma instância do Estado que execro, contra outro ex-militante da resistência.

É no tribunal das consciências que tais atitudes devem ser julgadas. Então, preferi apenas expor os fatos, para que cada leitor tire suas conclusões e, se quiser, tome alguma atitude.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

REVOLUÇÃO x DIREITOS HUMANOS: CONVERGÊNCIA OU ANTAGONISMO?


Prezados amigos

A ingenuidade mostrada pelo Lungaretti no artigo abaixo chega a ser comovente...

Acreditar que os GOLPISTAS hondurenhos, civis e militares, sejam julgados pelos mesmos tribunais que afastou Zelaya da chefia do poder executivo sem qualquer acusação VERDADEIRA é ser muito, mas muito INGÊNUO.

Acreditar numa organização (Anistia Internacional) que defende a legalização das eleições FRAUDULENTAS de Honduras e que espera que o BENEFICIÁRIO dessa fraude julgue alguém, vai às raias do RIDÍCULO. Aliás, em comentário anterior mencionei qua a AI é patrocinada pelo que há de mais CANALHA no mundo ocidental: a NSA (National Security Agency, USA) e a AIPAC (lobby sionista nos EUA) além de outras organizações de interesses privados do mundo ocidental.

A simples postura de PEDIR algo a um governo(?) ilegítimo já mostra reconhecimento internacional de um GOLPE de estado e reconhecer como poder legítimo um OPORTUNISTA como Porfírio Lobo.

As assertivas acima tornam o artigo abaixo simplesmente RISÍVEL e, pior, digno de COMPAIXÃO por uma pessoa que sempre, ou quase sempre, se colocou ao lado dos desvalidos e despossuídos nesta nossa luta pela emancipação da Pátria Grande.

Abraços a todos e nosso pesar pelo Lungaretti ter caído na esparrela da AI.

Castor Filho

* * *

Castor,

espero que desta vez você conceda espaço para o contraditório, disponibilizando a seus leitores aquele "outro lado" que a grande imprensa aboliu.

Parece-me que um de nossos objetivos na internet é exatamente o de resgatar as boas práticas jornalísticas, ocupando o espaço que a mídia patronal deixou vago. Mas, não será com simplismo e sectarismo que vamos lograr tal objetivo.

A Anistia Internacional é exatamente o que eu disse que é, a principal ONG que atua mundialmente na defesa dos direitos humanos.

Quanto a patrocínios, vêm de quem se dispõe a oferecê-los; o importante é se eles implicam ou não contrapartidas incompatíveis com o escopo do patrocinado.

Decerto, há instituições para as quais ter seu nome associado à respeitadíssima AI significa um reforço tão significativo de imagem, que este é o único retorno que colhem do patrocínio.

Você alega que um lobby sionista nos EUA patrocina a AI. E daí? Eu não darei a mínima, enquanto a Anistia estiver produzindo relatórios e adotando posicionamentos tão críticos às práticas de Israel como o que recentemente noticiei (Anistia Internacional acusa: Israel monopoliza água potável em Gaza) e como estes outros:
Israel/consciências aprisionadas: jovens estão presos por se negarem a prestar o serviço militar

Israel/territórios palestinos ocupados: acesso imediato dos trabalhadores humanitários e observadores essenciais

Israel/territórios palestinos Ocupados: é preciso investigar imediatamente o bombardeio israelense a um prédio da ONU em Gaza

Israel/territórios palestinos ocupados: nova investigação traz esperanças às vítimas de crimes de guerra

Israel/territórios palestinos ocupados: é preciso proteger a população civil de Gaza e de Israel

É necessária uma voz européia mais firme para desbloquear a crise humanitária do Oriente Médio

Israel/territórios palestinos ocupados: Gaza – a investigação da ONU deve ser ampliada

Israel/territórios palestinos ocupados: fim dos ataques ilegais e atendimento das necessidades emergenciais de Gaza

O Conselho de Direitos Humanos da ONU deve ajudar a população civil encurralada no conflito de Gaza
Ou seja, relacionei dez diferentes textos emitidos pela AI, com críticas consistentes e incisivas às atrocidades/iniquidades israelenses.

Nada mais se pode esperar de uma organização humanitária, além de enviar seus observadores para o palco dos acontecimentos e depois pressionar os transgressores com seus relatos, argumentos e autoridade moral. E isto a Anistia faz, exemplarmente.

Você também dá a entender que a AI tenha o rabo preso com uma seguradora estadunidense. Como se explicam, então, os relatórios/posicionamentos abaixo? É só abrir e conferir:
EUA: mensagens contraditórias do presidente Barack Obama sobre as medidas antiterroristas em seus primeiros 100 dias de governo

EUA: a revisão das condições de Guantánamo não aborda importantes questões de direitos humanos

Israel/territórios palestinos ocupados: nova remessa de armas para Israel - o presidente Barack Obama deve deter estas exportações

EUA: os primeiros 100 dias do Presidente Obama em matéria de medidas contra o terror

EUA: os vídeos da CIA demonstram a necessidade de investigar a fundo a “guerra contra o terror”
Ou seja, em todos os episódios envolvendo Israel e EUA que estariam no foco de uma organização de defesa dos direitos humanos, a AI não se omitiu. Fez sempre o que se impunha.

Querer mais do que isto é que constitui ingenuidade. Temos de tirar de cada instituição a contribuição que ela pode dar à causa da liberdade e da justiça social. A da AI é valiosíssima, como nós mesmos pudemos constatar muito bem quando estávamos sendo massacrados pela ditadura militar.

De resto, devem ser consideradas as sábias ponderações do Carlos Lungarzo, militante da Anistia Internacional há três décadas:
"Durante a ditadura de Micheletti houve em Honduras numerosos ataques contra manifestantes pacíficos, estupros, aplicações de tortura, brutalidade policial e alguns homocídios, que não podem ser comparados com a violência defensiva (muito pouca, afinal) dos partidários de Zelaya, que só pensavam em se defender.
"O governo de Lobo, mesmo que seja desagradável para uma visão social humanitária da sociedade, é um fato real, e exigir-lhe que preste conta pelos crimes do governo que lhe facilitou o acesso ao poder é uma atitude de sensatez que visa a punição dos crimes de estado, a não repetição dos mesmos, e a reparação das vítimas. Certamente, muitas pessoas (entre as quais me incluo) preferiríamos pedir a Evo Morales ou Hugo Chaves que façam justiça em Honduras, mas isso é impossível.

"Então, acusar aos que exigem que Lobo não seja complaciente com os criminosos de estado, não significa estar reconhecendo sua legitimidade eleitoral, menos ainda desprezando a resistência: implica admitir que ele tem o poder oficial, e seu governo é o único que pode, neste momento, fazer essas apurações".
Por último, quero ressaltar que não caí em esparrela nenhuma nem vejo a causa dos desvalidos e dos depossuídos como incompatível com a defesa dos direitos humanos. Muito pelo contrário.

Já publiquei vários textos importantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU, da Human Rights Watch e da Anistia Internacional; e continuarei a fazê-lo, sempre que estiverem certos em seus posicionamentos (quase sempre estão!).

Quando meu blogue Náufrago da Utopia completou um ano, em agosto último, já disse tudo que tinha para dizer sobre esse tipo de críticas. Só me resta repetir:
"...enunciei que sua missão seria a defesa dos ideais revolucionários e dos direitos humanos, bem como o exercício do pensamento crítico; e que estas três bandeiras seriam defendidas simultaneamente e em pé de igualdade, jamais priorizando-se uma em detrimento da outra.

"Trocando em miúdos, os direitos humanos não são sacrificáveis às conveniências revolucionárias. Luto por uma revolução que os contemple a todo momento, não por uma que os negue no presente, na esperança de restabelecê-los num futuro que acaba nunca chegando.

"Do stalinismo e da esquerda autoritária estou fora há muito tempo e continuarei apartado pelo resto dos meus dias."
CELSO LUNGARETTI

* * *

Prezado Lungaretti

Em primeiro lugar não existe isso de "outro lado" entre pessoas que lutam por um propósito comum. Outra coisa, não pretendo resgatar quisquer "boas práticas jornalísticas", pois isso NUNCA existiu, não existe e jamais existirá.

O Objetivo Maior da rede castorphoto é DESTRUIR o jornalismo, os jornais e assemelhados, incluindo os JORNALISTAS tal como os conhecemos hoje. Esta é a razão do porquê da rede castorphoto (assim mesmo com letra minúscula) ser uma rede de informação e NÃO uma rede de discussão como tantas outras. E que cresce diariamente...

Nosso trabalho é simples:
- Juntamos montes de endereços (e-mails)
- Dividimos por áreas de interesse
- Dividimos novamente entre 70 colaboradores diretos e 283 colaboradores indiretos (cada um desses colaboradores tem sua própria lista pessoal de distribuição, a qual varia de 150 a 220 e-mails por colaborador).

Temos uma estimativa criada através de informações e práticas de controle que hoje, tão logo transmitimos um e-mail por um dos nossos 25 endereços, incluindo aí minha lista pessoal da qual você faz parte, cerca de 40.000 pessoas terão disponibilizados em suas CPs este e-mail em aproximadamente 60 minutos, em média.
- Tomamos o MÁXIMO cuidado em transmitir apenas mensagens que INTERESSAM aos objetivos POLÍTICOS da rede castorphoto. Quer dizer: NÓS TEMOS LADO e não compartilhamos os ideais pseudo-democráticos aos quais você eventualmente idealizou e/ou pretende ver realizado.

Penso que agora você terá entendido os OBJETIVOS e COMPROMISSOS da rede castorphoto.

Outro assunto: Anistia Internacional

Esta é uma organização semelhante aos Repórteres Sem Fronteiras ou Médicos Sem Fronteiras e a quase totalidade das ONGs de DHs. Isto é, uma organização PAGA, DIRIGIDA E COORDENADA por INTERESSES CONTRÁRIOS àqueles propostos pela rede castorphoto.

A AI, sem dúvida a maior ONG de DHs do mundo, pode produzir quantos relatórios quiser, contratar quantos cientistas puder, alinhar em seus quadros quantos HOMENS DE BOA VONTADE (como você e o Lungarzo, p. ex.) conseguir, mas ela terá sempre um INTERESSE MAIOR e inconfessável: a manutenção do "status quo" no mundo, seja na POLÍTICA internacional (com suas investidas pontuais e segmentadas nas políticas nacionais), seja na ECONOMIA mundial, seja na aplicação do TERRORISMO DE ESTADO. Tudo conforme os interesses de seus PATROCINADORES.

Um parêntese: em 1964 logo após o golpe de 1o. de abril, mês de maio, apareceu no Mackenzie (SP) uma comitiva da AI chefiada por um hindu que falava inglês de Oxford, para DEFENDER e REFERENDAR o golpe de estado aqui na terrinha. E mais, percorreu praticamente TODAS as universidades da cidade (USP, PUC, Sedes Sapientie e outras) num trabalho que pode ser classificado de catequese. Tudo patrocinado pela EMBAIXADA DOS EUA.

Você enviou uma quantidade de RELATÓRIOS, provavelmente caríssimos e realizados por homens mulheres seríssimos, mas que NINGUÉM, exceto uma minoria menos que mínima e que pouquíssimo ou nenhum IMPACTO causará na HUMANIDADE.

A razão é simples: A AI perderia todo o seu patrocínio se comprasse, p. ex., várias PRIMEIRAS PÁGINAS e TEMPO EM JORNAIS TELEVISIVOS pelo mundo para DIVULGAR esses mesmo maravilhosos relatórios que você me enviou. Sabe o porquê? Porque massificar esses relatórios na MÍDIA NÃO INTERESSA AOS DONOS DO MUNDO. Interessa apenas aos INGÊNUOS que acreditam nos belíssimos relatórios os quais, como diria minha avó, serão lidos por "meia dúzia de três ou quatro".

Fico imaginando um desses relatórios nas primeiras páginas do NYTimes, do WPost, do USA Today, do The Times da FSP, do O Globo. Ou como chamada de "capa" do CNN News, CBS News, do JN da Globo etc. etc.

Quer dizer: eles gastam uma graninha para pagar os competentes e sérios fazedores de relatórios maravilhosos e ECONOMIZAM na DIVULGAÇÃO desses mesmos relatórios. Seria e É muita ingenuidade ACREDITAR nessas ONGs de DHs...

Pode ser, é até mais provável, que existam alguns "colaboradores" interessados tão somente na GRANA angariada por essas ONGs do que nos DHs propriamente ditos. Afinal, é apenas uma maneira de ganhar a vida...

P'ra terminar: Honduras é apenas um "prato" entre muitos para o apetite dessas ONGs de araque. Produzir o ÓBVIO é fácil. Nós, da rede castorphoto, distribuímos DIARIAMENTE para INÚMEROS países da AL, Brasil inclusive, os "sites" de Honduras com relatos do povo partícipe da luta contra a Golpe de lá. P'ra que AI ou outra ONG qualquer fazer um "relatório" sobre o que lá ocorre se temos o próprio testemunho do povo local? É o mesmo que acreditar que existe um governo Lobo em Honduras... Pedir algo a um governo que não existe é referendar sua existência. Cadê a seriedade disso?

Seria outro RELATÓRIO GOLDSTONE? Aquele que serviu para Israel, os EUA e toda a direitona "morrerem de rir" do sofrimento do povo palestino...

Caro Lungaretti, sabemos o quanto você penou durante a vigência do golpe militar em nosso país, mas isso não lhe dá "carta de alforria" para servir de "bucha de canhão" para a "maior ONG de DHs no Mundo" totalmente vinculada e obediente aos interesses dos EUA.

E nem mencionei o FATO da expulsão da AI da Venezuela por MENTIR vergonhosamente no "relatório" sobre DHs naquele país...

Abraço

Castor

* * *

Castor,

desde que os movimentos revolucionários surgiram, sempre houve vários lados. A diferença é que com os companheiros de outras tendências discutimos, enquanto aos inimigos combatemos.

P. ex., no nosso caso são evidentes as divergências estratégicas (entre um libertário e um autoritário) e táticas (entre quem pretende desenvolver um jornalismo realmente informativo/formativo/opinativo, na suposição de que a verdade seja sempre revolucionária, e quem pretende apenas fazer panfletarismo de esquerda).

Sua visão sobre direitos humanos é exatamente a dos que os sacrificam em nome de valores que acreditam ser maiores. Como Stalin.

E sua miopia em relação ao Relatório Goldstone e à Anistia Internacional é simplesmente estarrecedora. Com tais preconceitos, a esquerda jamais voltará a disputar o poder nas nações centrais -- aquelas que, por terem as forças produtivas mais desenvolvidas, acabam traçando o caminho que as demais seguirão, segundo Marx.

Ou seja, seus conceitos nos condenam a permanecermos como a vanguarda dos países atrasados. Os meus tentam tornar a esquerda de novo influente nas nações que determinam o futuro da humanidade.

Já o fomos. Poderemos sê-lo novamente. Mas, não com arbitrariedades e truculência, pois os cidadãos civilizados hoje são ciosos de sua liberdade. Não a trocam por caudilhos e homens providenciais.

E, se a sua rede não admite a discussão, viola um valor sagrado para a esquerda resultante da negação do stalinismo, à qual sempre pertenci.

Então, é hora de separarmos nossos trabalhos.

E, como a transparência é, para mim, um valor fundamental, publicarei em meus espaços os quatro textos desta polêmica que você sonegou do seu público. Eu não a sonegarei do meu.

CELSO LUNGARETTI

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

REFLEXÕES SOBRE A 5ª INTERNACIONAL


Num encontro que reuniu, na semana passada em Caracas, representantes de partidos de esquerda de 40 paises da África, América Latina, Ásia, Europa e Oceania, foi aprovada a proposta do presidente venezuelano Hugo Chávez, de constituição da 5ª Internacional Socialista.

Segundo o jornalista Jacob Blinder, "Hugo Chávez sugeriu a Venezuela para ser sede dessa Internacional, que ela deveria vir acoplada com a criação de uma escola de formação de quadros, e que os participantes não deveriam apenas se ater a questões teóricas – mas sim partirem para ações práticas de construir (ou reconstruir) o socialismo no mundo e para que ele tenha vigência no Século XXI".

Para melhor situarmos a iniciativa de Chávez, vale uma recapitulação história.

A 1ª Internacional Socialista foi criada em 1864 por sindicalistas ingleses, proudhonistas franceses, republicanos italianos e marxistas alemães, tendo sido marcada por agudas divergências entre Karl Marx e o anarquista Mikhail Bakunin.

O primeiro defendia um modelo mais centralizador, com um comitê central procurando calibrar o avanço do movimento revolucionário em escala mundial, enquanto Bakunin a via como uma espécie de federação de unidades autônomas, que tomariam suas grandes decisões a partir das circunstâncias locais e não de uma coordenação da luta com a de outros países.

Em 1871, quando a heróica Comuna de Paris foi destruída pela ação conjunta dos reacionários franceses e alemães, o marxismo saiu teoricamente fortalecido no movimento proletário internacional, pois se constatou que fez muita falta um apoio mais efetivo dos revolucionários de outros países.

A burguesia internacional se apresentou unida no campo de batalha e venceu. Com seu brilhantismo habitual, Marx fez desta derrota uma arma contra o autonomismo dos anarquistas: se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito.

Mas, ao anunciar como tarefa da 1ª Internacional estimular a eclosão de novas Comunas como a de Paris, Marx assustou os governos europeus, que passaram a perseguir a associação, forçando-a a realizar secretamente seus congressos seguintes.

Além disto, os ramos mais moderados do trabalhismo (começando pelos ingleses) dela se dissociaram, assustados. Até que, enfraquecida pelas cisões (os blanquistas franceses também debandaram), optou pela autodissolução, em 1876.

REFORMISTAS E "SOCIAISPATRIOTAS" - A semente plantada frutificou, entretanto, na poderosa 2ª Internacional, convocada por Friedrich Engeles, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrados com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. E teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução.

A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário: os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações.

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociaispatriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infraestrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS - Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida no mundo inteiro e, como era previsível, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobrehumana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução saiu dos trilhos marxistas, deixando de conduzir ao "reino da liberdade, para além da necessidade". Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas.

Avaliando que Stalin sacrificava os movimentos revolucionários de países como a Espanha, França e Alemanha aos interesses egoístas da URSS, Trotsky convocou em 1938 a 4ª Internacional, comprometida com os ideais revolucionários puros, inclusive o de que a revolução proletária é mundial e somente assim poderá ser vitoriosa.

Nunca conseguiu ser uma força política verdadeiramente influente, por mais que tivesse razão na maioria das questões. Durante a guerra fria, os revolucionários tendiam a alinhar-se com os polos do socialismo real, mesmo discordando de suas políticas. Quantos não se horrorizavam intimamente com as repressões desencadeadas na Hungria (1956) e Checoslovaquia (1968) mas, mesmo assim, as defendiam em público?!

Então, o papel da 4ª Internacional acabou sendo apenas moral: representava a melhor tradição do pensamento revolucionário, mas pouco conseguia realizar de concreto, além de ser minada por intermináveis disputas internas.

E, com a queda do muro de Berlim, a 4ª Internacional não conseguiu oferecer alternativa ao refluxo revolucionário em escala mundial.

No entanto, continua agrupando trotskistas do mundo inteiro e deverá realizar seu 16ª congresso mundial em 2010.

Olhando as coisas de forma realista, a 4ª Internacional tem existência apenas vegetativa, não cumprindo seu papel de unir as forças revolucionárias do mundo inteiro para uma nova ofensiva global contra o capitalismo.

CRÉDITO PARA A NOVA TENTATIVA - Poderá fazê-lo a 5ª Internacional de Chávez?

Neste momento, os bolivarianos têm a proposta internacionalista mais influente e pujante, daí não ser descabida a proposta de Chávez e nem mesmo o papel que ele pessoalmente assumiu, ao lançar o movimento.

Mas, o grande desafio será fazer dessa associação uma verdadeira Internacional, reunificando o movimento revolucionário. Ou seja, com presença marcante também nos países do 1º mundo, onde a aguda contestação das décadas de 1960 e 1970 cedeu lugar à insossa hegemonia direitista, às vezes reforçada pela coopção de partidos outrora comunistas.

O que Marx dizia em 1848 continua valendo: é nas nações de economia avançada que se decide o destino do mundo.

Atacar a corrente capitalista no elo mais fraco, os países periféricos, serve para a sobrevivência e acumulação de forças dos movimentos revolucionários. Mas, não se deve perder de vista que o objetivo maior continua sendo o de colocar a imensa riqueza e potencial produtivo das nações prósperas a serviço da humanidade.

Devemos, sim, dar um crédito de confiança a esta 5ª Internacional, pois é um passo na direção certa.

Só o futuro dirá se vai ou não cumprir seu papel... mas, aos revolucionários cabe sempre arregaçarem as mangas e tentarem direcionar os acontecimentos para o futuro almejado, não ficarem apenas criticando à distância, como sábios no topo da montanha.
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