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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

OLHA O RAPA!





  OLHA O RAPA!
                 (Crônicas da cidade)
                                                                                     Otávio Martins
   Parecia locomover-se mais do que correndo, voava com a sua grande bolsa. Provavelmente, dentro dela toda a mercadoria que sobrara do seu dia de vendas, ali pelo Calçadão. Logo a seguir, deu pra ver a baita caminhoneta da Polícia Militar. Não sabia que a Policia Militar se encarregasse de perseguir vendedores ou comerciantes de rua. Camelôs, por assim dizer.
   Tanto a polícia quanto a administração municipal, sabem, perfeitamente – vistas grossas, como se diz no popular – que não seria o imposto daqueles camelôs que tirariam o pé do barro em que a cidade, há muito tempo, o havia enfiado. Há alguns anos atrás, e isso pesa até hoje, muita gente da cidade, os espertos, se quisermos, jogaram todas as suas fichas numa ciranda financeira, proposta por outro, mais esperto ainda. A poupança rendia nem um por cento, e o aplicador da tal ciranda, oferecia quinze a vinte por cento de rendimento ao mês. Teve gente que vendeu até casa. Os maiores, alguns, ainda deu tempo de resgatarem os seus “investimentos”. A maioria, uns pobres coitados. Mas, como diz o povo, o dinheiro cega. O raciocínio era simples, vinte por cento ao mês, em cinco meses, aqueles que venderam suas casas, conseguidas a duras penas, teriam pouco mais do que duas casas. E, se continuassem “investindo” no tal agiota não oficializado (os oficializados são bancos, até multinacionais), juros sobre juros, nem percebiam que o seu dinheiro atingiria volumes tais, que somente, como exemplo, teria, para explicar, que aplicar o cálculo contido numa progressão geométrica. Uma loucura, mesmo. Houve caso até de suicídio.
   Não precisariam ir longe, bastaria entrar – em qualquer uma delas – numa loja ali do centro e, lá dentro, descobririam cobras e lagartos. Então, pra que ficar correndo atrás desses camelôs que, comparados às lojas, são gatos pingados? É só pegar uma loja por dia, com fiscal e tudo, e constatar que o buraco é muito mais embaixo.
   O garotão, num gesto levado pelo seu instinto de conservação, provavelmente, largou o bolsão atrás de uma coluna de um daqueles prédios no estilo Caixa de Fósforos Fiat Lux, modelo cozinha. Esses prédios (edifícios) estão, agora, postados sobre o terreno que outrora pertenceu e funcionava o Mercado Público. O nome já explica. Uma tramóia, onde o tal de poder público, juntando-se ao privado, solapou o tal de mercado. Tudo dentro da “lei”. Deles.
   Passou o rapa, lá por aquela ruela, a qual, antes, fizera parte do Calçadão, e que hoje serve de “atalho” entre as duas vias principais da pequena cidade. Esse atalho, custou, inclusive, para a regalia de seus usuários, uma grande árvore que teve que ser cortada. A tal árvore estava atrapalhando o caminho pelo qual a ruela havia sido projetada. E isso, quer a gente queira, ou não, é um avanço na mentalidade. Pra quem já arrancou o Mercado Público, o que é um rasgo e a eliminação de uma árvore?
  O cara voltou, calmamente, pegou seu bolsão e foi-se embora. Pelo que deu pra se perceber, aquilo era rotina. Mesmo assim, deixo a sugestão de vistoriarem uma daquelas lojas, qualquer uma, ali do centro. Sua caçada seria muito mais proveitosa. 



INÍCIO 


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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

MEU CORAÇÃO/ NÃO SEI POR QUE...

                

MEU CORAÇÃO/ NÃO SEI POR QUE...


Otávio Martins Amaral

   Quando eu trabalhava com o Martinez e o Reis, lá no estúdio de fotografias, na Rua Augusta, logo passando a Antonio Carlos, o Octacílio Amaral, bom de viola, meu primo, através de seu filho o José Otacílio, resolveu abrir uma casa de samba em São Paulo, o bar recebeu o nome de Carinhoso, em homenagem ao Pixinguinha e João de Barro (o Braguinha). O local havia sido uma garagem de um prédio, cuja frente dava para o Viaduto Maria Paula, ao lado de um restaurante espanhol (tinha uma Paella muito boa) de frente para o Estadão. A garagem, que transformamos em bar, ficava na Álvaro de Carvalho, 190, quase debaixo do viaduto 9 de Julho. A decoração ficou por conta de imensas fotos feitas pelos dois, Martinez (judeu argentino) e o José Reis (um grande fotógrafo), amigo do Thomaz Farkas, da Fotóptica. Ficaram lindas as fotos que decoravam o Carinhoso: minhas mãos serviram como modelo, tocando violão; uma, enorme, afixada em uma coluna (redonda), com uma relação dos grandes violonistas de todo o mundo; também, a partitura de Carinhoso, música do Pixinguinha, um dos maiores compositores brasileiros.
  

 O Amaral (Octacílio Amaral) aparecia lá só para tocar o seu violão, relembrando marchinhas, junto com o Casanova, que escrevia sobre música, numa coluna do O Estado de São Paulo. Falar em jornal, o Shopping Neews, um pouquinho acima do Carinhoso. Abaixo, uma garagem, com elevador e tudo, ao lado do boteco (sujinho) do japonês e mais abaixo, ainda, uma boate (inferninho) dum outro japonês. A portaria ficava a cargo do Tobias, de terno e quepe, como mandava o figurino. Mais acima, no comecinho da Avanhandava O Jogral, bar ou boate, do Luis Carlos Paraná. Lá, eu assisti Clementina de Jesus acompanhada pelo violão do Turíbio Santos e outros grandes nomes da MPB.
 

Isso foi em 1968/69. Durou até 1972. Muita gente boa da MPB passou pelo Carinhoso. A maioria se apresentava no Jogral e dobrava no Carinhoso, nos fins de semana. Primeiro time de músicos da noite. A direção artística, a cargo do Maestro e violonista gaúcho, Zé Gomes. O Zé tocava, entre outros instrumentos, violão. Além de clássicos, Bossa Nova (solista) e tudo mais. Era um ótimo músico. Até um painel de artes plásticas ele fez lá no Carinhoso, no fundão. Era um artista, em todos os sentidos. Sempre fumando, usando a sua piteira, que tinha um filtro, não sei pra que.
   

Tinha o Celso Miguel, o Barbosinha, o Jorge Costa (Triste madrugada foi aquela...), o Swing (tocava o seu Reco-reco e, ainda cantava), Mauricy Moura (aquele que fez sucesso com A Professorinha do Ataulfo Alves). E, um monte de músicos, da pesada. Macumbinha, Toninho Ramos, Régis. O Waltão (inventor da Timba), Pedrinho Miguel (só tomava licor, grande prejuízo para o Carinhoso), Marinho batera, Mil e Uma Noites da Cuíca (lembro quando os americanos pisaram na lua, ele foi taxativo: “Isso é tudo mentira, filmado nos estúdios de Hollyood”, com o seu terno branco e lenço de seda, azul. Impecável. O Jacy, baixo de pau. O Bira do atabaque e o Luis Carlos, pandeiro, depois foram tocar com o Benito de Paula, que também cantava lá no Carinhoso – dobrava no Lapinha, do Roberto Luna, logo que subia o Viaduto 9 de Julho. Magrinho, subia e descia as escadarias do viaduto, com um pé nas costas. Quando tinha uma graninha mais, íamos ao Papai da Aurora, terça para quarta, feijoada e, de quebra, O Cauby, que só dizia CON-CEI – ÇÃO..., do jeito que está na música, alegrava o fim de noite de todos nós. Ditinho do Cavaco, Evandro e seu Regional e, ainda, o Manezinho da Flauta, sobrinho de Pixinguinha. Tinha, também, o Filó e seu irmão, o Celso Machado, tocando violão clássico. Também as cantoras, Márcia, mulher do João; Cláudia Regina (tinha a mania de imitar a Elis); Não lembro mais. O maitre era o Vieirinha, grande figura da noite paulistana.
  

 O Amaral havia gravado um LP na Rosemblit, “Sua Excelência, o Violão”, na cidade do Recife, em Pernambuco. Solista de violão, do primeiro time, somente um músico o acompanhou, o   ..... Esse cara, amigo em comum de outro gaúcho que, de vez em quando, aparecia com ele lá pelo Carinhoso, era o Lupicínio Rodrigues. Também, um autor importante, esse, do teatro brasileiro, o Plínio Marcos, que se apresentou num show junto com os sambistas Zeca da Casa Verde, Silvio Modesto, Talismã, Toniquinho e o grande e inesquecível Geraldo Filme. Os melhores sambistas de São Paulo passaram pelo Carinhoso. 

*mais crônicas de Otávio Martins Amaral em :
 http://balaacobaco.blogspot.com.br/search/label/CR%C3%94NICA#.VjuVRpeyimI

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ - Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro




DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ

Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro

A gente vai junto, prum lado ou pro outro. Cair, jamais. É o que se pretende. Mesmo quando sentimos muito frio. Este, até na alma.

Lá no salão onde costumávamos frequentar, tanto no inverno quanto no verão, assim que o uísque começasse a subir, partíamos para os boleros, ninguém desconfiava. Íamos, os dois, para um lado e, em seguida, para o outro. Sempre no ritmo de bolero. De preferência “Dois pra lá e dois pra cá”, do João Bosco e do Aldir Blanc, imortalizado pela maior intérprete deste País, Elis Regina. Se a gente se desgrudava, nossa, seria, na certa, um desastre, um pra lá e outro pra cá. Cairíamos no meio do salão. Não ajudariam, nem se importariam. Apenas iriam rir.

Uma vez, não lembro onde, escrevi: É na estrutura do ziguezague que o bêbado se garante. Tampouco lembro se copiei de alguém.

Voltando àqueles dois, um, até crooner já foi, dizem; mineiro. O outro, carioca, tipo carnavalesco circunspecto, pasmem, além de escrever essas letras para músicas y otras cositas más, ainda ex-baterista e psiquiatra. Durma-se com o som desses dois.

Pra falar a verdade, eu dependia dele e, ele, de mim. Éramos unha e carne na arte de dançar, ou, de equilibrarmo-nos. Se eu estivesse aflita, ou ele aflito, vá que o coração, de qualquer um de nós, disparasse feito aquele instrumentozinho que o rapaz lá da orquestra costuma tocar, uma bolinha em cada mão, nos boleros, a gente nem ligava. Às vezes, talvez pelos uísques, poderia, até, parecer que a gente se entusiasmava mais do que os outros, no imenso salão. Nossos perfumes se misturavam a tal ponto que, nem ele e nem eu, tentávamos explicar ou querer saber de quem seria ao certo.

Costumava enfeitar-me para aquelas ocasiões. Não tinha jóias caras. Mas, as bijuterias, eram lindas!

Para ser sincera, mesmo, acho que essas lojas de calçados deveriam, quando vendem esses sapatos, principalmente esses mais baratos, dar, de brinde, um par de band-aids. É quase certo que aquele calo que bem o conhecemos, o sapato novo fará lembrá-lo, ou fazer-nos lembrar de algum aperto por que passamos.

Foram tantos uísques com guaraná que acabei me acostumando com a parceria. Chego a escutar, em meio aos meus delírios: “São dois pra lá, dois pra cá”.

 

Bagé, 16 de junho de 2015.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

SÓ PRA CHATEAR - Crônica de Jackson M. de A. e do Pandeiro

                  
        

SÓ PRA CHATEAR
 

Crônica de Jackson Machado de Assis e do Pandeiro


   Eu mandei fazer um terno/Só pra chatear... Não, isso é da música do Hermínio Bello de Carvalho e do João de Aquino (primo do Baden Powell, acho. Por isso Baden Powell de Aquino). O que eu quero falar, mesmo, é dessa coisa que a gente tem de incomodar os outros. Só por incomodar. Será da natureza humana ou é que a gente é que inventa um jeitinho de chatear o próximo? Mas, que incomoda, incomoda.
   Ela vinha não sei de onde e nem por que. Mas, veio. Postou-se ao meu lado, como se eu a tivesse convidado. Bela e faceira. Bela, só pra citar a expressão. Uma verdadeira bruxa. Ou feiticeira, como outros preferem. A maquilagem excessiva.
   De cara, depois de bem acomodada, perguntou:
   - Você é daqui do pedaço?
   Nem respondi. Vocês precisavam ver e ouvir do jeito que ela fez essa simples perguntinha. Um misto de sarcasmo e ironia. Aí, podemos considerar uma mistura de inteligência e maldade. Fiquei mais quieto do que estava antes dela chegar. Só não saí cantarolando naquele momento porque eu estava, justamente, sentado à mesa da qual há anos costumo sentar-me no inferninho do seu Maximino, aqui na Lapa. Já é costume, saio da Biblioteca Nacional, no comecinho da noite e dou uma passadinha por ali, por vezes, até conversamos. Eu e ela. Antes, eu achava que era por acaso, nada, é só para vê-la.
   Precisava ser daquele jeito? Conhece-me há anos e fazer tal pergunta, como se eu fosse um estranho. Um qualquer. Ela sabe, muito bem, que a profissão dela é assim mesmo, há milênios, dizem. Quem sou eu para discriminá-la?
   Como eu não respondi à sua primeira pergunta, foi em frente no seu questionário, próprio para o ambiente. “Do jeito que você é corneado, parece, até, que nem vem lá da Favela”.
   Foi o que bastou! “Nunca mais repita isso”, eu falei. Levantei e fui-me embora, deixando-a falando sozinha.
   Nem contei que havia comprado uma casinha ali mesmo, na Lapa, bem próxima a casa dela. Sai cantarolando a letra da musiquinha lá de cima, do Hermínio e do João de Aquino:
   “... Mas vou morar na Lapa perto dela. Só pra chatear”.







Assis Valente com Arcos da Lapa ao fundo

























Fonte: Google Imagens

sexta-feira, 5 de junho de 2015

MEU LIMÃO MEU LIMOEIRO, MEU PÉ DE JACARANDÁ...- Otávio Martins




MEU LIMÃO MEU LIMOEIRO, MEU PÉ DE JACARANDÁ...

Otávio Martins

... E por aí vai. 
 
Ouvi falar que um bom braço de violão, nacional, era feito com Jacarandá da Bahia. Eu tinha um Di Giorgio, com um braço de madeira escura. Eu, pra valorizar o meu violão, sempre dizia que o braço era de Jacarandá da Bahia. Todo mundo respeitava o meu violão, principalmente porque ele tinha o braço feito com o legítimo Jacarandá da Bahia. Pela cara, eu logo via, dava ibope. Então, daí pra frente, eu sempre repetia: é... o meu violão é com o braço feito de Jacarandá da Bahia.

Se eu tocava bem, ou não (como diria o Caetano, também da Bahia) não importava. O que dava peso, mesmo, era o braço do meu violão. Lembrei de um monte de coisas de músicas que falavam da Bahia: “Bahia, terra da felicidade...”; “No cais dourado, da velha Bahia...” e, não poderia faltar uma do grande Geraldo Pereira: “... baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/E deixa a moçada com água na boca...” e muitas outras. Claro, que tudo isso, já fazendo parte do imaginário brasileiro, dava mais peso, ainda, ao braço do meu violão, o qual era de Jacarandá da Bahia. Até hoje – já nem tenho mais o meu violão – não sei se, realmente, a madeira do Jacarandá da Bahia é boa. Nem sei se chega aos pés da madeira de dar em doido, como disse, uma vez, o Geraldo Vandré, vai descer até quebrar/É a volta do cipó de aroeira/No lombo de quem mandou dá. Mas, impunha respeito. O violão que eu vendi, foi muito valorizado, principalmente porque o seu braço era de Jacarandá da Bahia.

Nem iria falar nada disso, é que me lembrei de uma música, assim, do nada: “Meu limão, meu limoeiro/Meu pé de Jacarandá/Uma vez tim – do - lelê/Outra vez tim – do – lalá”, o resto eu não lembro mais. O que eu iria falar era do limoeiro que tinha no quintal da minha casa, no meio de uns pés de araçá; uns, eram amarelos e, outros, vermelhinhos, lá em Rio Grande, bem pertinho do mar, em frente à Mangacha (puteiro, dos bons). Meu pé de Jacarandá, vinha por conta dessa música que cantei aí acima. Como eu gostava de fazer uma limonada com os limões que arrancava do pé do meu quintal. Era espremer os limões, um pouquinho de água gelada e umas colheradas de açúcar, e pronto. A comida descia numa boa. Hoje, lá em casa só dá Coca-Cola, Fanta, e outros refrigerantes, tudo uma merda só. Trocando em miúdos, merda da mesma latrina.

Acho que nem os braços dos violões são feitos mais de Jacarandá da Bahia.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Saindo pelos dedos - Otávio Martins Amaral

                         




SAINDO PELOS DEDOS

                               
Otávio Martins Amaral


   Nem a morte escapou. Foi lembrar que a Marcha Fúnebre era de Chopin. O Frédéric fez de tudo, até isso. Tão imortal quanto mortal. Confesso que me acertou nesta tardinha de domingo de maio. Mês das mães, das flores, dizem que é mês de Marias e sei mais lá do que. Acho que falta pouco, nunca estive tão sozinho (acho que é do Vinícius, com o Chico).

   Mestre do piano, todo mundo sabe. O que ainda não haviam descoberto (vou revelar, agora) é que mandava seus recados pelas pontas dos dedos. Essa Marcha Fúnebre, ai, ai, ai. Ta tocando alto, será pra mim? E como é grande. É de morte, mesmo.

   Logo a seguir, adivinhem, o Nocturno n.2, dele, também. Assim é pra matar!

   Manda suas mensagens através das pontas de seus dedos. Parece ser algo enigmático. Não é. Sabe tudo de piano. Portanto, claríssimo. Disso ele manja. E faz da gente gato e sapato. A marcha, parece, voltou. Ela, justo ela. Assim, é pra matar.

   Por vezes, mostra-se afável. Logo a seguir, mostra as garras. Bem, ao ponto de fazer uma marcha fúnebre. Boa coisa ele não é.




Estátua de Chopin no Parque Łazienki em Varsóvia.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fr%C3%A9d%C3%A9ric_Chopin









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sexta-feira, 22 de maio de 2015

E O MUNDO NÃO SE ACABOU - Otávio Martins



E O MUNDO NÃO SE ACABOU

Otávio Martins


Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar


Pela rua, distraído, comecei a cantarolar o samba “E o mundo não se acabou”, do Assis Valente. Uma viagem no tempo. Até agora, nada. Preocupação que só acabará pensei, se o mundo, realmente, se acabar.

Vali-me da experiência do Assis Valente, logo que começaram, novamente, a anunciar que o mundo, em 2012, lá pra dezembro, irá se acabar. Não vesti maiô; não beijei a quem não devia; não perdoei ninguém – trago-os na conta, ainda. Isso tudo ia “acontecendo” enquanto eu ia caminhando por aquela rua deserta, durante uma madrugada quente. Tão confusa a situação, que eu mudava de ideia a todo o momento. Muitas dúvidas. Por alguns momentos, dava a impressão que eu estava passeando pelo fim do mundo. Para confundir-me, mais ainda, lembrei que algumas pessoas costumam dizer que aqui, onde moro, é o fim do mundo. Com essa afirmação, quase deixei pra lá. Afinal de contas...

Assis Valente compôs esse samba em 1938. Depois de vinte anos, o mundo não se acabou, porém, Assis Valente resolveu dar cabo ao seu mundo. Na terceira tentativa de suicídio, num banco de praça, ingerindo um pequeno frasco de formicida. Como lhe haviam anunciado e garantido, mais tarde, fez o que fez. E o mundo se acabou. Pelo menos pra ele.

Por um breve instante lembrei-me de quando deixei São Paulo. Ali no bar do Zé, na Maria Antonia, tinha muito neguinho sumindo, fiquei com o fiofó na mão e me fui, sem muito pensar, passar uma temporada na Cidade Maravilhosa. Cidade de Assis Valente. Lá, ninguém me conhecia. Pelo menos não precisava andar me cuidando, feito um louco, apreensivo. De cara, fui trabalhar numa fábrica de confecções (roupas de praia), perto do Campo de Santana; na Rua da Constituição. Eu, hein? Tinha um cara lá, duma religião qualquer, que nem lembro o nome; meu colega de mesa, super-religioso.

Minha função? Notista. Eram os calções, sungas e outras coisas, que eu ia colocando com o preto no branco. Depois, era só entregar e receber. O cara, acho, tentando me assustar, dizia que o mundo estava por se acabar.

Numa tarde, depois do trabalho – costumava ir para a Biblioteca, ali na Cinelândia – foi eu pisar o pé naquele espaço, uma “manifestação” relâmpago. Anunciavam os sujeitos que teria uma passeata monstro. Depois, conhecida como a dos cem mil. Diziam que era pra acabar com a “revolução”. Nem o mundo se acabou, nem a revolução. Veio

E O MUNDO NÃO SE ACABOU

o tal de AI 5. Depois, pior, um conterrâneo meu (Bagé – RS), na sequência, meteu os pés, com coturnos e tudo, pelas mãos. Isso era 1968, trinta anos depois que o Assis Valente havia feito o seu samba, E o mundo não se acabou. Provavelmente, ali por perto, Rua da Lapa ou Largo do Estácio, talvez. Sei, não. Acho que é por causa daquela turma do Noel, ligo todos os sambistas à Rua da Lapa ou ao Estácio.

Deixei o Assis Valente pra lá – os compositores brasileiros, a gente nunca sabe se estão falando sério, vivem inventando coisas... – fui direto para o mais comentado de todo mundo. “Estive” lá pelos meados do século XVI. Nostradamus. Esse está escrito em tudo que é lugar sabia das coisas. Do seu tempo e dos tempos que ainda, até o dia em que o mundo se acabasse, viriam. Catei nos nichos da minha memória o que eu já tinha ouvido, ou lido, sobre esse cara. Considerado o maior profeta de todos os tempos. Não deixou pra ninguém. Falava, parece de coisas concretas. Não em crenças, ou invencionices. Até os Maia consultei. Claro, pesquisei outros. Uns garantiram, até, que outro mundo teria quando este se acabasse. Uma espécie de mundo eterno. Infinito. Não é como o amor, na visão do Poetinha, “que seja eterno enquanto dure”. É infinito pra mais de metro; o eterno de certos profetas, até para alguns poetas. Umas simples noções sobre o apocalipse, também me inteirei. Porém, nada que preocupasse muito. Ainda, trazido por uns reles cavaleiros. Não chega a meter medo, pra valer.

Eu estava - falando sério - preocupado e ensimesmado com a ideia do fim do mundo, propriamente dito. Tenho lido e estou perfeitamente informado, jornais, revistas, TVs, rádios, Internet e, até, no boca a boca; todos são unânimes – batata - 2012 é o fim. Já nem faço mais planos para 2013. Caso o mundo não se acabar em 2012, nem sei o que será de mim. O fim do mundo, em 2012, será a minha tábua de salvação. Tem gente que, por qualquer coisinha à toa, exclama: É o fim do mundo! É só força de expressão. Por vezes, dizem só por dizer.

Pelos meus cálculos, com base nas profecias desse tal de Nostradamus, os Maia, e outros, não precisarei nem me preocupar em ir reservando alguns trocados para presentear os meus parentes e amigos no “próximo” Natal. Ontem, saí dos eixos, total... Comprei uma garrafa de uísque importado. Larguei os nacionais. Economizar, pra quê?

Pensando assim, lembrei-me duma outra do Assis Valente, “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...”

Mesmo que 2013 venha, apesar de todas essas profecias, será, sem dúvida, um ano inteiro de muito azar. Treze, com um zero à esquerda, é treze, mesmo. É esperar pra ver. Ou bater, três vezes, na madeira. 

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SINUCA DE BICO - Jackson Machado de Assis e do Pandeio – Otávio Martins


Adoniran Barbosa


SINUCA DE BICO


Jackson Machado de Assis e do Pandeio – Otávio Martins



Ainda não consegui sair desta sinuca de bico. Mas, nem por isso me sinto derrotado. Sair de uma sinuca de bico é como acertar numa centena no jogo do bicho; uma contra novecentas e noventa e nove. A chance de ver alguém sair de uma sinuca de bico, já se pode considerar um privilégio. Talvez, para se entender melhor, seja necessário evocar um samba de Noel: “... Batuque é um privilégio/Ninguém aprende samba no colégio...”. Do contrário, eu e alguns amigos meus, que varáramos as noites, jogando por aí, teríamos aprendido a superar essa dificuldade da sinuca.

Ter assistido a uma partida entre o Praça e o Carne Frita (duas feras do pano verde), também, pode-se considerar um privilégio. Tudo aconteceu numa sinuca que ficava ali na Ipiranga, quase esquina com a São João, em frente à banca de jornal. Anos sessenta. Para adentrar a sinuca, propriamente dita, teria que passar por um corredor com suas oito cadeiras de engraxates; quatro de cada lado; colocadas acima do nível da passarela. Na altura do chão, os engraxates, no alto, os clientes.

Numa fria madrugada de agosto, formávamos uma plateia de uns quinze amantes do jogo, o qual se desenvolvia sobre o pano verde de uma bem postada mesa, sustentada por seus possantes seis pés. Foram mais de dez minutos de suspense. O Carne Frita colocou o Praça numa verdadeira sinuca de bico, naquela mesa do meio; caçapa do canto, à direita.

O Praça era um dos maiores nomes da sinuca nessa época. Lembro, também, do Rui Chapéu. Grande figura e, ainda, um taco de respeito; tinha um estilo próprio, até mesmo para passar o giz. O Carne Frita, sem comentário.

O Praça, com a ajuda do seu taco e algumas miradas, de um olho só, quase encostando o rosto na lateral da mesa, media, ou calculava, as tabelas e efeitos que seriam necessários para sair daquela situação criada pela quase malícia do Carne Frita. Parecia que a bola branca havia sido colocada com a mão. Eu acho que todos os outros, suavam frio durante aqueles dez minutos que pareciam intermináveis. Conjecturas imagino, mirabolantes; silenciosas, a que o Praça se obrigava.

Uma verdadeira tacada de mestre. A bola rodopiou sobre o próprio eixo, imaginário, na largada; pegou um efeito diabólico. Seis tabelas e bola. Exatamente como ele havia cantado:

- Seis tabelas e bola – ainda por cima, matou a bola seis, a rosinha, na caçapa do meio. Com oito pontos à frente do Carne Frita, era o fim. Talvez a maior final de todos os tempos da Sinuca Nacional.

O Carne Frita ficou quase dois meses sem aparecer lá no snooker da Ipiranga. Efeito moral ou, quem sabe, penitência. A verdade é que a sinuca melhor freqüentada da cidade viu-se privada, por todo aquele tempo, da maestria do Carne Frita.

Afora a mesa da sinuca, lembrei de outro quadrado, este formado pelas esquinas da Ipiranga com a Avenida São João. Também garrei a imaginar o que aconteceria, hoje, no coração do Caetano Veloso, se cruzasse por lá?

Escrevendo esta crônica, num breve momento, a memória trouxe-me a lembrança duma antevéspera de Natal, 1980. Tínhamos acabado de sair do Gato que Ri, o Adoniran Barbosa e eu, ali no Largo do Arouche, bem em frente às floriculturas. Falou que gostaria de dar uma esticadinha até a São João com Ipiranga, antes de ir pra casa. Morava lá pro lado do Aeroporto. No restaurante, comemos uma bela macarronada al sugo. Era sempre ele quem pagava. Antes, uma dose de uísque cada um, depois, um cigarrinho. Pegamos a Vieira de Carvalho, costeamos aquele canto da Praça da República e entramos na Ipiranga; ainda olhamos, rapidamente, uns cartazes do Cine Marabá e logo chegamos ao cruzamento. Vasculhou, com o seu olhar, os quatro cantos, já com os olhos marejados; fingi que não vi. Acho que se lembrou de outros tempos. Pra mim, ainda era a mesma esquina. Virou-se, fez sinal prum táxi, já passava das dezesseis horas. Avançamos pela Ipiranga, entramos na São Luís. Depois de passar pelo farol, entre o início da Consolação e a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, chegamos ao final do Viaduto Nove de Julho. Boca da Santo Antonio, quase chegando à Praça Craveiro Lopes. O táxi parou, era o meu ponto de descida. Antes de eu sair do táxi, vejam o que ele fez: meteu a mão no bolso de dentro do paletó – aquele xadrezinho – trazendo, na volta, algum dinheiro. Eu andava numa pindaíba de dar pena. Disse que era a minha comissão do show da Unicamp, o qual iria se realizar no dia oito de janeiro, do próximo ano. Numa formatura, parece. Queria ficar livre do compromisso, completou. Ele foi-se pra casa, com o taxi, deixando-me, ali, com aquele nó na garganta.

Onde era a sinuca, parece que virou um fliperama, depois, uma loja. Os engraxates sumiram varridos pelo efeito Nike, ou Adidas, sabe-se lá. O Bar dos Artistas, lugar onde os músicos da noite, “desempregados” – formando uma grande orquestra em silêncio – ficavam aguardando algum chamado emergencial duma casa noturna qualquer. O Bar dos Artistas, que não fechava nunca, tinha o melhor sanduíche de pernil da cidade, feitos pelos sócios, dois portugueses, virou um bingo, informatizado. Atravesso a São João e não encontro o Jeca, onde, por muitas madrugadas, costumava tomar um caldo verde. Que tristeza! Dizem que passou o ponto pro cara do mate gelado, que funcionava logo descendo a São João, em direção ao Largo Paissandu.

Lembram do esquinão, com aquele baita vidrão, parecendo uma grande vitrine, onde funcionava o Bar Brahma? Havia cedido a um consórcio de carros, ou de motos; nem sei que pôrra é aquilo. O Bar Brahma voltou, depois de um tempo, ao lado, pela São João. Como diria o cubado Silvio Rodriguez, que imortalizou a Yolanda do Pablo Milanês, “És lo mismo, pero no és igual”. Espero que não venha acontecer ali, a cena de sangue prevista pelo Paulo Vanzolini (cantada pela Márcia), numa de suas rondas pelas noites paulistanas.

“Em pé”, mesmo, só o Citibank. Esse eu quero ver tirarem dali, mesmo depois do escândalo dos Fundos de Pensões, onde esteve envolvido até a medula.




UMA VISITA AO PRONTO SOCORRO DA SANTA CASA DE BAGÉ - Otávio Martins Amaral



  UMA VISITA AO PRONTO SOCORRO DA SANTA  CASA DE BAGÉ.

Otávio Martins Amaral




Lá pelas quatro (dezesseis), 12/05/2015, falei com a minha irmã, Neyva. O Ricardo largaria o serviço, aí pelas cinco e viria para irmos até ao Pronto Socorro. Chegamos lá às dezoito horas. De cara um funcionário (simpático, pareceu-me, competente, chamou pelo meu nome e fez o que eles chamam de triagem. Oxímetro na ponta do dedo. Já acusava, também, o batimento: 100. Ele explicou: quanto menos oxigênio, aumenta o batimento cardíaco, O oxímetro acusava 88. Verificou a pressão, disse que estava ótima, 12 x 8. A febre, quase me assustei, apontou uma pistola (de plástico) mandou uma luzinha azul, 36 e pouco, ótima, a temperatura. Novas tecnologias. Logo a seguir, me encaminhou para o oxigênio e para o médico. Dr. Elói. Mandou mais um medicamento, pela veia, na mão, duas horas e meia, sumiu. Era horário da troca de plantão. Ficou outro para fazer, depois, a avaliação, sumiu. Tinha dois mais novos por ali, sumiram. O Ricardo falou com a enfermeira, pelo procedimento, outro médico, já que os outros haviam sumido, faria a avaliação pelo que fui medicado. Sorte minha, que os outros haviam sumido.

Apareceu, como por encanto, uma médica, jovem, acho que foram buscá-la lá não sei onde. Eu era o segundo. Ela disse, ou perguntou: “E, agora, depois da medicação, está melhor?”. Nem cheguei a responder e ela disse: “Vamos fazer uns Raios X. Mais essa! Fui até os Raios X. Um rapaz muito simpático e, me pareceu, bom profissional, mais três mulheres, muito bonitas e jovens. Eu parecia um rei. Quando cheguei à recepção, novamente, a funcionária comentou: Raios X, que rápido! Respondi, brincando, lá eles trabalham, são rápidos. Ela retrucou, nós também trabalhamos. Pensei. É, os médicos é que sumiram. Ela tinha razão.

Fui reencaminhado para a médica que apareceu não sei de onde. Ela fez um curativo no dedo de um senhor e começou a chamar. Pela segunda vez, já havia feito os Raios X, pensei que era à moda antiga. A minha radiografia já estava no computador, ao lado dela. Ela disse, é o senhor está com um começo de pneumonia, vou lhe receitar dois medicamentos. Um antibiótico e um corticóide. Por sorte o Ricardo já estava de volta, passamos na farmácia, compramos os remédios e fui pra casa.

Pensando bem, depois, ela, a médica, a Joyce, fora providencial, me mandando  fazer os tais de Raios X. Pensei em pedir um beijo pra ela. Não beijo de amor. Beijo de amizade. Amizade à primeira vista. Ela disse, antes dos Raios X, que eu estava, ainda, ófegante (foi assim mesmo que ela falou) e, por isso, o tal de Raios X. Rápidos como eles só. Ela, ótima médica. O rapaz e as meninas, pelo jeito, eram os derradeiros Raios-xiqueiros, novas tecnologias vão surgindo e...

Estou tratando de um princípio de pneumonia. A sorte é que os médicos, todos, haviam sumido. Sorte é pra quem tem.




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