terça-feira, 19 de março de 2013

REPORTAGEM SOBRE A JUSTIÇA E AS PRISÕES BRASILEIROS, VERDADEIROS INFERNOS PARA NEGROS E POBRES

Uma Corajosa Manifestação do Juíz Luiz Carlos Valois



O Jornal de Esquerda Causa Operária entrevista um membro da Organização Juizes para a Democracia, Luiz Carlos Valois

Reproduzo essa reportagem por causa de sua extrema importância. Mostra o mundo de horrores e injusticas do sistema, que está entre os mais cruéis e bárbaros do planeta. A situações se agravará aliás, com a reforma Penal

Agradeço de Cristiani e Alejandro por ter-me fornecida este material
 
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"Toda prisão no Brasil é ilegal. Porque se a prisão que está na lei não existe, a que aplicamos na realidade é ilegal "

Juiz da Vara de Execuções Penais no Amazonas e doutorando em Criminologia pela USP, membro da Associação de Juízes para a Democracia e da LEAP-Low Enforcement against Proibition (Agentes da Lei contra a proibição das drogas) fala do sistema carcerário brasileiro

Causa Operária: Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o sistema carcerário no Brasil é um dos mais brutais no mundo e o que mais cresce. Como você vê a situação dos presos hoje no Brasil?
Luís Carlos Valois: É engraçado que cada instituição coloca a culpa na outra, o poder judiciário coloca a culpa no poder executivo, que coloca a culpa no legislativo e cada um fica empurrando o problema para o outro. O executivo achando que o problema é do legislativo que cria leis cada vez mais punitivas e ações cada vez mais severas. O judiciário prende cada vez mais e não olha a situação específica de cada cidadão que está sendo preso. A tendência é cada vez dar penas maiores e prender cada vez mais. O executivo constrói penitenciárias muito ruins, mas constrói. Não em número suficiente, mas constrói. E acha que o papel dele é apenas esse. Então, essa cultura punitivista na nossa sociedade é enraizada tanto no executivo como no legislativo e judiciário. Essa é a primeira causa de termos um sistema penitenciário superlotado e desumano. A segunda causa mais emergente atualmente é a questão da proibição do entorpecente. Existem estados brasileiros onde mais de 50% dos presos são envolvidos com drogas. Ou seja, você pune uma pessoa envolvida com entorpecente que é um ato praticado consensualmente, isto é, uma pessoa comprou e outra vendeu, prática inclusive estimulada por uma sociedade capitalista, quer dizer, consumir, comprar e vender é algo estimulado pela sociedade. Mas você pune exclusivamente os pobres, que encontram um caminho de sobrevivência nesse tipo de comércio, uma sobrevivência com condições mais dignas. E prende também os pobres que consomem, porque os ricos que consomem não são presos. Os ricos que têm grande quantidade sempre são usuários e os pobres são sempre traficantes. Quer dizer, já começa daí uma justiça elitista que está prendendo os pobres em razão de uma atividade estimulada pelo próprio sistema capitalista.

Causa Operária: A superlotação dos presídios chegou a um ponto que, no estado do Espírito Santo, foram utilizados contêineres como celas. Como você avalia a questão dos direitos humanos dentro dos presídios?
Luís Carlos Valois: Inclusive essa denúncia do estado do Espirito Santo foi feita pelo professor Sérgio Salomão Shecaira, professor da USP, quando presidente do Conselho Nacional de Política Penitenciária. É verdade, cada vez mais não existe local para prender. Temos um déficit de vagas, além de termos centenas e centenas de mandatos de prisão na rua para serem cumpridos. Hoje em dia há falta de interesse em investir no sistema; qual é o investimento que há nesse sistema a não ser o de criar vaga? E o que a gente quer? Um depósito de pessoas? Se o sistema penitenciário for apenas isso, vamos continuar criando vagas em um depósito sujo e imundo, como temos feito durante toda a história. Não temos investimento de pessoal, de melhoria de salário dos técnicos e dos agentes penitenciários, de condições de trabalho, de humanização do sistema. E esse investimento de criar vaga vem da cultura do “prender”. Note-se que não basta culpar apenas o sistema, porque a própria sociedade aceita esse discurso punitivista. Causa Operária: Segundo as estatísticas, mais de 1/3 da população carcerária tem HIV. Porque o índice é tão alto entre essa população?
Luís Carlos Valois: Tenho 20 anos de trabalho com presídios e posso afirmar que todas as medidas tomadas em favor da prisão são paliativas. Às vezes um governo de um estado constrói um “hopistalzinho” melhor, mas não passa disso. A instituição prisional em si está falida, prisão não é solução pra nada. Preso perigoso é 5% dos que estão no sistema penitenciário. Na minha opinião, ao restante poderia se pensar numa outra solução não encarceradora. Porque a maioria dos crimes são pequenos furtos e entorpecentes. Tem estado brasileiro que chega a ser 70% de presos por entorpecentes. Além disso, há a cifra negra, ou seja, a quantidade de crimes que acontecem e não são sequer denunciados ou investigados. Apenas 1% do total de crimes chega a ser punido, ou seja, vivemos em um “faz de conta” para satisfazer uma parcela da população, para parecer que o Estado está fazendo alguma coisa pela segurança pública. Com relação aos doentes e às drogas há uma incoerência ainda maior, porque você prende o cidadão na penitenciária por vender droga, por exemplo, e lá ele encontra à venda cocaína, maconha etc. O sistema de saúde penitenciário sempre foi um remendo. Quando há um sistema de saúde em algum estado que atua de forma melhor é em uma ou outra penitenciária, e isso acontece só por seis meses. Depois tudo é abandonado. A prisão é algo tão incoerente que seus administradores se perdem nessa irracionalidade. É sem sentindo você prender uma pessoa para depois querer que ela viva melhor em sociedade. A prisão em si é paradoxal, é uma estrutura corroída. Todo o sistema prisional, de saúde, o de infraestrutura vai ser sempre uma medida paliativa. Nem nos EUA, nem na Inglaterra, nem na Holanda, em nenhum lugar prisão funciona como se idealiza.

Causa Operária: Então a maioria da população carcerária é de pobres e negros?
Luís Carlos Valois: A maioria dos presos são pobres e negros. E com relação às mulheres, se no caso dos homens até 70% dos presos são entorpecentes, no caso das mulheres esse número pode chegar a 90%. Se pudéssemos iniciar uma política contra a criminalização de entorpecente, como eu penso que deveríamos fazer, nós teríamos menos de 50% da população carcerária masculina e menos de 90% da feminina. A população carcerária feminina é feita basicamente dessa injustiça social de prender a mãe, a esposa que fica em casa. Quando a polícia invade uma casa ela não quer saber de quem é a droga, ela prende quem está dentro da casa. E a polícia tende a achar droga mesmo se não tiver, pois se não achar droga depois de uma invasão de domicílio, o próprio policial pode ser punido por abuso de autoridade. Então, a tendência de achar a droga no barraco e na periferia é muito grande depois de uma invasão. Nesse caso a pessoa que fica em casa, que é a mulher, vai ser presa. Se os policiais invadem uma casa às duas horas da tarde e o dono da droga não estiver lá, é a mãe dele quem vai ser presa. Ha vários casos de mãe e esposa presas porque estavam numa casa onde existiam drogas. Essa mulher vai ser presa em flagrante e como traficante. Depois, quando é relaxado um flagrante desses, se for, ela já ficou presa meses ou anos. Todas são pobres. E a maioria negra. Antigamente todo mundo dizia que para ser preso tinha que ter os 3 Ps: “pobre, preto e puta”. Hoje em dia tem que ser MA: “miserável e azarado”. É um sorteio. A polícia seleciona o traficante na rua e essa seleção recai sobre o pobre. Isso sem contar a questão do abandono, porque a mulher normalmente é abandonada quando está presa. O homem quando está preso tem a visita da mãe, da namorada, da esposa. Já na penitenciária feminina é muito difícil ver um homem indo visitar sua ex-companheira. Ela normalmente é abandonada. E a penitenciária feminina tem mais um agravante: foi feita para homens. Ela masculiniza. A prisão é uma agressão três vezes maior para a mulher. Faz a mulher se vestir como um homem, entrar numa cela de homem e sofrer a tortura do encarceramento como homem. A mulher não foi feita pra ser tratada como homem, numa penitenciária feita para homens. Tem necessidades específicas.

Causa Operária: O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, declarou que “preferiria morrer a ser preso em uma penitenciária brasileira”. Qual a probabilidade de reintegração na sociedade? 
Luís Carlos Valois: Meu trabalho de mestrado na Universidade de São Paulo, orientado pelo Prof. Alvino Augusto de Sá, foi sobre essa questão da ressocialização. Muitos tribunais usam o termo “ressocializar” como termo encarcerador. O tema ressocialização é muito perigoso porque é legitimador da prisão. Quando eu digo que a prisão vai servir para alguma coisa eu estou legitimando essa atividade punitiva. Nenhuma prisão no mundo ressocializa ninguém. A pessoa pode se ressocializar sem prisão, com prisão e apesar da prisão. O discurso ressocializador está sendo usado para encarcerar. Na minha pesquisa, em cada 100 acórdãos que usavam o termo ressocialização, 60 usavam para encarcerar, aumentar ou agravar pena, mesmo todos sabendo que a prisão não ressocializa. Como eu posso dizer para um cidadão que eu vou colocá-lo na prisão para ressocializá-lo? Soa até ridículo. Não podemos punir dessa forma, com um argumento desfeito pela realidade. Se chegássemos ao ponto de dizer: “olha, a prisão não é para ressocializar, é para te prender pelo que você fez, para te punir”, seria um grande avanço; contanto que levássemos em consideração o princípio constitucional, fundamento do Estado Democrático de Direito, a dignidade humana. O mínimo que se deveria fazer era respeitar a dignidade da pessoa humana. Isso já estaria ótimo. A gente não respeita nem a dignidade, quanto mais possibilitar a ressocialização de alguém. O que o ministro fez foi ótimo, reconhecer que a prisão brasileira não serve para nada de útil. Se ele conhecesse as outras iria ver que nenhuma serve. Mas o que ele vai fazer agora? Ele é o ministro da justiça, depois dessa declaração ele tem o compromisso moral de deixar o cargo dele ou fazer alguma coisa.

Causa Operária: Temos assistido em São Paulo a um verdadeiro massacre da população mais pobre. Policias chegaram a atear fogo em um garoto após ver que ele já tinha passagem pela policia. Como você vê essa punição, a execução por policias?
Luís Carlos Valois: A pessoa que já foi presa sempre vai estar estigmatizada. Nunca mais vai poder ser ela mesma, nunca mais vai ser livre. Com muita dificuldade ela pode conseguir trabalho, ruim e ganhando pouquíssimo, mas vai estar estigmatizada para sempre. A prisão além de não ressocializar ela estigmatiza. A prisão deixa uma marca para sempre. O que está acontecendo em São Paulo ultimamente é somente a visibilidade maior do que já estava acontecendo há muito tempo. A polícia sempre matou, se a policia está matando de forma mais cruel é porque a violência também está mais cruel. Isso é só uma evolução de muitos anos. O PCC e essas outras organizações de presos nasceram por pura e simples inoperância do Estado. Pense numa escola, numa sala de adolescentes, diga para eles que não vão mais ter recreio, que vão ter que ficar presos em sala de aula por mais tempo além do horário normal, eles vão se rebelar, vão se reunir, faz parte da natureza humana. Essas comunidades carcerárias abandonadas há anos nada mais fizeram do que se organizarem. A gente imagina o crime organizado formado de ricos, no estilo mafioso. Mas o crime organizado é miserável, porque a penitenciária só tem pobres. A polícia não invade um apartamento nos Jardins, mas sim a favela, e tem drogas nos Jardins. O crime organizado só tem esse nome porque o Estado mesmo é cada vez mais desorganizado, incapaz de funcionar como ente que deve promover justiça.

Causa Operária: Como vê a atuação do PCC dentro das penitenciárias brasileiras?
Luís Carlos Valois: Para um juiz eles nunca vão me dizer a forma exata como atuam. Apesar de frequentar o sistema penitenciário, tudo é mais difícil para um juiz perceber. Procuro ser o mais justo possível e tento fazer uma reflexão sobre a violência e ilegalidade do cárcere. Obviamente que eles estão se organizando. Claro que na penitenciária tem celular e drogas. A penitenciária só é regime fechado para a sociedade que quer imaginar estar livre. Eu já tive com presos sob minha jurisdição que foram mandados para penitenciárias federais e quando voltaram me disseram: “Doutor, os presos pobres que vão para essas penitenciárias acabam sendo cooptados pelo PCC. Porque o PCC paga passagem dos familiares para irem visitá-los e paga a manutenção desses familiares.” Então, nem nas penitenciárias federais ditas como de alta segurança é evitado contato, mas sim está fomentando o crescimento dessas organizações de presos. Não é muito o que posso dizer da atuação deles, só o que parece evidente.

Causa Operária: O projeto de reforma do Código Penal prevê a “criação” de cerca de 200 novos crimes, ou seja, qualquer cidadão poderá ir para a prisão. Como você avalia e o que está por trás dessa nova reformulação do Código Penal?
Luís Carlos Valois: Obviamente que o novo código penal está sendo organizado e escrito no embalo da mídia e da cultura punitiva que a gente vive. Não só cria mais crimes como torna muito mais rigorosas as penas da maioria dos crimes. Com esse código penal com certeza vamos ter o dobro da população carcerária nos próximos dez anos. Se hoje é possível colocar 40 pessoas numa cela em que caberiam no máximo dez, e temos mais de meio milhão de presos, imagina depois dessa reformulação. No Amazonas há uma cela assim, feita para dez que possui 40; um dorme em cima do outro, tem rato, barata, é imunda, e toda vez que falo de prisão vou repetir a imundície que é. Esse código penal, parece claro, é para inglês ver, é inaplicável se você olhar para a realidade. Infelizmente o direito não lida muito bem com a realidade. Os juristas escrevem livros de direito achando que o direito é uma ciência independente da realidade, tipo, o cara vendeu entorpecente tem que ser preso; furtou um celular tem que ser preso. Tudo é prisão. Como se a prisão que está na lei de execução penal existisse de fato. Só que aquela prisão que está na lei não existe e o profissional do direito não percebe isso. Ele trabalha com papel; crime tal tem pena tal, e esta primordialmente é a prisão. Ele não percebe que essa prisão do papel não existe. Toda prisão no Brasil é ilegal. Porque se a prisão que está na lei não existe, a que aplicamos na realidade é ilegal.

Causa Operária: Qual a solução que o senhor enxerga para o sistema carcerário brasileiro?
Luís Carlos Valois: Eu antecipei um pouco essa resposta. Como deu para perceber eu não acredito na prisão. Mesmo que você tenha um psicopata, na prisão ele vai ficar pior e sair pior de lá. A prisão não é solução para nada. Não é resposta nem para os piores dos criminosos. Mas é utópico pensar no fim da prisão. Ninguém iria aceitar. Eu sou o juiz da vara de execução e acho que toda prisão é ilegal. Mas se eu chego em minha comarca e solto todos os presos quem vai ser preso sou eu. Teve um juiz em Minas Gerais que soltou todos os presos, porque a prisão estava lotada e era inviável, isso tudo comprovado por perícia; ele foi afastado do cargo. Eu sou juiz, mas tenho filho para criar, não posso perder meu emprego. Sei que a prisão onde mantenho os condenados é ilegal, mas o sistema não aceita que eu diga ou aja de acordo com o meu pensamento. Uma maneira de lidar com esse encarceramento em massa é adotar a política contra a criminalização da droga, defendê-la, como tenho feito. Nem falo em descriminalização, porque quando você fala em descriminalização você está dando como certa a criminalização, e quem foi que disse que criminalizar entorpecentes é certo? Por isso falo em ser contra a criminalização. Ninguém nunca discutiu a razão pela qual foram criminalizados os entorpecentes, aliás, só alguns deles. Discutir descriminalização não é correto, tem que se discutir por que se criminalizou. Eu sou contra a criminalização porque acho a criminalização prejudicial para a sociedade e irracional. Você colocar uma pessoa que vende entorpecentes num local onde se vende entorpecentes é incoerente. Tornar a justiça incoerente e sem capacidade de diálogo é tornar a própria justiça, mais do que injusta, incapaz de realizar justiça.








quinta-feira, 14 de março de 2013

ESCLARECIMENTO SOBRE MEU ARTIGO DE ONTEM SOBRE O PAPA





Esclarecimento sobre meu Artigo “Os Segredos do Santo Padre”


Carlos Alberto Lungarzo
14 de março de 2013
Após a difusão por minhas redes sociais de meu artigo sobre o Santo Padre, recebi numerosos comentários, todos eles muito educados.
Quero, em particular, tranquilizar algumas pessoas que merecem minha máxima admiração e com cuja amizade me honro extremamente, que temem que eu possa ter sido injusto com meu ilustre compatriota.
Alguns simpatizantes da Teologia da Libertação me disseram que eles sabiam que o papa Francisco era uma pessoa humilde, solidária com os pobres, frequentador de favelas e, em geral, uma figura popular que nada tem a ver com o clericalismo aristocrático.
Desejo fazer apenas algumas observações, deixando a promessa de que, na medida do possível, juntarei material, tanto de Internet como impresso, onde minhas afirmações possam ser confrontadas. Nem sempre uma coisa que é divulgada pela grande mídia é verdadeira. A mídia brasileira tem dito que não existem provas das acusações. Entretanto, está se fazendo um jogo com a palavra “provas”. É curioso que uma elite tão americanizada como a do Brasil não acate o exemplo da justiça americana, onde se supõe que algo é verdadeira se está além de qualquer dúvida razoável. Se quisermos provas dos crimes de qualquer ditadura que tenham passado pela medicina legal e se encontrem apoiadas em fotografias, filmagens e gravações, deveremos reconhecer que poucos crimes poderiam ser imputados a alguém, incluindo muitos dos crimes nazistas.
Quero deixar claro que não sou membro de nenhum partido político, seita religiosa, sindicato, corporação ou coisa que o valha, sendo exclusivamente um ativista de direitos humanos e não tendo, portanto, qualquer interesse pessoal a favor ou contra qualquer político, magistrado, religioso ou pessoa pública.
1)   Não falei em meu artigo da caridade do Papa com os pobres, porque isso foi dito pela mídia até a exaustão, inclusive nos veículos mais “neutros”, mas, já que o tema foi levantado até por meus amigos, reconheço sim que, desde que ouvi falar dele (em 2001) soube que o Papa Francisco é uma pessoa simples, que não tem carro, prepara sua própria comida, se veste pobremente, ajuda os favelados, já prestou homenagem a aidéticos, prega a compaixão com doentes e miseráveis e acusa de hipócritas aos sacerdotes que desprezam os marginados pela sociedade. Nunca neguei isso. Por sinal, Bergoglio é conhecido fora da Argentina só desde ontem, e ninguém teria interesse em difamar um desconhecido.
2)   Minha referência ao Papa se refere a um assunto muito específico, que não envolve a relação do Papa com os pobres, com os ricos, ou com os que ganham 10 salários mínimos. O fato é a acusação de cumplicidade no sequestro de dois padres jesuítas da teologia da libertação, Orlando Yorio e Francisco Jalic, em 1976, quando ele era provincial (chefe) dos Jesuítas na Argentina. O Primeiro destes o acusou publicamente.
3)   Em alguns artigos que apresento em meu texto, aparecem relatos detalhados que fazem possível acreditar (ou, pelo menos, acreditar parcialmente) que as testemunhas e declarantes no caso destas desaparições não teriam motivos para mentir. Aliás, as testemunhas seriam suficientes para que uma justiça normal as considerasse como prova.
4)   O novo Papa é acusado também de recursar-se a revelar onde estava uma criança sequestrada, cuja mãe foi morta por tortura pelos militares argentinos, e que foi entregue a uma família rica para ser criada. A mulher assassinada é uma das cinco pessoas desaparecidas da família De La Cuadra, originária da classe média alta da província de Corrientes, limítrofe com o Brasil, que tem um histórico de defesa dos Direitos humanos, especialmente graças a sua matriarca Licha de La Cuadra (1915-2008) que foi condecorada pelo governo democrático.
5)   O Papa foi citado três vezes, nos primeiros anos deste século, para declarar sobre essas desaparições, e se protegeu nas duas primeiras com a imunidade eclesial, equivalente a foro privilegiado dos parlamentares, porque Argentina, para quem não sabe, é o último país onde a Igreja é considerada parte do estado. Na última oitiva, ele compareceu, mas se limitou a dizer que a repressão militar foi violenta, mas foi uma resposta à violência da esquerda. (Não lembro as palavra exatas, mas o conceito era este.)
6)     Que a Justiça Argentina não tenha declarado culpável o Papa, não deveria surpreender. Na Argentina têm sido julgados apenas 200 membros da ditadura. É óbvio, porém, que os que cometeram crimes contra a Humanidade são vários milhares. Um estado de terror não se mantém durante 8 anos com apenas 200 carrascos.
7)     Em meu artigo, não acusei ao Papa de ter sido silencioso e não ter-se oposto à ditadura. Num prestigioso noticiário da TV paga, um analista especializado disse que era verdade que o papa não se tinha oposto à ditadura e, com um gesto que eu penso que foi sinal de embaraço, disse que isso era um fato que não se podia negar. Entretanto, essa passividade do papa com a ditadura não é, na minha opinião, o pior. Não podemos pedir que todo o mundo seja corajoso, porque Deus não dá a todos as mesmas virtudes. O “reconhecimento” de que o papa não esteve num confronto ferrenho com a ditadura me parece uma maneira de simular certa imparcialidade e EVITAR COMENTAR AS COLABORAÇÕES COM A DITADURA.
Se não me engano, tanto em português como em espanhol são coisas diferentes: (1) Não ter o poder ou a vontade para se rebelar contra a injustiça; (2) Ser colaborador voluntário e ativo dos que cometem injustiças.
Quero deixar claro também que estas denúncias estão fora de todo maniqueísmo. Não estou escandalizado porque um alto prelado apoie o fascismo. Sim acho muito esquisito quando conheço um que não o faz.
Só para informação: durante a ditadura militar a Argentina tinha algo como 150 bispos (talvez cinco a mais ou cinco a menos, não lembro direto). Bom, desses, apenas três se manifestaram contra a tortura e o genocídio: Monsenhor Angelelli, Monsenhor De Nevares e Monsenhor Kovac.

Fica ao critério do leitor escolher qual é a melhor combinação:
1)   Ajudar os pobres e consentir com massacres e torturas de inimigos políticos, ou
2)   Não ajudar aos pobres, mas se manter fora da cumplicidade com os que fazem massacres e torturas.

Só a título de curiosidade, desejo lembrar que o Terceiro Reich Alemão favoreceu consideravelmente os pobres, fundou creches, instituiu salário maternidade, criou as férias remuneradas, deu prêmios importantes (como casas e barras de ouro) para as famílias com muitos filhos, substituiu algumas favelas por bairros populares, e outros atos de cristã caridade que, na época, nem os EUA tinham.

OS SECRETOS DO SANTO PADRE



Os Secretos do Santo Padre




Carlos Alberto Lungarzo
14 de março de 2013
Não é um segredo para ninguém o fato de que a totalidade das hierarquias católicas são inimigas da homossexualidade (alheia), condenam o aborto até de fetos anencefálicos (o aborto voluntário é admitido por todos os países Europeus, salvo Espanha), advogam pelo celibato sacerdotal, proíbem o sexo por prazer, consideram a mulher um ser inferior, etc.
Inclusive o aborto e o homoerotismo são criticados pela assim chamada “Teologia da Libertação”, tida como minoria progressista da Igreja.
Tampouco é novidade a histórica aliança de 1700 anos entre a Igreja e as grandes ordens de Cavalheiros e, depois, dos exércitos regulares, o que culminou no século XX com o apoio ao fascismo e a sua versão mais truculenta, o sangrento franquismo espanhol.
Dizer que o novo papa, Francisco, compartilha esses valores seria uma redundância.
Mas há alguns “segredos” na vida do pontífice que nem todos conhecem fora de seu país de origem. De fato, quando ele foi proclamado Papa, milhões de pessoas no mundo devem ter comprado um mapa para saber onde tinha nascido aquele homem de aspecto simpático e humilde, e biótipo de italiano do Norte. É natural que alguns desses detalhes não se conheçam.
Para os que desejem informar-se, há numerosos artigos na Internet, e até alguns livros, cujo conteúdo o próprio Francisco tentou rebater num contra-livro, só em 2010, quando sua condição de um dos grandes favoritos (já insinuada em 2005, quando ganhou o segundo lugar após Ratzinger) se tornou mais concreta.
Os interessados podem ver, entre outros muitos, os seguintes links:



O leitor encontrará também outros textos, alguns escritos por organizações que assinam como católicas. Eventualmente, como em todos os casos, alguns textos podem não ser 100% verídicos, mas eu não estou fazendo uma acusação. Estou apenas informando de acusações feitas por outros, e cabe ao leitor se perguntar: “Qual seria o interesse dessas pessoas em criticar um humilde servidor de Deus?”
A Argentina voltou à normalidade democrática em 1983 quando o então padre Bergoglio estava com 47 anos. Nessa época, o atual papa era reitor do Colégio Máximo San José (da cidade de San Miguel), o maior seminário de formação de sacerdotes da Argentina (1980-1986) após ter sido, entre 1973 e 1979, o principal chefe (dito, na gíria eclesial, provincial) da poderosa e influente ordem dos jesuítas.
Sendo Argentina um país absolutamente católico, sem qualquer miscigenação com religiões nativas como no resto das Américas, e tendo como exceção apenas uma comunidade judia que sempre padeceu perseguição (e alguns evangélicos e islâmicos), tudo o que faz a Igreja foi sempre claramente percebido pelo resto da sociedade. Aliás, ainda hoje, Argentina talvez seja o único país (não sei o que acontece atualmente na Polônia, mas eventualmente poderia ser um de dois casos), em que a Igreja não está separada do Estado. Por exemplo, o Estado paga um salário aos bispos (não sei se Bergoglio o aceita ou o doa), mas já houve um conflito com o Vaticano quando Nestor Kirchner quis tirar a mensalidade de uns 3.000 dólares a um bispo que propôs que o ministro Gines, defensor da camisinha, devia ser linchado.
Em 1983, Jorge Bergoglio, uma figura austera, silenciosa, alheia a chamar a atenção, não tinha nenhuma influência política evidente, mas acumulava muita influência invisível. Ele utilizou essa influência para tentar mostrar um rosto “moderno” da Igreja, modificando a imagem desta como cúmplice qualificado e ativo dos genocídios e torturas generalizadas, que foram comuns na Argentina muitas vezes.
Por que fez isto? Muito simples. Apesar de ter mais de 90% de católicos e da mística medieval que impregna quase todas as instituições da Argentina (pelo menos, até a última vez que eu estive em meu país de origem), a Igreja ganhou um enorme número de inimigos combatentes, muitos dos quais, de maneira paradoxal, continuavam se considerando católicos.
Esses inimigos formavam um grande grupo de pessoas que eram parentes, amigos ou conhecidos qualificados dos desaparecidos pela ditadura de 1976. O número de mortos em tortura e depois desaparecidos foi tradicionalmente fixado em 30.000 no ano de 1978, mas eu acredito que o número total deve ser muito maior, provavelmente entre 35.000 e 42.000, tendo em conta que a ditadura continuou até 1983.
(Não é este o lugar para justificar esta afirmação que surge de documentação dispersa, e de documentos internacionais parcialmente desclassificados.)
Unidos aos parentes dos 1.200.000 exilados, refugiados e asilados pelo mundo (ou seja, 3% dos habitantes do país nesse momento), os familiares e amigos dos desaparecidos deviam somar algo como 6 milhões, o que significa 20% da população. Calculo que, embora muitas pessoas não tivessem parentes nem amigos, é razoável considerar que a média de afetos por cada exilado ou desaparecido seja de 5 pessoas.
Como é bem conhecido, a Igreja Católica apoiou intensa e devotadamente os crimes da ditadura, não apenas encobrindo ou justificando-os, mas também dando apoio psicológico e propagandístico, colocando a seu serviço seu aparato internacional (incluída a máfia italiana e o grupo P2), abençoando as máquinas de choque e os instrumentos usados para mutilação, e até, em vários casos, aplicando tortura com suas próprias mãos.
Há pelo menos 40 livros em espanhol e pelo menos 15 em inglês, dedicados de maneira total ou parcial à cumplicidade da Igreja Católica com os crimes de Estado na Argentina nos anos 1976-1983, e milhares de páginas de Internet.
De todos os casos de católicos aliados da ditadura, o mais espantoso é o do padre Christian Wernich, condenado em 2007 a prisão perpétua. Os que sobreviveram a seu sacerdócio afirmam que, de todos os torturadores civis e militares, ninguém era tão temido como o santo confessor. Ele chamava “fazer a barba” a passar a máquina elétrica, mas esta não era a máquina de barbear, mas de aplicar choque.
Com seu estilo discreto, Bergoglio tentou jogar um manto de esquecimento nos fatos protagonizados por uma das mais poderosas e compactas igrejas do planeta, num dos países mais católicos do mundo, junto com a Polônia e a Irlanda. Não sabemos se ele conseguiu refrear a saída de fieis da Igreja, já que no ano 2000, menos de 10% do país assistia regularmente a missa. Mas, ele fez grandes esforços e até permitiu a jornalistas estrangeiros que redigissem biografias sobre ele, e escreveu sua própria versão de sua vida, tentando refutar algumas dúzias de testemunhos que o acusavam de ter participado ativamente na ditadura. Ele fez um trabalho similar ao de Pio XII, quando, depois da guerra, tentou disfarçar, sem nenhum sucesso, a estreita colaboração do Vaticano com o nazismo.
Mas, antes de 1983, como era a relação de Francisco com a ditadura?

Jesuítas e Crianças

Como em muitos outros países, uma minoria de padres apoiou a causa dos direitos humanos e teve certa militância no que foi chamado “Teologia da Libertação”.
Dois deles foram os jesuítas Orlando Dorio and Francisco Jalic que propagavam uma visão social do cristianismo em favelas e bairros populares. Estes padres foram capturados pelos esquadrões da morte dos militares e submetidos a tortura, mas conseguiram sobreviver. Enquanto Jalic se fechou num mosteiro alemão e nunca mais falou de seu passado (e possivelmente, nunca voltou a Argentina), Dorio acusou explicitamente a Bergoglio, que era a máxima autoridade de jesuítas, de ter negado proteção, e ter permitido que ele fosse capturado.
Em vários dos links citados, especialmente no editado pela UNISINOS, há numerosos detalhes que descrevem, em total, uma quantidade apreciável de testemunhas. Embora a mídia brasileira tenha ignorado estas afirmações e diga que são simples conjecturas, um número tal de testemunhas seria possivelmente aceito por um tribunal penal.
Bergoglio usou por duas vezes os privilégios de não acatar as decisões da justiça, privilégio que a Argentina concede aos bispos, que têm um fórum privilegiado equivalente ao dos deputados, senadores e presidentes. Em função disso, recusou dar depoimento aos tribunais que julgaram os crimes contra a humanidade na época da ditadura.
Bergoglio aceitou, porém, comparecer a uma terceira intimação, quando a pressão dos milhares de vítimas se tornou muito intensa.
Segundo a advogada Myriam Bregman que trabalha em direitos humanos, as afirmações de Bergoglio, quando aceitou ir aos tribunais, mostram que ele e outros padres eram coniventes com os atos praticados pela ditadura. Ele, porém, não foi indiciado, também com base na “falta” de provas.
Em 1977, a família De la Cuadra - formada por ativos defensores do direitos humanos (cuja matriarca Licha, 1915-2008, foi condecorada pelos governos democráticos posteriores à ditadura) - teve sequestrados cinco de seus membros, dos quais apenas um reapareceu muito depois.
O padre Bergoglio se recusou a indagar onde eles estavam e até a ajudar a procurar uma criança recém nascida, filha de uma das mulheres desaparecidas.
Em algumas ocasiões, o Santo Padre não pode refutar que a ditadura argentina tinha feito numerosas atrocidades, mas argumentou que isso foi uma resposta provocada pela esquerda, que, segundo ele, também teria usado o terror. Este infame argumento, como todos sabem, foi fortemente repudiado em todos os países que tiveram ditaduras recentemente.
Durante o governo de Néstor Kirchner e, após, o de sua esposa, Cristina Fernández, o atual papa, mantendo seu estilo “sutil” aproveitou para criticar muitas vezes ao governo (que, como o governo brasileiro, subiu ao poder pelo voto popular), o acusando de ditatorial, de gerar o caos, de defender pessoas de vida sexual “abominável”, etc.
Com seu estilo aparentemente moderado, Bergoglio teve certo sucesso onde outros padres, que pregaram abertamente a tortura e o genocídio dos ateus e marxistas, fracassaram. Com efeito, apesar de ser unanimemente repudiado pelos defensores de direitos humanos, inclusive os católicos, ele nunca foi processado, como aconteceu com o padre Wernich, e até conseguiu forjar uma máscara de tolerância.



segunda-feira, 11 de março de 2013

ENTREVISTA: OS CENÁRIOS OCULTOS DO CASO BATTISTI



ENTREVISTA: OS CENÁRIOS OCULTOS DO CASO BATTISTI

O jornal Causa Operária está na casa da família Lungarzo, entrevistando Carlos Alberto Lungarzo e sua esposa Silvana. Carlos Alberto Lungarzo foi professor titular da UNICAMP, militou em várias organizações internacionais de direitos humanos, no México, na Argentina, e no Brasil, e em outros lugares. Escreveu dois pequenos livros sobre o caso Battisti em 2009, e terminou, em 2012, o livro: OS CENÁRIOS OCULTOS DO CASO BATTISTI


Causa Operária: Porque surgiu a ideia de escrever um livro sobre o caso de Battisti?
Carlos: Em 2009 escrevi dois pequenos livrinhos para orientar nossa militância. O primeiro foi publicado e impresso em computador. O segundo tinha em torno de 130 páginas e foi impresso pelo movimento de esquerda Crítica Radical (Fortaleza, Ceará). Mas, quando a situação de Battisti ficou mais complexa, tentamos chamar toda a atenção possível e fazer algo mais profundo sobre o tema. Primeiro para mostrar qual era a verdade dos fatos. As pessoas escutavam e viam a televisão e os jornais, que estavam manipulando sua informação. Outras não tinham nem ideia de quem era esse italiano Battisti, acusado de crimes.
Então queríamos aprofundar e mostrar o que realmente tinha acontecido. Foi assim que eu comecei a escrever esse livro, em julho de 2009. Quando Battisti foi libertado, em 09/06/2011, comecei a ajustar o livro à necessidade do leitor. Inicialmente o livro era quase o dobro do atual, e pensamos que não seria fácil de ler nem de vender. Tínhamos que torná-lo atraente, para ser uma referência em informação. Mais de 80% da grande impressa burguesa falava mentiras sobre o caso.
Jornais de grupos políticos ou culturais, como Causa Operaria, Brasil de fato, Caros amigos e outros, incluídos Istoé e, sobretudo, Piaui, mostravam a verdade. Há um jornal importante no Paraná, a Gazeta, que fez uma reportagem sobre a família Battisti, mais fora isso, tínhamos 80% da imprensa contra.
Queríamos fazer algo que fosse acessível para todos saberem os fatos e poder refutar as mentiras. Uma coisa é você ser invadido pela TV sensacionalista, onde apresentadores que simulam pânico dizem que há um perigoso terrorista solto no Brasil. Outra é comprar um livro onde se relatam os fatos com apoio de mais de 300 documentos, em quase 400 páginas com 97 fotografias.
Todos os livros contra Battisti (que são 4) foram encomendados pela Itália. Do único feito no Brasil, a Itália comprou duas edições fechadas em português (!). Então minha ideia era desconstruir essa tempestade de mentiras: creio que até esse momento tivemos bastante sucesso. Percebemos que o livro está tendo algum efeito. Pessoas que estavam confusas (“Será que ele matou ou não matou??”) compram o livro para se informar. Um termômetro que tivemos foi a própria família Battisti, que é uma enorme rede de famílias com o nome Battisti no Paraná e em RS, que formam uma comunidade de mais de 4000 mil membros. Eles nos convidaram a sua festa anual e compraram cerca de 100 livros, o que equivale a 100 famílias, ou seja, mais de 400 pessoas. Nessa festa havia 700 pessoas. Eles deram boa recepção às nossas provas.

Causa Operária: Quais são as principais revelações de destaque do livro?
Carlos: Há dois tipos de revelações: aquelas que eram conhecidas apenas pelos que leram a documentação, e a outra, mais confidencial, que obtivemos através de agentes do estado Francês. Ambos os tipos estão rigorosamente documentados, e ambos os tipos foram ignorados e distorcidos pela mídia brasileira. Aqui vão as principais.
1)   Battisti foi julgado em ausência, sem saber que estava sendo julgado.
2)   Não houve nenhuma testemunha que dissesse que Battisti estava no lugar das mortes. Houve mais de 25 testemunhas no total e nenhuma menciona Battisti.
3)   Quatro testemunhas descrevem um rapaz próximo do lugar do primeiro morto, mas os quatro divergem na maior parte dos detalhes descritos. Nenhum deles reconhece o retrato de Battisti.
4)   Não houve provas materiais. Pelo menos, a Itália não apresentou nenhuma, nem permitiu que olhássemos seus arquivos.
5)   A sentença italiana se contradiz: às vezes fala de dois tiros, outras de três, no mesmo caso. Também se contradiz quanto aos calibres das armas, etc.
6)   O relato sobre a pretensa culpa de Battisti está baseada numa única delação: a  de Pietro Mutti, um operário da Alfa Romeu de 25 anos. Ele obteve redução de pena, de PRISÃO PERPÉTUA a OITO ANOS.
7)   O mais importante é o caso de procurações para falsos advogados que o Tribunal de Júri de Milão mandou falsificar. Nos capítulos 11 e 19 de meu livro e em meu site há fartas provas desta manobra.


Causa Operária: Se tratava de delação premiada?

Carlos: Sim, delação premiada e muito bem. De prisão para vida toda a OITO anos, que, segundo se acredita, não foram cumpridos. Houve outros delatores mas apenas repetiram o que Mutti tinha inventado. Esses outros foram premiados. Alguns cumpriram apenas 4 anos por assassinato agravado.
Não se sabe onde está Mutti. As reportagens dele feitas na Itália em 2009 e 2011 são falsas de maneira evidente. Pode ter sido morto pela polícia, ou aposentado, em algum local da África, com algum dinheiro para manter o “bico fechado”. (becco chiuso).

Causa Operária: Como vocês conseguiram as demais informações ?
Carlos: Basicamente através da França. Quando a Itália pediu a Franca que entregasse Battisti o governo de Jacques Chirac, exigiu que a Itália entregasse tais documentos. Mesmo que Chirac estava numa vergonhosa cumplicidade com a Itália, na França não é possível fazer coisas totalmente ilegais, e os italianos deveram mostrar alguns documentos, depois de meses de desconversar.
Nossos amigos franceses nos deram cópias autenticadas. Também temos fontes próximas do governo francês que não posso revelar.

Causa Operária: Na sua opinião quem esta por trás da perseguição a Battisti e quais os interesses?

Carlos: Há muitos interesses e também alguns fatores culturais. Eu sou de família italiana de longa data e percebo o fato cultural. Essa caça ao Battisti é uma grande vingança.
Porque vingança com ele e não com outro?
1)  Ele foi o único que conseguiu escapar.
2)  Ele sempre preservou sua dignidade, não se humilhou. Não puxou o saco dos juízes. Essas coisas enfurecem a esses togados vingativos, fascistas e medievais. Recusou ser delator.
3)  Mais Importante. Battisti é um escritor famoso na França. Eu tenho aqui alguns dos livros dele que foram publicados. Em total, são quase 30.
4)  Todos descrevem a historia de pessoas perseguidas. A ideia desse gênero politico criminal é que o crime sempre é politico, que o caos não acaba nunca. Por exemplo a policia persegue um cara que rouba um pão a policia persegue, mais depois se comete um assassinato por causa desse roubo e a onda de crimes nunca para. No caso do Estado de São Paulo isso é muito comum, quando mais agitação social o governo aumenta o numero de policiais. O livro de Battisti, por exemplo Dernières cartouches (Os últimos Cartuchos), descreve um cara chamado Conrado que é um proletário que sai de Roma e se junta a um grupo revolucionário. Ao longo do livro Battisti vai descrevendo todas as atrocidades que se fazem na Itália, por exemplo julgamento sem base, assassinatos em prisões e tortura. E é um livro curto de fácil leitura
5)   Todos os livros dele tiveram sucesso.  Mas esse Dernières cartouches teve um sucesso especial, e se vendia em bancas de jornal. Então uma pessoa que nunca leu história, passa e vê um livro desse e começa a ler e pensa: “isso acontece aqui no país ao lado, na Itália”, coisa que ele não sabia. Então nesse momento fascistas e stalinistas se juntaram para atacar Battisti.
6)  Fizeram um plano para deporta ló da França. Mas ele escapou, jogando na lama o prestígio dos abutres italianos.
7)  Battisti tinha muita popularidade; teve uma passeata em Paris de 20 mil pessoas em favor de sua liberdade, os italianos ficaram mais furiosos.
8)  Isso explica por que a perseguição foi tão insana, tão cheia de ódio e de atos absurdos e exagerados, como o insulto contra Lula, contra os brasileiros em geral, contra as mulheres, contra o futebol. Uma verdadeira doença em massa, como nos piores tempo de Hitler.

Causa Operária: Qual foi a postura da imprensa burguesa perante o caso Battisti?
Carlos: Foi totalmente contrária e inimiga mortal, começando por definir Battisti como terrorista, contrariando a definição de terrorismo do conselho de segurança da ONU.
Esse ódio da mídia foi em parte ideológico, em parte foi subserviência, e também foi suborno, embora eu nunca pude saber quanto pagou a Itália nem qual é a lista dos que receberam esse dinheiro.
A Folha de São Paulo, se referia a Battisti como terrorista, num certo momento eu mandei uma carta para eles dizendo que eles deveriam entender, que uma pessoa que está presa não pode cometer nenhum ato de terrorismo. A Folha de São Paulo fez dois editorias, assinados pelo próprio dono, exigindo a extradição.
 Depois colocou ênfase em informações falsas. Em abril de 2009, a Policia Federal do RJ, dizia ter encontrado conexões de Battisti com um grupo terrorista. Havia um delegado Kleberson, outros policiais menores, um promotor e um juiz que montaram a farsa. Finalmente não acharam nada. Depois disso, a Federal reconheceu que a denúncia tinha sido feita pela Itália.
Outro exemplo: a Folha.com publicou 15 matérias em dois anos sobre o filho de um dos supostos mortos pelo Battisti (Pierluigi Torregiani, pai de Alberto Torregiani, que está paraplégico). Todavia, a mesma perícia legal de Milão diz que Torregiani, ao defender-se de um de seus atacantes, atirou e feriu Alberto por engano.
A Rede Globo fez uma reportagem sobre refugiados. Na primeira meia hora não falou de Battisti, mas começou a falar que tinha um refugiado no Brasil e seguiu com trechos de filmes americanos onde alguém que comete um crime sempre vem para o Brasil.
 Alguns meios foram totalmente subservientes aos italianos, como por exemplo, a Veja, onde, inclusive, há uma matéria que apareceu na versão eletrônica, onde se incita à violência contra Suplicy.
Casos menores, como, por exemplo, a Carta Capital, é um caso especial. Neste caso, parece que o dono tem interesses com os neostalinistas italianos, mas nunca se mostraram provas disso. De qualquer maneira, o exagerado ódio dessa revista por Battisti faz suspeitar que há algo pessoal.

Causa Operária: Sobre o STF? Qual foi o papel em relação ao Battisti?
Carlos: No STF, a tendência legalista foi formada por Marco Aurélio, Carmem Lucia, Eros Grau e Joaquim Barbosa. Nunca o Brasil entregou um preso político legalmente, nem durante a ditadura militar. Os militares sequestraram numerosas pessoas, mas o judiciário, mesmo sob a ditadura, nunca devolveu um perseguido.
indubitavelmente um perseguido politico tem direito a asilo. A polícia italiana tem fama por sua brutalidade. Agora o que acontece é que os outros ministros tinham interesses próprios para mandar de volta Battisti. O Ministro Cezar Peluso tem nacionalidade italiana e deu a Itália absoluto poder durante o julgamento, como se o Estado Italiano fosse mais um juiz. Aliás, ele é um católico radical e a Igreja estava mortalmente contra Battisti.
Gilmar Mendes e a juíza Hellen são da direita do PSDB e sua intenção era bater no governo de Lula.
Lewandowski e Britto não sabemos que tipo de razões tinham, mas seu comportamento foi muito confuso.
A questão de Battisti é  simples: em qualquer país ocidental, quem decide se uma extradição é licita é a justiça. Se a justiça diz não, o governo NÃO PODE DIZER SIM. Agora se o tribunal diz sim, fica ao chefe de estado aceitar ou não. É exatamente o contrário que acontece com o refugiado. O STF não pode revogar um refúgio, foi por isso que a revogação de Battisti foi ilegal.


Causa Operaria: Qual seria a atualidade do caso Battisti e do seu livro?
Carlos: O caso Battisti tem muita atualidade pelo seguinte, o caso dele serviu como pretexto para fazer uma espécie de luta de poderes. Está muito claro que no Brasil existe uma tentativa de o judiciário se transformar numa espécie de ditadura. Estamos vendo recentemente em muitos casos, com o mensalão e também da promotora que quer processar os 72 estudantes da USP, que podem pegar 8 anos de cadeia. Então a primeira atualidade é que todos os demais poderes estão sendo submetidos ao judiciário, como nas piores ditaduras teocráticas. A segunda coisa é que O CASO BATTISTI NÃO ESTA TOTALMENTE FECHADO, neste momento um promotor do Distrito Federal, quer revogar o visto do Battisti, ele tem um visto igual o meu de permanência, ou seja, Battisti ainda é um bode expiatório.
EU QUERIA FAZER UMA APELO A MILITÂNCIA: Não pensem que a coisa está tranquila ao ponto de cruzarmos os braços, temos que nos manter fortes e nos reativarmos rapidamente. Devemos seguir mantendo nossos vínculos com os centros europeus de solidariedade, e prosseguir com nosso contato com a Corte de Direitos Humanos da OEA e o Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Com respeito ao meu livro, acho que foi fundamental para mostrar em que clima de aberrações jurídicas vivemos. Uma justiça que persegue os pobres, os dissidentes e a esquerda e é cúmplice da direita. Por isso eu quis mostrar no meu livro, o que é uma vingança típica do judiciário, existem muitos casos, mas são de menor relevância, o de Battisti é de mais de 30 anos. Todos sabemos que uma pessoa pode ficar presa  por mais de 4 anos por roubar um medicamento para um filho que beirava a morte, ou ser torturada por roubar um shampoo e perder um olho, como aconteceu com uma menina favelada cujo caso foi relatado em Caros Amigos por Tatiana Merino.
Minha ideia é mostrar que o caso de Battisti é muito especial. Além disso: a iniquidade do judiciário é tão forte na Itália como no Brasil. Aliás, há um caso de vingança politica que nunca se viu antes na história. Então de repente eu pensei
“Estamos num mundo governados por loucos sádicos e místicos”
E isso dá um pouco de medo”. Não dá para confiar nessas pessoas, amanhã eles podem dizer: não queremos argentinos ou uruguaios no Brasil; vamos condenar todos eles a 30 anos de prisão perpétua. Estamos nas mãos de monstros. Se a sociedade não acorda, QUALQUER ABERRAÇÃO PODE ACONTECER.
Eu quero agradecer e me sinto feliz por contribuir. Eu tenho um blog que chama a luz protegida http://aluzprotegida.blogspot.com.br
e o outro site sobre o Caso Battisti, que tem todas mais  informações.


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