sexta-feira, 8 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Anistia Internacional A Situação dos Direitos Humanos no Brasil Relatório 2012
Anistia Internacional
A Situação dos Direitos Humanos no Brasil
Relatório 2012
Todos os anos, Anistia Internacional envia a mais de 100 países uma equipe de
investigadores para registrar dados sobre os Direitos Humanos nesses estados,
de acordo com critérios de classificação como os que contém o seguinte
relatório.
Esse exame se faz durante alguns
meses no ano anterior àquele da publicação dos relatórios. Os dados do
documento que apresentamos aqui foram colhidos no 2011 e tornados públicos,
como acontece todos os anos, no mês de maio do ano seguinte (2012).
Como anunciamos num post do ano
passado, a Anistia Internacional
abriu novamente um escritório no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, o qual
possui um site próprio e aparece nas redes sociais. Para conhecer mais sobre a
organização e poder interagir com ela, clique neste link:
Se quiser ver o informe completo da
organização, por países e regiões de planeta, com versão em várias línguas,
clique aqui:
Seu ativismo para enfrentar estes
problemas será de fundamental importância. Lembre que sem Direitos Humanos não
existe sociedade, mas apenas um grupo de bárbaros. Nem democracia, nem
socialismo, nem progresso são possíveis sem humanos, e nenhum humano é viável
sem direitos.
A continuação, uma fotocópia do Informe (Relatório) 2012, relativo ao
Brasil.
GILSON DIPP: SEU LUGAR NÃO É NA COMISSÃO DA VERDADE!!!
Por Celso Lungaretti
![]() |
| Dipp: parcialidade arguida. |
O artigo é, simplesmente, imperdível. Trata-se da melhor análise já divulgada na imprensa e internet sobre a Comissão da Verdade, daí eu o recomendar enfaticamente a todos os meus leitores.
Adepto, como Lungarzo, da transparência e da sinceridade, admito que só um dos sete membros do colegiado tinha a minha admiração, por sua coragem, coerência e incansável dedicação à causa dos direitos humanos: Paulo Sérgio Pinheiro.
Mas, estou disposto a concordar com o Carlos quanto aos méritos da advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha como defensora dos perseguidos pela ditadura de 1964/85, que eu desconhecia por nunca haver prestado muita atenção nos julgamentos encenados nas auditorias militares (nem mesmo nos meus, a que era obrigado a assistir entediado até a medula).
Embora
fossem tão-somente jogos de cartas marcadas, isto não desmerece
advogados que lutaram como leões e leoas, cumprindo dignamente o seu
papel, inclusive o de denunciar a farsa que neles tinha lugar.
Quanto aos demais integrantes, concordo com a avaliação implacável do Lungarzo, aplaudindo e assinando embaixo:
Quanto aos demais integrantes, concordo com a avaliação implacável do Lungarzo, aplaudindo e assinando embaixo:
"Os outros são: um juiz que exige investigar as vítimas; um ex-procurador inimigo da genética e do aborto de anencefálicos; uma psico-jornalista; e dois juristas que já foram ministros.
...esta CNV não se atribui a tarefa de julgar, o que faz desnecessária a sobrecarga de juristas. Em resumo, 72% da comissão se especializa em bacharelismo confessional, política conservadora e generalidades".
O "juiz que exige investigar as vítimas", claro, é Gilson
Dipp, cuja participação na CNV deveria ter sido vetada em função do
mesmo critério que, absurda e ignominiosamente, foi arguido para impedir
que um representante das vítimas nela tivesse assento: a falta de
isenção.
Ou seja, o infame pretexto para excluir ex-resistentes (conforme exigiam os militares com esqueletos no armário e os membros mais reacionários do Congresso Nacional), implicitamente igualando-nos a nossos carrascos, foi esquecido no caso de Dipp.
Eis o questionamento de Lungarzo, com minha mais absoluta concordância (e meu mais veemente protesto):
Ou seja, o infame pretexto para excluir ex-resistentes (conforme exigiam os militares com esqueletos no armário e os membros mais reacionários do Congresso Nacional), implicitamente igualando-nos a nossos carrascos, foi esquecido no caso de Dipp.
Eis o questionamento de Lungarzo, com minha mais absoluta concordância (e meu mais veemente protesto):
"... [Dipp] provocou a indignação do Comitê Paulista da Memória, Verdade e Justiça (CMPVJ). No começo das atividades, definiu o objetivo da Comissão com uma expressão que passou despercebida para muitos. Ele disse: 'É o compromisso do Brasil com a sua história, com o seu passado, com o esclarecimento da verdade. Uma chance de se reconciliar'.
Numa sociedade dividida por guerra civil e genocídio, onde um grupo se propõe aniquilar parte do outro (como no Brasil) ou a totalidade (como na Argentina), levantar o princípio de reconciliação significa equalizar algozes e vítimas, torturadores e torturados, mutilados e mutiladores, atiradores e alvos. É dizer aos sobreviventes: 'Vocês são quase tão bons quanto os soldados que estupraram vossas filhas e meteram vossos filhos no pau-de-arara. Não sejam vingativos e aceitem esta pechincha: serão tolerados de novo pelas gloriosas FFAA, se ficarem calados'.
A não reconciliação não implica revanchismo nem ódio. Apenas mostra um mínimo de saúde mental, uma repulsa ao cinismo, à hipocrisia e à covardia. Nunca conheci alguém que fizesse cafuné aos algozes de seus filhos...
O CPMVJ denunciou a parcialidade deste juiz, que atuou na Corte Interamericana de Direitos Humanos contra o direito dos familiares dos assassinados pelos militares. Portanto, ele não cumpre a condição de ser isento, como exige a lei".Para maior clareza, acrescento a manifestação do Comitê Paulista:
"O CPMVJ considera que o sr. Gilson Dipp, ministro do Superior Tribunal de Justiça, não reúne as condições necessárias para integrar a Comissão, por haver atuado como perito do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos, tendo atuado contra os familiares dos guerrilheiros do Araguaia cujos corpos encontram-se desaparecidos até a presente data.
A presença de Gilson Dipp, portanto, compromete a isenção da Comissão, nos termos do artigo 2º, §1 inciso II do projeto de lei que a criou: 'Não poderão participar da Comissão Nacional da Verdade aqueles que (…) não tenham condições de atuar com imparcialidade no exercício das competências da Comissão'".Embora sua posição tenha sido rechaçada pela Corte Interamericana, que condenou o Brasil, salta aos olhos que Dipp deveria ter-se declarado impedido de integrar a Comissão da Verdade, até por poder estar imbuído de sentimentos revanchistas (não é exatamente isto que se alega contra os antigos resistentes?).
Já que ele não o fez, cabe à presidente Dilma Rousseff fazê-lo... o quanto antes!!!
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D. WALDYR CALHEIROS DENUNCIA HOMICÍDIO ENCOBERTO PELO EXÉRCITO
quarta-feira, 6 de junho de 2012
COMISSÃO NACIONAL: EXCESSO DE VERDADE FAZ MAL À SAÚDE
Comissão Nacional: Excesso de Verdade Faz Mal à
Saúde
Carlos Alberto
Lungarzo
Prof. Tit. (r) Univ. Est. Campinas, SP, Br.
6 de junho
de 2012
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) do Brasil, instalada oficialmente em maio de 2012,
passou desde 2010 por diversas transformações. Todas elas foram impostas pelos
militares que não queriam sentir-se “difamados”.
Algumas dessas modificações mudaram totalmente o sentido do projeto. A mais grave foi eliminar o termo repressão e restringir o
objetivo da CNV a “examinar” as violações aos DH ocorridas no país. Isto permite
que alguns pretendam investigar “todos os lados”, o que significa deixar tudo
como está. Essa proposta abre a política do vale tudo, que pode ser expressada assim:
Alguns
militares podem ter sido culpados de crimes, mas muito mais foram os
guerrilheiros, os intelectuais, os sindicalistas, as mulheres estupradas, as
crianças torturadas para coagir seus pais, e até os fetos de mulheres grávidas assassinadas.
Outro problema é o imenso período
para investigar: 1946 a 1988. Será que vão investigar Dutra, Vargas, Quadros,
Jango e outros? Aliás, o prazo de dois anos é considerado insuficiente, mas
também é verdade que em outros países foram menores.
O número de membros é pequeno: 7
pessoas, das quais uma tem
competência teórica e ativa em DH (Paulo
Sérgio Pinheiro) e outra possui dedicação histórica à defesa de presos
políticos: Rosa Maria Cardoso da
Cunha.
Os outros são: um juiz que exige
investigar as vítimas, um ex-procurador inimigo da genética e do aborto de
anencefálicos, uma psico-jornalista, e dois juristas que já foram ministros.
Dito seja de passagem, o projeto dos
direitos humanos é de natureza ética e social, e tem pouca relação com decorar
códigos ou citar latinismos. Por sinal, esta CNV não se atribui a tarefa de
julgar, o que faz desnecessária a sobrecarga de juristas. Em resumo, 72% da
comissão se especializa em bacharelismo confessional, política conservadora e
generalidades.
Apesar de tudo isto, a CNV é muito
melhor que o silêncio, o que explica o apóio dado a ela por fortes figuras
internacionais. Aliás, não é impossível (embora seja improvável) obter
resultados substantivos.
Drácula no Banco de Sangue
Setores militares se sentiram
inconformados por não ter sido chamados para integrar a Comissão, mas o ministro
da defesa tentou os consolar com um argumento típico de diplomatas:
"A presença de militares na
comissão não é uma reivindicação. O Brasil não é feito de civis e militares.
Ele [o Brasil] é feito do povo brasileiro", disse o ministro. (Vide)
Ora, se o Brasil é feito pelo povo,
então também é feito pelos militares, que, obviamente, são parte do povo. Se o
governo pretende uma comissão eclética, deveria incluir algum militar. Todavia,
se colocasse um militar deveria também nomear uma vítima, para manter o
equilíbrio. Aliás, o ministro parece ter sentido medo de dizer claramente que
“não se pode colocar um membro da família Drácula para cuidar do banco de sangue”.
O medo é um mal começo para uma entidade que se propõe analisar crimes horrendos,
cometidos pela mais poderosa das castas.
Os que têm medo demais não devem
meter-se com caras que usam sabres e bazucas. Para eles, seria melhor estimular
outras instituições públicas, como a Bolsa-Família.
Jumentos de Tróia
Antes de começar seu funcionamento,
alguns dos membros da CNV mostraram que traziam guerreiros ocultos, mas estes
não eram gregos, como os que abriram as portas da cidade de Tróia para o ataque
helênico.
Um magistrado que integra a CNV
provocou a indignação do Comitê Paulista
da Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ).
No começo das atividades, definiu o objetivo da Comissão com uma expressão que
passou despercebida para muitos. Ele disse:
“É o compromisso do Brasil com a sua história, com o
seu passado, com o esclarecimento da verdade. Uma chance de se reconciliar.”
Numa sociedade dividida por guerra
civil e genocídio, onde um grupo se propõe aniquilar parte do outro (como No
Brasil) ou a totalidade (como na
Argentina), levantar o princípio de reconciliação significa equalizar algozes e
vítimas, torturadores e torturados, mutilados e mutiladores, atiradores e
alvos. É dizer aos sobreviventes: “Vocês são quase tão bons quanto os soldados que estupraram vossas filhas e
meteram vossos filhos no pau-de-arara. Não sejam vingativos e aceitem esta pechincha:
serão tolerados de novo pelas gloriosas FFAA, se ficarem calados.”
A não reconciliação não implica
revanchismo nem ódio. Apenas mostra um mínimo de saúde mental, uma repulsa ao
cinismo, à hipocrisia e à covardia. Nunca conheci alguém que fizesse cafuné aos
algozes de seus filhos, mas se isto acontecer é necessário lhe oferecer toda a
assistência psiquiátrica possível.
O CPMVJ denunciou a parcialidade deste juiz, que atuou na Corte
Interamericana de Direitos Humanos (CorIDH)
contra
o direito dos familiares dos assassinados pelos militares. Portanto, ele não
cumpre a condição de ser isento, como
exige a lei.
Entre a bagagem de outros cavalos de
Tróia estão os que afirmam a impossibilidade
de revisar a Lei de Anistia. A CPMVJ deixa transparecer que o governo
instalou esta Comissão apenas porque estava
sendo julgado como réu pelo direito internacional. (Vide)
Quanto a Lei de Anistia, observemos o
seguinte: é verdade que o STF considerou estupro, tortura, genocídio e
outras atrocidades como crimes políticos, por causa do qual ganhou enorme
repúdio internacional. Mesmo assim, os carrascos estão protegidos por esta lei. Isso não pode ser modificado.
Entretanto, qualquer parlamento democrático pode derrogar uma lei, e criar outra que não proteja atrocidades.
Investigar Tudo
O juiz membro da CNV tirou novos coelhos de sua cartola. Disse que “Toda violação
dos direitos humanos será investigada,” se referindo à necessidade de apurar
também as “violações” aos DH cometidas
pela guerrilha. (sic)
O bacharelismo faz confundir palavras
com coisas. A expressão Direitos Humanos,
na forma em que foi definida pelas Nações Unidas após a 2ª Guerra, é um
termo técnico que indica os direitos básicos
da pessoa humana (à vida, à integridade física e psíquica, à liberdade, à
dignidade e outros).
A defesa desses direitos consiste na ação, jurídica, política
ou de outra índole, contra os setores que possuem impunidade para violá-los, ou
seja: o Estado e as forças paraestatais (parapoliciais, jagunços, corporações, empresas,
igrejas apoiadas pelo estado, e outros).
Neste sentido específico, bem
conhecido, “direitos humanos” não são o mesmo que “todos os direitos onde os
agentes envolvidos são seres humanos”. Se assim fosse, salvo os direitos dos
animais (atualmente muito estudados), todos
os direitos seriam humanos.
Estacionar em local reservado é
violar o direito de alguém (um humano, claro!), que era proprietário da vaga
invadida. Um comerciante viola o direito
econômico (também humano), quando dá 10 centavos a menos no troco. A crença de
que os direitos humanos são “qualquer coisa”, parece provir de uma confusão
semântica dos leguleios ou, para sermos mais exatos, da simulação de que não
estão entendendo seu significado, para fazer com que os algozes levem a melhor
parte.
Isto me fez lembrar o prefeito de uma
cidade do NO do México, que fez arrancar todas as árvores da prefeitura e
mandou os funcionários estudar suas raízes. Explicou assim sua decisão: “Hoje,
a profe de meu filho lhe mandou
encontrar a raiz quadrada”.
Nenhuma comissão pode pesquisar as
violações aos DH de pessoas sem poder, que estão fora dos setores dominantes,
por razões bem simples:
1) A Violação aos DH só pode ser feita
de maneira sistemática por um aparato organizado, como a Inquisição, a Polícia,
os Exércitos, os mercenários armados, etc., etc., etc. As forças públicas podem matar, numa hora de
bombardeio, tantas pessoas como um grupo particular, digamos al-Qai’dah, mata numa década.
Um particular
que mata outro numa briga qualquer, por razões x ou y, está violando o direito dessa pessoa a viver,
mas não é um violador dos DH no sentido do direito humanitário. A palavra
“humano” é tão confusa para este magistrado da CNV, como a palavra “raiz” para o prefeito mexicano.
2) As Comissões de Verdade, Justiça,
Memória, etc., por simples definição, não são formas paralelas da polícia, do
Detran, ou da Guarda Municipal. Elas são
totalmente especializadas e têm como única e absoluta função investigar os
crimes cometidos pelos agentes do Estado, apurando sua intensidade,
gravidade, autoria, circunstâncias e punibilidade.
Além destas duas, há numerosas razões
de mérito sobejamente sabidas: o diferente papel do estado e do indivíduo, a
total desproporção entre os supostos crimes das vítimas e as aberrações dos
carrascos, e o fato óbvio de que qualquer violação supostamente cometida pelas
vítimas foi retaliada com penas atrozes muito além do mais aberrante código
penal. Observem que não estamos falando
nada sobre a superioridade de uma ideologia sobre outra.
Dividir os Brasileiros
Os algozes e seus marqueteiros temem
que as investigações dividam os
brasileiros. Ou seja, bizarramente, eles supõem que tortura e massacre mantêm a
unidade!
O assunto da divisão da sociedade
pretensamente criada pelas Comissões de Verdade foi explorado em todos os
países que tiveram genocídios, para impedir que estes fossem apurados, e sempre
coloca a mesma descerebrada ladainha.
A resposta a esta charada é trivial. A sociedade já
está dividida. É óbvio que os torturadores e assassinos de
centenas de pessoas indefensas estão em outra parte da divisão que aquelas que
arriscaram suas vidas (e, às vezes, as perderam), para salvar seus
companheiros. Um hierarca do DEOPS está bem
no outro extremo da divisão que alguém alvejado pelo chumbo militar, quando
participava da captura de um embaixador que financiava tormentos e massacres.
Aliás, coitada a sociedade sem diversidades! Isso só poderia ser
bom num planeta perfeito, se existisse. Mas, mesmo assim, exigir essa unidade
sugere o fetichismo nacionalista: por arte de mágica, é suficiente traçar uma
fronteira num mapa, para que todos os que estão dentro sejam iguais. A Unidade,
pregada pelos fascistas e imperialistas é um eufemismo para um termo bem mais
exato: totalitarismo.
O ex-ministro de defesa reconheceu
que a CNV tinha sido negociada com os
militares, e que foi prometido a eles que se investigariam os crimes dos “dois
lados”. Ou seja, esta Comissão, como tantas outras, foi criada para acalmar as
vítimas e não ofender os vitimadores. Entretanto, se surgir uma autêntica viligância popular, com ajuda internacional,
a atividade da CNV pode tornar-se séria.
Lembremos que a CONADEP da Argentina
foi criada como um simples espantalho. De 12 membros, apenas um, o filósofo Gregório Klimovsky (1922-2009), tinha
tido contínua participação na defesa dos DH, mas não a nível internacional. Os
outros eram politiqueiros, leguleios, líderes religiosos, e até colaboradores
da ditadura. Apesar disso, o estado conseguiu, 27 anos depois, punir mais do 1%
dos algozes, e quase 10% dos altos quadros.
Se não houver outras consequências,
pelo menos, a CNV já está gerando
consciência e ação política em muitos jovens, que se manifestam contras as
atrocidades cometidas antes de seu nascimento. Ao mesmo tempo, surgem comissões
estaduais e, como componente muito original, propõe-se a formação de uma CV para a Universidade de São Paulo,
uma instituição que foi o celeiro dos ideólogos do fascismo na região.
Outro fato importante é que os blogues de ódio já manifestam seu medo.
Eles dizem: “a esquerda vai difundir mentiras, que, após muito martelar, vão
ser aceitas como verdades.”
Curiosamente, nós não temos esse
medo. Eles podem falar as suas “verdades” e nós ficaremos contentes de que
tenham podido expressar-se. Apenas veremos se a sociedade as engole.
terça-feira, 5 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
GENOCIDAS VITIMADOS?
Genocidas Vitimados?
Carlos Alberto
Lungarzo
Prof. Tit. (r) Univ. Est. Campinas, SP, Br.
1 de junho
de 2012
Recentemente, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria que compara as possíveis baixas
nas filas da ditadura dos anos 60/70, com as vítimas produzidas pela própria
repressão. Vou me referir neste artigo à versão resumida da Folha.com (aqui), cujo autor menciona como sua
principal fonte o site Terrorismo Nunca
Mais (Ternuma), que é um dos
vários sites publicados por grupos de militares e seus amigos civis.
O conteúdo da matéria e suas fontes
de “informação” estão relatados no site Náufrago
da Utopia. (Aqui e passim.) Quero me restringir aqui apenas a alguns pontos objetivos:
(1) O caráter abusivo da equiparação entre vítimas e vitimadores; (2) a baixa
confiabilidade das fontes corporativas, e (3) a distorção do conceito de “terrorismo”.
A Teoria dos Dois Demônios
Embora usada em vários países, o
primeiro registro da expressão “doutrina
dos dois demônios” é de 1983. Apareceu na Argentina, quando o governo empossado
esse ano 1983 se viu obrigado, a contragosto, a iniciar uma investigação sobre
as mais das 30.000 vítimas da ditadura.
O chavão foi atribuído ao presidente
Alfonsín, mas é quase certo que sua moderada imaginação tivesse sido estimulada
pelo famoso escritor Ernesto Sábado (1911-2011),
presidente da Comissão Nacional de Desaparição de Pessoas (CONADEP),
a única pessoa conhecida que teve a criatividade de elogiar a “inteligência” do
ditador Videla.
A ditadura Argentina tinha sido
vencida pela Grã Bretanha na Guerra das Malvinas em 1982. A grande maioria
belicista, que estimulara a guerra e aclamara a invasão, mudou de ânimo e, com
o mesmo fanatismo, se voltou contra seus
recentes heróis.
Foi essa derrota a causa de que os
militares percebessem sua dificuldade para seguir governando (somada aos
problemas econômicos, que, porém, não eram novos no país). Os partidos
políticos, subservientes às casernas, evitaram irritar os militares, mas
fizeram moderada pressão para ter participação no bolo.
O partido de centro-direita que
ganhou as eleições, o Radical, viu-se obrigado a criar a CONADEP, por causa da
intensa pressão dos milhares de parentes de desaparecidos e dos cerca de um
milhão de ex-refugiados.
Aliás, após Malvinas, os países
democráticos, que cinicamente se recusaram a punir os crimes dos militares
durante 10 anos, entenderam o perigo de apoiar sanguinários incontroláveis, e
lembraram sua experiência trágica com o nazismo. Influiu, ainda, o fato de que
entre os aniquilados pela ditadura havia cidadãos de 32 países, dos quais 6
levaram a sério a defesa de suas vítimas. Então, uma investigação seria
inevitável e, portanto, era necessário relativizá-la para não irritar as
casernas. Assim surgiu a doutrina dos
dois demônios.
Os dois demônios eram o demônio da subversão, que, segundo a
cartilha, provocou os militares, e o demônio
da repressão, que nasceu quando o direito de defesa dos militares foi
deturpado por “alguns” maus oficiais, que seriam uma exceção na ilibada
instituição.
No Brasil, aplica-se, em realidade, a
teoria do “demônio sozinho”, pois os militares se atribuem ter salvado o Brasil
de uma suposta ditadura de esquerda.
A diferença entre executar crimes
atrozes e serem vítimas deles é extremamente evidente. Entretanto, é importante
ter em conta que existem grupos que
desprezam esta diferença, inclusive mesmo dentro das Comissões de Memória e
Verdade. É crucial ter consciência de que as críticas “equânimes”, para ambos
os lados, são formas hipócritas e covardes de fingir que as Comissões estão
cumprindo sua tarefa e, ao mesmo tempo, de não irritar os militares que, afinal, continuam tendo um poder
decisivo não explícito.
Estatísticas Militares
Alguns setores (não apenas de
direita) diferenciam os militares em “progressistas” e reacionários, criando um
mito que custou milhões de mortes de civis no mundo todo. Por causa desse
sofisma, supõe-se que nas filas militares há também grupos com senso de
objetividade, que estariam acima do sentimento de vingança contra os que
desafiaram a ditadura. Com base nisto, a informação dada pelas casernas é
tratada como a mesma seriedade que a oriunda de fontes civis.
As vítimas das ditaduras nem sempre
são de esquerda; uma minoria pode ser indiferente ou até de direita. Mas, em
qualquer caso, elas fazem parte da sociedade civil e, portanto, estão sujeitas
às normas da vida civilizada, da opinião pública, das instituições, etc., ou
seja, rendem conta a certo paradigma de transparência que é totalmente alheio a
sociedades secretas, seitas místicas ou corporações guerreiras.
As listas de vítimas da repressão, no
Brasil e em outros países, foram elaboradas por ONGs, grupos políticos,
movimentos sociais, e têm sido, na medida do possível, conferidas por
organizações internacionais e até por organismos intergovernamentais. Um fato deliberadamente ignorado é que não existe um controle dessa natureza
para o caso de listas publicadas pelos militares sobre suas baixas. É verdade
que não seria fácil inventar mortos que não existem, mas sim é fácil (e, aliás,
frequente), atribuir ao inimigo a morte de militares, policiais ou cúmplices
civis que foram aniquilados como parte de uma queima de arquivo ou de luta
entre gangues.
Vejamos um caso que envolve tanto a
Argentina como o Brasil. Em 1985, a PF brasileira encontrou um oficial da
marinha argentina com visto de turista vencido, chamado Héctor Ricardo Gulberti. Ele entregou-se imediatamente e pediu
refúgio, dizendo que tinha participado em seu país em sequestros e
desaparições. Mas, em 1979, quando a repressão arrefecia, percebeu que vários
de seus colegas estavam desaparecendo, e percebeu que os altos quadros queriam
calar os subordinados que “sabiam demais”. Disse ter sabido que ele estava
entre os próximos. Ofereceu-se a dar informação aos parentes das vítimas, mas
posteriormente foi facilitada sua fuga em direção desconhecida.
Eu perdi contato com este caso, mas sabe-se
que houve dúzias, ou talvez centenas, de “queimas de arquivo” similares. Não
sabemos quantos destes casos aconteceram em outras ditaduras, mas é amplamente
conhecido o fato de que as forças armadas de quase todos os países (mesmo os
realmente democráticos) aumentam o diminuem o número real de suas baixas de acordo
com o efeito que pretendem conseguir.
Mesmo em conflitos de médio porte
onde a contagem do número de mortes é menos difícil, os exércitos costumam
“inflar” a quantidade de vítimas entre suas tropas e minimizar as do bando
oposto, para justificar a repressão sem
limites.
Isto é comum em Oriente Médio e Ásia
Central, mas foi mais característico na ex-Iugoslávia. Quando o confronto
ocorre entre dois exércitos, a manipulação se faz por ambas as partes. Nos
casos de genocídio, quando um exército extermina população civil, esteja ou não
armada, o governo genocida exagera o número de mortes de suas tropas e até dos
civis que, segundo eles, teriam sido atingidos pelos resistentes por
considera-los cúmplices dos agressores.
Uma fonte importante é o Blog sobre o
Genocídio de Srebrenica, que, embora construído por setores simpatizantes com a
ação da NATO, possui numerosas verificações cruzadas e conferências de grupos
de ideologia diversa. Vide.
Seria ingênuo (se não fosse ardiloso)
citar seriamente dados de blogs que estão interessados em denegrir a
resistência contra a ditadura. Quando os militaram falam sobre a resistência,
seu discurso se enche de impropérios, pieguice e invocações aos valores
místicos de pátria, tradição e fé cristã. Mas, na maioria dos casos, não há
publicações detalhadas de como seus esbirros teriam morrido. Cabe supor que as
pessoas mortas pela guerrilha tinham também familiares, amigos e um contexto
social do qual seria possível obter confirmações.
Terrorismo
Como também se menciona em Náufrago
da Utopia, há um uso incorreto do conceito de terrorismo por parte dos militares. “Terrorismo” é uma
expressão odiosa, que evoca coisas como mortes de crianças, assassinatos em
massa, bombas que explodem em qualquer lugar, sangre e barbárie. As palavras
“guerrilha” e “rebelião” não produzem o mesmo.
Entretanto, as ações de guerra assimétrica
na América do Sul não foram massivamente terroristas. Houve, sim, algumas ações
terroristas isoladas de parte de grupos opostos a ditaduras, mas isto aconteceu
em outros países. Em tudo o que é possível ler sobre a guerrilha brasileira,
não há nenhum indício de terrorismo.
Observe-se que até o Supremo Tribunal Federal rejeita o uso
do termo terrorismo para indicar um
ato de luta armada contra militares. Em 1989 recusou a exigência de extradição
(no processo ext 493) de um cidadão argentino acusado de ter participado do
ataque a um quartel militar durante uma ameaça de golpe de estado por parte do
regimento que utilizava esse quartel. O trecho relevante do acórdão diz:
Não constitui terrorismo o ataque frontal a um estabelecimento militar,
sem utilização de armas de perigo comum nem criação de riscos generalizados
para a população civil.
Veja o acórdão completo em: www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=Ext.SCLA.+E+493.NUME.&base=baseAcordaos
Por outro lado, embora ainda sem
consenso total, é bom ter em conta a proposta de definição do Conselho de
Segurança da ONU.
Terrorismo: [conjunto
de] atos criminosos contra civis, cometidos com o objetivo de causar morte ou
feridas sérias ou toma de reféns, para provocar estado de terror no público em
geral ou em um grupo de pessoas ou em indivíduos, intimidar a população, ou
compelir o governo ou uma organização internacional para fazer ou deixar de
fazer determinado ato”
Estas distorções não são fruto do
acaso. Ainda que, na maioria dos países, as ditaduras tenham saído de cena, o
julgamento dos algozes é impedido ou desviado por seus sucessores históricos. Os
exemplos de Nuremberg, Grécia ou Argentina (este último numa proporção pequena)
não podem aplicar-se a outros países, já que nos três casos houve, de maneira
direta ou indireta, intervenção internacional.
O ajuste de contas com o passado de
genocídio e tortura não pode ser tratado como um problema nacional, mas como
uma questão que afeta a toda a humanidade.
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