quinta-feira, 6 de maio de 2010

Onde foi perdido o Amor. (Walder Maia do Carmo)

Ainda que haja um único homem
na treva atômica,
esquecido,padecendo de se relacionar;
existirá, mais clara, aquela vida que não
perecerá no seu refúgio déspota...
Ainda que haja treva atômica,
o límbico do homem não será derradeiro...
Haverá esperança, essa esperança
que terminará no expirar do planeta...
Onde foi perdido o Amor.

Falha no organismo protege contra HIV

Mutação que torna algumas pessoas mais sujeitas a doenças como o diabetes ajuda sistema imune a caçar vírus da Aids

Novo estudo mostra como o mecanismo funciona e pode abrir nova frente na tentativa de criar vacina; artigo tem elogio de Nobel

DA REDAÇÃO

Uma mutação genética que pode causar doenças autoimunes como o diabetes tipo 1 confere a seus portadores inusitada vantagem: seus organismos passam a combater o HIV.
Cientistas acabam de revelar o mecanismo por trás desse fenômeno, abrindo um nova frente na tentativa de criar uma vacina contra a Aids.
A descoberta, descrita em estudo na revista "Nature", é fruto de um trabalho conduzido por cientistas da Universidade Harvard e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
O grupo descreve como usou uma ampla estratégia, que incluiu simulação do sistema imunológico por computador e testes genéticos em pacientes, para obter seus resultados.
A mutação estudada pelos cientistas é identificada pela sigla HLA B57. Ela faz com que os linfócitos, células de defesa do sangue, atuem de forma mais abrangente. Eles são capazes de capturar vírus que sofreram mudanças e poderiam passar despercebidos pelo sistema imune.
A vantagem da mutação por si só já era conhecida. Mas, sem saber seu mecanismo de ação, os cientistas não tinham como tentar fazer uma vacina que imitasse essa estratégia. No novo estudo, porém, pesquisadores mostram como a HLA B57 induz a produção de linfócitos que reconhecem e atacam até mesmo o HIV "disfarçado".
O truque para o linfócito com a mutação reconhecer o HIV é que, em vez de fazer a busca usando um conjunto grande de características do vírus, ele o identifica usando só um pequeno pedaço das proteínas que o recobrem -um peptídeo.
Ao simplificar o processo, o sistema imune corre o risco de atacar células do próprio organismo, causando doenças. Mas, em compensação, ele não deixa de atacar o HIV porque o vírus mudou só um pedaço de sua enorme casca de proteínas.
Normalmente, linfócitos que agem como policiais "paranoicos" -enxergando o rosto do suspeito em toda molécula que encontra- são destruídos pelo organismo. Nos pacientes com a HLA B57, porém, eles são livres para agir, porque não saem à caça dos vírus carregando uma lista grande de características, evitando um pouco o excesso de ataques a "inocentes".

Prova de fogo
Para saber se a teoria estava correta, cientistas fizeram testes de DNA em pacientes portadores de genes com características similares ao HLA B57.
Neste grupo, aqueles que haviam contraído o HIV de fato dificilmente desenvolviam a doença. Quase 2.000 pessoas foram avaliadas no trabalho.
Segundo Bruce Walker, um dos líderes do estudo, a descoberta levou tempo porque necessitou que um grande conhecimento sobre a estratégia de ação do vírus se acumulasse.
"O HIV está se revelando aos poucos", disse, em comunicado à imprensa. "Isso é mais um ponto a favor da luta contra o vírus, mas ainda temos um longo caminho pela frente."
O trabalho dos cientistas recebeu um elogio público de David Baltimore, Prêmio Nobel de Medicina de 1975, que hoje estuda HIV e imunologia.
"Esse é um estudo notável porque parte de uma observação clínica, integra-a a observações experimentais, gera um modelo [hipótese] validável e deriva deste um profundo entendimento sobre o o comportamento do sistema imune humano", escreveu o cientista.


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0605201001.htm

JOSÉ APARECIDO, 18 ANOS, ASSASSINADO PELA GANÂNCIA CAPITALISTA

As mazelas do capitalismo putrefato, que acaba agindo insensivelmente como agente da destruição da espécie humana, não evidenciam-se apenas nos chamados ataques especulativos (o colunista Clóvis Rossi prefere chamá-los de arrastões...) contra Grécia e Espanha.
A ganância desmedida destrói nações no atacado e mata coitadezas no varejo.

Todos choram a desdita das nações, mas eu lamento também cada coitadeza sacrificado à sanha capitalista.

Caso de José Aparecido Ferreira da Silva, 18 anos, servente de pedreiro que caiu de uma obra insegura no bairro paulistano da Mooca.

Tempo é dinheiro e equipamento custa dinheiro. Já a vida de um peão não vale nada.

Os proprietários da construtora foram flagrados pela Polícia Militar quando instalavam apressadamente uma proteção que faltava no local do acidente. E ofereceram R$ 10 mil para os soldados esquecerem o que não deveriam ter visto.

Detidos em flagrante no momento da entrega do dinheiro, foram autuados por corrupção passiva, fraude processual e homicídio culposo.

Quanto tempo de prisão os aguarda? Eu apostaria que não ficarão atrás das grades nem um ano.

Quantas décadas roubaram do pobre servente?

Só haveria verdadeira justiça se passassem presos o tempo que José Aparecido Ferreira da Silva teria presumivelmente de vida.

Isto jamais acontecerá no Brasil.

Caso o José Aparecido cometesse um homicídio culposo tentando roubar qualquer propriedade de um capitalista, decerto o trancafiariam numa masmorra e jogariam a chave fora.

Quando um capitalista comete homicídio culposo por arrogante desleixo ao organizar as atividades dos seres humanos a seu serviço, quase nada lhe acontece, apenas uns incômodos passageiros.

Roberto Bussab e Takao Kageyama: são estes os cidadãos que causam morte por descaso com os
subumanos, modificam cena de crime para evitar multa e tentam subornar autoridades que estão cumprindo seu dever. Lembremo-nos dos nomes, talvez ainda os encontremos na lista de empreiteiros do ano.

De cara, já foram encaminhados a um distrito policial com instalações apropriadas para criminosos com curso superior. Não serão espancados nem estuprados em cadeias abarrotadas, como decerto aconteceria com sua vítima.

A igualdade perante a lei simplesmente inexiste no capitalismo brasileiro.



quarta-feira, 5 de maio de 2010

O DIA - Poesia de Marcelo Roque

Há o dia pra nascer,
dia pra morrer,
dia pra cantar e dançar,
dia só pra chorar
Há o dia do Fico,
dia do "e eu com isso?"
Dia pra sair as ruas,
dia pra ficar calado
Há o dia só pra família,
há o dia pra orgia;
dia pra falar com deus,
dia pra abraçar o diabo
Há o dia do trabalho,
dia do sexagenário,
dia do pai, da mãe
e do filho;
dia pra lembrar do dia
Há o dia pra ser feliz,
há o dia pra ser triste,
há o dia pra sentir orgasmo
Há dias que não acabam mais ...
E quem derá inventassem o dia,
onde mais nada se celebraria, senão,
o próprio dia

Marcelo Roque

5ª FEIRA NEGRA: NÃO ADIANTA CHORARMOS SOBRE O LEITE DERRAMADO

Em 1972, mal saído dos cárceres da ditadura, eu comecei a cursar a Escola de Comunicações e Artes da USP.

O bom senso me aconselhava uma postura cautelosa, já que a ECA era muito visada pela ditadura. A existência de espiões entre os colegas era dada como favas contadas.

Mas, leopardos não perdem as pintas. Então, deixei-me levar pelos meus humores quando, certa manhã, encontrei trancada a sala de aula.

Uma velha professora de História das Artes, que passara um tempão licenciada, tinha voltado a lecionar naquele ano. E resolvera impor disciplina à antiga, vedando o acesso dos retardatários.

Aula finda, entrei irritadíssimo e gritei para a classe inteira:
"Se vocês deixam uma anta dessas prender vocês aqui dentro, se permitem que ela passe a chave sem levantarem para ir embora, estão todos mortos!"
Meu esporro acabou provocando uma reunião da turma, na qual se decidiu redigir um abaixo-assinado pedindo à direção que removesse a professora autoritária, por estar na contramão do espírito liberal da escola, além de desatualizadíssima na sua didática.

Depois do desabafo que não conseguira conter, eu havia decidido ficar calado. Não intervira nos debates. Mas, quando chegou a hora de escolher os redatores do tal manifesto, todo mundo olhou na minha direção e o colega que comandava a mesa perguntou: "E aí?".

Noblesse oblige, assumi a tarefa e os riscos. E, claro, o texto final acabou sendo meu.

Levamos nossa luta ao presidente do centro acadêmico, que era o Augusto Nunes (acreditem, ele já foi de esquerda...).

O Nunes prometeu:
  • entregar nosso documento ao diretor;
  • distribuir cópias para os alunos das outras turmas.
Dia seguinte, voltou com a resposta:
"O Ferri [diretor] disse que o pedido de vocês vai ser discutido pelo Departamento. E que, se esse manifesto circular na ECA, ele vai considerar caso de expulsão, pelo artigo 477. Mas, se vocês ainda quiserem que seja distribuído, o centro acadêmico manterá sua promessa".
Como o titular daquele departamento estava convalescendo de qualquer coisa, seria a própria professora, que ocupava a chefia interina, quem decidiria sobre seu afastamento ou não.

E como a turma era de calouros que haviam dado um duro danado para entrarem na meca da USP, é claro que eles preferiram o recuo, como o Nunes evidentemente previra.

A luta deixada pela metade me chamou a atenção para o fato de que o Nunes vinha sempre propor lutas que também não levaria até o fim. Lançava bandeiras inviáveis, como se quisesse que a turma fosse
politizada pelos fracassos...

Eu detestava tal postura desde o movimento estudantil de 1968. Nunca considerei derrota nenhuma salutar, nem admiti entrar numa briga para perder.

Então, quando o Nunes chegou certa vez para iniciar outro desses
coitus interruptus, levantei-me ostensivamente e saí batendo a porta.

Ganhei outra inimizade, claro. Mas, desopilei o fígado.

Por que fui tirar estas reminiscências do fundo do baú?

Porque foi exatamente como a esquerda agiu ao levar para a Justiça uma luta que só tinha chance real de êxito se travada nas esferas do Executivo e do Legislativo.

Com isto, colocou o tema da punição dos torturadores em evidência, para desenvolver a chamada
conscientização, mas sabendo que, no final, perderia. E perdeu.

Depois da derrota, vem o
jus esperneandi, o chororô. Textos e mais textos desancando o Supremo, como se não fosse caçapa cantada, óbvio ululante, que ele decidiria contra a posição da OAB.

Então, saúdo com entusiasmo o artigo de hoje (5) do Paulo Sérgio Pinheiro, ex-secretário de Direitos Humanos da União, que não se limitou a fornecer catarse, mas apontou o caminho para seguirmos em frente:
"...a consagração, pelo STF, da impunidade dos agentes do Estado bandido faz ainda mais candente e urgente o estabelecimento de uma comissão da verdade, para que a sociedade, tendo-lhe sido negado o acesso à justiça, possa ao menos conhecer a verdade".
Ou seja, vamos arregaçar as mangas e lutar melhor a luta que está aí para ser vencida. Chorar derrotas não adianta, temos é de conquistar vitórias!


Como bem disse o Paulo Vanzolini, poeta maior da MPB:
"Um homem de moral
não fica no chão,
nem quer que mulher
venha lhe dar a mão,
reconhece a queda
e não desanima,
levanta, sacode a poeira
e dá a volta por cima"

terça-feira, 4 de maio de 2010

A MAIOR AMEAÇA AO MUNDO SÃO OS 5.113 PETARDOS NUCLEARES DOS EUA

O que podemos esperar dos responsáveis pelo horror de Hiroshima?
Sou insuspeito de simpatias pelo tirano obscurantista do Irã, Mahmoud Ahmadinejad: não tenho nenhuma.

Considero estado teocrático uma fantasmagoria medieval que resistiu à passagem das trevas para a luz; e Ahmadinejad, o responsável último pelo assassinato travestido de legalidade de manifestantes pacíficos, por terem supostamente desrespeitado os desígnios divinos (uma falácia que serve para justificar qualquer coisa que se queira).

Sou totalmente contrário à pena de morte para crimes de sangue e considero pura barbárie sua aplicação em episódios menores como o de se protestar contra fraude eleitoral; para pessoas civilizadas, isso nem delito é.

Ressalvas feitas, vou concordar uma vez com Ahmadinejad. Falando nesta 2ª feira (3) na reunião nuclear da ONU, ele acertou na mosca: a ameaça implícita estadunidense de utilizar bombas atômicas contra o Irã é atroz, hedionda, repulsiva e, portanto, merecedora do repúdio universal.


Parte de uma nação que já incidiu (duas vezes!) nesse ato de extrema desumanidade e abjeta covardia, de forma que a hipótese de reincidência não deve ser descartada.

Os EUA fizeram do povo japonês uma cobaia dos efeitos de petardos atômicos, detonando-os para, principalmente, servirem como efeito-demonstração: queriam intimidar Stalin, para que não ousasse exigir mais do que o quinhão do mundo que estavam dispostos a lhe conceder, na partilha de áreas de influência entre os vencedores da II Guerra Mundial.

Para forçar a rendição japonesa, hoje está mais do que provado, os holocaustos de Hiroshima e Nagasaki não eram minimamente necessários. Sem sequer armamentos e combustíveis para continuar lutando, o Japão já fazia sondagens secretas sobre uma fórmula de capitulação que não implicasse a deposição do seu imperador.


Depois de terem levado a cabo seu show macabro, os EUA acabaram consentindo que Hirohito permanecesse no trono do Japão. Quando ocuparam o país, entre 1945 e 1950, apenas impuseram a negação do caráter divino de sua investidura, fazendo o regime se transformar em monarquia constitucional.


O que serviu para comprovar, mais uma vez, a inexistência de qualquer motivo real para mandarem duas cidades e seus habitantes pelos ares, exterminando mais de 200 mil civis e impondo sofrimentos inenarráveis aos sobreviventes que haviam sido expostos à radiação.


Então, o fato de os EUA terem admitido possuir atualmente 5.113 petardos prontos para utilização significa que o mundo corre grave perigo. O que não farão eles quando seu império alicerçado na ganância e na desigualdade começar a ruir?!


E, de imediato, sua recente frase ambígua de que não utilizarão armas nucleares contra nações que não as tenham, desde que tais nações respeitem o Tratado de Não Proliferação Nuclear, deve ser encarada como uma séria ameaça e uma inaceitável afronta ao resto do mundo: os EUA erigem-se em árbitros que decidem quem pode ter o que, usando e abusando de sua condição de detentores do maior arsenal atômico, quando são os últimos a terem autoridade moral para dizer uma palavra sequer neste assunto. Os únicos que já utilizaram as armas do Juízo Final não têm lições para dar a ninguém.


Last but not least
, devemos lembrar que Israel possui um arsenal nuclear totalmente à margem de qualquer supervisão internacional e é um país cujos crapulosos dirigentes não hesitam em ordenar genocídios com os perpetrados contra os palestinos na virada de 2008 para 2009.


Muito mais do que o Irã, que nem sequer possui armas nucleares, quem precisaria ser enquadrado, neste instante, é Israel.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

EUA MENTEM PARA OBTER EXTRADIÇÃO DE POLANSKI

Roman Polanski é um extraordinário cineasta e um homem marcado por tragédias pessoais.

A Justiça estadunidense lhe move desde 1977 uma perseguição que, independentemente dos PRETEXTOS alegados, TEM COMO VERDADEIRO E ÚNICO MOTIVO A BUSCA DE HOLOFOTES por parte de burocratas medíocres, que jamais mereceriam uma mísera linha nos jornais se não pegassem carona na notoriedade de um artista maior.

Qualquer outro caso com as mesmas características, que não envolvesse um gigante como Polanski, estaria esquecido no mais morto dos arquivos mortos.


Então, sabendo quem é Polanski e tendo amiúde travado contato com nulidades semelhantes às que o martirizam na minha carreira jornalística, dou total crédito ao que ele acaba de afirmar, num justificado desabafo:
"Os Estados Unidos continuam pedindo minha extradição mais para servir minha cabeça numa bandeja para a mídia do mundo todo do que para realizar um julgamento acerca do qual já foi feito um acordo há 33 anos".
Segundo ele, o pedido de extradição enviado às autoridades suíças "é baseado em mentira".

Não duvido, pois foi com mentiras que os EUA condenaram a muitos, inclusive Sacco e Vanzetti, cuja inocência acabaria sendo oficialmente reconhecida 50 anos após sua execução.

O advogado de Polanski acaba, por sinal, de apresentar formalmente o pedido de que sejam exigidas da Justiça estadunidense as transcrições de depoimentos de um ex-promotor do caso, as quais, diz ele, "provarão de forma conclusiva que o pedido de extradição feito pelos Estados Unidos ao governo suíço se baseia em declarações falsas e materialmente incompletas".

"SUADOURO" À MODA DOS EUA

Polanski foi acusado de, numa festa de notáveis de Hollywood, haver mantido relações sexuais com uma modelo de 13 anos.

O termo estupro está sendo até hoje utilizado incorretamente pela imprensa brasileira, já que, em nosso País, subentende coação. Os estadunidenses, com seu moralismo de jecas, o aplicam até a sexo consentido, desde que praticado por adulto com menor.

Polanski admitiu ter transado com a modelo, mas afirmou que a relação foi consentida e que ela não era virgem.

Desde meu primeiro artigo, concedi o benefício da dúvida a Polanski, por vários motivos, além da atuação pra lá de suspeita dos funcionários estadunidenses que, ao fazerem essa tempestade em copo d'água, conquistaram minutinhos de fama dos quais jamais desfrutariam por mérito real:
  • pais zelosos não deixariam sua filha participar de uma festinha desse tipo, então o caso pareceu-me uma variante da arapuca que uma vigarista armou para extorquir dinheiro do boxeador Mike Tyson (sendo ridiculamente apoiada pela Justiça dos EUA...);
  • Polanski estava na mira dos segmentos mais conservadores e fanatizados da sociedade estadunidense desde 1968, quando dirigiu O Bebê de Rosemary, então a parcialidade na condução do seu caso é hipótese mais do que provável;
  • a suposta vítima acabou retirando, quando adulta, a queixa que seus país apresentaram contra Polanski; e
  • sempre considerei a prescrição de crimes um componente fundamental da civilização, então avalio como uma desumanidade os dois meses de detenção e a atual prisão domiciliar de Polanski, aos 76 anos de idade, quando sua periculosidade para a sociedade é nenhuma e sua contribuição, das mais relevantes.
O caso está para ser decidido, "sem pressa", pelo ministro da Justiça suíço.

domingo, 2 de maio de 2010

ESPELHO - Poesia de Marcelo Roque

Tolo é o poeta que acredita
com os seus poemas
poder mudar o mundo
O que não percebe,
é que é o mundo quem dita os seus versos



Marcelo Roque

AINDA SOBRE A 5ª FEIRA NEGRA - 1

Assim como ocorria durante o macartismo estadunidense, fui colocado pela grande imprensa numa espécie de lista negra, de forma que minha posição nunca pode ser citada, mesmo quando dou contribuições pertinentes para a compreensão de períodos históricos dos quais participei.

Todos os artigos que escrevi sobre o julgamento acerca do alcance da anistia política no STF foram enviados, como sempre, aos editores de Opinião e Política de jornalões e revistonas. Não se pode dizer que trouxessem mais do mesmo; pelo contrário, eram interpretações diferenciadas.

Ninguém publicou. Não lhes convém que minhas análises ganhem mais quilometragem do que a que estou conquistando, a duras penas, na internet.

Mas, claro, os leitores desses veículos podem ler a mesma coisa dias depois, repetida por um comentarista aceitável. Alguém que esteja apenas ajudando os leitores a situar-se face aos acontecimentos políticos, não tendo nenhum compromisso com a revolução, como o que eu mantenho há quatro décadas (sem nenhuma intenção de revê-lo ao me tornar sexagenário, o que acontecerá dentro de alguns meses...).

Assim é que a Folha de S. Paulo traz neste domingo (02/05) um belo texto do colunista Jânio de Freitas, A Falta da História, cujos trechos mais marcantes vale a pena reproduzir aqui:
"Sete dos votos no STF adotaram, com mínimas diferenças verbais, o argumento de que 'a anistia foi amplamente negociada entre civis e militares'. Mas que negociação foi essa e qual foi a amplitude alegada, agora como à época?

"A reivindicação de anistia começou ainda no ano em que se deram o golpe e suas primeiras formas de repressão política e física, incluída a tortura (...). Quando a anistia foi discutida, porém, já os militares estavam no poder havia 15 anos.

"Logo, estava evidente (...) quais eram as partes da negociação. De um lado, o poder discricionário, poder armado, sem condicionamentos institucionais, e sem pejo no uso dessas características do regime. De outro lado, os oponentes postos ainda sob a sujeição àquelas características do regime, sempre procurando pequenas brechas (...) onde cultivar mais uns palmos de resistência. A oposição parlamentar, existente só por consentimento do regime, e 'depurada' dos oponentes mais perturbadores, não esteve livre daquelas condições no decorrer do breve processo de discussão e fixação dos termos da anistia.

"Foi sob a desigualdade extrema das partes que se deram as 'negociações amplamente feitas entre civis e militares'. De que meios a oposição ao regime dispunha para fazer exigências, ou uma que fosse? Nenhum. Nem por isso faltaram menções à punição dos autores de tortura, mortes, estupros e desaparecimentos de presos. Tais cobranças foram publicadas por alguns jornais, no Congresso houve quem ousasse levá-las à tribuna. O regime recusou-se a discuti-las. Era a limitação pela força. A oposição esticou o quanto as condições lhe permitiram. Os militares entregaram até onde começava a própria razão de admitirem a anistia parcial ao 'inimigo', como dizem ainda.

"A razão era objetiva: tratar de se assegurarem a impunidade, sem risco algum para a continuidade de suas carreiras ou fora dela. Assim como se dava no exterior, aqui, até entre empresários beneficiados pelo regime, a mínima abertura no governo Geisel foi bastante para demonstrar que o poder imposto entrara em esgotamento irreversível. Nessa perspectiva, admitir a possibilidade de punição a qualquer ato traria risco a suas ramificações na hierarquia das responsabilidades. Na forma e no teor, a anistia foi feita pelo poder militar para o poder militar."
Sem dúvida, uma análise perfeita de um veterano e venerando mestre.

Mas, os leitores da Folha a receberam com um atraso imperdoável no jornalismo: o jornalão foi superado por um mísero blogue!

Pois, vejam se não foi a mesma coisa que eu coloquei no ar e imediatamente repassei à própria Folha, na manhã de 6ª feira (30/04):
"...em seu interminável e chatíssimo blablablá, os ministros do Supremo não deram resposta satisfatória a uma questão crucial: leis votadas por Congressos que funcionam precariamente em regimes de exceção têm o mesmo peso das produzidas na vigência plena das liberdades democráticas?

"Pois o Congresso que pariu a anistia de 1979 era aquela casa da sogra que os militares fechavam tantas vezes quantas quisessem, cassando seus membros a bel-prazer, dissolvendo e/ou reorganizando partidos na marra e impondo restrições as mais arbitrárias a quem pretendesse se candidatar a uma cadeira.

"Ou seja, tratava-se de um Congresso purgado, manietado e intimidado, que funcionava como Poder de fachada, pois o verdadeiro e único Poder estava na caserna.

"Pretender que o mostrengo engendrado nessas condições – a anistia que igualou algozes e vítimas – tenha sido um pacto sagrado de conciliação nacional, desculpem-me os doutos ministros, é simplesmente risível.

"No fundo, os parlamentares estavam pisando em ovos e a esquerda anuiu sob chantagem, pagando o preço que lhe impuseram para a libertação de presos políticos e o retorno seguro dos exilados.

"A anistia que os algozes concederam a si próprios foi uma aberração jurídica, inclusive, porque nenhum deles tinha sido ou estava sendo punido de forma nenhuma. Colocou-se no mesmo plano a anistia das vítimas presas/barbarizadas e o habeas corpus preventivo dos criminosos recompensados/promovidos."
c.q.d.

AINDA SOBRE A 5ª FEIRA NEGRA - 2

A companheira Rosa, a quem muito respeito, escreveu que o fracasso da tentativa de se punir os torturadores como responsáveis por crimes comuns nos deixa a todos num mato sem cachorro, pois o Congresso Nacional também não vai fazer o que eu considero necessário: revogar a Lei da Anistia produzida durante a ditadura, substituindo-a por outra a ser gestada em liberdade.

Infelizmente, assim é -- muito mais agora, pois a derrota acachapante no Supremo Tribunal Federal serve como desculpa para a omissão dos parlamentares.

Enfim, minha conclusão é a de que deixamos de travar a luta correta e necessária, dando-a antecipadamente como perdida, para tentarmos obter uma pálida meia vitória -- e acabamos perdendo do mesmo jeito. Com a agravante de termos ficado em posição falsa, o que o inimigo não cansa de jogar na nossa cara.

O subterfúgio utilizado tinha o pequeno inconveniente de, caso resultasse, só permitir a punição de quem sujou as mãos com nosso sangue. Os que não torturaram nem mataram ninguém, mas delegaram o serviço sujo aos boçais truculentos, ficariam impunes para sempre.

De quebra, o desastrado estratagema pareceu dar razão à cantilena falaciosa das viúvas da ditadura, de que os milicões eram angelicais e a bestialidade partiu de subalternos aloprados, sem que a alta oficialidade soubesse o que se passava nos porões.

Mas, por que esse detalhe me incomodou tanto?

Companheiros que foram torturados, têm manifestado seu compreensível desgosto por não verem seus algozes castigados de nenhuma maneira.

Apesar da objetividade da minhas colocações, não deixam de estranhar a abordagem que dou ao tema; parece-lhes racional demais. E meus sentimentos, onde foram parar?

Na verdade, impregnam cada linha que escrevi.

Pois, passado os primeiros (infernais) dias da tortura, fui percebendo como funcionava aquela engrenagem maldita.

Havia os que batiam, aplicavam choques, asfixiavam, penduravam no pau-de-arara. Equipes às vezes lideradas por um major, às vezes por um capitão. Homens de linha de frente, de ação.

A esses era relativamente fácil enganarmos -- ainda mais por estarem ocorrendo muitas quedas, de várias organizações ao mesmo tempo, o que os confundia e desnorteava. Cometiam erros crassos.

No entanto, várias vezes uma versão que colara durante a tortura dava motivo a novas e piores sevícias, algumas horas depois.

Fui percebendo que havia uma equipe de analistas na retaguarda, interpretando os dados obtidos pelos torturadores. Oficiais bem mais inteligentes e hábeis do que os açougueiros. Eles notavam algumas de nossas mentiras, pelas quais a turma da porrada passara batida.

Resultado: alertavam-na e o repique vinha pesado, não só porque os torturadores queriam obter as informações que estávamos escondendo, como por seu sentimento de humilhação ao descobrirem que os havíamos iludido.

Um ou outro desses analistas veio mais tarde falar comigo. Por eu ter sido comandante de Inteligência, viam-me como o inimigo que desempenhava funções correspondentes às deles, daí sua curiosidade.

Foram os que mais odiei no DOI-Codi/RJ. Porque eram sofisticados, tinham palavreado rebuscado, trajavam fardas impecáveis, um chegava até a usar perfume... e eram eles que verdadeiramente norteavam a tortura, apontando quem deveria apanhar e quanto deveria apanhar.

E os execrei principalmente por não serem primários como seus paus mandados e, mesmo assim, estarem desempenhando um papel tão hediondo.

Seu brilhantismo intelectual lhes permitia aquilatar a abominação para a qual contribuíam, mas eram totalmente destituídos de caráter. Encaravam aquilo como um jogo, fingindo não notar que, em vez de peças de xadrez, estavam sendo sacrificados seres humanos.

Então, para mim, o verdadeiro inimigo eram esses analistas e os oficiais superiores, não o rebotalho que agia nos porões.

Aos mandantes, eu detestava. Aos executantes, desprezava, como escória insignificante que eram.

Daí ter ficado desde o início entalada na minha garganta essa proposta de irmos atrás tão somente dos que deixaram suas digitais na cena do crime.

Meus alvos preferenciais eram exatamente os outros: aqueles que ficaram atrás da cortina puxando os cordéis, com a certeza de que não seriam atingidos por nosso fogo, nem responsabilizados depois.

graffiti animado pelo artista italiano blu "MUTO

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