quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública

*MATÉRIA DE 2012
http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2012/03/para-marilena-chaui-ditadura-militar-fez-com-que-universidades-nao-oferecam-formacao-humanista





Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública


por Paulo Donizetti de Souza, Rede Brasil Atual publicado 29/03/2012 19:11, última modificação 13/06/2012 10:49 
 




"Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, se ia ser preso, se ia ser morto. Não sabia." (Foto: Gerardo Lazzari/ Sindicato dos Bancários)




São Paulo – Violência repressiva, privatização e a reforma universitária que fez uma educação voltada à fabricação de mão-de-obra, são, na opinião da filósofa Marilena Chauí, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universitário do país. Chauí relembrou as duras passagens do período e afirma não mais acreditar na escola como espaço de  formação de pensamento crítico dos cidadãos, mas sim em outras formas de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares, ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. 
Chauí, que "fechou as portas para a mídia" e diz não conceder entrevistas desde 2003, falou à Rede Brasil Atual após palestra feita no lançamento da escola 28 de de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo hoje se ressente.

Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?

Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas, mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.
Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada, física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.

E o terceiro aspecto?

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960 por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio, que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos. Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários cursos. 
"Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil"

Houve um comprometimento da inteligência?
 
Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta, ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na universidade, havia professores que eram escalados para dar essa matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas. A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a ditadura produziu. 


Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos acontecimentos de 1968 em todo mundo.

Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política, não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato. 
Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado, com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro. Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer, nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro das salas de aula.

Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por professores como Aziz Ab'Saber,  Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhor tem esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil. 
"Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média"

Não há tempo para um conceito humanista de formação?

É uma luta isolada de alguns, de estudantes e  professores, mas não a tendência da universidade.

Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio? Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a produção de cabeças e mãos para o mercado?

Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer. Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola, em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência da escola.
 
Leia especial sobre os 48 anos do golpe de 1964:

*COLOCO AQUI ATÉ OS COMENTÁRIOS DOS LEITORES DO SITE  "REDE BRASIL ATUAL" (*nota minha - Nadia Gal Stabile SARAU PARA TODOS)



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    Fico impressionada como algumas pessoas ainda acreditam que o período da ditadura trouxe algo de positivo, além da fantasia de que um período tão sombrio, possa ser superado rapidamente. Fico com a verdade daqueles que vivenciaram e lutaram, trazendo na pele as marcas indeléveis deixadas por esse momento histórico de nosso país. Recomendo o livro: Diário de Fernando, do Frei Betto


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      Rafaela este é o ônus do livre pensar. Conheço grupos de ex-militares que estão organizados e captando cada vez mais pessoas com o discurso que podem fazer melhor. Assim como existem os Nazistas e os defensores do Coronelismo.




    Uma mentira bem contada pode se tornar uma verdade! Hoje, sem ditadura alguma, vemos uma educação fraca, escolas depredadas, sem segurança alguma e, além disso, uma juventude sem disciplina e sem respeito aos mestres! Onde está a qualidade da educação na democracia moderna do Brasil?




      Caro ASSM, o que temos hoje é a herança, ainda não superada, do desmonte que a ditadura militar realizou com a escola pública em todos os níveis, nas esferas federal, estaduais e municipais. A reconstrução da escola pública, após 21 anos de desmantelamento, não ocorre num estalar de dedos, como vc deve imaginar. A partir do governo Sarney, passando por Collor, Itamar e dois mandatos de FHC, pouco se fez para a recuperação do ensino público. Então, não queira debitar às três gestões petistas o descalabro em que se encontra a educação no Brasil. Mas tem havido um grande esforço no sentido da recuperação do ensino público, cujo início se passa necessariamente por sua reestruturação material. Nestas três gestões petistas, foram criadas 18 universidades federais e centenas de escolas técnicas - e isso significa um grande investimento nessa área. Nos governos anteriores ao do presidente Lula, não foram criadas nenhuma federal.




    Infelizmente, as pessoas utilizam do discurso para alienar a população. Faltou a Professora M. Chauí dizer que o PT(Partido no qual, a professora é simpatizante), está no governo federal há mais de 10 anos, e acho que seria tempo suficiente para mudar algumas características da educação brasileira. Cabe ressaltar que as universidades públicas brasileiras(muitas são referência) foram construidas e normatizadas nesse período. Ainda bem que não foram no governo do PT, pois, ao invés de ter guarda em sala de aula, a senhora estaria sendo escoltada por traficantes e analfabetos. A democracia Brasileira promoveu uma das maiores atrocidades na educação: a progressão continuada, que construiu uma população analfabeta(não venha dizer que uma pessoa que escreve seu nome, mas não interpreta uma frase, seja alfabetizada), e que por muito tempo estará á margem da sociedade. Quiseram apenas conseguir com isso o dinheiro da UNESCO, mas que ao longo do tempo, tornou-se mais nocivo que a falta dele. Veremos os desastre por completo daqui 2 ou 3 décadas, período este em que teremos milhares de miseráveis e ao mesmo tempo analfabetos, sem condições de brigar por um emprego no mercado de trabalho: Bolsa família + progressão continuada= aumento da violência, guerra civil e barbárie na sociedade civil. Para que estudar se há a possibilidade de receber o diploma sem esforço e para que trabalhar se posso ser sustentado( não sendo inválido), pelo governo.




      João Vitor, vc não leu direito a entrevista. Na USP não havia guardas nas salas de aula, mas espiões e informantes dos órgãos de segurança para sequestrar professores ou alunos, caso estes manifestassem qualquer ideia que desagradassem ao regime militar. Agora, um absurdo a sua afirmação de que a democracia "promoveu uma das maiores atrocidades na educação: a progressão continuada". Essa maldita "progressão automática" é ideia de um ex-governador de SP chamado José Serra (e prosseguida por Alckmin). Essa excrescência não tem nada a ver com democracia. Vc reclama do PT, mas foi o governo desse partido que implantou 18 universidades federais e centenas de escolas técnica no país. Quantas o FHC criou em seus 8 anos? Nenhuma! Então, meu caro, imagine 21 anos de destruição da educação pública, somados aos outros mandatários que praticamente nada fizeram. Agora, não é nada razoável querer debitar toda essa desgraça na conta do PT.




    Grande !!!! Sinto que a enfermidade cultural e política nos atormente dia-a-dia, sem que haja por breve uma solução para as necessidades que a sociedade brasileira e acredito que a sul-americana, tenham em seus bolsões, chamados agora de classe C, D, E, e mais ... Aqueles que acreditávamos estar ao nosso lado - e me incluo, pois fui bolsista federal do extinto CREDUC, e paguei de volta- não mais estão, fazem igualzinho aos temidos testas de ferro da ditadura. lamentável! Onde estão os homens do povo?




    No Rio Grande do Sul do século XXI - assim como em todo o Brasil e América Latina - quem dá as diretrizes, aponta os rumos da educação pública "em cima e em baixo" é o Banco Mundial.
    Tarso Genro, o pai da Lei do Piso Salarial Nacional quando ministro da Educação, hoje governador, se nega a pagar o que manda a lei descumprindo sua promessa de campanha.
    Não bastasse isto, implanta uma reforma do ensino médio que tem por objetivo final exatamente a formação aligeirada e desprovida de perspectivas de continuidade de estudos em nível superior. Propõe exatamente "atender as necessidades do mercado..." e orientar os currículos conforme as demandas dos APLs - Arranjos Produtivos Locais, em cada região do estado.
    Me parece que esta é a continuação da lógica implantada pela ditadura e, agora, dirigida pelo "governo planetário", o Banco Mundial.




    O problema de intelectuais é que transformam a realidade em
    palavras e não conseguem enxergar a realidade sem palavras, para eles a
    realidade é só um conceito.




    Muitos viveram essa época,de perseguição,policiais montados nas portas das Faculdades,á menor menção de movimento,eles partiam prá cima com animais guiados por outros.Eles colocavam bombas de gaz nos elevadores,e esperavam os alunos no final das escadarias.Não se conseguiu mudar nada,as palavras dessa mestra me levou àqueles tempos,Era em quase todo o Brasil,viajei prá o Rio,prá casa de uma amiga,imaginando sair daqui até que as coisas acalmassem,e no aeroporto mesmo vi que lá estava pior,Castelo Branco assumindo o regime,policiais por todo o canto,o Catete estava em pé de guerra.Abordavam com toda a estupidez,revistavam tudo!Foi um horror,fui prá Tijuca prá casa de uma amiga casada com o dono do Palheta,português,não entendia muito o q acontecia,e não queria problemas,então politica não se discutia, e fiquei sitiada. Não gosto de lembrar. Ao voltar,terminei o curso,como queriam,mudou tudo,e impotentes tínhamos mais que calar! Alguns realmente estão no poder,e a luta inglória resultou em nada:21 anos de submissão prá acabar com discursos vazios.A democracia que vivemos hoje, é tão somente porque aprendemos a calar e se submeter naquela época! Hoje nossos filhos através de nós aprenderam a acreditar em qualquer balela.Calar prá esperar melhorarar,porque pior já esteve: foi o que aprendemos durante o regime militar.AI5 era uma desgraça,censura prá tudo.Após Ulysses,Tancredo, o que restou foram brasileiros moralmente cansados e dispostos a recomeçar! Alguns!!




      Até hoje os professores universitários de esquerda, são perseguidos de maneira sub-reptcia ou camuflada. A direita conservadora presente e atuante nas universidades brasileiras é responsável pela privatização sutil dos hospitais universitários e algumas áreas do ensino.O desmonte das universidades facilita atese que privatizar é o melhor remédio.




    e após a ditadura? parace que ficou estagnado essas pessoas que era atormentadas pela ditadura, viraram lideres políticos e não mudaram nada.. hoje sou professor de Artes, matéria ridcularizada pela política, matéria feita por pessoas de bom nível, mas tratada na forma da ditadura.. somos obrigados a ser polivalentes, a ter que enfeitar murais ... Nas escolas públicas de hoje as crianças são apoiadas a fazerem o que quiserem sem medo ou culpa.. o governo nos obriga a aprova-las.. e cadê o pessoal que viveu aquilo, foi para o poder e continua fazendo muito pouco..

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