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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

BEIJO MARGINAL... "eu não tive culpa (risos)"



*dos tempos do Orkut, na comunidade "Poesia Pinga"(sem cortes, sem edição)

BEIJO MARGINAL...


foi numa tarde de outono
nos meus 23 anos de tonta libido (início da década de 80)
perto do símbolo da urbe paulistana
o Copan! com seus longos e tortuosos corredores
eu e um grande artista nos encontramos casualmente
na porta de um teatro, ele vendia seus livros
dramaturgo, marginal, doidão e um tanto cafajeste
nada menos do que Plínio Marcos...
Navalha na carne, Abajur lilás, Dois perdidos numa noite Suja...
seus títulos já me arrepiavam...
mas ele agia como um verdadeiro cafajeste
sedutor e marginal, magistral!
seu hálito me embriagava
suas mãos me prendiam
seu lado marginal me aliciava
na calçada da rua do Teatro de Arena Eugênio Kusnet...
numa das ruas mais marcadas de São Paulo
fui levada a dar meu primeiro beijo marginal,
mundano proibido, porque vetado pelas normas sociais
proibidíssimo pelo pai da donzela que era uma fera
mas Plínio Marcos conseguiu encostar sua língua na minha
um único e eterno beijo, mais que secreto na calçada,
numa tarde de outono.

Nadia Stabile -  maio 2007(impressões da primeira tentativa de escrever um texto um pouco erótico, faltou dizer aqui que beijar Plínio Marcos na boca, foi como beijar uma parte da história de nosso teatro, que sempre tive profunda admiração. Anos depois ele partiu, mas o livro que comprei das mãos dele e a lembrança deste beijo, fazem parte de minha história. Escrevi assim de repente, mais ou menos como o beijo) 



80 anos de Plínio Marcos




Plínio Marcos de Barros (Santos, 29 de setembro de 1935 — São Paulo,19[1] de novembro de 1999) foi um escritor brasileiro, autor de inúmeras peças de teatro, escritas principalmente na época do regime militar. Foi também ator, diretor e jornalista. Foi casado por 25 anos com a jornalista Vera Artaxo, falecida em julho de 2010, e, anteriormente, com a atriz Walderez de Barros, com quem teve três filhos, entre os quais, o também dramaturgo Leo Lama.(...)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pl%C3%ADnio_Marcos



sexta-feira, 4 de junho de 2010

BALADA DE UM MALDITO

Desde Carta a Meu Pai, do Kafka, eu não lia algo nessa linha que me emocionasse tanto como Meu Pai Morreu, o tributo prestado a Plínio Marcos por seu filho Léo Lama. Recomendo com entusiasmo.

Vi as primeiras peças do Plínio quando começava a dar meus primeiros passos na política revolucionária: Dois Perdidos Numa Noite Suja (1966) e Navalha na Carne (1967).

Ele colocava no palco os derrotados, os miseráveis, os marginais, os excluídos da época.

E, naquele tempo de encenações bem comportadas, ousava mostrar esse universo em toda sua crueza e com todas suas gírias e palavrões, escandalizando Deus e o mundo.

Tinha impacto, mas não fazia muito meu gênero.

Eu preferia os épicos do Teatro de Arena, as peças de Brecht, a criatividade do Oficina e do Tuca, dramas cabeça como Marat/Sade, etc.

Talvez porque, ao contrário dos típicos rebentos da classe média, eu não me surpreendesse tanto com os tipos retratados pelo Plínio.

Cresci ao lado de uma favela, jogando bola com os favelados, participando de batalhas campais contra eles.

Assisti a muitos episódios chocantes, como a de um malandro baixinho e sua mulher grandona, ambos bêbados, ambos se xingando e agredindo, ambos sangrando, enquanto umas 50 pessoas olhavam, riam, incitavam e aplaudiam.

Depois, ao longo da vida, nunca fiquei tão distante desse universo a ponto de precisar do teatro para o conhecer (embora também nunca tenha feito parte dele, ao contrário do Sérgio Ricardo, p. ex., que chegou a morar no morro carioca quando sua carreira artística foi minada pela ditadura).

O certo é que o Plínio tinha estilo, dominava as ferramentas do ofício e cumpria o papel importante de dar voz àqueles que a sociedade tratava como não-pessoas.

Também era ótimo cronista, sempre flagrando a realidade sofrida das quebradas do mundaréu. Na década de 1970, todo domingo eu lia seus textos no Folhetim.

Foi uma grande perda, quando a ditadura impôs mudanças na Folha de S. Paulo e a degola atingiu o Plínio e também o editor desse suplemento, Tarso de Castro. O tal do Mais+ nunca chegou aos pés do Folhetim.

Cansei de ver o Plínio, em épocas de vacas magras, vendendo seus textos mimeografados na porta de teatros que exibiam peças infinitamente piores que as dele. Uma figuraça.

[Lembrar-me de como ele tirava de letra suas agruras me dava forças quando, na pior crise financeira da minha vida, sobrevivi durante dois meses empurrando meu livro a amigos, conhecidos, colegas -- até do primário!-- e quantos mais conseguisse laçar. Fui mascate da própria obra, como o Plínio. E, como ele, sem constrangimento nenhum, pois padecer em decorrência de virtudes não humilha ninguém.]

Acabei, finalmente, identificando-me muito com uma de suas obras, tanto que a vi umas 4 ou 5 vezes: Balada de um Palhaço (1993).

Na minha opinião, tem o que faltava nas anteriores, um pouco de poesia e esperança, pois o realismo áspero, sem contrapontos, é sufocante e claustrofóbico demais.

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