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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Leia a íntegra da entrevista com o filósofo Pierre Lévy

Estudioso da cibercultura propõe utilização de linguagem universal na rede.

Projeto faz parte de desenvolvimento da chamada 'web semântica'.
Leopoldo Godoy Do G1, em São Paulo
29/08/09 

G1 - Você está trabalhando com uma equipe em um projeto novo, o IEML. Qual o problema que o IEML quer resolver?

Pierre Lévy - Digamos que, no curto prazo, há um problema relativamente pequeno, chamado de problema da operabilidade semântica. E também há um objetivo de longo prazo, pra mim, que é resolver o problema da auto-referência e da reflexibilidade da inteligência coletiva.

Então, o primeiro problema é a operabilidade semântica. Obviamente, hoje em dia, todos os documentos e todas as mensagens estão ligadas entre si pela internet, no ciberespaço. Então há uma interconectividade física por conta da internet. Mas ainda há uma divisão semântica, uma fragmentação entre esses documentos.



Essa fragmentação da informação existe, em primeiro lugar, por conta da existência natural de várias línguas. Se alguém escreve um blog em chinês, eu não consigo ler, você não consegue ler e os programas de tradução automática, como do Google, não são muito bons. Portanto, não há comunicação.

Outro aspecto é que temos sistemas diferentes de classificação das informações. Os computadores podem usar um sistema de classificação, e se meu conteúdo é organizado por um sistema diferente, as coisas começam a ficar complicadas. E existem centenas de sistemas diferentes.

Por exemplo, nas bibliotecas, você pode organizar os livros por disciplinas, por ano de publicação, por área geográfica de interesse, e por aí vai. Em outra biblioteca, a divisão será diferente, e aí é uma bagunça.

Os cientistas da computação criaram algo que é bastante poderoso, usado pela famosa "internet semântica", que é chamado de "ontologia". A "ontologia" é uma rede de conceitos na qual as relações entre um conceito e qualquer outro da própria "ontologia" é bem definido. Portanto, os computadores são capazes de raciocinar automaticamente sobre os conceitos da ontologia.

Por exemplo, você está lendo um documento e identifica que ele trata sobre os conceitos "x", "y" e "z". Se você expressar essas idéias em uma ontologia, o computador é capaz de identificar que este documento está ligado a outros, e te ajudará a filtrar, navegar e expandir seu acesso a conhecimentos correlatos. É algo muito benéfico e poderoso.
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O problema é que há muitos sistemas diferentes de ontologias. Todo esse raciocínio automatizado, o uso de filtros e conexões, geralmente é restrito a uma área do conhecimento. E, às vezes, você esbarra em uma situação na qual em um mesmo domínio de informações há várias ontologias diferentes. Diferentes especialistas podem dividir as informações de formas nem sempre compatíveis. E, esse é essencialmente o problema de operabilidade semântica.

A linguagem que estou propondo pode ser traduzida para diferentes línguas naturais, e pode expressar classificações e ontologias de todas as áreas. Além disso, ela é criada originalmente de uma maneira na qual os computadores podem fazer várias operações utilizando esses termos. E não apenas operações lógicas, como raciocínio automatizado, mas também variações, rotações, conexões diferentes, como se uma expressão fosse um número. Desta forma, é possível fazer transformações geométricas com as informações em um espaço semântico. Essa é a idéia básica.

As linguagens naturais são muito irregulares, e têm um léxico muito ambíguo. Há sinônimos, homônimos, etc. A linguagem que proponho é completamente artificial, segue regras bastante estritas, de modo que permita a manipulação automática das informações.

O que eu espero é que, utilizando essa linguagem, sejamos capazes de fazer traduções automáticas com muita facilidade. Ela funcionará como uma "chave" entre duas línguas naturais, e vai facilitar a navegação e a filtragem de informação, buscas e diversas operações que poderiam ser feitas automaticamente. No final, ela vai aumentar a colaboração entre estudantes e pesquisadores de disciplinas, culturas e línguas diferentes.

Mas, como falei no começo, há um segundo objetivo, que é o de ajudar no registro da inteligência coletiva no ciberespaço. Para colocar de uma forma mais simples, o objetivo é ajudar as pessoas a terem acesso a uma representação do que está acontecendo na internet, do que está se falando, quais são os problemas que as pessoas estão tentando resolver naquele momento, etc.

Mapa da internet é impreciso, diz Lévy. (Foto: Wikipedia/Creative Commons)

Hoje em dia, não é possível obtermos uma boa representação da inteligência coletiva da internet. Por exemplo, há uma imagem bastante famosa que tenta representar a internet por meio de diversos pontos ligados por traços coloridos brilhantes (veja ilustração ao lado). As pessoas olham e pensam: "ah, a internet é como um cérebro". Mas, na verdade, essa imagem representa apenas os nós físicos da estrutura da rede, e como é o fluxo quantitativo de informação entre esses nós.

Mas, pra mim, a representação real da inteligência coletiva não pode ser feita dessa forma, e sim por um mapa qualitativo, que mostre o fluxo de conceitos, ideias, assuntos e tópicos pela rede, e que tipo de relação semântica as pessoas estão criando - por meio de seu comportamento coletivo na internet.

Para essa representação, podemos até repetir a imagem do cérebro e suas conexões, mas em vez de neurônios, temos ideias. No lugar da corrente elétrica entre os neurônios, teremos as relações semânticas de significado entre as ideias. Essas relações são criadas pelas ações dos indivíduos.

É muito fácil criarmos uma representação do que está acontecendo no espaço real, físico, mas no espaço semântico, não sabemos. Não temos um sistema coordenado. Não há uma ferramenta universal para medir, mapear e representar isso. Portanto, o objetivo mais importante dessa linguagem é ser uma espécie de sistema universal coordenado do espaço semântico.

G1 - Isso iria casar bem com o conceito de web em tempo real, que tem como principal representante no momento o Twitter. Você poderia medir como estão se propagando as ideias, mas universalmente. Esse é  o plano?

Lévy - Exato. Atualmente você não pode fazer isso, já que há comunicação em diversas línguas. É completamente fragmentado, você não tem uma ideia global da inteligência coletiva.

Aliás, há pesquisas científicas sobre um mesmo assunto que são feitas simultaneamente, mas em línguas diferentes. Essa linguagem não serviria apenas para unificar o conhecimento global, mas você poderia utilizá-la para pequenas equipes, grupos de pesquisa e pessoas interessadas em um assunto comum. Qualquer comunidade iria lucrar com isso.

G1 - E essa linguagem deve funcionar apenas com documentos estáticos ou pode ser aplicada em algo mais dinâmico, como o Twitter? 

Lévy - Não sei exatamente quando poderei fazer minha primeira demonstração da linguagem em funcionamento, pode ser em um ano ou em dois anos, mas o plano é fazê-la funcionar inicialmente no Twitter. Criar um filtro colaborativo de pessoas, documentos e sites citados por pessoas no Twitter. Ou seja, ela será bastante útil para o que chamamos de "fluxo de informações" ou "web em tempo real".

Isso não quer dizer que ela deixará de ser útil para depósitos de informação de longo prazo. Se você parar pra pensar que quase todas as bibliotecas do mundo estão digitalizando seu conteúdo e vão colocá-lo na internet, e que cada uma dessas bibliotecas terá sistemas de organização diferentes, isso pra mim é um problema.

G1 - O senhor afirma que o que estamos vivendo hoje em dia é uma revolução maior do que a que se seguiu à invenção da prensa tipográfica, e que estamos passando por um salto na produção e divulgação de conhecimento. Do ponto de vista da inteligência coletiva, o que fazem sistemas de organização de conteúdo como o Google já não é suficiente para organizar nossas ideias?

Lévy - Na verdade, são coisas diferentes. Mas há uma semelhança importante: o que algoritmo de organização do Google faz, o famoso "Pagerank", é levar em conta a inteligência coletiva. Ele decide que um conteúdo é mais importante se tiver mais links levando a esse conteúdo, principalmente vindos de páginas igualmente relevantes, com mais links que levam a essa referência. O Google leva em conta, portanto, a inteligência coletiva das pessoas que estão construindo a web.

Também estou tentando fazer isso. Mas de uma forma diferente. O algoritmo do Google é baseado principalmente em estatísticas. Portanto, é uma análise quantitativa. Eu não sou contra uma computação quantitativa, é claro, mas o que eu quero fazer é uma computação quantitativa em um espaço qualitativo. Esse é meu "twist", por assim dizer.

Talvez eu esteja enganado, e isso nunca aconteça, mas eu creio que se a humanidade realmente quer viver uma fase de crescimento do conhecimento - e, como você apontou, a grande revolução nas ciências naturais na Europa ocorreu após a invenção da prensa. Não foi a única causa, é claro, mas foi a base.

E eu estou convencido de que haverá, na próxima geração, uma nova revolução científica, mas não nas ciências naturais, mas nas ciências humanas. Hoje em dia, todos os dados sobre o comportamento humano podem ser reunidos no ciberespaço, o único problema é que ainda não temos a capacidade de explorar essas informações. E se não tivermos um sistema coordenado no espaço semântico, o espaço dos significados, não seremos capazes de viver essa revolução.

Isso poderia ajudar na cooperação entre disciplinas diferentes das ciências humanas, como psicologia, sociologia, economia, linguística, comunicação, etc. Em todas essas disciplinas, que atualmente têm conceitos diferentes, e às vezes numa mesma disciplina, teorias diferentes, é muito difícil construir algo capaz de abranger o todo e compreender o que está acontecendo na sociedade.

G1 - O senhor usa o termo ciberespaço, que recentemente foi "aposentado" por parte da comunidade acadêmica, que alega que hoje em dia não há necessidade de diferenciar o que ocorre no mundo "real" e na internet. O senhor concorda com essa avaliação?

Lévy - Sinceramente, eu não tenho certeza que essa discussão seja relevante. Por exemplo: hoje em dia ainda usamos escrita em papel. Há alguma relevância em saber que um texto está escrito em papel ou digitalmente? Pra mim, o virtual fez parte do real desde o início, e quando nos comunicamos pela troca de e-mails, por exemplo, não há uma diferença relevante em relação ao tempo em que trocavamos cartas. Continuamos escrevendo, enviando e lendo textos. É sempre parte de nossa experiência. E a manipulação dos símbolos é uma parte importante da experiência humana.

G1 - Como a indexação da inteligência coletiva pode mudar a maneira que lidamos com o conhecimento?

Lévy - Precisamos de uma grande revolução epistemológica. Os dados estão lá, mas em uma quantidade absurda. Portanto, não temos como explorá-los manualmente, lendo tudo, por exemplo. Precisamos, portanto, automatizar a exploração desses dados. Mas se, por exemplo, os dados estão escritos em 300 línguas diferentes, e estão indexadas em 250 metodologias diferentes, essa automatização não vai funcionar.

Portanto, o que precisamos é de uma metalinguagem, que possa ser completamente manipulável por sistemas automáticos e, ao mesmo tempo, possa ser usada para expressar qualquer tipo de ideia, ponto de vista ou teoria. Se ela limitar a expressão de uma teoria, ou de uma interpretação, não serve. Pelo contrário: ela deve ajudar a aumentar a diversidade de pontos de vista. Talvez não seja a língua que eu criei que será a base dessa revolução científica, mas haverá algo nesses moldes. E eu acredito que devemos iniciar em breve as primeiras tentativas.

A dificuldade dessa tarefa é que é necessário ter um conhecimento muito amplo em ciências humanas, estar ciente da complexidade das culturas, dos significados, e ao mesmo tempo ser capaz de lidar com computação. É preciso ter essas duas habilidades para realizar isso. E, geralmente, os engenheiros são muito bons em matemática e em lógica, e às vezes em física. Mas em termos de semântica, não. Eles confundem lógica e semântica, que são coisas bastante diferentes. A lógica é sobre a verdade de uma proposição particular, e a fusão de verdades que são derivadas de uma verdade original. É uma discussão sobre "verdadeiro" ou "falso". A semântica é muito mais complexa do que isso, do que "verdadeiro" ou "falso".

G1 - Que tipo de profissional será capaz de ajudar a criar essa língua? Quem serão as pessoas que vão trabalhar como "bibliotecários" do futuro?

Lévy - No momento, eu chamo essa pessoa de "engenheiro semântico". Há um lado de engenharia e um lado de ciências humanas. É algo que vai requerer um treinamento especial, provavelmente, mas como todas as profissões. Eu reconheço que, no momento, esses profissionais não existem. Algumas pessoas estão se autodenominando "arquitetos da informação" ou "engenheiros de conhecimento". Então já surgem, de forma dispersa, os primeiros núcleos de profissionais dessa área, o que significa que não vamos partir do zero. Mas, claramente, mesmo esses profissionais de agora precisarão evoluir. Mesmo porque estou falando do futuro, de coisas que não existem ainda agora.

G1 - No futuro, portanto, haverá uma demanda por esse tipo de profissional. Que tipo de formação deve procurar um jovem que tem interesse em trabalhar nesta área?

Lévy - Um velho filósofo não deve dizer a uma criança o que ela deve fazer...No momento, eu é que estou tentando entender o que elas estão fazendo. Mas eu diria que habilidade técnica não é o suficiente, e o conhecimento sobre as relações humanas é importante. Quando você é jovem, você pode se concentrar em entender as questões técnicas, mas quando você envelhece percebe que as questões humanas são muito mais complexas do que você imaginava antes.

G1 - E o presente da internet? Quais são suas ferramentas prediletas no momento?

Lévy - No momento, eu tenho me interessado bastante pelo Twitter, porque é tecnicamente muito simples, mas social e intelectualmente muito complexo. Você tem que escolher quem você segue, precisa descobrir como ler tudo o que essas pessoas escrevem... No momento eu sigo apenas cerca de 115 pessoas, mas já é difícil pra mim ler tudo.


Outro serviço que eu uso é o Delicious. É uma forma de organizar a memória. Porque o Twitter é bom para o fluxo de notícias, para estar sempre antenado no que está acontecendo, mas o delicious é bom para organizar a memória de longo prazo, e também para descobrir pessoas que estão interessadas nos mesmos assuntos que você.

Também participo do Twine, que é um serviço que utiliza tecnologias da web semântica atual. Eles organizam os assuntos por ontologia, e quis observar, em primeira mão, como o site funciona. E eles não resolvem todos os problemas, de certa forma é um pouco decepcionante.

G1 - Minha impressão é de que o Twine ainda não conta com um número suficiente de usuários para inserir e organizar uma quantidade relevante de informações.

Lévy - Durante vários meses eu era uma das cem pessoas que mais adicionava informações ao Twine. Encontrei pessoas interessantes por lá. Em todos esses serviços você tem um aspecto social muito importante, então você descobre indivíduos. E também é muito útil estar registrado em um "twine" de informações, para se manter atualizado sobre aquele assunto específico. Já descobri coisas no Twine que acabei depois postando no Twitter.

Também participo do Facebook, porque hoje em dia você não pode mais ficar de fora. E é algo interessante, porque as pessoas ficam postanto fotos e vídeos delas próprias, acaba sendo um ambiente para amigos, é menos profissional. Meu Twitter é um ambiente profissional, discuto informações científicas. Já meu Facebook é mais para diversão. Também tenho o hábito de testar novos serviços de busca, para ver o que eles oferecem de diferente do Google.

Para mim, é muito importante estar ativo em todas essas ferramentas para poder sentir o que está acontecendo na internet, e não ficar apenas na teoria. Gasto pelo menos duas horas por dia nessas ferramentas sociais e em blogs.

FONTE : http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1284962-6174,00-LEIA+A+INTEGRA+DA+ENTREVISTA+COM+O+FILOSOFO+PIERRE+LEVY.html

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

DIÁLOGOS SOBRE O AMOR ROMÂNTICO - Jurandir Freire Costa.

(uma das perguntas feitas ao psicanalista Jurandir Freire Costa)
leia na íntegra em : http://jfreirecosta.sites.uol.com.br/entrevistas/com_o_autor/amor_romantico.html


Sua análise do amor romântico me parece equivocada por dois motivos: primeiro, você confunde “apaixonamento” com “amor”; segundo, dizer que a cultura do narcisismo inviabiliza o amor não implica dizer que o amor é algo mau ou indesejável. É como se você quisesse tomar o caminho mais fácil: já que não se pode mudar o mundo, que se mude o amor. Você não acha isso um outro sintoma da cultura do narcisismo? Afinal, você concebe um mundo sem amor?

Vejamos a primeira parte da pergunta. Existe, de fato, diferença entre o estado mental do “apaixonamento romântico” e, digamos, o do “romantismo amoroso mitigado”. Mas não era esse o problema discutido. O “apaixonamento” como o “amor atenuado” são, ambos, momentos ou fases do complexo emocional que chamei de “amor-paixão-romântico”. A distinção, aqui, está no grau, na intensidade afetiva entre etapas de um mesmo processo e não na qualidade das emoções vividas. O apaixonamento não se diferencia do amor atenuado da mesma forma que o amor se diferencia do medo, do pesar, da cólera etc. o mais importante nessa diferenciação, no entanto, é notar que saber distinguir o “apaixonamento” do “amor pacífico e sensato” foi e continua sendo uma das maneiras de cultivar o romantismo. Ou seja, como o apaixonamento, em geral, retira parte da autonomia do sujeito e o leva, muitas vezes, a agir de modo moralmente inaceitável em outras circunstâncias afetivas, desde Rousseau – o pai intelectual do romantismo – se tenta apresentar a paixão como um flash de êxtase que deve dar lugar ao amor seguro, equilibrado, orientado para fins mais nobres.

Em síntese, ser capaz de diferenciar “paixão” de “amor”, como se costuma dizer, faz parte do aprendizado romântico. Convencer-se de que a “paixão” passa e que, transcorrido esse instante, devemos nos esforçar para manter vivo o momento seguinte, isto é, o momento do amor firme e atenuado, significa, justamente, admitir os custos psicológicos da mencionada ascese amorosa.

Aceitar perder a magia, o fascínio do êxtase passional, para conservar o encanto dos sentimentos ponderados foi o ideal do romantismo antigo. Ora, é essa linguagem romântica dos séculos XVIII, XIX e primeiras décadas do século XX que está sendo “desaprendida”. Ao insistir no peso dado ao moderno culto das sensações, quis mostrar como a ordem cultural que faz o elogio das “emoções intensas” fez do “amor mitigado” um adversário sentimental do “apaixonamento”.

A questão central, por conseguinte, não é opor “apaixonamento” a “amor bem temperado”, fazendo do primeiro a fagulha necessária ao amor harmonioso, este sim, o verdadeiro Bem ao qual se deve aspirar. A questão é notar o impasse criado entre duas exigências contraditórias: a) o desejo das experiências intensas e fugazes e b) o desejo de amores ternos que durem para sempre. Até o momento, não encontramos soluções culturais ou psicológicas para o dilema. Ou se tem um ou se tem outro, e, ao perdermos um deles, o resultado é, quase inevitavelmente, o sentimento de vida contrariada, de atentado ao direito de ser feliz.

A segunda parte da pergunta é mais complexa. A cultura do narcisismo não apenas criou condições desfavoráveis ao exercício do romantismo amoroso; revelou, também, facetas da emoção romântica que se mantinham nas sombras de sua idealização. O amor romântico, antes mesmo da cultura do “mínimo Eu”, na expressão de Christopher Lasch[2], já apresentava traços socio-sentimentais problemáticos, do ponto de vista moral. Com disse Robert Solomon, um dos pensadores mais simpáticos ao romantismo,

A maioria do mundo olha nossas fantasias românticas como uma fonte de caos social e irresponsabilidade, como causa de muita infelicidade e (...) com a razão por trás da impressionante taxa de divórcios e do enorme número de pessoas mais velhas, sobretudo mulheres, que se encontram abandonadas numa cultura particularmente sensível e inconseqüente. Nossa ênfase no romance encoraja a vaidade em detrimento da camaradagem, a reclusão em vez da comunidade, o capricho em vez da responsabilidade e a excitação emocional em vez da estabilidade social. O resultado parece ser o de uma cultura fragmentada, frustrada e solitária justamente porque é romântica. Até que reinventemos uma forma de amor romântico que responda a tais acusações, deveríamos ser humildes quanto a nosso entusiasmo por ele.[3]

O amor romântico, portanto, como qualquer emoção humana, não é feito só de virtudes. Ele carrega um potencial de individualismo e preocupação obsessiva com o próprio bem-estar que pode nos tornar absolutamente indiferentes a tudo e a todos ao redor.

Não se trata, é óbvio, de “reprovar o amor” ou os que pretendem dedicar a vida à realização amorosa; trata-se de mostrar que esse objetivo não está além do bem e do mal. Existe uma grande diferença em afirmar que o amor romântico é um estado afetivo que pode nos fazer muito felizes e que, por isso, pode ou deve ser buscado por quem de direito e apresentar o romantismo como uma obrigação moral universal. No último caso, fazemos de uma possibilidade, necessidade e reforçamos a crença de que todos os que não conseguem amar, no código do romantismo, são pessoas fracassadas, frágeis, insensíveis, “não resolvidas”, do ponto de vista psicológico. O amor romântico, repito, é uma emoção mundana, comprometida, entre outras coisas, com valores estéticos e morais diretamente ligados a interesses de classe social, situação econômico-cultural e preconceitos raciais, sexuais ou religiosos dos amantes. Longe de ser uma emoção pura, inocente ou “divina”, o romantismo amoroso é uma busca de satisfação sexual e sentimental nem mais nem menos legítima do que outras às quais damos as costas por que estamos empenhados, dia e noite, em amar e ser amados.

O problema, em meu entender, não é conceber “um mundo sem amor”, coisa que julgo inimaginável, mas observar como funciona “um mundo com amor”, ou melhor, um mundo hipnotizado pela obsessão amorosa. Um mundo sem amor é uma conjectura a ser explorada, no melhor dos casos, pela ficção científica; um mundo que gira em torno do amor é uma realidade palpável para os que pertencem às classes privilegiadas das sociedades ocidentalizadas. Esse mundo está muito distante do “mundo-cor-de-rosa” da publicidade hollywoodiana. É um mundo, ao contrário, muitas vezes soturno, triste, deprimido, belicoso, voltado para expectativas que redundam em ciúmes destrutivos, possessividade compulsiva, ódios, ressentimentos, violências contra os ex-parceiros, sentimentos de derrota, mesquinharias em disputas econômicas, vilanias na manipulação de familiares, menosprezo dos que são batidos nas disputas amorosas etc.

O culto irrefletido ao amor romântico, é verdade, pode nos levar aos céus do êxtase apaixonado. Mas também pode nos fazer viver, de modo quase permanente, no inferno de uma vida sem alegria, dilacerada pela falta de sentido e de esperanças. Assim, não se trata de mudar o amor porque não se pode mudar o mundo; trata-se de mudar o mundo e ver como podemos mudar nossos modos de amar. Da mesma forma que, ao longo da história, fomos capazes de mudar nossas concepções de justiça, igualdade, liberdade, fraternidade, amizade, amor a Deus, responsabilidade paternal, usufruto da sexualidade, compromisso com o outro etc., podemos, igualmente, experimentar formas de amor que sejam mais satisfatórias. Nem tudo na vida depende de nosso desejo, esforço ou boa vontade, mas muitas coisas dependem da confiança que temos em nosso poder de alterar estados de coisas que podem ser mudados pela forma com que aprendemos a percebê-los, interpretá-los e vivê-los.(...)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CELSO LUNGARETTI NA TV CÂMARA - 1ª PARTE - 16/11/09 - CLIQUE AQUI PARA VER A SEQUÊNCIA DESTE VÍDEO)


INIMÁ SIMÕES ENTREVISTA CELSO LUNGARETTI ,(EX -PRESO POLÍTICO - DITADURA MILITAR ) NO PROGRAMA SINTONIA - TV CÂMARA - 16/11/09
1ª PARTE
Site:
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/
VEJA TODOS OS VÍDEOS NO CANAL DE LUNGARETTI:
http://www.youtube.com/user/LIVRONAUFRAGO

Palavras-chave:
CELSO LUNGARETTI TV CÂMARA INIMÁ SIMÕES SINTONIA BRASIL DITADURA MILITAR LIVRO NÁUFRAGO DA UTOPIA

FONTE>> E PARA VER A CONTINUAÇÃO DA ENTREVISTA NO DIA 23/11/09 CLIQUE AQUI:
http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/default.asp?selecao=MAT&velocidade=100k&Materia=96394

domingo, 20 de setembro de 2009

MILTON SANTOS FALA SOBRE A AMÉRICA LATINA...

Entrevista Milton Santos

Por Vermelho.org [Quinta-Feira, 4 de Outubro de 2007 às 10:56hs]

Em junho de 2001, o Brasil perdeu um de seus intelectuais mais ativos, perspicazes e certeiros na crítica. O geógrafo Milton Santos tem ampla obra sobre a questão urbana, a pobreza, a globalização e a questão racial.
 Nesta edição especial sobre a questão do negro, a Fórum faz uma homenagem ao professor, reproduzindo um trecho de uma entrevista com ele publicada em 1998, no site vermelho.org.br.


 A gente está acostumada a pensar o Brasil como um país ocidental...
 Milton Santos – É, somos todos brancos!... (risos)

 O que é o Brasil?
 Milton Santos – É um país como qualquer outro e, também, um grande país, uma grande cultura. E nós, contraditoriamente, admitimos que só há grandes culturas no Norte.

 Quais elementos têm o Brasil e a América Latina que serviriam de indícios para desenvolvermos uma alternativa a essa “globalização”?
 Milton Santos – O que temos de forte na América Latina e no Brasil, em particular, é a idéia de futuro. E é justamente esse sentido de futuro que falta à Europa. Os europeus – os filósofos – falam muito em futuro, mas não crêem nele o bastante, porque é um continente que necessita ter medo todos os dias. Quando não tem medo, inventa. Há um século, a Europa é assim. E a América Latina é o contrário – é o continente do arrojo, do bandeirismo, da disposição de abrir novos caminhos. Creio que é por aí.
 Outro dado importante é o fato de fazermos várias revoluções ao mesmo tempo, o que não é incorporado, ainda, pela epistemologia das Ciências Sociais. No caso da América Latina, fizemos ao mesmo tempo a revolução demográfica, a revolução urbana, a revolução industrial, a revolução sexual. Todas concomitantemente. E os parâmetros que utilizamos são os europeus, onde tudo é devagar, tudo é lento e onde, por isso mesmo, as organizações têm um peso forte, porque elas são capazes de comandar de alguma forma a evolução. No nosso caso, as organizações são menos capazes desse comando da evolução – exatamente por essa soma, essa superposição de revoluções na vida social. Como a organização é incapaz de comandar pacificamente, pelo consenso, então você tem sempre a brutalidade no governo. No caso do Brasil foi a brutalidade do regime militar e, agora, a brutalidade deste regime civil. Quer dizer, temos uma brutalidade sucedendo a outra. A brutalidade é sempre presente, porque não se leva em conta essa dinâmica da sociedade e não se busca uma forma de organização da vida política que acompanhe tal dinâmica social.

 Fazemos várias revoluções, mas não conseguimos completar uma revolução democrática. Temos o passado convivendo (e até atrapalhando) com os que querem o futuro.
 Milton Santos – Creio que sim. E isso tem que ver com o caráter das nossas classes médias. Apenas quem quer as mudanças são os pobres, pois a classe média quer se manter com seus privilégios. Os direitos não interessam à classe média – a classe média não pede direitos, porque ela prefere ir pelo canal dos privilégios.

 É difícil não perceber, dentro dessas contradições sociais, uma contradição racial. A questão do negro é uma questão de raça ou de classe?
 Milton Santos – São as duas coisas. Eu tendo a pensar que é mais uma questão de raça mesmo...

 O Brasil é um país racista, não?
 Milton Santos – É, também é isso. Mas além de ser racista, a sociedade se organizou na base do escravismo e de sua memória. A idéia do outro como uma coisa, que era uma idéia oficial, continua vigente no Brasil atual, onde os negros ainda são coisas. Não importa se eles tenham uma melhoria financeira, econômica ou cultural.

Vermelho.org
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=1148




domingo, 16 de agosto de 2009

INTERFERÊNCIA - FERRÉZ ENTREVISTA ANDRÉ PIROVANI DO CAPÃO REDONDO (veja mais clicando aqui)

021 - André Pirovani from Interferência on Vimeo.



Programa: 021

Exibido em: 09 de maio de 2009

Entrevistado: André Pirovani

Cidadão, que não leva a alcunha de famoso. Capixaba, veio para São Paulo na adolescência em busca de trabalho. Trabalha em uma gráfica e, dono de uma língua ferina, não mede as palavras para falar de religião, migração e discriminação social.
(DESTAQUE PARA O POETA A DECLAMAR SUA POESIA NA ESCADARIA!!! GENIAL)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

FLIP EM TEMPO REAL (FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY - RJ)- (AMIGA M.LÚCIA FINAMOR ENVIA)

















Adriana Calcanhotto declamou poesias de Bandeira
(Foto: André Coelho / Agência O Globo)


O poeta do sublime

Amor e morte estão na raiz da lírica de Manuel Bandeira. E a intenção do poeta é transmitir o sublime por uma linguagem baixa, tratar com humildade de coisas complexas. Essa interpretação foi dada por Davi Arrigucci Jr., crítico, ensaísta, ex-professor de literatura comparada da USP e autor de "Paixão e Morte: a poesia de Manuel Bandeira", na abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, na noite desta quarta-feira, 1º de julho. Para terminar a noite de abertura, Adriana Calcanhotto fez um show em que incluiu dois poemas do poeta, "Poética" e "Porquinho-da-índia". (Foto: Andre Coelho/Agênca O Globo)(...) leia mais em :
http://www.conhecaolivreiro.com.br/noticias/37-bandeira-poeta-sublime-com-linguagem-baixa

FLIP EM TEMPO REAL:

http://www.conhecaolivreiro.com.br/home/

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SITE OFICIAL COM TRANSMISSÕES AO VIVO:

http://www.flip.org.br/

PROGRAMAÇÃO DE HOJE E DE AMANHÃ(de 01/07 até 05/07/09)

10hMesa 1
Novos traços
Rafael Coutinho
Fábio Moon
Gabriel Bá
Rafael Grampá
mediação
Joca Reiners Terron
11h45Mesa 2
Separações
Rodrigo Lacerda
Domingos de Oliveira
mediação
Paulo Roberto Pires
15hMesa 3
Verdades inventadas
Tatiana Salem Levy
Arnaldo Bloch
Sérgio Rodrigues
mediação
Beatriz Resende
17hMesa 4
China no divã
Ma Jian
Xinran
mediação
Angel Gurría-Quintana
19hMesa 5
Deus, um delírio
Richard Dawkins em conversa com Silio Boccanera


10hMesa 6
Evocação de um poeta
Heitor Ferraz
Eucanaã Ferraz
Angélica Freitas
mediação
Carlito Azevedo
11h45Mesa 7
O avesso do realismo
Atiq Rahimi
Bernardo Carvalho
mediação
Beatriz Resende
15hMesa 8
Sentidos da transgressão
Edna O’Brien em conversa com Liz Calder
17hMesa 9
O eu profundo e outros eus
Mario Bellatin
Cristovão Tezza
mediação
Joca Reiners Terron
19hMesa 10
Sequências brasileiras
Chico Buarque
Milton Hatoum
mediação
Samuel Titan Jr.

http://www.flip.org.br/aovivo_2009.php#none

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Contra o silêncio e o marasmo da imprensa - ENTREVISTA COM ALBERTO DINES

Alberto Dines - Por Cristina Charão –
Observatório do Direito à Comunicação

29.01.2009


Ele se define como sendo um “do contra” e talvez não exista melhor definição para Alberto Dines. No cenário de marasmo e silêncio da mídia brasileira, Dines é um dos poucos a falar – e bastante – sobre o trabalho da imprensa, em sua avaliação, limitado e ainda repleto de aberrações. E também dos poucos dispostos a abrir espaço, no Observatório da Imprensa criado e dirigido por ele, para que outras críticas circulem.

Nesta entrevista a este outro observatório, Dines reafirma a vocação expressa de nadar contracorrente. Assume, em tempos de empolgados discursos sobre as novas tecnologias da informação, que sua análise está focada na imprensa tradicional, nos grandes jornais impressos. O que não o impede de exercer o seu sarcasmo (eventualmente confundível com mau humor) em temas mais amplos.

Por exemplo, é direto ao chamar de “bando de canalhas” o grupo de políticos e empresários que, segundo ele, articularam-se para fechar o Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Senado previsto na Constituição Federal. E indignado ao comentar a concentração da propriedade no setor midiático, para ele o pior dos problemas da imprensa brasileira.

Mesmo ao falar sobre um problema que considera como não-problema, empolga-se. Para Dines, a questão da exigência do diploma universitário para o exercício do jornalismo não existe. O que existe é uma grave crise na formação que deprime a qualidade da mão-de-obra que chega às redações. Este problema – o da formação e o papel da universidade nisso – é que deveria estar no centro das atenções, em especial a iniciativa do Ministério da Educação de rever a estrutura dos cursos de jornalismo.

Talvez sejam dois os resquícios de 2008 que persigam a imprensa brasileira em 2009: a discussão sobre o diploma de ensino superior específico para o exercício do jornalismo, com a possibilidade de que seja concluído o julgamento do mérito da questão pelo STF, e a crise econômica, com suas conseqüências sobre as empresas de comunicação. Ao combinarmos esta entrevista, você dizia que a questão do diploma já seria “águas passadas”. É isso mesmo?

Não existe o problema do diploma... existe o problema da qualidade da mão-de-obra nova que chega às redações. A renovação dos recursos humanos, para usar a expressão mais técnica, é extremamente preocupante, porque ela não é qualificada. Ela ajuda a jogar pra baixo o nível do jornalismo. Isso é um processo, um esmagamento dos dois lados: eles [os novos jornalistas] vêm desqualificados pelo ensino superior, sobretudo o privado, e por outro lado, aqueles que conseguem sobreviver, são esmagados pela máquina do pensamento mercadológico, das grandes empresas, o jornalismo de resultados. Então, você não tem aí aquela ebulição normal que existiria se você tivesse, realmente, um ensino superior produzindo naturalmente mão-de-obra qualificada.

Então, mesmo que o STF resolva alguma coisa em relação ao diploma, o problema persiste?
Quem pode dar um grande empurrão nisso é o Ministério da Educação, o ministro [Fernando] Haddad. Pela primeira vez eu vejo – aliás, eu não conheço o ministro – um ministro sensível à idéia de que o exercício do jornalismo tem de ser feito por pessoas com um grau de formação superior à simples graduação, uma pós-graduação, um mestrado profissionalizante. A Folha de S. Paulo publicou, e nós [Observatório da Imprensa] reproduzimos, um artigo na página 3, há um mês atrás, do reitor da Universidade [Federal] da Bahia excelente, de altíssimo nível, nesta linha. Evidente que ele não falava do jornalismo, da formação do jornalista, mas falava em geral. Nós temos que dar ao nosso formando a possibilidade dele rapidamente se preparar para uma pós-graduação profissionalizante, não-acadêmica. Isso é vital. É assim nos Estados Unidos. Eu passei o ano acadêmico em Columbia [a universidade] há 30 anos... o jornalismo é um mestrado, mas profissionalizante. Eu acompanhei. Eu vi o primeiro dia: eles [os estudantes] chegam de diversas áreas - em geral das ciências sociais, raramente da medicina, das ciências exatas – e imediatamente, no primeiro dia, eles vão fazer matéria. E saem, dois semestres depois, jornalistas realmente profissionalizados. Tudo bem, no Brasil, dois semestres podem ser insuficientes... fazemos três semestres. Mas esta graduação, no Brasil, é insuficiente. Ela é precária, é insuficiente, ela não forma, não informa, não dá base, não dá consistência cultural. Inclusive era preciso rever este currículo. A história da imprensa não é ensinada. Por isso, as empresas decidiram não comemorar este ano, simplesmente decretaram que não vai se lembrar os 200 anos da imprensa. Agora, se você tivesse jovens jornalistas que conhecessem esta história, eles teriam comemorado do seu jeito.

Teriam pressionado pra que isso fosse uma pauta...
Nós, Observatório, na televisão, fizemos uma série de três programas – que estão sendo reprisados agora – e tem causado grande espanto... as pessoas não sabiam que o Brasil foi um dos últimos países a ter tipografia, que nós estamos atrasados em relação ao México ou mesmo ao Peru em mais de 200 anos. Agora, isso é o currículo. Eu acho que nós temos que dar mais ao formando de jornalismo e simplesmente a graduação não basta. Acho que teria de ser uma pós-graduação. E com isso, você poderia resolver, selecionar um pouco este material humano, fornecendo para a mídia grandes profissionais, mais qualificados. O que está acontecendo é que os sindicatos e as entidades profissionais não estão preocupados... elas querem mais profissionais diplomados para se ter mais assessor de imprensa. Hoje, a Federação Nacional de Jornalistas tem mais assessor de imprensa do que jornalista.

Mas o perfil da categoria é este.
Se você faz uma pós-graduação profissionalizante, você tem pós-graduação de assessoria, tudo bem. Eles vão estudar psicologia de massas, as coisas que interessam à assessoria, mas você vai ter uma pós-graduação de jornalista, de gente de redação, que vai fazer matéria, que vai pra rua... Esse é um problema que transcende ao STF. Tem que mudar o enfoque...

Então, na sua opinião, se fôssemos colocar em perspectiva o ano de 2009, todo jornalista, ou melhor, todo cidadão brasileiro preocupado com a qualidade do jornalismo deveria estar mais interessado nesta oportunidade que se abriu no MEC, de discutir a estrutura escolar para a formação dos jornalistas, do que na decisão do STF?

Eu não sou um jurisdicista. Neste ponto, eu sou pouco latino-americano. Nós vivemos muito amarradinhos à lei, mas nós não respeitamos a lei. A grande verdade é esta. Esta coisa de lei, STF... o STF tem tentado preencher algumas lacunas de desmandos que há no Brasil, mas o negócio é criar uma consciência: quando a gente discute diploma, o que é que a gente tá querendo? A gente tá querendo qualificação profissional. Então vamos discutir qualificação profissional. É uma outra visão... mas como eu sou minoria, estas coisas não colam. Porque eu não estou preocupado com este formalismo jurídico, nem estou preocupado com que a Fenaj tenha mais associados. Estou preocupado é que o que está chegando aí de novos quadros para as redações, em geral, é muito fraco. Não há uma renovação. No passado, era o contrário: chegavam os chamados “focas” e eles vinham com aportes muito interessantes. Por isso eles eram recebidos. Eles encontravam o seu lugar porque tinham alguma coisa a dizer.

Mudando o nosso foco: viemos de dois anos muito bons para as empresas jornalísticas, em termos de faturamento. Foram feitos alguns investimentos, redações parando de demitir e começando a contratar. Em teoria, estamos diante de um ano que tende a não ser tão bom... que problemas a crise econômica, que é tão alardeada pela própria mídia, pode criar?

Eu sou sempre do contra. Estou na contracorrente... Eu não acho que foram bons anos. Contabilmente, podem ter sido razoáveis. Contabilmente. Eu não sou auditor, não sou contador. O produto não melhorou tanto assim. Você continua tendo aberrações. A chamada indústria jornalística – eu detesto este nome, mas eles gostam de se chamar assim -, esta indústria está botando aí na rua modelos muito ruins. Está disponibilizando produtos que estão muito longe do que se podia produzir. Por outro lado, eles não estão investindo, não estão abrindo novas frentes. Está tudo muito concentrado... Você tem três grandes jornais de referência nacional e você tem aí uns oito jornais regionais, de diferentes portes, com alguma qualidade. Mas esta qualidade é muito díspar. Alguns são melhores e outros são muito ruins, embora sejam donos dos respectivos mercados. Você tem aí um processo de concentração de mercado que é terrível! Agora, isso só pode ser resolvido se houver uma discussão honesta, franca em algum organismo. Não pode ser no governo, mas num ambiente legislativo. E aqui eu quero dizer que uma das grandes brasileiras da imprensa brasileira ou da comunicação brasileira foi o que ocorreu há três anos - acho que é três... - quando o Conselho de Comunicação Social foi fechado.

A quê você atribui o fechamento do Conselho de Comunicação Social no Senado?

Não foi uma decisão: foi um trambique dos políticos, do governo e das grandes empresas de mídia pra acabar com esta possibilidade, esta tênue possibilidade de você ter um fórum pra discutir as coisas. Hoje, não tem mais isso e não vai ter nunca mais. E tá na Constituição que tem que ter. Foi um bando de canalhas – a palavra é esta – que simplesmente se juntou pra acabar com uma conquista. Tudo bem, o conselho não tinha força, tinha mil defeitos, mas ele tinha uma certa representação. E ele tinha, digamos, uma certa vocação pra ser um fórum, sem poder, mas um fórum dentro de uma casa legislativa como é o Senado, a câmara alta. De repente, acaba-se com isso de uma forma ignominiosa. Põe-se um presidente que foi lá com a tarefa de fechar o conselho. Este homem se chama Arnaldo Niskier. Este homem assumiu com esta tarefa. Acadêmico, amigo do Sarney, há mais de trinta anos que não faz jornalismo... puseram ele na presidência do Conselho de Comunicação Social e ele foi lá pra acabar com o conselho e este nunca mais voltou a existir. Você não tem mais um fórum pra discutir isso que estamos discutindo aqui...

Um fórum público...

Um fórum público... mesmo que ele [o CCS] seja claudicante, mas é um fórum. Durante dois anos, a gente se reuniu uma vez por mês, no Senado, com toda a solenidade, numa sala de sessão especial, com transmissão pela TV Senado... e pela primeira vez se discutiu a concentração da imprensa. Eu tive a honra de ser o primeiro a levantar isso e dizer que isso tem de entrar na pauta permanente. Mesmo que a gente não tenha como resolver, nós temos que manter este assunto em discussão.(...)

LEIA NA ÍNTEGRA EM :
http://www.direitoacomunicacao.org.br/novo/content.php?option=com_content&task=view&id=4635

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Edgar Morin no Brasil - Violência deve ser tratada em sua complexidade, diz filósofo Edgar Morin





Violência deve ser tratada em sua complexidade, diz filósofo Edgar Morin
22 de Junho de 2009
Lincoln Macário
Repórter da TV Brasil


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Brasília - Se violência gera violência, submeter um jovem infrator ao cárcere só fortalece seu lado agressivo. Esta é uma das várias declarações humanistas do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários. Enquanto o mundo se preocupa com os conflitos entre iranianos, é o pobre e esquecido povo do Sri Lanka que ele lembra em primeiro lugar quando perguntado sobre formas de violência que mais o preocupam.

Quanto aos conflitos no Irã ele afirma que as informações vindas de lá devem ser sempre analisadas em seu contexto histórico, político e social.

Em entrevista exclusiva concedida à TV Brasil, ele explica sua Teoria da Complexidade. Autor de 30 livros, entre eles a trilogia O método e Os sete saberes necessários à Educação do Futuro, Morin avalia que o mundo ainda não compreendeu a importância do erro – um desses sete saberes – e revela que a educação mudou pouco nos últimos anos, pois permanece ainda muito negativa.

Prestes a completar 88 anos, Morin se empenha em popularizar os conceitos de Política da Civilização e Política de Humanidade. Admirador do Brasil, o professor concedeu a entrevista em português. Recém-chegado da França, ainda não tinha “tomado um banho de português” necessário para deixar suas frases mais “belas”. A mistura, porém, não tirou o caráter inovador de suas ideias.

A entrevista vai ao ar às 21h de hoje (22) na TV Brasil.
TV Brasil - O assunto que o traz a Brasília são os direitos humanos e, em especial, as formas de violência. Nesse tema, que tipo de violência mais o preocupa?
Edgar Morin - A mais preocupante é a violência que vem com as guerras, as perseguições, como é a violência que chegou ao Sri Lanka há poucas semanas. A população, aos milhões, está em situação de horror, de matança. Isso é o mais grave. Mas também são as violências urbanas, cotidianas, matrimoniais, muitos homens que golpeiam as mulheres, os pequenos, uma situação muito impressionante. Mas a coisa mais importante é quando se diz, vamos fazer violência para acabar com violência. Em condições gerais, violência, gera outra violência. É um ciclo que não se interrompe. A questão fundamental é como parar a violência. Fazer com que em um momento não exista mais violência. E há vários caminhos: são os caminhos da compreensão. Por exemplo: a violência juvenil. Ser jovem é um momento de transição. Se essa violência é respondida com a violência do cárcere, vai se produzir delinquentes mais fortes. Outra política de compreensão para a pessoa fazer sua transformação é um momento de magnanimidade, de perdoar a pessoa e interromper o ciclo de violência. Existem exemplos, limitados, como de Gandhi, que sem violência teve sucesso contra o império inglês. Há vários tipos de meios. Hoje podemos pensar em lutar contra todas as formas de violência, com os modos apropriados para cada forma de violência.

TV Brasil - O senhor é conhecido no mundo inteiro, e muito estudado, também no Brasil, pela Teoria da Complexidade. Como se poderia resumi-la?
Morin - Falamos primeiro de violência. Na complexidade, não podemos reduzir uma pessoa a seu ato mais negativo. O filósofo Hegel disse: se uma pessoa é um criminoso, reduzir todas as demais características de sua personalidade ao crime é fácil. Entender, não reduzir a uma característica má uma pessoa que tem outras característica, isso é a complexidade. Uma pessoa humana tem várias características, é boa, má e muito mais. Devemos entender que a palavra latina complexus significa tecido. Em geral, o nosso modo de conhecer que vem da escola nos ensina a separar as coisas, e não religá-las. A complexidade significa religar. Por exemplo: um evento, um acontecimento, uma informação. Quando chega uma informação sobre o que ocorre no Irã, por exemplo, devemos entender o contexto político, histórico, social. A complexidade busca favorecer uma compreensão maior que a compreensão que vem de se isolar a coisas, colocar o contexto, todos os contextos em uma situação.

TV Brasil - No Os sete saberes necessários à educação do futuro, o senhor fala da importância do erro. A humanidade já compreende e já aceita melhor o erro?
Morin - É uma coisa que disse Descartes, o problema de errar é não saber que se erra. Eu penso que é muito inteligente quando se sabe que se comete um erro e se esquece do erro. Penso que é muito importante conhecer as fontes do erro. De onde vem o erro.

TV Brasil - Mas a humanidade vê melhor o erro do que há dez, vinte ano atrás?
Morin
- Penso que não há progresso, o sistema de educação não mudou, é cada vez mais negativo. Os problemas globais fundamentais são cada vez mais fortes. Por isso penso que há a necessidade de reformar a educação. Com uma idéia melhor de como se faz o conhecimento e também compreensão humana dos outros. Penso que minha proposta será muito útil para o desenvolvimento nosso futuro.

TV Brasil - Para aceitarmos a complexidade, é preciso uma reforma do pensamento e enxergar o mundo de outra maneira. O senhor acha que os meios de comunicação tradicionais essa reforma do pensamento ou é uma tarefa para a internet?
Morin
- A internet hoje dá uma possibilidade de multiplicação de informação e comentários, que é muito útil, por que a vida de uma democracia é a pluralidade das opiniões, visões, sem a homogeneidade da imprensa. Não há muitas diferenças na grande imprensa. É muito útil a internet, o que não significa que não há coisas falsas que venham dessas redes. Mas é a educação que dá à pessoa condição de ver e confrontar o que vê na internet e na televisão. Penso que hoje a internet dá uma possibilidade de mudança muito grande, por exemplo, pela complexidade. No México, há um curso de complexidade da educação virtual, com 25 países.

TV Brasil - O senhor tem se dedicado muito a pensar a política e tem feito a separação da política da civilização e da política da humanidade. Qual a diferença?
Morin - A política de civilização luta contra todos os efeitos negativos da civilização ocidental. É para restabelecer a solidariedade, humanizar a cidades, revitalizar os campos. Cada civilização tem suas virtudes, qualidades, suas diferenças, isso é verdade também para a civilização ocidental. Também para as civilizações de pequenos povoados, como índios da Amazônia, conhecimentos de plantas, animais, arte de viver, novos curativos, como os xamãs. A política de humanidade é combinar o melhor de cada civilização, fazer um simbiose no nível do planeta onde o melhor do mundo ocidental, que são os direitos humanos, direitos da mulher, a possibilidade do individualismo - mas não do egocentrismo - que combine outras civilizações, onde há mais solidariedade. A questão é lutar contra os defeitos das civilizações e pegar o que há de melhor. Porque nas civilizações tradicionais não há só coisas boas como solidariedade. Há também dogmatismo, autoridade demasiada dos mais velhos, do homem sobre a mulher. A ideia é tirar o melhor de cada, não idealizar a civilização tradicional ou a ocidental.

FONTE: http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/06/22/materia.2009-06-22.4379220494/view

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