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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Nise da Silveira, Machado de Assis e a loucura

Quantos bloqueios, quantos preconceitos ainda teremos ?
Quanta intolerância e quantas injustiças praticaremos em nome da "normalidade"
ou da opressão enraizada no mais profundo de nossas almas ?
Nise da Silveira representa um dos maiores avanços para a humanidade.
Se pensarmos na significação de um Augusto Boal, de uma Nise da Silveira, de um Machado de Assis, de um Paulo Freire e de outros e outras, veremos que temos bons e grandes exemplos para podermos seguir no sentido de que nos fizeram ver que todas as pessoas são especiais, únicas e capazes de serem grandes produtores de cultura, de conhecimento, capazes de cooperarem em algo !
Exagero de minha parte?
Até posso estar exagerando na forma de escrever, porém sei que precisamos mesmo é sacar que somos especiais sim, e que precisamos parar de usarmos as armas do inimigo, e isto quer dizer, tomar consciência da opressão que nos habita e que nos torna opressores sem percebermos... enfim, é preciso ler e nos lermos, termos consciência de nossas histórias e irmos em frente!!

Pensar sobre a loucura é algo muito difícil, abaixo coloco links e imagens
pra cooperar um pouco com isso.

Nadia Gal Stabile - 19 de junho de 2014



http://livroseideias.wordpress.com/2011/03/12/machado-de-assis-duvida-dos-limites-entre-razao-e-loucura/ 

 http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/html/nise.html

 http://pt.slideshare.net/anacarlacrato/a-histria-da-loucura-foucault

http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:DnvdHJDQbIgJ:www.cchla.ufpb.br/caos/n18/12_MarcioJoseSLima_HISTORIA%2520DA%2520LOUCURA%2520NA%2520OBRA.pdf+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br






terça-feira, 22 de abril de 2014

Arundhati Roy, a renegada

Para ler na íntegra, clique no link : http://www.publico.pt/cultura/noticia/a-renegada-1629655
Por 

Exclusivo PÚBLICO/ The New York Times
Siddhartha Deb é autor do livro The Beautiful and the Damned: A portrait of the New India    


domingo, 20 de abril de 2014

Gabriel Garcia Márquez

Gabriel José García Márquez (Aracataca, 6 de março de 1927 — Cidade do México, 17 de abril de 2014)

"Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre." Gabriel García Marquez
Fonte :  http://pensador.uol.com.br/gabriel_garcia_marquez_poemas/

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

REENCONTROS, LIBERDADE e OLHAR - MARCELO ROQUE; Glória Kreinz divulga



http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=13358263

Reencontros

Depois de tanto tempo,
tantos desencontros
e coisas por se dizer,
nunca um simples "oi" disse tanto

Marcelo Roque

.................................................................

Liberdade

Quero estar sempre livre
para poder me prender aquilo
que bem desejar

Marcelo Roque

............................................................................


Olhar

Atente-se mais aos meus olhos
nem tanto assim aos meus discursos
ou versos
Pois por mais que eu tente me expressar
há palavras que insistem em ser olhar

Marcelo Roque

VELHAS ROUPAS - MARCELO ROQUE






http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=13358263

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

JOSÉ SARAMAGO; Glória Kreinz divulga



VEJA TAMBÉM O BLOG DO NÚCLEO JOSÉ REIS QUE ESCLARECE NOTÍCIA ANTIGA QUE PERMANECE NA INTERNET. NADA DE IRREGULAR FOI PROVADO CONTRA O NÚCLEO JOSÉ REIS. SAIBA MAIS:

http://blogdonjr.wordpress.com/

terça-feira, 11 de maio de 2010

RESENHA - História e Ficção - Convergências entre política indigenista e movimento indianista - REGINA ABU-JAMRA MACHADO


História e ficção –
Convergências entre política indigenista e movimento
indianista

Resenha de Regina Maria Abu-Jamra Machado*


TREECE, David. Exilados, aliados, rebeldes – 
O movimento indianista, a política
indigenista e o Estado-nação imperial.
São Paulo, Nankin/Edusp, 2008.

Inventando
uma tradição? Este título da primeira
parte da introdução, seguida
imediatamente por dados censitários
brutais, vem lembrar que a população
indígena, de 5 milhões no século XV,
caiu para 100.000 na virada do século
XX, e fornece o primeiro elemento
definidor de um processo destrutivo de
proporções genocidas a contrastar
permanentemente com o perfil do índio
na mitologia integracionista nacional.
Segue-se a análise de conceitos chave
na evolução da política indigenista
desde o império até a “democracia
racial” e o “luso-tropicalismo”, as
ideologias neocolonialistas da “Marcha
para o Oeste” de Getúlio Vargas e seu
contemporâneo integralismo,
geralmente banhando numa noção geral
de “conciliação”, segundo a qual a
assimilação do índio pressupõe
convergência de interesses. Ora, lembra
Treece, o relatório de Darcy Ribeiro
encomendado pela UNESCO, Os índios
e a civilização, “virou de ponta-cabeça
as suas expectativas e as de seus
patrocinadores”, expondo como a
mitologia da integração mascarava a
desintegração social e cultural, “o
esfacelamento da identidade coletiva
das comunidades tribais e a dissolução
de indivíduos alienados no anonimato
da sociedade dominante.”
Protagonista onipresente em toda a
gama de expressões artísticas dos
séculos XVIII e XIX, o índio vem a
corporificar ironicamente o mesmo
nacionalismo que o aniquila. Esta ironia
ocupa um lugar central na reflexão
produzida pelos escritores indianistas,
como demonstra a tese de David
Treece, que traz para o centro do debate
acadêmico o fato, jamais bastante
acentuado, de ter sido o indianismo,
além de um movimento artístico, uma
arena de debate sociopolítico. Visto
como o “movimento de nacionalismo
cultural mais coerente antes do
Modernismo”, obra de escritores
notáveis, patrocinados pelo Imperador
D Pedro II, “o indianismo foi uma viga
mestra do projeto imperial de
construção do Estado, o mais
importante objeto de reflexão artística e
política a exercitar a mente de sua elite
intelectual por mais de meio século.”
As sucessivas investigações dos
fenômenos característicos do
movimento indianista continuam pelo
século XX afora, com as abordagens
estruturalistas dos anos 1970 seguidas
por análises cada vez mais abrangentes,
tanto por parte de pesquisadores
brasileiros quanto americanos ou
europeus.
Quanto ao objetivo declarado do estudo,
é tratar o fenômeno indianista “como
um movimento cultural e intelectual em
diálogo consigo mesmo e com as
correntes políticas e ideológicas mais
amplas de seu tempo, e rehistoricizá-lo,
reconhecer nele as múltiplas e
frequentemente contraditórias vozes de
um discurso coletivo como também de
autores individuais a intervirem
conscientemente no processo social.”
A segunda e última parte da Introdução,
“Imagens do Império”, apresenta o
indianismo como uma sequência de
imagens que “serviram para
conceitualizar as formas reais e
possíveis do Estado-nação brasileiro.”
Isso leva à confrontação obrigatória
com o não reconhecimento de que a
condição do índio “era uma questão
política em todo o período, envolvendo
historiadores, estadistas e escritores, em
debate prolongado e, com frequência,
apaixonado”, política e movimento
literário mostrados em permanente
interação.
O capítulo I examina sobretudo os
textos produzidos pelos jesuítas sobre o
índio durante os dois primeiros séculos
de colonização, enquanto fonte
principal da literatura indianista
subsequente: “Os mitos e estereótipos
dos épicos indianistas do século dezoito
e da literatura romântica indianista,
embora revestidos da ideologia
iluminista e liberal, foram, em grande
medida, herdados dessa tradição
jesuítica primeva.”
O capítulo 2 acrescenta uma
interrogação capital já no título:
“Extermínio ou integração?
Independência, conflito civil e política
indigenista depois de Pombal”, para
chegar até a consolidação da
independência durante a primeira
metade do século XIX, examinando a
onda liberal da Regência, com todas as
suas contradições, bem como a primeira
geração de escritores indianistas que,
como já mencionado, tendo-se apoiado
sobretudo nos relatos quinhentistas e
seiscentistas, deixa para escritores como
Bernardo Guimarães a tarefa de retratar
as consequências trágicas da
destribalização tal como se verifica
então. A notável oposição à política de
extermínio determinada por D. João VI
em 1798, levantada por José Bonifácio
logo após a Independência, bem como
sua ação como deputado, é
detalhadamente exposta e analisada,
arrematada por conclusões inhabituais:
primeiro, uma associação entre “a
condição do indígena e a do escravo
negro e suas respectivas relações com o
Estado e a sociedade.” Estabelece-se
uma filiação direta de José Bonifácio a
“seus sucessores mais proeminentes,
como Gonçalves Dias, Joaquim Manuel
de Macedo e José de Alencar”, levando
ao questionamento do “problema” da
escravidão, que viria assim a constituir
“uma questão de ordem implícita do
indianismo oitocentista” Os dois ciclos
de agitações e revoltas populares que
respondem à total ausência de reformas
das estruturas coloniais, são
introduzidos pela pergunta de um
deputado em 1831: “Como há de
marchar o regime novo com as mesmas
molas do regime velho?” E a
constatação: “O caráter dos primeiros
vinte anos de literatura romântica
indianista, de 1835 em diante, encontrase
inequivocamente moldado por esse
clima de conflito, instabilidade e
desintegração federal.”
Uma contribuição que nos parece
importante assinalar é a abrangência da
pesquisa, que traz textos raramente
abordados nas histórias literárias, com
algumas contribuições inéditas de
pesquisadores brasileiros. Mesmo a
análise de escritores relativamente
conhecidos, como Teixeira e Sousa,
nessa perspectiva interdisciplinar, traz
novas e instigantes abordagens, como “a
possibilidade de formular uma série de
comentários que ficariam entre as mais
acerbas denúncias da marginalização
social e racial sob o Império, que a
literatura desse período produziu.” Vida
e obra de Gonçalves Dias, em seguida,
são também revisitadas à luz das
contribuições mais significativas da
bibliografia sobre o autor, em torno da
qual gira a parte mais importante das
reflexões desenvolvidas nesse capítulo.
A política da conciliação é discutida no
capítulo 3, paralelamente à política
indigenista, bem como a ausência da
questão fundamental da escravidão na
literatura desse período, enquanto o
índio é idealizado sob os traços do
“guerreiro tribal como o escravo
voluntário da representante feminina da
ordem colonial”, encarnado no índio
Peri. Essa década, iniciada com a
publicação dos “Últimos cantos” por
Gonçalves Dias, seguida pelo “O
Guarani” de José de Alencar, é vista
também sob o ângulo da aprovação da
Lei de Terras e da lei Eusébio de
Queiroz e suas consequências sobre a
política indigenista. No ano de 1851,
um marco nem sempre lembrado é a
publicação insólita pela liberal revista
Guanabara do “Memorial orgânico” de
Varnhagen, e a polêmica então aberta
pela defesa que faz este de um
implacável uso da força e da retomada
das “bandeiras” coloniais com seus
propósitos de escravização dos índios e
liberação das terras para colonização
por brasileiros e imigrantes.
No capítulo 4 tratar-se-á do período de
1870 a 1888, com a intervenção de
abolicionistas como Joaquim Nabuco,
cuja polêmica com José de Alencar é
examinada de modo a mostrar as
contradições presentes em ambas as
posições em confronto. Os escritores
analisados nesta última fase do império
representam correntes que já se afastam
do idealismo romântico, trazendo à cena
literária o caboclo e uma nova rebeldia
contra uma ordem social ainda uma vez
em crise. Particularmente interessante é
o exame da evolução das posições de
José de Alencar, desiludido das
“conciliações” da década de 1850, como
da nobreza cavalheiresca dos
donatários, que cedem a vez ao
“autoritarismo cru dos barões
latifundiários do nordeste” no “O
sertanejo”, ou de outros barões ou
fazendeiros nos outros romances da
última fase do escritor.
Na conclusão, é globalmente examinado
“O legado indianista”, bem como o
desejo expresso de se acabar com o
indianismo romântico culminando com
a rejeição desse movimento pelos
Modernistas de 1922, paralelamente à
evolução das políticas indianistas
durante o século XX. No último
parágrafo são abordadas as constatações
que se impõem ao final deste século,
com as terríveis consequência dos
sucessivos projetos de integração ainda
e sempre assolando as populações
indígenas do país. O texto se fecha por
uma recapitulação da radical alteridade
das culturas indígenas, com seu
canibalismo visto e revisto pelo
romântico Gonçalves Dias, o único que,
“em seu poema “I-Juca-Pirama”,
compreendeu algo de seu poder como
expressão de uma visão alternativa e
utópica de integração social e autorealização.”
***

DAVID TREECE é Professor do
Departamento de Estudos portugueses e
brasileiros no King’s College de Londres.
Autor de documentários sobre a Amazonia
(anos 80); na Inglaterra. Em 1996, criou o
Centre for the Study of Brazilian Culture
and Society, que se tornou o maior produtor
de trabalhos acadêmicos em Estudos
culturais brasileiros, literatura e história.
Sua atividade acadêmica continua
dinamizando o interesse por assuntos
ligados ao Brasil.

* Regina Maria Abu-Jamra Machado é Doutora pela universidade Paris 3/La Sorbonne Nouvelle -
2007 - literatura brasileira - titulo: Ficção e café no vale do Pariba - Três romances da fazenda
escravagista. Tradutora e pesquisadora em literatura e historia - romantismo, 2° reinado, José de Alencar,
fazendas de café, vale do Paraiba.

FONTE : http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/9589/5487

quinta-feira, 6 de maio de 2010

SONHAR É SÓ PARA BONS SONHADORES!?

Disse o filosofo na tv que pouco se fala do verdadeiro amor nas artes!
a literatura geralmente fala de paixões. Stendhal ,num de seus livros,
escreve sobre sua grande paixão por uma mulher que era o oposto de seu tipo...
e quando perdeu a esperança,a paixão sumiu! perdeu a esperança ,a ilusão...
Pra se ter grandes paixões, é preciso ser um grande sonhador, apaixonar-se
é ter esperança,é iludir-se!
Disse o filósofo também que pouco se fala sobre o amor verdadeiro,aquele que dura uns 50 anos!
E...que orientais não  unem-se por causa da paixão,eles casam-se e dedicam-se a fazer florescer o amor !

Acho que por causa de nossos velhos costumes de não querermos nos conhecer de verdade ,
fica difícil querer conhecer o outro, querer conviver... e aí o amor verdadeiro dança!!

Nadia Stabile - escrito em dois dias ,hoje e antes de ontem....06/05/10

quarta-feira, 3 de março de 2010

"Todos deveriam ter acesso a tudo que se faz em toda parte”, afirmou José Mindlin

O bibliófilo concedeu entrevista exclusiva (e inédita) a Galileu em setembro passado

por Eduardo Zanelato// foto: Maurilo Clareto
A morte do bibliófilo José Mindlin, no domingo (28), não significou o fim de seu legado pelo desenvolvimento do País. Ele foi responsável pela doação do acervo que formará uma das mais importantes bibliotecas brasileiras sobre temas nacionais, a Brasiliana, sediada na Universidade de São Paulo (USP). Galileu procurou Mindlin em setembro passado para discutir a importância da democratização do conhecimento. A entrevista, inédita e exclusiva, pode ser lida abaixo.

Editora Globo
Em linhas gerais, ele defende a educação como um dos pilares do desenvolvimento do Brasil. E que, apesar disso, o tema permanece na obscuridade. Além de contar como formou o rico acervo doado à USP, ele fala também da importância da tecnologia para disseminar esse conhecimento armazenado em papel. Mesmo debilitado, recuperando-se de uma pneumonia, ele nos recebeu na sala de sua casa, em meio a quadros de artistas como Tarsila do Amaral. Confira, abaixo, os principais trechos da conversa com Mindlin.

Qual a responsabilidade da sociedade em relação à democratização do conhecimento?
É uma obrigação indeclinável. É preciso que todos estejam conscientes de que o tema da educação é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade solidária e esclarecida. Acho que num país como o Brasil, onde praticamente tudo é prioritário, o tema da educação é superprioritário. Sem uma educação adequada é ilusão pensar que o País pode se desenvolver. A História mostra isso. Uma coisa é conhecer história ou geografia. A educação está acima disso. Isso já tem que ser assimilado para que a educação possa produzir os efeitos que dela se espera.
Quão longe nós estamos disso?
O Brasil é um País onde é difícil generalizar os conceitos. Nós temos uma sociedade bastante grande, mas a cota dos que sabem avaliar a importância da educação é minoritária. A conscientização ainda é minoritária. Só nos grandes centros está se desenvolvendo de forma favorável. Mas no Norte e no Nordeste, por exemplo, o analfabetismo ainda existe. Não é preciso muita argúcia para ver que tem que ser feito um esforço considerável.
Como o senhor começou a montar o acervo que tem hoje e que foi doado para a USP?
A parte brasileira foi doada. Tudo que se refere a assuntos de História, literatura, ciência, viajantes, enfim, qualquer assunto brasileiro de interesse entra na biblioteca, que tem esse nome de Brasiliana. Ela corresponde exatamente ao que venho fazendo desde o final dos anos 1920. Vou fazer 95 anos, de modo que a Biblioteca tem 80 e poucos anos. É uma coisa que foi sendo feita com critério de qualidade, de aplicação dos conhecimentos e também com muita ginástica.
Quando comecei, nem queria pedir dinheiro a meus pais para comprar livros que não fossem os de estudo. Mas eu já via nesses livros o caminho para entender os outros. Sempre digo que a biblioteca foi montada com muita ginástica, abrindo mão muitas vezes de outros prazeres. Tive a sorte de ter sido casado com uma moça que foi minha caloura na faculdade de direito. A sorte foi tal que ela compartilhava muito dos meus interesses e das minhas ideias, a biblioteca foi feita por nós dois. Muitas vezes, com o sacrifício do fim do mês. Às vezes eram oportunidades que não podíamos perder, encontrávamos obras fundamentais e raras. Foi um esforço conjunto. Na parte de Brasil formou-se um acervo que não seria fácil refazer hoje. Obras que já eram raras nos anos 1930, hoje são raríssimas.
Por que o senhor decidiu doar o acervo?
É uma biblioteca boa. A sensação que tanto eu quanto minha mulher tivemos é que ela deveria deixar de ser particular. Deveria ser um instrumento de conhecimento de ordem geral. Ou seja, uma parcela do que representa a educação sobre a qual você acabou de falar. Nós temos quatro filhos que gostam de ler, cada um tem sua biblioteca. Esse conjunto de que falei, é mais ou menos indivisível. Se você fosse dividir em quatro partes, cada uma delas seria mais fraca do que a soma delas no conjunto. Então ela teria que deixar de ser um bem particular para se transformar em bem público. Minha mulher, eu, nossos filhos e netos somos todos uspianos (alunos e ex-alunos da USP), a conclusão óbvia é de que a biblioteca devia ir para a USP.
Como foi o processo de doação?
Havia problemas nisso: a questão de conservação, influências de políticas internas ou externas. A doação, então, foi feita sob algumas condições. Uma delas é a construção de um prédio para a biblioteca, para que não se misturasse com outras bibliotecas da USP, que são boas são boas para os assuntos de outros temas. A Brasiliana se aproxima mais do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Mas, em matéria de livros, uma biblioteca nunca é completa, sempre faltam coisas. Muitas obras importantes do IEB faltam na nossa. E, em compensação, muitas obras importantes da nossa também faltam no IEB ou em outras bibliotecas do País.
Qual a importância dessa doação?
Indo para a USP, ela se transforma automaticamente num instrumento de educação, preenchendo esse tema de ordem geral e essencial do processo de formação de gerações preparadas para entender o País, absorver os conhecimentos dos problemas que estamos enfrentando ou que ainda viremos a enfrentar e procurar o remédio para resolver esses problemas. A biblioteca tem uma parte de obras correntes e outra parte significativa de obras raras, desde os principais viajantes do século XVI, [tosse] - Estou com com tosse, a rigor eu não deveria falar, mas não quis adiar nosso encontro, então acho que estou dando a ideia do que... de como eu penso isso. A educação é essencial para o eficiente desenvolvimento Brasil e de qualquer outra parte do mundo.
É um fenômeno que faz parte do crescimento e do desenvolvimento da população mundial. Vai bem além do estudo de disciplinas determinadas. Ela tem que ser o coroamento desses estudos segmentados que vão se prolongando pela vida afora. A educação é um conceito global que assegura a absorção do que foi aprendido no estudo, primário, secundário e superior. É um conceito, a aplicação filosófica de apreciação da sociedade, das necessidades de cada sociedade específica. A solução desses problemas é uma coisa que eu considero de obrigação essencial e generalizada de todas as pessoas que tenham condição de transmitir a outros alguma coisa útil.
Qual a importância da tecnologia (o acervo da Brasiliana está sendo digitalizado e estará disponível on-line) nesse processo de democratização do conhecimento?
Tecnologia é uma parte essencial do desenvolvimento de uma sociedade. Há mais de um século é reconhecida a essencialidade da pesquisa, do que está sendo feito, do que poderia ser feito, uma vez verificadas as necessidades. E isso implica numa especialização que se chama de desenvolvimento tecnológico. E no qual o mundo inteiro está empenhado. Infelizmente, estamos menos empenhados do que o primeiro mundo. Todos deveriam ter acesso a tudo que se faz em toda parte. Sem desenvolvimento tecnológico, é uma ilusão pensar que estamos caminhando para o desenvolvimento da educação, porque a tecnologia faz parte desse desenvolvimento.


Leia Mais:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

QUEM FOI GASTON BACHELARD?

Gaston Bachelard
(1884-1962)

Bachelard, filósofo e ensaista francês. Bachelard nasceu em Bar-sur-Aube no seio de uma modesta família,o seu pai era sapateiro. Após acabar os estudos secundários trabalha nos correios de Remiremont até 1906 e mais tarde em Paris entre 1907 e 1913. Embora trabalhe cerca de  60 horas por semana em Paris, reinicia os seus estudo e licencia-se em matemáticas em 1912. Pretende então vir a ser engenheiro de telegrafia. Quando rebentou a I Guerra Mundial foi alistado no exército. Depois da desmobilização, foi nomeado professor de física e química em Bar-sur-Aube. A teoria da relatividade deita por terra as suas ideias sobre física, o que o terá levado a estudar a filosofia, obtendo uma segunda licenciatura em letras em 1920. Tendo-se doutorado em 1927,com a tese Ensaio sobre o Conhecimento aproximado e Estudo sobre a Evolução de um  problema da física, a propagação térmica nos sólidos (a tese é premiada). Em 1930 iniciou uma carreira regular de professor universitário. Primeiro deu aulas na Universidade de Dijon (1930-1940) e depois na Sorbonne (Paris) em  história e filosofia das ciências, onde permaneceu até 1954. Entra para a Academia das Ciências Morais e Políticas em 1955. Recebe a Legião de Honra em 1951 e o Grande Prémio Nacional das Letras (1961).
Obras
O Novo Espírito Científico (1934), A Formação do Espírito Científico (1938),Psicanálise do fogo (1938),  A Água e os Sonhos (1942), O Ar  e os  Sonhos (1943), A Terra e os Devaneios da Vontade (1948), O Materialismo Racional (1953),A Poética do Espaço (1957) e A Poética dos Devaneios (1960), etc.
Filosofia
Bachelard desenvolve uma reflexão muito diversificada sobre a ciência. Para além de filósofo, crítico e  epistemólogo, era cientista e poeta. A publicação das obras revela esta oscilação  de interesses a filosofia das ciências, a lógica, a psicologia e a poesia.Os seus trabalhos no domínio da epistemologia continuam a ser de grande relevância para a compreensão dos problemas científicos contemporâneos. A sua ideia principal é que no futuro o conhecimento se baseará na negação do conhecimento actual. Alguns conceitos inovadores:
1. Desfasamento.A filosofia dos filósofos está sempre desfasada em relação à ciência que se pratica. Os próprios cientistas professam uma "filosofia espontânea" que também não correspondência com a sua prática científica.
2. Novo espírito científico. Proposto por Bachelard, tem como objectivo ultrapassar os obstáculos epistemológicos que impedem a ciência de progredir ( o senso comum, os pressupostos das filosofias tradicionais).
3. Rupturas. Bachelard crítica as concepções continuistas da história da ciências, introduzindo a categoria  de ruptura para assinalar a dupla descontinuidade histórica e epistemológica que na mesma se verifica. A continua rectificação dos conhecimentos anteriores é a chave de todo o progresso científico. A ciência não é pois um conhecimento absoluto, nem rigoroso, mas apenas cada vez mais aproximado do sentido profundo da natureza. O progresso científico faz-se através de sucessivas rupturas.  
"Nós acreditamos, com efeito, que o progresso científico manifesta sempre uma ruptura , perpétuas rupturas, entre conhecimento comum (senso comum) e conhecimento científico, desde que se aborde uma ciência evoluída, uma ciência que, pelo próprio facto das suas rupturas, traga a marca da modernidade. (...) Podemos pois colocar a descontinuidade epistemológica em plena luz. (...) A própria linguagem da ciência está em estado de revolução semântica permanente". Bachelarad, Materialismo Racional
Edições e Comentários
Bachelard. G.- Materialismo Racional. Lisboa.Ed.70.
Bachelard. G.- A Psicanalise do Fogo. Lisboa.Estudios Cor.1972
Bachelard. G.- A Filosofia do Não. Filosofia do Novo Espírito Científico. Lisboa.Ed.Presença.1976
Bachelard. G.- O Novo Espírito Científico. Lisboa.Ed.70
Bachelard. G.- Epistemologia. Lisboa.Ed.70
Bachelard. G - A Água e o Fogo. S. Paulo. Martins Fontes.
Bachelard. G. - O Ar e os Outro Sonhos. S. Paulo. Martins Fontes
Bachelard. G.- Dialéctica da Duração. Ática (Brasil)
Bachelard. G. - Fragmentos de uma poética do Fogo. Brasiliense (Brasil ).
Bachelard. G.- Leautreamont . Lisboa. Litoral 
Bachelard. G.- Poética do Devaneio. S. Paulo. Martins Fontes.
Bachelard. G. - Poética do Espaço.  S. Paulo. Martins Fontes
Bachelard. G. - Psicanálise do Fogo. Lisboa. Litoral
Bachelard. G. - A Terra e os Devaneios do Repouso. S. Paulo. Martins Fontes
.
Dagonet, Franco - Bachelard. Lisboa. Ed. 70

FONTE : http://afilosofia.no.sapo.pt/10bachelard.htm

PERGUNTAS DO YAHOO!! SÍNTESE DO LIVRO DE BACHELARD : "A ÁGUA E OS SONHOS"

Como seria sua síntese sobre o livro de Bachelard, "A água e os sonhos"?

* 3 anos atrás

Melhor resposta - Escolhida pelo autor da pergunta

Gaston Bachelard (1989), em seu livro "A Água e os Sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria", discorre sobre a imaginação que surge da própria materialidade do mundo. Segundo o autor, há duas formas de imaginação: a formal, que é uma causa sentimental, do coração, e uma outra, material, surgida da matéria, a qual tem um peso, um coração.
Essas duas forças convivem no poema e, por que não dizer, na linguagem. Uma sem a outra não perdura. A imaginação íntima humana não prospera sem seu correlativo objetivo, bem como as materialidades naturais não podem, sem o sentimento do observador, gerar imagens. O escultor pode imaginar o que quiser, mas deverá submeter-se ao material de que se utiliza. Do barro ao mármore, a mesma forma imaginada obedece a materialidades diferentes e, por fim, diferentemente se expressa. Também é assim no poema, até mesmo a língua de expressão determina o que vai ser dito. Barthes já o diz em aula que a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado. Não apenas é um sistema fechado, que, segundo suas característica, impede que certas coisas sejam ditas, mais ainda, obriga a dizer.
Há, porém, uma negligência em relação à imaginação da matéria, à capacidade da matéria de criar imagens. O estudo das metáforas negligencia esta abordagem, esquece, na análise de uma imagística, a influência do natural. Até que ponto é a melancolia que procura o outono ou é este que a produz?
O ensaio de Bachelard dedica-se à imagem da água em seus diversos estados, como parte de um estudo maior que ele denomina Lei dos quatro elementos poéticos. A água é matéria de difícil apreensão. Deixa-se ver, deixa ver através e deixa ver-se nela o observador. Ao mesmo tempo foco, lente e espelho. A expressão visual de qualquer objeto se faz na presença da luz. A água, entretanto, não apenas reflete a luz, ela também refrata, fragmenta a luz. A materialização visual da água é também a materialização da luz, matéria da visão, da imagem. Este caráter fugidio possibilita escorrermos de um conceito a outro facilmente. O ser pode tornar-se não-ser. O um e o outro podem mudar de lugar. Na lâmina da água encontram-se dois mundos, duas margens, apartadas e unidas, simétricas e opostas. E se uma aragem passa, multiplicam-se as imagens, as margens.
Bachelard, ao empreender um estudo das imagens, da imaginação, lança uma luz justamente sobre esse potencial determinante na natureza, da materialidade do mundo, na construção de imagens. Como a argila que determina que o corpo esculpido terá mais ou menos leveza, conforme sua maleabilidade, também a metáfora submete-se às imagens da materialidade. Uma pedra traz em si um repertório de imagens que lhe podem ser atribuídas. Evocar uma pedra num poema é circunscrever-se num universo imagístico definido. Pular da pedra à árvore é submeter-se a outro sistema. Da árvore ao bosque é expandir horizontes. Escolher a água como matéria é já um novo e diverso mundo...
Abraços, Moran

FONTE : http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070519081926AARJsGM

sábado, 20 de fevereiro de 2010

RUBEM ALVES -A EMOÇÃO E A RAZÃO NA EDUCAÇÃO DA NOVA ERA

PREFÁCIO DE RUBEM ALVES AO LIVRO DE EDUARDO CHAVES (Uma Nova Educação
para uma Nova Era)


Quero, preliminarmente, esclarecer o leitor sobre a minha maneira de ler
pois é ela que determina minha maneira de escrever. Eu leio
antropofagicamente: devoro os livros que amo. Depois de devorá-los eles
entram no meu sangue. Circulando no meu sangue deixam de pertencer ao
autor; passam a ser parte de mim. Assim, ao escrever sobre um livro,
escrevo sobre ele tal como foi por mim digerido amorosamente. Tolo seria
um homem apaixonado que, ao escrever sobre o jantar que sua amada lhe
preparou, transcrevesse as receitas dos pratos que foram servidos...
Assim, não vou transcrever e nem resumir. Vou falar sobre aquilo que
esse livro fez comigo depois de digerido...

o O o

Digo primeiro que a leitura desse livro me fez ficar alegre. E isso
porque, ao lê-lo, dei-me conta de que o Eduardo e eu estamos fazendo um
dueto, tocando a mesma música...

Vou explicar. Eu e o Eduardo temos sido amigos por muitos anos. Nossa
amizade se iniciou na juventude, porque andávamos pelo mesmo caminho.
Naqueles tempos escolhemos o caminho que, acreditávamos, nos levaria aos
deuses. Estudamos no mesmo lugar, lemos os mesmos livros de teologia e
brincamos com as mesmas idéias.

Mas o tempo passou e nós mudamos. Talvez por razões diferentes
abandonamos o caminho dos deuses com as suas certezas e resolvemos
caminhar por caminhos mais modestos e mais humanos. Seguimos o conselho
do poeta alemão Heine: deixamos os céus aos anjos e aos pardais... Mas
não seguimos juntos. Apareceu uma bifurcação e aí nos separamos: eu fui
por um lado e o Eduardo foi por outro. E assim vivemos por vários anos,
caminhando por caminhos diferentes. Mas nunca deixamos de ser amigos.
Até ríamos das nossas diferenças. Rafael pintou uma tela em que
aparecem, caminhando lado a lado, os filósofos Platão e Aristóteles.
Conversam enquanto caminham. Mas a tela deixa claro que eles não estavam
de acordo. Platão aponta para cima enquanto a mão de Aristóleles sugere
os caminhos de baixo... Platão quer as alturas; quer ser ave.
Aristóteles, talvez se lembrando do destino trágico de Ícaro, indica os
caminhos da terra, mais seguros para criaturas desprovidas de asas.
Assim éramos nós... Eduardo e eu chegamos mesmo a imaginar um jogo de
palavras. Se eu dissesse Platão ele responderia com Aristóteles. Se eu
falasse Santo Agostinho ele invocaria Santo Tomas de Aquino. Ao meu
Pascal ele retrucaria com Descartes. E se ele dissesse Kant eu diria
Nietzsche e Kierkegaard...

Eu segui o caminho da literatura e da poesia, onde só se fala por meio
da imprecisa e ambígua linguagem das imagens e das metáforas. O Eduardo,
ao contrário, preferiu o rigoroso e paciente caminho da lógica e da
razão, das idéias claras e distintas, e não foi por acidente que ele
escolheu como tema da sua dissertação de doutorado o pensamento do
filósofo Hume.

Mas estes não são caminhos contraditórios. Tanto a emoção quanto a
razão são manifestações da vida. A vida, só com a razão, é monótona e
triste. E a emoção sozinha, sem a razão, é frágil e efêmera. É do seu
encontro amoroso que universos são gerados.

Há pessoas que conseguem de forma maravilhosa brincar com as duas ao
mesmo tempo. Tal é o caso de Gaston Bachelard que, por um lado,
escreveu livros filosóficos clássicos sobre epistemologia e filosofia da
ciência e, ao mesmo tempo, obras de rara beleza e sensibilidade poética,
tais como "A Chama de uma Vela" e "A Poética do Espaço". Havia o
Bachelard diurno e o Bachelard noturno...

Os dons não são escolhas nossas. Não escolhemos a nossa maneira de
pensar e de escrever. Milan Kundera, no seu livro Os testamentos
traídos, observa que os pensamentos de um filósofo não são produtos
deliberados de uma decisão consciente. Os pensamentos, ele acrescenta
citando Nietzsche, vêm "de fora, do alto ou de baixo... Um pensamento
vem quando "ele" quer..." ( Os testamentos traídos, p. 135 ). Assim
aconteceu conosco. Eu não escolhi o meu jeito de pensar e escrever. E o
Eduardo não escolheu o seu. Os pensamentos nos escolheram, cada um a seu
modo. E a minha alegria está precisamente nisso: que havendo caminhado
por caminhos diferentes por tanto tempo, agora nossos caminhos se
encontram e começamos a tocar a mesma música...

Digerido, o livro me fez pensar. A propósito do livro best-seller
Inteligência emocional , o Eduardo observa que a questão não é fazer com
que a inteligência se torne emocional. (Na verdade, eu pessoalmente não
acredito nem que isso seja possível e nem que seja desejável). E
acrescenta: " Não é a inteligência (razão) que deve se tornar emocional:
é a emoção que deve se tornar inteligente". (Anexo II). Isso sim é
desejável, possível e necessário. Na ordem da vida a emoção é a origem
de todas as coisas. É nela que se encontra a força propulsora da ação.
Os sonhos são o rosto visível das emoções. Deus sonhou primeiro e agiu
depois. Sonhou com um paraíso e foi desse sonho que surgiu o verbo
criador. No princípio era o sonho... Mas o sonho sozinho com suas
emoções é impotente. Sem o sonho a inteligência permanece flácida,
impotente e inútil... O sonho precisa de um aliado que o torne forte.
Parafraseando o poeta William Blake: " O sonho engravida. A inteligência
faz parir." Nietzsche, que seguia o caminho da emoção, tinha clara
consciência disto. Dizia que o corpo, lugar das emoções e dos sonhos, é
o início de todas as coisas e o chamava de Grande Razão. E é essa Grande
Razão, bela e impotente, que cria a inteligência, a "pequena razão",
como uma ferramenta e um brinquedo para os seus sonhos. Para que? Para
que os sonhos não permaneçam sonhos. Para que os sonhos se transformem
em realidade. Para que a gravidez se realize em nascimento...

O que é esse livro? Ele é uma exploração meticulosa, exaustiva,
detalhada, clara, dos caminhos a serem seguidos para dar inteligência à
emoção. Minha alegria está nisso: que o Eduardo fez aquilo que eu mesmo
não fiz.

Dar inteligência à emoção... Isso nos permite dizer o que uma escola
deveria e poderia ser. Uma escola é um tempo-espaço onde as crianças têm
liberdade para sonhar e compartilhar seus sonhos. Mas mais do que isso:
é um tempo-espaço onde elas, no exercício da inteligência, criam as
competências necessárias para que seus sonhos se realizem.

Uma boa metáfora ilumina mais que uma dúzia de conceitos. O Eduardo se
vale da metáfora da construção de uma casa para explicar a maneira como
se aprende. Trata-se de uma metáfora fácil de ser entendida porque,
afinal de contas, temos estado repetindo que aprendizagem é
construção...

Onde se inicia a construção de uma casa? Na compra do terreno? No
financiamento? Na casa dos materiais de construção? Na planta do
engenheiro? Não. Uma casa não começa nesses lugares sólidos. Ela começa
num lugar frágil, que nem mesmo existe. Uma casa começa num Desejo,
naquele momento em que uma pessoa diz: "Como seria bom seu eu pudesse
construir uma casa!" O Desejo é como um feto: a princípio não se percebe
nele qualquer forma definida. Mas à medida em que cresce ele ganha um
rosto. Torna-se visível como Sonho. É o que disse Fernando Pessoa: "O
meu desejo porque é forte entra na substância do mundo."

"No princípio era o sonho..." O que vale para uma casa vale também para
todas as criações, das mais simples às mais complexas: vale para um
jardim e uma catedral, para um carrinho de lata de sardinha e uma nave
espacial, para um assobio e uma sinfonia. "Deus quer, o homem sonha, a
obra nasce..." (Fernando Pessoa). Polya, matemático da Universidade de
Princeton, escreveu um enorme livrinho sobre a arte de resolver
problemas. O seu primeiro conselho é "comece do fim". Não é assim que
procedemos ao planejar as férias? Primeiro sonhamos o lugar para onde
queremos ir. A seguir o Sonho pergunta à Inteligência: "Qual é o caminho
para se chegar lá?" E é assim também que acontece com a vida, que é o
maior projeto de construção que qualquer pessoa possa ter, porque o que
está em jogo é o Sonho do que queremos ser. A escola é precisamente o
lugar onde os sonhos das crianças põem suas inteligências a trabalhar
para que elas possam ser o que desejam ser.

Sim, as escolas estão construindo as crianças. Mas é preciso perguntar:
De quem são os sonhos? De quem é o projeto? Quem tomou as decisões?

Para a educação tradicional a resposta é muito clara. "A educação é algo
que os adultos ('as gerações mais velhas') fazem com as crianças ('as
gerações mais jovens'). Desta forma, ela atribui "aos adultos (pais ,
professores, etc.) o papel de atores principais no processo
educacional." Às crianças "cabe apenas assimilar o que os adultos
desejam que elas aprendam." "Aprender é um processo essencialmente
passivo, que têm lugar principalmente quando elas ouvem e lêem". Paulo
Freire deu o nome de "educação bancária" a esse tipo de procedimento
escolar: as crianças e os alunos são cofres vazios onde os adultos vão
depositando os saberes que os programas determinam. Essa imagem bancária
da educação é muito verdadeira porque foram as próprias escolas que a
adotaram ao empregar a palavra "crédito" para se referir aos cursos que
um aluno cursou.

Aos alunos cabe o silêncio... Na verdade pressupomos que as crianças são
estúpidas e nada sabem. Não podem, portanto, opinar e decidir sobre os
seus rumos nas escolas. A educação tradicional, assim, ignorando que as
crianças têm sonhos e têm o direito de sonhar, impõe sobre elas desejos
que não são delas, desejos dos adultos, para que elas deixem de ser elas
mesmas e se tornem outras. Haverá forma mais cruel de alienação? Pois
alienação não é precisamente isso, esquecer os próprios sonhos e passar
a sonhar os sonhos de um estranho? O que me faz lembrar um doloroso
verso de Álvaro de Campos: "Não existo. Sou o intervalo entre o meu
desejo e o que os desejos dos outros fizeram de mim..." Por causa disto
Alberto Caeiro se entregou à tarefa de desaprender tudo o que lhe
haviam ensinado, para que pudesse voltar ser ele mesmo...

Na escola tradicional o professor vai seguro para a sala. Sua aula está
preparada. Ele segue o programa. Não haverá surpresas. Ele sabe o que
vai falar. É ele quem vai dar o tema. Se uma criança fizer uma pergunta
enviezada ele dirá que num outro lugar do programa ela será respondida.
Às crianças compete escutar. O ato de avaliação, que freqüentemente
decide o destino de uma criança, tem o preciso objetivo de verificar se
as crianças ouviram bem o que lhes foi falado, se elas internalizaram os
saberes determinados por outros, outros que não estão lá...

O que está pressuposto por detrás dessa prática é que as crianças são
tolas. Nada sabem. O que têm a dizer não é para ser levado a sério. Se
as escutamos é por um mero ato de delicadeza. Não é um escutar de
verdade, para aprender delas. É um escutar de "faz de contas"...

Mas não são poucos aqueles que perceberam o contrário. Bernardo Soares
se refere á "diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a
estupidez dos adultos." Ricardo Reis, num poema sapiencial, diz que é
preciso viver "tendo as crianças por nossas mestras e os olhos cheios de
natureza". Nietzsche, que os doutos professores universitários dos seus
dias nunca entenderam, refugiava-se nas crianças e dizia que o máximo de
maturidade que um adulto pode atingir é quando ele tem a seriedade que
as crianças têm ao brincar. Novalis contemplava as crianças e se
encantava: "O primeiro homem é o primeiro visionário de espíritos. O que
são as crianças, senão primeiros homens? O fresco olhar da criança é
mais transcendente que o pressentimento do mais resolutos dos
visionários." E Janusz Korczak, o educador polonês judeu que morreu
numa câmara de gás nazista com suas crianças, escrevendo aos
professores, disse: "Vocês dizem: 'Cansa-nos ter de conviver com as
crianças'. Têm razão. Vocês dizem ainda: 'Cansa-nos porque precisamos
descer ao seu nível de compreensão'. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se,
ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso o que nos cansa, e sim o
fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das
crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las."

O fato é que as crianças são inteligentes. Suas inteligências ainda não
foram petrificadas pelo hábito. Seus olhos se espantam com todas as
coisas. Querem saber. São curiosas. Investigam. O dedinho da criança
procurando buracos onde enfiá-lo é um maravilhoso símbolo da sua
curiosidade. "Ninguém precisa ensinar uma criança pequena a aprender",
diz o Eduardo citando Peter M. Senge. "Na verdade, ninguém precisa
ensinar nada a uma criança pequena. Elas são infinitamente inquisitivas,
aprendentes competentes que aprendem a andar, a falar e a basicamente
mandar em suas casas, tudo sozinhas."

Uma Nova Escola tem de se iniciar com uma transformação amorosa na nossa
imagem da criança. Reconhecer que todas as crianças - na verdade, todas
as pessoas - têm sonhos. Mais do que isso: que elas têm direito aos
seus sonhos, porque seus sonhos são a sua alma. E que são os sonhos que
determinam o programa: são eles, os seus sonhos, que dizem os saberes a
serem buscados. Porque todos os saberes só têm uma função: a de
permitir que os sonhos sejam realizados. Quando um sonho se realiza vem
a alegria. Todo o trabalho para a realização dos sonhos é um trabalho
feliz. Mesmo o trabalho penoso. Lembro-me de Oswald de Andrade, no
"Manifesto Antropofágico": "A alegria é a prova dos nove..." O
espaço-tempo da escola, assim, se organiza como uma oficina onde as
crianças são encorajadas a sonhar os seus próprios sonhos. Nenhum sonho
será jamais castigado. É um espaço feliz. E o professor se descobre
então como um provocador e escutador de sonhos...

Isso produz uma perturbação nas rotinas do professor. Na escola
tradicional todas os saberes estão definidos pelo programa. O professor
é o portador desses saberes. Sua missão é fazer com que as crianças
aprendam. Mas agora esse programa fixo deixa de existir. Serão os
desejos e sonhos dos alunos que indicarão quais os saberes que lhes
serão necessários no seu projeto de vida. Crianças nas praias do
nordestes, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amazônia, nos
bairros ricos das grandes cidades, nas favelas, nos pequenos vilarejos
pobres - quantos sonhos diferentes! Quantos projetos de vida diferentes!
Seria, por acaso, possível, submetê-las a um programa único? Impossível.
Serão as crianças que dirão os seus sonhos e pedirão ao professor:
"Ajude-nos a realizá-los!" E o professor perceberá que ele não tem
respostas para as perguntas que lhes vêm dos alunos. Ele não sabe! Ele
terá de dizer que não sabe. E isso não será vergonhoso. Ninguém sabe
todas as coisas. Ele não sabe as respostas. Sua função não é ensinar
respostas. Sua função é ajudar os alunos e a si mesmo a procurar as
respostas.

É preciso que nos libertemos da insensatez dos programas pre-fixados e
universais. Eles pressupõem que aqueles são os saberes que as crianças
devem aprender, sem explicar por que. Qual o sentido dos nomes das
enzimas que entram no processo digestivo para um adolescente de
periferia? O que pode ele fazer com aqueles nomes? E pressupõem ainda
que os alunos são todos iguais. E que devem aprender as mesmas coisas.
No mesmo ritmo... Nenhum desses pressupostos se justifica
psicologicamente.

Por vezes o absurdo literário nos ajuda a compreender o absurdo real.
Imaginemos que um homem, decidido a construir uma casa, vá a uma casa de
materiais de construção e se ponha a fazer um estoque de todos os
produtos que ali se encontram. Afinal de contas, ele vai construir uma
casa e aquele é o lugar onde estão estocados os materiais para a
construção de uma casa. Claro que isso é um absurdo. Ninguém procede
assim. Só um louco. O que todo mundo faz, orientado pelo senso comum, é
ir comprando os materiais à medida em que se tornam necessários. Mas
aquela é, precisamente, a filosofia dos programas: os alunos são
obrigados a aprender os saberes que, hipoteticamente, irão usar um dia,
eventualmente... Não seria muito mais racional ir aprendendo os saberes
à medida em que se tornarem necessários à construção do projeto de vida?


Tenho dó dos professores sabedores dos programas. Porque a cada ano eles
são obrigados a andar pelos mesmos caminhos, a repetir as mesmas coisas.
Fazem-me lembrar os guias turísticos que, dia após dia, levam os
turistas aos mesmos monumentos e mecanicamente repetem as mesmas
informações. É uma monotonia sem fim! Não admira que com o transcorrer
dos anos a alegria desapareça dos seus rostos e eles desaprendam a arte
de sonhar! Passam a sonhar com a aposentadoria... Mas, indo ao sabor dos
sonhos das crianças a cada dia eles terão de enfrentar o desafio de
mundos desconhecidos e a surpresa de coisas novas! E ficarão mais
ricos. E mais interessantes. Esse é um projeto de vida que vale a pena!

Para que aprender? O corpo aprende para se tornar mais eficiente para
resolver os problemas vitais do dia a dia. "Saber por saber! Isso é
desumano!", dizia Miguel de Unamuno. Tecnologia são todos os artifícios
inventados pela inteligência para aumentar a competência do corpo para
resolver os problemas vitais. Marshal McLuhan observou que todos os
produtos tecnológicos, da cuia ao computador, são extensões dos nossos
membros e da nossa inteligência. Saberes são ferramentas. No mundo há
milhares, milhões de ferramentas. Eu nunca usarei todas. Portanto, não
tenho de aprender todas. Aprenderei as ferramentas que me são
necessárias para viver. É esse "para viver" que dá sentido ao
conhecimento. Assim, aprendemos para nos tornar competentes. O que é
competência? Menino, eu tinha inveja do meu pai. Ele descascava laranjas
como ninguém: cascas inteiras, sem ferir a laranja. Eu queria ser como
ele. Para isso eu teria de aprender várias coisas. A segurar o canivete.
A amolar o canivete. A segurar a laranja. A girar a laranja. A cortar a
casca no ângulo certo. Ninguém me disse que aprendesse. Ninguém me
ensinou. Aprendi sozinho porque queria. Me esforcei até que fiquei
competente. Descasco laranjas como o meu pai. Esse saber não se encontra
em nenhum programa... Competência é ter a capacidade para resolver os
problemas que nos desafiam no dia a dia. Muito cedo, sem que ninguém
saiba como, a criança adquire competência para andar. Com isso ela
resolve o problema de deslocar-se no espaço. E aprende a falar. Com isso
ela se torna competente na comunicação. O menino que roda o pião ficou
competente em rodar pião. A menina que pula corda ficou competente em
pular corda. O jovem que toca violão se tornou competente em tocar
violão. Para isso foi necessário que o seu sonho fosse muito forte. Se
ele não sonhasse forte ele não teria paciência... Sempre que o sonho é
forte a inteligência trabalha com paciência e persistência. Não é
preciso que ninguém lhe dê ordens.

A vida é feita de competências. Corrijo-me. A vida é feita de
competências e sonhos. São os sonhos que buscam as competências. As
competências nos dão os "meios para viver". Os sonhos nos dão as "razões
para viver". As competências existem para que os sonhos se realizem.

É possível que a imprensa tenha sido a tecnologia que mais revolucionou
a educação. Ela foi capaz de colocar o mundo dentro de um livro. E
dentro de uma sala de aulas. Mas, para fazer essa tarefa fantástica ela
teve de se valer de um artifício: transformou o mundo multi-dimensional,
desorganizado, sempre em mutação, numa linha contínua de palavras. Para
que as palavras façam sentido é preciso que os olhos deslizem sobre
elas, da esquerda para a direita, sem saltos. O problema de um escritor
é sempre esse: colocar numa linha aquilo que não existe numa linha... A
escrita determinou nossa maneira de pensar o mundo: pensamos o mundo
através de uma linha reta deslizante. À moda de uma centopéia, sem
pulos.

Vieram então os computadores. E a Internet. Com isso surgiu um outro
jeito de andar: aos pulos, como uma pulga. Podem rir da metáfora. Eu
também a acho engraçada. Mas acho que Nietzsche a aprovaria pois dizia
que aqueles que só sabem andar não seriam capazes de seguí-lo. Seria
preciso que fossem capazes de saltar de pico em pico. E acrescentou: "
Mas para isso é preciso ter pernas longas..." A Internet nos deu pernas
longas. Podemos saltar de pico em pico. Podemos visitar o mundo aos
pulos. Quantas revoluções no pensamento, nos arranjos espaciais e
temporais, nas trocas de informações, acontecem em decorrência da
presença de computadores e da Internet numa escola. Alguns não se dão
conta do que está ocorrendo. Pensam que um computador ligado à Internet
é apenas mais um artefato tecnológico moderno. Não se dão conta de ele
representa uma transformação radical no nosso mundo, nas formas de
conhecer, de comunicar e de ganhar novas competências. Hoje, para se ser
competente, é preciso aprender a pensar com os saltos da pulga. As
linhas retas nos levam por caminhos batidos. Os saltos nos levam a
lugares não pensados.

O que há de fascinante neste livro é que o seu autor nos leva passo a
passo no processo de construção do Projeto de Vida daqueles que estão
aprendendo. Porque isso é a única coisa que importa. Resumindo: é o
Sonho em busca da Inteligência.

O nosso Sonho é que o dueto se transforme em orquestra...


Rubem Alves
Campinas, 6 de março de 2003

FONTE : http://br.groups.yahoo.com/group/4pilares/message/1426

domingo, 31 de janeiro de 2010

Salinger e a invenção da adolescência

Postado por Luciano Trigo em 28 de janeiro de 2010 às 16:36
‘O apanhador no campo de centeio’ influenciou rebeldia de várias gerações
capaSalingerTalvez seja difícil para os adolescentes de hoje imaginar o grau da influência exercida pelo romance O apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye) sobre o imaginário de mais de uma geração de leitores, desde a públicação do romance, em 1951. Mais de quatro décadas da mais absoluta reclusão do escritor, que fugia da imprensa e da fama como da peste, não impediram que o livro se transformasse num verdadeiro objeto de culto, nem que seu protagonista, Holden Caulfield, servisse de espelho e inspiração para milhões de adolescentes em todo o mundo. Num sentido profundo, Salinger inventou a idéia de adolescência que vigorou da segunda metade do século 20.
Com Salinger, que morreu ontem aos 91 anos, talvez desapareça também um protótipo de adolescente, alienado mas autêntico, rebelde mas carente, desajustado mas buscando secretamente a aceitação, em suma, vivendo todos os conflitos típicos dos anos de formação – e, também, as frutrações do início da vida adulta – de uma classe média que também mudou muito.
O enredo do livro é aparentemente banal: narra, em primeira pessoa, alguns dias na vida de Holden, 16 anos, expulso da escola pela terceira vez às vésperas do Natal, e as encrencas em que ele se mete. Jovem sensível, incomodado com a falsidade dos adultos, Holden não tem nada de especial, nem seus encontos e conversas com um professor, uma antiga namorada ou sua irmã caçula, Phoepe, têm qualquer coisa de particularmente notável. Talvez por isso mesmo o livro tenha encantado tantos jovens leitores, pela despretensão e pela falta absoluta de mensagens edificantes. Crônica sem retoques de tudo que constuma passar pela cabeça de de um adolescente comum, O apanhador no campo de centeio mostrou para uma sociedade de adultos alheios o que é ser jovem – e confrontou essa sociedade com sua própria hipocrisia.
Nascido em 1919, Salinger publicou um único romance e 36 contos, os melhores deles reunidos em três volumes – Franny e Zooey (reunindo duas novelas publicadas pela revista The New Yorker em 1955 e 1957), Nove Estórias e Pra cima com a viga, moçada/Seymor, uma introdução (também traduzido como Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira), todos escritos entre 1940 e 1965. Sozinho, O apanhador no campo de centeio vendeu mais de 60 milhões de exemplares no mundo inteiro. No Brasil, o romance foi lançado pela Editora do Autor, numa excelente tradução de Jorio Dauster, Alvaro Alencar e Antonio Rocha.
Trecho de O apanhador no campo de centeio:
“Nem parecia que tinha nevado, as calçadas já estavam quase limpas. Mas fazia um frio de rachar e tratei de tirar do bolso meu chapéu vermelho e botei na cabeça – estava pouco ligando para minha aparência. Cheguei até a baixar os protetores de orelha. Bem que gostaria de saber qual o safado que tinha roubado minhas luvas no Pencey, porque minhas mãos estavam geladas. Não que eu fosse fazer muita coisa se soubesse. Sou um desses sujeitos covardes pra chuchu. Procuro não demonstrar, mas sou.
Por exemplo, se tivesse descoberto quem roubou minhas luvas no Pencey, provavelmente teria ido até o quarto do vigarista e diria: “Muito bem. Que tal ir me passando as luvas?”. Aí, o vigarista que as tinha roubado provavelmente responderia, com a voz mais inocente do mundo: “Que luvas?”. Aí eu provavelmente ia até o armário dele e encontrava as luvas num canto qualquer, escondida na porcaria das galochas ou coisa que o valha. Apanhava as luvas, mostrava a ele e perguntava: “Quer dizer que essas luvas são tuas, não é?”. Aí o filho da mãe provavelmente olharia para mim, com a maior cara de anjinho, e diria: “Nunca vi essas luvas em toda a minha vida. Se são tuas, pode levar. Não quero mesmo essa droga pra nada”.
Aí eu provavelmente teria ficado uns cinco minutos de pé, no mesmo lugar, com as luvas na mão e tudo. Ia me sentir na obrigação de dar um soco no queixo do sujeito, quebrar a cara dele. Só que não iria ter coragem de fazer nada. Ia só ficar ali, de pé, tentando fazer cara de mau. Talvez dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, para aporrinhar o sujeito – em vez de lhe dar um soco no queixo. Seja lá como for, se eu dissesse alguma coisa bem cortante e sarcástica, ele provavelmente se levantaria, chegaria mais perto de mim e perguntaria: “Escuta, Caulfield. Você tá me chamando de ladrão?”. Aí, em vez de dizer que era isso mesmo, que ele era um filho da mãe dum ladrão, eu provavelmente só teria dito: “Só sei que a droga das minhas luvas estavam na droga das tuas galochas”. A essa altura o sujeito já saberia com certeza que eu não ia mesmo dar um soco nele e diria: “Olha, vamos deixar esse negócio bem claro. Você tá me chamando de ladrão?”. Eu então provavelmente responderia: “Ninguém está chamando ninguém de ladrão. Só sei que as minhas luvas estavam na porcaria das tuas galochas”. O negócio podia continuar assim durante horas.
Finalmente eu iria embora sem ter dado um sopapo nele. Provavelmente ia para o banheiro, acendia um cigarro e ficava me olhando no espelho, fazendo cara de valente. De qualquer maneira, era nisso que eu estava pensando enquanto voltava para o hotel. Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando se perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo muito quando perco alguma coisa – quando eu era pequeno minha mãe ficava danada comigo por causa disso. Tem gente que passa dias procurando alguma coisa que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde.
Mas isso não é desculpa. Sei que não é. O negócio é não ser nem um pouquinho covarde. Se é hora de dar um soco na cara de alguém, e dá vontade mesmo de fazer isso, a gente não devia nem conversar. Mas não consigo ser assim. Eu preferia empurrar um sujeito pela janela, ou cortar a cabeça dele com um machado, do que dar um soco no queixo dele. Odeio briga de soco. Não que me importe muito de apanhar – embora, naturalmente, não seja fanático por pancada – mas o que me apavora mais na briga é a cara do outro sujeito. Não consigo ficar olhando a cara do outro sujeito, esse é que é o meu problema. Não seria tão ruim se a gente estivesse com os olhos vendados, ou coisa que o valha. Pensando bem, é um tipo gozado de covardia, mas não deixa de ser covardia. E eu não procuro me iludir.”

FONTE : http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Mário que eu conheci - POR ANTONIO CANDIDO

Segunda-feira, 24/3/2008







Acho que tomei conhecimento da obra de Mário de Andrade na antologia renovadora de Estêvão Cruz, adotada pelo meu professor de Português na 3ª série do curso secundário no Ginásio Municipal de Poços de Caldas. O primeiro livro dele que li deve ter sido Primeiro andar, comprado na excelente livraria da cidade, Vida Social, que além dos clássicos e das novidades, além de obras em francês e inglês, tinha essa coisa rara: alguns livros dos modernistas, sempre editados em pequenas tiragens e muito mal distribuídos. Foi a única livraria em toda a minha vida onde vi Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, cuja edição quase secreta foi de 500 exemplares. Em 1938, já em São Paulo, li Macunaíma. Em 1939 e 1940 li os outros livros de Mário.

Só em 1940 vim a conhecê-lo pessoalmente, numa visita que lhe fizemos Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes e eu. A partir dali tivemos relações cordiais mas meio cerimoniosas, embora nos víssemos com certa freqüência, inclusive porque São Paulo era menor, com pouco mais de um milhão de habitantes e toda a gente se cruzava nas poucas exposições, livrarias e espetáculos.

No fim de 1942 comecei a namorar sua prima Gilda de Moraes Rocha. Ele sempre morou com a mãe, D. Mariquinha, e uma tia solteira, D. Nhanhã, da qual era afilhado. Em 1930 Gilda e a irmã, Maria Elisa, vieram de Araraquara, onde o pai era fazendeiro, estudar em São Paulo e ficaram residindo lá. O pai delas era sobrinho muito ligado a D. Mariquinha Andrade. Gilda tinha dez anos e se tornou uma espécie de pupila de Mário, morando na mesma casa até o dia em que se casou comigo, em dezembro de 1943.

Em 1941 fundamos a revista Clima e ele fez para o primeiro número, a pedido de Alfredo Mesquita, o admirável ensaio sobre a posição do intelectual naquele momento, "Elegia de Abril". No número 8, janeiro de 1942, publiquei uma resenha da edição reunida das suas Poesias. Ele gostou e agradeceu. Antes de sua morte ainda publiquei uns três artigos sobre escritos dele.

Em 1942 foi fundada no Rio a Associação Brasileira de Escritores, a famosa ABDE, e logo se cuidou de criar a seção paulista. A finalidade era defender os direitos autorais e arregimentar os intelectuais contra a ditadura do Estado Novo. Lembro que assisti então a uma cena curiosa, que já contei em livro mas vale a pena repetir. Estávamos conversando sobre a fundação da seção paulista na sede provisória, um grupo grande, inclusive Mário de Andrade, quando chegou Oswald. Vendo Mário, com quem era brigado, parou na porta e disse: "Boa tarde a todos". Todos respondemos, menos Mário. Então teve lugar um diálogo virtual entre os dois, que se comunicavam de certo modo sem se falarem. Oswald, que sempre quis sem êxito fazer as pazes com Mário, informou que estava chegando do Rio, onde era grande o entusiasmo pela associação e onde todos achavam que Mário deveria presidir a seção paulista, concluindo: "Esta é também a minha opinião." Na conversa que se generalizou Mário disse, dirigindo-se ao grupo, que considerava de fato importante a ABDE, mas não aceitava ser presidente, achando que devia ser Sérgio Milliet. Esse diálogo sui generis continuou por algum tempo, até que Oswald soltou uma das suas piadas irresistíveis. Todos riram, Mário tentou ficar sério, não conseguiu e estourou também na risada. Afinal o presidente acabou mesmo sendo Sérgio Milliet. Mário ficou vice e eu, segundo-secretário.

Em janeiro de 1943 ele fez em sua casa uma leitura de "Café", poema dramático que tinha acabado de redigir, estando presentes Gilda, Oneida Alvarenga, seu marido Sílvio, Luís Saia, um argentino de passagem, Norberto Frontini, e eu. Fiquei transportado ouvindo Mário ler. Hoje "Café" não me toca muito, mas lido por ele naquele momento me pareceu um exemplo extraordinário de literatura política, "participante", como se dizia. Passados uns dias escrevi a ele uma carta longa manifestando a minha opinião. Ele respondeu com outra também longa, na qual explicava a gênese e a estrutura da peça. Nos anos de 1950 Décio de Almeida Prado a publicou no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

A pedido de Otávio Tarqüínio de Sousa fui intermediário entre Mário e Frontini, que tinha vindo com o encargo de arranjar livros brasileiros para a coleção mexicana Tierra Firme, do Fondo de Cultura Económica, que estava começando. Ele queria que Mário escrevesse um livro sobre a música popular brasileira. Mário não quis, mas indicou Oneida, que fez uma obra fundamental sobre o assunto. Graças às gestões de Frontini, Caio Prado Júnior escreveu a História Econômica do Brasil para Tierra Firme.

Naquele janeiro de 1943 eu me tornei crítico oficial, chamado "crítico titular", coisa que hoje não existe mais, da Folha da Manhã, atual Folha de S. Paulo, publicando todas as semanas um rodapé de cinco a seis laudas datilografadas tamanho ofício. Mário nunca comentou comigo artigos meus, mas acho que em geral os apreciava, porque uma vez me disse amavelmente: "Uma boa parada é artigo seu com caipirinha", explicando que parada é como se designa no Nordeste uma boa combinação (goiabada com queijo, por exemplo), e contou: "Domingo (dia do meu rodapé) gosto de pegar o bonde, ir até o Largo Paissandu, tomar uma batida no Café Juca Pato, comprar o jornal e vir de volta lendo seu artigo". Mas pelo menos uma vez criticou severamente um deles, de fato bastante errado, sobre mestiçagem e literatura, e mais tarde, quando Lauro Escorel começou a sua notável e infelizmente breve atuação como crítico titular d'A Manhã, do Rio, me disse rindo: "Tome cuidado, mineiro. Tem um paulista no Rio que está passando na sua frente."

Eu costumava escrever os artigos à mão e ir à casa onde Gilda morava com as tias-avós para ela os datilografar. Eu tinha máquina, mas era um pretexto para vê-la. Às vezes, enquanto eu ditava, Mário entrava para pegar um livro e ouvia alguma coisa. Certo dia eu estava ditando um artigo sobre o novo romance de Oswald, Marco zero. Para me preparar, tinha lido a obra anterior dele e achara certos livros muito ruins. Aliás, sempre achei a obra de Oswald admirável numa parte e ruim na outra, e ele chegou a me atacar feio por escrito devido a isso, mas depois fizemos as pazes e ficamos bons amigos. Naquele momento eu estava comentando Estrela de absinto, quando Mário entrou e eu disse que o achava péssimo. Mário não retrucou, encontrou o livro e, saindo, virou-se da porta e disse com um sorriso meio sem graça: "Eu acho muito bom."

Ainda nesse ano de 1943 dei uma grande mancada. Ele me pediu para ler um seu relato de viagem, O turista aprendiz, dizendo que não estava certo se valia a pena publicar e queria a minha opinião. Eu estava para casar, sobrecarregado de trabalho, fazendo a tradução de um enorme livro americano para juntar dinheiro, de modo que só dei uma olhada no texto e acabei não lendo, apesar do sentimento de culpa por essa desconsideração a um escritor da estatura de Mário, que tinha confiado em mim. Afinal chegou o dia do casamento. O civil foi na casa onde moravam a noiva e ele. Fui para lá com o manuscrito e quando entrei ele vinha descendo a escada. Entreguei-o dizendo que tinha achado muito interessante e depois conversaríamos a respeito...

Em 1944 resolvi fazer concurso para a cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, na qual eu era assistente de Sociologia. Naquele tempo o sistema era diferente: abria-se a inscrição e qualquer pessoa que tivesse diploma superior podia concorrer. Eu era licenciado em Ciências Sociais, mas tinha vontade de passar para Literatura e pensei: "É uma oportunidade. Não vou ganhar a cadeira (tinha 25 anos), mas, se for aprovado, fico livre-docente, o que me dá o grau de doutor em Letras, e assim poderei um dia ensinar Literatura na Universidade" (o que de fato aconteceu anos mais tarde).

Para a tese resolvi pedir sugestões a Mário. Ele me escreveu então uma carta sugerindo vários temas, visivelmente de cunho acadêmico, tendo em vista a situação convencional. Acabei não aceitando nenhum, mas o interessante foram certas opiniões dele na ocasião.

O diretor da Faculdade (então de Filosofia, Ciências e Letras) era um biólogo eminente e muito culto, André Dreyfus, que insistiu com Mário para concorrer, mas ele não aceitou a sugestão. Pediu então que ao menos fizesse parte da banca, e ele recusou também isso. A mim, disse que detestava concursos, não acreditava na sua eficiência como critério de seleção e se tivesse aceitado seria para me dar o primeiro lugar (éramos seis concorrentes). Eu estranhei esta falta de objetividade e ele voltou ao argumento, dando um exemplo: só aceitara participar da banca de um concurso de História da Música, no Rio, porque decidira previamente votar num dos concorrentes, Luís Heitor Correia de Azevedo, por saber que era o melhor, independente de provas. E reiterou que achava detestável a situação de concurso e seu ritual. Eu disse que gostava, achava bonito. Ele comentou rindo: "Ô mineiro arrivista!" Afinal não chegou a ver o concurso, que começou cinco meses depois de sua morte.

Mário costumava ir à Livraria Jaraguá, na Rua Marconi, no mesmo lugar onde houve depois outra com o mesmo nome, mas esta não tinha nada a ver com a primeira, que era encantadora, com uma sala de chá no fundo. Mário saía do Patrimônio Histórico, quase em frente, e ficava lá batendo um papo. Para explicar a cena engraçada de que participou um dia na Jaraguá, abro parêntese.

Uma vez fiz uma brincadeira literária. Tendo dedicado um rodapé a certa tradução de Maiakovski para o espanhol, publicada em Buenos Aires, pouco depois escrevi em Clima, com pseudônimo de Fabrício Antunes, um artigo contra o meu, dizendo que o sr. Antonio Candido não tinha entendido nada. É que, comparando a tradução de um poema que em espanhol era "La nube en pantalones" com a francesa, intitulada "L'homme nuage" (O homem nuvem), dei um palpite: a tônica na tradução espanhola parecia ser a nuvem, vestida de calças, quando na verdade se tratava de homem se sentindo nuvem. A tônica se deslocava, portanto, do natural para o humano. Era um jogo mental para me divertir, mas então aconteceu o inesperado: uma senhora russa me telefonou entusiasmada, dizendo que Fabrício Antunes obviamente sabia russo e tinha razão, e me pedia para apresentá-la a ele. Eu lhe disse que se tratava de um rapaz muito esquisito do Sul de Minas, caixeiro viajante que passava raramente em são Paulo, de modo que talvez custasse a voltar, mas quando viesse eu certamente os aproximaria. Meus amigos da revista sabiam de tudo, é claro, e Gilda contou o caso a Mário, que se divertiu muito.

Ora, uma tarde estávamos na Livraria Jaraguá ele e eu quando entra Lívio Xavier, intelectual de grande saber, e me pergunta quem era esse Fabrício Antunes que certamente sabia bem russo. Repeti a história do rapaz sul-mineiro e Mário, da cadeira onde estava, vendo o desenrolar da conversa, tentou segurar o riso, mas não conseguiu. Felizmente, Lívio não percebeu.

Em 1944 veio a São Paulo um argentino chamado Luís Riessig, que fundara em Buenos Aires uma instituição interessante, o Colégio Livre de Estudos Superiores. Ele escreveu a Mário dizendo que gostaria de conversar sobre a possibilidade de fundar um igual aqui. Mário me pediu para participar da conversa e marcou encontro às duas da tarde em frente ao Mappin, na Praça Ramos de Azevedo. Cheguei pontualmente, antes do argentino, e vi que Mário estava aborrecido, por um motivo que logo explicou mais ou menos assim: "Agora no almoço, em casa, houve uma cena desagradável. De vez em quando, para brincar, eu espicaço minha mãe contra minha tia. Minha mãe fica irritada, briga com minha tia, eu aí entro no meio, fico do lado desta e sou bruto com minha mãe. Foi o que aconteceu hoje. Não sei por que faço isso. Complexo de Édipo não é, porque já me auto-analisei..."

Em janeiro de 1945 houve em São Paulo o I Congresso Brasileiro de Escritores, verdadeira arregimentação dos intelectuais contra a ditadura. Foi um acontecimento memorável, com delegações maiores ou menores de todos os estados. Mário estava na Paulista, com Oswald, Sérgio Milliet, Monteiro Lobato, Fernando de Azevedo e outros, num total de 26, dos quais eu era o caçula. Mário foi assíduo, vestido sempre de branco no calorão que fazia, mas calado, sem participar dos debates nem das comissões.

Durante o Congresso houve um grande jantar na casa de Lasar Segall. Eu não fui, mas Paulo Mendes de Almeida foi e me contou uma cena divertidíssima. Estava lá um jovem escritor hispano-americano que se pôs a dizer coisas de um complicado pedantismo sobre a poesia a partir de Rimbaud, segundo ele o poeta supremo. Paulo, para o descartar, disse que quem entendia de Rimbaud era Rubens Borba de Moraes, a quem o rapaz se dirigiu com a mesma parolagem abstrusa. Rubens, por sua vez, tirou o corpo dizendo que cuidara de poesia na mocidade, mas agora era apenas bibliotecário, e passou a bola adiante, dizendo que bom conhecedor de Rimbaud era Mário de Andrade, ali presente. O rapaz delirou, bradando: "Mário de Andrade, el grande Mário de Andrade está acá? Quiero conocerlo, quiero conocerlo!" "É aquele ali", disse Rubens mostrando. O rapaz se precipitou excitadíssimo, repicando o estranho jargão, que Paulo Mendes reproduzia na chave do bestialógico. Mário, já meio no pileque, exclamou: "Quanta besteira! Olhe aqui moço, poesia é safadeza! A gente quer pegar uma mulher, não pode, aí faz um poema. E comigo é na piririca!" Atarantado, o rapaz perguntava ansioso para os lados: "Que es esto de piririca? Que es esto de piririca?"

Nesse Congresso Paulo Emilio e eu provocamos involuntariamente duas explosões de Mário. A primeira foi devida ao seguinte: Paulo alertou a mim e a outros que determinado intelectual, não sendo eleito por São Paulo, fora incluído meio de contrabando na delegação de outro estado, o que era irregular e nos contrariava politicamente. Redigiu-se então um protesto e fomos pedir a adesão de Mário, que ficou danado e recusou. Nós procuramos argumentar que era algo politicamente importante, aí ele estourou, dizendo que por isso é que não queria saber de política, que era uma indignidade e não assinava mesmo. Tremendo de raiva, foi se juntar a um grupo próximo formado por Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e, se não me engano, José Lins do Rego. Trinta e sete anos depois, em 1982, pouco antes e morrer, Sérgio Buarque me disse, como quem quer tirar um peso da consciência, que precisava confessar uma coisa: certa vez tinha me censurado com Caio Prado Júnior e Mário de Andrade. Percebendo do que se tratava, não o deixei explicar, dizendo: "Eu sei. Foi no I Congresso de Escritores e vocês tinham toda a razão". De fato, nós estávamos agindo mal por birras políticas.

A segunda explosão foi no encerramento do Congresso, no Teatro Municipal, onde Oswald fez um discurso notável, no qual lançou a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República. As oposições achavam que era cedo, o Partido Comunista não queria precipitação, mas nós socialistas independentes e também muitos liberais aplaudimos, porque era uma boa pancada na ditadura em declínio. Além disso, Oswald fez troças divertidas com a alta sociedade de São Paulo, provocando protestos violentos. Todo o mundo acabou berrando e lembro de um senhor agranfinado perto de mim que enfrentou as vaias (inclusive minhas) com muita coragem, parecendo pronto para dar bengaladas. Na saída, em frente do teatro, Paulo Emílio e eu fomos falar com Mário e gabamos o discurso de Oswald. Ingenuidade nossa. Ele perdeu a calma e falou exasperado que não reconhecia a Oswald autoridade moral para falar mal da sociedade paulistana. Nós ficamos passados e fomos tratando de dar o fora.

Isso foi no fim de janeiro de 1945. No dia 17 de fevereiro Gilda e eu recebemos um telegrama de Mário (não tínhamos telefone, coisa dificílima naquele tempo), convidando para irmos no dia 20 conhecer Henriqueta Lisboa, que viria a São Paulo e estaria presente na festinha de aniversário da sobrinha dele, em sua casa. Fomos, e em dado momento eu estava conversando com ele e seu irmão mais velho, Carlos de Moraes Andrade. Naturalmente ele tinha ficado constrangido por ter tido aquele rompante na porta do Municipal e perguntou risonho se eu o tinha levado a sério, alegando que era simples brincadeira. Eu fingi que acreditei e ele passou a manifestar muita amargura, dizendo já estar cansado de sofrer injustiças e ser atacado. Eu observei que não tinha razão, porque poucas pessoas eram mais estimadas e admiradas. "Eu é que sei", disse ele bastante amargurado, e seu irmão o apoiou citando um dito popular: "Pimenta não arde no olho do vizinho." Mário prosseguiu na mesma craveira, dizendo-se convencido de que o intelectual não devia se meter em política, que o recente Congresso lhe tinha ensinado isto e que a partir daquele momento se fecharia na torre de marfim. O que tivesse de dizer como cidadão diria da torre de marfim, não dentro de algum partido ou movimento.

Isso foi no dia 20 de fevereiro. No dia 25, morreu. Luís Martins foi nos avisar no começo da noite e Gilda e eu fomos para o velório. No dia seguinte vi uma cena impressionante: os Irmãos do Carmo, que ele fora e talvez nunca tenha deixado formalmente de ser, vieram rezar alinhados dos lados do caixão. Eram uns oito com o hábito, batina marrom e um manto comprido de lã creme.

Durante o velório, Edgard Cavalheiro, escritor bastante em voga naquele momento, autor de biografias de Fagundes Varela e de Monteiro Lobato, me perguntou, no jardinzinho que havia na frente da casa: "Para encontrar na literatura brasileira uma morte desta importância é preciso voltar até quando?" Respondi: "Até a de Machado de Assis." "Pois é exatamente o que estou pensando", disse ele. "Machado de Assis em 1908 e Mário de Andrade agora". O enterro foi no Cemitério da Consolação, muito concorrido, e impressionava a tristeza profunda de todos, como se todos sentissem uma espécie de enorme vazio na cultura do Brasil.

Uns dias depois fui ao escritório do Serviço do Patrimônio Histórico Nacional e Luís Saia, delegado deste em São Paulo, me disse com os olhos espantados: "Tem um envelope com o seu nome na mesa do Mário". Depois da morte de um amigo, coisas desse tipo parecem mensagem, e, meio perturbados, fomos abri-lo. Lá estava, com a letra de Mário no envelope grande: "Para o Antonio Candido". Eram alguns poemas de Lira Paulistana, inclusive a versão final de "Meditação sobre o Tietê", datada de poucos dias antes.

Naquele ano de 1945 preparei a primeira edição de Lira Paulistana e do Carro da miséria, pois Mário queria que saíssem em tiragem independente, antes de serem incorporadas às Obras completas que o editor José de Barros Martins estava publicando. Editei-os com um título que contrariou Oneida Alvarenga e Luís Saia, conhecedores mais seguros das intenções do amigo: Lira Paulistana seguida de O carro da miséria. Segundo eles, deveria ser: Lira Paulistana e O carro da miséria. Preparei também a edição de Contos novos, que só saiu em 1947, salvo engano. A Nota do Editor, anônima, foi escrita por mim.

Não lembro em que altura (fim de 1945, começo de 1946?) foi inaugurado o busto dele por Bruno Giorgi no jardim da Biblioteca Municipal, onde está até hoje. Na inauguração falaram Sérgio Milliet, diretor da Biblioteca, e Carlos de Moraes Andrade em nome da família. Oswald compareceu emocionado e discreto. (Não tem qualquer fundamento o boato segundo o qual teria escrito palavras desagradáveis no pedestal.)

Decidiu-se então promover a leitura pública de "Café", ainda inédito, e eu achei que a pessoa indicada era Carlos Lacerda, que fora muito amigo de Mário, tinha uma bela voz abaritonada e viera para a inauguração do busto. Falei com ele e ele aceitou, mas foi precipitação minha, porque Oneida Alvarenga e Luís Saia, discípulos queridos muito chegados a Mário, vetaram, alegando que este desaprovaria totalmente as atitudes políticas que Carlos vinha assumindo, que aliás eu também reprovava. Muito sem graça, tive de lhe dizer que era melhor eu próprio ler. "Já percebi", disse magoado. "É coisa da Oneida e do Saia". Assim, em vez da bela voz de Carlos, "Café" foi comunicado ao público na minha, fraca e abafada.

Mário de Andrade era um homenzarrão feio e simpático, muito cordial, com um riso bom que quando virava gargalhada sacudia o seu corpo inteiro. Era certamente um feio charmoso que despertou várias paixões. Vestia-se bem, usava uns chapéus de aba meio larga enterrados na cabeça e calçava sapatos sob medida da Sapataria Guarani, a mais cara de São Paulo, sempre no modelo escocês furadinho de bico afinado. Os pés e as mãos eram enormes e ele me parecia ter pouca naturalidade, mas com os íntimos devia ser diferente.

Um dos seus hábitos mais constantes era ir, geralmente à noite, tomar chope no Bar Franciscano, que ficava na Rua Líbero Badaró perto de uma esquina da Avenida São João, com fundo envidraçado sobre o Vale do Anhangabaú. Sentava numa mesa redonda de canto, perto do balcão, e ia consumindo sucessivas "pedras", que são canecas grandes de louça clara. Os amigos sabiam que podiam encontrá-lo no Franciscano e ele costumava marcar encontros lá, por vezes à tarde. Foi de tarde que me convocou uma vez para conhecer João Alphonsus, que estava de passagem e me pareceu de pouca fala. Outra tarde de 1942 fui conhecer Fernando Sabino, que ainda não tinha vinte anos e já publicara um livro de contos: Os grilos não cantam mais. Ele e Mário admiravam os romances de Otávio de Faria, de certo porque estes abordavam problemas da adolescência católica que lembravam os deles. Eu os achava ruins e nesse encontro Fernando os defendia enquanto eu os atacava. Ele quis conhecer as minhas razões e eu disse que eram várias, inclusive o fato de Otávio escrever prolixamente mal e os seus romances não questionarem a ordem burguesa, concluindo: "Eles não tiram o sono de Roberto Simonsen" ― figura de proa da alta burguesia industrial de São Paulo. O meu sectarismo elementar era devido ao período de militância bastante radical que eu estava vivendo. Mário escutava, risonho.

Em 1943 Jorge Amado publicou Terras do Sem Fim, que foi uma inflexão na sua obra, por ser menos panfletário e mais compreensivo, inclusive humanizando representantes da oligarquia agrária. Gostei muito e escrevi um artigo favorável, levando-o como de costume para Gilda bater à máquina. Vendo do que se tratava, Mário me disse: "Quero ver se você percebeu uma coisa em Terras do Sem Fim", mas apesar da minha curiosidade, não explicou o que era. Mais tarde refiz a pergunta e ele disse com certa ironia: "Este livro não tira o sono de Roberto Simonsen..."

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no livro Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cincoenta.



Antonio Candido
São Paulo, 24/3/2008
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=246
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