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quinta-feira, 9 de março de 2017

A Greve de Mulheres e a “Novíssima Esquerda” - por Carlos A. Lungarzo


A Greve de Mulheres e a “Novíssima Esquerda”
 

Carlos A. Lungarzo
 
Neste momento, mais de 60 países são testemunhas de um dos maiores movimentos internacionais de todos os tempos: a greve das mulheres. Após 200 mil anos de existência da atual espécie humana, e de mais ou menos 7.000 a 9.000 anos de sociedade patriarcal, o mundo vai descobrir que a metade da espécie humana está privada de direitos.
Este é um fenômeno que pode marcar o renascimento da Nova Esquerda dos anos 60, quando os grupos sociais entenderam que o ansiado mundo futuro (seja socialista, comunista anarquista ou, simplesmente, o mundo natural) deve acolher todos os excluídos: pobres, doentes, refugiados, estrangeiros, crianças, minorias religiosas, alternativos sexuais, mulheres, e quaisquer outros que possam aparecer.
O meio século que nos separa da década de 60 viu surgir a ultradireita e o moderno fascismo de mercado, o que enfraqueceu à velha Nova Esquerda. Mas os fatos mais recentes tem mostrado o capitalismo neoliberal como um novo nazismo que deve ser encarado pela humanidade ainda civilizada.
O dia é especialmente importante para o Brasil, um país que hoje se destaca pela mais vigorosa e violenta repressão de todos os direitos humanos, a avidez de pilhagem de suas castas superiores, e pelos claros sintomas de estado delinquencial.
Apesar de seu tamanho, o Brasil é um dos países que carece de uma esquerda, que se interesse menos pelo petróleo e mais pelas vidas humanas, sejam femininas ou masculinas.
Esquerda e Igualdade
A palavra “esquerda” foi criada em 1799 dentro da burguesia republicana da Revolução Francesa. Porém, esse conceito era relativo, e se confundia às vezes com o terrorismo do Estado e o populismo violento.
Os republicanos franceses eram nacionalistas, militaristas, escravocratas e misóginos, como mostra a execução da feminista Olympe de Gouges (1748-1793) por pretender estender a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a uma declaração mais ampla que incluísse as mulheres e os escravos.
Incluso um dos mais notórios membros do Iluminismo, Jean Jacques Rousseau, célebre defensor da política contratual, foi considerado por alguns historiadores do século XX um antecipador soft do que seria o Fascismo.
A ideia de igualdade da Revolução Francesa era apenas a igualdade dos novos ricos e pequenos burgueses com os antigos aristocratas e os clérigos, mas não incluía os populares.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Convite - III Seminário Internacional Margem Esqueda - BOITEMPO EDITORIAL (clique na imagem para ler)


Caros,

A Boitempo Editorial tem o prazer de convidar a todos para o III Seminário Internacional Margem Esqueda, que acontecerá de 18 a 28 de agosto. Confira a programação completa. Mais informações pelo email :
seminariomeszaros@boitempoeditorial.com.br
USP
DIA 18, TERÇA
14h
O poder da ideologia: Miguel Vedda, Virginia Fontes, Osvaldo Coggiola e Wolfgang Leo Maar
19h
Trabalho e alienação: Ricardo Antunes, Ruy Braga, Jesus Ranieri e Giovanni Alves

DIA 19, QUARTA
14h
Marx, Lukács e os intelectuais revolucionários: Emir Sader, Antonino Infranca, Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto
19h
Para além do capital -a crise estrutural do capital: François Chesnais, Jorge Beinstein, Leda Paulani e Edmilson Costa

DIA 20, QUINTA
14h
Para além do capital - lógica destrutiva e questão ambiental: Brett Clark, Carlos Walter Porto-Gonçalves, Mohamed Habbib e Plínio de Arruda Sampaio
19h
Educação e socialismo: Roberto Leher, Afranio Mendes Catani e Isabel Rauber

DIA 21, SEXTA
14h
Marxismo, lutas sociais e revolução na América Latina: Francisco de Oliveira, Maria Orlanda Pinassi, Gilmar Mauro e Lucio Flávio de Almeida
19h
A necessária reconstituição da dialética histórica: István Mészáros
Encerramento: solo de Bach em viola por Susie Mészáros


UNESP-Araraquara
DIA 24, SEGUNDA
14h
A crise estrutural do capital: Gilmar Mauro, Maria Orlanda Pinassi e Aldo Casas.

UNICAMP
DIA 25, TERÇA
A crise estrutural do capital: Ricardo Antunes, Álvaro Bianchi, Aldo Casas, Caio Toledo e Plínio de Arruda Sampaio Jr.

UERJ
DIA 25, TERÇA
A necessária reconstituição da
dialética histórica: István Mészáros; comentários de Emir Sader e Gaudêncio Frigotto

CUFSA - Fundação Santo André
DIA 26, QUARTA
19h30
Crise do capital e perspectivas do trabalho: Antonio Rago Filho, Livia Cotrim, Miguel Vedda e Everaldo de Oliveira Andrade

UFRJ
DIA 26, QUARTA
17h30
Perspectiva do socialismo hoje: José Paulo Netto, Carlos Nelson Coutinho e Jorge Giordani
19h40
Música: solo de Bach em viola por Susie Mészáros
20h
A necessária reconstituição da dialética histórica: István Mészáros

UFRGS
DIA 27, QUINTA
19h
A necessária reconstituição da dialética histórica: István Mészáros; comentários de Jorge Giordani e Paulo Vizentini
DIA 28, SEXTA
15h
Para além do capital e a crise mundial: Jorge Giordani, Carla Ferreira e André Cunha
19h
Para além do capital, imperialsmo e Estados periféricos: Luiz Dario Ribeiro, Mathias Luce e Cesar Augusto Barcellos.

CEFET-BH
DIA 27, QUINTA
19h
Para além do capital: crise do capital e perspectivas do trabalho: Nicolas Tertulian, Ester Vaissman, Ana Lucia Barbosa Faria e Rodrigo Dantas

Boitempo Editorial
Débora Prado
Assessoria de Imprensa
+ 55 11 2305 1641
+ 55 11 8382 4978
imprensa@boitempoeditorial.com.br
www.boitempoeditorial.com.br


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Jacob Gorender - UM DOS MAIS IMPORTANTES HISTORIADORES MARXISTAS BRASILEIROS

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Jacob Gorender (Salvador, 20 de janeiro de 1923) é um dos mais importantes historiadores marxistas brasileiros. Jovem, lutou na II Guerra Mundial, na Itália, como integrante da Força Expedicionária Brasileira.

Foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual saiu nos anos 60, para participar da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Foi preso e torturado, quando da ditadura militar.

Entre seus trabalhos se destacam A burguesia brasileira, de 1981,e Combates nas trevas, de 1987. Sua principal obra foi a tese "O Escravismo Colonial", de 1978, de caráter revolucionário, na medida em que supera o debate sobre o caráter do passado do Brasil - feudalismo e capitalismo. Naquela obra, apresenta teoria para a compreensão da história colonial e imperial brasileira baseado na apresentação de modo de produção historicamente novo, a saber, o escravismo colonial.

Artigos e Ensaios

* 1958 “Correntes sociológicas no Brasil”. ESTUDOS SOCIAIS, n.º 3-4, Rio de Janeiro, set./dez. de 1958, pp. 335-352;
* 1958 “Política exterior em crise”. ESTUDOS SOCIAIS, Rio de Janeiro, 1958, nº 2, pp. 129-36;
* 1958 “Revista Brasiliense. ESTUDOS SOCIAIS, Rio de Janeiro, maio/junho de 1958, nº 1, pp. 125-7;
* 1959 “A espoliação do povo brasileiro pela finança internacional”. ESTUDOS SOCIAIS, nº 6, Rio de Janeiro, maio/setembro de 1959, pp. 131-48;
* 1960 “A questão Hegel”. ESTUDOS SOCIAIS, Rio de Janeiro, nº 8, julho. de 1960, pp. 436-58;
* 1960 “O V Congresso dos comunistas brasileiros”. ESTUDOS SOCIAIS, n. 9, Rio de Janeiro, outubro de 1960, pp. 3-11;
* 1960 “Perspective de l’homme/Roger Garaudy”. ESTUDOS SOCIAIS, Rio de Janeiro, nº 9, outubro de 1960, pp.113-16.
* 1963 “Direções da luta pela democracia em nosso tempo”. ESTUDOS SOCIAIS, Rio de Janeiro, nº 18, novembro de 1963, pp. 189-93.
* 1980 O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica. In: Lapa, J.R. do Amaral (org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis, Vozes, 1980.
* 1982 Introdução. In: Marx, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo, Abril Cultural, 1982. Coleção Os Economistas.
* 1983 Apresentação. In: Marx, Karl. O capital. vol. 1. São Paulo, Abril Cultural, 1983. Coleção Os Economistas.
* 1983 Questionamentos sobre a teoria econômica do escravismo colonial. Estudos Econômicos. São Paulo, IPE-USP, 1983. 1(13).
* 1984 Nota sobre uma questão de ética intelectual. Estudos Econômicos. São Paulo, IPE-USP, 1984. 2 (14).
* 1986 A participação do Brasil na II Guerra Mundial e suas conseqüências. SZMRECSANYI, T. & GRANZIERA, R.B. [Org.] Getúlio Vargas e a economia contemporânea. Campinas: UNICAMP, 1986.(...)

LEIA MAIS EM : http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacob_Gorender

terça-feira, 23 de junho de 2009

FAVELAS - BRASIL

e agora querem enfeitar as favelas, afinal porque terminaram com o BNH? foram os militares, lembram?
e a esquerda dizia que controle de natalidade era um absurdo - no Pasquim muito se discutiu sobre isso...
Todo o mal foi abandonar a educação neste país.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma entrevista com Lévi-Strauss (AMIGA REGINA ENVIA)

Aqui deixo uma entrevista com o famoso antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss, a propósito da sua obra mais famosa - Tristes Trópicos. A entrevista foi publicada num jornal brasileiro, a Folha de S.Paulo, a propósito da visita de um outro famoso antropólogo norte-americano, Clifford Geertz (que faz uma série de comentários críticos aos argumentos etnográficos de Tristes Trópicos). Tudo pode ser visto num blog brasileiro que vos aconselho a visitar.

O REMORSO DA FICÇÃO
Lévi-Strauss diz que se sentiu culpado ao escrever "Tristes Trópicos" por estar cedendo a um desejo nunca realizado de fazer uma obra literária. A entrevista de Claude Lévi-Strauss, concedida a Boris Wiseman, ocorreu em Paris em 28 de novembro de 2003, dia do 95º aniversário do antropólogo. Ela foi feita em seu apartamento no 16º distrito em Paris. Lévi-Strauss recebeu o pesquisador de sua obra, professor da Universidade de Durham (Inglaterra), em um escritório onde havia diversos objetos de arte "primitiva" - segundo ele, as "migalhas" de uma coleção que já foi muito mais importante. A entrevista, de que a Folha publica trechos a seguir, saiu na edição de agosto/setembro/outubro de 2004 da revista "Les Temps Modernes".
Pergunta - Em que estado de espírito o sr. se encontrava quando escreveu "Tristes Trópicos"?
Claude Lévi-Strauss - Escrevi esse livro em uma espécie de raiva e de impaciência. Eu também sentia um certo remorso. Achava que teria feito melhor se escrevesse outra coisa.
Pergunta - O quê?
Lévi-Strauss - Depois de ter tratado das estruturas elementares do parentesco, eu deveria ter passado às estruturas complexas.
Pergunta - Mas o senhor lamenta ter escrito "Tristes Trópicos"?
Lévi-Strauss - Não, ainda mais porque na época teria sido impossível abordar as estruturas complexas; para isso haveria necessidade de computadores.
Pergunta - Por que o senhor decidiu escrever "Tristes Trópicos" no momento em que o fez, isto é, mais de 15 anos depois das experiências em campo de que trata o livro?
Lévi-Strauss - Jean Malaurie, que fundou a coleção "Terre Humaine" [Terra Humana], me fez o pedido, quando eu acabava de atravessar crises em minha vida pessoal e profissional. Isso me faria mudar de ares.
Pergunta - Essa reação corresponde a motivos externos, quase acidentais. O senhor sentia uma necessidade ou um desejo mais interior, mais pessoal, de escrever esse livro?
Lévi-Strauss - Certamente havia motivos mais profundos, mas, à época, não-conscientes. No que diz respeito à necessidade, não, porque eu me sentia culpado por escrever esse livro enquanto deveria fazer ciência. Eu o escrevi tão depressa, em quatro ou cinco meses, que nem sequer verifiquei a ortografia das palavras em português. A primeira edição, nesse sentido, é detestável.
Pergunta - O senhor poderia falar um pouco mais sobre o que eram esses motivos "não-conscientes"? O senhor disse que escreveu "Tristes Trópicos" em parte em um estado de raiva. Raiva de quê?
Lévi-Strauss - De mim mesmo, pelo motivo que acabo de lhe dizer. Mas ao mesmo tempo, sem perceber direito, eu cedia a um desejo nunca realizado de fazer uma obra literária.
Pergunta - Em uma das cartas que enviou ao escritor brasileiro Mário de Andrade [de 15/1/36], o sr. diz o quanto admira os cadiueus. O que admirou mais particularmente?
Lévi Strauss - A cerâmica e as pinturas corporais. Eles eram grandes artistas.
Pergunta - O sr. também admirava seu modo de vida?
Lévi-Strauss - De modo nenhum. Eles viviam como agricultores brasileiros miseráveis.
Pergunta - O sr. teve com os cadiueus o mesmo tipo de relação que com os bororos e os nambiquaras?
Lévi-Strauss - Não. Os cadiueus eram muito desconfiados, temiam os avanços em seu território. Os bororos demonstravam uma certa altivez e tinham grande orgulho de suas instituições. Eles também se mantinham reservados. Por outro lado, com os nambiquaras, apesar de sua reputação de violência, foi completamente diferente. Havia uma simpatia recíproca entre nós. Eram pessoas extremamente cativantes.
Pergunta - O sr. lhes falou sobre a França?
Lévi-Strauss - Muito pouco. Os meios de comunicação eram muito limitados.
Pergunta - O sr. se identificou com os índios que estudou?
Lévi-Strauss - De modo nenhum!
Pergunta - Do ponto de vista metodológico, é importante que o etnólogo evite a identificação?
Lévi-Strauss - Depende. Alguns etnólogos escreveram coisas muito boas ao se identificarem.
Pergunta - Por que o sr. não voltou ao campo?
Lévi-Strauss - Em primeiro lugar, não pude, porque houve a guerra. Mas fui obrigado a fazer trabalhos de gabinete. Eu gosto desse gênero de vida, mas não das rotinas da pesquisa. Falta-me paciência.
Pergunta - Mas é necessário fazer pesquisa em campo pelo menos uma vez para se tornar etnólogo?
Lévi-Strauss - Sem dúvida.
Pergunta - Por quê?
Lévi-Strauss - Para saber utilizar melhor os trabalhos que outros trazem de seu campo.
Pergunta - A experiência entre os nambiquaras foi determinante para o etnólogo que se tornaria?
Lévi-Strauss - Não quero dar a impressão de dar importância demais ao meu trabalho de campo. Fiz mais do que pretendem certos críticos, mas serei o primeiro a reconhecer que no total continua sendo uma proporção muito modesta. A experiência com os nambiquaras foi em certo sentido decepcionante e, em outro, muito lucrativa. Ela foi decepcionante porque eu vinha dos bororos, que têm uma cultura de uma riqueza e complexidade notáveis, e lá me encontrei entre pessoas extraordinariamente desprovidas e, na verdade, praticamente inatingíveis. Como eles levavam uma vida seminômade, nunca estavam lá quando devíamos encontrá-los. Do ponto de vista da antropologia clássica, eu diria que não valeu a pena. Sob um outro ângulo, valeu enormemente, porque foi, digamos, o trabalho de campo levado a seu limite negativo. Era preciso tentar fazer alguma coisa com pouco material, levando-se em conta as dificuldades da pesquisa nessa época. Fazemos melhor desde então.
Pergunta - Essa experiência de limite lhe permitiu perceber coisas que não teria visto de outro modo?
Lévi-Strauss - Eu não diria nada parecido. Aquilo me permitiu medir, a grosso modo, o leque do trabalho em campo, desde suas formas mais ricas até suas formas ingratas.
Pergunta - O sr. explicou em uma entrevista que, na época em que escreveu "Tristes Trópicos", havia começado a escrever um romance, que depois abandonou.
Lévi-Strauss - Não nessa época. Eu havia começado o romance ao voltar do Brasil, isto é, nos poucos meses que se passaram entre minha volta a Paris e a guerra de 39. Foi nesse momento que eu havia começado e depois abandonei o romance. "Tristes Trópicos" veio 15 anos depois.
Pergunta - Qual foi o lugar desse romance não escrito ao mesmo tempo na confecção de "Tristes Trópicos" e na seqüência de sua obra? Ele teve um papel importante?
Lévi-Strauss - Ele teve um papel, de um lado porque um dos títulos possíveis do romance era "Tristes Trópicos" e, de outro, porque as páginas que formavam o início do romance se encontraram em "Tristes Trópicos": descrição de um pôr-do-sol que eu tinha visto, mas a bordo do navio que me levou pela primeira vez ao Brasil. Ao retomá-la em "Tristes Trópicos", devolvi essa descrição a sua verdadeira origem.
Pergunta - O senhor faz novamente referência a essa descrição de pôr-do-sol no "Final" de "O Homem Nu", ou seja, 15 anos depois da publicação de "Tristes Trópicos". Por quê?
Lévi-Strauss - Pareceu-me que havia aí uma espécie de constante ou de invariável em meu pensamento que fazia com que, depois de ter adotado um pôr-do-sol como o próprio modelo dos problemas etnológicos que eu deveria resolver mais tarde, ao terminar o mais complexo desses problemas, isto é, os quatro volumes das "Mitológicas", eu os revia sob a forma de um pôr-do-sol.
Pergunta - Em que um pôr-do-sol fornece o "modelo" dos problemas etnológicos que o sr. estudou?
Lévi-Strauss - Estamos diante de uma realidade extraordinariamente complexa, cujo desenrolar é imprevisível e que devemos, de todo modo, tentar descrever com precisão. E no final, uma vez encontrada uma organização, ou pelo menos tendo imaginado que poderia encontrá-la, eu a via inevitavelmente terminar como o espetáculo do sol poente.
Pergunta - De alguma maneira os mitos, ao se transformarem, seguem um caminho que parece um pôr-do-sol. Poderíamos dizer isso?
Lévi-Strauss - No sentido de que, quanto mais descobrimos conexões, menos obtemos informações.
Pergunta - No "Final" de "O Homem Nu", o senhor explica que, embora cheio de sentidos, visto do exterior o sentido dos mitos se anula. O que explica essa relação, aparentemente paradoxal, entre os mitos e o sentido?
Lévi-Strauss - O pensamento mítico pretende tudo compreender e tudo explicar. Para nós, trata-se de compreender que ele pode ser ao mesmo tempo um imenso fracasso enquanto manifesta, como diz Comte a seu respeito sob o nome de fetichismo, "o estado plenamente normal de nossa inteligência".
Pergunta - Alguns escritores que relataram uma experiência traumática, como o Holocausto, às vezes se sentiram culpados de traírem, nos escritos, o que havia sido a experiência real. O sr. tem um sentimento semelhante?
Lévi-Strauss - Não é uma coisa tão profunda, é sobretudo o sentimento de que os meios de que dispomos, como observador e como escritor, nunca estão na medida do que vemos e do que tentamos descrever. Há uma distância que deve inevitavelmente persistir.
Pergunta - O sr. é tratado hoje como um clássico, e não é raro que o classifiquem entre os maiores pensadores de nosso tempo. O que acha disso?
Lévi-Strauss - Isso me comove, mas ao mesmo tempo me incomoda e me irrita.
Pergunta - Por quê?
Lévi-Strauss - Acredito que não seja verdade. Sinto-me pequeno ao lado de meus grandes antecessores.
Pergunta - Parece-me que o sr. nunca tentou realmente fazer escola ou exercer o papel de um líder "intelectual", à maneira de Sartre, por exemplo. Foi uma opção deliberada?
Lévi-Strauss - Não quis isso porque, confesso, não aprecio muito os contatos sociais. Meu primeiro movimento é fugir das pessoas e voltar para casa.
Pergunta - Às vezes lhe atribuem uma visão muito crítica da cultura a que o sr. pertence.
Lévi-Strauss - Sou profundamente ligado à cultura propriamente dita. Sinto-me o produto dela. É sobretudo a sociedade que me repele.
Pergunta - O que em particular?
Lévi-Strauss - São mil coisas. Mas parece-me que elas se reduzem a uma só: quando nasci, havia 1 bilhão de homens na Terra e, quando entrei na vida ativa, após a formatura, havia 1 bilhão e meio. E hoje são 6 bilhões e serão 8 ou 9 bilhões amanhã. Esse mundo não é mais o meu.
Pergunta - Que olhar o sr. tem sobre a vida cotidiana da Paris do século 21?
Lévi-Strauss - É tão fácil para um velho dizer que tudo era melhor quando era jovem que deveria ser proibido responder a perguntas desse tipo. Mas, enfim, se você quer que eu me manifeste, eu diria que, fora os progressos da medicina, que são incontestáveis e muito vantajosos para todos nós, sob todos os outros aspectos, para alguém do meu meio social e intelectual, a vida oferecia mais prazeres.
Pergunta - Como o sr. vê a situação atual da antropologia?
Lévi-Strauss - Ainda há muito a fazer, pois restam no mundo muitas coisas que foram pouco ou mal estudadas. Mas, enfim, comparado com os dois últimos séculos, será apenas questão de juntar as migalhas.
Pergunta - O sr. acredita que a antropologia está destinada a um declínio inevitável?
Lévi-Strauss - É mais uma transformação. A tarefa da antropologia foi totalmente em razão de uma conjuntura histórica: o momento em que a cultura ocidental tomou consciência de que iria dominar a terra inteira. Era preciso, pois, se apressar para recolher todas as experiências humanas que não lhe deviam nada e cujo conhecimento é indispensável à idéia que podemos ter de uma humanidade não reduzida a uma reflexão pessoal ou mesmo à civilização ocidental propriamente dita. Penso que a antropologia cumpriu muito bem sua função durante, digamos, os dois últimos séculos, mas chegamos ao momento em que nenhuma das experiências humanas que será possível conhecer estará isenta da contaminação ocidental -e, portanto, essas experiências não podem mais nos instruir sobre o que íamos buscar antes.
Pergunta - Como o sr. vê a transformação da antropologia?
Lévi-Strauss - Vai surgir uma disciplina dedicada ao estudo dessas novas diferenças que serão criadas à direita e à esquerda, e está bem assim, mas não é mais meu problema. Aliás, a antropologia se transformará em filologia, em história das idéias, assim como o mundo antigo, a Grécia, Roma, a Índia védica desapareceram, mas deixaram trabalho a fazer, há séculos, e isso continuará durante séculos. A massa de materiais antropológicos que existem e nunca foram destrinchados ou publicados é imensa.
Pergunta - Em "Tristes Trópicos", o sr. evoca a possibilidade de uma tabela periódica das estruturas sociais existentes e possíveis. O que o sr. responde aos críticos que dizem que essa concepção do espírito retira do homem um de seus valores fundamentais -a liberdade?
Lévi-Strauss - É uma linguagem para mim tão opaca quanto uma língua desconhecida. Não sei o que isso quer dizer. Eu acabo de lhe dizer que, quando é preciso levar em conta o indivíduo, havia muitas abordagens que poderiam ser legítimas, mas não o estruturalismo. Porque o estruturalismo implica estarmos em condições de fazer a abstração do próprio indivíduo. Se você tem um microscópio com vários aumentos, e utilizar um aumento fraco, em uma gota de água verá pequenos animais que se alimentam, que copulam, que se afeiçoam, que se odeiam e para os quais a liberdade existe. Se você utilizar um aumento um pouco maior, não verá mais os animais em si, mas as moléculas que compõem seus corpos. O tema da liberdade perde então o sentido. Ele só é aplicável em outro nível da realidade.
Pergunta - Acredito que minha pergunta era: até que ponto os níveis estruturais determinam nossas experiências, nossas maneiras de perceber, tais como as vivemos no nível em que funcionamos como indivíduos, vivos e atuando no mundo.
Lévi-Strauss - Há tantos determinismos que funcionam em todos os níveis, em níveis ligados à biologia molecular, outros à fisiologia animal e outros ainda que não conheço, que o modo como todos esses fatores se imbricam é de uma complexidade enorme, que retira todo o sentido desse gênero de pergunta.
Pergunta - O sr. não escreve mais?
Lévi-Strauss - Não é tão simples. Ainda faço pequenas coisas. Mas não é uma questão de escrever ou não escrever, é uma questão de ter um pensamento que ainda seja fecundo ou que deixe de sê-lo.
Pergunta - A religião enquanto prática religiosa desapareceu?
Lévi-Strauss - Pelo menos na vida civil; é a maneira como a religião atesta sua realidade.
Pergunta - Creio que podemos parar aqui.
Lévi-Strauss - Eu gostaria disso. Começo a não encontrar mais palavras para lhe responder.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

FONTE: http://oficinadeetnografia.blogspot.com/2006/01/uma-entrevista-com-lvi-strauss.html.

sábado, 30 de maio de 2009

AUGUSTO BOAL E UMA LIÇÃO DE ARTE E POLÍTICA

Por Alexander Englander
5 de Novembro de 2007

Hoje tive o grande prazer de assistir a uma palestra de Augusto Boal e do rubro-negro e pentacampeão - como eu - Arthur Poerner no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O assunto da noite era “Arte engajada ou solidária limita a expressão artística?” e ambos os palestrantes levantaram questões muito instigantes sobre os CPCs e as importantes conquistas contemporâneas – sim, há arte além da pós-modernidade! Vou relatar somente um momento desse rico debate, justamente seu ato final, quando tomei coragem e perguntei ao Boal algo que me interpelo há algum tempo e serve tanto para a estética quanto para a política:
-Como chegar aos populares com uma proposta de arte que não seja impositiva, com excesso de valores da vanguarda de esquerda, constituindo uma arte que seja de fato uma livre expressão popular, mas também combativa, visto que criada por pessoas provenientes de classes e grupos sociais "oprimidos"?

Boal citou uma experiência sua na época dos CPCs - instituição considerada muito importante e celebrada por ele, mas que também, após uma autocrítica, revelou elementos autoritários e excesso de dirigismo imposto pela cúpula da UNE. No caso lembrado, no ruir da década de sessenta, Boal apresentava uma peça no nordeste brasileiro junto às Ligas Camponesas. Ele não lembrou o nome da montagem, mas retomou a repercussão de uma cena, que seria uns dos pretextos para futuras mudanças de concepções estético-políticas do Teatro do Oprimido em relação aos CPCs. Neste ato Boal e os demais atores seguravam imponentes fuzis coloridos convocando o público camponês à lutar. Ao fim da peça um camponês emocionado lhe perguntou:
-Vocês são sinceros né?
Boal respondeu sem pestanejar que “sim”. Ao que o camponês lhe faz um surpreendente convite:
-Então pega esses fuzis de vocês e vem nos ajudar porque o coronel invadiu as nossas terra!
Perplexo o então jovem teatrólogo busca uma modo resolver a situação do melhor modo possível:
-Mas isso é um mal entendido! Nossos fuzis não atiram!
-Como não atiram?? Mas fuzil que não atira há de servi para que?
Na palestra Boal pausa para reflexão - "naquela época (dos CPCs) a gente tinha uma questão com a mensagem, as vezes viam a peça, falavam que ela não estava tão boa..., mas aí perguntavam logo qual era a mensagem?! Se o conteúdo revolucionário fosse bom todo mundo ficava feliz!” - E retorna a sua estória:
-Nossos fuzis servem para estimular! Quando nós gritamos para o público "Vamos à luta!" nossa função é estimular a ação popular!
-Ahhh..., mas vocês são sinceros mesmo né?
-Sim, nós somos...
-Então vamos lá com a gente porque a gente tem fuzil para todo mundo!

Cada vez mais perplexo com a situação, Boal tem serenidade suficiente para manter sua sinceridade no momento em que todas as contradições entre a vanguarda socialista, branca, culta e de classe média urbana e os militantes camponeses, mulatos, negros e mamelucos, sem estudo, pobres posseiros em conflito pela posse da terra com violentos coronéis, vinham à tona em uma simples conversa, em que a até pouco tempo invisível fronteira entre arte e política aparecia agora de modo brusco e constrangedor para ambos os lados...
-Não, não, o senhor não está entendendo, nós somos artistas, não pegamos em armas...
O palestrante não contou se a conversa terminou por aí, disse apenas que o camponês seguiu com seus companheiros para o enfrentamento e que a comitiva de atores do Teatro de Arena embarcou em um avião e voltou para São Paulo.
De volta a 2007 e a palestra no IFCS Boal reflete: "era isso, nós instigávamos os outros a fazer o que nós não tínhamos coragem de fazer. Eu, o branco, o homem, o urbano ensinava ao negro, à mulher e ao camponês como se libertar de suas opressões..., realmente tinha um certo autoritarismo nestas práticas". Sem querem diminuir a grandeza de Boal e dos seus companheiros de Teatro de Arena, até hoje ainda parece haver uma certa dificuldade de assumir certas identidades que estavam esquecidas naquele especial momento de mobilização das esquerdas no Brasil, faltou lembrar que os atores eram também membros da classe média querendo levar consciência de classe revolucionária aos trabalhadores do campo.

Questões como as que surgiram neste caso levaram nosso teatrólogo a reformular alguns pressupostos colocados pelos CPCs e constituir uma nova política para sua arte. "No Teatro do Oprimido nós não incentivamos ninguém a fazer nada do que nós também não possamos fazer", disse o franco Boal. Hoje Teatro do Oprimido não quer somente fomentar a reflexão crítica nos públicos populares por onde se apresenta - escolas públicas do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense e também em diversos presídios -, a Cia. pretende que os próprios populares façam a sua arte. Não se trata mais de levar uma cultura que se quer revolucionária as classes e grupos sociais oprimidos e sim ensinar os meios para que estes expressem livremente a sua arte e a sua cultura, seja revolucionária ou não. O próprio desenvolvimento da sensibilidade estética cria um novo universo de percepções sociais que serão a chave para novas reivindicações e lutas políticas. A própria educação estética é uma política e o estímulo à criação de uma "arte popular" feita de fato pelo povo é a maior revolução que a vanguarda artística pode fazer.

Saí da palestra com olhos brilhando, cheio de ideias e questionamentos “mis”, além dos telefones de contato de Arthur Poerner e do Teatro do Oprimido. Quero convidá-los para palestra especificamente voltada ao movimento estudantil, junto com outro eminente frequentador da livraria-café do IFCS, Eduardo Coutinho. A geração de sessenta ainda tem muito a ensinar à nossa juventude. Olhando para a realidade contemporânea da UNE e da CONLUTE enxergamos o vazio da ausência de ações populares destas entidades. Só nos resta então confessar, humildemente, Eles são muito mais atuais do que nós!

Postado por Alexander Englander
FONTE : http://ventamente.blogspot.com/2007/11/augusto-boal-e-uma-lio-de-arte-e.html.
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