quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

NÃO HAVERÁ APURAÇÃO NEM DIREITO À VERDADE SEM A REVOGAÇÃO DA LEI DA ANISTIA (AMIGO PROF.CARLOS LUNGARZO ENVIA)

Punição dos mandantes, assassinos, torturadores e seus apoiadores!

Por Leandro Ventura, Rio de Janeiro


Poucos dias antes do Natal, Lula assinou decreto publicando as diretrizes do novo Plano Nacional de Direitos Humanos onde são feitas tímidas investidas contra o status quo de impunidade dos assassinos, torturadores e seus apoiadores, imperante desde o pacto de fim da ditadura. Entre as distintas propostas seria criada uma “Comissão de Verdade”, eleita pelo Congresso incluindo diversos membros das Forças Armadas para apurar os fatos e conforme suas disposições possivelmente dar nova interpretação a Lei de Anistia. Esta lei garantiu que torturadores fossem inocentados, que suas identidades fosse ocultada, garantiu-se que não fossem responsabilizadas as instituições para as quais torturavam, seqüestravam e matavam. Os torturadores não atuavam como “agentes-livres” mas como funcionários das Forças Armadas, da Polícia, da Justiça e sob sua hierarquia de mando. Este ocultamento também serviu para manter impunes os diversos outros órgãos do Estado que contribuíram a impor este estado de exceção, como prefeituras e outros órgãos que contribuíam para ocultar os cadáveres.
A mera constituição de uma comissão de apuração dos fatos, onde os militares teriam mesmo assim elevado peso, a simples ameaça de que talvez pudesse ser examinada em maior detalhe e minúcia os detalhes sórdidos e os nomes ainda presentes (ocultados) dos torturadores e seus apoiadores civis, levou todos os grandes meios de comunicação com destaque para O Globo e o Estado de São Paulo, a cúpula militar e o ministro da Defesa Jobim (que foi ministro do STF apontado por FHC) e ainda o DEM (antigo PFL, antiga ARENA, partido apoiador do regime militar) a declarar em alto e bom som sua oposição a todo e qualquer passo pelo direito à verdade e à memória e mais ainda contra qualquer possibilidade de punição. Isto tudo porque ainda dizem que a ditadura no Brasil foi branda, ou “Ditabranda” nos termos da Folha de São Paulo. Ora, se foi uma “ditabranda” por que o medo de apurar a verdade?
Os comandantes das três armas (Marinha, Aeronáutica e Exército) e o ministro Jobim teriam pedido demissão frente ao decreto presidencial e recuado de sua posição diante de um aceno de Lula que depois de suas férias revisará o decreto e termos serão alterados para não irritá-los. O desfecho caminha para alguma solução de compromisso que transformará estes tímidos passos contra os repressores e seus apoiadores em minúsculos passos que farão prevalecer a ordem imperante desde o final dos anos 70 e se constituirá como um arremedo de uma comissão de verdade, de fato contribuindo não para o conhecimento e denúncia mas para esconder a verdade.
Sem a mobilização da classe trabalhadora a partir de seus sindicatos e centrais sindicais, dos intelectuais e advogados defensores da classe trabalhadora e do povo, dos estudantes e diversas entidades de direitos humanos ficaremos novamente aquém da verdade, da memória e da punição dos torturadores e seus apoiadores e cúmplices. A impunidade destes últimos é funcional à manutenção de uma polícia impunemente assassina de trabalhadores e pobres, ao ocultamento de bilionários e políticos que fizeram fortuna apoiando o golpe (os mais notáveis seriam os Marinho da rede Globo, e os Martins e Setúbal que administram o Itaú e chegaram a ter um governador biônico – Egídio Martins - do estado de São Paulo e Olavo Setúbal como prefeito na capital do mesmo estado). Começar a desenvolver uma campanha como esta é uma urgência e esta deveria começar por denunciar os militares e seus arqui-defensores civis lotados em cada grande jornal burguês e donos das maiores empresas brasileiras e multinacionais presentes no país.


O passado pertence ao passado?
O DEM emitiu uma declaração no dia 31/12 onde entre outras afirmações diz claramente que “fatos do passado pertencem ao passado” e a “lei da anistia é irrevogável” e que revogar dita lei só interessaria a “setores minoritários insatisfeitos com a democracia plena em que vivemos”. Com esta posição a ARENA reformada em DEM mostra sua velha cara de inimiga de qualquer conhecimento sobre o passado pois são defensores incondicionais, junto do PMDB com o ministro da defesa Jobim à frente, da impunidade dos assassinos, torturadores e seus mandantes e cúmplices pois esta impunidade é a impunidade que garante que seu passado não seja revelado. Uma impunidade que evita a denúncia do acordo que assinaram junto à aprovação da anistia para que os Romeu Tumas e outros torturadores e assassinos pudessem “se reciclar” e participar da “democracia plena”. A mídia também se opõe pois o conhecimento da verdade sobre o período traria à tona as penas sujas de sangue de órgãos como a Folha de São Paulo que ajudavam órgãos como o DOI-CODI e operação OBAN permitindo e cedendo seus veículos para transporte de agentes e de pessoas vítimas da violência deste estado de exceção.
Uma ordem que garante que mais de 11% dos mortos a tiros no Estado do Rio de Janeiro sejam mortos, nos números oficiais, pela polícia, e que nenhum destes mil casos por ano sejam sequer julgados. Que inúmeros Carandirus e Carajás sigam com os assassinos impunes. Quantos comandantes de polícia, quantos ilustres senadores e editorialistas de TV e jornais foram apoiadores senão cúmplices da ditadura? Este é o passado que pertence ao passado, ou mais uma garantia para o poder destes no presente?


O silêncio não inocente do PT e PSDB
Curiosamente os dois partidos mais influentes no país, os dois partidos dos principais candidatos à sucessão de 2010 não se pronunciaram sobre o assunto. O PT, envolvido até a medula com o processo de criação das novas diretrizes de Direitos Humanos através dos ministros Vannuchi Leme (Direitos Humanos) e Tarso Genro (Justiça) e agora envolvido também no recuo que fará Lula segue sem se pronunciar enquanto partido, preferem renegar a história dos que lutaram contra a ditadura para manter sua aliança com Paulo Maluf, Romeu Tuma entre outras ilustres figuras do regime militar.
O PSDB também calado, ainda tenta sustentar uma imagem do partido “esclarecido”, daqueles que lutaram contra a ditadura de forma “responsável”, e os principais expoentes desta imagem seriam FHC e o governador-candidat o Serra, ambos exilados durante o regime militar, mas também não se atrevem a mover um dedo que arrisque sua colaboração e apoio efetivo nos mesmos setores golpistas que ainda permeiam a política nacional tanto no campo governista como no oposicionista. Este cálculo eleitoral e de alianças dos dois principais partidos nacionais é a ponta do iceberg de como ambos, com ligeiras distinções como as posições de Vannuchi e Genro, sustentam a mesma ordem e tomam medidas idênticas para cercear o direito à verdade e memória. Tanto FHC quanto Lula promulgaram decretos tornando inacessíveis diversos documentos relativos à ditadura, sob o governo de ambos os assassinatos de sem-terra seguem impunes, sobre ambos a lei da bala foi aplicada pela polícia nos presídios, morros e favelas. Esta é a ordem, a “família brasileira” nos dizeres do editorial do Estadão. O silêncio dos repressores com as botas sobre os crânios dos oprimidos. Esta ordem precisa ser trazida abaixo, começando pela garantia do direito à memória e à verdade, com abertura de todos arquivos militares e diplomáticos do país, com a punição dos assassinos e seus apoiadores de ontem e hoje.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...