sábado, 10 de janeiro de 2009

Guerra da opinião

Enviado por Míriam Leitão e Leonardo Zanelli - 10.1.2009| 15h00m

A ministra das relações exteriores de Israel, Tzipi Livni, é líder do partido do governo, e candidata a premier. Uma bomba matou um líder do Hamas e suas quatro mulheres. Com qual lado o Ocidente tem mais chance de se identificar? Naturalmente, com o israelense. Mas o que a imprensa mundial tem trazido diariamente são reportagens em tom cada vez mais forte de condenação a Israel.

Uma atitude contemporânea em relação à mulher é apenas um dos vários trunfos de Israel na guerra da comunicação. A distância entre o respeito conquistado há anos pelas mulheres israelenses e uma cultura que ainda permite a poligamia é gigantesca. Livni não é um caso isolado num país que já teve Golda Meir no comando do governo nos anos 70, tem mulheres nas Forças Armadas e em qualquer espaço da vida política e econômica do país. As quatro mulheres do líder morto também não são um caso isolado do lado árabe, cujas leis ainda aceitam esse sistema medieval. A poligamia é uma forma radical de submissão da mulher, completamente fora do tempo, seja qual for a religião ou a cultura onde ocorra.

Israel vem dilapidando o patrimônio dos valores comuns. Tem explodido dia após dia todos os seus trunfos na guerra pela opinião pública: quando cerceia a imprensa, quando faz uma exibição arrogante e desproporcional de poder bélico, quando encurrala os palestinos, quando usa armas proibidas pela Convenção de Genebra, quando mata integrantes de um comboio humanitário, quando bombardeia escolas da ONU.

O ataque de Israel ocorre em momento estratégico: o governo Bush está no fim, o presidente eleito Barack Obama está de mãos atadas e Israel está às vésperas das eleições. Obama já assume diante do fato consumado e tendo que fazer melindrosos movimentos para tentar se diferenciar do governo anterior, sem revogar o que há de permanente na diplomacia americana. Assumirá numa saia justa: prometeu mudanças; que mudanças poderá fazer?

Já Israel vive mais uma antecipação das eleições, que deveriam ser só em 2010. E a disputa de novo é entre a direita do Likud, de Benjamin Netanyahu, e o Kadima, de centro. A guerra ajudaria o Kadima a superar denúncias de corrupção e ainda convencer eleitores atraídos pelo radicalismo do Likud. Mas quem tem crescido é o Partido Trabalhista, de Ehud Barack, ministro da Defesa, que dobrou o número de cadeiras que pode conquistar, reforçando seu papel de pivô em qualquer coalizão.

Seja pelo xadrez político israelense, seja pelo vácuo de poder nos Estados Unidos, o momento é estratégico para Israel, mas na economia é péssima hora. O país cresceu, durante cinco anos, a uma taxa de 5% ao ano. Estava num bom momento em 2006, no conflito com o Hezbollah, no Líbano. Agora, o Banco Central reduziu os juros e as previsões de crescimento de 2009 caíram de 4% para 1%, mas há previsões de recessão no país. O desemprego aumentou e pode aumentar ainda mais, porque fábricas, perto da fronteira, de produtos químicos, máquinas agrícolas e informática tiveram que obedecer às ordens governamentais de suspender o funcionamento. O déficit público é de 5% do PIB, a dívida pública de 64% do PIB e o governo gasta de US$ 25 milhões a US$ 50 milhões diariamente com a guerra. A crise financeira mundial pode minguar as remessas da comunidade judaica para o país, porque as empresas estão descapitalizadas, e os ganhos de capital, reduzidos.

O conflito Israel-Árabes é uma tragédia tão velha que se banalizou. Só atrai mais atenção quando há eventos extremos. No Oriente Médio ocorre o que as ciências sociais chamam de “conflito intratável”, uma polarização radicalizada, na qual há setores extremistas não dispostos à negociação, e quem se beneficie com o impasse, nos dois campos em conflito. Por isso o mundo vê, há décadas, acordos de paz desrespeitados, ondas de intensificação das hostilidades, vítimas inocentes de lado a lado, e a pulverização de grupos rivais entre os árabes. Parece óbvio que tanto Israel quanto um estado palestino têm o direito de existir, e ambos têm que se limitar às suas fronteiras. Mas a lógica e a sensatez não parecem frequentar aquela região do planeta.

O jogo diplomático é desequilibrado pelo peso do apoio incondicional dos EUA a Israel. Nada é aprovado no Conselho de Segurança da ONU que contrarie os interesses israelenses. Sem equilíbrio, não há uma força neutra capaz de constranger os dois lados.

Esse ataque teve o poder de capturar a atenção mundial pelas cenas diárias de barbárie que vão deixando Israel isolado. Mesmo a imprensa americana, que sempre foi pró-Israel, mostra irritação com a limitação do trabalho dos jornalistas e indignação diante de fatos como o quadro flagrado pela Cruz Vermelha: crianças definhando junto aos corpos de suas mães e soldados israelenses, a 100 metros, negando socorro a elas.

Israel tem inegável poder de fogo, mas está correndo muitos riscos. A crise econômica global pode piorar a conjuntura interna; a violência do ataque pode costurar alianças entre grupos árabes; as cenas diárias das crianças palestinas mortas são dolorosas demais e vão erodindo o apoio que Israel sempre teve.

FONTE: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=guerra-da-opiniao&cod_Post=152501&a=496

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