domingo, 23 de novembro de 2008

"CARLOS PRONZATO" - CINEASTA ARGENTINO INDEPENDENTE - (BAKUNIN DIGITAL) ENTREVISTA SOBRE "A REVOLTA DO BUZU"

Carlos Pronzato
A Revolta do Buzu

'digamos que a única câmera autorizada
a presenciar certos eventos e assembléias
foi a minha'

Leia a seguir entrevista com o diretor de A Revolta do Buzu, o argentino-baiano Carlos Pronzato. Coisa de Cinema agradece às respostas emocionadas desse diretor, cuja estética é a própria ética militante.

*

1. Quando você teve a idéia de filmar o documentário?
Foi logo no primeiro dia da revolta?
Eu estava naqueles dias acompanhando o surgimento do Movimento dos Sem Teto de Salvador [que acabo de retomar e finalizar ontem] e já tinha notícias dos primeiros levantamentos no Subúrbio. Como minha câmera quebrou, demorei um pouquinho para conseguir outra e entrar de fato no processo de filmagens. Eu entrei alguns dias depois na região do Colégio Manoel Devoto.

2. Como é que você se organizava para chegar até os estudantes? Quem eram suas fontes de informação?
Muitas vezes caminhando, ou os próprios estudantes me colocando nos ônibus, já que muitos deles me conhecem pelo documentário Maio Bahiano, sobre a repressão na Ufba em maio de 2001. Minhas fontes de informação eram os próprios estudantes via internet ou telefone. À noite não parava de tocar. Só que não tinha como me deslocar até certos locais. Só no final andei de moto com um amigo (Marco Ribeiro, que inclusive cedeu algumas imagens) mas já o Movimento estaba enfraquecido. É bom falar que também o Daniel Lisboa cedeu imagens para o vídeo, justamente daqueles dias que eu não cobri.

3. A polícia ou os estudantes dificultaram
de alguma forma o seu trabalho?
A polícia sempre dificulta mas a gente sabe como driblar. Quanto aos estudantes, só aqueles que não me conheciam - e em seguida eram informados de quem eu era, ofereciam todo tipo de ajuda (segurar o guarda-chuva nos dias de chuva, passar informações sobre presença de policiais ou P2, assistência constante, proteção da Camera, etc). O que inclusive me criou problemas com a imprensa, já que digamos que a única câmera autorizada a presenciar certos eventos e assembléias foi a minha. Muitos da imprensa não entendem o que possa ser alguém que dedica sua luta a mostrar os fatos (com um recorte próprio, claro) sem depender de um jefe de redação ou patrão. Repeti mil vezes: não sou jornalista, sou militante.

4. O que você achou da cobertura jornalística
do fato (tv e jornal, principalmente)?
A imprensa em geral promoveu a desmobilização urgente de um dos maiores mobilizações sociais jamais vista por aqui nos últimos tempos e que poderia ter desencadeado um final impredescivel se a população tivesse apoiado seriamente a revolta. (Vide Panelaço, Bolivia, Ecuador e a revolta indígena). A objetividade que deveria primar na cobertura do fato foi tão subjetiva quanto a minha (assumida já que eu milito de forma autônoma e independente em qualquer movimento de revolta contra injustiças sociais em qualquer lugar), só que de signos totalmente opostos. Por citar um fato uma equipe da TV Bahia, foi expulsa da Praça Municipal durante uma manifestação porque os estudantes descobriram que era a mesma equipe que no dia anterior tinha entrado repartindo socos nos estudantes e em mim que filmava numa delegacia um depoimento de uma estudante agredidada pór policiais. E não só por isso, foi o resultado de uma longa cadeia de abusos desinformativos.

5. Que opções estéticas você fez na filmagem? Por quê?
Acho que a resposta anterior é válida para responder esta pergunta.
'Minha estética é minha ética'.

6. Quanto custou fazer esse filme? É digital?
Custou o tempo que não tem preço de um filme independente e militante. O único recurso foi a edição do vídeo pelo Forum Gaúcho da Juventude da Cidade de Três de Maio [RS], onde fui ministrar uma palestra sobre 'A Imagem audiovisual para a transformação da Juventude'. Tudo a ver, ne?. Claro que o trabalho se sustém posteriormente pela venda das fitas no país e a divulgação constante pela 'pirataria' sempre bemvinda neste tipo de materiais. Foi feito numa digital 8.

7. Outro filme seu estará no Panorama. Você poderia falar um
pouquinho sobre ele?
Infelizmente Bolívia, a guerra do gás nao estará no Panorama porque não foi finalizada ainda a tradução ao português. Esse filme já foi lançado em Buenos Aires em janeiro e já circula na Bolívia sem lançamento oficial, aliás, o que aconteceu também com A Revolta do Buzu, superando já as cem fitas 'oficiais' na Bahia antes do lançamento (boa marca para um trabalho formiga longe dos grandes aparatos por opçao) e se aproximando disso no Sul do Pais.

8. Seria legal também saber um pouco sobre outros trabalhos
seus, os que você mais tem orgulho de ter feito...
Olha, acho que a Revolta realmente me deixou com o orgulho inflamado, nem tanto pelo resultado final do vídeo, que a gente intima mente sabe que neste tipo de trabalho feito sem um tostão, com muita adrenalina e corazón, não persegue resultados ditos estéticos e sim sócio-políticos, de transformação, de esclarecimento, o outro da lua em que a mídia nos balança diariamente. Sobretudo porque de alguma maneira coroa meu trabalho junto a galera e junto a muita gente que acredita que a transformação deste continente bem das massas ocupando as ruas, autoconscientes.... Então poderia citar tal vez O PANELAÇO, A REBELIAO ARGENTINA, um outro sobre a ALCA feito entre índios guarani e porque nao BOLIVIA, A GUERRA DO GÁS sobre o levantamento popular que tirou o presidente e o fez fugir para Miami, para onde mais?

*

Entrevista realizada em 19/03/04

http://www.coisadecinema.com.br/matEntrevistas.asp?mat=1696

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