domingo, 29 de novembro de 2009

DIVINA COMÉDIA - DANTE

PARAÍSO
CANTO XXXIII

S. Bernardo pede à Virgem Maria que conceda a Dante contemplar a Deus.
O Poeta vê um tríplice círculo no qual está revelada a Trindade divina.
No círculo médio vê figurada a efígie humana.
No espírito de Dante se forma o desejo de conhecer o modo da união da natureza divina com a humana.
Um repentino esplendor lhe revela o mistério da encarnação de Cristo; e aqui termina a sublime visão.

VIRGEM Mãe, por teu Filho procriada,
humilde e sup'rior à criatura,
por conselho eternal predestinada!

"Por ti se enobreceu tanto a natura
humana, que o Senhor não desdenhou-se
de se fazer de quem criou, feitura.

"No seio teu o amor aviventou-se,
e ao seu ardor, na paz eternidade,
o germe desta flor assim formou-se.

"Meridiana Luz da Caridade
és no céu! Viva fonte de esperança
na terra és para a fraca humanidade!

"Há tal grandeza em ti, há tal pujança,
que quer sem asas voe o seu anelo
quem graça aspira em ti sem confiança.

"Ao mísero, que roga ao teu desvelo
acode, e, às mais das vezes, por vontade
livre, te apraz sem súplica vale-lo.

"Em ti misericórdia, em ti piedade.
Em ti magnificência, em ti se aduna
na criatura o que haja de bondade,

"Este mortal, que da ínfima lacuna
do mundo até o empíreo, passo a passo,
Viu quanto a vida esp'ritual reúna,

"Te exora auxílio ao seu esfôrço escasso:
A mente sublunar lhe seja dado
a Suma Dita no celeste espaço.

"Eu que, no meu ardor, nunca aspirado
hei mais por mim o que em prol dele peço
meus rogos todos alço esperançado.

"Te digna conseguir que o véu espesso
da humanidade sua despareça,
e assim lhe seja o Sumo Bem concesso.

"Depois da alta visão dá que ainda eu peça
Que conserves, Rainha Onipotente,
Sempre pura sua alma e mal avessa.

"De perversas paixões guarda-o clemente:
Vê Beatriz e o céu inteiro unidos,
juntando as mãos ao voto meu fervente"!

Os olhos, quer por Deus são tão queridos
no santo orador fitos demonstraram
que eram seus ternos rogos atendidos.

Após ao Lume eterno se elevaram,
em que, se deve crer, de criatura
olhos, em modo tal, não profundavam.

E dos desejos eu, que à mor altura
suba, o ardor cessar, como devia,
senti, me apropinquando da ventura.

Bernardo, me cenando, me sorria,
que para cima olhasse; mas eu estava
já por mim mesmo tal qual me queria.

A vista, que em pureza sublimava,
do alto, que é por si tóda a Verdade,
mais e mais pelos raios penetrava.

E o que eu vi, desde então, na imensidade
transcorreu quanto o verbo humano intente:
Cede a memória a tanta majestade.

Qual o homem, que, a sonhar, vê claramente;
depois só guarda a sensação impressa,
e o mais em todo lhe não volta à mente;

tal eu; quase a visão inteira cessa.
Mas no meu coração quase destila
doçura que em seu êxtase começa.

Assim, ao sol a nave aniquila,
se dispersava o oráculo da Sibila.

Flama excelsa, que o humano pensamento
excedes tanto, oh! presta ao meu, piedosa,
um pouco do inefável luzimento.

E a língua minha faz tão poderosa,
que uma centelha só da tua Glória
aos pósteros transmita venturosa;

pois que, em parte, surgindo-me à memória
e sendo por meus versos celebrada,
melhor se entenderá tua vitória.

Da luz pela agudeza suportada,
eu me perdera creio, com certeza,
se da luz fora a vista desviada.

E, recordo-me, pois mor afoiteza
tomei, tanto, que face a face, olhando,
encarar pude na Infinita Alteza.

Tu, ó Graça abundante, me animando,
olhos fitar ousei na luz eterna,
a visão almejada consumando.

E lá na profundeza vi que se interna
unido pelo amor num só volume
o que pelo universo se esquaderna:

Acidente, substância e o seu costume,
conjuntos entre si por tal maneira,
que da verdade exprimo um frouxo lume.

Creio que a forma universal inteira
vi desse nó; por quanto mais ao largo
sinto, ao dizer, ledice verdadeira.

Um só instante à mente dá letargo
maior, que sec'los vinte e cinco à empresa
que admirar fez Netuno a sombra de Argo.

De êxtase assim, minha alma toda presa,
atenta, absorta, imóvel se imergia,
e sempre me contemplar mais 'stava acesa.

E essa Luz tal efeito produzia,
que em deixá-la por ver dif'rente aspecto
consentir impossível me seria:

Que o Bem da sua aspiração objeto,
todo está nela; é tudo lá perfeito,
como, fora de lá, tudo é defeito.

Meu dizer de ora avante mais estreito
será no que recordo que o do infante
ainda ao seio maternal afeito;

não porque presentasse outro semblante
a viva Luz, que a contemplar eu 'stava,
Antes, como depois, sempre constante;

mas, como, olhando, a vista se alentava,
a Imutável Essência parecia
mudar, quando só eu me transformava.

Na substância profunda e clara eu via
da excelsa Luz três circ'los discernidos
por cores três, de igual periferia.

Iris de íris, um de outro refletidos
estavam, flama o tércio parecia
'spirando, por igual, de um, de outro unidos.

Quanto é curta a expressão! Quanto a excedia
meu pensar, ao que eu vi, este já sendo
tal, que pouco bastante não diria.

Lume eterno, que a sede em ti só tendo,
só te entender, de ti sendo entendido,
e te amas e sorris só te entendendo!

O girar, que, dessa arte concebido
via em ti flama refletida,
quanto foi dos meus olhos abrangido,

no seio seu da própria cor tingida
a própria efígie humana oferecia:
Foi nela a vista minha submergida!

Geômetra, que o espírito crucia
para o circ'lo medir, em vão procura
princípio, que ao seu fim mais conviria:

Assim eu, ante a nova visão pura,
ver anelara como a image' humana
ao circulo se adapta e ali perdura.
Às asas minhas fora empresa insana,
se clareada a mente não me houvesse
fulgor, que a posse da verdade aplana.
À fantasia aqui valor fenece;
mas a vontade minha a idéias belas.
Qual roda, que ao motor pronta obedece,

volvia o Amor, que move sol e estrelas.


http://www.clubedapoesia.com.br/mestres/mesdante.htm

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