quinta-feira, 16 de julho de 2009

Com quem está a polícia? - Marcelo Salles

Com quem está a polícia?
Por Marcelo Salles, 15.07.2009

Depois das reportagens veiculadas pelo RJTV (aqui) e pelo portal G1 (aqui), da Globo, a assessoria de imprensa da PM solicitou reunião com MC Leonardo, presidente da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk). O encontro aconteceu no QG da polícia, no centro do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (15/7) – o vice-presidente da Apafunk, Mano Teko, também compareceu.

O major Oderlei, relações públicas da PM, disse que houve um mal entendido, que ”a imprensa interpretou de forma extrema” suas declarações e que “a PM não proíbe o baile, apóia todas as manifestações culturais que sejam legítimas e saudáveis para a sociedade”. Contudo, completou, “para que certos eventos aconteçam há que se cumprir determinadas regras”.

A conversa correu de forma amistosa. O que não impediu que MC Leonardo fosse direto ao ponto: “Não vou ficar implorando por um direito”, disse o presidente da Apafunk. A consideração foi feita quando o oficial pediu que antes da Roda de Funk no Dona Marta ele pedisse autorização ao comandante do batalhão da região. Amigos, amigos, negócios à parte. No caso, manifestação política à parte.

Cá entre nós: é preciso ter peito pra chegar no Quartel General da PM e mandar essa.

A postura da Apafunk foi firme e decidida. E corajosa, porque a Roda no Dona Marta fora proibida há quinze dias pelo comando do batalhão local. Houve até ameça de repressão com tropa de choque, feita pelo comandante. No entanto, é preciso lembrar que a Polícia Militar é um órgão vinculado ao governo estadual, que funciona com o dinheiro pago por todos os cidadãos fluminenses. Portanto, seu objetivo é contribuir com a segurança desses cidadãos. E aproveitando a pesquisa recém-divulgada pelo IPEA, vale ressaltar que os mais pobres pagam mais impostos que os mais ricos (44,5% contra 23%, íntegra aqui). Ou seja, até por uma lógica mercantilista (que não é o caso) a polícia deveria ter mais atenção ao entrar numa favela.

A propósito, na noite desta quarta-feira moradores do Morro dos Macacos protestaram contra a violência policial e afirmaram que nenhuma das mortes causadas pela polícia ocorreram em confronto. Até o RJTV deu, apesar de ter sido uma notinha de ridículos 22 segundos, com o devido cuidado para não mostrar as faixas e nem entrevistar ninguém que pudesse constranger o governador – veja a íntegra aqui).

No próximo domingo vamos observar o comportamento da polícia. Os “homens da lei” garantirão o direito de manifestação política previsto na Constituição ou reprimirão os participantes da Roda de Funk?

Com quem está a violência? (publicado em 14 de julho de 2009)

O que torna uma sociedade mais segura não é sua polícia, é a capacidade que a sociedade tem de garantir uma cultura de direitos
- Marcelo Freixo, deputado estadual (PSOL-RJ) e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj

Na sexta-feira, 10 de julho, um cabo do Bope foi assassinado por bandidos, na Tijuca. Devemos lamentar o ocorrido, sem dúvida. O policial estava cumprindo seu dever; ele tentou surpreender dois assaltantes que rendiam uma motorista, mas foi morto por um terceiro que estava fora de seu campo de visão.

Pra quem acha que todo bandido escolhe a “profissão” por livre e espontânea vontade, fica difícil, quase impossível, entender o que o Marcelo Freixo quis dizer. No caso do assalto acima citado, de imediato se poderia dizer que só a polícia poderia evitar o crime. No entanto, será que um cidadão se arriscaria caso pudesse sustentar sua família, com dignidade, uma vez empregado?

“Se a segurança depende da polícia é porque já tem equívocos anteriores”, continua Marcelo Freixo. Já está provado que a pobreza não gera violência. Desigualdade social gera violência. Ainda mais quando a mídia joga a favor desse apartheide. O fotojornalista italiano Oliviero Toscani dizia: “A publicidade gera delinquencia”. Claro, se você estimula e até fabrica desejos sobre um determinado objeto, e essa mensagem vai chegar a quem pode e a quem não pode ir até a loja comprar o produto. Queria o quê? Nem todo mundo tem vocação pra passar a vida no muro das lamentações.

Outra questão importante: nos dias seguintes ao assassinato do cabo do Bope, a polícia desencadeou uma onda de terror na cidade. Cerca de dez pessoas foram mortas, nem todas bandidas. No Morro dos Macacos, por exemplo. Uma fonte que lá esteve contou que foram cinco mortos e não três, como publicado pelas corporações de mídia. E desses cinco, dois não tinha nada a ver. Morreram porque são pobres. Será que vai haver perícia? Será que a mídia grande vai se indignar? Será que vai haver comoção nacional?

Não, nada disso. Em lugar de uma investigação séria e honesta, um julgamento sumário: a culpa é do funk. Toda a mídia corporativa associou a recente escalada da violência com a realização de bailes funk. Assim, diziam generalidades como “os policiais foram recebidos a tiros por traficantes que estavam em bailes funk”, uma repetição vulgar da versão policial. No Morro dos Macacos, minha fonte garante que isso é mentira, que era uma festa junina e não o temido baile.

E mesmo que a refrega tivesse ocorrido num baile funk, a culpa vai ser do gênero musical? O delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone, analista crítico do atual modelo de segurança, brincou: “Se você pegar os registros de ocorrência nas proximidades do Maracanã em dia de jogo, vai ver que também aumenta. E aí, a solução é fechar o Maracanã?” Orlando, que é mestre em criminologia crítica, acrescenta que a proibição não é sobre qualquer funk, mas àquele localizado na favela porque este é “o local que precisa ser controlado”.

Ao fim e ao cabo, o que se percebe é uma inversão completa: a polícia, que deveria contribuir com a garantia dos direitos (inclusive a segurança pública), termina por provocar a violência. E as outras instituições da sociedade, públicas e privadas, em vez de buscarem a resolução do problema em sua raíz, clamam por mais violência. Sobretudo a mídia vampira.

PS: Leia aqui a reportagem “Funk Carioca – o batidão entre a repressão e a resistência“, publicada na edição de julho de 2009 da revista Caros Amigos.
http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=128&iditens=217

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